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COMO NASCEU A CAPELA DO REI CARLOS ALBERTO

por Nuno Cruz, em 13.02.18

Para a história desta capela, concorrem dois interessantes comunicados que surgiram  no jornal O Comércio (primeiro nome d'O Comércio do Porto). Muitos destes comunicados eram acusações e contra acusações, pessoais ou não, sobre um determinado tema, facto ou ação quer individual quer colectiva... Mas entremos no assunto, que é longo mas apaixonante!

 

O primeiro comunicado saiu a 11 de Setembro de 1854 e não ia assinado:


«A importância da cidade do Porto é toda comercial e a cidade mesmo em si, não encerra monumentos grandiosos, fontes elegantes ou estátuas que imprimem um cunho de grandeza a um centro de população e fazem admirar a estrangeiros.
Está-se contruíndo agora no Largo da Torre da Marca, uma capela em memória do herói italiano, o rei Carlos Alberto, mandada fazer pela princesa, sua parente, que há pouco aqui esteve. Consta-nos que quando ela tratou mandar construir a capela, chamara vários arquitetos para lhe darem planos mas parece que afinal dera um esboço da obra, ao mestre pedreiro, encarregado da fiscalização dela, o arquiteto sr. Pedro d'Oliveira.
Custa-nos a crer que se deixe um mestre pedreiro presidir aquela edificação, sem plano algum regular e conveniente; por isso lá vemos nas traseiras da capela que nos dizem gótica, duas janelas de feitio das de qualquer casebre moderno! As paredes laterais em lugar de pedra lavrada vão ser rebocadas exteriormente com cal, o que denota pobreza e mau gosto.
Pedimos por tanto à Ex. Câmara, como zeladora do aformoseamento da cidade, que dê a este negócio a devida atenção, se não quiser ver no largo da Torre de Marca um edifício sem beleza regular, nem harmonia, em fim um outro drop, mas de pedra.
Não somos mestre pedreiro, e pouco nos importa que quem justou a obra, ganhe muito ou pouco, falamos porque hoje em dia é preciso falar e porque estamos cansados de ver obras tristes e azangadas.»

 

CapCarlAlb.jpg

A capela de Carlos Alberto abraçada pela vegetação dos jardins do Palácio de Cristal. Notar que aquando da sua construção toda a envolvente era um enorme descampado, conforme se vê numa imagem mais abaixo. A vegetação ajuda por ventura a disfarçar os aspetos menos elegantes daquele monumento (foto do autor).

 

Esta estória não acabou aqui. Uns dias depois o arquiteto Pedro d'Oliveira respondeu no mesmo jornal, num longo artigo que ilustra muito bem o modo como esta capela foi idealizada e construida, através de um longo comunicado que o jornal publicou na integra ocupando quase uma página completa (numa altura em que os jornais tinham geralmente quatro). Apesar da extensão do mesmo, penso que terá interesse histórico para nos apercebermos como aquele singelo monumento foi erguido, há mais de 160 anos atrás.

 

«29 de Setembro de 1854
Srs. Redatores,
Um comunicado que VV. transcreveram no seu periódico de 14 do corrente, relativo à capela que se está construindo no largo da Torre da Marca, em memória do rei Carlos Alberto e no qual figura o meu nome, me obriga a dar algumas explicações, a fim de repelir de mim toda a responsabilidade pela sua arquitetura o gosto adotado para as quatro faces da capela tanto exterior como interiormente. Principiarei narrando o que comigo se passou a tal respeito.

Logo que chegou a esta cidade a princesa, parente do rei Carlos Alberto, fui convidado para comparecer em casa de sua alteza a fim de ser ouvido e consultado relativamente à construção de uma capela, que em memória ao mesmo rei ela pretendia mandar fazer, e sendo apresentado pela mesma pessoa que em nome de S.A. me tinha convidado, tive a honra e satisfação de falar com a princesa e de ouvi-la a tal respeito. Nesta ocasião mostrou-me S.A. um risco, que tinha sido feito em Lisboa, porém não o achando a seu gosto convidou-me a que eu fizesse um novo risco, dando-me para isso todas as instruções que julgou precisas, e todas aquelas que lhe exigi.

Passados alguns dias e quando me achava tratando dos riscos da capela, recebi de sua alteza uma pasta com uns riscos feitos a lápis por S.A. acompanhados de uma carta da pessoa que me havia apresentado, na qual se me pedia o orçamento da despesa da Capela, cujas dimensões eram as mesmas da que se está construindo, segundo os riscos que se me enviaram. Posto que os mesmos nada mais fossem do que uma ideia geral da frente da capela - planta baixa, secção transversal e longitudinal, ou por outra uns esboços, nem por isso deixei de satisfazer ao que se pedia, remediando as omissões, ou falta dos ditos riscos, segundo melhor me pareceu e julguei conveniente, tendo em vista que os lados exteriores da capela, e frente da trazeira ou costas da mesma, deviam estar em harmonia com a frente principal indicada no risco, pois que para os outros três lados não havia risco algum. Neste sentido orcei toda a obra da capela, exceto a da tribuna, que talvez tivesse de ser de mármore, e remeti a sua alteza o orçamento.

 

cap01.jpg

Se a fachada (1) da capela anda mostra alguma beleza e harmonia, o mesmo não se pode dizer das suas traseiras (2), feita toda ela ao sabor do gosto do mestre pedreiro (fotos do autor).


Quatro dias depois disto compareci em casa de sua alteza com o projecto da capela riscado por mim na melhor forma, que entendi, e segundo as instruções que de sua alteza tinha recebido, apresentando planta da frente principal, planta das costas da capela, e lado, planta baixa e secção transversal e longitudinal da mesma. Nessa ocasião estava também presente o vice-cônsul da Sardenha o illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa, o qual viu que a sua alteza não desagradou o meu projeto, e que, somente observou as maiores dimensões que ele tinha em relação ao que ela pretendia, no que respondi, - que tinha riscado a capela como entendi, porém que se alguma coisa não agradava a sua alteza, que se lhe fariam as alterações que quisesse, e que quanto às maiores dimensões era isso fácil de remediar, reduzindo o projecto ao tamanho que se quisesse, no que S.A. concordou.

Apesar do risco da frente da capela, que eu tinha riscado, não ser um trabalho perfeito e definitivo, contudo juntou-se ao requerimento, em que S.A. pedia licença à câmara municipal para a construção da capela no largo da Torre da Marca, sendo o illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa encarregado de o apresentar à câmara para ser aprovado e ver o que a câmara decidia a tal respeito, o que me consta logo fizera pois que neste mesmo dia era o da sessão ordinária da câmara. Combinou-se por fim que S.A. iria, um dia ao local da Torre da Marca para ver se preferia o terreno público para a edificação da capela, ou o terreno particular que por certa pessoa lhe fora oferecido para o mesmo fim; dizendo sua alteza que eu seria avisado para comparecer, quando fosse designado o dia. Nesta inteligência, e tendo concluído o fim a que fui a casa de S.A, retirei-me, esperando o aviso do dia em que havia de comparecer.

É certo que nunca recebi tal aviso, mas também é certo que alguns dias depois desta última entrevista com sua alteza - foi a câmara municipal com S.A. em vistoria ao local indicado, acompanhada, segundo me consta, de S. exc.ª  o Sr. Barão de Valado, governador civil, cônsul francês e outras pessoas, e por essa ocasião designaram para a colocação da capela o terreno em que a mesma se está construindo, também é certo que depois da minha última entrevista com sua alteza, em que se passou o que referi, foi convidado o meu amigo e colega o sr. Joaquim da Costa Lima Júnior, para falar com sua alteza e fazer um plano da capela projetada. Sei que ele tratou disso e apresentou a sua alteza o que julgou conveniente e acertado, porem quando justamente se tratava de resolver sobre o definitivo plano da obra ou de discutir o plana do sr. Costa Lima foi contratada a obra da capela pelo mestre pedreiro Lopes, que a anda construindo pela quantia que, de certo, e a estas horas o público não ignorará sobre as condições que se apresentaram e assinaram de parte a parte.

Em vista, pois, do que se passou, depois da minha última entrevista com sua alteza, e não se me tendo dito mais coisa alguma a tal respeito, pelo que me constava, fiquei na persuasão,de que a capela, que fora logo principiada, era construída segundo o risco apresentado pelo Sr. Costa Lima,e nesta ideia vivi por bastantes dias, e até às vésperas da saída de sua alteza para a Foz para embarcar no primeiro paquete, quando então certo de que mais não se incomodariam comigo para tal fim, recebi um recado para ir de novo falar com sua alteza, o que apesar de todos os pesares, não deixei de fazer. Disse-me então sua alteza que pretendia que eu lhe fizesse um orçamento de certas obras da capela, que não tinham entrado no contracto feito com o mestre Lopes; como eram a tribuna, o passeio de pedra que deve circuitar a capela, e outras mais; - ao que me prontifiquei, pedindo me fosse dada uma relação por escrito dessas obras, o que sua alteza fez, satisfazendo eu pela minha parte como me foi pedido. Depois de largamente conversarmos a respeito da capela, disse-me sua alteza se eu teria dúvida em aceitar a fiscalização da obra da capela pela sua parte, e surpreendendo-me tal proposta, observei a sua alteza que nenhuma dúvida teria, mas que era melhor encarregar disso o sr. Costa Lima, visto ser ele o autor do plano, que se estava seguindo. S.A respondeu-me que o plano não era o dele, e que se eu não tinha dúvida em aceitar a proposta, no dia em que eu fosse entregar o orçamento que me pedia das obras, me falaria a tal respeito definitivamente. Justamente no dia em que sua alteza foi para a Foz, esperando ai embarcar no próximo paquete, fui entregar o orçamento pedido, e então me perguntou sua alteza definitivamente se eu estaria concorde em aceitar a fiscalização da obra da capela pela sua parte; respondi que aceitava a proposta, mas que era conveniente que sua alteza por escrito me indicasse quais as obrigações que eu tinha a cumprir e me pusesse ao facto do contracto da obra, para poder conhecer até onde a mesma obra satisfazia ou apresentava vício ou defeito, sendo aquele o documento com o qual eu devia apresentar-me ao mestre pedreira, exigindo dele o cumprimento do que tratara.

S.A. disse que eu me devia entender com o cônsul francês, a quem informaria de tudo, sabendo ele já que eu ficava encarregado de fiscalizar a obra, e que independentemente do papel que eu exigia e que me iria mandar, diria ao mestre pedreiro o mesmo que tinha dito ao sr. cônsul francês. Ora, sem querer saber se S.A. disse ou não a tal respeito alguma coisa aos indivíduos referidos (que me parece e consta que dissera), o que é certo é, que esse documento que eu exigi não o recebi. Pelo criado de S.A., que viera a minha casa entregar um livro de sua parte, lhe mandei eu dizer que estava esperando pelo documento que ficara de me mandar.

