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O PORTO E A VIAGEM DE VASCO DA GAMA

por Nuno Cruz, em 28.07.17

De uma forma geral os portuenses que se interessam pela história do seu país, mais concretamente pela época dos descobrimentos onde se insere a viagem de Vasco da Gama à India em 1497, sabe que os navios usados nesta expedição foram 4, denominados S. Gabriel, S. Rafael, Bérrio e uma naveta (pequena nau) de mantimentos cujo nome se desconhece. Terá sido, por ventura, a viagem de maior glória alguma vez por nós empreendida e aquela que colocou Portugal como a primeira super-potência mundial durante algumas décadas.

Fernão Lopes de Castanheda, cronista que escreveu a História do descobrimento e conquista da India pelos portugueses, relata o seguinte: «E como quer que El-Rei Dom Manuel assi como sucedeu nos reinos a El-Rei Dom João, assi também lhe sucedeu nos desejos que tinha de descobrir a India: logo aos dous anos de seu reinado entendeu no seu descobrimento, pera que lhe aproveitou muito as instruções que lhe ficaram de El-Rei Dom João, & seus regimentos pera esta navegação: & mandou fazer dous navios da madeira que El-Rei Dom João mandara cortar. E um que era de cento & vinte toneladas houve nome São Gabriel: & outro de cento São Rafael: & comprou pera ir co estes navios hua caravela de cinquenta toneladas a um piloto chamado Birrio de que a caravela tomou o nome. ... E por quanto nos navios da armada não podiam ir mantimentos que abastassem à gente dela até três anos, comprou El-Rei ũa nau a um Aires Correa de Lisboa que era de duzentos toneis, pera que fosse carregada de mantimètos até à aguada de São Brás, & ali se despejaria & a queimarião.»

 

Mas pergunta o leitor, o que tem que ver tudo isto com a história do Porto? Bem, é que as duas naus que Castanheda refere foram construídas no Porto, nas tercenas de Miragaia no ano de 1496! Isto mesmo aprendi lendo um artigo do historiador Amândio Barros.

 

DSC_0661.jpg

 

E conforme lia o referido artigo mais me fui realmente apercebendo que à época este era dos melhores - talvez mesmo o melhor - estaleiro do reino. Foi nele que a frota mercante do Porto fora praticamente toda construída, tendo sido essa frota que havia colocado a cidade no mapa do comércio marítimo com os portos do Mediterrâneo e do norte da Europa o que fez o outrora feudo episcopal que fora o Porto, crescer e elevar-se à condição de segunda cidade do reino.

 

Quanto à construção naval no areal de Miragaia, com efeito já desde meados do séc. XV (diz-nos, mais uma vez, Amândio Barros no seu trabalho) que o rei fazia encomendas de navios a estes estaleiros. Ainda no séc. XVI um veneziano que enviava um relatório à Senhoria de Veneza (algum espião?) reconhecia serem as naus dos armadores portugueses maioritariamente construídas na Flandres, Biscaia «e muitas poucas se fazem cá, e essas poucas no Porto».

Só na década de vinte desse século com o advento da Ribeira das Naus em Lisboa, a cidade se viu privada da primazia na construção naval. Por outro lado, o início da atividade em Lisboa contou com muitos carpinteiros daqui levados, por serem os mais conceituados, sem dúvida dando formação - para fazer uso da terminologia atual - e orientando o arranque das tercenas lisboetas, tão bem representadas em vistas quinhentistas e seiscentistas.

 

Como nota final acresce referir um documento que faz parte das contas da Câmara de 1496, relativo a despesas com o alargamento da passagem que dava para o estaleiro para permitir atravessar a madeira e outros materiais: « ... coregimento do Postigo de Álvaro Gonçalves da Maia ... por boa servintia das naus que se ora fazem de El-Rei nosso Senhor.» Este postigo da muralha deverá corresponder ao que ficou mais conhecido como Postigo dos Banhos; pese embora possa também referir-se ao Postigo da Pereira. Isto não obstante parecer mais óbvio - e assim acreditei durante algum tempo - correspondesse à Porta Nova de Miragaia por estar diretamente virada para o areal. Contudo esta é já mencionada como porta e não como postigo em documentos do Cabido, datados do ano de 1400.

