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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A PONTE "DE SANTA CLARA À SERRA"

Curioso título não? Mas se o caríssimo leitor pensar por dois segundos descobre logo que se fala da ponte Luiz I, pois.... na realidade não! Esta publicação vem trasladada do alojamento anterior d' A Porta Nobre no blogspot, sendo que a publiquei à relativamente pouco tempo (2016). Contudo no seu final acrescentei mais um pequeno texto que encontrei num periódico portuense bem antiguinho (estes jornais são excelentes locais de prospeção onde se podem encontrar muitas relíquias do género que, por surgirem em publicações que morrem todos os dias, ficaram como que soterradas nas pilhas e pilhas de informação que estes contêm; à espera que um arqueólogo de antiqualhas as vá desenterrar e "musealizar" no seu humilde blog ou outro qualquer escrito).

 

O que se apresenta abaixo é um extrato de um artigo de opinião do Periódico dos Pobres no Porto de Abril de 1845 e que versa sobretudo as obras da barra do Douro. Por aqui se vê que já naquela altura se discutia a enorme perigosidade para a navegação que era a entrada no Douro e já se falava num porto de abrigo a construir nuns leixões que existiam um pouco mais a norte... havia gente, imaginem, que até se opunha veementemente a isso! Ora como é sabido neste país muito se fala e estuda e pouco se faz: naquela altura assim o era também e por isso se esperou mais sete anos, tendo de surgir um desastre da magnitude do do vapor Porto para se começar realmente no Terreiro do Paço a dar ouvidos aos apelos por um porto seguro para a "segunda capital do reino", para usar uma expressão muito em voga nos jornais portuenses da época.

No entanto o artigo de opinião refere-se também à ponte D. Maria II que apenas dois anos antes havia sido inaugurada e que esteve longe de um consenso entre a população... Estes pequenos apontamentos são tirados dos primeiros dias de Abril do jornal supracitado, onde inclusive o próprio Estanislau Bigot, autor do projeto, parece se ter sentido ofendido e respondeu ao jornal.

São apenas os parágrafos referentes à ponte que aqui coloco.


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Artigo do redator:
«... Uma outra obra há a fazer no Porto, em virtude de uma das condições com a empresa da ponte e estrada de Lisboa, que até esse bem nos trouxe a Ponte Pênsil onde a puseram, e é o abrir-se à custa do público um caminho que comunique a Ponte Pênsil com a estrada de Lisboa: essa obra ainda não está contratada com a Companhia, mas é provável lhe venha a ser dada.

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Projeto de 1802 da autoria do Eng. Carlos Amarante, para construção de uma ponte em alvenaria a ser construída no local onde hoje se encontra a Ponte Luís I. Seria verdadeiramente um colosso se construída!

 

Qualquer que seja a direção que se lhe dê, esse cabeção de estrada tem de ser dispendioso por as expropriações e pelos desaterramentos, e jamais poderá ficar com inclinação assas suave para que possam por ela transitar diligências. Não serão essas somas mais bem gastas em construir a ponte de pedra há 50 anos em projeto que ligue o morro de Santa Clara à Serra? No arquivo da Câmara Municipal deve existir o plano e memória para a sua construção. Com esta ponte, ou seja, de pedra ou de ferro, a estrada de Lisboa ficaria quasi ao livel da cidade, mui pouco haveria a gastar para a comunicar, e as diligências poderiam vir ao interior da cidade; e todo o alto de Vila Nova nas proximidades da Serra viriam a ter grande valor, pois ficavam sendo por assim dizer um bairro da cidade.


Esta ponte não pode fazer-se, parece-nos, sem uma indeminização à Empresa da Ponte Pênsil; não seria esta tão desarrazoada que desprezasse uma razoável compensação, pois que pelo rio continuaria sempre a fazer-se o trânsito entre o bairro comercial da cidade e a parte baixa da vila onde se acham todos os armazéns de vinho.

Há que tanto dinheiro por aí se tem gasto tão mal gasto, faça-se ao menos uma obra que dê nome a quem a realizar, e não se vão fazer encruzilhadas de cabras para aproveitar essa mesquinha ponte que nos deram.»

 

Dias depois, a 9 de Abril, o próprio Bigot sai em defesa da ponte por ele projetada e diz-nos no mesmo jornal:
«... Quanto ao que respeita à Ponte Suspensa, o autor do art. deveria dizer: - Esta ponte não é tão bela nem tão bem acabada como a Ponte de... (escolhida em França onde este sistema é mais adotado) isto seria mais razoável do que dizer "É uma ponte mesquinha". Eu estou perfeitamente convencido que a ponte de pedra ou de ferro de um só arco que unisse a Serra a St.ª Clara seria de uma ordem e de uma magnificência incomparável à ponte atual; seria neste género o monumento mais notável da época.»

