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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

O PORTO EM 1883 (n.º 3)

Continuação da publicação anterior:

 

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«São espantosos os progressos do espírito de associação no Porto. Há ainda mais associações novas do que novas ruas. Perde-se a imaginação no abismo de tantas designações diversas: Sociedade Alexandre Herculano; Sociedade de Beneficência D. Luís I; Sociedade de Beneficência D. Pedro V; Associação Artística Portuense D. Maria Pia; Associação de Beneficência D. Fernando; Associação Humanitária Infante D. Augusto; Associação Liberal D. Pedro IV; Associação Liberal do Príncipe D. Carlos; Real Associação Restauradora de D. Maria Pia; Associação Vila-Novense Fé, Esperança e Caridade; Associação Católica; Associação Firmeza e Aliança; Associação Fraternal de Beneficência Universal; Associação Fraternal do Infante D. Afonso; Socorros Mútuos de Ambos os Sexos do Porto; Luz e Auxílio; Nova Euterpe; Sociedade Camoniana; Tecidos dos Operários do Porto; Amadores Vila-Novenses; Restauração de Portugal; Protetora do Porto; Beneficente Fúnebre Familiar; Sociedade Talma; Sociedade Parturiente Fúnebre; etc., etc., etc. Conto muito para cima de cem e afundo-me na voragem tenebrosa das mais devoradoras conjeturas ao querer interpretar o sentido dos títulos da maior parte delas.

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A de Socorros dos Sexos, Por exemplo, faz-me ourar a cabeça. A Tecidos de Operários arrepia-me os cabelos de horror. A divisa demagógica do sangue do último dos padres bebido pelo crânio do último dos reis parece-me aqui invertida para o lado dos conservadores, de um modo não menos canibalesco. Enquanto uns beneficiam toda a real família, desde o finado Pedro IV até à tenra vergôntea D. Afonso, apoiados na católica, nas três virtudes teologais de Vila Nova de Gaia, na luz e auxílio e, porventura, na própria firmeza e aliança, outros põem tabuletas de tecidos de operários e fornecem talvez dobrada de classes trabalhadoras com ervilhas aos restauradores da senhora D . Maria Pia!


Que fazem no entanto os beneficentes fúnebres familiares? Iluminam com lutuosos círios amarelos a agonizante bisca doméstica? Cantam aos pianos da Rua das Flores responsos de sepultura? Ensaiam no Jardim de S. Lázaro enterramentos simulados, de amadores, por companhias de defuntos curiosos? Organizam merendas de pingos de tocha pelo rio acima, em regatas de caixão à cova? Passeiam de corpo à terra, em berlindas de segunda classe, pela Rua de Trás da Sé? Ou cruzam os braços inertes no peito dos balandraus, hirtos, com dois rádios em X no laço da gravata, vendo circular os enganos e as ilusões da vida pela Calçada dos Clérigos em frente do António das Alminhas?!


Que devo pensar da Parturiente Fúnebre, ó meu Deus? Qual pode ser na terra a missão dos dignos sócios desta conspícua assembleia, adornada da sua respetiva presidência, dos seus dois secretários tesoureiro, cartorário e cobrador?... Desisto de o investigar.


Do número das sociedades recreativas desapareceu a velha Filarmónica, templo da antiga arte musical da cidade do Porto, santuário célebre onde receberam o primeiro batismo de semifusas tantos meninos prodígios e tantas donzelas que o Método Carpentier, manuseado com ardor, levou aos grandes triunfos da arte em convívio familiar na Rua da Fábrica, e onde se coroaram com os seus primeiros louros tantos músicos célebres, como o Francisco Eduardo da Costa, o Francisco de Sá Noronha e as grandes dinastias artísticas dos Ribas, dos Arroios, dos Napoleões.


Persistem ainda o Clube Portuense e a Assembleia Portuense, e há vários clubes novos, como o Real Clube Naval, o Real Clube Fluvial Portuense, o Clube Ginástico, o Clube dos Caçadores e o Clube dos Progressistas, assembleia de recreio fundada por operários e regularmente frequentada por eles e pelas suas mulheres.

 

De entre todas estas associações, sintomas mais ou menos característicos do estado da civilização portuense, sobressai, como instituição de primeira ordem, em competência no País, a Sociedade de Instrução do Porto. Fundada para vulgarizar ideias e espalhar noções, a Sociedade de Instrução tem cumprido brilhantemente a missão que se propôs, e ela só, em quatro anos de existência, tem feito mais para o progresso dos conhecimentos do que os inmassarelosCandal.JPGstitutos oficiais de natureza análoga, todos juntos. No fim do primeiro ano da sua instalação, o presidente José Frutuoso Aires de Gouveia Osório resumia o movimento dos trabalhos empreendidos nos seguintes termos:

 

