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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

"TEM A PALAVRA O NOSSO VELHO PORTO"

A estátua do Porto foi construída inicialmente para o topo do palecete que albergou a Câmara Municipal e para ser admirada de baixo para cima a uma certa distância (digo isto porque a estátua não tem formas muito definidas precisamente por ser desnecessário dado o local para onde foi concebida). Após o seu apeamento aquando da demolição daqueles palacetes para dar início à abertura da Avenida das Nações Aliadas, andou ela "em bolandas" primeiro junto ao paço do bispo depois para os jardins do Palácio, depois para trás de um mamarracho moderno e agora, finalmente, com alguma dignidade, colocado perto do local onde inicialmente morara. Está contudo, em minha opinião, ainda demasiado perto da vista para se notar que não é propriamente uma obra prima pétrea; mas isso do mal o menos; vale pelo simbolismo que acarreta: a personificação da nossa cidade.

As palavras que se vão ler abaixo, extraidas da revista O Tripeiro, foram escritas por Arnaldo Leite em 1951. As palavras seguinte são minhas e datam de 2009, aquando de uma visita que fiz ao velho Porto, estava ele feito estilita, forçado a viver em cima da coluna...

As minhas não, mas as palavras de Arnaldo Leite são uma delícia de ler.

 

 

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"Estamos no Palácio de Cristal para cumprir as ordens de S. Majestade, El-Rei D. Pedro IV, que nos encarregou de falar ao Sr. Porto, guerreiro reformado, sem vencimento, e que vive por esmola num lugar triste, feio e ignorado dos jardins do mesmo Palácio.

- Quem anda aí? - perguntou o senhor Porto, quando nos sentiu os passos.
- Sou eu meu velho e querido amigo.
- Ah, logo vi. Parece que és a única pessoa que sabe o sítio do meu desterro.
- Desterro?! - repetimos nós a palavra, num arrepio confrangedor.
- Desterro, sim. Que é isto, senão a expatriação, o exílio, o degredo? Sou um exilado original, não achas? Desterrado dentro da minha própria terra... Tem graça!
- Vim em má ocasião. O senhor Porto está hoje muito pessimista.
- Pessimista? O que eu estou é desiludido. Transformaram-me num ceptro de pedra, com um escudo de papelão e uma lança de madeira. Que mal fiz eu aos meus filhos - ai queridos tripeiros da minh' alma - para receber a negra afronta de me sepultarem em vida? Olha para o triste cenário que me cerca. Por detrás, as grades de uma prisão; na frente, quase sempre, uma barraca de comes e bebes, e aos lados, troncos de árvores que, em noites de invernia, estendem para mim os seus tentáculos de insónia e desespero, fustigando-me com as folhas secas, amarelas, apodrecidas - tapete de lama e lodo, que me rodeia de humidade, de desconforto e de miséria. Porque me colocaram neste sítio, num sequestro de vilipêndio e de escárnio? Queriam trazer-me para o Palácio? Pois bem: colocassem-me no largo espaçoso e belo da entrada, ao centro, num pedestal elevado, rodeado de arbustos e flores, onde eu os visse a todos e todos pudessem ver este velho guerreiro que, desde 1819, é o símbolo sagrado desta antiga, muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto.
Sabes lá o que eu tenho sofrido durante a minha longa vida de 132 anos!
- Não esperava vir encontrá-lo tão azedo e revoltado senhor Porto.
- Eu logo vi! Até tu acompanhas a ladainha dos outros. Quando em me lastimo das afrontas que me fazem, quando eu exijo, com dignidade e razão, que me coloquem no sítio onde devo estar, atiram-me logo com o epíteto de revoltado. Irra, já é mania! Todas as outras minhas irmãs são tratadas com mimos e carinhos e rodeadas de mil atenções e obséquios. Nada lhes falta, é só pedir por boca. E eu, que sou o único homem da família, eu, que trabalho dia e noite para angariar o meu sustento e o delas, tenho de ver calar e sofrer. Ah, meu velho amigo, quando estava na Praça Nova, em cima do Edifício da Câmara, altivo, varonil, enérgico, senhor do meu valor e da minha força, as coisas corriam de maneira bem diferente.
Mas, em 1916, puseram-me fora de casa, deram-me ordem de despejo, e aí principiei a correr o meu calvário afrontoso, até chegar a esta situação triste e desoladora. Eu, que devia estar sempre mais alto que todos os outros, vejo-me aqui metido neste jazigo, nesta cova, para onde quem me visita tem de descer, quando devia subir, e subir muito, para poder chegar até mim. Verdade seja que ninguém me vem visitar. Nas noites de S. João, quando o picadeiro da Avenida se agita num mostruário de beleza e de encanto, aparece de longe a longe um parzinho que troca furtivamente um beijo, ou, então, alguma senhora que aproveita o esconderijo das árvores para repuxar a meia nylon e desembaraçar-se da cinta que a oprime e magoa, apertando-lhe o estômago e obstruindo a circulação do bacalhau cozido e da costeleta de porco. Nas noites de Feira Popular, as visitas são outras. Há muito ruído, mais alegria, mais vinho. E, por isso, à vontade, sem cerimónia, surgem fantasmas por todos os lados, que imitando os cães, e mesmo sem alçarem a perna, se entretém a humedecer-me o pedestal, cantando e rindo, numa atitude franca de irreverência de de alivio! Mas, quer seja a menina chique, ou simples gente do povo, o que é certo é sofrerem todos da mesma incultura, da mesma falta de educação e da mesma ignorância. Não sabem quem eu sou! Quem conhece o velho Porto? Ninguém!

