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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

ARQUEOLOGIA PERDIDA

Não raro dou por mim a refletir na enormidade de perdas arqueológicas irreparáveis que vem acontecendo na cidade do Porto desde meados do século XIX, quando o casco histórico da cidade iniciou um processo (não tão lento) de transformação e modernização. E tenho para mim que mesmo agora por vezes essas perdas se dão, não obstante a existência de um maior controlo ou sensibilização para o tema... Não recuo a culpa até ao século XVIII pois que o mundo daquela altura era completamente diferente e muito raramente se pensaria que uma pedra com uma epígrafe quase sumida ou um arco ogival numa parede poderiam transformar-se em importantes testemunhos do passado. Mas imagine o leitor se no teatro de Cesareia a pedra que faz menção a Pilatos tivesse sido reutilizada por algum habitante local mais importado com a sua sobrevivência sofrendo o desgaste natural dos elementos ou provocado pela reutilização, ao contrário da sua descoberta por arqueólogos em 1961: com certeza ainda hoje se discutiria a existência histórica de Pôncio Pilatos.

 

Claro que no Porto nunca iremos ter um achado de relevância a nivel mundial como este exemplo. Ainda assim vários elementos cruciais para melhor entendermos a evolução da nossa cidade se perderam já. Uns com um grau menor de relevância (veja-se o brasão da fonte das Congostas que se menciona numa publicação anterior) mas outros de uma inquestionável importânica na procura da mais fidedigna imagem possível às várias idades do Porto pretérito. As palavras que o leitor lerá abaixo são do pintor Francisco José Resende, foram transcritas por Pedro Vitorino num seu artigo da 4-ª série d' O Tripeiro e são elucidativas de como no século XIX (ainda) se tratava muito mal os vários achados arqueológicos que se faziam aquando da demolição de edificios para abertura de ruas ou alagamento dos espaços públicos existentes. Foram inicialmente publicadas n' O Primeiro de Janeiro de 23 de Abril de 1890:

 

coluna.jpeg

Coluna encontrada nas escavações da Sé. Estará esta coluna relacionada com as que foram levadas para Compostela para construir a primeira catedral ? Não deverá ser esta a coluna que o articulista refere... (foto do AHMP).

 

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«Nas demolições a que se anda procedendo na rua Chã para a continuação da avenida da ponte D.Luis I, apareceu embutida na espessura da parede, entre as duas janelas do 1º andar, no prédio quinhentista que, segundo os documentos, fôra a cadeia primitiva do Porto, uma esbelta coluna de puríssimo mármore branco, medindo, pouco mais ou menos, 1,50m de alto por 0,15 de diâmetro; o capitel, deslocado da coluna, é do mesmo mármore, achando-se estas duas peças em perfeito estado de conservação; a base é de uma pedra preta, bastante salitrada, parecendo também mármore.
A formosa janela manuelina do 1º andar, tendo sido numerada e arreada com muito cuidado, lá foi (segundo nos informam) parar à Foz do Douro - por favor...! E a preciosa coluna está, segundo nos dizem, no escritório de um dos arrematantes, no largo da Trindade.
Dizem-nos também que na parte superior da fachada de um prédio (penúltimo da esquina para o largo do Corpo da Guarda) aparecera uma inscrição latina, que também já encontrou um ilustrado amador. A inscrição foi assim traduzida: «E por aqui se salvou uma familia».
Preguntamos: porque não fazem estes cavalheiros doação destas três reliquias do passado ao Museu Municipal portuense, imitando os nibilissimos (sic) exemplos seguidos nos paises estrangeiros, onde se coleccionam, como todos sabem, osmais pequenos fragmentos arqueológicos, sejam de que natureza forem? É um crime ser egoista, quando a história necessita de tais e tão apreciáveis documentos.
Qual seria a ideia de esconderem tão cuidadosamente, na espessura da parede da rua, coluna de mármore, que foi encontrada na primitiva cadeia da rua Chã?, sem que outras peças da mesma matéria prima hajam aparecido até agora? Deixemos a sábios arqueólogos, como Possidónio da Silva e Vilhena Barbosa, a resolução deste interessante problema.
Temos a suprema consulação de haver salvado (cuadjuvados pelo exemplarissimo e nobre extinto Dr. José Frutuoso, então presidente da Câmara Municipal) o formoso arco cruzeiro da capelinha de Santo António do Penedo, ainda que parece estar fatalmente condenado a ficar no chão, encostado ao claustro da Biblioteca de S. Lázaro!
Agora temos a esperança que a janela manuelina, a coluna e a inscrição latina a que nos estamos referindo serão em breve oferecidas ao município portuense pelos seus actuais possuidores».

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Mas tal não aconteceu. Pedro Vitorino refere que do paredeiro desses objetos nada se sabia (isto nos inícios dos anos 30 do século passado). Diz também que o arco de Santo António do Penedo, salvo da destruição, não teve melhor sorte: depois de anos e anos em S. Lázaro com as suas peças amontoadas, fora removido para a Quinta das Oliveiras - do SMAS - para ser levantado numa das avenidas. Mas procurando montar-se, já se detetou a falta de algumas das suas pedras... Eu poderia acrescentar um punhado mais de descobertas que passaram descobertas ou simplesmente se perderam.  Mas não tenciono prolongar mais este texto. Resta-me a esperança que muitas delas estejam  preservadas no Soares dos Reis ou no Carmo em Lisboa, para que as gerações presente e futuras interessadas as estudem e contextualizem. A história da nossa cidade agradecerá.

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