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Logo a seguir a publicar o comunicado de Bigot o jornal expõe novamente as suas razões, entre as quais:

«... O Sr. Bigot ofendeu-se com a expressão que empregamos de - mesquinha ponte - falando da pênsil sobre o Douro. Não é uma nem duas vezes que temos elogiado a perícia do Sr. Bigot na sua construção, ela estabeleceu os seus créditos. Chamamos-lhe - mesquinha ponte - porque a empresa, em lugar de a fazer construir de Santa Clara à Serra, como requerera a Câmara, conservando a de barcas; quis construí-la onde lhe ficasse mais barata: chamamos-lhe - mesquinha - porque foram colocar no mais estreito do rio, a grande distância das ruas da cidade, de sorte que apenas transita por ela uma terça parte das pessoas que transitavam pela antiga, preferindo os outros irem em barcos: - mesquinha - porque, sendo a sua mais apregoada vantagem a de dar comunicação para a margem esquerda em tempo de cheias, apenas, quando as há que cubram o cais, podem chegar a elas pessoas a pé, e algumas cavalgaduras e bestas de carga que tem de descer ou subir degrau a degrau a escadaria do Codeçal! Mas nem a carros ou carruagens isso é possível. E foi para isto que o estado perdeu por trinta anos o melhor de dez contos por ano. Quanto ao projeto da Ponte de Santa Clara à Serra, que comunique a cidade com a estrada de Lisboa, único modo de poderem entrar na cidade diligências, folgamos que o Sr. Bigot concorde connosco em que seria o monumento mais notável da época

 

Ora caros leitores, o que está para trás veio trasladado de um jornal de 1845. Mas não creiam que a ideia era daquela altura. Já dez anos antes, o Industrial português, periódico dedicado à indústria publicado em Lisboa, havia lembrado que o local onde futuramente (1886) deveria assentar o tabuleiro superior da ponte Luis I, era o mais adequado para o traçado da estrada que seguia para Lisboa. E isto, quase cem anos antes de o automóvel se tornar uma alternativa viável ao velhinho carro de bois. A grande diferença: em 1845 temos a Ponte Pênsil a funcionar e em 1835, como se verá, ainda a velhinha Ponte das Barcas.

 

Eis o texto:

«O Porto é a formosa capital das ricas provincias do Norte; e reportando-se a quanto ella encerra tão elevados e honrosos pensamentos, parece que tudo o que possa activar a concurrencia, não só da curiosidade, mas particularmente da utilidade, deverá fazer objecto d’um empenho patriotico = Sobre este respeito, e a communicação, para a cidade, do paiz ao Sul do Douro, comunicação obtida actualmente com muito custo e incomodo, que deveremos desde já occupar-nos.
A estrada que hoje dirige do alto da Bandeira de Villa Nova de Gaia até á margem do Douro, é de passagem demasiado incomoda e trabalhosa; a ponte das barcas não encaminha directamente á cidade. Se acharmos um meio, que encurte o espaço, e torne o caminho, de mui inclinado, e prejudicial ao gado, mais suave e andamoso (sic), pouparemos não só muito tempo, mas o vestido, o calçado, a ferragem, e tambem a gordura dos animaes, que em todos elles agrada, e é indicio de força e saude.
Esta facilidade no trânsito dará igualmente vantagens de outra ordem, porque animará em proporção a industria, e o commercio: podendo afirmar-se que o publico tirará della, em um anno sómente, economias, que lhe paguem as despezas de oito annos de tranzito.
O meio que este simples enunciado deve ter já suggerido a quem lê, é sem duvida, sobre o Douro uma ponte de ferro suspensa, cuja direcção não pode ser melhor indicada que prendendo junto ao convento das freiras claras, e em frente na Serra do Pilar. Daqui a estrada que conduz ao alto da Bandeira terá só d’atravessar uma linha marcada pelo raio visual, com pequenissima inclinação.
Não cause o que fica dito aprehensões aos proprietarios da rua onde hoje se dirige a estrada: uma nova rua, maior frequencia de pessoas e objectos de todos os interesses devem com o tempo augmentar a população e habitações, sendo as que já existem, que primeiro se sintão desse movimento: é claro que o espaço adjacente se cubrirá todo de edificios, que darão consideraveis ganhos, particularmente aos primeiros edificadores, e estes serão sem duvida os actuaes proprietarios.»

O texto surge no jornal portuense A vedeta da Liberdade do dia 17 de novembro de 1835, mas era extraído do periódico que nomeei no início.

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