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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

ATRIBULAÇÕES DE UM BAILE

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Continuando a trasladação das notícias pitorescas do século XIX que estavam alojadas no blogspot, segue agora um episódio que aconteceu por altura de um baile dado pelo Visconde da Trindade. Este título foi criado em 1852 por D. Maria II em favor de José António da Sousa Basto que foi presidente da Câmara Municipal do Porto em 1854-55 (ao lado podemos ver o seu brasão, via Wikipedia). Relembro que há bastante probabilidade de esta notícia ter sido escrita pelo punho de Camilo Castelo Branco. Relembro também que por esta altura começavam a aparecer em força os viscondes e barões... (lembram-se de Almeida Garret e a sua célebre frase Foge cão que te fazem barão! - Para onde se me fazem visconde!?).

 

A notícia é insignificante... mas foi mais uma vez transformada num apontamento literário que a nós, portuenses do século XXI, abre uma pequena janela para o XIX. Segue então a notícia:

 

« Um baile é um grande acontecimento; senão que o diga a azáfama de um grande número dos que sábado concorreram ao dado pelo Sr. Visconde da Trindade. Vêem-se rostos risonhos, olhares serenos, e ningém calcula as atribulações sofridas, os martírios desde o do espartilho e de um gancho rebelde, que se enterra na bossa do amor, (que fica, salvo erro, acima da cova do ladrão) até à do sapato de verniz, que entala o joanete e esmaga um calo a ponto de fazer ver em cada vela dez lumes; todas as tiranias: a do alfaiate, a da costureira, a do sapateiro, do cabeleiro, de todo o mundo.

Sábado, passava já da meia noite, encontramos uma pessoa do nosso conhecimento coberta de suor e soltando mais juras que o capitão Febo. Chegado havia uma semana de uma terra do Minho, onde exerce um emprego de magistratura, não lhe passou pela ideia, ao abandonar os seus administrados, que havia um baile no Porto, e menos que a dona de uns lindos olhos castanhos, uma amável e prendada menina com quem ensaia o estilo epistolar, há tempos, havia de lhe pedir que fosse o seu par na primeira contradança que ele dançasse. Não prevendo nada disto, e fazendo tenções de apenas residir na Foz, veio com meia encardenação: sem casaca.

Sábado de manhã, recebeu a missiva com a exigência a que aludimos, e veio ao Porto. A primeira coisa de que tratou foi de arranjar um convite, e correu Seca e Meca, até que o bem-aventurado pedaço de cartão espelhado lhe caiu nas unhas. Obtido o bilhete de ingresso era necessário a roupa de baile; e eis o pobre bacherel com mais cólicas do que nunca tivera em vésperas de sabatina, depois de uma semana de cábula, a experimentar todas as casas e todas as calças pretas dos armazéns de fato feito. Estava em pecado. Casaca, que lhe servisse, não havia: umas eram largas, outras apertadas; umas curtas, outras peadas. Foi preciso que um dos alfaiates, vendo a sua aflição, se encarregasse de lhe dar voltas a uma, de sorte que ficasse jeitosa, e não faltou à promessa, mas deu-lha apenas alinhavada, às nove horas da noute. O nosso conhecido, depois de andar em cata de outros aviamentos, foi dar consigo em casa do Pereira. Frisou-se, eram dez e meia para as onze; meteu-se na sege, que à custa também arranjara, e ia já a rodar pela Calçada dos Clérigos, quando se lembrou de que se esquecera, no meio das suas atribulações, de comprar um par de luvas brancas. Voltou à rua de Santo António e ei-lo a mandar bater pelo boleiro à porta das luveiras que se tinham fechado. Abriu uma: pediu luvas de sete e três quartos; mas as luvas dessa marca tinham-se evaporado, e o nosso homem, que se impacientou e saltara da sege, para as escolher, tinha apanhado na cabeça nada menos do que a água da chuva toda que vomitava uma caleira.

Parodiando o rei Ricardo, o pobre namorado ofereceria o seu reino por um par de luvas, se tivesse reino.

Lembrando-se que havia ainda um luveiro, à porta do qual não batera, corre lá, entra e acha as luvas. A fatalidade porém perseguia-o; quando para se furtar a segundo banho ia a correr para a sege, em vez de por o pé no estribo, põe-no em falso, e ei-lo de barriga em cima do macadam e por baixo do carro. Estava impossibilitado de ir ao baile; todo o suor de um dia fora inutilizado. A casaca sorria-se pelas costas, mas com sorriso traiçoeiro, mostrando em vez de dentes o forro mal alinhavado; as calças, enlameadas, abriram um postigo, e o joelho mal coberto pela ceroula deitava a cabeça de fora, como vizinho, que sente assuada na rua, e se embrulha no lençol para indagar o motivo.

O pobre namorado perdera a ocasião de ver a sua bela, e muitas outras belas coisas de que um baile sempre abunda. E perdeu; que nos dizem haver ali muito brilho. Sobre toda a grandiosidade da festa de que ouvimos falar com admiração aos jubilados na etiqueta tornou-se notável a concorrência da nobreza dos pergaminhos que não desdenham ir solicitar as salas do Sr. Visconde, enriquecidos pelo trabalho, a mais elevada a mais sólida origem de toda a aristocracia. »

De O Clammor Publico, 6 de Outubro de 1856

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