«O conselho científico, fiel intérprete da nossa lei, tem procurado com a mais louvável assiduidade estudar todos os meios de preparar fáceis soluções para os problemas da pedagogia, que absorvem a atenção de todos os pensadores. Na sua solicitude organizou o regulamento interno; fundou a nossa biblioteca e o seu gabinete de leitura, que hoje conta cento e catorze gazetas e publicações periódicas, e muitas centenas de volumes, alguns valiosos e raros; criou a Revista, de que se publicaram já seis números com duzentas e dez páginas; ordenou a aquisição de uma coleção-modelo para os jornais de infância, segundo o método Froebel; encetou a formação de uma bibliografia portuguesa de livros de ensino; começou o estudo e análise dos compêndios geralmente adotados, recomendando os melhores, o que é certamente um dos maiores serviços que pode prestar-se à pedagogia nacional; apreciou minuciosamente e louvou o compêndio de geografia, original do nosso muito ilustre sócio Augusto Luso; encarregou à provadíssima competência do nosso zeloso secretário-geral, o senhor Joaquim de Vasconcelos, um projeto de organização do ensino técnico com aplicação às escolas de instrução primária; investigou e discutiu detidamente as condições do ensino primário e dos exames de admissão, nomeando uma comissão para formular o programa de um livro de leitura; considerou a importantíssima questão da ortografia nacional; finalmente, uma das duas secções prepara uma exposição de história natural, que será, como creio, o ponto de partida para a organização de um museu, onde se reunirão objetos e meios de estudo sempre necessários para os que pensam em alargar os limites da educação.

 

Depois deste discurso (1881) a Sociedade de Instrução do Porto levou a efeito, com grande êxito, a exposição de história natural, a exposição de cerâmica, a exposição de indústrias caseiras e a exposição de ourivesaria, factos de um interesse incomparável para o estudo da natureza em Portugal, para a história do trabalho industrial, dos costumes domésticos, das tradições artísticas e das aptidões plásticas da família portuguesa.


A magnífica exposição de louças nacionais e a das principais indústrias tradicionais do povo reuniram os mais numerosos, os mais raros, os mais importantes documentos do génio artístico e da filiação estética da raça lusitana. E todos ou quase todos esses documentos foram minuciosamente e zelosamente estudados por alguns membros da corporação e especialmente pelo secretário da sociedade e o seu principal boute-en-tain, o senhor Joaquim de Vasconcelos, o mais competente e o mais erudito dos nossos críticos de arqueologia e de arte. A Revista da Sociedade de Instrução publicou por ocasião de cada uma das exposições, organizadas sob a sua valiosa iniciativa, as mais interessantes e preciosas monografias sobre as rendas portuguesas, sobre a indústria da olaria, da faiança, da porcelana e da louça de barro grosso, sobre os estofos, sobre os móveis, sobre a joalharia, sobre as alfaias e sobre as vestimentas nacionais.

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Além de trabalhos originais contendo a análise de documentos inéditos e estudos de coisas novas, a Revista tornou conhecidas as mais completas bibliografias de todos os trabalhos correlativas esquecidos nas bibliotecas, nos arquivos e nos cartórios do País.

 

No tomo vastíssimo de informações preciosas prestadas aos estudiosos e ao público pela Sociedade de Instrução do Porto encontram-se ainda trabalhos especiais consideravelmente importantes sobre a reforma do ensino, especialmente do ensino artístico e industrial, sobre a organização das escolas, do professorado, das galerias e dos museus, sobre os costumes e as tradições nacionais, sobre a língua e sobre as formas populares da arte, sobre a aprendizagem por oficias, e enfim sobre todos os mais importantes problemas da pedagogia moderna.


Nem as duas casas do Parlamento na discussão das sucessivas leis de instrução primária e de instrução secundária, feitas, desfeitas, refeitas e contrafeitas durante os últimos vinte anos, nem a junta consultiva ou a Direcção-Geral da Instrução Pública, nem os ministros, nem os deputados, nem os chefes de repartição, nem as comissões de estadistas, de professores, de curiosos e de vadios, tantas vezes convocadas, reunidas e louvadas nas dependências oficiais do Ministério do Reino ou das Obras Públicas, produziram jamais coisa que se compare aos relevantes serviços despremiadamente prestados à educação pública pela livre e espontânea iniciativa da esclarecida e benemérita Sociedade de Instrução do Porto.»

 

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(continua)

O PORTO EM 1883 (n.º 2)

Depois do ligeiro desvio provocado pela "Santa Água", prossigamos então com o texto de Ramalho Ortigão, iniciada na publicação anterior.

 

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«A antiga geração literária do Guichard, da porta do Moré e da Águia de Ouro extinguiu-se ou expatriou-se, sem deixar sucessores na publicidade portuense. Evaristo Basto, António Coelho Lousada, Augusto Soromenho, Camilo Castelo Branco, Ricardo Guimarães não têm no atual jornalismo portuense quem dê ideia alguma do papel que eles representaram no jornalismo de há vinte anos.


A geração nova tem uma disciplina, um método, uma linha de conduta social, um propósito político, um destino filosófico. Eu sou de uma idade transitória, vim obscuramente num período de transformação, com uma ala de sapadores, e pertenço à pequena companhia antipática dos bola-abaixo. Mas aqueles a cujo lado trabalhei em novo, e que fizeram falar de si, eram personalidades literárias inteiramente diferentes dos jovens escritores de hoje.


Os antigos cronistas portuenses, cujos nomes recordo com saudosa e magoada estima, não tinham filosofia social, não tinham espírito algum de seita ou de partido. Hoje é-se necessariamente revolucionário ou conservador, ou se é pela república ou pela monarquia; há uma grande arte regeneradora e uma arte progressista, um ideal demagógico feito carne em Magalhães Lima e um ideal constituinte personificado em José Dias Ferreira, divergente do atual regime monárquico e bem assim dos sistemas propostos pela democracia radical.


