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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A RUA DA ALMEA OU BOAVISTA, ARTÉRIA ESQUECIDA DA CIDADE

Há ruas agora extintas que pela sua importância na construção da cidade ou pelo seu relativamente recente desaparecimento, ficaram melhor vincadas na memória coletiva do que outras. Basta lembrar por exemplo a Rua das Congostas (que para mim ainda existe, mas isso são outros quinhentos...) ou a enorme mortandade de ruas ocorrida aquando do quase total arrasamento do Bairro dos Banhos, que obliterou várias delas da memória da cidade ao ponto de algumas pessoas falarem por exemplo na Rua da Minhota (ali localizada) como se essa designação fosse a de oitocentos; assim misturando nomes mais recentes com os antigos, sem levarem em consideração que anterior desapareceu bem antes da rua em si. Outro exemplo e bem ali perto é o da Rua de S. Nicolau que fora anteriormente nomeada Rua da Ourivesaria (parte dela ainda existe!). Portanto, esse cuidado urge para que não se misturem épocas de vida da cidade por vezes separadas por séculos.

 

Mas vamos ao tema: então onde era a Rua da Almea? Creio que poucos amantes da história deste velho burgo terão ouvido falar nela pois desapareceu de uma assentada no início do século XVII. Os responsáveis foram os Ermitas de Santo Agostinho, que no seu local construíram o convento de S. João Novo, agora transformado em tribunal. Com efeito, pelo ano de 1602 foi entregue a esta Ordem religiosa a igreja paroquial de Belomonte após extinção da paróquia que acabou retalhada entre as de São Nicolau e Vitória. A igreja estava ainda inacabada, e depois de algumas obras e alguns anos de uso, os frades optaram por a demolir e construir um novo templo naquele espaço. Obviamente que a rua não desapareceu apenas por causa da nova igreja, mas a máquina do convento a construir era grandiosa como ainda hoje se vê, além do espaço necessário para a cerca. Foi todo este estaleiro que ditou o desaparecimento da Rua da Almeia, ou melhor, da Boa Vista, conforme era já conhecida naquele século. Para isso foram compradas vinte e uma casas e seus quintais bem como outros cinco quintais em separado, necessários à definição do perímetro conventual. É fácil concluir que a razia que disso resultou provocou a extinção daquela artéria, quase ao ponto de também se extinguir da memória da cidade.

almea2.png

O bairro dos Banhos e a localização da rua da Almea/Boa Vista. A atual Calçada do Forno Velho era no século XIX conhecido por Forno Velho de Cima e aquela que aponto como possível Rua da Minhota era conhecida por Forno Velho de Baixo, de que uma parte ínfima ainda existe no topo das Escadas do Recanto (planta do AHMP).

 

A rua correria na direção Norte-Sul sensivelmente paralela à muralha fernandina, desde a Porta Nova (ou Nobre) até ao pequeno rossio formado junto ao Postigo da Cordoaria, à entrada da Rua Tomás Gonzaga. Unia-se ao Bairro dos Banhos pela Minhota, a julgar por estas descrições de casas que os dominicanos possuíam nas redondezas no século XVI: "esta rua é abaixo de Belomonte entre a porta nova e o postigo de S. Pedro, perto do muro", mais à frente: "rua detrás da minhota ou almea" ou ainda: "rua da porta nova [Rua dos Banhos] ... da banda do norte, pegada com a escada que vai da porta nova para cima para a rua da almeia ao longo do muro" (pormenor curioso: foi pertença dos dominicanos a casa onde existiu o forno que originou a designação de Forno Velho).

A palavra Almea poderá advir de uma pequena torre situada um pouco abaixo do local onde hoje temos a capela de Nossa Senhora da Esperança, e que talvez tenha correspondido a uma almeara árabe, edifício destinado à sinalização marítima! Segundo o historiador Dr. Ferrão Afonso, de onde extraio estas últimas notas, a torre existia ainda nos finais do século XVI, posto que bastante arruinada.[ver nota final]

almea.jpeg

localização (conjetural) da rua da Almea / da Boa Vista (imagem do bingmaps)

 