Aproveitei aquele trágico "ninguém!" do Frei Luis de Sousa, para interromper o velho Porto e desempenhar-me da missão que me tinha incumbido Sua Majestade o Rei-Soldado.

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O Porto junto ao Paço Episcopal quando a edilidade portuense alugou aquele edifício para servir como Paços do Concelho.

 

-Ora bem! Essa reclusão, esse exílio, esse degredo vão terminar. O Senhor D. Pedro IV pretende abandonar o lugar que ocupa na Praça Nova. Trespassa o estabelecimento sem luvas e para qualquer negócio. E, como velho amigo e confidente do Sr. Porto, teria muita honra que fosseis vós quem o substituísse, encarregando-me de vos participar o seu desejo.
- Ah! Ah! Ah! - riu, com vontade, o nosso guerreiro - Quer ver-me no seu lugar, e para quê? Se não fazem caso de um rei, muito menos se dignarão reparar num pobre diabo como eu! Ele ainda tem o grande reclamo do bucéfalo, que é o maior atractivo do monumento; agora eu, que figura posso fazer, sem cavalo, sem patas, sem rabo e sem ter a carta na mão?! Nada, diz-lhe que não aceito. E tenho pena, porque ali, no centro da nossa querida Praça Nova, é que é o meu verdadeiro lugar. Quando o D. Pedro para lá foi, já eu estava à 47 anos em cima do edifício da Domus, vendo, analisando e presidindo a todas as manifestações de dor e de alegria, de amargura e de entusiasmo, de fracassos e de vitórias, de rebeldia e de perdão!
- Perdão! É o que peço por vos interromper, mas que pretendo saber é a resposta que hei-de dar ao senhor D. Pedro IV.
- Que ele continue na praça, ou que deixe o emprego, pouco me importa. Para lá é que eu não vou. E para onde tenciona ir sua Majestade?
- Não mo disse.
- Certamente irá para o Brasil. Foi de lá que ele veio, é de lá que ele deve voltar. Nas margens do Ipiranga, soltou o grito de: "Independência ou morte!"; depois, veio para as margens do Douro, gritar: "Liberdade e Constituição!"; e agora, com certeza, ao chegar ao Rio de Janeiro soltará outro grito qualquer, visto ser essa a especialidade de Sua Majestade. Diz que está desgostoso... Que hei-de dizer eu? Entre mim e ele há uma grande distância. O senhor D. Pedro IV foi uma figura que passou, eu sou uma figura eterna. O Rei-Soldado deve-me a mim, ao Porto liberal, o estar colocado no pedestal da fama e da glória. Custou-me muito. Perseguições, guerra, miséria, fome, tudo sofri para que ele subisse e triunfasse, alcançando a vitória que tantas vezes sentiu escapar-se e fugir-lhe para as hostes contrárias. Se não fosse eu, a minha indomável energia, a minha espartana coragem, quem estava na Praça, em cima do mesmo cavalo, com a mesma farda, com a mesma espada e com o mesmo chapéu era o mano Miguel, cuja falange de combatentes era também aguerrida e com muitos simpatizantes.
- O senhor D. Miguel estaria lá com isso tudo, como o senhor Porto diz, mas o que nunca podia, ter na sua mão direita, era a Carta Constitucional, verdadeira cartilha de regalias de um povo.
- Sim, é verdade. - confirmou o velho Porto - Não tinha essa tal carta, cartinha ou cartilha, como tu dizes, mas podia segurar na mão um livro de missa e um rosário, armas que ao senhor D. Miguel, serviam para conquistar a terra e o céu. E, agora, deixa-me em paz. Prefiro viver a minha dor a sós comigo. Passo horas e horas a relembrar o meu glorioso passado e, quantos mais recordo, mais choro o meu negro e amargurado presente. Para que havia eu de voltar para a Praça Nova se, como já te disse, ninguém sabe quem sou e ninguém me daria a esmola de um olhar!...
- Está o senhor Porto enganado. Eu não lhe vinha falar, se não tivesse dentro do cérebro uma ideia genial, um projecto maravilhoso que me garante a certeza de que toda a população da cidade o vai olhar com respeito e admiração.
- Isso é lá possível!
- É. O meu querido Porto vai figurar na Praça em substituição do senhor D. pedro IV, tal qual como está aí, com esse capacete, com essa clâmide, com essa lança, com esse escudo e...
E nada! - berrou o simbólico guerreiro, algo irritado - Se apareço tal qual como estou, continuo a ser um ilustre desconhecido.
- Confie em mim. Há só uma pequena alteração a fazer. É a seguinte: o escudo que o meu velho amigo tem à sua esquerda, e que está em branco e nada diz, será utilizado para publicarem nele as sensacionais notícias desportivas. E, quando aos domingos, o povinho tripeiro, no meio de intensa e febril curiosidade pudesse ler, nesse escudo glorioso: - "Porto, 5; Benfica, 2", o senhor verá com que alegria, com que entusiasmo, com que delírio o aclamam aos gritos de:- "Viva o Porto! Viva o Porto! Viva o Porto!"
- Olhe lá, ó menino, isso é verdade?
- Acredite no que lhe digo. Eu conheço a gente da minha terra.
- Se assim é, conta comigo. Vai dizer ao senhor D. Pedro IV que aceito a transferência e lhe agradeço a lembrança. (..)»

