Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

À PROCURA DA CIVIDADE

Em 1932 o Prof. Mendes Corrêa publicou a sua conhecida obra As origens da cidade do Porto, onde o ilustre académico apresenta em aditamento um resultado sumário das suas escavações num quintal de uma das casas do morro onde se situava o largo do Corpo da Guarda. Essas escavações, as primeiras realizadas de modo científico na cidade do Porto, produziram resultados bastante inconclusivos; contudo vale a pena arquivar nas páginas deste blog o périplo que o autor fez por aquela área à procura da Cividade; pequena mas preciosa descrição de uma das mais antigas zonas da cidade que foi completamente obliterada e cujas derradeiras gerações que a calcorrearam estarão agora a atingir o outono da vida.

 

 

EXCERTO

« (...) Veiu, porém, o documento de 1519 servir-me de guia para uma perfeita solução do problema [o local da Cividade]. O documento fala na «viela que vai da travessa do Souto para a cividade de sôbre os Pelames.» Dirigi-me, na companhia do dr. Santos Junior, à travessa do Souto, partindo da rua do Souto. A estreita e imunda travessa conduzio-nos à varanda da rua dos Pelames, que domina a rua Mouzinho da Silveira e o rio da Vila, com uma escarpa de forte desnível [topo da fonte monumental que existe na rua Mouzinho da Silveira]. Prosseguindo, fômos por uma rua, hoje continuação da rua dos Pelames, mas que tanto está na sequência desta como na da travessa do Souto. Fomos desembocar quasi no alto da calçada do Côrpo da Guarda, e, com surpreza, deparámos na nossa frente com um muro alto, que ladeia à esquerda a subida e em cima do qual viamos hortas e arvores. Soubémos logo que as casas que se encontram do mesmo lado e as das ruas Chã e de Loureiro e do largo do Côrpo da Guarda que delimitam, com a calçada dêste nome, um quadrilátero irregular, ou não teem janelas nas trazeiras ou teem janelas e quintais em correspondência apenas com os últimos andares. Entrando nalguns dêsses quintais, verificámos que essa área corresponde a um escarpado monte, com todas as condições topográficas duma citânia ou cividade. O casario alto é que o ocultava aos nossos olhos. Papeis do fim do séc. XVIII, referentes a um dos prédios, falam da «viela do monte»,  a norte (travessa do Loureiro?).

cividade.jpg

Panorâmica tirada da Catedral onde se pode ver o monte da Cividade e no seu topo o largo do Corpo da Guarda. O n.º 1 indica a rua Chã e o 2 a rua do Corpo da Guarda. No local temos agora a uma cota bem mais baixa a avenida Dom Afonso Henriques. (foto: AHMP)

 

 

Assim, ao lado de S. Bento, entre a calçada do Côrpo da Guarda e a Rua Chã, separado da eminência da Sé pelo largo do Côrpo da Guarda e pelo vale da rua Escura, ha um môrro que, dominado os Pelames (como dizia da Cividade o documento de 1519), possuia as condições topográficas favoráveis para a Cividade. Esta designação abrangia tambem pela mesma época (...) as raízes do monte, o sítio onde se se edificaram o mosteiro e depois a estação de S. Bento. É um facto vulgar de extensão toponímica. Recentemente o sr. dr. Artur de Magalhães Basto, em artigos do «Primeiro de Janeiro» (n.º de 13 a 21 de Maio de 1932), publicou textos vários, quasi todos inéditos, que provam tambem a existência dum chafariz da Cividade e dum chão da Cividade, corresponde êste no séc. XV ao local onde se ergueu o mosteiro de Santo Eloy entre o largo Almeida Garrett e o dos Lóios. Verifica-se que o nome da Cividade ultrapassava o local correspondente à actual estação de S. Bento. Como o mesmo autor aventou, era possível tratar-se da supressão, com o tempo, da preposição sob que aparece nas passagens dos documentos do séc. XIV, em que se fala do ressyo a sob a Cividade e das Almoynhas de sob a Cividade. Assim, chão de sob a Cividade passaria simplesmente a chão da Cividade.

