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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

O LAGO NO LARGO DOS LOIOS

Quem diria que já existiu um pequeno lago no Largo dos Loios? Pois foi o que descobri lendo respostas a uma pergunta colocada na 3.ª série da revista O Tripeiro, n.º 7 (127) de 1 de Abril de 1926:

 

«Existiu, na verdade, há muitos anos, mas por pouco tempo, um pequeno lago no meio do Largo dos Lóios. Era circular, quase com o dobro do diâmetro do refúgio que, a circundar a base do poste da iluminação eléctrica, que hoje lá se encontra, e apenas tinha a resguardá-lo, sem qualquer relvado, uma grade igual à que cerca o lago do jardim da Cordoaria.

Da parte de cima, o rebordo do lago ficava ao nível do pavimento, mas, do lado oposto, como o largo forma declive, tinha uma altura tão grande e de tão péssimo efeito, que principiaram a chamar-lhe o Alguidar dos Lóios, e certo é que... com a mesma rapidez que foi feito, assim foi desfeito.
Suponho que não deixou saudades a ninguém!»

largoloios.jpg

 O largo dos Loios na atualidade (imagem wikimedia)

 

Num outro registo, no número anterior a este surge:

«(...) Diziam que era utilizado pelos moradores para demolhar o bacalhau das sextas-feiras. Outros aventavam ser bacia para lavar os pés dos vereadores que perto moravam (...).
Não era lago, era um lagozinho, inferior em diâmetro a um dos actuais refúgios da Praça da Liberdade (..)»

 

Enfim, parece ter sido uma obra de embelezamento de vida efémera, que realmente não terá deixado saudades a ninguém...

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Post originalmente publicado em 24/OUT/2009 no blogspot.

DE MAGNETUM A PORTUCALE - UMA CURIOSIDADE COM 1500 ANOS

Já em outra altura que referi que, em minha opinião, a atual cidade do Porto nasce verdadeiramente no século XII com a vinda de D. Hugo para bispo dela cerca de 1114. Contudo existe obviamente uma história para trás desta história, pelo menos 700 anos anterior, quando do império romano em desegragação se foram os vários núcleos locais auto-organizando; não substimando é claro a presença pelas nossas bandas dos Suevos e depois dos Visigodos. Creio não andarei muito longe da verdade se disser que foi a igreja que acabou por, em parte, preencher o papel do antigo império durante o periodo conhecido pelos historiadores como a alta idade média.

 

Ora se todas as paróquias e bispados tiveram o seu início, no território que se veio a conhecer como Portucale o caso não foi diferente. Derrotados que foram os Suevos, pacificada a zona com a presença visigótica, foi tempo de surgir a divisão paroquial, fortemente impulsionada por S. Martinho de Dume. Mas desenganem-se os portuenses de agora... o bispado de Portucale com sede no morro da Penaventosa não foi logo criada. Durante um breve periodo de tempo a sede de bispado localizou-se numa paroquia rural que deva pelo nome de Magnetum. Com efeito, nas atas do 2º concílio de Braga verifica-se que nele esteve presente Viator Magnetensis Ecclesiae Episcopus. Não durou ainda assim muito tempo nesta casa: cerca do ano 580 seria transferido o bispado para Portucale para não mais daqui sair, mesmo que na conturbada época da reconquista muitos dos seus bispos estivessem ausentes e parassem por outras localidades bem mais a norte...

 

2Meinedo.jpg

 A atual igreja de Meinedo antes da DGMEN lhe deitar a mão... Por baixo dos alicerces deste edifício do século XIII foram descobertos os alicerces da igreja suevo-visigótica existente ao tempo do 2º Concílio de Braga

 

Tivesse o bispado nunca saído de Meinedo e talvez o Porto não viesse a existir, pelo menos com tal desenvoltura? Ou a existência do seu bom porto de mar faria fatal como o destino o desenvolvimento de uma cidade mais ou menos parecida com os moldes atuais? Para nada serve esta reflexão senão para tentar comunicar, a si caro leitor, que as coisas quer na vida de uma pessoa quer na vida de uma cidade podem desenvolver-se de forma bem diferente após uma simples tomada de direção.

 

Quanto a Meinedo, continuou sendo uma pacata paróquia rural, hoje incorporada no concelho de Lousada e que (espanto!) ainda é bispado; pois desde 1969 que constitui uma Sé Titular, isto é, uma Sé que apenas existe no título! Presentemente possui este título o arcebispo Léon Kadenga Badinkebele, núncio apostólico para o Belize e El Salvador (ver aqui).

 

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para saber mais: http://www.rotadoromanico.com

A DESCRIÇÃO DO PORTO NA CRÓNICA DE FR. MANUEL DA ESPERANÇA

Frade franciscano, «leitor jubilado na santa teologia, & examinador nas três Ordens militares», Frei Manuel da Esperança nasceu no Porto em meados do século XVI, tendo falecido em Lisboa em 1670. Foi o responsável pela notável crónica da sua Ordem intitulada História seráfica da Ordem dos Frandes Menores da província de Portugal, com o primeiro tomo publicado em 1656.