Noutro tempo os homens de espírito não eram mais monárquicos liberais do que eram republicanos ou do que eram legitimistas. No jornalismo contemporâneo toda a pena é uma arma de combate. No jornalismo de outrora a pena para um verdadeiro escritor era apenas um puro instrumento de poesia. Os combates travavam-se unicamente a cassetete com os homens e a olho com as mulheres.


O único inimigo comum para os últimos dos românticos no jornalismo portuense era a estupidez humana, representada pelo honesto burguês da Rua das Flores e da Rua dos Ingleses, e era o espírito imobilizante de rotina, simbolizado no carroção veículo de família puxado a bois e inventado pelo segeiro Manuel José de Oliveira.


Para resistir a estas duas influências e para as combater opunha-se-lhes, arvorado em sistema, o amor da aventura e da violência dos contrastes, a toilette espetaculosa, o movimento, o barulho, a troça, a pancadaria, o escândalo.


Para o fim de irritar o burguês e de o fazer estourar nos seus redutos, de apoplexia ou de raiva, traziam-se casacas de alamares, laços de gravata de palmo e meio de superfície, coletes vermelhos, cabelos até aos ombros. Andava-se de dia pelas ruas e ia-se nos domingos ao Jardim de S. Lázaro levando enrolado no busto um plaid de quadrados amarelos, encarnados e verdes. Nunca se largavam as esporas, traziam-se as calças à hussard, o cassetete de cana-da-índia com uma asa de couro numa extremidade, um galho de veado na outra, e uma baioneta dentro. Cultivavam-se de frente seis namoros a um tempo, mantinham-se paixões funestas por meio de cartas em estilo incendiário. Era-se preso ou admoestado pela polícia uma vez por semana. Rebentavam-se cavalos e rebentavam-se batotas. As pateadas memoráveis no Teatro de S. João, à Dabedeille e à Bolonni, à Giordano e à Ponti, deixavam em estilhas as bancadas da sala. De uma vez, António Girão, em pé sobre um banco, com um barrote do soalho em punho, ameaçou a autoridade de que deitaria abaixo o lustre se a guarda municipal penetrasse na plateia. De outra vez, numa empresa de José Lombardi, os coristas e os comparsas, armados de paus apareceram no palco com o pano em cima e desafiaram os espectadores pateantes; o público subiu à cena, e, depois de uma terrível luta de homem a homem, foi varrida a companhia toda para a rua, à bordoada. Metade das senhoras que assistiram a esse espetáculo nunca visto saíram dos camarotes para os seus carroções levadas em braços, desmaiadas ou em convulsões de nervos.


O ar fatal era de rigor nas salas. Os poetas usavam no pulso um misterioso bracelete de mulher, uma pequena caveira de ferro na gravata ou no anel; e todo o mundo literário, à noite, nos bailes, era magro, pálido, impenetrável como um cofre de trágicos arcanos. O sujeito dado à metrificação via deslizar a valsa encostado a uma ombreira de porta, terrível, de monóculo no olho e patchouli no lenço.


De que partido político era o Soromenho, o Lousada, o Soares de Passos, o Arnaldo Gama, o Camilo, o Ricardo? Nunca ninguém o soube, nem lhes perguntou por isso. E todos eles escreveram sucessivamente em jornais de todos os matizes do tempo, patuleias, cabralistas, cartistas, legitimistas, etc. A arte constituía para os que a cultivavam um terreno neutral e autónomo, onde cada um armava a sua tenda, arvorava o seu nome como um pavilhão de guerra e combatia independentemente pela sua própria conta e risco.


De uma vez, há de haver vinte anos, no Jornal do Porto, tendo faltado a carta do correspondente de Lisboa, eu mesmo improvisei à última da hora uma correspondência da capital, em duas grandes colunas de verrina. Esta correspondência infeliz esteve para fazer perder as eleições municipais aos amigos políticos do jornal. Cruz Coutinho, o mais honrado e o mais benévolo dos homens, que tinha feito do Jornal do Porto a sua família, e que tratava os seus redatores como seus filhos, veio correndo espavorido ao escritório da redação, vibrando da mais justa cólera, com o jornal ainda fresco de tinta e de injúrias aberto na mão.

 

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— Como diabo tinha o estúpido do correspondente de Lisboa escrito um artigo daqueles, e como, achando-me eu no escritório à chegada do correio, o deixara passar e aparecer impresso na folha da manhã?
E, tomando conhecimento do ocorrido, num a recrudescência de ira:
— Oh! maldito homem! — me bradou ele — pois você não conhece a atitude política do jornal na grave conjuntura presente? Você não tem visto os artigos de fundo que andamos a publicar há mais de um mês?!
A triste verdade é que eu, efetivamente, nunca vira semelhantes artigos, e a minha única desculpa foi que estava contratado a tanto por mês para escrever no jornal, mas não para o ler. E devo acrescentar agora que, tendo feito parte durante uns poucos de anos da redação efetiva daquele periódico, e enchendo nele regularmente duas ou três colunas por dia, eu nunca então soube, nem ainda hoje sei, que política era a dele no tempo em que eu lá estive!


