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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

OS CARROS AMERICANOS NO PORTO

(Nota prévia: estas linhas foram escritas em 1946)

 

«A municipalização dos transportes eléctricos, que está em curso(1), trás-me à lembrança o que foram tais serviços já que tão velho sou, e que não fujo à regra de a minha amnésia ser dos factos de ontem - não dos da infância.

 

Eu sou do tempo das duas companhias de americanos: Carril do Porto à Foz e Matosinhos, e a actual Carris. A primeira tinha a via desde os Ingleses à Alameda de Matosinhos, com um ramal de Massarelos à Cordoaria; a segunda desenvolvia-se pela cidade sem os longos percursos que hoje tem, mas já ia a Matosinhos, pelo antigo Juncal de Baixo, até ao rio Leça. o salgado, hoje, substituído nesse ponto, pela doca.

 

Da Cordoaria partia o americano para Massarelos; a ordem de partida era dada com uma corneta, que era usada no percurso como sinal acústico.

 

A Carris usava o apito.

 

Os trilhos das duas não se ligavam; eram vias independentes, a certa altura as Companhias fusionaram-se.
O serviço era perfeito. Punha-se então em contraste com o péssimo da capital. Não havia o movimento de passageiros que hoje há, o povo não utilizava os carros; a vida decorria sem pressas.

 

Na linha de Circulação e Ingleses a Costa Cabral, faziam serviço uns americanos pequenos, que ainda hoje, aumentados nas plataformas , se vêem rebocados como bagageiros(2).

 

O acidentado da cidade impunha os sotas em diversos sítios, até para subir a pequena rampa da Carvalhosa, havendo mudas de muares no Bolhão, onde hoje está a continuação de Sá da Bandeira, cujo lado ocidental era quase todo ocupado por cocheiras.

 

Mas tudo era perfeito, matemático.

 

Naqueles americanos pequenos parecia ir-se em família! Levavam a subir da Praça até ao Marquês de Pombal uma boa meia hora - só esta enormidade! - mas porque os carros eram frequentados por pessoas que tinham residência para tais lugares, então considerados muito afastados, viajava-se com satisfação em companhia amiga.

 

A dificuldade de tiragem dos americanos grandes, com dez pessoas em cada bancada lateral, pelos Clérigos e Carmelitas, exigia três e quatro sotas em parelha. Não obstante, o serviço, era pontual, e da Praça de D. Pedro a Matosinhos era uma hora precisa e só custava 120 rs.

 

Na Rotunda, sede da Companhia, ligavam-se os carros, pois outros partiam do Carmo; formava-se o comboio, rebocado por uma máquina, que no Inverno só ia, nesses longínquos tempos, até Cadouços; aqui, a um carro engatava a parelha de muares que o levava a Matosinhos, enquanto a máquina esperava. Depois, com o desenvolvimento populacional de Matosinhos e Leça, seguia o comboio até ao final.

 

Que beleza a das Carmelitas, com o túnel formado pelos ramos de árvores! Um céu de folhas! Era a cerca do Recolhimento do Anjo. Beleza que a civilização repeliu...

 

Foz, Matosinhos, e Leça não eram os aglomerados populacionais de hoje; antes constituíam lugares tranquilos, de pouca gente, que se não deslocava como agora, mas só por uma absoluta necessidade. Os meios de transporte e o tempo perdido a tal não convidavam...

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Fazia gosto no Inverno visitar essas estâncias, pois ouvia-se cantar o mar num sossego terreal, sem a sineta dos eléctricos, o barulhos das fábricas, o sinal acústico dos autos, o movimento intensivo comercial ou industrial. Vivia-se a vida do marítimo, quando em terra a cuidar das suas rêdes.

 

Com que saudade me lembro de ir até Cadouços com meus pais, almoçando-se no restaurante que havia no edifício que se encontra em tal largo, em meia-laranja, agora habitação de empregados da Companhia, infelizmente deterioradissimo(3). Num sossego paradisíaco, via-se o oceano, ouvindo-e o seu marulhar! Esperava-se a vinda do americano que tinha ido a Matosinhos.

 

Para dar facilidade aos passageiros, como não dispunham de uma ponte de pedra no términus, como os da Carril, a Carris estabeleceu uma rampa de madeira até ao rio; aí, uma barcaça à vara, com assentos ao comprido, laterais e centrais, transportava os passageiros à outra margem, onde se subia uma escada para o areal, unicamente coberto nas marés; depois é que a ponte se ligou, fazendo-se o percurso seguido e em plano horizontal. Um grande melhoramento!

 

A colónia balnear de Leça e Matosinhos era limitada a gente quase toda cá do Porto, de modo que pela manhã, principalmente nos comboios das 8 horas e meia, 9 horas, de Matosinhos, (pois eram de meia em meia hora), viajavam sempre as mesmas pessoas, que, constituindo assim um agrupamento conhecido, vinham a esta cidade aos seus negócios ou empregos. Nesses comboios formados por três ou quatro carros, era em Matosinhos logo tomado o carro da frente, por ser o único que vinha à Praça. Regressava-se pelas três, quatro horas da tarde. Viver feliz em que se jantava às três, quatro horas - pois às cinco era luxo de que se desconfiava ou causava admiração!... A colónia inglesa é que jantava mais tarde.

 

Os americanos eram de várias cores, sem a uniformidade dos actuais eléctricos; iluminados a estearina aos cantos superiores direitos, tais luminárias davam uma luz mortiça para dentro; para fora, a luz era coada por vidros de cores, que deslizavam entre dois encaixes metálicos e horizontais, e combinavam as cores que indicavam os destino, lembrando-me que vermelho e verde era Matosinhos; tais cores condiziam com as das tabuletas, indicando o mesmo destino, embora tivessem o nome do lugar para onde os carros seguiam.

 

Foi um sucesso o novo carro 58, pintado a vermelho e branco e que apareceu iluminado a petróleo. Até parecia dia, lá dentro! Nem o bico Auer, quando surgiu nos candeeiros de iluminação pública, na rua de Santo António!(4) Que saudosos tempos!

 

A municipalização dos transportes(5) levou-me a recordar o passado e a pensar no que será o futuro. Pelo menos, o aumento populacional exige que os carros se multipliquem, pois ao presente é um incomodo neles andar, especialmente a certas horas; não satisfazem as necessidades públicas. Devem-se prolongar para Ramalde, Barreiros, Oliveira do Douro, igreja de Paranhos, Boa-nova e Lavadores; devem descongestionar-se as linhas usadas por eléctricos na mesma direcção, e que podem servir outras ruas alcançando o seu destino, pois os transportes colectivos são para servir o público - e por isso se municipalizam.»

Dr. Wendel dos Reis in O Tripeiro, Série V, ano I, Jan/1946

 

_____________
(1) - Aquando da escrita destas linhas a Câmara Municipal efectuava o resgate da concessão de exploração à CCFP (Companhia Carris de Ferro do Porto), passando esta a ter a designação que perdura de STCP. Só em 1948 a STCP introduziu autocarros no seu serviço.

(2) No Museu do Carro Eléctrico podemos ver um desses carros, o 22, se bem que restaurado como carro motor.

(3) Esse edifício já não existe.

(4) Actual 31 de Janeiro.

(5) Ver nota 1.

 

NOTA: Publicado inicialmente em 2/NOV/2009 e 13/NOV/2009 no blogspot.

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