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O PORTO E A VIAGEM DE VASCO DA GAMA

por Nuno Cruz, em 28.07.17

De uma forma geral os portuenses que se interessam pela história do seu país, mais concretamente pela época dos descobrimentos onde se insere a viagem de Vasco da Gama à India em 1497, sabe que os navios usados nesta expedição foram 4, denominados S. Gabriel, S. Rafael, Bérrio e uma naveta (pequena nau) de mantimentos cujo nome se desconhece. Terá sido, por ventura, a viagem de maior glória alguma vez por nós empreendida e aquela que colocou Portugal como a primeira super-potência mundial durante algumas décadas.

Fernão Lopes de Castanheda, cronista que escreveu a História do descobrimento e conquista da India pelos portugueses, relata o seguinte: «E como quer que El-Rei Dom Manuel assi como sucedeu nos reinos a El-Rei Dom João, assi também lhe sucedeu nos desejos que tinha de descobrir a India: logo aos dous anos de seu reinado entendeu no seu descobrimento, pera que lhe aproveitou muito as instruções que lhe ficaram de El-Rei Dom João, & seus regimentos pera esta navegação: & mandou fazer dous navios da madeira que El-Rei Dom João mandara cortar. E um que era de cento & vinte toneladas houve nome São Gabriel: & outro de cento São Rafael: & comprou pera ir co estes navios hua caravela de cinquenta toneladas a um piloto chamado Birrio de que a caravela tomou o nome. ... E por quanto nos navios da armada não podiam ir mantimentos que abastassem à gente dela até três anos, comprou El-Rei ũa nau a um Aires Correa de Lisboa que era de duzentos toneis, pera que fosse carregada de mantimètos até à aguada de São Brás, & ali se despejaria & a queimarião.»

 

Mas pergunta o leitor, o que tem que ver tudo isto com a história do Porto? Bem, é que as duas naus que Castanheda refere foram construídas no Porto, nas tercenas de Miragaia no ano de 1496! Isto mesmo aprendi lendo um artigo do historiador Amândio Barros.

 

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E conforme lia o referido artigo mais me fui realmente apercebendo que à época este era dos melhores - talvez mesmo o melhor - estaleiro do reino. Foi nele que a frota mercante do Porto fora praticamente toda construída, tendo sido essa frota que havia colocado a cidade no mapa do comércio marítimo com os portos do Mediterrâneo e do norte da Europa o que fez o outrora feudo episcopal que fora o Porto, crescer e elevar-se à condição de segunda cidade do reino.

 

Quanto à construção naval no areal de Miragaia, com efeito já desde meados do séc. XV (diz-nos, mais uma vez, Amândio Barros no seu trabalho) que o rei fazia encomendas de navios a estes estaleiros. Ainda no séc. XVI um veneziano que enviava um relatório à Senhoria de Veneza (algum espião?) reconhecia serem as naus dos armadores portugueses maioritariamente construídas na Flandres, Biscaia «e muitas poucas se fazem cá, e essas poucas no Porto».

Só na década de vinte desse século com o advento da Ribeira das Naus em Lisboa, a cidade se viu privada da primazia na construção naval. Por outro lado, o início da atividade em Lisboa contou com muitos carpinteiros daqui levados, por serem os mais conceituados, sem dúvida dando formação - para fazer uso da terminologia atual - e orientando o arranque das tercenas lisboetas, tão bem representadas em vistas quinhentistas e seiscentistas.

 

Como nota final acresce referir um documento que faz parte das contas da Câmara de 1496, relativo a despesas com o alargamento da passagem que dava para o estaleiro para permitir atravessar a madeira e outros materiais: « ... coregimento do Postigo de Álvaro Gonçalves da Maia ... por boa servintia das naus que se ora fazem de El-Rei nosso Senhor.» Este postigo da muralha deverá corresponder ao que ficou mais conhecido como Postigo dos Banhos; pese embora possa também referir-se ao Postigo da Pereira. Isto não obstante parecer mais óbvio - e assim acreditei durante algum tempo - correspondesse à Porta Nova de Miragaia por estar diretamente virada para o areal. Contudo esta é já mencionada como porta e não como postigo em documentos do Cabido, datados do ano de 1400.

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Nota: Publicado originalmente em 10/OUT/2014 no blogspot e agora revisto.

 

Bibliografia:

O Porto e a construção dos navios de Vasco da Gama, de Amândio Jorge Morais Barros publicado no 1.º volume dos Estudos em homenagem ao Prof. Dr. José Marques (2006).

A construção de um novo centro cívico: notas para a história da Rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV, de José Ferrão Afonso publicado no n.º 9 da revista Museu (2000).

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