Presentemente, pelo que tenho lido durante os últimos oito dias, os escritores são incomparavelmente mais políticos do que outrora. O senhor Fontes e o senhor Manuel de Arriaga, o senhor Braamcamp e o senhor José Dias tornaram-se elementos de prosa, as imaginações renderam-se-lhes, a intriga constitucional substituiu nos espíritos a velha intriga poética, e os jornalistas são talvez um pouco mais homens de Estado do que homens de letras.


Para honra destes amáveis escritores cumpre todavia dizer que, se lhes falta como poetas uma ponta de desdém indispensável para não deixar materializar a arte pela familiaridade do vulgo, não lhes falta decerto como estilistas a técnica da profissão.


Não se pode empregar mais zelo na escolha dos vocábulos. Não se pode pôr mais esmero em enobrecer a dicção.
É principalmente nos textos dos correspondentes da província que mais energicamente se manifesta esse escrúpulo na pureza da palavra. nalgumas dessas correspondências a preocupação da retórica atinge quase o estado patológico de uma monomania de sublimidade.


Coisa notável, demonstrada pela observação: o amor grandioso é tanto mais profundo e tanto mais voraz quanto mais pequeno é o lugar de que se escreve! Nada que se compare em majestade aos rasgos de pena com que de Ovar, de Espinho ou de Estarreja se nos conta que ali chegou o polícia 34 para fiscalizar a decência da praia, que choveu na véspera, ou que por deliberação camarária se está pintando o candeeiro da Rua Nova, em frente da caixa do correio! Decididamente — e é triste ponderá-lo! — a literatura é tanto mais pomposa quanto mais provincial.


De uma praia de banhos escrevem ainda hoje para uma das folhas da manhã: Esta ténue fímbria de areia osculada pelo Atlântico está sobrepujando e fazendo rosto em competimentos de garridice às praias de maior tomo. Grande é o número de damas e cavalheiros que ora veraneiam nesta estância balnear.


E um outro escreve acerca da morte de uma jovem senhora da sua localidade: Dramas crudelíssimos da vida real! Reclama a lousa do sepulcro as heras e os goivos que têm de cobrir aquela que a morte arrebata no vicejar dos anos e em quem florescem as singelas virtudes que no lar remansoso dulcificam o travor acerbíssimo da existência!


No jornalismo da capital dizem-se as coisas terra-a-terra, muito mais simplesmente. Assim, no dia em que eu parti de Lisboa, um necrologista resumia todo o elogio do seu morto na seguinte frase verdadeiramente memorável: Nele concorriam todas as virtudes cívicas e domésticas e vice-versa!»

 

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(continua) 

 

A SANTA ÁGUA

Caro leitor, tomei a liberdade de atrasar uns poucos de dias a segunda parte da descrição oitocentista de Ramalho Ortigão, para aqui trazer à luz do dia um documento curioso, que se não for inédito não será muito conhecido.

Vivemos tempos cada vez mais perigosos de secas e incêndios severos, o ano de 2017 será comum daqui para a frente. Se o leitor não pensa tanto nisto, acredite que eu penso constantemente na fatal falta de água que um dia ocorrerá mesmo nas torneiras portuenses, alimentadas pela bacia hidrográfica com maior caudal da Península Ibérica. Posto isto, vamos arredar para longe do catastrofismo e entrar no assunto que aqui trago.

 

Antes da revolução da água distribuída ao domicílio[1], a maioria da população beberia água de pouca qualidade e em milhentas situações ela foi mais fonte de doenças do que fonte de vida. Sempre um bem preciosíssimo, quem a tinha não estava disposto a cede-la sem uma boa contrapartida. E assim foi com os franciscanos! Estes frades eram detentores de uma boa fonte de água que lhes vinha desde lá longe, fora da cidade, da quinta do Laranjal, que apenas no século XVIII com a dinâmica mobilizadora de João de Almada e Melo, começou a ver as suas laranjeiras, limoeiros e verdejantes hortas serem substituídas por casas e mais casas: ruas cortadas a régua e esquadro; enfim, antigos campos a que o homem deu o nome de rua das Hortas, do Almada, dos Lavadouros, Cancela Velha, etc...

Tirando os franciscanos, também os dominicanos tinham água própria (de má qualidade diga-se) bem como, obviamente, o binómio Sé/Paço Episcopal e as freiras de Santa Clara. Isto para me ficar pelas instituições da cidade mais antigas que tiveram água canalizada; um luxo incomensurável à luz do mundo da época.

 

É um curioso documento franciscano que vos quero dar a conhecer. Ele vem lançado logo no início do Tombo da Água, volume que fazia parte do cartório do convento, e que hoje se encontra depositado no Arquivo Distrital do Porto, disponível a todos que tenham amor em redescobrir estes documentos esquecidos que ali estão à espera de nos falarem. A água franciscana era tão boa e abundante, que foi por eles cedida aos dominicanos e aos padres de Santo Eloi. À porta da igreja destes últimos estava uma arca de repartição, a primeira dentro de muros, que eles eram obrigados a conservar bem como o cano desde a nascente até ao seu convento no largo dos Lóios. Sem mais delongas, vamos lê-lo:

 

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« DECLARAÇOENS

(...)