Arnaldo Leite in O Tripeiro, 5ª Série, ano VII (1951)

 

Ontem fui eu mesmo visitar o velho Porto. Encontrei-o, penso, mais triste e amargurado do que Arnaldo Leite há 58 anos atrás.

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Deu-me dó ver o desprezo e o abandono a que votaram o Porto. Ali está ele, virado para uma parede de vidro, suja; uma casa(?!) fechada, onde nada se descortina lá dentro. Onde não há vida, não há movimento, não há nada!

Sempre era melhor o terem posicionado ao contrário, para poente. Pelo menos, quem passasse na rua de S. Sebastião poderia contempla-lo ali, altivo, mostrando com orgulho o seu peito pétreo! Fazendo com isso o que Arnaldo Leite tão bem evocou,

 

SOBRE O MONUMENTO A D. PEDRO IV

Desloquei-me recentementa à Feira do Livro nos jardins do defunto Palácio de Cristal procurando um bom negócio nos alfarrabistas sobre um volume que já tive nas minhas mãos várias vezes e estupidamente não adquiri... e o destino a rir-se de mim fez com que por lá o não visse. Dei de caras contudo com outra precisidade! Um obra de Magalhães Basto que já andava a namorar há algum tempo. E nele aprendi umas coisas sobre a estátua equestre do rei (por três dias) D. Pedro IV. Os apontamentos que se vão ler abaixo são todos extraídos desse valioso livrinho.

 

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Não obstante a primeira pedra para este monumento ter sido lançada em 9 de julho de 1862, apenas em Novembro do ano seguinte foi aprovado o modelo vencedor do concurso tendo o mais votado sido o de Anatole Calmels. Este senhor comprometeu-se a esculpir a estátua equestre e os dois baixo relevos que se situavam por baixo dele por vinte contos de reis. A Câmara ficava responsável pela construção da parte arquitetónica da base da estátua (que ficou a cargo de Joaquim Antunes dos Santos) segundo o risco do próprio Calmels. Os baixos relevos seriam esculpidos em mármore de Carrara, cada um deles de uma só pedra e a estátua fundida em bronze que seria montada no local pelo artista.

A própria realeza contribuiu com verbas para esta causa tendo o rei D. Luís contribuido com um 1.000$000 rs. e D. Fernando (rei consorte, viúvo de D. Maria II) com 500$000 rs. A restante quantia foi obtida através de um empréstimo autorizado pela Câmara dos Pares em Maio de 1863.

Apesar de Camels ter vencido o concurso foi necessária proceder a uma correção ao seu modelo. É que figurava no baixo relevo que representava desembarque no Mindelo o comandante de Caçadores 5 como sendo a pessoa que recebera a bandeira das mãos de D. Pedro o que não era exato dado ter sido D. Tomás de Melo Breyner, à época um simples soldado e logo promovido a alferes.


