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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A SANTA ÁGUA

Caro leitor, tomei a liberdade de atrasar uns poucos de dias a segunda parte da descrição oitocentista de Ramalho Ortigão, para aqui trazer à luz do dia um documento curioso, que se não for inédito não será muito conhecido.

Vivemos tempos cada vez mais perigosos de secas e incêndios severos, o ano de 2017 será comum daqui para a frente. Se o leitor não pensa tanto nisto, acredite que eu penso constantemente na fatal falta de água que um dia ocorrerá mesmo nas torneiras portuenses, alimentadas pela bacia hidrográfica com maior caudal da Península Ibérica. Posto isto, vamos arredar para longe do catastrofismo e entrar no assunto que aqui trago.

 

Antes da revolução da água distribuída ao domicílio[1], a maioria da população beberia água de pouca qualidade e em milhentas situações ela foi mais fonte de doenças do que fonte de vida. Sempre um bem preciosíssimo, quem a tinha não estava disposto a cede-la sem uma boa contrapartida. E assim foi com os franciscanos! Estes frades eram detentores de uma boa fonte de água que lhes vinha desde lá longe, fora da cidade, da quinta do Laranjal, que apenas no século XVIII com a dinâmica mobilizadora de João de Almada e Melo, começou a ver as suas laranjeiras, limoeiros e verdejantes hortas serem substituídas por casas e mais casas: ruas cortadas a régua e esquadro; enfim, antigos campos a que o homem deu o nome de rua das Hortas, do Almada, dos Lavadouros, Cancela Velha, etc...

Tirando os franciscanos, também os dominicanos tinham água própria (de má qualidade diga-se) bem como, obviamente, o binómio Sé/Paço Episcopal e as freiras de Santa Clara. Isto para me ficar pelas instituições da cidade mais antigas que tiveram água canalizada; um luxo incomensurável à luz do mundo da época.

 

É um curioso documento franciscano que vos quero dar a conhecer. Ele vem lançado logo no início do Tombo da Água, volume que fazia parte do cartório do convento, e que hoje se encontra depositado no Arquivo Distrital do Porto, disponível a todos que tenham amor em redescobrir estes documentos esquecidos que ali estão à espera de nos falarem. A água franciscana era tão boa e abundante, que foi por eles cedida aos dominicanos e aos padres de Santo Eloi. À porta da igreja destes últimos estava uma arca de repartição, a primeira dentro de muros, que eles eram obrigados a conservar bem como o cano desde a nascente até ao seu convento no largo dos Lóios. Sem mais delongas, vamos lê-lo:

 

**

« DECLARAÇOENS

(...)

 

Na primeira gaveta da Estante 5ª da Livraria, e dentro da grade dos livros prohibidos, está pregáda em huma taboa do tamanho de meia folha, hum papel, que contem o seguinte=

 

Anno de 1775. Advertencia sobre a Agoa

As tres peças de bronze aqui juntas saõ medidas da repartiçaõ da agoa, e se fizeraõ sendo Guardião o P.e M.e Fr. Aleixo de St.a Rita de Capua; porque achou que os P.es de Santo Eloi e do N. P. S. Domingos tinhaõ dobrada agoa, do que devem ter; e logo no Verão seguinte, em que houve grande falta de agoas, ficaria este Convento sem huma só gota, se o dito Guardião não tivera posto a repartiçaõ no seu equilíbrio.

A peça comprida, e delgada he a penna de agoa dos Padres Dominicos, e se chama = penna macho = Com esta se deve observar, de tempos em tempos, se entra justa na penna femea, que na pia da repartição por o referido Guardião.

