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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A DESCRIÇÃO DO PORTO NA CRÓNICA DE FR. MANUEL DA ESPERANÇA

Frade franciscano, «leitor jubilado na santa teologia, & examinador nas três Ordens militares», Frei Manuel da Esperança nasceu no Porto em meados do século XVI, tendo falecido em Lisboa em 1670. Foi o responsável pela notável crónica da sua Ordem intitulada História seráfica da Ordem dos Frades Menores da província de Portugal, com o primeiro tomo publicado em 1656.

Nesta postagem recupero parte da sua saborosa descrição da cidade do Porto, com a ressalva que ela não é fidedigna, sobretudo quando se reporta a factos bastante recuados. Na verdade, algumas estórias lendárias circulavam por aquela altura com maior ou menor grau de desvio da realidade; algumas simplesmente estapafúrdias sobretudo quando o assunto era a fundação e os primeiros séculos da cidade. É precisamente essa ausência de realismo que me fez abster de transcrever o primeiro capítulo de descrição da cidade, que quase mais nada faz do que atribuir a sua fundação nada mais nada menos do que aos refugiados da guerra de Tróia, segundo a hipótese que o autor considera mais verosímel(!!).

Teria sido no «castelo da outra banda do Douro» que a cidade havia sido fundada; pois que estando «este nosso castelo na cabeça de hum monte, vestido de arvoredos» ficava o dito seguro e longe das inundações do rio. Mas, não satisfeitos alguns moradores com este lugar «e desejando alguns gozar mais de perto dos interesses do Douro» vieram ocupar «a ribeira, onde agora nos apparece a villa, que tem o nome de Gaia». Será que o autor se refere à zona do Senhor da Boa Passagem, no sopé do monte do castelo? Assim parece depreender-se pela referência ao lugar como sendo «fragoso, e pouco acommodado às suas embarcações» e por isso mesmo, «tornarão a passar o rio para a banda do Norte ... e fizerão seu assento logo na praia fronteira, que chamamos Miragaia, por ser melhor o seu porto, sem então se chegarem mais â barra» O autor pretende assim contrariar quem dizia que a cidade havia sido fundada justamente em Miragaia, ocupado o resto do capítulo discorrendo sobre a origem do vocábulo Cale e Portus-Cale... Fr. Manuel da Esperança era pois da opinião que a cidade do Porto nascera em Miragaia, «hũa colonia nova» dos primitivos habitantes do «castello de Cale [que] era no monte de Gaia». Só depois «mudou de sittio pera maior segurança, escolhendo por assento a cabeça de hum monte, o qual não distava muito»: o morro da Penaventosa!

 

Na integra, transcrevo abaixo o outro capítulo dedicado incialmente à descrição da cidade, com alguns comentários no final de cada número.

 

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Das qualidades, & sítio desta cidade do Porto

1. Quando ela [a cidade] quis pregar, pera que não desandasse, a roda da incostante Fortuna, que de presente a ïa engrandecendo, subio dos baixos de Miragaia pera o alto de hum monte, como jà temos escrito, onde ficava senhora da terra, & mais do rio.(1) He o monte por partes despenhado, mas alegre, & muito accõmodado à defensão d'hũa praça. Ainda hoje ostenta sobre a sua cabeça hũa coroa de muros, cerca da cidade velha, abertos por quatro portas com tribunas, & altares, onde se offerece a Deos no sacrifício da missa a immaculada hostia. Em hum delles estâ a veneravel imagem da Senhora de Vandoma, a qual ahi collocou D. Onego Bispo, ou natural da cidade deste nome em França, por memoria do favor particular, & visível que ella lhe tinha feito, e a os outros Francezes, quando por esta porta entrarão, & lançaram fora della os Mouros. Na mesma occasião foi achada num Sylvado outra imagem desta senhora puríssima, que ficara do tempo dos Christãos, a qual se chama da Silva, & na Sè, onde està, a venerão os fieis por imagem milagrosa.

1. Como vimos atrás o autor dá a cidade como tendo sido primeiramente estabelecida em Miragaia, após a passagem dos "colonos" da margem sul para a margem norte.