Quando o modelo em gesso desta peça chegou ao Porto nos inícios de 1864 foi necessário efetuar nova correção. Nele não estavam os chapéus de D. Pedro e seus ajudantes recobertos de tela encerada pois o autor da obra afirmava que se o fizesse não conseguiria molda-los de forma a parecerem chapéus mas apenas o de um aglomerado de massa que ficaria irreconhecivel a certa distância. Magalhães Basto refere que apesar da opinião do estatuário não ter prevalecido, olhando para a pedra se vê que ele tinha razão pois todos os chapéus de dois bicos à exceção de um não tem chapéu envolvido naquela cobertura.

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As pessoas que se encontram à volta de D. Pedro eram, segundo Calmels, o Conde de Sobral, o Marquês do Ficalho e o Conde de Campanhã ligeiramente ocultado. Estas pessoas tinham prometido posar para o modelo grande. À esquerda do homem que está a receber a bandeira era António de Passos Almeida Pimentel, Barão de Grimancelos. A Comissão responsável pela gerência desta obra obrigou o autor a mudar este último pois na realidade a pessoa que pretendia representar - Luís Pinto de Mendonça Arrais, Visconde de Valongo - não era tão agigantado nem usava barbas crescidas mas apenas suiças. Quanto ao porta-estandarte - Tomás de Melo Breyner - a Comissão exigiu que fosse corrigido o correame que deveria ser de caçador enão de infantaria: uma só correia preta no ombro esquerdo que segura a patrona, e o mesmo se deveria estender a todas as praças do mesmo corpo que ali figurassem. Para além disso os Voluntários da Rainha não tinham na barretina outra chapa mais do que uma simples corneta com a legenda D. Maria 2ª.

 

Calmels não se portou muito bem e alongou demasiadamente o começo dos trabalhos e só depois de receber uma carta azeda do Visconde de Lagoaça é que o mesmo deitou mãos à obra. Sendo certo que por esta altura o artista, que morava em Lisboa, teve de abandonar o atelier que tinha montado no corpo da igreja e capela-mor de S.Bento (atual Assembleia da República) e isso tenha também contribuido para o atraso. Calmels lá consegiu ficar ali por mais uns meses e inclusivé conseguiu autorização para ocupar duas capelas laterias da igreja agora reduzida a atelier.

 

Por azar o artista sofreu um acidente e isso mesmo refere numa carta ao Visconde de Lagoaça, cheia de ressentimento: «Parece realmente que tudo se liga para me impedir de trabalhar, e é preciso que eu seja tão artista como sou, para não perder a coragem. Nem V. S.ª nem a Ex.ma Câmara se importaram com as dificuldades que tenho tido a vencer; poderia eu mesmo ficar estropiado ao vosso serviço, e impossibilitado de continuar a minha carreira, e nem sequer se dignaram informar-se da gravidade do meu acidente, quando Suas Majestades tiveram a amabilidade de se inquietarem com isso...»

 

A estátua foi fundida em Antuérpia, pesa 5.500 Kg e tem de alto 4,5m (com a altura do pedestal, que é de 5,5m, vem o monumento a ter a altura total de 10m). Viajou da Bélgica para Lisboa em peças no vapor Rhone, tendo chegado à estação das Devesas (ainda não havia comboio no Porto) em 21 de setembro de 1866. Logo iniciou o artista a sua montagem, no chão junto ao pedestal. No dia 29 faltava montar a peça que constituía o dorso da figura do rei. Isso foi conseguido a 4 de outubro, auxiliado por um guindaste emprestado pela Escola Politécnica de Lisboa, e grossos cabos e correntes de ferro do Arsenal da Marinha e um cabo forte emprestado pelas obras do Paço dos Estudos do Porto (a antiga faculdade de Ciências).

O monumento foi finalmente inaugurado em 18 de Outubro de 1866 pelo rei D. Luís e seu pai D. Fernando.

 

Já ao tempo de Magalhães Basto os baixo-relevos encontravam-se depositados no Museu Soares dos Reis, para onde foram levados após terem sofrido sevícias de alguns idiotas (no blogue Do Porto e não só poderão ver uma foto deles) e no seu lugar temos agora réplicas de bronze(?). A bandeira que um dos baixo relevos representa estava também no museu Soares dos Reis quando Magalhães Basto escreveu contudo não revalido a informação do autor - datada de 1945 - pois desconheço se ainda é verdade ou se a mesma já transitou para algum outro museu, quem sabe até de cariz militar.