 

1carlpan.jpg

Neste pormenor de uma vista da cidade vê-se a capela (1) praticamente isolada no descampado a que se dava o nome de largo da Torre da Marca, onde durante séculos existira aquela baliza para a navegação. Os terrenos foram depois incorporados nos jardins do Palácio de Cristal (assinalado com o n.º 2) e são atualmente tudo o que resta do binómio Palácio+Jardins. Com o n.º 3 assinalei o mais longínquo planalto da Arrábida, que só mais tarde viria a ser urbanizado...

 

S.A. embarcou e o papel que eu exigi não apareceu; por tanto entendi que não devia ir fiscalizar a obra da capela sem um documento passado pela devida pessoa que me autorizasse a fiscalização.

Nestas circunstâncias foi correndo a obra, até que há pouco mais de um mês recebi um recado para que me dirigisse ao sr. cônsul francês, que tendo recebido instruções de S.A. a respeito da obra, nas mesmas se mencionava o meu nome como encarregado por S.A. da fiscalização, e que ela exigia que, procedendo o sr. cônsul a uma visita à obra na minha companhia, ela fosse informada circinstanciadamente do andamento e estado da obra, na persuasão de que eu, apesar da falta de autorização por escrito para fiscalizar a obra, ainda assim a fiscalizara. Por esta ocasião expus à pessoa que se dignou dirigir-me o recado o que comigo e S.A. se tinha passado nos últimos dias da sua estada aqui. Apesar de tudo, disse-me essa pessoa, que ainda assim S.A. estava certa, segundo o conteúdo das cartas que tinham vindo, de que eu fiscalizava a obra, e que por isso apesar de não ter ido à mesma obra, fosse falar com o sr. cônsul francês para se combinar no dia da visita. Assim o fiz, e por esta ocasião expus ao sr. cônsul as razões referidas, que me tinham impedido de fiscalizar a obra por parte de S.A., ao que S. S.ª respondeu que embora assim sucedesse devíamos fazer-lhe uma visita para informar S.A. do estado da obra da capela, na forma de sua exigência, ao que prontamente anuí. Marcamos o dia da visita para uma sexta-feira às 6 horas da tarde, e nesse dia ai fomos, indo também o illmo. sr. padre Peixoto, convidado pelo sr. cônsul, e o mestre pedreiro. Foi então que vi o verdadeiro estado e andamento da obra e o plano que servia de regulamento para a mesma que é, sem dúvida alguma, feito por S.A. e por ela está assinado, compondo-se só de um risco no gosto gótico, para a frente principal, planta baixa e secção transversal e longitudinal da capela, tudo feito à lápis. É mais um esboço ou ideia geral, do que um rico definitivo para uma obra de tanta circunstância come aquela.

Encontrei a obra em quanto à frente principal feita até à altura de dez palmos com mui pequena diferença, em quanto às faces laterais, em maior altura; quanto à frente das costas da capela, achava-se já feita a pequena porta de entrada e pequenas janelas de luz do pavimento térreo, e montados os peitoris das janelas do pavimento superior, que há-de ficar sobre a sacristia da mesma, e quanto ao interior achavam-se já assentes algumas bases da colunas que tem de formar as naves, e principiada a parede que deve dividir o corpo da capela da sacristia.

Nesta ocasião observei que, não havendo risco que regulasse a forma da frente das costas da capela, fora esta imaginada, ou feita ad libitum e a gosto do mestre pedreiro, assim como as frentes laterais da mesma capela, não havendo tanto entre estas como entre a frente das costas da mesma, nenhuma semelhança ou harmonia com a frente principal, e são mais um contraste do que outra coisa; além da frente das costas da capela ser de um gosto muito ordinário e muito vulgar.

Quanto ao interior é certo também que as proporções das colunas e mais peças da obra, são da mão do mesmo mestre, que neste caso, vista a falta de esclarecimentos, obrou como quis ou entendeu.

Achando-se pois a obra neste estado, e vistas as circunstâncias expostas, entendi que a minha missão se limitava a examinar a segurança, e boa construção da obra, e quanto ao mais, como os riscos não supriam a falta de explicação no contracto nem este as omissões dos riscos, nenhuma observação fiz a tal respeito, naquela ocasião, mas nem por isso deixei de o observar a certa pessoa, que bastante interessa tem tomado neste negócio da capela, a qual à minha observação respondeu: Que isso agora era mau, que iria levantar uma grande poeira, e que melhor seria entender-me com o mestre pedreiro; eu entendi de outra forma, que foi calar-me, e nada dizer a tal respeito: porque se tal observação fizesse ao mestre pedreiro, ele decerto se oporia a demolir a obra para a fazer de outra forma, e em relação com a frente principal, dando às colunas e bases as devidas proporções, sobretudo quando o risco de uma obra o deixa variar a sua vontade, como agora acontece, e o contracto não supre alguma falta.

Instigado pelo comunicado que VV. transcreveram no seu periódico, sou obrigado, para crédito meu, a mostrar que nada tenho com o bom ou mau risco da capela que se está construindo; para prova do que, faço a referida exposição singela e franca de tudo que comigo se tem passado, a tal respeito, a pedindo a VV. se serviam mandá-la transcrever no seu periódico.


Setembro, 27 1854

Pedro d'Oliveira »

Com este comunicado, pretendia Pedro de Oliveira limpar o seu bom nome de profissional de um projecto que a julgar pelo que descreve, foi mal conduzido desde o início, acabando, como por dar origem a um "patinho semi-feio". Não se entende o pedido a dois arquitectos da cidade para elaborarem o projeto da mesma e posteriormente ambos serem descartados a favor dos primitivos esboços que deveriam apenas servir de base de maturação para um traçado estruturado e capaz da mesma.

Em relação à construção desta capela, houve aqui qualquer coisa muito mal contada; no mínimo muita descoordenação! E assim ficamos com aquele pequeno templo que eterniza a memória do rei Carlos Alberto que passou os seus últimos dias no Porto em 1849, um templo feito todo ele praticamente pelo seu mestre pedreiro e quase a seu gosto, onde nenhum projeto parece ter sido verdadeiramente seguido...

 

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Nota: Esta publicação aglutina e melhora as originalmente publicadas no blogspot em 24 de novembro e 5 de dezembro de 2012.

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UM MOSTEIRO À PROVA DE BOMBA ?

por Nuno Cruz, em 06.02.18

O título desta publicação, que poderia ter o subtítulo um episódio da guerra civil, é um tanto sensacionalista e serve para captar o interesse do leitor para o que se vai ler. E o que se vai ler é desta vez muito curtinho (prometo)! Trata-se de uma notícia que recupero da Crónica Constitucional do Porto de 18 de setembro de 1832, durante a guerra civil dos manos Miguel e Pedro, e que encontrei enquanto arrumava a casa, perdida no meio das minhas notas ainda não tratadas. Ei-la:

 

«Das bombas que os rebeldes lançaram hoje(1) para a cidade, três caíram sucessivamente no convento de S. Bento, onde se acha estabelecido um dos hospitais militares. A primeira arruinou apenas uma parte exterior do edifício; as outras penetraram até o segundo andar, atravessando o telhado e o forro. A última destas bombas caiu na cama de um doente, a quem matou logo, bem como a um soldado que junto a ele estava. Pegou fogo em parte do edifício; porém foi imediatamente extinto pela diligência dos empregados no serviço das bombas e dos facultativos do hospital. S. Exc.ª o Ministro da Guerra(2) fez cessar alguma confusão inseparável de taes acontecimentos, e restabeleceu a ordem imediatamente. Estão dadas as providências necessárias para que os doentes sejam alojados nos lugares que aquele edifício oferece à prova de bomba, e para evitar os maus efeitos da humidade que mais tarde lhes poderia ser nociva.

 

Devemos igualmente anunciar que todas as reservas de pólvora estão convenientemente repartidas por diferentes subterrâneos, o que põe os moradores desta cidade a salvo de qualquer acontecimento desastroso.»

 

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Para ilustrar esta publicação, escolhi uma imagem do Arquivo Municipal do Porto que nos mostra a rua das Taipas e a fachada oeste do mosteiro beneditino. A imagem é obviamente bastante posterior às linhas aqui transcritas, contudo apresenta uma particularidade importante. Reparou o caro leitor no leito da rua? Pois é, parece ser ainda no velhinho macadam. Ainda não haviam chegado à rua das Taipas os paralelipípedos de Canelas no início do século XX? Ou será a imagem da década de 80 ou 90 do século anterior?...

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1 - Isto é, no dia anterior.

2 - Era ele Agostinho José Freire, assassinado em novembro de 1836 durante a Belenzada.

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Um dos mais importantes passos dados na aliança anglo-lusa pouco depois da celebração da mesma, deu-se com o casamento de D. João I, fundador da 2ª dinastia portuguesa, com a inglesa Phillipa of Lancaster, filha do primeiro duque de Lencastre, John of Gaunt.

Creio ser geralmente sabido que essa união teve lugar na Sé Catedral do Porto. Fernão Lopes transmite-nos em suas páginas, vívidas memórias de como tudo se terá passado. E é precisamente esse episódio que pretendo recordar nesta publicação - hoje que se completam 631 anos da efeméride - com a transcrição parcial do capítulo da crónica referente ao casamento real.

 

Notar que no dia 2 D. João I veio ao Porto para casar, como casou. Contudo a cerimónia e boda só ocorreram quase dez dias depois, motivado pelo seu périplo pelo país a mobilizar tropas para a causa do (agora) sogro. Phillipa contudo esteve mais tempo na cidade: chegara em novembro do ano anterior e desde essa altura até ao seu casamento ficou alojada no paço episcopal (não o atual mas o medieval que ficava no mesmo espaço). Durante este tempo conheceu finalmente o seu futuro esposo:

 

Os noivos conhecem-se

« (...) foi em tanto trazida mui honradamente de mandado de seu padre a Infanta Dona Felipa à cidade do Porto (...) u[1] foi recebida com gram festa; e prazer, vindo muito acompanhada de ingreses, e portugueses (...), e pousou nos paços do bispo, que som muito perto da Sé deste logar.