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Nota: Publicado originalmente em 10/OUT/2014 no blogspot e agora revisto.

 

Bibliografia:

O Porto e a construção dos navios de Vasco da Gama, de Amândio Jorge Morais Barros publicado no 1.º volume dos Estudos em homenagem ao Prof. Dr. José Marques (2006).

A construção de um novo centro cívico: notas para a história da Rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV, de José Ferrão Afonso publicado no n.º 9 da revista Museu (2000).

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A TORRE DA MARCA

por Nuno Cruz, em 25.07.17

Saberão todos os portuenses que se interessam pela história da sua cidade que existiu no local onde esteve o também já desaparecido Palácio de Cristal, uma estrutura alta fazendo lembrar uma torre que balizava a entrada da barra do Douro, arrasada durante o cerco do Porto. Esta estrutura foi erigida em 1542 em substituição de um pinheiro colossal que se encontrava no mesmo local e que servia de guia para a entrada dos navios na dífícil barra duriense; árvore essa que fora «estonado per o pee» em 1533. E se num primeiro momento se deliberou fazer em roda dele «hua boa parede e se enchesse dentro de terra ... que se seguraria»; a verdade é que essa solução se revelou de vida curta pois em 1535 o pinheiro havia estalado. A cidade recorre ao rei para resolução da situação tendo este respondido no ano seguinte. Contudo só em 1537 foi o caso tratado pela direção camarária (entretanto o pinheiro já havia secado). Depois de algumas diligências junto da corte a nova baliza de pedra que ficou conhecida como Torre da Marca foi erigida, no ano já referido.

 

Felizmente ficaram-nos algumas representações deste marca que nos possibilita ter uma ideia de como seria o seu aspeto. Através delas podemos verificar que a estrutura era de uma altura respeitável dada a necessidade de ter de ser vista desde muito longe e construída de uma forma robusta, tão robusta que lhe possibilitou atingir 300 anos de existência, só abreviada por fatores externos à sua solidez. A vista mais antiga que se conhece onde ela figura é a elaborada por Baldi em 1668/69, passando pela belissima e fotográfica imagem de Maldonado de 1791, entre outras. A que aqui apresento foi impressa em 1829, escassos 5 anos antes da sua destruição (no sopé do monte vemos Massarelos e o seu cais).

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Creio que a gravura que melhor descreve a Torre da Marca foi elaborada por Marques de Aguilar e impressa em 1793 (ver abaixo). Mostra-nos a entrada de uma esquadra na barra do Douro, sendo visíveis a igreja paroquial de S. João da Foz (ao tempo um templo beneditino), o forte e o farol (mandado construir por um bispo de Viseu no século XVI). A imagem é curiosa pois faz parecer ao observador casual que a torre ficava do lado de Gaia. Isso mesmo me aconteceu num primeiro momento; e lendo posteriormente o artigo d' O Tripeiro de Maio de 1964 onde B. Xavier Coutinho é da mesma opinião, segui com a minha convicção reforçada. Chegava aquele autor à conclusão que teriam existido na verdade duas torres e não uma, estando a que se vê na imagem colocada no Castelo de Gaia.

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Contudo, analisando melhor a gravura verifica-se que na realidade se trata da margem portuense. É uma questão de perspetiva que leva a que o monte do Candal ou do Cavaquinho, onde agora temos a Ponte da Arrábida, se apresente muito proeminente em relação ao local da tomada do desenho. Se o leitor ainda em dúvida se deslocar aos recentemente restaurados Jardins do Palácio de Cristal e subir à pequena torre que lá existe ou se posicionar a uma cota mais elevada nas proximidades - área onde existiu a Torre da Marca - constatará este facto.

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1 - Jardins do palácio de Cristal com o local aprox. onde existiu a Torre da Marca assinalado por um T; 2 - Igreja paroquial de S. João da Foz; o circulo vermelho circunda a eminência do monte do Candal (imagem do googlemaps).