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Fotografia do modelo que ganhou o concurso em 1862

 

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Bibliografia: Silva de história e Arte

OS CARROS AMERICANOS NO PORTO

(Nota prévia: estas linhas foram escritas em 1946)

 

«A municipalização dos transportes eléctricos, que está em curso(1), trás-me à lembrança o que foram tais serviços já que tão velho sou, e que não fujo à regra de a minha amnésia ser dos factos de ontem - não dos da infância.

 

Eu sou do tempo das duas companhias de americanos: Carril do Porto à Foz e Matosinhos, e a actual Carris. A primeira tinha a via desde os Ingleses à Alameda de Matosinhos, com um ramal de Massarelos à Cordoaria; a segunda desenvolvia-se pela cidade sem os longos percursos que hoje tem, mas já ia a Matosinhos, pelo antigo Juncal de Baixo, até ao rio Leça. o salgado, hoje, substituído nesse ponto, pela doca.

 

Da Cordoaria partia o americano para Massarelos; a ordem de partida era dada com uma corneta, que era usada no percurso como sinal acústico.

 

A Carris usava o apito.

 

Os trilhos das duas não se ligavam; eram vias independentes, a certa altura as Companhias fusionaram-se.
O serviço era perfeito. Punha-se então em contraste com o péssimo da capital. Não havia o movimento de passageiros que hoje há, o povo não utilizava os carros; a vida decorria sem pressas.

 

Na linha de Circulação e Ingleses a Costa Cabral, faziam serviço uns americanos pequenos, que ainda hoje, aumentados nas plataformas , se vêem rebocados como bagageiros(2).

 

O acidentado da cidade impunha os sotas em diversos sítios, até para subir a pequena rampa da Carvalhosa, havendo mudas de muares no Bolhão, onde hoje está a continuação de Sá da Bandeira, cujo lado ocidental era quase todo ocupado por cocheiras.

 

Mas tudo era perfeito, matemático.

 

Naqueles americanos pequenos parecia ir-se em família! Levavam a subir da Praça até ao Marquês de Pombal uma boa meia hora - só esta enormidade! - mas porque os carros eram frequentados por pessoas que tinham residência para tais lugares, então considerados muito afastados, viajava-se com satisfação em companhia amiga.

 

A dificuldade de tiragem dos americanos grandes, com dez pessoas em cada bancada lateral, pelos Clérigos e Carmelitas, exigia três e quatro sotas em parelha. Não obstante, o serviço, era pontual, e da Praça de D. Pedro a Matosinhos era uma hora precisa e só custava 120 rs.

 

Na Rotunda, sede da Companhia, ligavam-se os carros, pois outros partiam do Carmo; formava-se o comboio, rebocado por uma máquina, que no Inverno só ia, nesses longínquos tempos, até Cadouços; aqui, a um carro engatava a parelha de muares que o levava a Matosinhos, enquanto a máquina esperava. Depois, com o desenvolvimento populacional de Matosinhos e Leça, seguia o comboio até ao final.

 

Que beleza a das Carmelitas, com o túnel formado pelos ramos de árvores! Um céu de folhas! Era a cerca do Recolhimento do Anjo. Beleza que a civilização repeliu...

 

Foz, Matosinhos, e Leça não eram os aglomerados populacionais de hoje; antes constituíam lugares tranquilos, de pouca gente, que se não deslocava como agora, mas só por uma absoluta necessidade. Os meios de transporte e o tempo perdido a tal não convidavam...

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Fazia gosto no Inverno visitar essas estâncias, pois ouvia-se cantar o mar num sossego terreal, sem a sineta dos eléctricos, o barulhos das fábricas, o sinal acústico dos autos, o movimento intensivo comercial ou industrial. Vivia-se a vida do marítimo, quando em terra a cuidar das suas rêdes.

 

Com que saudade me lembro de ir até Cadouços com meus pais, almoçando-se no restaurante que havia no edifício que se encontra em tal largo, em meia-laranja, agora habitação de empregados da Companhia, infelizmente deterioradissimo(3). Num sossego paradisíaco, via-se o oceano, ouvindo-e o seu marulhar! Esperava-se a vinda do americano que tinha ido a Matosinhos.

