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A PONTE D. MARIA II

por Nuno Cruz, em 28.01.18

Terá, caro leitor, ficado por uns segundos confuso com esta designação? Que ponte é esta?! A do caminho-de-ferro? Não essa era a de D. Maria Pia, a princesa italiana que casou com o rei D. Luís e que em 1910 foi obrigada, já idosa, a embarcar para o exílio juntamente com o neto D. Manuel II. Na verdade, esta ponte é a estrutura que ficou conhecida por ponte pênsil, nome pela qual os jornais da época quase a tratavam em exclusivo, alternando com o termo ponte sobre o Douro. Teve o mérito de ser a primeira ponte permanente que existiu ligando as duas margens e constituía o remate da também primeira verdadeira estrada Lisboa-Porto. Levou o nome de D. Maria II, monarca reinante aquando da sua construção, que viria a falecer em 1853 durante o parto do undécimo filho.

 

Pessoalmente, fico sempre encantado quando olho para uma qualquer fotografia que a revele, sobretudo quando tirada da Serra do Pilar. O conjunto dado por aquela estrutura, pela silhueta da cidade velha atrás e os "longínquos" montes do Candal, Arrábida e lá bem ao fundo a foz do Douro; transportam-me sempre para uma época em que - incompreensível para o portuense de hoje - o Porto era ali. As localidades não se entrecruzavam, Massarelos e Cedofeita eram arrabaldes e o mundo andava talvez a um ritmo mais humano. Não ocorrera ainda a cisão da paisagem, que a ponte Luiz I viria a impor com a sua colossal massa de ferro... Estavamos portanto na presença do Porto do romantismo na sua plenitude!

Mais abaixo deixo-vos com o texto que Pinho Leal nos legou no seu Portugal Antigo e Moderno, sobre esta ponte.

 

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Neste pormenor de uma imagem de cerca 1872 vê-se a ponte D. Maria II mas também a antiga estrutura onde apoiava a ponte de barcas, já com as alminhas para sempre lembrando o fatídico desastre de 29 de março de 1809. Aquando da inauguração da ponte D. Maria II os barqueiros foram relocados para lugares mais distantes dela, o que originou o seu protesto por se verem discriminados face à nova concorrência daquela passagem.

 

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«Vê-se ainda sobre o Douro a Ponte Pênsil, um pouco mais ao nascente do local onde esteve anteriormente a ponte das barcas (...). Fica entre os Guindais, do lado do Porto, e o sítio denominado o Penedo, na margem fronteira.

Está suspensa por oito grossas correntes, feitas de fios de arame de ferro queimado, cobertas de uma espessa crusta de verniz, as quais, divididas em dois grupos, assentam sobre quatro elegantes obeliscos ou colunas de granito, que se erguem das margens do rio nos dois extremos da ponte, sendo cada par de colunas ligado entre si por pranchas de ferro junto aos capitéis, e vendo-se nas ditas pranchas a seguinte legenda: “D. Maria II – 1842”. As oito correntes atravessam as quatro colunas, e descendo até ao solo, são chumbadas com grande solidez em rocha viva muito abaixo do nível de superfície com enormes chumbadouros dentados, que alargam por largo a rocha. Destas correntes pendem perpendicularmente outras da mesma espécie, mas muito mais delgadas, em número de 211, ficando 108 do lado do nascente, e 103 do lado do poente, e dispostas em iguais distâncias seguram pela extremidade inferior as vigas sobre que assenta o pavimento da ponte, que é de madeira, variando o comprimento destas correntes na razão da curva que descrevem as oito correntes principais. No centro das duas colunas do lado da cidade há uma casa, cujo pavimento inferior serve de quartel para a guarda militar, que faz a polícia da ponte, e no pavimento superior há uma espécie de salva-vidas com uma maca, uma cama, roupas e aparelhos próprios para socorrer as vitimas de qualquer naufrágio ou desastre; e do lado de Vila Nova há outra casa igual àquela, que serve de habitação para alguns dos empregados na cobrança das passagens, e armazém de utensílios da ponte. Há também nas extremidades da ponte duas casinhas, onde se cobra o imposto de trânsito, e que é, com pequena diferença, o mesmo que se pagava na antiga ponte de barcas.