El-rei partio de Évora, e o Condestabre com ele: e quando chegou ao Porto achou hí a Infante Dona Felipa, sua molher que havia de ser, e pousou em S. Francisco, e em outro dia foi ver a Infante, que ainda não vira, e falou com ela, presente aquele bispo, per um bom espaço, e espedio-se, e foi jantar[2], e depois que el-rei comeo, mandou à Infante suas jóias, e ela a ele, (...) : e el-rei esteve ali poucos dias, e foi-se caminho de Guimarães »

 

Só agora, na verdade, se vai dar o acontecimento do dia 2, o casamento, feito à pressa por causa da Quaresma que iria ter início e que inviabilizaria a cerimónia, por isso:

 

O casamento

« (...) escreveu logo el-rei ao bispo do Porto, que em outro dia tivesse todo prestes pera lhe fazer as benções: o bispo feze-o assi. El-rei cavalgou [desde Guimarães] este dia à tarde, e andou toda a noite, em guisa que, andadas aquelas oito légoas, amanheceo na cidade. O bispo D. João já estava prestes revestido em pontifical, e seus beneficiádos como compria. A infante foi trazida mui honradamente dos paços, u pousava, à Sé: e ali em nome do senhor Deos a recebeu el-rei (...): e esto foi a dous dias de fevereiro em festa da purificação da Benta Virgem: e havendo entom el-rei vintenove anos, e a infante sua esposa vinteoito, e esto acabado, ordenou logo el-rei de fazer sua voda, e tomar casa da quinta-feira seguinte a oito dias (...) »

 

E agora chega a descrição das festas do dia 11, que Fernão Lopes pinta com todo o seu colorido verdadeiramente medieval:

 

Os dias festivos

« (...) encomendou el-rei a certos oficiais de sua casa, e aos oficiais da cidade o encarrego, que cada um desto tivesse, e com gram diligência, e sentido, tinhom todos cuidado do que el-rei lhes encomendara, uns para fazerem praças; e desempacharem as ruas, por u haviam dandar as gentes, outros de fazer jogos, e trebelhos, e matinadas de noite, e fizerom mui à pressa uma ũa grande praça ante S. Domingos, e a rua do Souto, que era entom tudo hortas, u justavom, e torneavam grandes fidalgos, e cavaleiros, que o bem sabiom fazer, e outra gente nom[3]. Assi que toda a cidade era ocupada em desvairados[4] cuidados desta festa. E todo prestes para aquele dia, partio-se el-rei à quarta-feira, donde pousava, e foi-se aos paços do bispo, u pousava a Infante, e a quinta-feira forom as gentes da cidade juntas em desvairados bandos de jogos, e danças per todalas praças, com muitos trebelhos[5], que faziom.

 

marc.jpg

 Quadro francês representando o casamento real na Sé do Porto, pintado já no século XV. Embora oficializado no dia 2 de fevereiro, a cerimónia realizou-se apenas no dia 11 (ver mais abaixo).

 

As principais ruas, por u estas festas haviom de ser, todas erom semeadas de desvairadas verduras e cheiros. El-rei saiu daqueles paços em cima de um cavalo branco, em panos douro, realmente vestido, e a rainha em outro tal mui nobremente guarnida: levavom na cabeça coroas douro mui ricamente obradas, de pedras, e a jofar de grande preço. Os moços dos cavalos levavom as mais honradas peças, que hí erom de grande preço, não indo arredos um do outro, mas ambos a igual, e todos mui bem corregidos, e o arcebispo levava a rainha de rédea diante íam pipias e trombetas, e outros instrumentos, tantos que se nom podiom ouvir, donas filhas dalgo, e isso mesmo da cidade, cantavom indo detrás, como é costume de vodas. A gente era tanta, que se nom podiom reger, nem ordenar: por o espaço, que era pequeno, dos paços à igreja: e assi chegarom às portas da Sé, que era dali muito perto, u D. Rodrigo[6] bispo da cidade já estava festivalmente em Pontifical revestido esperando com a cleresia, o qual os tomou pelas mãos e demoveo a dizer aquelas palavras: que a Santa Igreja manda, que se digom em tal sacramento.

 

Entom disse missa, e pregaçam, e acabado seu ofício tornarom el-rei, e a rainha aos paços, donde partirom com semelhante festa, u haviom de comer.

 

As mesas estavom ja mui guarnidas de todo o que lhe compria: nom somente onde os noivos haviom destar, mas aquela, u era ordenado de comerem bispos, e outras honradas pessoas de fidalgos, e burgueses do lugar, e donas e donzelas do paço, e da cidade. O mestre-sala das vodas era Nuno Alvarez Pereira condestabre de Portugal, servidor de toalha, e copa: e doutros ofícios erom grandes fidalgos, e cavaleiros, u houve assaz de iguarias de desvairadas maneiras de manjares. Enquanto o espaço do comer durou, faziom jogos à vista de todos homens, que o bem sabiom fazer; assi como trepar em cordas, e tornos de mesas, e salto real, e outras cousas de sabor: as quaes acabadas alçarom-se todos, e começarom a dançar: e as donas em seu bando cantando arredor com grande prazer.

 

El-rei se foi em tanto pera sua câmara, e depois de cea, ao serão o arcebispo, e outros prelados com muitas tochas acesas lhe benzerom a cama daquelas benções, que a igreja pera tal auto ordenou, e ficando el-rei com sua mulher, foram-se os outros pera suas pousadas. (...) »

 

Agora que muitas localidades vão tendo e promovendo a sua feira medieval, não vejo memória mais feita à medida para também o Porto ter a sua do que a recreação deste casamento e de tudo o que lhe foi subjacente. É uma história que tem tudo: uma princesa instalada num paço, um rei que viria saíndo de um convento subindo a Sé ao encontro dela, todos os cónegos, bispo, homens bons e povo aguardando pelos noivos... e claro depois da solenidade, a festança regada com jogos, comida e vinho!

Não se pense que as feiras medievais são para alegrar localidades de média e pequena dimensão. Creio que não. Tendo em conta o tema, um evento destes tem tudo para dar certo, sobretudo numa cidade como o Porto onde o peso da história se sente no ar. E aquele Terreiro da Sé parece ter sido feito à medida para todo o aparato. Fica dada a ideia...

 

NOTAS:

1 - O u é português antigo para onde.

2 - Naquela época o jantar tinha lugar por volta da atual hora do almoço.

3 - O convento dominicano estava ainda praticamente rodeado de hortas. O local a que Fernão Lopes alude corresponde ao atual largo de S. Domingos e o troço sul da rua das Flores; onde apenas uma azinhaga existia que levava à rua do Souto. Lá em cima, onde agora temos as traseiras da igreja da Vitória, ficavam as barreiras onde os besteiros praticavam a arte da besta para estarem prontos se o rei os chamasse para a guerra.

4 - Desvairado corresponde ao atual diverso.

5 - Difícil é, atualmente, encontrar uma palavra que traduza na perfeição trebelho. Ela relaciona-se com as danças e folguedos como o próprio contexto parece indicar. É também usada para designar as peças do xadrez, o que claramente não é o que pretende Fernão Lopes. Talvez se refira aos objetos utilizados nos jogos e danças que o cronista refere(?).

6 - Aqui deve ter havido lapso de Fernão Lopes, o bispo era D. João (III), tal como ele próprio refere anteriormente.

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Bibliografia:

Chronica DelRey D. Joam I de Boa Memoria e dos Reys  de Portugal o Decimo, de Fernão Lopes (edição de 1644) disponível na Biblioteca Nacional Digital

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A PONTE D. MARIA II

por Nuno Cruz, em 28.01.18

Terá, caro leitor, ficado por uns segundos confuso com esta designação? Que ponte é esta?! A do caminho-de-ferro? Não essa era a de D. Maria Pia, a princesa italiana que casou com o rei D. Luís e que em 1910 foi obrigada, já idosa, a embarcar para o exílio juntamente com o neto D. Manuel II. Na verdade, esta ponte é a estrutura que ficou conhecida por ponte pênsil, nome pela qual os jornais da época quase a tratavam em exclusivo, alternando com o termo ponte sobre o Douro. Teve o mérito de ser a primeira ponte permanente que existiu ligando as duas margens e constituía o remate da também primeira verdadeira estrada Lisboa-Porto. Levou o nome de D. Maria II, monarca reinante aquando da sua construção, que viria a falecer em 1853 durante o parto do undécimo filho.

 

Pessoalmente, fico sempre encantado quando olho para uma qualquer fotografia que a revele, sobretudo quando tirada da Serra do Pilar. O conjunto dado por aquela estrutura, pela silhueta da cidade velha atrás e os "longínquos" montes do Candal, Arrábida e lá bem ao fundo a foz do Douro; transportam-me sempre para uma época em que - incompreensível para o portuense de hoje - o Porto era ali. As localidades não se entrecruzavam, Massarelos e Cedofeita eram arrabaldes e o mundo andava talvez a um ritmo mais humano. Não ocorrera ainda a cisão da paisagem, que a ponte Luiz I viria a impor com a sua colossal massa de ferro... Estavamos portanto na presença do Porto do romantismo na sua plenitude!

Mais abaixo deixo-vos com o texto que Pinho Leal nos legou no seu Portugal Antigo e Moderno, sobre esta ponte.

 

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Neste pormenor de uma imagem de cerca 1872 vê-se a ponte D. Maria II mas também a antiga estrutura onde apoiava a ponte de barcas, já com as alminhas para sempre lembrando o fatídico desastre de 29 de março de 1809. Aquando da inauguração da ponte D. Maria II os barqueiros foram relocados para lugares mais distantes dela, o que originou o seu protesto por se verem discriminados face à nova concorrência daquela passagem.

 

 **

«Vê-se ainda sobre o Douro a Ponte Pênsil, um pouco mais ao nascente do local onde esteve anteriormente a ponte das barcas (...). Fica entre os Guindais, do lado do Porto, e o sítio denominado o Penedo, na margem fronteira.

Está suspensa por oito grossas correntes, feitas de fios de arame de ferro queimado, cobertas de uma espessa crusta de verniz, as quais, divididas em dois grupos, assentam sobre quatro elegantes obeliscos ou colunas de granito, que se erguem das margens do rio nos dois extremos da ponte, sendo cada par de colunas ligado entre si por pranchas de ferro junto aos capitéis, e vendo-se nas ditas pranchas a seguinte legenda: “D. Maria II – 1842”. As oito correntes atravessam as quatro colunas, e descendo até ao solo, são chumbadas com grande solidez em rocha viva muito abaixo do nível de superfície com enormes chumbadouros dentados, que alargam por largo a rocha. Destas correntes pendem perpendicularmente outras da mesma espécie, mas muito mais delgadas, em número de 211, ficando 108 do lado do nascente, e 103 do lado do poente, e dispostas em iguais distâncias seguram pela extremidade inferior as vigas sobre que assenta o pavimento da ponte, que é de madeira, variando o comprimento destas correntes na razão da curva que descrevem as oito correntes principais. No centro das duas colunas do lado da cidade há uma casa, cujo pavimento inferior serve de quartel para a guarda militar, que faz a polícia da ponte, e no pavimento superior há uma espécie de salva-vidas com uma maca, uma cama, roupas e aparelhos próprios para socorrer as vitimas de qualquer naufrágio ou desastre; e do lado de Vila Nova há outra casa igual àquela, que serve de habitação para alguns dos empregados na cobrança das passagens, e armazém de utensílios da ponte. Há também nas extremidades da ponte duas casinhas, onde se cobra o imposto de trânsito, e que é, com pequena diferença, o mesmo que se pagava na antiga ponte de barcas.

