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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A FONTE DAS CONGOSTAS E O TRISTE FIM DO SEU BRASÃO

Esta publicação vem em sequência de uma anterior (ver aqui) onde é referida a fonte das Congostas. Tal como nela, não me perco em considerações e permito logo de início a Pedro Vitorino "falar" em pleno.

 

 

EXCERTO

«Deve datar dos princípios do século XVIII a construção da Fonte das Congostas, que a abertura da rua do Mousinho da Silveira fêz desaparecer de 1882 para 1883.


As feições arquitectónicas do renascimento condizem com essa época. O alçado constava de um corpo central com uma forte cimalha apoiada em colunas canuladas, com capiteis de inspiração coríntia, sobrepujado por um frontão de remate circular, onde se encostavam, na frente e aos lados, três golfinhos de bocas hiantes; lateralmente, pequenos corpos, com tímpanos curvos de ligação, limitados por pilastras. As bicas eram rasgadas no meio de cartelas exuberantes, com contornos de feição flamenga. Conjunto de linhas muito equilibradas e de formoso aspecto.

fonteCongostas.jpg

O escudo real, do tipo adoptado por D. João III, não corresponde à época da construção. Deve ter pertencido a uma fábrica anterior, possivelmente mais modesta. Dêste brasão, ou de um outro igual, talvez de menor tamanho, há uma pequena história a referir. Tendo sido em tempos poupado da destruïção, houve a louvável ideia de o colocar numa pequena casa que servia de pôsto da guarda municipal no Bonfim, ao lado da escadaria da igreja. Com o advento da República, a febre insensata de abater os símbolos do antigo regime levou à barbaridade de lhe ser picada a coroa, mutilação que só numa terra de néscios poderia admitir-se, visto ser um documento arqueológico digno de figurar num museu.
 
Apesar da municipalidade possuir um estabelecimento dêste género, quando há pouco tempo se transformou a casa no nicho de uma imagem a Santo António, o Museu não foi lembrado, indo parar a pedra armoriada, com outras do pardieiro, às obras de uma nova rua, para as Antas, onde a converteram em cascalho. Isto passou-se em 1929. É bom recordar os inúteis esforços que Rocha Peixoto fêz, quando conservador do Museu Municipal (no período de 1900 a 1909), para que êste estabelecimento fôsse "convidado a emitir opinião" sempre que se tratasse de velhos edifícios a demolir, a fim de que a cidade do Pôrto não ficasse desconhecendo o seu passado. Se  isso se observasse, como convinha, de então para cá, seria o Museu um arquivo-documentário bem mais rico do que presentemente é.

A fotografia da fonte das Congostas mostra, na bica do lado esquerdo, insculpida, a palavra Paranhos, em concordância com a indicação já referida em 1669 pelo P.e Baltasar Guedes(1); mas não era só a água dessa origem que a alimentava, pois obtinha refôrço com água vinda do chafariz de S. Domingos, formada por uma mistura de Paranhos e do Laranjal.
 
Lembrarei que por portaria de 21 de Dezembro de 1821 se determinara que nas fontes públicas que tivessem duas bicas, uma fôsse destinada aos particulares e outra aos aguadeiros, para o que haveria dizeres indicativos. A fotografia mostra bem essa separação: junto de uma das bicas agrupam-se os longos canecos dos aguadeiros, que se enchiam por intermédio de um cano, móvel, de fôlha.

Os aguadeiros, na totalidade galegos, levavam a água às casas transportando-a nos seus característicos canecos. Como notou Alberto Pimentel no Guia do Viajante no Porto (1877), "os aguadeiros portuenses não andam pela rua oferecendo agua, como os de Lisboa. Estão afreguezados, e levam a agua todos os dias a casas certas. Usam chapeu desabado, ou boné, jaqueta com chapa [numerada, seguramente] e enormes sapatos, quasi redondos, presos com atilhos sobre o peito do pé". Para completar a descrição, direi que o aguadeiro, figura típica há muito desaparecida do Pôrto(2), prendia ao ombro esquerdo um pedaço de couro, onde o caneco assentava para o transporte.»

in O Tripeiro, 4ª Série, Maio de 1931

 

fontecong.jpg

Acima podemos ver um pormenor da Terceira folha da planta entre a Porta Nobre e o Cais da Alfândega - guardada no ADP - onde se vê o local da fonte das Congostas. Como se pode constatar, encostado a ela estava um dos passos idênticos ao que ainda hoje vemos encrastado no muro que sustenta a igreja de S. Francisco (a uns 50 metros de distância deste local). Vemos também que quer a fonte quer o passo se encostavam a casas agora inexistentes e que corriam no seguimento das da margem norte da rua do Infante (margem onde se encontra a Feitoria Inglesa).

Abaixo, com a ajuda do googlemaps podemos ver sensivelmente onde a fonte se localizava em relação à atualidade.

local.jpg

 _____

1) - O autor refere-se à obra de 1669 deste prelado intitulada Memória de todos os aqueductos, chafarizes e fontes da cidade, onde é referido que a água para as Congostas vinha pelo aqueducto de Paranhos.

2) - Para um melhor entendimento e contextualização da observação de Pedro Vitorino tenha-se em consideração que este escreve em 1931.

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