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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

O PORTO EM 1883 (n.º 1)

A bem da verdade esta publicação deveria ter o subtítulo pela pena de Ramalho Ortigão, porque de facto o que abaixo se vai ler foi escrito por aquele ilustre portuense. É um excerto de um dos volumes de As Farpas, de sua autoria, datada de julho de 1883 e que o autor consagra a uma viagem que fez ao Norte, vinte anos depois de daqui ter saído. Recuperei-o para este blog pois creio se trata de um daqueles textos que merece ser mais lido e conhecido, serve mesmo como certo contraponto ao famoso livro de Alberto Pimentel O Porto há trinta anos. Mais do que uma janela, é uma autêntica varanda para a cidade daquele tempo.

No final do texto vão algumas notas/apontamentos da minha autoria.

 

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«O panorama, extraordinariamente belo, que se descobre da grande ponte sobre o Douro começa a desenrolar aos nossos olhos os seus diferentes aspetos tão variados, tão imprevistos. O rio, liso, e espelhado como uma chapa de vidro azul e verde. Uma extensa cordilheira de colinas, cobertas de pinheirais e desenhando no espaço vaporoso e húmido as curvas mais suaves e as perspetivas mais graciosas e mais risonhas. À beira da água, sulcada de barcos, de cor escura, esguios, da forma de gôndolas venezianas, remados de pé com largas pás que bracejam silenciosas e lentas, arredondam-se em grandes massas de um verde-escuro e espesso os velhos arvoredos das quintas do Freixo, da Oliveira, de Quebrantões e de Avintes.

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Apeamo-nos finalmente na estação de Campanhã. Uma fila de carruagens sobre a linha dos elétricos. Um rumor diligente e alegre de tamancos novos sobre os largos passeios lajeados. Mulheres bem feitas, caminhando direitas, de cabeça alta, cintura fina solidamente torneada sobre os rins, e alegres lenços amarelos, de ramagens vermelhas, encruzados sobre a curva robusta do peito. Canastras bem tecidas, grandes como berços, cobertas de pano de algodão em listras azuis e encarnadas. As carruagens americanas recebem tudo, gente, cestos de fruta, canastras, trouxas de roupa branca, caixotes, seirões com ferramentas. Dos vinte passageiros de Campanhã que tomam lugar connosco no carro americano dois têm escrófulas, e um tem uma grossa corrente de ouro no relógio e um grande brilhante pregado no peito da camisa. Um pequeno, ruivo, sardento, de olhos azuis, apregoa o Jornal da Minhaum[1]. As mulinhas trotam bem. E todas as casas, de um e de outro lado da rua, têm à porta a cancelinha baixa, de pau, pintada de verde. Estamos no Porto.

 

Os melhoramentos materiais na cidade que acabo de entrever são, na verdade, consideráveis. As novas ruas, a prolongação da Boavista, a de Mouzinho da Silveira, paralela à rua das Flores, a de Passos Manuel, desde Santa Catarina à Rua de Sá da Bandeira, a rua que liga a estação do Pinheiro[2] com a cidade, e outras, acham-se quase inteiramente guarnecidas de prédios e todos os prédios habitados. Outro tanto sucede nos bairros novos do Palácio de Cristal e da Duquesa de Bragança. O Bairro Herculano, entre o Jardim de S. Lázaro e as Fontainhas, é um recinto murado, fechado por uma grade de ferro, compreendendo duzentas ou trezentas casas, de rés-do-chão, ou de um andar, comodamente alinhadas, com um pequeno jardim comum, um mercado, lavadouros, enxugadoras, etc. Está já delineado, com as ruas em esboço, o projetado bairro do Campo do Cirne, em frente do Cemitério do Repouso, ao lado da Rua do Heroísmo. E a nova ponte, que vem da serra do Pilar às proximidades do Paço do Bispo, demolirá e transformará em novas avenidas os bairros antigos do Barredo e da Sé.[3]


Aqueles que há vinte anos partiram daqui, como eu, arriscam-se, regressando depois de mim, a não atinar com o seu caminho, a não encontrar a sua casa, nem a sua rua, nem os seus sítios. Deixou de existir a antiga Rua do Souto, a das Congostas, a dos Mercadores, a da Bainharia e a tão pitoresca e tortuosa Rua da Reboleira, com o seu arco da Porta Nobre, as suas janelas em ressalto como as das velhas casas flamengas, e as suas tanoarias, por entre cuja frescura era tão bom no Verão passar à sombra, no picante cheiro da aduela e dos vimes do vasilhame, ao vir da Foz em char-à-bancs sob o sol a pino![4] Dir-se-ia que os nossos pais morreram para nós muito mais completamente do que morreram para eles os seus avós e os seus bisavós, levando consigo, ao desaparecerem, quase tudo quanto os rodeava na vida: a casa, o jardim, a rua que habitavam. 