As outras duas peças saõ annel macho, e annel femea da pia de repartição dos P.es de S.to Eloi, onde o dito Guardião pôz hum annel femea, irmaõ deste, e entregou aos ditos Padres outro annel macho, irmaõ do nosso, para tanto elles como nós de tempos em tempos poderem observar se o annel macho entre justo pela femea, que está na pia: e se os Padres Guardiaens acharem que o annel macho entra com franqueza, saibaõ que se franqueou com malicia (o que se poderá fazer em horas nocturnas); naõ obstante que o dito Guardiaõ pôz na pia uma fechadura com quatro feichos, ou linguas, com duas chaves; das quaes huma se entregou aos ditos Padres, e nós temos outra, que he a maior das quatro, que estaõ juntas na Procuração; e destas a chave pequena he da pia dos Padres Dominicos; as outras duas, huma he da Arca ou mai d'Agoa, e a outra he da porta larga, que fica junto da estrada, no quintal do Conego Joze Luis Campos Pirralho, e he a primeira porta, que se abre, para ir á arca: as mais portas naõ tem chave.

A taboa de páo preto que está ao lado, que tem furamen esferico, he a medida das agoas da Camara desta cidade. O furamen mais pequeno he a penna da agoa femea, que se pôz na pia da repartição para os Padres Dominicos: o ultimo furamen, que he o maior, he o annel femea dos P.es Loios.

01aguafranciscanos.jpg

Representações das medidas constantes no documento franciscano (legenda da esq. para a dir.): Dois anneis, que são 16 pennas; oito pennas que he hum annel; quatro pennas; duas pennas (são maiores que as da Camara); huma penna. No fundo: Foi tirado por hum que se tirou pelo que está na Camara).


O papel tem mais hum círculo, que saõ dois anneis de agoa: estes achou o dito Guardião que tinhaõ os Padres de S.to Eloi; e dentro do annel falsificado, ou aumentado meteo o annel que os ditos Padres devem ter, que he irmaõ do que está aqui junto.


A taboa de páo preto, de que se falla na taboa grande, está junto a esta no mesmo lugar; e os seus furamenes que saõ as quatro medidas mais pequenas atraz descritas, sao do mesmo tamanho destas.

Tambem estaõ juntas com a taboa grande as tres peças de bronze nella referidas.


Igualmente está junta com as tres peças de bronze huma de ferro pequena, que por huma extremidade he macho, e por outra he femea da penna de agoa dada na origem aos Dominicanos (...)

 


O concerto do aqueducto desde a Arca d'agoa no Laranjal até á pia dos P.es Loios, he todo, e sempre pago por estes. (...)


O concerto do aqueducto desde a pia dos Loios até ao nosso Convento, he todo pago por nós, e pelos nossos Terceiros; a saber: estes pagaõ a terça parte de toda a despeza, e nós o mais. (...)


O concerto do aqueducto desde a nossa Cozinha até á Sacristia dos 3ºs, he todo á custa delles. (...)

O concerto do Cano, ou Lugar por onde na rua das Flores passa o nosso aqueducto, he todo á custa do Senado (...) e isto desde onde o nosso aqueducto vem junto ao da agoa que vai pª a Ribeira, que he do pé da travessa dos Caldeireiros, até ao fim da Rua das Flores, por ao pé do Chafariz de S. Domingos, que onde se dividem os ditos dous aqueductos. (...)


Sucedendo os Religiosos Dominicos na posse da Capella que foi dos seus extintos Terceiros; porque não devem, suceder tambem nas obrigaçoens delles. (...) »

 

**

 

Este documento, escrito já nos últimos anos daquela instituição conventual, é uma pequena janela para um tempo em que ainda não existia água canalizada como hoje a entendemos. Ela existia sim, vinda por canos de pedra, a fontes, alguns edifícios públicos ou religiosos e outros privilegiados particulares (não incluo no rol os poços). A juntar a esta raridade, muita se perdia por os canos estarem desconcertados ou falcatruas várias perpetradas por quem deles usufruía (como se viu no texto).

Na atualidade, em que vamos para tempos cada vez piores (não tenhamos dúvida disso!) porque não refletir um pouco naqueles tempos, quando o maior bem de uma população talvez fosse aquele que hoje em dia damos por adquirido sempre que se abre uma torneira de água, muitas vezes escusadamente...

__

1 - A distribuição de água ao domicílio só entrou em funcionamento regular em 1887, com água captada no rio Sousa.

 

Bibliografia: Tombo da água, do cartório franciscano em depósito no ADP.

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