 

Na primeira gaveta da Estante 5ª da Livraria, e dentro da grade dos livros prohibidos, está pregáda em huma taboa do tamanho de meia folha, hum papel, que contem o seguinte=

 

Anno de 1775. Advertencia sobre a Agoa

As tres peças de bronze aqui juntas saõ medidas da repartiçaõ da agoa, e se fizeraõ sendo Guardião o P.e M.e Fr. Aleixo de St.a Rita de Capua; porque achou que os P.es de Santo Eloi e do N. P. S. Domingos tinhaõ dobrada agoa, do que devem ter; e logo no Verão seguinte, em que houve grande falta de agoas, ficaria este Convento sem huma só gota, se o dito Guardião não tivera posto a repartiçaõ no seu equilíbrio.

A peça comprida, e delgada he a penna de agoa dos Padres Dominicos, e se chama = penna macho = Com esta se deve observar, de tempos em tempos, se entra justa na penna femea, que na pia da repartição por o referido Guardião.

As outras duas peças saõ annel macho, e annel femea da pia de repartição dos P.es de S.to Eloi, onde o dito Guardião pôz hum annel femea, irmaõ deste, e entregou aos ditos Padres outro annel macho, irmaõ do nosso, para tanto elles como nós de tempos em tempos poderem observar se o annel macho entre justo pela femea, que está na pia: e se os Padres Guardiaens acharem que o annel macho entra com franqueza, saibaõ que se franqueou com malicia (o que se poderá fazer em horas nocturnas); naõ obstante que o dito Guardiaõ pôz na pia uma fechadura com quatro feichos, ou linguas, com duas chaves; das quaes huma se entregou aos ditos Padres, e nós temos outra, que he a maior das quatro, que estaõ juntas na Procuração; e destas a chave pequena he da pia dos Padres Dominicos; as outras duas, huma he da Arca ou mai d'Agoa, e a outra he da porta larga, que fica junto da estrada, no quintal do Conego Joze Luis Campos Pirralho, e he a primeira porta, que se abre, para ir á arca: as mais portas naõ tem chave.

A taboa de páo preto que está ao lado, que tem furamen esferico, he a medida das agoas da Camara desta cidade. O furamen mais pequeno he a penna da agoa femea, que se pôz na pia da repartição para os Padres Dominicos: o ultimo furamen, que he o maior, he o annel femea dos P.es Loios.

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Representações das medidas constantes no documento franciscano (legenda da esq. para a dir.): Dois anneis, que são 16 pennas; oito pennas que he hum annel; quatro pennas; duas pennas (são maiores que as da Camara); huma penna. No fundo: Foi tirado por hum que se tirou pelo que está na Camara).


O papel tem mais hum círculo, que saõ dois anneis de agoa: estes achou o dito Guardião que tinhaõ os Padres de S.to Eloi; e dentro do annel falsificado, ou aumentado meteo o annel que os ditos Padres devem ter, que he irmaõ do que está aqui junto.


A taboa de páo preto, de que se falla na taboa grande, está junto a esta no mesmo lugar; e os seus furamenes que saõ as quatro medidas mais pequenas atraz descritas, sao do mesmo tamanho destas.

Tambem estaõ juntas com a taboa grande as tres peças de bronze nella referidas.


Igualmente está junta com as tres peças de bronze huma de ferro pequena, que por huma extremidade he macho, e por outra he femea da penna de agoa dada na origem aos Dominicanos (...)

 


O concerto do aqueducto desde a Arca d'agoa no Laranjal até á pia dos P.es Loios, he todo, e sempre pago por estes. (...)


O concerto do aqueducto desde a pia dos Loios até ao nosso Convento, he todo pago por nós, e pelos nossos Terceiros; a saber: estes pagaõ a terça parte de toda a despeza, e nós o mais. (...)


O concerto do aqueducto desde a nossa Cozinha até á Sacristia dos 3ºs, he todo á custa delles. (...)

O concerto do Cano, ou Lugar por onde na rua das Flores passa o nosso aqueducto, he todo á custa do Senado (...) e isto desde onde o nosso aqueducto vem junto ao da agoa que vai pª a Ribeira, que he do pé da travessa dos Caldeireiros, até ao fim da Rua das Flores, por ao pé do Chafariz de S. Domingos, que onde se dividem os ditos dous aqueductos. (...)


Sucedendo os Religiosos Dominicos na posse da Capella que foi dos seus extintos Terceiros; porque não devem, suceder tambem nas obrigaçoens delles. (...) »

 

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Este documento, escrito já nos últimos anos daquela instituição conventual, é uma pequena janela para um tempo em que ainda não existia água canalizada como hoje a entendemos. Ela existia sim, vinda por canos de pedra, a fontes, alguns edifícios públicos ou religiosos e outros privilegiados particulares (não incluo no rol os poços). A juntar a esta raridade, muita se perdia por os canos estarem desconcertados ou falcatruas várias perpetradas por quem deles usufruía (como se viu no texto).

Na atualidade, em que vamos para tempos cada vez piores (não tenhamos dúvida disso!) porque não refletir um pouco naqueles tempos, quando o maior bem de uma população talvez fosse aquele que hoje em dia damos por adquirido sempre que se abre uma torneira de água, muitas vezes escusadamente...