 

Em 1838 uma outra gravura surgiu em Inglaterra, trabalho de J. Holland. Negra e triste, o que ali vemos já não é a Torre da Marca mas sim um amontoado de pedras espalhadas pelo chão, esboroadas pelos obuzes miguelistas na tentativa de silenciar a bateria da tropa afeta a D. Pedro IV, colocada naquele ponto estratégico. Assim, o que ela representa é o resultado fatal como o destino e nada profético de toda e qualquer guerra: destruição!

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Mas, se é verdade que a Torre da Marca do Porto há muito desapareceu, não longe daqui podemos ainda hoje admirar uma estrutura semelhante em função e estilo. Trata-se de uma construção situadas em Vila do Conde na freguesia de Árvore, que conjuntamente com outros pontos de referência apontavam a entrada da barra do Ave. Não sendo tão imponente, permite ainda assim dar uma ideia do aspeto da congénere portuense. Também esta se encontra num local altaneiro, no cimo de um outeiro à face da E.N. 13, e terá sido construída no séc. XVI (ver mais aqui).

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Nestas três fotos podemos ver a "Torre da Marca" de Vila do Conde. É bem visível a sua construção em alvenaria de granito e no topo ao centro o local onde seria colocado o facho (imagens do autor).

 

Quanto à "nossa" Torre da Marca, é realmente lamentável esta estrutura não ter perdurado até aos nossos dias pois seria com certeza um ex libris dos jardins do "Palácio", um ponto de atração turística e cultural, desempenhando uma função útil ainda que não utilitária. Foi vítima (mais uma!) da guerra dos manos e dela só nos ficaram uma mão cheia de referências iconográficas e pouco mais.

 

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Bibliografia:

Apontamentos para a história da cidade do Porto, de J. M. P. Pinto, publicado pela Tipografia Comercial (1869).

Barcos e gentes do mar do Porto (séc. XIV-XVI), de Amândio Jorge Morais Barros, publicado no n.º 14 da revista da Faculdade de Letras: História (1997).

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O LAGO NO LARGO DOS LOIOS

por Nuno Cruz, em 21.07.17

Quem diria que já existiu um pequeno lago no Largo dos Loios? Pois foi o que descobri lendo respostas a uma pergunta colocada na 3.ª série da revista O Tripeiro, n.º 7 (127) de 1 de Abril de 1926:

 

«Existiu, na verdade, há muitos anos, mas por pouco tempo, um pequeno lago no meio do Largo dos Lóios. Era circular, quase com o dobro do diâmetro do refúgio que, a circundar a base do poste da iluminação eléctrica, que hoje lá se encontra, e apenas tinha a resguardá-lo, sem qualquer relvado, uma grade igual à que cerca o lago do jardim da Cordoaria.

Da parte de cima, o rebordo do lago ficava ao nível do pavimento, mas, do lado oposto, como o largo forma declive, tinha uma altura tão grande e de tão péssimo efeito, que principiaram a chamar-lhe o Alguidar dos Lóios, e certo é que... com a mesma rapidez que foi feito, assim foi desfeito.
Suponho que não deixou saudades a ninguém!»

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 O largo dos Loios na atualidade (imagem wikimedia)

 

Num outro registo, no número anterior a este surge:

«(...) Diziam que era utilizado pelos moradores para demolhar o bacalhau das sextas-feiras. Outros aventavam ser bacia para lavar os pés dos vereadores que perto moravam (...).
Não era lago, era um lagozinho, inferior em diâmetro a um dos actuais refúgios da Praça da Liberdade (..)»

in O Tripeiro de Abril de 1926

 

Enfim, parece ter sido uma obra de embelezamento de vida efémera, que realmente não terá deixado saudades a ninguém...

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Nota: Publicado originalmente em 24/OUT/2009 no blogspot.