Mas são tão poucas as referências a este arruamento que ele não aparece mesmo na maqueta medieval presente na Casa do Infante, ainda que contudo a rua poderia ainda não existir na época a que o modelo reporta. E como prova de que nos finais do século XVII ela começava já a entrar na bruma do esquecimento, vejamos a vistoria que se segue, feita no sítio onde os Ermitas de Santo Agostinho possuíam duas casas de um conjunto de três que haviam comprado em 1604. A terceira, mais pequena, ficou incorporada na cerca enquanto as outras duas foram emprazadas ao seu antigo proprietário, Gaspar Pimentel. Mas por meados do século as casas acabaram por se arruinar, caindo em pardieiro e delas tomaram posse indevida duas famílias durante largos anos, até que finalmente o convento lhes moveu ação judicial. É de uma dessas ações, presente no cartório do convento depositado no Arquivo Distrital do Porto, que retiro o seguinte apontamento da vistoria feita ao local em 21 de Agosto de 1696:

«… e logo achou ele corregedor que as casas da contenda estavam sitas entre a rua da Minhota e a rua do Forno Velho fazendo faces para ambas as ruas pelo norte e pelo sul e defronte e delas pela parte do Forno Velho fica a cerca dos autores metendo-se somente a rua em meio que terá doze ou catorze palmos em largo e confronta pela parte do nascente com as casas de que é direta senhoria a Misericórdia que foram de Isabel Nunes e pela parte do poente confrontam com pardieiros que diz ocupa António Pereira Roriz e entre umas e outras vai uma viela munto estreita que terá dez palmos e meio de largo ao poente destas casas que possuí António Pereira Roriz fica no andar da mesma rua em que vive o réu que diz são de Manuel Monteiro, tanoeiro». Ora o corregedor, com esta vistoria: «não achou noticia donde fosse a rua da Boa Vista mas entende-se pelo que as partes dizem que a Boa Vista era uma rua que se embebeu na cerca do mesmo convento e o padre procurador dos autores respondeu que não tem notícia onde era a rua da Boa Vista mas que se devia entender era esta do Forno Velho por não haver notícia em contrário e por as primeiras confrontações do lugar condizerem com a certidão ... do tombo da Misericórdia». Por aqui se vê que menos de um século depois de ela desaparecer materialmente já o mesmo teria ocorrido na memória coletiva no que toca à sua exata localização. Faço votos que este despretensioso contributo possa fazer chegar a memória do que ali existiu a todos os interessados das fases pretéritas da cidade do Porto.

 

Nota final: Consultando o dicionário onomástico de José Pedro Machado, encontrei as seguintes definições para Almeia: a) Do ár. al-mai'â, em Pedro de Alcalá, 99, méaã, «almea, yerua». Séc. XVIII: «Das Indias de Castella a almeia e oleo della para as mãos», Floresta, I, 5, 179. // b) Do fr. almée, por sua vez do ár. 'ãlmii, «mundando, profano, laico». Séc. XIX: «Bailadeira e cantora entre os povos orientais que a mulher torna almeia...», Castilho, Outono, p.130, ed. de 1863; c) Em Almiar (topónimo de Águeda) temos: Do s.m. almiar, este do ár. al-miãr, pl. de al-mir, «aprovisionamento», «monte de cereal». O pl. tornou-se coletivo e, depois, s.m. Em Almiara (topónimo de Águeda, Montemor-o-Velho, Torres Vedras, V. N. de Gaia), temos: Nome de unidade do s.m. al-miãr; tornado nome comum. Séc. XIII: -... diuidit cum termino de Combrianos et de Camdelo et de Almeara...», Leges, p.662: em 1195 (Dissert., V, p.63); em 1482: - hũũa ponte que se chama d almeara que he açerqua desta villa [de Aveiro] ...», Desc., II, p.641. No dicionário etimológico, para Almeia, temos: a) do ár. ãlamii, sábia, pelo fr. almée. Dançarina egípcia cujas danças lascivas são entremeadas de cantos, a maior parte das vezes improvisados e b) do ár. al-mai'â. Árvore, o mesmo que Zimbro-da-cicília // Bálsamo natural dessa árvore, produzido no Oriente e preparado em Marselha. Apesar de tudo isto, não encontro nestas definições alguma que se enquadre melhor do que a proposta pelo Dr. Ferrão Afonso.

 

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Bibliografia: Documentos do cartório do convento dos Pregadores em depósito no ADP, documentos do cartório do convento dos Ermitas de Santo Agostinho no mesmo arquivo e A imagem tem de saltar... de José Ferrão Afonso.

Publicado originalmente no blogspot em 3 de Agosto de 2016, agora revisto e aumentado.

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