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1 - A distribuição de água ao domicílio só entrou em funcionamento regular em 1887, com água captada no rio Sousa.

 

Bibliografia: Tombo da água, do cartório franciscano em depósito no ADP.

O PORTO EM 1883 (n.º 1)

A bem da verdade esta publicação deveria ter o subtítulo pela pena de Ramalho Ortigão, porque de facto o que abaixo se vai ler foi escrito por aquele ilustre portuense. É um excerto de um dos volumes de As Farpas, de sua autoria, datada de julho de 1883 e que o autor consagra a uma viagem que fez ao Norte, vinte anos depois de daqui ter saído. Recuperei-o para este blog pois creio se trata de um daqueles textos que merece ser mais lido e conhecido, serve mesmo como certo contraponto ao famoso livro de Alberto Pimentel O Porto há trinta anos. Mais do que uma janela, é uma autêntica varanda para a cidade daquele tempo.

No final do texto vão algumas notas/apontamentos da minha autoria.

 

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«O panorama, extraordinariamente belo, que se descobre da grande ponte sobre o Douro começa a desenrolar aos nossos olhos os seus diferentes aspetos tão variados, tão imprevistos. O rio, liso, e espelhado como uma chapa de vidro azul e verde. Uma extensa cordilheira de colinas, cobertas de pinheirais e desenhando no espaço vaporoso e húmido as curvas mais suaves e as perspetivas mais graciosas e mais risonhas. À beira da água, sulcada de barcos, de cor escura, esguios, da forma de gôndolas venezianas, remados de pé com largas pás que bracejam silenciosas e lentas, arredondam-se em grandes massas de um verde-escuro e espesso os velhos arvoredos das quintas do Freixo, da Oliveira, de Quebrantões e de Avintes.

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Apeamo-nos finalmente na estação de Campanhã. Uma fila de carruagens sobre a linha dos elétricos. Um rumor diligente e alegre de tamancos novos sobre os largos passeios lajeados. Mulheres bem feitas, caminhando direitas, de cabeça alta, cintura fina solidamente torneada sobre os rins, e alegres lenços amarelos, de ramagens vermelhas, encruzados sobre a curva robusta do peito. Canastras bem tecidas, grandes como berços, cobertas de pano de algodão em listras azuis e encarnadas. As carruagens americanas recebem tudo, gente, cestos de fruta, canastras, trouxas de roupa branca, caixotes, seirões com ferramentas. Dos vinte passageiros de Campanhã que tomam lugar connosco no carro americano dois têm escrófulas, e um tem uma grossa corrente de ouro no relógio e um grande brilhante pregado no peito da camisa. Um pequeno, ruivo, sardento, de olhos azuis, apregoa o Jornal da Minhaum[1]. As mulinhas trotam bem. E todas as casas, de um e de outro lado da rua, têm à porta a cancelinha baixa, de pau, pintada de verde. Estamos no Porto.

 

Os melhoramentos materiais na cidade que acabo de entrever são, na verdade, consideráveis. As novas ruas, a prolongação da Boavista, a de Mouzinho da Silveira, paralela à rua das Flores, a de Passos Manuel, desde Santa Catarina à Rua de Sá da Bandeira, a rua que liga a estação do Pinheiro[2] com a cidade, e outras, acham-se quase inteiramente guarnecidas de prédios e todos os prédios habitados. Outro tanto sucede nos bairros novos do Palácio de Cristal e da Duquesa de Bragança. O Bairro Herculano, entre o Jardim de S. Lázaro e as Fontainhas, é um recinto murado, fechado por uma grade de ferro, compreendendo duzentas ou trezentas casas, de rés-do-chão, ou de um andar, comodamente alinhadas, com um pequeno jardim comum, um mercado, lavadouros, enxugadoras, etc. Está já delineado, com as ruas em esboço, o projetado bairro do Campo do Cirne, em frente do Cemitério do Repouso, ao lado da Rua do Heroísmo. E a nova ponte, que vem da serra do Pilar às proximidades do Paço do Bispo, demolirá e transformará em novas avenidas os bairros antigos do Barredo e da Sé.[3]


Aqueles que há vinte anos partiram daqui, como eu, arriscam-se, regressando depois de mim, a não atinar com o seu caminho, a não encontrar a sua casa, nem a sua rua, nem os seus sítios. Deixou de existir a antiga Rua do Souto, a das Congostas, a dos Mercadores, a da Bainharia e a tão pitoresca e tortuosa Rua da Reboleira, com o seu arco da Porta Nobre, as suas janelas em ressalto como as das velhas casas flamengas, e as suas tanoarias, por entre cuja frescura era tão bom no Verão passar à sombra, no picante cheiro da aduela e dos vimes do vasilhame, ao vir da Foz em char-à-bancs sob o sol a pino![4] Dir-se-ia que os nossos pais morreram para nós muito mais completamente do que morreram para eles os seus avós e os seus bisavós, levando consigo, ao desaparecerem, quase tudo quanto os rodeava na vida: a casa, o jardim, a rua que habitavam. 