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Já em outra altura que referi que, em minha opinião, a atual cidade do Porto nasce verdadeiramente no século XII com a vinda de D. Hugo para bispo dela cerca de 1114. Contudo existe obviamente uma história para trás desta história, pelo menos 700 anos anterior, quando do império romano em desegragação se foram os vários núcleos locais auto-organizando; não substimando é claro a presença pelas nossas bandas dos Suevos e depois dos Visigodos. Creio não andarei muito longe da verdade se disser que foi a igreja que acabou por, em parte, preencher o papel do antigo império durante o periodo conhecido pelos historiadores como Alta Idade Média.

 

Ora se todas as paróquias e bispados tiveram o seu início, no território que se veio a conhecer como Portucale o caso não foi diferente. Derrotados que foram os Suevos, pacificada a zona com a presença visigótica, foi tempo de surgir a divisão paroquial, fortemente impulsionada por S. Martinho de Dume. Mas desenganem-se os portuenses de agora... o bispado de Portucale com sede no morro da Penaventosa não foi logo criada. Durante um breve periodo de tempo a sede de bispado localizou-se numa paroquia rural que deva pelo nome de Magnetum. Com efeito, nas atas do 2º concílio de Braga verifica-se que nele esteve presente Viator Magnetensis Ecclesiae Episcopus. Não durou ainda assim muito tempo nesta casa: cerca do ano 580 seria transferido o bispado para Portucale para não mais daqui sair, mesmo que na conturbada época da reconquista muitos dos seus bispos estivessem ausentes e parassem por outras localidades bem mais a norte...

 

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A atual igreja de Meinedo antes da DGMEN lhe deitar a mão... Por baixo dos alicerces deste edifício do século XIII foram descobertos os alicerces da igreja suevo-visigótica existente ao tempo do 2º Concílio de Braga

 

Tivesse o bispado nunca saído de Meinedo e talvez o Porto não viesse a existir, pelo menos com tal desenvoltura? Ou a existência do seu bom porto de mar faria fatal como o destino o desenvolvimento de uma cidade mais ou menos parecida com os moldes atuais? Para nada serve esta reflexão senão para tentar comunicar, a si caro leitor, que as coisas quer na vida de uma pessoa quer na vida de uma cidade podem desenvolver-se de forma bem diferente após uma simples tomada de direção.

 

Quanto a Meinedo, continuou sendo uma pacata paróquia rural, hoje incorporada no concelho de Lousada e que (espanto!) voltou a ser bispado pois desde 1969 que constitui uma Sé Titular, isto é, uma Sé que apenas existe no título! Presentemente possui este título o arcebispo Léon Kadenga Badinkebele, núncio apostólico para o Belize e El Salvador (ver aqui).

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para saber mais: http://www.rotadoromanico.com

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Frade franciscano, «leitor jubilado na santa teologia, e examinador nas três Ordens militares», Frei Manuel da Esperança nasceu no Porto no final do século XVI, tendo falecido em Lisboa em 1670. Foi o responsável pela notável crónica da sua Ordem intitulada História seráfica da Ordem dos Frades Menores da província de Portugal, com o primeiro tomo publicado em 1656.

Nesta postagem recupero parte da sua saborosa descrição da cidade do Porto, com a ressalva que ela não é fidedigna, sobretudo quando se reporta a factos bastante recuados. Na verdade, algumas estórias lendárias circulavam por aquela altura com maior ou menor grau de desvio da realidade; algumas simplesmente estapafúrdias sobretudo quando o assunto era a fundação e os primeiros séculos da cidade. É precisamente essa ausência de realismo que me fez abster de transcrever o primeiro capítulo de descrição da cidade, que quase mais nada faz do que atribuir a sua fundação aos refugiados da guerra de Tróia, segundo a hipótese que o autor considera mais verosímel! Fr. Manuel da Esperança era da opinião que a cidade do Porto nascera em Miragaia, «ũa colónia nova» dos primitivos habitantes do «castelo de Cale [que] era no monte de Gaia». Só depois «mudou de sítio pera maior segurança, escolhendo por assento a cabeça de um monte, o qual não distava muito»: o morro da Penaventosa.