 

Para dar facilidade aos passageiros, como não dispunham de uma ponte de pedra no términus, como os da Carril, a Carris estabeleceu uma rampa de madeira até ao rio; aí, uma barcaça à vara, com assentos ao comprido, laterais e centrais, transportava os passageiros à outra margem, onde se subia uma escada para o areal, unicamente coberto nas marés; depois é que a ponte se ligou, fazendo-se o percurso seguido e em plano horizontal. Um grande melhoramento!

 

A colónia balnear de Leça e Matosinhos era limitada a gente quase toda cá do Porto, de modo que pela manhã, principalmente nos comboios das 8 horas e meia, 9 horas, de Matosinhos, (pois eram de meia em meia hora), viajavam sempre as mesmas pessoas, que, constituindo assim um agrupamento conhecido, vinham a esta cidade aos seus negócios ou empregos. Nesses comboios formados por três ou quatro carros, era em Matosinhos logo tomado o carro da frente, por ser o único que vinha à Praça. Regressava-se pelas três, quatro horas da tarde. Viver feliz em que se jantava às três, quatro horas - pois às cinco era luxo de que se desconfiava ou causava admiração!... A colónia inglesa é que jantava mais tarde.

 

Os americanos eram de várias cores, sem a uniformidade dos actuais eléctricos; iluminados a estearina aos cantos superiores direitos, tais luminárias davam uma luz mortiça para dentro; para fora, a luz era coada por vidros de cores, que deslizavam entre dois encaixes metálicos e horizontais, e combinavam as cores que indicavam os destino, lembrando-me que vermelho e verde era Matosinhos; tais cores condiziam com as das tabuletas, indicando o mesmo destino, embora tivessem o nome do lugar para onde os carros seguiam.

 

Foi um sucesso o novo carro 58, pintado a vermelho e branco e que apareceu iluminado a petróleo. Até parecia dia, lá dentro! Nem o bico Auer, quando surgiu nos candeeiros de iluminação pública, na rua de Santo António!(4) Que saudosos tempos!

 

A municipalização dos transportes(5) levou-me a recordar o passado e a pensar no que será o futuro. Pelo menos, o aumento populacional exige que os carros se multipliquem, pois ao presente é um incomodo neles andar, especialmente a certas horas; não satisfazem as necessidades públicas. Devem-se prolongar para Ramalde, Barreiros, Oliveira do Douro, igreja de Paranhos, Boa-nova e Lavadores; devem descongestionar-se as linhas usadas por eléctricos na mesma direcção, e que podem servir outras ruas alcançando o seu destino, pois os transportes colectivos são para servir o público - e por isso se municipalizam.»

Dr. Wendel dos Reis in O Tripeiro, Série V, ano I, Jan/1946

 

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(1) - Aquando da escrita destas linhas a Câmara Municipal efectuava o resgate da concessão de exploração à CCFP (Companhia Carris de Ferro do Porto), passando esta a ter a designação que perdura de STCP. Só em 1948 a STCP introduziu autocarros no seu serviço.

(2) No Museu do Carro Eléctrico podemos ver um desses carros, o 22, se bem que restaurado como carro motor.

(3) Esse edifício já não existe.

(4) Actual 31 de Janeiro.

(5) Ver nota 1.

 

NOTA: Publicado inicialmente em 2/NOV/2009 e 13/NOV/2009 no blogspot.

ATRIBULAÇÕES DE UM BAILE

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Continuando a trasladação das notícias pitorescas do século XIX que estavam alojadas no blogspot, segue agora um episódio que aconteceu por altura de um baile dado pelo Visconde da Trindade. Este título foi criado em 1852 por D. Maria II em favor de José António da Sousa Basto que foi presidente da Câmara Municipal do Porto em 1854-55 (ao lado podemos ver o seu brasão, via Wikipedia). Relembro que há bastante probabilidade de esta notícia ter sido escrita pelo punho de Camilo Castelo Branco. Relembro também que por esta altura começavam a aparecer em força os viscondes e barões... (lembram-se de Almeida Garret e a sua célebre frase Foge cão que te fazem barão! - Para onde se me fazem visconde!?).

 

A notícia é insignificante... mas foi mais uma vez transformada num apontamento literário que a nós, portuenses do século XXI, abre uma pequena janela para o XIX. Segue então a notícia:

 

« Um baile é um grande acontecimento; senão que o diga a azáfama de um grande número dos que sábado concorreram ao dado pelo Sr. Visconde da Trindade. Vêem-se rostos risonhos, olhares serenos, e ningém calcula as atribulações sofridas, os martírios desde o do espartilho e de um gancho rebelde, que se enterra na bossa do amor, (que fica, salvo erro, acima da cova do ladrão) até à do sapato de verniz, que entala o joanete e esmaga um calo a ponto de fazer ver em cada vela dez lumes; todas as tiranias: a do alfaiate, a da costureira, a do sapateiro, do cabeleiro, de todo o mundo.