A ponte é iluminada a petróleo nas noites em que não há luar, por seis candeeiros, além dos da casinha do lado da cidade, pois de noite só nesta casinha se paga o imposto do trânsito.

 

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Mais antiga cerca de uma década do que a imagem acima, este pormenor de uma vista panorâmica da cidade mostra-nos os pilares norte da ponte, aqueles que ainda hoje subsistem (os pequenos círculos a laranja mostram o local onde os tirantes foram chumbados na rocha). No miolo desses pilares encontra-se a casa da guarda da ponte bem como o andar superior com os apetrechos salva-vidas. Vê-se também a casa da cobrança do imposto (1), a rampa construída - não sem polémica - para acesso à ponte (2), uma passagem pedestre para cima do muro (3) e aquilo que parece ser um troço da antiga muralha gótica, na continuação dos arcos (4). Este troço está atualmente em parte exposto dentro de um pequeno espaço comercial.


O pavimento da ponte tem passeios e varandas de madeira, e destas a do lado de o nascente mede desde a coluna do sul até à casinha de arrecadação do lado norte, 154m, e a casinha 4,5m; e desta casinha até à coluna que fica do mesmo lado, 8 metros e dois centímetros – total, 166 metros e 70 centímetros. A varanda do lado poente, por causa da entrada da cidade para a ponte, é menos extensa, e mede 153 metros; a altura destas varandas é de um metro e dois decímetros; o passeio tem de largo um metro, e a ponte 6 metros de abertura. Os obeliscos, que são perfeitamente iguais, medem desde a base até à sua extremidade superior, que é decorada por um globo metálico, 18 metros de altura; cada um daqueles globos tem um metro de diâmetro, e os tirantes, ou pranchas de ferro que ligam as colunas, medem de comprimento 7 metros e dois decímetros, e de largura 5 decímetros, cada um.

Deu-se princípio a esta ponte no dia 2 de Maio de 1841, aniversário da coroação da rainha, ao tempo a senhora D. Maria II. No dia 1 de Fevereiro de 1843 já se achavam completas as obras principais e esperava-se apenas ordem do governo para a inauguração e abertura da ponte, dispondo-se os representantes da companhia construtora para tornarem aquele ato solene e aparatoso; mas sobrevindo uma cheia no Douro, que obrigou a retirar, na forma do costume, a velha ponte de barcas no dia 17 de Fevereiro daquele ano, abriu-se para o trânsito público a nova ponte no dia 18 de Fevereiro de 1843.

Foi feita esta ponte sob a direção do engenheiro de Claranges Luccotte, a expensas de uma companhia de acionistas que a devia fruir por espaço de 30 anos, entregando-a no fim deles ao Estado, de quem é propriedade, e foi construída na praia de Miragaia, no mesmo local que hoje ocupa a nova Alfândega; e para aquele efeito, a empresa construtora levantou ali um amplo abarracamento para montar as forjas e mais oficinas necessárias, precedendo licença da Câmara Municipal, e assinando a companhia um termo pelo qual se obrigava a demolir tudo, e repor aquele chão no estado em que o encontrou, apenas terminasse a obra, cláusula que a empresa por último não queria cumprir, mas a Câmara recorreu ao poder judicial, oficiando ao juiz eleito da freguesia de Miragaia, a fim de compelir (como compeliu) a empresa a satisfazer o estipulado.»

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Embora Pinho Leal refira Claranges Lucotte como o engenheiro que superintendeu a construção, o engenheiro responsável pela sua conceção foi Stanislas BigotAqui poderá o leitor curioso ter acesso ao livro publicado em Lisboa em 1843, onde é explicado o projeto. Este opúsculo é também assinado por um engenheiro auxiliar(?), Amédée Carruette, nome que trago para a frente no intuito de a sua memória poder colher algum dos louros daquele monumento, que por cerca de meia centena de anos uniu em permanência as duas margens.
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Nota: publicado em 12/09/2009 no blogspot, agora revisto e aumentado.

Bibliografia: Portugal antigo e moderno, de Pinho Leal (artigo S. Nicolau no vol. 6).

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DOIS AUTOS DE FÉ NO PORTO

por Nuno Cruz, em 22.01.18

O rei D. João III ficou para a história como responsável por trazer para o nosso país a Inquisição, que se revelou de uma ignóbil crueldade entre a tentativa de extirpar heresias até ao saque puro e duro sob o disfarce da religião. Não me avançando mais do que estas linhas gerais de tão obscuro movimento, o que pretendo aqui apresentar, e porque este blogue é dedicado à história da cidade do Porto, é a descrição de dois autos de fé que foram registados por uma testemunha contemporânea.

A história de uma cidade não se faz apenas de glórias nem romantismos (quantas vezes essas glórias são obtidas a um grande preço?) e creio que é também importante ligar os locais aos eventos, por muito maus que eles tenham sido, não obstante a inexorável passagem das gerações os tenham colocado a uma distância bastante confortável para os lermos como se de ficção se tratasse. Mas não o foi! Se a Europa dificilmente cairá neste tipo de obscurantismo novamente, várias outras partes do mundo ainda por ele passam enquanto o leitor confortavelmente lê estas linhas e eu as escrevo.

 

A descrição é da pena de Jorge Aranha de Vasconcelos, trazida à luz por Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas no 4.º volume do Boletim Cultural que a Câmara do Porto por muitos anos publicou. O texto impressiona até pela afluência que tal ato motivou!!

Resta-me dizer que atualizei a ortografia, exceto nos momentos em que a escrita aponta para diferenças do português da época em que foi escrito bem como coloquei pontuação aqui e ali para mais fácil leitura.

 

O primeiro Auto-de-Fé

«O primeiro aulto do Santo Ofício que se fez neste reino de Portugal foi nesta cidade do Porto aos sete dias do mês de fevereiro que caíu ao primeiro domingo da quaresma do ano de mil quinhentos corenta e três anos, reinava o El-Rei D. João o terceiro de gloriosa memória que foi avó de El-Rei D. Sebastião. Era bispo nesta cidade Dom Baltazar Limpo que foi frade do Carmo.

 

Estiveram presos os cristãos novos junto na logea das casas que estão ao pee da escada grande da See e as mulheres nos sobrados das casas de defronte de Nossa Senhora do Ferro e se fez o cadafalso no campo do Olival defronte das casas de André Pires(?) cordoeiro e se juntou nesta cidade mais gente que nunca se vio antes nem depois que quase veo todo o termo e muita gente do Minho de cá de Vila Real para cá de Lamego, Viseu e Coimbra, que todo aquele campo desde Nossa Senhora da Graça e S. Miguel, 'té o monte dos Judeos, todos os telhados dos cordoeiros, muros e torres eram pilhado de gente. E estando hua mulher nobre em hua das torres do muro, morreo morte supita vendo dar garrote a um dos quatro que foram queimados neste dia e queimaram muitas estátuas dos culpados que fugiram.

campolival.jpg

A paisagem está já muito modificada, mas o local é o mesmo: O círculo vermelho denota o local onde possivelmente foi executado o hediondo ato. O n.º 1 mostra sensivelmente onde ficava a muralha da cidade, 2 temos a rua de S. Bento da Vitória que ali desembocava num largo junto à porta do Olival. O 3 aponta para o local onde estava a Nossa Senhora da Graça - o mesmo da antiga Faculdade de Ciências - que tudo por ali estava apinhado de gente apreciando o macabro espetáculo. Tenhamos presente que provavelmente não existiriam quase nenhumas árvores, as casas eram todas elas mais baixas mesmo em comparação com as do século XIX e edifícios como a Cadeia da Relação e a torre dos Clérigos de onde a foto foi tirada, não existiam ainda.

 

 

O segundo Auto-de-Fé

Fezeram o segundo auto do ofício sancto daí a 14 meses no mês de maio do ano de mil quinhentos quarenta e quatro anos onde tãobem concorreo muita gente. Queimaram e afogaram três pessoas e muitas estátuas dos fugidos e todos os sambenitos foram postos no mosteiro de S. Domingos 'té que de podre caíram.

 

Foi cacereiro mor dos presos e presas Alváro d' Aboim cidadão e foi cacereiro menor Sebastião Gllz(?) cordoeiro carpenteiro. (...) »

 

O texto prossegue com a descrição de outros factos, incluso um que talvez venha um dia a recuperar para esta página. Resta dizer que o seu autor, o escrivão Jorge Aranha, redigiu estas notas no ano de 1599, quando Portugal fazia parte do império Espanhol.

 

Felizmente, tudo o que atrás se apresentou é já passado!

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Bibliografia:

A lembrança quinhentista do escrivão Jorge Aranha de Vasconcelos, por Eugénio de Andrea de Cunha e Freitas, publicado no Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto em 1942.

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À MEMÓRIA DE ALMEIDA GARRET

por Nuno Cruz, em 17.01.18

Em 1864 a Câmara Municipal do Porto decidiu colocar uma lápide comemorativa no edifício onde nasceu Almeida Garret na rua Dr. Barbosa de Castro (antiga rua do Calvário). Contudo os trabalhos arrastaram-se e a mesma só foi colocada em finais de Janeiro de 1866, tal como o anuncia O Nacional:

 

«Sempre é certo desta vez colocar-se uma lápide comemorativa na casa onde nasceu esse grande talento que se chamava Almeida Garret.
Na oficina do Sr. Costa, na Rua do Laranjal, trata-se da conclusão dessa lápide, que será de mármore em forma oval, com os emblemas de uma lira, uma coroa, e no centro de uma grinalda de louros, esta inscrição:

 

Casa onde nasceu aos 4 de fevereiro de 1799 João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garret. Mandou gravar à memória do grande poeta a Câmara Municipal d’esta cidade em 1864.

 

Consta que os trabalhos todos que são necessários para a colocação desta lápide, estarão prontos até ao final do mês.»


Com efeito, e como atrás foi dito, assim se concretizou, podendo nós ainda hoje admirar essa mesma lápide, se bem que ela já merecia um restaurozinho....

 

DSC01210.JPG

 

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Nota: publicado originalmente no blogger em 14/04/2013 e agora revisto.