 

Na integra, transcrevo abaixo o outro capítulo dedicado incialmente à descrição da cidade, com alguns comentários no final de cada número. (Todas estas transcrições levam a ortografia atualizada exceto nos pontos onde as diferenças não deverão ser meramente ortográficas).

 

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Das qualidades, e sítio desta cidade do Porto

1. Quando ela [a cidade] quis pregar, pera que não desandasse, a roda da incostante fortuna, que de presente a ia engrandecendo, subiu dos baixos de Miragaia pera o alto de um monte, como já temos escrito, onde ficava senhora da terra, e mais do rio(1). É o monte por partes despenhado, mas alegre, e muito acõmodado à defensam dũa praça. Ainda hoje ostenta sobre a sua cabeça ũa coroa de muros, cerca da cidade velha, abertos por quatro portas com tribunas, e altares, onde se oferece a Deus no sacrifício da missa a imaculada hóstia. Em um deles está a venerável imagem da Senhora de Vandoma, a qual aí colocou D. Onego Bispo, ou natural da cidade deste nome em França, por memoria do favor particular, e visível que ela lhe tinha feito, e a os outros Franceses, quando por esta porta entraram, e lançaram fora dela os mouros. Na mesma ocasião foi achada num silvado outra imagem desta senhora puríssima, que ficara do tempo dos cristãos, a qual se chama da Silva, e na Sé, onde está, a veneram os fiéis por imagem milagrosa.

1. Como vimos atrás o autor dá a cidade como tendo sido primeiramente estabelecida em Miragaia, após a passagem dos "colonos" da margem sul para a margem norte.

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2. Tomando depois co a idade mais forças, desceu a o vale, e subiu por outro monte com tanta conformidade da natureza, e arte, que tudo junto parece um jardim de edificios, ũa cidade de árvores. Desceu também a vizinhar com o Douro, seu contínuo ministro, em muitas embarcações, naturaes, e estrangeiras, de quanto é necessário pera a vida humana. Suas águas mais copiosas, do que as outras do Tejo,(2) arrastando nas areas grãos de ouro, cançadas de rodearem longas terras de Espanha, meia légua abaixo, e não mais, onde fazem ũa barra, a melhor daquela costa, se misturam co as salgadas do mar. Os muros, com que agora se cinge, começando a faze-los El-Rei D. Afonso IV. ajudando algũas condenações, e trabalhado na obra os Concelhos, e Julgados da Comarca, por ela ser tão notavel, ainda El-Rei D. Afonso V os achou por acabar(3). Concorreram muitos em seu acrescentamento com edifícios nobres, como foi El-Rei D. João I. o qual fez a rua Nova, a que chamava a minha rua fermosa. Mas o remate de toda a sua gloria é o brasão, que tem tomado por armas: a saber, ũa imagem da Senhora Mãe de Deus no meio de duas torres com esta letra â roda, Civitas Virginis, ou Cidade da Virgem,(4) em português. As rezões seriam muitas, e por ventura todas juntas: ou a respeito das duas santas imagens, de que fizemos memória: ou porque na sua restauração lha ofereceram logo os mesmos restauradores: ou por que por amor dela, ob amorem Beatissimae Virginis Mariae, deu o seu senhorio a os bispos a rainha D. Tereja, mulher do Conde D. Henrique.

2. O rio Tejo é de facto o rio mais longo da Península Ibérica, contudo o mais caudaloso é o Douro.

3. Aqui uma dúvida: a muralha do Porto ocupou três reis: D. Afonso IV, D. Pedro I e D. Fernando. Para ainda estarem incompletas ao tempo de D. Afonso V teriam as obras de ter atravessado mais dois reinados (D. João I e D. Duarte) o que parece muito pouco provável.

4. Se o brazão antigo alguma vez ostentou a expressão CIVITAS VIRGINIS incorria em erro(!) pois o que aquela frase realmente diz é Cidade Virgem; o que é completamente diferente. Para estar corretamente escrito deveria dizer CIVITATIS VIRGINIS (Civitas = "cidade" (nominativo) e Civitatis = "cidade da" (genitivo); o que aliás surge, corretamente, no selo mais antigo da cidade que se conserva ainda no Arquivo Municipal.