 

As modernas construções não têm aqui, como não têm no resto do País, carácter artístico. As casas novas do interior da cidade são tão chatas e tão inconfortáveis como aquelas que vieram substituir, e estão longe de dar ideia da encantadora reforma porque têm passado as edificações urbanas nos países setentrionais da Europa, especialmente a Prússia e o Hanôver. A estrutura geral dos prédios apresenta, porém, um aspeto consistente, não desagradável à vista: os telhados de lousa, as fachadas revestidas de azulejos, as padieiras de granito, tão nitidamente esquadriadas, dão ao todo um ar rijo, saudável, alegre, harmonizado bem com os tons frescos da paisagem, com a verdura das colinas, com as árvores das praças, com os parreirais dos jardins, com as nebrinas do Douro esbatendo no vapor aquático, polvilhando de sol, o risonho contorno da casaria e das montanhas.


Têm os progressos do espírito acompanhado a evolução dos melhoramentos exteriores? Esta questão é mais complexa, e não tenho tempo para a estudar em detalhe, nem espaço para a tratar por inteiro. O que vou fazer é transmitir as minhas primeiras impressões de turista em viagem na minha própria terra, com a superficialidade profissional de um repórter ao acabar de chegar a um país desconhecido, e propondo-se compará-lo a um país que conhece: o Porto de hoje posto ao lado do Porto de há trinta anos.[5]

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Não leio habitualmente os jornais da província. Não frequentando o café, não tendo clube, não indo ao Grémio, não vendo senão as folhas que me traz a minha casa o correio, confesso humilhado que até os títulos desconhecia de alguns dos jornais portuenses, que leio aqui todos, sistematicamente, do princípio ao fim, fazendo deles há oito dias a grande peça de resistência da minha alimentação mental. Neste ponto devo começar por dizer que o Porto está bastante adiante de Lisboa. A maioria dos periódicos da capital, à parte a controvérsia política sustentada na Imprensa pelos chefes literários dos diversos partidos, não suportam comparação com as folhas portuenses. Os noticiários daqui encerram um conjunto muito mais variado de informações úteis sobre o movimento científico, sobre o movimento literário e sobre o movimento industrial da Europa. Todos os grandes jornais, que são cinco ou seis, contêm um longo artigo doutrinal, grave, versando sobre a questão política do dia, ao modo antigo. Como interesse social e às vezes um pouco chocho, porque, pela sua influência no património intelectual dos homens, a coisa que fizeram ou que deixaram de fazer os poderes públicos importa às vezes muito menos à curiosidade e à direção social do que a simples redondilha popular que um gaiato vai descantando pela rua na ária à moda. Mas o tom geral deste artigo revela sempre um fundo respeitável da aplicação dada ao estudo dos prole mas em voga, uma atitude de crítica serena, uma honestidade aparente, dentro de uma forma comedida e correta.


As correspondências de Lisboa em geral e algumas enviadas das principais cidades da província são feitas com habilidade técnica e com um grande zelo de alvissaragem minudente e fiel. O folhetim propriamente dito, isto é, a crónica semanal das ideias, dos costumes, da arte e da moda acabou na Imprensa portuense, como na Imprensa de toda a parte. Somente nos periódicos do Porto o espírito literário do folhetim não se infiltrou, como em Paris, nas demais secção da folha. Em França o folhetim deixou de ser o que antigamente era, porque se espraiou e invadiu o jornal todo. Entre nós, ao contrário, o folhetim foi absorvido pelo resto, e não desapareceu porque se transformasse, desapareceu porque acabou.»

 

**

 

( continua... )

______

1- Esta era uma característica da linguagem do Porto no século XIX. José Leite de Vasconcelos deixou-nos escrito um seu trabalho estudando o falar do Porto, onde esta característica ainda surge. Atualmente e apesar do nosso sotaque continuar a ser bem distinto dos demais, alguns dos seus elementos desapareceram já, como penso que terá sido o caso deste.

2- Nome do lugar onde foi construída a estação de Campanhã e que foi durante algum tempo o nome pela qual foi conhecida.

3- Embora em 1874 a Câmara tenha precisamente em discussão e planeamento a construção de uma moderna rua desde a dos Ingleses até à ponte D. Maria II, certo é que essa rua nunca foi aberta. Felizmente, digo, pois assim puderam a Ribeira e o Barredo sobreviver até aos nossos dias, sorte que o bairro dos Banhos não logrou ter.

4- Na verdade, da rua do Souto apenas desapareceu uma pequena parte junto ao largo de S. Roque, que foi demolido para abertura da rua Mouzinho da Silveira. Quanto às ruas dos Mercadores e Bainharia, mantêm-se até hoje com o comprimento existente à época de Ramalho Ortigão, pelo que não é  (pelo menos para mim) compreensível a sua afirmação. Notar também que o autor designa por rua da Reboleira ao conjunto rua da Reboleira + rua dos Banhos.

5- Ou seja, grosso modo o Porto de 1883 contra o Porto de 1863.

UMA MEMÓRIA DO MOTIM DE 1757

O que abaixo se vai ler foi publicado no 4º volume do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vão já para cima de 70 anos! Foi trazido à luz do dia, por assim dizer, por Vasco Valente, à época diretor do Museu Nacional de Soares dos Reis. Trata-se da descrição de Ignacio Henckell, uma testemunha contemporânea do célebre motim da Companhia. É uma janela para um Portugal felizmente já desaparecido de despotismo do reinado de D. José, quando Sebastião José de Carvalho e Melo - o futuro Marquês do Pombal - governava o país. Apesar da distância do tempo, continua-me a chocar a brutalidade com que a situação foi resolvida, e não consigo olhar para as ruas e praças onde o episódio se desenvolveu sem imagina-lo como se o tivesse lido num jornal de há uns dias atrás e sem conseguir dissociar a violência, daquela usada contra os Távoras em Lisboa menos de um ano depois...