Nesta postagem recupero parte da sua saborosa descrição da cidade do Porto, com a ressalva que ela não é fidedigna, sobretudo quando se reporta a factos bastante recuados. Na verdade, algumas estórias lendárias circulavam por aquela altura com maior ou menor grau de desvio da realidade; algumas simplesmente estapafúrdias sobretudo quando o assunto era a fundação e os primeiros séculos da cidade. É precisamente essa ausência de realismo que me fez abster de transcrever o primeiro capítulo de descrição da cidade, que quase mais nada faz do que atribuir a sua fundação nada mais nada menos do que aos refugiados da guerra de Tróia, segundo a hipótese que o autor considera mais verosímel(!!).

Teria sido no «castelo da outra banda do Douro» que a cidade havia sido fundada; pois que estando «este nosso castelo na cabeça de hum monte, vestido de arvoredos» ficava o dito seguro e longe das inundações do rio. Mas, não satisfeitos alguns moradores com este lugar «e desejando alguns gozar mais de perto dos interesses do Douro» vieram ocupar «a ribeira, onde agora nos apparece a villa, que tem o nome de Gaia». Será que o autor se refere à zona do Senhor da Boa Passagem, no sopé do monte do castelo? Assim parece depreender-se pela referência ao lugar como sendo «fragoso, e pouco acommodado às suas embarcações» e por isso mesmo, «tornarão a passar o rio para a banda do Norte ... e fizerão seu assento logo na praia fronteira, que chamamos Miragaia, por ser melhor o seu porto, sem então se chegarem mais â barra» O autor pretende assim contrariar quem dizia que a cidade havia sido fundada justamente em Miragaia, ocupado o resto do capítulo discorrendo sobre a origem do vocábulo Cale e Portus-Cale... Fr. Manuel da Esperança era pois da opinião que a cidade do Porto nascera em Miragaia, «hũa colonia nova» dos primitivos habitantes do «castello de Cale [que] era no monte de Gaia». Só depois «mudou de sittio pera maior segurança, escolhendo por assento a cabeça de hum monte, o qual não distava muito»: o morro da Penaventosa!

 

Na integra, transcrevo abaixo o outro capítulo dedicado incialmente à descrição da cidade, com alguns comentários no final de cada número.

 

»«

Das qualidades, & sítio desta cidade do Porto

1. Quando ela [a cidade] quis pregar, pera que não desandasse, a roda da incostante Fortuna, que de presente a ïa engrandecendo, subio dos baixos de Miragaia pera o alto de hum monte, como jà temos escrito, onde ficava senhora da terra, & mais do rio.(1) He o monte por partes despenhado, mas alegre, & muito accõmodado à defensão d'hũa praça. Ainda hoje ostenta sobre a sua cabeça hũa coroa de muros, cerca da cidade velha, abertos por quatro portas com tribunas, & altares, onde se offerece a Deos no sacrifício da missa a immaculada hostia. Em hum delles estâ a veneravel imagem da Senhora de Vandoma, a qual ahi collocou D. Onego Bispo, ou natural da cidade deste nome em França, por memoria do favor particular, & visível que ella lhe tinha feito, e a os outros Francezes, quando por esta porta entrarão, & lançaram fora della os Mouros. Na mesma occasião foi achada num Sylvado outra imagem desta senhora puríssima, que ficara do tempo dos Christãos, a qual se chama da Silva, & na Sè, onde està, a venerão os fieis por imagem milagrosa.

1. Como vimos atrás o autor dá a cidade como tendo sido primeiramente estabelecida em Miragaia, após a passagem dos "colonos" da margem sul para a margem norte.

 baldi.jpg

 

2. Tomando depois co a idade mais forças, desceo a o vale, & subiu por outro monte com tanta conformidade da natureza, & arte, que tudo junto parece hum jardim de edificios, hũa cidade de arvores. Desceo tambem a

 

SOBRE A VIELA DA NETA

Desde há alguns anos para cá, conforme vou procurando conhecer as transformações urbanísticas do centro histórico do Porto, tenho para mim que apesar de sempre se referir a época dos Almadas como de grandes transformações na cidade, isto é mais verdade no que toca à expansão (veja-se o caso do bairro dos laranjais). Contudo, quase cem anos depois dessas transformações, outras existiram tão ou mais importantes do que essas, que prepararam a cidade para o futuro, mas muito à custa de arruamentos que vinham já desde o séc. XIV/XV, pelo que essas novas ruas obliteraram para sempre da paisagem portuense outras bem antigas. E por isto normalmente refiro que existiu um Porto A.P.B. e um Porto D.P.B.: ou seja um Porto Antes de Pinto Bessa e outro Depois de Pinto Bessa; porque foi na verdade durante os mandatos na presidência deste dirigente que a cidade viu transformações enormes, as quais creio que só quem as viveu poderia avaliar completamente.