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DO PORTO HOUVE NOME PORTUGAL?

por Nuno Cruz, em 12.01.18

Este título é como que uma pequena provocação que faço ao leitor... A frase é bem conhecida e resume a ideia que foi a partir do nome da cidade do Porto - se bem que ainda na sua forma primitiva - que o país foi batizado. Mas é possível que este nome não seja originário exclusivamente do local onde existe o centro histórico do Porto, algo que não sendo novidade, acredito que a maioria dos portuenses o desconheça. O ponto de interrogação está lá precisamente para isso, para nos fazer pensar um pouco na questão.

 

O Livro Preto da Sé de Coimbra - um códice do século XII hoje guardado na Torre do Tombo - preserva dois documentos preciosos e intrigantes. Ambos se relacionam com uma putativa doação ao mosteiro de Crestuma de um couto e várias outras localidades e rendimentos. Esta doação teria sido feita em 922 pelo rei Ordonho II por intermédio do bispo D. Gomado que se retirara da vida ativa para esse mosteiro. Geralmente tidos como apócrifos, os dois documentos ali arquivados serão falsificações do início do século XII, quando a diocese de Coimbra lutava com a do Porto pelo controlo de paróquias a sul do Douro.

No entanto o seu provável caráter fraudulento não implica que sejam completamente inválidos para os historiadores atuais. Com efeito, na época em que foram produzidos, muitos documentos alti-medievais deveriam ainda existir e os redatores sabendo e conhecendo esses documentos poderão simplesmente ter-se apropriado de elementos que aproveitaram nos seus próprios escritos, nomeadamente a toponímia. Ou por ventura tal não se ter dado e os redatores aproveitaram simplesmente a toponímia viva à altura da redação, o que me parece mais plausível.

 

Antes de analisarmos as passagens, levemos em conta que fora por esta altura - século IX e X - que a designação Portucale (sem dúvida Portugale na pronúncia da época) se começou a estender ao território que compunha o 1.º Condado Portucalense extinto em 1044 com a morte violenta do seu último conde Mendo Nunes e que não se deve confundir com o que veio a dar origem ao nosso país. É também importante que o leitor procure ignorar o moderno sentido da palavra Portugal, interiorizando-a como topónimo e não como corónimo.

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O primeiro documento a certa altura da sua narrativa informa que o rei chegando a Portugal, se colocou em navios e subiu rio acima acompanhado pela rainha e os condes locais Lucido Vimaranes e Rodrigo Lucides para vir ao encontro do bispo que não se podia ausentar do mosteiro. É para mim muito literária esta passagem e não posso deixar de a aproximar à lenda de Gaia pela poética; o que me leva a imaginar o rei e seu séquito subindo o Douro; passando Quebrantões, o Areinho, Arnelas e finalmente estacionando diante de Crestuma para desembarcar e ir saudar o prelado retirado na sua vida espiritual! Eis a passagem:

« ... et ipse rex sua mercede et illa Regina excitabit naues in portugale cum suos comites lucido uimarani et roderico luci et sui episcopi fuerunt nauigio eremitam uistare ipsum episcopum et ad orationem ad ipsum locum sanctum ... Et mansit ipse rex cum suo exercitu in ipso monasterio et in alio die fecit concilium et exquisiuit uitam de ipsos, confessores et de ipsa congregatione. ... »

reiOrdonho.png

 Excerto da página do cartulário onde vem a passagem transcrita acima.

 

O documento prossegue dizendo que o rei e os outros nobres que o acompanhavam fizeram várias doações ao mosteiro. Nessas supostas doações está precisamente a passagem que nos interessa:

«Villa de Portugal quomodo diuidit per suos terminos antiquos quomodo diuidit cum illa uilla de Mahamudi et inde per montem a termino de Colimbrianos usque in Gal'.»

viladePortugal.png

Excerto da página onde vem a frase transcrita acima.

 

Sobre esta passagem, diz-nos João Pedro Ribeiro: «Temos por tanto a povoação de Portugale, ou Porto no Séc. X não ao norte, mas ao sul do Douro, confinando pelo nascente com Mafamude, pelo poente com Coimbrões, sítios ainda hoje bem conhecidos, e portanto reduzido à Gaia atual [início do séc. XIX], antiga Cale. À face deste documento se pode retificar o que os nossos escritores, e os estrangeiros tem escrito ácerca desta povoação, que deu o seu nome ao nosso reino».

E esta não é a única referência a tal vila naquele local. Com efeito, existe outra (muito escassa) documentação que menciona uma localidade com o nome de Portugale, Portugalla ou Purtugal do lado gaiense, coisa que não se dá na margem oposta do Douro. O documento em estudo parece apontar para uma Vila de Portugal em correspondência com a Vila Nova (de Rei) da baixa Idade Média, que se desenvolveu centrada na rua Cândido dos Reis (antiga rua Direita).

 

Um outro historiador, o (quase proscrito) Dr. A. de Almeida Fernandes, considera mesmo que o Portucale da margem direita do Douro decaiu graças aos dois «perturbados séculos, cortados de guerras civis e de momentâneas entradas de inimigos, por terra e mar, mouros e normandos». No contraste, o interior florescia enquanto que a localidade junto ao rio pela «sua posição flúvio marítima (passagem e porto) era arriscadíssima, atraindo todos os invasores de terra e mar. Por isso mesmo, entre a tomada do conde Vimara, naquele ano [presúria de 868], e a doação à respectiva Sé, já no séc. XII, não temos mais notícia verdadeira dela.». E eu relembro que ainda em 1147, enquanto Pedro Pitões tentava cativar os cruzados à causa de D. Afonso Henriques, lá lhes ia dizendo que não há muitos anos os mouros ali tinham vindo pilhar....

googlemapss.png

Com a ajuda do GoogleMaps vemos aqui as localidades referidas no documento. A esse rol acrescentei para efeitos de melhor compreensão o Porto medievo e a foz do ribeiro das Azenhas ou de Santo Antão, que por séculos separou Gaia de Vila Nova (seta azul).

 

Recuando um pouco no tempo para cerca de 30 anos antes da suposta doação de 922, num manuscrito referente à consagração da primeira Catedral de Santiago de Compostela uma passagem dele informa-nos da remoção de colunelos de mármore e outros materiais existentes no oppido portugalense que remontavam à época romana e que foram levados por mar para serem reutilizados no seu pórtico lateral. A passagem, segundo a leitura do investigador José Eduardo Lopez Pereira, diz:

 

« ... De oppido portucalense ratibus deportatas adduximus quadras et calcem unde sunt aedificate columnae decem et VIII, cum aliis columnellis marmoreis simili modo navigio ... »

 

Onde estaria o templo a que estas colunas pertenciam? Em Vila Nova? Em Gaia? No morro da Penaventosa? Em favor deste último existe a descoberta em frente à Sé em 1940 de uma ara votiva dedicada aos Lares Marinhos bem como de duas colunas de mármore, quem sabe irmãs das que foram levadas para a Galiza. Mas uma vez mais, certezas não temos. Quanto ao lado oposto do Douro, creio que só futuras escavações arqueológicas o poderão indicar, mesmo levando em conta que uma boa parte da área foi muito modificada desde os meados do século XVIII, quando aqueles terrenos se foram povoando de armazéns de vinho.

 

Outros documentos existem com referências sugerindo que (um)a localidade Portugal ficaria na margem esquerda do Douro:

a) a primeira menção conhecida à igreja de Santa Marinha é de c. 927: «... monasterium in ipsa villa vocabulo sancta marina ...», vila esta que estaria eventualmente associada à villa de portugal que vimos atrás;

b) em 945 existia uma «... strata veredaria que discurrit de portugal ...» e que é também mencionada em 1118;

c) em 1116, quando D. Hugo era já bispo do Porto mas anteriormente à doação de D. Teresa, surge num documento «... sancta marina de purtugal ...».

Estes apontamentos são importantes sobretudo se tivermos em consideração a ausência de referências para a margem direita do rio entre os anos IX e XI.

 

VilaNova.JPG

 Vila Nova e o seu desaparecido areal vista do morro do castelo de Gaia. Vila Nova corresponderá ao Burgo Velho do foral de Gaia dos meados do séc. XIII, cuja sua igreja - Santa Marinha surge ainda referenciada como Santa Marinha de Portugal no século XII. A imagem abaixo mostra a rua Direita em Gaia durante uma cheia; fenómeno a que o Douro esteve sujeito até à sua "domesticação" na segunda metade do século XX. Ora, dado que esta situação teve que ser enfrentada uma e outra vez, ano após ano, por todas as civilizações que habitaram este cantinho do noroeste peninsular; não será ela de certa forma relevante para aferirmos dos locais de fixação das populações? (ambas as imagens do Arquivo Municipal do Porto).

 

Depois destas referências, o topónimo do lado gaiense começa a evoluir na documentação para Portu dorij logo em 1120, Portum Dorii em 1196, Burgo de Portu de Gaya em 1251 ou apenas portu de Gaya em 1255, vindo a culminar em 1255 e 1288 nos nomes burgo veteri de portu e Burgum vetus. Esta última nomenclatura é na prática dada como extinta naquela data, substituída por Villa Nova de Rey mas perdendo o possessivo poucos tempo depois para estabilizar em Vila Nova, separando-a de Gaia o ribeiro das Azenhas ou de Santo Antão.

RDireita.JPG

O termo veteri / vetus creio que será significativo para sustentar a sua ligação à antiga villa de portugal como sendo uma e a mesma coisa. Aliás, já Joaquim António Gonçalves Guimarães, de onde tenho vindo a coligir algumas destas notas, refere na introdução ao seu trabalho as incertezas que existem e provavelmente sempre existirão mas numa coisa parece acreditar, ou assim o interpreto: o da «singularíssima situação em que uma vila rústica do século X, denominada Vila de Portugal, vem a dar o nome a um país que cresce para Norte e para Sul dessa passagem do Rio Douro».

 

Sem prejuízo de o termo Portucale se ter estendido a ambas as margens do Douro englobando o Porto alti-medieval; documentalmente não creio errar ao dizer que também é verdade que esse nome sobreviveu por mais tempo na margem esquerda na povoação de Vila Nova. Para a outra margem, a documentação não vai além do início do século XII(?):

a) na doação de D. Teresa - 1120 - temos a simples palavra burgo;

b) no mesmo ano numa bula papal surge Portu Dorii;

c) no testamento de D. Sancho I temos Portu, ou seja  o topónimo atual latinizado;

d) em 1238 um acordo entre a coroa e a mitra portuense dá-nos Portu Dorii;

e) pelo tempo dos forais gaienses, aquando das inquirições de D. Afonso III o burgo é mencionado como villa portus e a sua zona ribeirinha vila baixa.

 

Com a passagem do tempo, talvez nos inícios do século XIV, o nome Porto do Douro expressa nos documentos cai naturalmente em desuso, cristalizando em Porto, a sua forma simplificada. É na verdade um caso singular no nosso país a existência de uma cidade que "não tem nome", pois que tomou a designação daquilo que a fez nascer e crescer: o ser ponto de passagem fluvial na via latina mais importante do nosso território e posteriormente à estrutura portuária de apoio ao comércio marítimo.

