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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

MUDA PERIGOSA, MAS BARATA

A pequena notícia que se segue insere-se no ciclo de postagens que, mais do que acontecimentos históricos, visam recuperar pequenos apontamentos "noticioso-literários" sob o tema O Porto de Oitocentos. Também ela recuperada do jornal O Clammor Publico, periódico muito participado por Camilo Castelo Branco bem como outras figuras menos conhecidas na atualidade.

Esta história em particular faz referência aos célebres "galegos", que pelo menos desde os finais do século XVIII são referenciados como trabalhando no Porto nos serviços mais variados, que não apenas ligados à distribuição de água (a sua atividade desenvolve-se por todo o séc. XIX, apenas se extinguindo já em pleno século XX). 

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«Os penates portuenses estão ao sol, ou antes, à chuva. O cidadão de Tui atravessa as ruas levando às costas senão a fortuna de César, que os Cesares de hoje tem as barbas empenhadas aos Rostchilds, a de muito João Fernandes; porque decididamente, com vénia das exceções, o tempo está para os Joões Fernandes. O cidadão de Tui tem sido, apesar de Diogo Alves, o símbolo da fidelidade, e toda a gente vendo um homem de saco ao ombro e corda ao tiracol, confia-lhe a comissão mais pesada e de valor.

Há dous dias um indivíduo, que mora na cidade alta[1], levado por esta confiança, entregou as gavetas da sua cómoda, a sua fortuna, nesta época em que o hábito faz o monge a dous cidadãos que na encadernação mostravam ser um cidadão de Cangas[2], do ovo da Galiza.

Os homens sairam com o fardo, indicado o sítio da muda, e, passados minutos, o nosso homem que tinha negócios urgentes em Santo António do Bonjardim, encontrou-os lá. Como por ali não era caminho para a sua nova morada, gritou-lhes, e os homens desculparam-se, dizendo que tinham percebido mal; sem desconfiar, encarregou-se de os acompanhar, e depois enviou-os junto com um criado em busca de outros tantos. Os homens julgaram que dessa vez lhes seria fácil levar a cabo o seu intento, e foram, mas tiveram a má estrela de voltarem acompanhados. Pacientes tentaram uma terceira execução, desta vez iam limpando uma porção de roupa da cama, quando o criado desconfiou e gritou por socorro, os dous pertendidos galegos, pois que eram tão falsos como as meias coroas da rua de Camões, das quais já não se fala, nem do processo do falsificador[3]; os dois larápios puseram pés em polvorosa e não apareceram até agora para receberem a paga das duas corridas.»

in "O Clammor Publico" de 13 de Outubro de 1856

 

 

[1] - poderá o articulista aqui referir-se ao Bairro Alto, nome ainda muito vivo naquela época, localizado na zona da Fontinha.

[2] - cidade galega da província de Pontevedra, fronteira a Vigo.

[3] - Agradeço a quem souber pormenores sobre esta referência que o autor faz, a amabilidade de os divulgar nos comentários.

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