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2. Tomando depois co a idade mais forças, desceo a o vale, & subiu por outro monte com tanta conformidade da natureza, & arte, que tudo junto parece hum jardim de edificios, hũa cidade de arvores. Desceo tambem a

vizinhar com o Douro, seu continuo ministro, em muitas embarcações, naturaes, & estrangeiras, de quanto he necessario pera a vida humana. Suas aguas mais copiosas, do que as outras do Tejo,(2) arrastando nas areas grãos de ouro, cançadas de rodearem longas terras de Hespanha, meia legoa abaixo, & não mais, onde fazem hũa barra, a melhor d'aquella costa, se misturão co as salgadas do mar. Os muros, com que agora se cinge, começando a fazellos El-Rei D. Afonso IV. ajudando algũas condenaçoẽs, & trabalhado na obra os Concelhos, & Julgados da comarca, por ella ser tão notavel, ainda El-Rei D. Afonso V. os achou por acabar(3). Concorrerão muitos em seu acrescentamento com edificios nobres, como foi El-Rei D. João I. o qual fez a rua nova, a que chamava a minha rua fermosa. Mas o remate de toda a sua gloria he o brazão, que tem tomado por armas: a saber, hũa imagem da Senhora Mãe de Deos no meio de duas torres com esta letra â roda, Civitas Virginis, ou Cidade da Virgem,(4) em portuguez. As rezões seriam muitas, & por ventura todas juntas: ou a respeito das duas santas imagens, de que fizemos memoria: ou porque na sua restauração lha oferecerão logo os mesmos restauradores: ou por que por amor della, ob amorem Beatissimae Virginis Mariae, deu o seu senhorio a os Bispos a Rainha D. Tereja, mulher do Conde D. Henrique.

2. O rio Tejo é de facto o rio mais longo da Península Ibérica, contudo o mais caudaloso é o Douro (para isso muito contribuí o seu principal afuente, o Esla, que quando nele entra apresenta mais caudal do que o próprio Douro).

3. Aqui uma dúvida: a muralha do Porto ocupou três reis: D. Afonso IV, D. Pedro I e D. Fernando. Para ainda estarem incompletas ao tempo de D. Afonso V teriam as obras de ter atravessado mais dois reinados (D. João I e D. Duarte) o que parece muito pouco provável.

4. Se o brazão antigo alguma vez ostentou a expressão CIVITAS VIRGINIS incorria em erro(!) pois pretendendo dizer Cidade da Virgem, (pois é esse o título original portuense) o que aquela frase realmente diz é Cidade Virgem; o que é completamente diferente! Para estar corretamente escrito deveria dizer CIVITATIS VIRGINIS (Civitas = "cidade" (nominativo) e Civitatis = "cidade da" (genitivo); o que aliás surge, corretamente, no selo mais antigo da cidade que se conserva ainda no Arquivo Municipal.

 

3. Debaixo do seu emparo, & protecção clementissima logra melhor o cuidado, que tem da mesma cidade o Martyr são Pantaleão, Medico nobre, que fora de Nicodemia & seu insigne Padroeiro, cujas sagradas reliquias se guardão na sua Sé, dentro d'hum cofre de prata, que El-Rei D. Manoel, côprindo o testamento d'El-Rei D. João II. mandou faer com effeito. Vimos isto pelos annos de 1599. quando o reino ardendo todo em peste: abrazando-se villas, & cidades: consumindose, não somente os povos vizinhos desta como erão Massarellos, Gaia, & Villanova, mas tambem os arrabaldes, que tocão em os seus muros: impedidos hũa vez, & outra todos, por estarem enfermos deste mal contagioso: ella sempre conservou inteira sua saude por intercessão da Virgem Senhora Mãe, & santos merecimẽntos do dito seu Padroeiro.

 

 4. Fizerão muito os Reis por metterem na Coroa o senhorio desta famosa cidade, & assi o alcançarão depois de largas cõtendas: mas querião ter por sua hũa cidade insigne no amor, & lealdade, na nobreza, & comercio. Por isso foi das primeiras, que tomarão a voz do Mestre d'Aviz, sendo Defensor do reino, ajudandoo nesta, & noutras occasioẽs de todo o seo reinado, como tambem a outros Reis, com grandiosas despezas de dinheiro, de navios, de soldados. E isto tudo com tanta authoridade, que mandando o dito Mestre d'Aviz pedir favor a El-Rei de Inglaterra pera resistir às forças do Castelhano, tres procurações bastantes, em cuja virtude se avião de celebrar os contratos, que entregou a seu Embaxador, hũa dellas era sua: as outras, de Lisboa, e do Porto. E depois a estas cidades ambas, que mais o tinhão servido, aventajou a quantas ha neste reino nas mercês, & privilegios.

