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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

NOTICIAS DO TEMPO DO ROMANTISMO

Caros leitores, quero confessar-me! Estou a ter uma micro crise de "conclusivite". Esta doença inventada por mim agora mesmo enquanto escrevo, ataca a conclusão de novas publicações neste blogue (e o seu mais escondido irmão http://conventodesaodomingosdoporto.blogs.sapo.pt/. Tenho quatro publicações em rascunho, duas delas quase prontas, mas falta rever e concluir muito bem a matéria, pois trata de motivos que são mesmo espinhosos até para os historiadores encartados; por isso imaginem para mim, humilde empregado de escritório com enorme amor pela história, sobretudo a da sua cidade...

Mas tenho um trunfo na manga! Tenho de deixar a casa antiga deste blogue (no blogger) devoluta e por isso, como já se aperceberam, vou transferindo para esta nova mansão as suas publicações: acrescentando-as, corrigindo-as, fundindo-as... sempre ficando a ganhar elas na qualidade, eu na credibilidade e vocês na segurança da informação!

 

Sem mais delongas ou enredos, deixo-vos mais duas notícias deliciosas de ler, eventualmente escritas por Camilo Castelo Branco. O que têm elas em comum? Ambas se referem à Foz e seus subúrbios, que por aquele tempo ainda ficava algo apartada da cidade... 

 

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Modelos de architectura

«As construções luxuosas augmentam na Foz. Já se não edificam casinholas apenas commodas. Entre os edifícios de mais lavor distingue-se o do snr. Domingos Maia, cujas portas e janellas da fachada tem a ogiva aguda, e arabescos e rendilhados as cornijas. Este edificio tem suscitado mais questoens que as problematicas piramides do Egipto. Não se harmonisam os intendedores de architectura na classe em que devem pôr a casa. Entre os partidarios da dorica e corinthia, da bysantina, da góthica e da egipcia ha uma outra eschola que nos quer convencer que a entrada da casa é pela trapeira. Se não é mangação este genero de architectura, sempre os homens tem inventado coisas! Como quer que seja o frontespicio é bonito, e aformoseará, quando estiver ultimado o local. O segundo no aparato é do snr. Gandra. Tem altura para tres andares, e é tão solida como elegante. Não tem ventilado tanta argumentação como a do snr. Maia, porque na opinião geral a entrada é pela porta. Também nos parece que é.»

De O Clammor Publico de 7 de Outubro de 1856

 

Os gatos históricos

«Em 1832, um grupo destacado da brigada do exercito libertador, estacionada no "Pastelleiro" suburbios da Foz, foi de arrancado sobre esta população, aggredindo cruamente os gatos, para os reduzirem a substancia nutriente, visto que as galinhas já tinham passado a molecula alimenticia do exercito. Havia então em S. João da Foz um par de gatos, que eram o Castor e o Pollux da raça felina.

Em hora de colóquio por cumeadas de telhado, estavam os dois bichanos.

N'aquelle engano d'alma ledo e cego que os barbaros aggressores não deixaram durar muito.

Armados de bayonetas nuas, o bando dos soldados, que vieram assalariados de França, onde a civilisação levou o gato ensopado às honras culinárias de sopa de tartaruga, corria sobre os gatos, raivando em nome do sacre nom de Dieu. Os espavoridos bichos, assaltados, embetesgaram-se na primeira lura, que lhes deu refugio para as cavaernas do soalho, especie de Gram-Bretanha, salvação dos proscriptos. Os esforços dos sitiantes famintos, mallograram-se; os gatos, porém que nem ao meio dia conheciam flamengos nem francezes, não vieram a lume já mais, com grande magua da sua dona que, ajustando o nariz com a lorga, longo tempo suspirou em vão chamando os gatos queridos.

Annos depois, foi reformada a caza, e nos desvãos soturnos das ruinas appareceram os dois esqueletos de Pilades e Orestes que, na sua especie se chamavam Farruco e Tartaruguinha.

Um homem, dotado de boa alma, posto que galego, apertou ao seio as ossadas lividas dos gatos, que vira nascer, e pendurou-os sobre duas resteas de cebolas, que tem á porta da sua tenda, na Rua Direita. Seria ingratidão esquecer o nome do snr. Julião, proprietario d'este muzeu ranhoso.

Um poeta, sympathisando com a funebre saudade do snr. Julião, escreveu duas elegias tocantes, que pendem do canello esquerdo de cada gato. Diz-se nellas que o fim dos gatos é a sorte commum de todos, inclusive a do poeta panygirista, que de certo morre de fome, ainda mesmo que os francezes o não persigam.»

De O Clammor Publico de 7 de Outubro de 1856

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No tocante à primeira notícia, não sei a que casa o autor se refere mas na Foz há várias casas de arquitetura, digamos, diferente.

Em relação ao lugar do Pasteleiro, onde se passa aquele ato heróico de com fome mas em glória ao ponto de se comerem os gatos (só os gatos?..), mostro abaixo uma imagem, disponível no AHMP que mostra a Casa do Pasteleiro. 

ccasa.jpg

 

Outras imagens do googlemaps com o local agora e um pormenor de uma planta da época da guerra civil. A casa ficava, creio, no local onde está o bairro da Pasteleira ou o parque urbano ao lado; mas toda aquela zona já foi tão revolvida que se torna difícil precisar a sua localização. Na imagem assinalei o lugar do Ouro (verde), Trem do Ouro (amarelo) e Igreja de Lordelo (vermelho). Algum leitor que more para aqueles lados me poderá melhor dizer onde ficava a casa do pasteleiro?

past.jpeg

Nota final: o meu caro leitor Sr. António Coelho fez-me ver que a capelinha junto à possível casa do pasteleiro ainda existe, conforme a imagem abaixo do googlemaps o demonstra. Estará no local original? Terá sido relocalizada? Não tenho resposta a essas perguntas, mas as semelhenças parecem não deixar dúvida de que se trata da mesma capela.

O meu obrigado ao Sr. António Coelho pelo seu contributo.

capelinh.jpg

 

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