 

Uma delas foi a completa urbanização da área que compreendia a antiga Viela da Neta, onde hoje temos uma boa parte da rua Sá da Bandeira. Esta viela do qual subsiste uma vintena de metros, acima do edifício onde esteve a Casa Forte; era no século XIX um local imundo e sórdido da cidade não obstante ai ter vivido - e falecido em 1863 - José da Silva Passos (que presidiu à Câmara por curtos periodos de tempo em 1834 e 1846). O projeto do novo arruamento foi aprovado em Câmara em 26 de julho de 1866, o que se reflete na pequena "notícia" que vão ler mais abaixo.

planta.jpg

A imagem acima é um pormenor da planta de aprovação da continuação da rua Sá da Bandeira de 1866: 1 - Viela da Neta; 2 - Teatro Baquet; 3 - Teatro Circo, depois Teatro Sá da Bandeira; 4 - Cruzamento da rua do Bonjardim com a rua Sá da Bandeira, agora Rua Sampaio Bruno, vendo-se assinalada à direita a fonte do Bonjardim. (imagem do Aquivo Histórico do Porto)

 

No jornal A Actualidade de 29 de Março de 1874 colhi esta curiosa lembrança que os redatores do jornal fazem à Câmara:

«Chamamos a attenção dos dignissimos vereadores para um padrão de desleixo e de immoralidade e um receptaculo de immundice que ahi se ostenta no centro da cidade sob a denominação de Viella da Neta. Aquelle caminho é hoje transitado por grande parte dos frequentadores dos theatros Baquet e Circo [Sá da Bandeira], além de ser um ponto de transito communicativo, quasi forçado, entre as ruas Sá da Bandeira [Sampaio Bruno], Bomjardim, Formoza, etc. O cheiro pestilencial, que ali reina de ordinario, só pode ser apreciado pelas victimas. Os quadros de desmoralisação que ali se observam são indescriptiveis. Custa além d’isso a comprehender o como não temos a registrar, além d’estes factos, algum assalto nocturno aos transeuntes. Sabemos que vae em dez annos que a camara municipal do Porto tem em seu poder os documentos precizos para dar principio á abertura de uma rua que substitúa aquella especie de azinhaga infernal.

Sabemos, mais, que um proprietario d’esta cidade offereceu á camara metade do terreno precizo para a realização das ditas obras, além de uma somma importante destinada á sua coadjuvação. Crêmos que só ao esquecimento póde ser attribuido o estado vergonhozo em que se acha o alludido local; outros lançarão o facto á conta de culpavel desleixo. E’ pois em interesse da propria camara que hoje formulâmos estas reflexões; involvem ellas uma reclamação. Esperamos que seja attendida.»

neta.jpg

Neste pormenor de uma imagem também ela do Arquivo Histórico do Porto pode ver-se: 1 - Traseiras das casas da rua de Santa Catarina com os seus quintais; 2 - local da Viela da Neta (que não se vê); 3 - Rua Sampaio Bruno (ao tempo Rua do Sá da Bandeira); 4 e 5 - Praça de D. Pedro e rua de Santo António (Praça da Liberdade e rua 31 de Janeiro). Atrás do telhado da igreja dos Congregados está o que julgo ser o telhado do teatro Baquet no lado que deitava para a viela em estudo.

 

Acredito que a Câmara por aquela altura estivesse a dar prioridade a outros arruamentos, só depois se preocupando com este. Na verdade acabara de ser construida a rua Nova da Alfândega e a rua Nova de S. Domingos (Sousa Viterbo); em Abril de 1874 teria inicio a expropriação em redor da rua da Biquinha para construção da rua Mouzinho da Silveira e já se falava no alargamento das Cangostas (parte baixa da Mouzinho da Silveira) que já estava parciamente demolida graças à construção da rua Nova de S. Domingos. Isto só para falarmos dos milhares de reis de empréstimos que a Câmara contraíra para estas ruas e excluindo outras que se iam abrindo e continuando fora do centro histórico... A rua Sá da Bandeira, no seu troço novo, era importante sim. Mas com as ruas mais próximas à nova Alfândega a serem urgentes para escoamento do trânsito que todos os dias fazia um vai e vem constante entre ela e as Barreiras da cidade e que exigia arruamentos largos e modernos, talvez se pudesse prolongar mais um pouquechinho no tempo aquele remanescente de uma época pré-industrial ali às portas da cidade antiga.

APRESENTAÇÃO

Caros Leitores,

 

Esta é a nova casa d' A Porta Nobre, blogue que iniciei em 30 de Setembro de 2009 aqui.

Acompanhando a colocação de novas postagens, irei ao longo dos tempos trasladar as que se encontram no seu alojamento inicial que mereçam ser realojadas pelo que a sua casa antiga demorará um tempo a desaparecer...

Espero poder contar com a vossa visita assídua bem como ir recebendo o vosso feedback sobre eventuais incorreções que possam surgir, numa procura contínua de fidelidade à verdade histórica.

 

Um abraço para todos vós!

Nuno Viriato Cruz

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