Sábado, passava já da meia noite, encontramos uma pessoa do nosso conhecimento coberta de suor e soltando mais juras que o capitão Febo. Chegado havia uma semana de uma terra do Minho, onde exerce um emprego de magistratura, não lhe passou pela ideia, ao abandonar os seus administrados, que havia um baile no Porto, e menos que a dona de uns lindos olhos castanhos, uma amável e prendada menina com quem ensaia o estilo epistolar, há tempos, havia de lhe pedir que fosse o seu par na primeira contradança que ele dançasse. Não prevendo nada disto, e fazendo tenções de apenas residir na Foz, veio com meia encardenação: sem casaca.

Sábado de manhã, recebeu a missiva com a exigência a que aludimos, e veio ao Porto. A primeira coisa de que tratou foi de arranjar um convite, e correu Seca e Meca, até que o bem-aventurado pedaço de cartão espelhado lhe caiu nas unhas. Obtido o bilhete de ingresso era necessário a roupa de baile; e eis o pobre bacherel com mais cólicas do que nunca tivera em vésperas de sabatina, depois de uma semana de cábula, a experimentar todas as casas e todas as calças pretas dos armazéns de fato feito. Estava em pecado. Casaca, que lhe servisse, não havia: umas eram largas, outras apertadas; umas curtas, outras peadas. Foi preciso que um dos alfaiates, vendo a sua aflição, se encarregasse de lhe dar voltas a uma, de sorte que ficasse jeitosa, e não faltou à promessa, mas deu-lha apenas alinhavada, às nove horas da noute. O nosso conhecido, depois de andar em cata de outros aviamentos, foi dar consigo em casa do Pereira. Frisou-se, eram dez e meia para as onze; meteu-se na sege, que à custa também arranjara, e ia já a rodar pela Calçada dos Clérigos, quando se lembrou de que se esquecera, no meio das suas atribulações, de comprar um par de luvas brancas. Voltou à rua de Santo António e ei-lo a mandar bater pelo boleiro à porta das luveiras que se tinham fechado. Abriu uma: pediu luvas de sete e três quartos; mas as luvas dessa marca tinham-se evaporado, e o nosso homem, que se impacientou e saltara da sege, para as escolher, tinha apanhado na cabeça nada menos do que a água da chuva toda que vomitava uma caleira.

Parodiando o rei Ricardo, o pobre namorado ofereceria o seu reino por um par de luvas, se tivesse reino.

Lembrando-se que havia ainda um luveiro, à porta do qual não batera, corre lá, entra e acha as luvas. A fatalidade porém perseguia-o; quando para se furtar a segundo banho ia a correr para a sege, em vez de por o pé no estribo, põe-no em falso, e ei-lo de barriga em cima do macadam e por baixo do carro. Estava impossibilitado de ir ao baile; todo o suor de um dia fora inutilizado. A casaca sorria-se pelas costas, mas com sorriso traiçoeiro, mostrando em vez de dentes o forro mal alinhavado; as calças, enlameadas, abriram um postigo, e o joelho mal coberto pela ceroula deitava a cabeça de fora, como vizinho, que sente assuada na rua, e se embrulha no lençol para indagar o motivo.

O pobre namorado perdera a ocasião de ver a sua bela, e muitas outras belas coisas de que um baile sempre abunda. E perdeu; que nos dizem haver ali muito brilho. Sobre toda a grandiosidade da festa de que ouvimos falar com admiração aos jubilados na etiqueta tornou-se notável a concorrência da nobreza dos pergaminhos que não desdenham ir solicitar as salas do Sr. Visconde, enriquecidos pelo trabalho, a mais elevada a mais sólida origem de toda a aristocracia. »

De O Clammor Publico, 6 de Outubro de 1856

A FONTE DAS CONGOSTAS E O TRISTE FIM DO SEU BRASÃO

Esta publicação vem em sequência de uma anterior (ver aqui) onde é referida a fonte das Congostas. Tal como nela, não me perco em considerações e permito logo de início a Pedro Vitorino "falar" em pleno.

 

 

EXCERTO

«Deve datar dos princípios do século XVIII a construção da Fonte das Congostas, que a abertura da rua do Mousinho da Silveira fêz desaparecer de 1882 para 1883.