 

5. Os fidalgos tambem, a maior parte dos quaes neste tẽpo se achava por Entre Douro, & Minho nos seus solares, & quintas, dentro della, querião fazer morada, convidados das muitas conveniencias de frescura, & regalo. Mas aquelle grande brio dos naturaes, & vizinhos, com que depois assolarão no tempo do dito Rei D. João o seu castello de Gaia donde tinhão procedido(5), por não quererem sofrer as grandes exorbitancias, que a gente d'Aires Gonçalves de Figueiredo, em cujo poder estava, fazia pelas aldeas: este mesmo lhes embargou os intentos por meio d'hum privilegio d'El-Rei D. Fernando, que jà temos citado em outra parte. Porque pera sustentar nobreza bastavão as muitas casas illustres, que avia na cidade, & os fidalgos forasteiros, segundo a condiçom delles era, como disse o mesmo Rei, mais offendião co as suas liberdades, do que podião honrar co a sua assistencia. Pela qual rezão tambem os dous mosteiros antigos da Ordem de santa Clara em Villa do Conde, & Entr-Ambos os Rios impetrarão semelhantes provisões, pelas quaes se ordenou, que elles nos seus lugares não gastassem muitos dias. Mas jà este privilegio do Porto està revogado por El-Rei D. Manoel.(6)

5. Lembrar que o autor dá o Porto como fundado por gregos, no castelo de Gaia...

6. Por estes dias a cidade celebra o Foral outorgado por D. Manuel, com exposições na Câmara Municipal e no Arquivo Histórico. Contudo o que muitos não sabem é que esse foral, que decorre de uma reforma geral dos forais da primeira dinastia já desajustados da realidade no séc. XVI e mandada executar pelo monarca, acabou por impor um papel proponderante da Coroa, retirando privilégios à cidade como o aqui referido.

 

7. Não daria Annibaes Carthaginenses, porque o seu sangue nunqua pode receber as tintas falsas de Africa: deu porém Heitores Gregos(7), & famosos Portuguezes. Muitos vivem nas historias do reino com esclarecido nome: outros andão celebrados no testemunho da fama. He impossivel nomeallos aqui todos; & escrever só de huns, serà offensa dos outros. Mas merece exceição o Infante D. Henrique, filho de El-Rei D. João I. que nasceo nesta cidade, onde seo pae se avia recebido(8), & como ella tinha vindo a o mũdo pera senhora do mar, tambem elle, inclinado á sua navegação, fez descobrir ilhas novas, & costas desconhecidas, pelas quaes se foi achando a carreira tão dilatada da India. E sem descermos a outra pessoa, nẽ caso particular, pera credito de tudo damos a grave sentença do doctissimo Gaspar Estaço, Conigo da Real Collegiada da villa de Guimarães, o qual diz, que os naturaes do Porto são homẽs generosos, magnificos, de alta virtude, & singular valor, que cõ hõrosos feitos de prudencia, de justiça, de fortaleza, & de amor da patria acquirirão sempre muitas qualidades, que a o nome do Porto importarão todo o cabedal de hõra, que possue.

7. Frei Manuel da Esperança estava mesmo convencido do sangue grego envolvido na fundação de Cale...

8. Temos de ser históricamente rigorosos: não há prova nenhuma de que o infante D . Henrique nasceu no Porto. Temos prova sim, de que foi aqui batisado por haver documentos para pagamento da despesa. Acredito que de facto ele aqui tenha nascido, pois a mortalidade infantil era tão grande por aquela época e era tão horroroso levar à terra uma alma por batisar, que as crianças seriam rapidamente levadas à pia, sobretudo as da nobreza que sempre tinham posses para isso. Mas aviso: é apenas um pensamento para mim próprio...

 

8. Se falara nas virtudes que tocão a o espirito, como he a devação, piedade, & grande amor de Deos, & aquelles, que o servuẽ, por esse mesmo estilo ouvera de escrever. Recolherão em treze casas cõ grande benevolencia as Religiões sagradas(9): a saber, nove de religiosos, quatro de religiosas, depois das quaes se fũndou hũa de mininos orfãos. E avẽntajado nisto, como em tudo, a nossa Ordem serafica, a ella deu dous cõventos de frades, & dous mosteiros de freiras, demais que ajuda a sustentar com esmola ordinaria outro convento de frades, o qual he a Conceição de Matozinhos. Da devação particular, que nos tem, diremos em outra parte,»

9. Para quem não está muito habituado a ler crónicas de Ordens religiosas, o termo religião tem também o significado de Ordem (religiosa), e por isso surgem a toda a hora na crónica franciscana, dominicana, etc expressões como "a nossa religião".

 

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Bibliografia: História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de São Francisco...

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