 

3. Debaixo do seu emparo, e protecção clementíssima logra melhor o cuidado, que tem da mesma cidade o Mártir São Pantaleão, médico nobre, que fora de Nicodemia e seu insigne padroeiro, cujas sagradas relíquias se guardam na sua Sé, dentro dum cofre de prata, que El-Rei D. Manuel, comprindo o testamento d'El-Rei D. João II. mandou fazer com efeito. Vimos isto pelos anos de 1599. quando o reino ardendo todo em peste: abrasando-se vilas, e cidades: consumindo-se, não somente os povos vizinhos desta como eram Massarelos, Gaia, & Vila Nova, mas também os arrabaldes, que tocam em os seus muros: impedidos ũa vez, e outra todos, por estarem enfermos deste mal contagioso: ela sempre conservou inteira sua saúde por intercessão da Virgem Senhora Mãe, e santos merecimentos do dito seu padroeiro.

 

4. Fizeram muito os reis por meterem na Coroa o senhorio desta famosa cidade, e assi o alcançaram depois de largas contendas: mas queriam ter por sua ũa cidade insigne no amor, e lealdade, na nobreza, e comércio. Por isso foi das primeiras, que tomaram a voz do Mestre d'Avis, sendo defensor do reino, ajudando-o nesta, e noutras ocasiões de todo o seu reinado, como também a outros reis, com grandiosas despesas de dinheiro, de navios, de soldados. E isto tudo com tanta autoridade, que mandando o dito Mestre d'Avis pedir favor a El-Rei de Inglaterra pera resistir às forças do castelhano, três procurações bastantes, em cuja virtude se haviam de celebrar os contratos, que entregou a seu embaxador, ũa delas era sua: as outras, de Lisboa, e do Porto. E depois a estas cidades ambas, que mais o tinham servido, aventajou a quantas há neste reino nas mercês, e privilégios.

 

5. Os fidalgos também, a maior parte dos quaes neste tempo se achava por Entre Douro, e Minho nos seus solares, e quintas, dentro dela, queriam fazer morada, convidados das muitas conveniências de frescura, e regalo. Mas aquele grande brio dos naturaes, e vizinhos, com que depois assolaram no tempo do dito Rei D. João o seu castelo de Gaia donde tinham procedido(5), por não quererem sofrer as grandes exorbitâncias, que a gente d'Aires Gonçalves de Figueiredo, em cujo poder estava, fazia pelas aldeas: este mesmo lhes embargou os intentos por meio dum privilégio d'El-Rei D. Fernando, que já temos citado em outra parte. Porque pera sustentar nobreza bastavam as muitas casas ilustres, que havia na cidade, e os fidalgos forasteiros, segundo a condiçom deles era, como disse o mesmo Rei, mais ofendiam co as suas liberdades, do que podiam honrar co a sua assistência. Pela qual rezão tambem os dous mosteiros antigos da Ordem de Santa Clara em Vila do Conde, e Entre-Ambos os Rios impetraram semelhantes provisões, pelas quaes se ordenou, que eles nos seus lugares não gastassem muitos dias. Mas já este privilégio do Porto está revogado por El-Rei D. Manuel.(6)

5. Lembrar que o autor dá o Porto como fundado por gregos, no castelo de Gaia...

6. Por estes dias a cidade celebra o Foral outorgado por D. Manuel, com exposições na Câmara Municipal e no Arquivo Histórico. Contudo o que a generalidade das pessoas não sabem é que esse foral, que decorre de uma reforma geral dos forais da primeira dinastia já desajustados da realidade no séc. XVI e mandada executar pelo monarca, acabou por impor um papel proponderante da Coroa, retirando privilégios à cidade como o aqui referido.