(Notar que atualizei a ortografia e dividi o texto em parágrafos para tornar a leitura mais fluida.)

 

« ... »

 

«Em quarta-feira de Cinza, 23 de fevereiro deste ano 1757 se ajuntou um bando de homens e alguns rapazes e mulheres à porta do Juiz do Povo, junto a S. Domingos e o levaram em cadeirinha a casa do Chanceler[1] na rua Chã, obrigando-o a deitar pregão para todos poderem comprar vinhos, suspendendo os privilégios, que el-rei concedera à Companhia do Alto Douro; foram a casa do Provedor (Beleza)[2] na mesma rua, destruíram muitos móveis, e entrando na casa contígua, onde os da Companhia faziam sua junta rasgaram vários papeis clamando: Viva el-Rei. Morra a Companhia.

 

El-Rei mandou logo para esta cidade o Desembargador do Paço João Pacheco Pereira, e seu filho José de Mascarenhas Desembargador da Suplicação para que como Juiz e Escrivão da Alçada devassarem dos culpados neste motim. E João de Almada e Melo para governar as armas e dar o auxílio necessário. Passaram o rio em Arnelas e entraram na cidade em 15 de março acompanhados pelos Dragões de Aveiro. Alguns dias despois chegaram 80 cavalos ligeiros de Chaves e os Regimentos de Infantaria de Bragança e Viana, ficaram todos aquartelados pelas casas da cidade e subúrbios.

 

Prendeu-se muita gente nas prisões e fortalezas e se sentenciaram os culpados. Na noite de 11 para 12 de outubro se levantaram 5 forcas em Miragaia, junto a S. Domingos, na rua Chã, à porta do Olival, e a porta de Cima de Vila. Em 13 se levantaram mais seis forcas na Cordoaria, juntas umas as outras, nestas seis foram enforcados em 14 do mês 13 homens e 4 mulheres, como também estátuas de 8 homens ausentes. Outra mulher ficou esperada por andar pejada[3]. Os quartos dos homens se repartiram pelas 4 forcas novas e pela da Ribeira, pondo-se em cada uma quatro quartos: e todas as cabeças nas 6 da Cordoaria, e na da porta do Olival. Um par de noites despois desapareceram os quartos, mas as cabeças ficaram enté ao fim do mês, quando se puseram em paus altos pelas estradas em 17 partes. Em 26 do mesmo outubro correram as ruas 32 homens e 8 mulheres, estas e 30 dos homens foram açoutados debaixo da forca da Ribeira e das cinco que primeiro se levantaram. Outros muitos foram para degredo em Angola, Mazagão e Castro Marim; outros para as galés etc - alguns condenados em penas pecuniárias e 6 meses de prisão.

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O símbolo da companhia tal como surge no seu alvará

 

Alguns rapazes assistiram junto das forcas ao suplício das 17 pessoas, e despois tiveram na cadeia castigo de bolos e açoutes. Em o primeiro de novembro foram para as suas terras os Regimentos de Viana e Bragança e a Cavalaria de Chaves. Em 6 foram para Aveiro 250 Dragões, ficando 50 aboletados para guarda dos Ministros; os quaes com eles partiram daqui em 15 de março de 1758; quando os moradores do Porto principiaram a respirar vendo-se livres das tiranias e vexações que padeceram.»

 « ... »

 

 

Ora caros leitores, digam-me lá se este suplício dos cidadãos sem nome a que se chama comummente o povo, é ou não, na sua "contagem de corpos" bem maior do que a dos Távoras, posto que muito menos famosa?

Logo de início D. José ordenou a prisão imediata dos «cabeças do motim, mesmo antes da culpa formada» e com processos verbais ou sumários, sendo que, segundo um documento camarário, estavam nele envolvidos «mais de cinco mil pessoas, cujo número constava de rapazes, galegos, marinheiros, mulheres e alguns oficiais e homens de capote que mostraram ser pessoas de baixa esfera». Contudo os seus instigadores teriam sido os clérigos (os jesuítas terão supostamente argumentado que o vinho da Companhia era impróprio para a missa!) e os ingleses. Nenhuma destas classes de indivíduos foi contudo condenada. Ainda assim os vereadores da câmara foram destituídos e extinto o cargo de procurador do povo bem como a Casa dos Vinte e Quatro.

 

_____________

1- Desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo, Corregedor do crime da Relação do Porto, servindo de Chanceler e Governador das Justiças (nota de Vasco Valente).

2- Luís Beleza de Andrade, Vereador da Câmara e Provedor da Companhia (nota de Vasco Valente). Para mais informação sobre este indivíduo e sua atuação no motim ver AQUI.

3- Sinónimo de prenhe.

 

Obras consultadas : O motim de 1757 segundo uma testemunha coeva; Uma época histórica, uma cidade, três motins - Análise comparativa dos motins do Porto de 1592, 1661 e 1757.

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