 

Voltando aos textos do século XII que não chegaram a ser usados para os fins menos claros a que talvez os prelados conimbricenses os designassem, termino com as palavras do Padre Miguel de Oliveira no seu artigo publicado na Lusitânia Sacra em 1956:

«Não chegaram a redigir-se os dois documentos, mas lá ficaram as notas que o copista do Livro Preto, sem imaginar o trabalho que havia de dar aos historiadores, trasladou para a sua obra no estado em que se encontravam...»

 

Para concluir, dizer que não foi do Porto que veio o nome Portugal parece-me objetivamente errado. Contudo, e atendendo a tudo o que li dos vários especialistas que se debruçaram sobre o assunto - muitas vezes eles próprios com visões dispares - me parece também que vedar à margem sul do Douro semelhante título honorífico deixa o passado incompleto. Se numa assentou na sua génese o Portucale castro novo e na outra o Portucale castrum antiquum, não deixaram ambos de ter o fundamental em comum: o nome Portucale.

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Alguma bibliografia consultada:

A doação de Ordonho II ao bispo Gomado e ao Mosteiro de Crestuma, do Padre Miguel de Oliveira publicado na revista Lusitânia Sacra em 1956;

O Foral de Gaia de 1255, de Joaquim Ant. Gonçalves Guimarães, José Ant. Afonso e Raúl Solla Prata, editada pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 1983;

Gaia e Vila Nova na Idade Média, de Joaquim António Gonçalves Guimarães editada em 1995 pela Universidade Portucalense;

História da cidade do Porto, coordenada por Damião Peres e editada pela Portucalense editora entre 1962-1965;

História do Porto, dirigida por António A. de Oliveira Ramos, editada pela Porto Editora em 1994;

Ocupação da época romana na cidade do Porto..., de António Manuel S. P. Silva consultado em linha;

As origens da cidade do Porto, de António de Sousa Machado editada pelo próprio em 1972;

Portugal primitivo medievo, de A. de Almeida Fernandes, editada pela Câmara Municipal de Arouca em 2001.

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A numeração de polícia atualmente empregue com o uso de números pares a um lado da rua e ímpares ao outro é algo que damos como adquirido e nem mesmo os nossos avós conheceram outro sistema. Mas ele existiu. O que abaixo se vai ler é o edital do Governo Civil do Porto de abril de 1860 que promulga este sistema no Porto e em Vila Nova de Gaia. Isto porque a numeração sequencial até aí empregue dava azo a confusões e equívocos que já não se coadunavam com aquela época de grande expansão da cidade e por consequência o aumento da complexidade na gestão do seu território. Ajudava a esse marasmo as duplicações de nomes em arruamentos ou nos seus prolongamentos.

 

Caro leitor, o edital é longo, mas acreditem que vale a pena a sua leitura integral. É mais uma janela para aquele tempo; uma que tem de ser sempre levada em conta pelos historiadores quando se deparam com referências à numeração nos documentos que consultam para discernir se se trata de um documento pré ou pós 1860. Saliento aquela que foi, para mim, uma total descoberta: a grande quantidade de arruamentos da Foz que tiveram os seus nomes trocados, ainda que dentro do tema do anterior topónimo. Será por ventura um reflexo de uma subordinação a que os autores do edital os sujeitaram, face aos seus congéneres portuenses (ver mapa 3).

Uma última nota: ao contrário do que pretendo fazer hábito neste blogue, vou transcrever o documento com a ortografia da época (que me surpreendeu pela sua incoerência em algumas palavras...).

 

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EDITAL

Jozé Freyre de Serpa Pimentel de Mansilha e Silva Donnas Botto de Mesquita Sequeira e Vasconcellos, 2.º visconde de Gouveia, par e grande do reino, moço fidalgo com exercicio no paço, socio do real conservatorio de Lisboa, e do instituto de Coimbra, juiz no quadro da magistratura judicial, e governador civil do districto do Porto.

 

Convindo ao bom regimen policial, economico, e administrativo, e ao interesse particular dos cidadãos, que as ruas, praças, largos, e mais logares publicos desta cidade, Villa Nova de Gaia, e seus suburbios, sejão conhecidos por denominações claras, simples, e distinctas; e que a numeração dos predios siga uma ordem regular e methodica; considerando que as inscripções de muitas ruas e logares publicos se acham apagadas ou deterioradas pelo tempo, e não são em numero sufficiente carecendo-se portante d'uma renovação geral, - sendo esta a melhor occazião d'emendar os defeitos de muitas denominações, já por haver ruas que se prolongão mudando de nome, já porque outras tem denominações repetidas, vagas, ou confuzas; - attendendo a que differentes reprezentações me teem sido inderessadas, pedindo providencias sobre a numeração dos predios, em razão das muitas irregularidades, a que dão logar não só as multiplicadas edificações e reformas, mas também a má ordem da antiga numeração em partes interpolada, em partes apagada; - tendo colhido as convenientes informações dos respectivos administradores dos bairros, e concelhos, e da camara municipal; - ouvindo o conselho do districto, que conveio na oportunidade das medidas; - e visto o codigo administrativo, os artigos 224 e 227; e as portarias de 27 de setembro de 1843, e 9 de julho de 1859, determino o seguinte:

 

Art. 1.º As ruas e largos que se prolongão com differentes denominações, que vão dezignadas na primeira columna do mappa n.º 1, ficão reduzidas ás denominações, que constão da segunda columna do mesmo mappa.

 

Art. 2.º Os nomes das ruas e logares publicos, que se confundião com outros de identica numeração constantes da primeira columna do mappa 2.º ficão substituidos pelos nomes dezignado na segunda columna do mesmo mappa.

 

Art. 3.ª As ruas e logares publicos, cujas denominações érão longas e confuzas e constão da primeira columna do mappa n.º 3, terão as denominações, que vão na segunda columna do mesmo mappa.

 

cartela.jpg

Neste pormenor de uma imagem sensivelmente tirada na mesma época, vê-se claramente a cartela toponímica nova que parece ter substituído uma antiga que ainda se vislumbra meio apagada, logo abaixo dela. Presumo que nela esteja escrito Porta de Carros (é o gaveto onde bem mais tarde viria a surgir o café Astoria).

 

Art. 4.º As inscripções com as denominações das ruas e logares publicos continuarão a ser pintadas com tinta branca, sobre fundo escuro.

 

Art. 5.ª As mencionadas inscripções ficarão a tres metros acima do pavimento; e quando não haja logar adquado n'essa altura, somente se affastarão d'ella o espaço indispensavel.

 

Art. 6.º As inscripções pintadas nos extremos de cada uma das ruas, travessas, ou viellas, terão por baixo um signal, que indique o lado para onde estas se prolongão. As inscripções porém comprehendidas entre os dois extremos não terão signal algum.

 

Art. 7.º A numeração dos portais dos predios continua a ser collocada no centro das vergas respectivas, e indicada por uma unica serie de numeros para cada uma das ruas, largos, travessas e viellas.

 

Art. 8.º Os portaes que estiverem tapados ou que pertenção a janellas de pavimentos terreos, que poderem ser reduzidas a portas serão numerados.

 

Art. 9.º Para os terrenos dos predios arruinados, ou pardieiros proprios para edificação, se conservaram os numeros correspondentes, computando-se um por cada tres métros.

 

Art. 10.º Nos portais dos predios edificados de futuro em terrenos, para os quaes se não rezervassem numeros no sentido do artigo antecedente, será collocado o numero immediatamento anterior, acompanhado de uma letra, seguindo a ordem alphabetica, conforme a quantidade dos portais.

portl82.png

Neste portal podemos ver a numeração atual (que já não está de acordo com a disposição do edital em estudo), mas que ainda apresenta um sugestivo FOI N.º 20 na ombreira. Curioso notar que todas as casas deste lado da rua Ferreira Borges foram construídas após 1865 e por isso depois do edital. Assim é intrIgante a necessidade de informar o número anterior... Terá a rua sofrido nova numeração no seu passado ? (foto do autor, 2014)

 

Art. 11.º Os numeros serão pintados com tinta branca sobre tarjas de fundo preto, tendo estas, sendo possivel,  29 centimetros de comprimento, e 18 d'altura; e os algarismos 11 centimetros de altura, conforme o padrão que estará patente nas respectivas administrações.

 

Art. 12.º Em cada uma das ruas, travessas, e viellas, os numeros páres serão colocados do lado direito, os impares do esquerdo.

§ 1.º O lado direito de uma rua, travessa, ou viella (tanto aquém, como além Douro) será determinadom nas que correrem perpendicular, ou obliquamento ao rio, pela direita do viandante, que marchar afastando-se do mesmo rio; - e nas que forem paralelas, pela direita do que marchar no sentido da corrente.

 

§ 2.º O primeiro numero da cada serie (ou seja par ou impar) começará sempre, nas primeiras, do ponto mais proximo ao Douro; nas segundas, no ponto onde começarem, no sentido da corrente; - de modo que naquellas os numeros augmentem afastando-se do rio, e nestas descendo-o.

 

Art. 13.º Nos largos a serie de numeração será como até aqui consecutiva, sem separação de numeros pares ou impares, começando pela primeira porta á direita da rua principal, que em cada um desembocar.

 

Art. 14.º Os pequenos largos contiguos a outros maiores, e que aproximadamente tenham de commum um quinto da sua circumferencia, considerão-se como parte dos maiores, ficando com igual denominação, e sob a mesma serie de numeros.

§ unico. Neste cazo porém o numero primeiro da serie começará sempre no largo maior.

 

Art. 15.º É permitido aos interessados mandar por nos portais dos respectivos predios, na hombreira lateral direita, 40 centimetros abaixo das vergas, a numeração de que actualmente uzão, sendo os algarismos pintados com tinta preta sobre fundo branco, e não podendo ter mais de 6 centimetros d'altura; devendo preceder aos algarismos a palavra «-Foi-». Seis mezes porém depois da data deste edital cessará esta permissão.

 

Art. 16.º A nova numeração será mandada fazer pelos administradores respectivos, passando 5 dias da affixação do prezente edital; recebendo-se depois dos interessados em cada um dos predios a importancia da despeza equivalente, na razão de vinte e cinco reis por cada tarja numerada.

§ unico. Os interessados que quizerem directamente mandar por a numeração nos seus portais, assim o prticiparão por escripto ao administrador respectivo, dentro d'aquelles 5 dias. Se passados porém 20 dias não tiverem cumprido, o administrador competente mandará fazer a numeração conforme a regra geral.