 

Obsequiosamente os srs. engenheiros Antonio Bomfim Barreiros e Nascimento, da Repartição Municipal da Carta da Cidade, mandaram proceder ao levantamento da carta do môrro. Em relação à entrada principal da estação de S. Bento, a diferença de nível do ponto mais alto é de 30 m., mas o desnível é maior em relação à parte sul-ocidental da Praça de Almeida Garret e à base da elevação dos Pelames, na rua Mouzinho da Silveira.

comp.jpg

«Fomos desembocar quasi no alto da calçada do Côrpo da Guarda, e, com surpreza, deparámos na nossa frente com um muro alto... »: esta passagem refere-se ao local da imagem 1, que se traduz no entroncamento da rua dos Pelames com a rua do Corpo da Guarda. As imagens 2 a 4 mostram vários estágios da demolição de todo o edificado nascente da rua do Corpo da Guarda: por detrás desses edifícios a diferença de cota salta à vista e foi precisamente neste local que Mendes Correia escavou (o muro que formava o talude ainda se pode ver em parte nas imagens 2 e 3. (imagem 1, foto do autor; imagens 2 a 4 do AHMP)

NOTA: Para auxiliar o leitor a comparar a paisagem atual com a dos anos 50 marquei com um X um edifício que surge em ambas as realidades (ver imagem 1 e 4).

 

De 14 a 26 de Abril de 1932, com amavel permissão do sr. Luiz Guimarães, proprietário dum terreno na parte mais alta do monte, procedi a escavações nêsse terreno. Encontraram-se espessas camadas de entulhos modernos, restos de antigas paredes correspondentes decerto a edificações sucessivas de que não havia notícia alguma, numerosos fragmentos cerâmicos, pregos, moedas, ossos de animais, etc. Mas nada podia dar-se como seguramente mais remoto do que os tempos medievos.  Entre os restos animais, apareceu um dente de veado. As moedas mais antigas encontradas (segundo a determinação do sr. prof. Damião Peres) são do séc. XIV. Mas é bem possivel que alguma cerâmica, mesmo os alicerces mais fundos, sejam anteriores.

 

(...) Os entulhos e revolvimentos modernos são numerosos. Além disso, o espaço em que se abriram as valas exploradoras é escassíssimo - poucas dezenas de metros quadrados. O declive da rocha natural da base acentuava-se para oeste e a parede circular profunda [possiveis restos de uma habitação de uma citânia] apareceu precisamente no recanto ocidental do terreno cortado por um forte talude artificial, ao fundo do qual ha casas modernas. Dêsse modo, não foi possível prolongar a escavação nêste sentido. Diligenciarei, porém, ainda fazer novas sondagens nalguns outros reduzidos espaços, hoje libertos de edificações. Mas receio bem que a área disponível não baste para uma pesquisa frutuosa e que a ocupação humana ulterior tenha destruido os restos taalvez já muito precários da velha citânia»

aattual.jpg

O local na atualidade: à esquerda vemos o que resta da rua do Corpo da Guarda, ou seja, a sua face oeste (B) e à direita o atual início da rua Chã (A) que perdeu as habitações do gaveto para o largo do Corpo da Guarda. O que resta do antigo morro da Cividade compreende-se apenas nos quintais das casas da rua Chã. O traço curvo representa simbolicamente esse morro já desaparecido. (foto do autor)

 

O que atrás se leu remonta a 1932, contudo deve advertir-se que o desenvolvimento da arqueologia urbana a partir dos anos 80 do século passado veio revelar que a citânia se localizou não no morro da Cividade mas sim no da Penaventosa. Englobando, pelo menos, a área da Catedral e seu terreiro, a Casa do Cabido, o Paço Episcopal bem como a rua de D. Hugo. Em publicação posterior voltaremos ao largo do Corpo da Guarda e ao palacete que nele existiu, prédio ao qual aliás, pertencia o terreno explorado por Mendes Correia.

_

Bibliografia: As origens da cidade do Porto

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D