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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

SOBRE A VIELA DA NETA

Desde há alguns anos para cá, conforme vou procurando conhecer as transformações urbanísticas do centro histórico do Porto, tenho para mim que apesar de sempre se referir a época dos Almadas como de grandes transformações na cidade, isto é mais verdade no que toca à expansão (veja-se o caso do bairro dos laranjais). Contudo, quase cem anos depois dessas transformações, outras existiram tão ou mais importantes do que essas, que prepararam a cidade para o futuro, mas muito à custa de arruamentos que vinham já desde o séc. XIV/XV, pelo que essas novas ruas obliteraram para sempre da paisagem portuense outras bem antigas. E por isto normalmente refiro que existiu um Porto A.P.B. e um Porto D.P.B.: ou seja um Porto Antes de Pinto Bessa e outro Depois de Pinto Bessa; porque foi na verdade durante os mandatos na presidência deste dirigente que a cidade viu transformações enormes, as quais creio que só quem as viveu poderia avaliar completamente.

 

Uma delas foi a completa urbanização da área que compreendia a antiga Viela da Neta, onde hoje temos uma boa parte da rua Sá da Bandeira. Esta viela do qual subsiste uma vintena de metros, acima do edifício onde esteve a Casa Forte; era no século XIX um local imundo e sórdido da cidade não obstante ai ter vivido - e falecido em 1863 - José da Silva Passos (que presidiu à Câmara por curtos periodos de tempo em 1834 e 1846). O projeto do novo arruamento foi aprovado em Câmara em 26 de julho de 1866, o que se reflete na pequena "notícia" que vão ler mais abaixo.

planta.jpg

A imagem acima é um pormenor da planta de aprovação da continuação da rua Sá da Bandeira de 1866: 1 - Viela da Neta; 2 - Teatro Baquet; 3 - Teatro Circo, depois Teatro Sá da Bandeira; 4 - Cruzamento da rua do Bonjardim com a rua Sá da Bandeira, agora Rua Sampaio Bruno, vendo-se assinalada à direita a fonte do Bonjardim. (imagem do Aquivo Histórico do Porto)

 

No jornal A Actualidade de 29 de Março de 1874 colhi esta curiosa lembrança que os redatores do jornal fazem à Câmara:

«Chamamos a attenção dos dignissimos vereadores para um padrão de desleixo e de immoralidade e um receptaculo de immundice que ahi se ostenta no centro da cidade sob a denominação de Viella da Neta. Aquelle caminho é hoje transitado por grande parte dos frequentadores dos theatros Baquet e Circo [Sá da Bandeira], além de ser um ponto de transito communicativo, quasi forçado, entre as ruas Sá da Bandeira [Sampaio Bruno], Bomjardim, Formoza, etc. O cheiro pestilencial, que ali reina de ordinario, só pode ser apreciado pelas victimas. Os quadros de desmoralisação que ali se observam são indescriptiveis. Custa além d’isso a comprehender o como não temos a registrar, além d’estes factos, algum assalto nocturno aos transeuntes. Sabemos que vae em dez annos que a camara municipal do Porto tem em seu poder os documentos precizos para dar principio á abertura de uma rua que substitúa aquella especie de azinhaga infernal.

Sabemos, mais, que um proprietario d’esta cidade offereceu á camara metade do terreno precizo para a realização das ditas obras, além de uma somma importante destinada á sua coadjuvação. Crêmos que só ao esquecimento póde ser attribuido o estado vergonhozo em que se acha o alludido local; outros lançarão o facto á conta de culpavel desleixo. E’ pois em interesse da propria camara que hoje formulâmos estas reflexões; involvem ellas uma reclamação. Esperamos que seja attendida.»

neta.jpg

Neste pormenor de uma imagem também ela do Arquivo Histórico do Porto pode ver-se: 1 - Traseiras das casas da rua de Santa Catarina com os seus quintais; 2 - local da Viela da Neta (que não se vê); 3 - Rua Sampaio Bruno (ao tempo Rua do Sá da Bandeira); 4 e 5 - Praça de D. Pedro e rua de Santo António (Praça da Liberdade e rua 31 de Janeiro). Atrás do telhado da igreja dos Congregados está o que julgo ser o telhado do teatro Baquet no lado que deitava para a viela em estudo.

 

Acredito que a Câmara por aquela altura estivesse a dar prioridade a outros arruamentos, só depois se preocupando com este. Na verdade acabara de ser construida a rua Nova da Alfândega e a rua Nova de S. Domingos (Sousa Viterbo); em Abril de 1874 teria inicio a expropriação em redor da rua da Biquinha para construção da rua Mouzinho da Silveira e já se falava no alargamento das Cangostas (parte baixa da Mouzinho da Silveira) que já estava parciamente demolida graças à construção da rua Nova de S. Domingos. Isto só para falarmos dos milhares de reis de empréstimos que a Câmara contraíra para estas ruas e excluindo outras que se iam abrindo e continuando fora do centro histórico... A rua Sá da Bandeira, no seu troço novo, era importante sim. Mas com as ruas mais próximas à nova Alfândega a serem urgentes para escoamento do trânsito que todos os dias fazia um vai e vem constante entre ela e as Barreiras da cidade e que exigia arruamentos largos e modernos, talvez se pudesse prolongar mais um pouquechinho no tempo aquele remanescente de uma época pré-industrial ali às portas da cidade antiga.

 

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Bibliografia: A actualidade (março 1874) // Arquivo Municipal do Porto

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