Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor





DOIS AUTOS DE FÉ NO PORTO

por Nuno Cruz, em 22.01.18

O rei D. João III ficou para a história como responsável por trazer para o nosso país a Inquisição, que se revelou de uma ignóbil crueldade entre a tentativa de extirpar heresias até ao saque puro e duro sob o disfarce da religião. Não me avançando mais do que estas linhas gerais de tão obscuro movimento, o que pretendo aqui apresentar, e porque este blogue é dedicado à história da cidade do Porto, é a descrição de dois autos de fé que foram registados por uma testemunha contemporânea.

A história de uma cidade não se faz apenas de glórias nem romantismos (quantas vezes essas glórias são obtidas a um grande preço?) e creio que é também importante ligar os locais aos eventos, por muito maus que eles tenham sido, não obstante a inexorável passagem das gerações os tenham colocado a uma distância bastante confortável para os lermos como se de ficção se tratasse. Mas não o foi! Se a Europa dificilmente cairá neste tipo de obscurantismo novamente, várias outras partes do mundo ainda por ele passam enquanto o leitor confortavelmente lê estas linhas e eu as escrevo.

 

A descrição é da pena de Jorge Aranha de Vasconcelos, trazida à luz por Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas no 4.º volume do Boletim Cultural que a Câmara do Porto por muitos anos publicou. O texto impressiona até pela afluência que tal ato motivou!!

Resta-me dizer que atualizei a ortografia, exceto nos momentos em que a escrita aponta para diferenças do português da época em que foi escrito bem como coloquei pontuação aqui e ali para mais fácil leitura.

 

O primeiro Auto-de-Fé

«O primeiro aulto do Santo Ofício que se fez neste reino de Portugal foi nesta cidade do Porto aos sete dias do mês de fevereiro que caíu ao primeiro domingo da quaresma do ano de mil quinhentos corenta e três anos, reinava o El-Rei D. João o terceiro de gloriosa memória que foi avó de El-Rei D. Sebastião. Era bispo nesta cidade Dom Baltazar Limpo que foi frade do Carmo.

 

Estiveram presos os cristãos novos junto na logea das casas que estão ao pee da escada grande da See e as mulheres nos sobrados das casas de defronte de Nossa Senhora do Ferro e se fez o cadafalso no campo do Olival defronte das casas de André Pires(?) cordoeiro e se juntou nesta cidade mais gente que nunca se vio antes nem depois que quase veo todo o termo e muita gente do Minho de cá de Vila Real para cá de Lamego, Viseu e Coimbra, que todo aquele campo desde Nossa Senhora da Graça e S. Miguel, 'té o monte dos Judeos, todos os telhados dos cordoeiros, muros e torres eram pilhado de gente. E estando hua mulher nobre em hua das torres do muro, morreo morte supita vendo dar garrote a um dos quatro que foram queimados neste dia e queimaram muitas estátuas dos culpados que fugiram.

campolival.jpg

A paisagem está já muito modificada, mas o local é o mesmo: O círculo vermelho denota o local onde possivelmente foi executado o hediondo ato. O n.º 1 mostra sensivelmente onde ficava a muralha da cidade, 2 temos a rua de S. Bento da Vitória que ali desembocava num largo junto à porta do Olival. O 3 aponta para o local onde estava a Nossa Senhora da Graça - o mesmo da antiga Faculdade de Ciências - que tudo por ali estava apinhado de gente apreciando o macabro espetáculo. Tenhamos presente que provavelmente não existiriam quase nenhumas árvores, as casas eram todas elas mais baixas mesmo em comparação com as do século XIX e edifícios como a Cadeia da Relação e a torre dos Clérigos de onde a foto foi tirada, não existiam ainda.

 

 

O segundo Auto-de-Fé

Fezeram o segundo auto do ofício sancto daí a 14 meses no mês de maio do ano de mil quinhentos quarenta e quatro anos onde tãobem concorreo muita gente. Queimaram e afogaram três pessoas e muitas estátuas dos fugidos e todos os sambenitos foram postos no mosteiro de S. Domingos 'té que de podre caíram.

 

Foi cacereiro mor dos presos e presas Alváro d' Aboim cidadão e foi cacereiro menor Sebastião Gllz(?) cordoeiro carpenteiro. (...) »

 

O texto prossegue com a descrição de outros factos, incluso um que talvez venha um dia a recuperar para esta página. Resta dizer que o seu autor, o escrivão Jorge Aranha, redigiu estas notas no ano de 1599, quando Portugal fazia parte do império Espanhol.

 

Felizmente, tudo o que atrás se apresentou é já passado!

____

Bibliografia:

A lembrança quinhentista do escrivão Jorge Aranha de Vasconcelos, por Eugénio de Andrea de Cunha e Freitas, publicado no Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto em 1942.

Autoria e outros dados (tags, etc)


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.01.2018 às 23:07

Eu li o texto que escreveu a história sobre Dois Autos de Fé no Porto.

É verdade, o Tribunal do Santo Ofício foi instituído a primeira vez no dia 23 de Maio de 1536 e as cidades de Lisboa, Coimbra, Évora, Porto, Lamego, Tomar e Goa e as Cortes Gerais Constituintes decidiu acabar tudo no Tribunal do Santo Ofício, Tribunal da Inquisição, instituído no reinado de D. João III foi no dia 31 de Março de 1821.

O rei D. Luís I também fez o decreto da lei sobre a abolição da pena de morte foi no dia 26 de Junho de 1867.

A história sobre Inquisição é considerado muito pior e a culpa foi a Igreja, porque eles usavam chamados as Máquinas de Tortura e existe que há muitos livros e também há a exposição ou museu em Portugal.

Naquela época o povo tinha muito medo por causa a Inquisição.

Há um livro que conta tudo chama-se “História da Inquisição Portuguesa 1536-1821” e os autores é Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva.

Alexandre Neves
Gondomar

Comentar post




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Mais sobre mim

foto do autor