A ponte é iluminada a petróleo nas noites em que não há luar, por seis candeeiros, além dos da casinha do lado da cidade, pois de noite só nesta casinha se paga o imposto do trânsito.

 

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Mais antiga cerca de uma década do que a imagem acima, este pormenor de uma vista panorâmica da cidade mostra-nos os pilares norte da ponte, aqueles que ainda hoje subsistem (os pequenos círculos a laranja mostram o local onde os tirantes foram chumbados na rocha). No miolo desses pilares encontra-se a casa da guarda da ponte bem como o andar superior com os apetrechos salva-vidas. Vê-se também a casa da cobrança do imposto (1), a rampa construída - não sem polémica - para acesso à ponte (2), uma passagem pedestre para cima do muro (3) e aquilo que parece ser um troço da antiga muralha gótica, na continuação dos arcos (4). Este troço está atualmente em parte exposto dentro de um pequeno espaço comercial.


O pavimento da ponte tem passeios e varandas de madeira, e destas a do lado de o nascente mede desde a coluna do sul até à casinha de arrecadação do lado norte, 154m, e a casinha 4,5m; e desta casinha até à coluna que fica do mesmo lado, 8 metros e dois centímetros – total, 166 metros e 70 centímetros. A varanda do lado poente, por causa da entrada da cidade para a ponte, é menos extensa, e mede 153 metros; a altura destas varandas é de um metro e dois decímetros; o passeio tem de largo um metro, e a ponte 6 metros de abertura. Os obeliscos, que são perfeitamente iguais, medem desde a base até à sua extremidade superior, que é decorada por um globo metálico, 18 metros de altura; cada um daqueles globos tem um metro de diâmetro, e os tirantes, ou pranchas de ferro que ligam as colunas, medem de comprimento 7 metros e dois decímetros, e de largura 5 decímetros, cada um.

Deu-se princípio a esta ponte no dia 2 de Maio de 1841, aniversário da coroação da rainha, ao tempo a senhora D. Maria II. No dia 1 de Fevereiro de 1843 já se achavam completas as obras principais e esperava-se apenas ordem do governo para a inauguração e abertura da ponte, dispondo-se os representantes da companhia construtora para tornarem aquele ato solene e aparatoso; mas sobrevindo uma cheia no Douro, que obrigou a retirar, na forma do costume, a velha ponte de barcas no dia 17 de Fevereiro daquele ano, abriu-se para o trânsito público a nova ponte no dia 18 de Fevereiro de 1843.

Foi feita esta ponte sob a direção do engenheiro de Claranges Luccotte, a expensas de uma companhia de acionistas que a devia fruir por espaço de 30 anos, entregando-a no fim deles ao Estado, de quem é propriedade, e foi construída na praia de Miragaia, no mesmo local que hoje ocupa a nova Alfândega; e para aquele efeito, a empresa construtora levantou ali um amplo abarracamento para montar as forjas e mais oficinas necessárias, precedendo licença da Câmara Municipal, e assinando a companhia um termo pelo qual se obrigava a demolir tudo, e repor aquele chão no estado em que o encontrou, apenas terminasse a obra, cláusula que a empresa por último não queria cumprir, mas a Câmara recorreu ao poder judicial, oficiando ao juiz eleito da freguesia de Miragaia, a fim de compelir (como compeliu) a empresa a satisfazer o estipulado.»

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Embora Pinho Leal refira Claranges Lucotte como o engenheiro que superintendeu a construção, o engenheiro responsável pela sua conceção foi Stanislas BigotAqui poderá o leitor curioso ter acesso ao livro publicado em Lisboa em 1843, onde é explicado o projeto. Este opúsculo é também assinado por um engenheiro auxiliar(?), Amédée Carruette, nome que trago para a frente no intuito de a sua memória poder colher algum dos louros daquele monumento, que por cerca de meia centena de anos uniu em permanência as duas margens.
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Nota: publicado em 12/09/2009 no blogspot, agora revisto e aumentado.

Bibliografia: Portugal antigo e moderno, de Pinho Leal (artigo S. Nicolau no vol. 6).

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