 

Art. 17.º Os interessados ficão responsaveis pela conservação dos numeros dos respectivos portais, devendo mandar avival-os, quando for necessario, de sorte que estejão sempre perfeitamente legiveis.

esquema.jpeg

Neste esquema muito rudimentar podemos ver como ficou estabelecida a ordem e sequência de numeração. Vemos assim a (E)squerda e a (D)ireita convencionadas no edital, bem como os pontos de partida para a numeração, com o n.º 1 à direita.

 

Art. 18.º Em cada uma das administrações haverá um livro de registo, especialmente destinado para a denominação das ruas, e mais logares publicos, compreendidos em cada bairro, segundo a actual divizão fiscal, e para a numeração dos predios; do qual devem constar as novas e antigas denominações e numerações; e os padrões estabelecidos para umas e outras.

§ unico. Estes livros serão organizados segundo um modelo geral, e rubricados pelos respectivos administradores; e delles poderão extraír-se as certidões que convierem aos interessados, para verificarem a identidade dos seus predios, e para os mais effeitos legais.

 

Art. 19.º Os proprietarios ou administradores dos predios, que de futuro se edificarem, ou reformarem, deverão dirigir-se ás administrações competente, para que ali se lhes dezignem os numeros, que na conformidade do systema estebelecido tenhão de competir aos ditos predios.

 

Art. 20.º Quando os interessados nos predios tenham de ser coagidos á observancia de qualquer das referidas determinações, observar-se-ha o determinado nas portarias de 27 de setembro de 1843 e 23 de maio de 1859.

 

 

MAPPA N. 1

Mappa das ruas, largos, travessas e viellas, que prolongando-se com diversas denominações, ficão agora reduzidas a uma só.

Rua d'Almada, rua das Hortas - ficão ambas sob a denominação de - Rua d'Almada.
Rua de Santa Catharina, rua Bella da Princeza - Rua de Santa Catharina.
Rua de Cedofeita, rua da Cruz, rua 9 de Julho, até á Barreira - Rua de Cedofeita.
Rua da Torrinha, rua do Priorado - Rua da Torrinha.
Rua da Boa Vista, rua 25 de Julho - Rua da Boavista.
Rua da Porta de Carros, rua do Bomjardim, rua do Bairro Alto, rua da Aguardente - Rua do Bomjardim.
Rua do Laranjal, rua dos Tres Reis Magos - Rua do Laranjal.
Rua de D. Pedro, rua dos Tres Reis Magos - Rua de D. Pedro.
Rua da Alegria, rua do Caramujo, rua 24 de Agosto - Rua de Alegria.
Rua do Campo Alegre, rua de Santo Amaro - Rua do Campo Alegre.
Praça de Carlos Alberto, rua dos Ferradores - Praça de Carlos Alberto.
Rua de S. Nicolau, largo da Ourivesaria - Rua de S. Nicolau.
Rua dos Caldeireiros, rua da Ferraria de Cima - Rua dos Caldeireiros.
Rua de Costa Cabral, rua 25 de março - Rua de Costa Cabral.
Praça de D. Pedro, Porta de Carros - Praça de D. Pedro.
Rua dos Loyos, largo dos Loyos - Largos dos Loyos.
Rua 27 de Janeiro, rua 15 de Setembro - Rua da Constituição.
Praça da Batalha, largo de Santo Ildefonso - Praça da Batalha.
Largo de S. Bento das Freiras, rua do Loureiro - Rua do Loureiro.
Rua de S. Lazaro, rua 29 de Setembro, rua do Padrão de Campanhã - Rua de S. Lazaro.
Rua Direita, rua dos Ferradores, largo de S. Roque, Senhor do Loureiro, e Palhacinhas (Villa Nova) - Rua Direita.
Sitio dos Guindais, Sitio da Praia (Villa Nova) - Rua da Praia.
Rua dos Marinheiros, rua de Baixo (Villa Nova) - Rua dos Marinheiros.

 

MAPPA N. 2

Mappa das ruas, largos, travessas e viellas, cujas denominações ficão alteradas para se distinguirem d'outras que as tinhão identicas.

Rua do Calvario (Massarelos) - fica sendo Rua do Golgota.
Rua das Flores (Massarellos) - Rua de Flora.
Rua de Cima de Villa (Foz) - Rua do Alto da Villa.
Rua Formoza (Foz) - Rua Bella.
Rua da Boa Vista (Foz) - Rua da Bella Vista.
Rua da Conceição " - Rua da Mães de Deus.
Rua da Alegria " - Rua dos Prazeres.
Travessa da Alegria " - Travessa dos Prazeres.
Rua de S. Bento " - Rua Benedictina.
Rua de S. João " - Rua de S. João da Foz.
Rua da Trindade " - Rua Trinitaria.
Rua do Laranjal " - Rua das Laranjeiras.
Rua Direita " - Rua Central.
Rua do Pinheiro (Villa Nova) - Rua do Pinhal.

 

MAPPA N. 3

Mappa das ruas, largos, travessas e viellas, cujas denominações para mais simplificação e facilidade ficão alteradas

Rua 16 de Maio - fica sendo - Rua de Santo Ovidio.
Rua 9 de Julho (de Barreiras para fora) - Rua da Liberdade.
Rua 23 de Julho, ou Direita - Rua de Santo Ildefonso.
Rua Nova de S. João - Rua de S. João.
Rua Nova dos Inglezes - Rua dos Inglezes.
Campo Grande - Campo do Poço das Patas.
Calçada do Mirante - Rua do Mirante.
Calçada dos Clerigos - Rua dos Clerigos.
Travessa da Praça de D. Pedro - Travessa de D. Pedro.
Beco do Arrabalde - Viella do Arrabalde.
Travessa da Rua Bella da Princeza - Travessa de Santa Catharina.
Beco de S. Macario - Viella de S. Macario.
Beco do Poço - Veila do Poço.
Calçada dos Carrancas - Rua dos Carrancas.
Calçada do Corpo da Guarda - Rua do Corpo da Guarda.
Beco das Panellas - Viella das Panellas.
Beco de S. Salvador - Viella de S. Salvador.
Beco de Cadavais - Viella de Cadavais.
Beco do Peixe Gallo - Viella do Peixe Gallo.
Beco de S. Dionizio - Viella de S. Dionizio.
Beco do Monte Bello - Viella do Monte Bello.
Rua da Ferraria de Baixo - Rua da Ferraria.

E para que todo o referido conste, e se execute, mandei passar o prezente edital que será affixado em todos os logares publicos de Cidade. Porto 20 d'Abril de 1860. - O governador civil, Visconde de Gouvêa.

 **

 

Transcrito ipsis verbis de O Jornal do Porto de 23 e 24 de abril de 1860.

Já em 8 de dezembro de 2013 havia publicado n' A Porta Nobre no blogspot os mapas que aqui se apresentam sob o título Reorganização da cidade em 1860. Com a transcrição total do Edital procurei agora melhor documentar esta alteração.

Como já havia referido acima, é este documento um importante testemunho e recurso de consulta no auxílio à identificação da situação anterior à reforma da numeração. Espero que a leitura dele tenha sido prazerosa e um agradável momento de descoberta sobre as fases pretéritas da cidade do Porto.

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Caros leitores, neste dia de Natal, que espero esteja a ser agradável a todos vós, deixo-vos duas "notícias" do século XIX colhidas de dois jornais distintos. Vêm trasladadas do blogue O Porto de oitocentos que tem de ficar brevemente devoluto.

A primeira, muito possívelmente escrita por Camilo Castelo Branco, refere os célebres outeiros das freiras de S. Bento, também mencionados por vários outros autores e onde os poetas da altura se enamoravam das jovens ocupantes daquele mosteiro fundado por D. Manuel I.

A segunda é uma notícia banal; aliás, será notícia mesmo? Apenas aqui a coloco pelo pitoresco da história, pela pequena fresta que abre para aquele tempo. Talvez que quando foi publicada tivesse uma conotação subjacente que hoje não seja possível captar...

 

É enfim, para o leitor, uma publicação de "fácil digestão", própria para entreter cinco minutos enquanto se come uma rabanada! Bom Natal a todos!

 

 

DOIS ECLIPSES

«Para ontem à noite estava anunciado um outeiro e um eclipse: a lua não fez descortesia ao Borda d'Agua; as freiras de S. Bento deixaram por mentiroso o noticiador. Foram dous eclipses totais ao mesmo tempo. A nova abadessa, já nos constava, fez um protesto solene contra a poesia, receiosa de que, envolta em algum soneto, fosse hervada frecha de Deus vendado varar o peito de alguma das jovens seculares agasalhadas na casa do Senhor; mas quando anunciávamos a festa, tomávamos o papel do articulista do Times na questão de Nápoles, e incitávamos o público a ir com a sua presença no pátio, fazer o que dizem irá fazer a esquadra; obrigar aquele soberano absoluto, cujo ceptro é o báculo, a dar mais liberdade às suas subditas; deixa-las vir à grade; que mortas por isso estavam elas.

A pressão foi, porém, ineficaz; a abadessa mais política do que Fernando 2º deu-lhes uma festa, e em quanto os Manricos davam provas de que não eram bem cisnes, fugindo do pátio inundado por um aguaceiro, cantava-se lá dentro o miserere do Trovador.

Abstraindo desta pequena contrariedade, as filhas espirituais de S. Bento estão contentes com a abadessa, e posto que antecipadamente se falasse muito na candidatura desta e daquela, chegando-se mesmo a dizer, que uma estava em eminente risco de ser eleitora, sem para isso trabalhar, nem o saber e mesmo sem querer, votou tudo a carga cerrada, como se também lá por dentro houvesse chapéu mágico e lista de chapa.

Deus lhe conceda vida larga para dirigir aquelas ovelhas recolhidas no aprisco do Senhor.»

 

De O Clammor Publico de 14 de Outubro de 1856

 

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MORA AÍ PARA OS LADOS...

«Mora aí para os lados da rua Chã um sapateiro, que é, na frase do vulgo, mesmo o que se chama um larachista, quer dizer, um homem que conta muitos carapetões, que tem muito palavreado, que é o primeiro a rir-se daquilo que diz.

Ao pé dele mora um empregado público, que é casado com uma delambida que faz versos à lua, e não sabe deitar uns fundilhos numas celouras (sic), nem apontar uns coturnos. Ora, o pobre do empregado público, cujo chefe vai para a repartição logo pela manhã, e quer que os empregados entrem infalivelmente às 9 horas, tem muitas ocasiões em que quer ir para a repartição por serem horas, e não tem ainda almoçado(1), porque a cara metade está ainda deitada, sonhando com o sol e as estrelas. Acontece pois que o nosso homem sai sempre de casa com muito mau humor, porque se lembra que o chefe lhe dará algum sabonete se for mais tarde do que o costume.