 

7. Não daria Anibaes Cartaginenses, porque o seu sangue nunca pode receber as tintas falsas de África: deu porém Heitores Gregos(7), e famosos Portugueses. Muitos vivem nas histórias do reino com esclarecido nome: outros andam celebrados no testemunho da fama. É impossivel nomea-los aqui todos; e escrever só de uns, será ofensa dos outros. Mas merece exceição o Infante D. Henrique, filho de El-Rei D. João I. que nasceu nesta cidade, onde seu pae se havia recebido(8), e como ela tinha vindo a o mundo pera senhora do mar, tambem ele, inclinado à sua navegação, fez descobrir ilhas novas, e costas desconhecidas, pelas quaes se foi achando a carreira tão dilatada da Índia. E sem descermos a outra pessoa, nem caso particular, pera crédito de tudo damos a grave sentença do doctissimo Gaspar Estaço, Cónigo da Real Colegiada da Vila de Guimarães, o qual diz, que os naturaes do Porto são homens generosos, magníficos, de alta virtude, e singular valor, que com honrosos feitos de prudência, de justiça, de fortaleza, e de amor da pátria acquiriram sempre muitas qualidades, que a o nome do Porto importaram todo o cabedal de honra, que possue.

7. Frei Manuel da Esperança estava mesmo convencido do sangue grego envolvido na fundação de Cale...

8. Temos de ser históricamente rigorosos: não há prova que o infante D. Henrique nasceu no Porto. Temos prova sim, de que foi aqui batisado por haver documentos para pagamento da despesa. Acredito que de facto ele aqui tenha nascido, pois a mortalidade infantil era tão grande por aquela época e era tão horroroso levar à terra uma alma por batisar, que as crianças seriam rapidamente levadas à pia, sobretudo as da nobreza que sempre tinham posses para isso. Mas aviso: é apenas um pensamento para mim próprio...

 

8. Se falara nas virtudes que tocam a o espírito, como é a devação, piedade, e grande amor de Deus, e aqueles, que o servem, por esse mesmo estilo houvera de escrever. Recolheram em treze casas com grande benevolência as Religiões sagradas(9): a saber, nove de religiosos, quatro de religiosas, depois das quaes se fundou ũa de mininos orfãos. E aventajado nisto, como em tudo, a nossa Ordem seráfica, a ela deu dous conventos de frades, e dous mosteiros de freiras, demais que ajuda a sustentar com esmola ordinária outro convento de frades, o qual é a Conceição de Matosinhos. Da devação particular, que nos tem, diremos em outra parte.»

9. Para quem não está muito habituado a ler crónicas de Ordens religiosas, o termo religião tem também o significado de Ordem (religiosa), e por isso surgem a toda a hora na crónica franciscana, dominicana, etc expressões como "a nossa religião".

 

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Bibliografia:
História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de São Francisco na província de Portugal, de Frei Manuel da Esperança, Volume 1, publicado (1656)

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SOBRE A VIELA DA NETA

por Nuno Cruz, em 02.07.17

Desde há alguns anos para cá, conforme vou procurando conhecer as transformações urbanísticas do centro histórico do Porto, tenho para mim que apesar de sempre se referir a época dos Almadas como de grandes transformações na cidade, isto é mais verdade no que toca à expansão (veja-se o caso do bairro dos laranjais). Contudo, quase cem anos depois dessas transformações, outras existiram tão ou mais importantes do que essas, que prepararam a cidade para o futuro, mas muito à custa de arruamentos que vinham já desde o séc. XIV/XV, pelo que essas novas ruas obliteraram para sempre da paisagem portuense outras bem antigas. E por isto normalmente refiro que existiu um Porto A.P.B. e um Porto D.P.B.: ou seja um Porto Antes de Pinto Bessa e outro Depois de Pinto Bessa; porque foi na verdade durante os mandatos na presidência deste dirigente que a cidade viu transformações enormes, as quais creio que só quem as viveu poderia avaliar completamente.

 

Uma delas foi a completa urbanização da área que compreendia a antiga viela da Neta, onde hoje temos uma boa parte da rua Sá da Bandeira. Esta viela do qual subsiste uma vintena de metros, acima do edifício onde esteve a Casa Forte; era no século XIX um local imundo e sórdido da cidade não obstante ai ter vivido - e falecido em 1863 - José da Silva Passos (que presidiu à Câmara por curtos periodos de tempo em 1834 e 1846). O projeto do novo arruamento foi aprovado em Câmara em 26 de julho de 1866, o que se reflete na pequena "notícia" que vão ler mais abaixo.