 

As modernas construções não têm aqui, como não têm no resto do País, carácter artístico. As casas novas do interior da cidade são tão chatas e tão inconfortáveis como aquelas que vieram substituir, e estão longe de dar ideia da encantadora reforma porque têm passado as edificações urbanas nos países setentrionais da Europa, especialmente a Prússia e o Hanôver. A estrutura geral dos prédios apresenta, porém, um aspeto consistente, não desagradável à vista: os telhados de lousa, as fachadas revestidas de azulejos, as padieiras de granito, tão nitidamente esquadriadas, dão ao todo um ar rijo, saudável, alegre, harmonizado bem com os tons frescos da paisagem, com a verdura das colinas, com as árvores das praças, com os parreirais dos jardins, com as nebrinas do Douro esbatendo no vapor aquático, polvilhando de sol, o risonho contorno da casaria e das montanhas.


Têm os progressos do espírito acompanhado a evolução dos melhoramentos exteriores? Esta questão é mais complexa, e não tenho tempo para a estudar em detalhe, nem espaço para a tratar por inteiro. O que vou fazer é transmitir as minhas primeiras impressões de turista em viagem na minha própria terra, com a superficialidade profissional de um repórter ao acabar de chegar a um país desconhecido, e propondo-se compará-lo a um país que conhece: o Porto de hoje posto ao lado do Porto de há trinta anos.[5]

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Não leio habitualmente os jornais da província. Não frequentando o café, não tendo clube, não indo ao Grémio, não vendo senão as folhas que me traz a minha casa o correio, confesso humilhado que até os títulos desconhecia de alguns dos jornais portuenses, que leio aqui todos, sistematicamente, do princípio ao fim, fazendo deles há oito dias a grande peça de resistência da minha alimentação mental. Neste ponto devo começar por dizer que o Porto está bastante adiante de Lisboa. A maioria dos periódicos da capital, à parte a controvérsia política sustentada na Imprensa pelos chefes literários dos diversos partidos, não suportam comparação com as folhas portuenses. Os noticiários daqui encerram um conjunto muito mais variado de informações úteis sobre o movimento científico, sobre o movimento literário e sobre o movimento industrial da Europa. Todos os grandes jornais, que são cinco ou seis, contêm um longo artigo doutrinal, grave, versando sobre a questão política do dia, ao modo antigo. Como interesse social e às vezes um pouco chocho, porque, pela sua influência no património intelectual dos homens, a coisa que fizeram ou que deixaram de fazer os poderes públicos importa às vezes muito menos à curiosidade e à direção social do que a simples redondilha popular que um gaiato vai descantando pela rua na ária à moda. Mas o tom geral deste artigo revela sempre um fundo respeitável da aplicação dada ao estudo dos prole mas em voga, uma atitude de crítica serena, uma honestidade aparente, dentro de uma forma comedida e correta.


As correspondências de Lisboa em geral e algumas enviadas das principais cidades da província são feitas com habilidade técnica e com um grande zelo de alvissaragem minudente e fiel. O folhetim propriamente dito, isto é, a crónica semanal das ideias, dos costumes, da arte e da moda acabou na Imprensa portuense, como na Imprensa de toda a parte. Somente nos periódicos do Porto o espírito literário do folhetim não se infiltrou, como em Paris, nas demais secção da folha. Em França o folhetim deixou de ser o que antigamente era, porque se espraiou e invadiu o jornal todo. Entre nós, ao contrário, o folhetim foi absorvido pelo resto, e não desapareceu porque se transformasse, desapareceu porque acabou.»

 

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( continua... )

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1- Esta era uma característica da linguagem do Porto no século XIX. José Leite de Vasconcelos deixou-nos escrito um seu trabalho estudando o falar do Porto, onde esta característica ainda surge. Atualmente e apesar do nosso sotaque continuar a ser bem distinto dos demais, alguns dos seus elementos desapareceram já, como penso que terá sido o caso deste.

2- Nome do lugar onde foi construída a estação de Campanhã e que foi durante algum tempo o nome pela qual foi conhecida.

3- Embora em 1874 a Câmara tenha precisamente em discussão e planeamento a construção de uma moderna rua desde a dos Ingleses até à ponte D. Maria II, certo é que essa rua nunca foi aberta. Felizmente, digo, pois assim puderam a Ribeira e o Barredo sobreviver até aos nossos dias, sorte que o bairro dos Banhos não logrou ter.

4- Na verdade, da rua do Souto apenas desapareceu uma pequena parte junto ao largo de S. Roque, que foi demolido para abertura da rua Mouzinho da Silveira. Quanto às ruas dos Mercadores e Bainharia, mantêm-se até hoje com o comprimento existente à época de Ramalho Ortigão, pelo que não é  (pelo menos para mim) compreensível a sua afirmação. Notar também que o autor designa por rua da Reboleira ao conjunto rua da Reboleira + rua dos Banhos.

5- Ou seja, grosso modo o Porto de 1883 contra o Porto de 1863.

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