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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

O PORTO E A VIAGEM DE VASCO DA GAMA

De uma forma geral os portuenses que se interessam pela história do seu país, mais concretamente pela época dos descobrimentos onde se insere a viagem de Vasco da Gama à India em 1497, sabe que os navios usados nesta expedição foram 4, denominados S. Gabriel, S. Rafael, Bérrio e uma naveta (pequena nau) de mantimentos cujo nome se desconhece. Terá sido, por ventura, a viagem de maior glória alguma vez por nós empreendida e aquela que colocou Portugal como a primeira super-potência mundial durante algumas décadas.

Fernão Lopes de Castanheda, cronista que escreveu a História do descobrimento e conquista da India pelos portugueses, relata o seguinte: «E como quer que El-Rei Dom Manuel assi como sucedeu nos reinos a El-Rei Dom João, assi também lhe sucedeu nos desejos que tinha de descobrir a India: logo aos dous anos de seu reinado entendeu no seu descobrimento, pera que lhe aproveitou muito as instruções que lhe ficaram de El-Rei Dom João, & seus regimentos pera esta navegação: & mandou fazer dous navios da madeira que El-Rei Dom João mandara cortar. E um que era de cento & vinte toneladas houve nome São Gabriel: & outro de cento São Rafael: & comprou pera ir co estes navios hua caravela de cinquenta toneladas a um piloto chamado Birrio de que a caravela tomou o nome. (...) E por quanto nos navios da armada não podiam ir mantimentos que abastassem à gente dela até três anos, comprou El-Rei ũa nau a um Aires Correa de Lisboa que era de duzentos toneis, pera que fosse carregada de mantimètos até à aguada de São Brás, & ali se despejaria & a queimarião.»

 

Mas pergunta o leitor, o que tem que ver tudo isto com a história do Porto? Bem, é que as duas naus que Castanheda refere foram construídas no Porto, nas tercenas de Miragaia no ano de 1496! Isto mesmo aprendi lendo um artigo do historiador Amândio Barros.

 

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E conforme lia o referido artigo mais me fui realmente apercebendo que à época este era dos melhores - talvez mesmo o melhor - estaleiro do reino. Foi nele que a frota mercante do Porto fora praticamente toda construída, tendo sido essa frota que havia colocado a cidade no mapa do comércio marítimo com os portos do Mediterrâneo e do norte da Europa o que fez o outrora feudo episcopal que fora o Porto, crescer e elevar-se à condição de segunda cidade do reino.

 

Quanto à construção naval no areal de Miragaia, com efeito já desde meados do séc. XV (diz-nos, mais uma vez, Amândio Barros no seu trabalho) que o rei fazia encomendas de navios a estes estaleiros. Ainda no séc. XVI um veneziano que enviava um relatório à Senhoria de Veneza (algum espião?) reconhecia serem as naus dos armadores portugueses maioritariamente construídas na Flandres, Biscaia «e muitas poucas se fazem cá, e essas poucas no Porto».

Só na década de vinte desse século com o advento da Ribeira das Naus em Lisboa, a cidade se viu privada da primazia na construção naval. Por outro lado, o início da atividade em Lisboa contou com muitos carpinteiros daqui levados, por serem os mais conceituados, sem dúvida dando formação - para fazer uso da terminologia atual - e orientando o arranque das tercenas lisboetas, tão bem representadas em vistas quinhentistas e seiscentistas.

 

Como nota final acresce referir um documento que faz parte das contas da Câmara de 1496, relativo a despesas com o alargamento da passagem que dava para o estaleiro para permitir atravessar a madeira e outros materiais: «(...) coregimento do Postigo de Álvaro Gonçalves da Maia (...) por boa servintia das naus que se ora fazem de El-Rei nosso Senhor.» Este postigo da muralha deverá corresponder ao que ficou mais conhecido como Postigo dos Banhos; pese embora possa também referir-se ao Postigo da Pereira. Isto não obstante parecer mais óbvio - e assim acreditei durante algum tempo - correspondesse à Porta Nova de Miragaia por estar diretamente virada para o areal. Contudo esta é já mencionada como porta e não como postigo em documentos do Cabido, datados do ano de 1400.

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Nota: Publicado originalmente em 10/OUT/2014 no blogspot e agora revisto.

Bibliografia:  O Porto e a construção dos navios de Vasco da Gama // A construção de um novo centro cívico: notas para a história da Rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV

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