As feições arquitectónicas do renascimento condizem com essa época. O alçado constava de um corpo central com uma forte cimalha apoiada em colunas canuladas, com capiteis de inspiração coríntia, sobrepujado por um frontão de remate circular, onde se encostavam, na frente e aos lados, três golfinhos de bocas hiantes; lateralmente, pequenos corpos, com tímpanos curvos de ligação, limitados por pilastras. As bicas eram rasgadas no meio de cartelas exuberantes, com contornos de feição flamenga. Conjunto de linhas muito equilibradas e de formoso aspecto.

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O escudo real, do tipo adoptado por D. João III, não corresponde à época da construção. Deve ter pertencido a uma fábrica anterior, possivelmente mais modesta. Dêste brasão, ou de um outro igual, talvez de menor tamanho, há uma pequena história a referir. Tendo sido em tempos poupado da destruïção, houve a louvável ideia de o colocar numa pequena casa que servia de pôsto da guarda municipal no Bonfim, ao lado da escadaria da igreja. Com o advento da República, a febre insensata de abater os símbolos do antigo regime levou à barbaridade de lhe ser picada a coroa, mutilação que só numa terra de néscios poderia admitir-se, visto ser um documento arqueológico digno de figurar num museu.
 
Apesar da municipalidade possuir um estabelecimento dêste género, quando há pouco tempo se transformou a casa no nicho de uma imagem a Santo António, o Museu não foi lembrado, indo parar a pedra armoriada, com outras do pardieiro, às obras de uma nova rua, para as Antas, onde a converteram em cascalho. Isto passou-se em 1929. É bom recordar os inúteis esforços que Rocha Peixoto fêz, quando conservador do Museu Municipal (no período de 1900 a 1909), para que êste estabelecimento fôsse "convidado a emitir opinião" sempre que se tratasse de velhos edifícios a demolir, a fim de que a cidade do Pôrto não ficasse desconhecendo o seu passado. Se  isso se observasse, como convinha, de então para cá, seria o Museu um arquivo-documentário bem mais rico do que presentemente é.

A fotografia da fonte das Congostas mostra, na bica do lado esquerdo, insculpida, a palavra Paranhos, em concordância com a indicação já referida em 1669 pelo P.e Baltasar Guedes(1); mas não era só a água dessa origem que a alimentava, pois obtinha refôrço com água vinda do chafariz de S. Domingos, formada por uma mistura de Paranhos e do Laranjal.
 
Lembrarei que por portaria de 21 de Dezembro de 1821 se determinara que nas fontes públicas que tivessem duas bicas, uma fôsse destinada aos particulares e outra aos aguadeiros, para o que haveria dizeres indicativos. A fotografia mostra bem essa separação: junto de uma das bicas agrupam-se os longos canecos dos aguadeiros, que se enchiam por intermédio de um cano, móvel, de fôlha.

Os aguadeiros, na totalidade galegos, levavam a água às casas transportando-a nos seus característicos canecos. Como notou Alberto Pimentel no Guia do Viajante no Porto (1877), "os aguadeiros portuenses não andam pela rua oferecendo agua, como os de Lisboa. Estão afreguezados, e levam a agua todos os dias a casas certas. Usam chapeu desabado, ou boné, jaqueta com chapa [numerada, seguramente] e enormes sapatos, quasi redondos, presos com atilhos sobre o peito do pé". Para completar a descrição, direi que o aguadeiro, figura típica há muito desaparecida do Pôrto(2), prendia ao ombro esquerdo um pedaço de couro, onde o caneco assentava para o transporte.»

in O Tripeiro, 4ª Série, Maio de 1931

 

fontecong.jpg

Acima podemos ver um pormenor da Terceira folha da planta entre a Porta Nobre e o Cais da Alfândega - guardada no ADP - onde se vê o local da fonte das Congostas. Como se pode constatar, encostado a ela estava um dos passos idênticos ao que ainda hoje vemos encrastado no muro que sustenta a igreja de S. Francisco (a uns 50 metros de distância deste local). Vemos também que quer a fonte quer o passo se encostavam a casas agora inexistentes e que corriam no seguimento das da margem norte da rua do Infante (margem onde se encontra a Feitoria Inglesa).

Abaixo, com a ajuda do googlemaps podemos ver sensivelmente onde a fonte se localizava em relação à atualidade.

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1) - O autor refere-se à obra de 1669 deste prelado intitulada Memória de todos os aqueductos, chafarizes e fontes da cidade, onde é referido que a água para as Congostas vinha pelo aqueducto de Paranhos.

2) - Para um melhor entendimento e contextualização da observação de Pedro Vitorino tenha-se em consideração que este escreve em 1931.

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