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A imagem acima é um pormenor da planta de aprovação da continuação da rua Sá da Bandeira de 1866: 1 - Viela da Neta; 2 - Teatro Baquet; 3 - Teatro Circo, depois Teatro Sá da Bandeira; 4 - Cruzamento da rua do Bonjardim com a rua Sá da Bandeira, agora Rua Sampaio Bruno, vendo-se assinalada à direita a fonte do Bonjardim. (imagem do Aquivo Histórico do Porto)

 

No jornal A Actualidade de 29 de Março de 1874 colhi esta curiosa lembrança que os redatores do jornal fazem à Câmara:

«Chamamos a attenção dos dignissimos vereadores para um padrão de desleixo e de immoralidade e um receptaculo de immundice que ahi se ostenta no centro da cidade sob a denominação de Viella da Neta. Aquelle caminho é hoje transitado por grande parte dos frequentadores dos theatros Baquet e Circo [Sá da Bandeira], além de ser um ponto de transito communicativo, quasi forçado, entre as ruas Sá da Bandeira [Sampaio Bruno], Bomjardim, Formoza, etc. O cheiro pestilencial, que ali reina de ordinario, só pode ser apreciado pelas victimas. Os quadros de desmoralisação que ali se observam são indescriptiveis. Custa além d’isso a comprehender o como não temos a registrar, além d’estes factos, algum assalto nocturno aos transeuntes. Sabemos que vae em dez annos que a camara municipal do Porto tem em seu poder os documentos precizos para dar principio á abertura de uma rua que substitúa aquella especie de azinhaga infernal.

Sabemos, mais, que um proprietario d’esta cidade offereceu á camara metade do terreno precizo para a realização das ditas obras, além de uma somma importante destinada á sua coadjuvação. Crêmos que só ao esquecimento póde ser attribuido o estado vergonhozo em que se acha o alludido local; outros lançarão o facto á conta de culpavel desleixo. E’ pois em interesse da propria camara que hoje formulâmos estas reflexões; involvem ellas uma reclamação. Esperamos que seja attendida.»

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Neste pormenor de uma imagem também ela do Arquivo Histórico do Porto pode ver-se: 1 - Traseiras das casas da rua de Santa Catarina com os seus quintais; 2 - local da Viela da Neta (que não se vê); 3 - Rua Sampaio Bruno (ao tempo Rua do Sá da Bandeira); 4 e 5 - Praça de D. Pedro e rua de Santo António (Praça da Liberdade e rua 31 de Janeiro). Atrás do telhado da igreja dos Congregados vemos o do teatro Baquet no lado que deitava para a viela em estudo.

 

É possível que a Câmara por aquela altura estivesse a dar prioridade a outros arruamentos, só depois se preocupando com este. Na verdade acabara de ser construida a rua Nova da Alfândega e a rua Nova de S. Domingos (depois, de Sousa Viterbo); em Abril de 1874 teria inicio a expropriação em redor da rua da Biquinha para construção da rua Mouzinho da Silveira e já se falava no alargamento das Cangostas (parte baixa da Mouzinho da Silveira) que já estava parciamente demolida graças à construção da rua Nova de S. Domingos. Isto só para falarmos dos milhares de reis de empréstimos que a Câmara contraíra para estas ruas e excluindo outras que se iam abrindo e continuando fora do centro histórico... A rua Sá da Bandeira, no seu troço novo, era importante sim. Mas com as ruas mais próximas à nova Alfândega a serem urgentes para escoamento do trânsito que todos os dias fazia um vai e vem constante entre ela e as Barreiras da cidade e que exigia arruamentos largos e modernos, talvez se pudesse prolongar mais um pouquochinho no tempo aquele remanescente de uma época pré-industrial ali às portas da cidade antiga.

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