O mesmo lhe acontece quando sai da repartição, porque então vai meditando o pobre do homem na grande tolice que faz um homem em casar com uma poetisa, que é cousa insuportável, muito mais para um empregado público.

Tanto à ida para a repartição como à vinda, passa ele pela porta do sapateiro, de que falamos no princípio do verídico facto que estamos narrando; e para ser perfeito o contraste, o sapateiro está sempre a rir-se quando o infeliz marido passa cabisbaixo.

Durava isto há muito; mas um destes dias disse o bom do homem de si para si:

- Isto é comigo.

Não me bastam as aflições que tenho; ainda o meu vizinho sapateiro escarnece de mim, rindo quando eu lhe passo pela porta! Mas deixa, que eu te ensinarei.

Foi direito ao regedor, e queixou-se do sapateiro. Este foi intimado e compareceram os dous contendores diante da autoridade, no dia seguinte.

O empregado público formulou a sua acusação, dizendo que vivia muito apoquentado pelas causas que o leitor já sabe, e que de propósito para lhe causar ferro, e atormenta-lo mais, o seu vizinho se ria dele.

- Há-de pois dizer-me, exclamou ele com violência e agarrando o sapateiro pela gola do casaco; há-de dizer-me para que se ri quando eu passo em frente da sua loja!

- Sim, sim, respondeu o sapateiro no mesmo tom; há-de você também dizer-me porque passa em frente da minha loja, quando eu me riu!

- Muito bem, disse o regedor, dirigindo-se ao empregado público; isso são apreensões suas, e bem se vê que este homem não se ri de V. S.ª mas, como ele diz, e diz muito bem, a questão é passar pela porta dele quando ele se ri. Ora, o remédio, é V. S.ª mudar de caminho quando vai para a sua repartição, e quando sai dela para se dirigir a casa.

Assim se fez. O empregado público mudou de caminho, e o sapateiro continua a rir-se quando tem vontade.»

 

In Jornal de Noticias (2) de 27 de Junho de 1865

 

1 - O almoço do século XIX corresponde ao nosso pequeno-almoço. Jantava-se aí pelas 14h, a meio da tarde havia a merenda e à noite a ceia (ainda hoje em galego almorzo e xantar tem os significados originais da palavra, tal como no Portugal do século XIX).

2 - Este não é o periódico que todos conhecemos e que ainda existe - fundado em 1888 - mas sim um outro que existiu apenas em 1865 e que está, em parte, na base do O Primeiro de Janeiro.

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Nota: Originalmente publicadas no blogspot em 24 de dezembro e 29 de dezembro de 2013, respetivamente.

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O ARMAZÉM DO SR. FORRESTER

por Nuno Cruz, em 17.12.17

Em agosto de 1854, o jornal O Comércio (futuro O Comércio do Porto) visitou o armazém de vinhos de Joseph James Forrester, mais conhecido pelos interessados pela história do vinho do Porto e do próprio Porto por Barão de Forrester(1). Dessa visita resultou a "reportagem" que abaixo transcrevo, muito interessante sobre vários aspetos, mas sobretudo para entendermos como era e como se trabalhava no armazém desta figura tão proeminente na sua época, precocemente desaparecida de uma forma trágica.

 

**

«Sabendo que o Sr. Forrester tinha estabelecido no seu armazém da Ermida em Vila Nova de Gaia um caminho-de-ferro por onde girava um carro acelerado construído convenientemente para o serviço das vasilhas, levado pela curiosidade que nos promovera objeto tão novo, fomos à morada do Sr. Forrester; e seguro da dignidade que caracteriza este cavalheiro solicitamos de S. Sª o mostrar-nos o seu armazém e a permitir-nos presenciar o trabalho pelo seu novo sistema.


Não tínhamos a honra de contar-nos na tratabilidade do Sr. Forrester, e o nosso título de apresentação não passava do desejo, que assistia a uma pessoa, quase desconhecida deste patriótico comerciante. Faltávamos a um rigoroso dever se deixássemos de patentear como fôramos recebidos pelo Sr. Forrester, e pelo seu digno filho, da maneira que mais podia lisonjear-nos. S. Sª tiveram a nobre franqueza de mostrar-nos todo o seu estabelecimento, dando-nos civilizada e agradavelmente as necessárias explicações tendo nós a ocasião de ver que o novo mecanismo, que o Sr. Forrester apropriara ao seu armazém, aponta a passagem para o progresso naquela qualidade de trabalho.

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O armazém  de um comprimento de perto de 500 palmos, é cortado no centro por uma linha férrea das dimensões usadas nos caminhos de ferro ordinários. Por esta linha, que separa os seis rumos, que comporta a capacidade do armazém, percorre o carro acelerado pelo impulso, que pode dar-lhe a força de um ou mais homens conforme a necessidade o exija. Este carro mandado construir de propósito na Inglaterra debaixo da inspecão do Sr. James, filho do Sr. Forrester, compoem-se de dois corpos, estando num deles colocado um guindaste, que levanta as pipas ou para o 2º ou 3º corpo, a fim de serem transportadas para o ponto que se queira ou para a altura do lote, a que seja necessário eleva-las. O serviço assim feito substitui o trabalho pelo menos de três quartas partes dos homens, que se empregavam e empregam no sistema antigo. As lotações e os benifícios fazem-se com tal celeridade que a grande a conveniência do carro e do guindaste se torna evidentemente palpável. Para quem nos outros armazéns presencia a fadiga dos trabalhadores para fazer rolar as pipas levando-as a qualquer ponto determinado através do custoso impulso das mãos, vendo-as rojar pelo pavimento térreo com manifesta deterioração de todos os elementos, que as compõem, além dos grandes balanços, que o líquido sofre dentro da vasilha, estorvando a sua pronta depuração, não pode deixar de maravilhar-se que o Sr. Forrester achasse o segredo de acabar com estes inconvenientes tornando o serviço mais suave e reconhecidamente mais proveitoso para as vasilhas e líquidos armazenados. Para mais satisfazermos nossa curiosidade quisemos experimentar a impressão do movimento do carro através do carril de ferro, e com os nossos companheiros fizemos a carreira de toda a linha e foramos perfeitamente surpreendidos, podendo fazer ideia, se bem que aproximada, do trânsito das locomotivas nas vias férreas, de que só temos visto a descrição(2).

Seria bem para desejar que os comerciantes de vinhos seguissem o exemplo do Sr. Forrester, aproveitando os grandes resultados, que a ciência da máquina oferece ao trabalho, dando assim uma prova de que os adiantamentos daquela ciência não passam infrutíferos para nós.

Além da inovação do caminho-de-ferro, e do carro, que por ele percorre, que não pode alcançar todo o serviço a fazer no armazém, o Sr. Forrester introduziu no trabalho, que dirige, pequenos carros de mão adequados aos misteres. Os hoptrucks servem especialmente para transportas os cascos vazios, demandando apenas a pequena força de um rapaz. Uns de quatro rodas baixas, que se empregam na condução das pipas cheias para qualquer dos pontos dos terceiros rumos pelas diferentes coxias do armazém: e outros mais pequenos, que servem unicamente no trânsito ao vinho engarrafado, tendo a vantagem, além de se moverem com facilidade, serem construidos de modo tal, que a quebrar-se alguma das garrafas o vinho é recebido num depósito e aproveitado.

Não há só a notar no armazém do Sr. Forrester  as inovações, que deixamos mencionadas: além delas, a regularidade na colocação de todos os objetos para que apareçam de pronto quando necessários, concorre também muito para a singularidade do estabelecimento. As ferramentas e demais utensílios são todos no possível esmero do trabalho, não podendo deixar de promover um vantajoso resultado nas operações. Os utensílios, que se destinam à depuração das borras, são tão engenhosamente concebidos que produzem uma notável disparidade, comparados com os do sistema nos outros armazéns seguido.

Os armazéns de Vila Nova não sendo de construção subterrânea, como o são em outros países para ministrar aos líquidos a frescura de que necessitam, precisam de ser continuamente refrescados com água. Para esse refresco mandou o Sr. Forrester vir e emprega no seu armazém a bomba chamada force-pump, que o refresca e ao mesmo tempo as vasilhas que nele se acham, servindo também para bomba de incêndio.

arm2.png

 

Para estimular os sentimentos dos trabalhadores e infundir-lhes os preceitos da moralidade, que devem guiar o homem em qualquer posição, que se encontre, o Sr. Forrester mandou escrever na porta do armazém os dois preceitos que devem dirigir a conduta dos operários - O mérito será premiado - o vício será punido - Praticando estas duas saudáveis máximas, o Sr. Forrester todos os sábados recompensa monetariamente o trabalhador ou trabalhadores, que de recompensa se tornem dignos durante a semana.

Ao lado do armazém está a tanoaria, descobrindo-se nela o mesmo sistema de regularidade. O alimento dos trabalhadores é preparado em comum a troco de uma diminuta parte do salário a qual não excede a vinte réis diários, tendo assim aqueles por uma insignificante quantia um rancho excelente, muito mais barato e abundante do que o teriam feito por conta de cada um em particular, resultando, além desta vantagem do trabalhador a do Sr. Forrester que nos disse não prejudicar-se e conseguir para o trabalho o tempo que cada trabalhador perdia com o seu arranjo particular de comida, que pelo sistema adotado se faz convenientemente por dous aprendizes da tanoaria ou do armazém. Os aprendizes não concorrem para o rancho, que o Sr. Forrester lhes manda ministrar gratuitamente, concedendo-lhes de mais quatro horas por dia para poderem ir à escola. O Sr. Forrester leva tanto a empenho de interessar os operários no seu estabelecimento que ele próprio vigia a cozinha, procurando por todos os modos que o rancho seja tanto quanto ser possa agradável aos trabalhadores. O vinho dado de bebedagem é dado regradamente; mas na precisa abundância, não sendo negado de modo algum, quando o exige o cansaço do trabalho.
A economia na despesa é um feliz resultado de todas as combinações, em que a experiência do Sr. Forrester assentou o seu novo sistema. É assim que a boa prática de administrar pode reunir as reciprocas vantagens do trabalhador e do dono do armazém. Parece-nos que deviamos a nossos leitores a descrição do que viramos, pois que ela não será indiferente a parte deles, que na especialidade se empregam no importante ramo do comércio do vinho.»

**

do jornal O Comércio(3), de 30 de agosto de 1854.

 

1 - Título que apenas lhe foi atribuído no ano seguinte.

2 - Ainda não existia caminho de ferro em Portugal em 1854...

3 - Que a partir de 1855 passaria a diário com o nome O Comércio do Porto.

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Publicado originalmente no alojamento d' A Porta Nobre no blogspot em 23 de dezembro de 2012.

Imagens meramente ilustrativas do Arquivo Municipal do Porto.

 

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