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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

SOBRE O MONUMENTO A D. PEDRO IV

Desloquei-me recentementa à Feira do Livro nos jardins do defunto Palácio de Cristal procurando um bom negócio nos alfarrabistas sobre um volume que já tive nas minhas mãos várias vezes e estupidamente não adquiri... e o destino a rir-se de mim fez com que por lá o não visse. Dei de caras contudo com outra precisidade! Um obra de Magalhães Basto que já andava a namorar há algum tempo. E nele aprendi umas coisas sobre a estátua equestre do rei (por três dias) D. Pedro IV. Os apontamentos que se vão ler abaixo são todos extraídos desse valioso livrinho.

 

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Não obstante a primeira pedra para este monumento ter sido lançada em 9 de julho de 1862, apenas em Novembro do ano seguinte foi aprovado o modelo vencedor do concurso tendo o mais votado sido o de Anatole Calmels. Este senhor comprometeu-se a esculpir a estátua equestre e os dois baixo relevos que se situavam por baixo dele por vinte contos de reis. A Câmara ficava responsável pela construção da parte arquitetónica da base da estátua (que ficou a cargo de Joaquim Antunes dos Santos) segundo o risco do próprio Calmels. Os baixos relevos seriam esculpidos em mármore de Carrara, cada um deles de uma só pedra e a estátua fundida em bronze que seria montada no local pelo artista.

A própria realeza contribuiu com verbas para esta causa tendo o rei D. Luís contribuido com um 1.000$000 rs. e D. Fernando (rei consorte, viúvo de D. Maria II) com 500$000 rs. A restante quantia foi obtida através de um empréstimo autorizado pela Câmara dos Pares em Maio de 1863.

Apesar de Camels ter vencido o concurso foi necessária proceder a uma correção ao seu modelo. É que figurava no baixo relevo que representava desembarque no Mindelo o comandante de Caçadores 5 como sendo a pessoa que recebera a bandeira das mãos de D. Pedro o que não era exato dado ter sido D. Tomás de Melo Breyner, à época um simples soldado e logo promovido a alferes.


Quando o modelo em gesso desta peça chegou ao Porto nos inícios de 1864 foi necessário efetuar nova correção. Nele não estavam os chapéus de D. Pedro e seus ajudantes recobertos de tela encerada pois o autor da obra afirmava que se o fizesse não conseguiria molda-los de forma a parecerem chapéus mas apenas o de um aglomerado de massa que ficaria irreconhecivel a certa distância. Magalhães Basto refere que apesar da opinião do estatuário não ter prevalecido, olhando para a pedra se vê que ele tinha razão pois todos os chapéus de dois bicos à exceção de um não tem chapéu envolvido naquela cobertura.

estatua.jpg

 

As pessoas que se encontram à volta de D. Pedro eram, segundo Calmels, o Conde de Sobral, o Marquês do Ficalho e o Conde de Campanhã ligeiramente ocultado. Estas pessoas tinham prometido posar para o modelo grande. À esquerda do homem que está a receber a bandeira era António de Passos Almeida Pimentel, Barão de Grimancelos. A Comissão responsável pela gerência desta obra obrigou o autor a mudar este último pois na realidade a pessoa que pretendia representar - Luís Pinto de Mendonça Arrais, Visconde de Valongo - não era tão agigantado nem usava barbas crescidas mas apenas suiças. Quanto ao porta-estandarte - Tomás de Melo Breyner - a Comissão exigiu que fosse corrigido o correame que deveria ser de caçador enão de infantaria: uma só correia preta no ombro esquerdo que segura a patrona, e o mesmo se deveria estender a todas as praças do mesmo corpo que ali figurassem. Para além disso os Voluntários da Rainha não tinham na barretina outra chapa mais do que uma simples corneta com a legenda D. Maria 2ª.

 

Calmels não se portou muito bem e alongou demasiadamente o começo dos trabalhos e só depois de receber uma carta azeda do Visconde de Lagoaça é que o mesmo deitou mãos à obra. Sendo certo que por esta altura o artista, que morava em Lisboa, teve de abandonar o atelier que tinha montado no corpo da igreja e capela-mor de S.Bento (atual Assembleia da República) e isso tenha também contribuido para o atraso. Calmels lá consegiu ficar ali por mais uns meses e inclusivé conseguiu autorização para ocupar duas capelas laterias da igreja agora reduzida a atelier.

 

Por azar o artista sofreu um acidente e isso mesmo refere numa carta ao Visconde de Lagoaça, cheia de ressentimento: «Parece realmente que tudo se liga para me impedir de trabalhar, e é preciso que eu seja tão artista como sou, para não perder a coragem. Nem V. S.ª nem a Ex.ma Câmara se importaram com as dificuldades que tenho tido a vencer; poderia eu mesmo ficar estropiado ao vosso serviço, e impossibilitado de continuar a minha carreira, e nem sequer se dignaram informar-se da gravidade do meu acidente, quando Suas Majestades tiveram a amabilidade de se inquietarem com isso...»

 

A estátua foi fundida em Antuérpia, pesa 5.500 Kg e tem de alto 4,5m (com a altura do pedestal, que é de 5,5m, vem o monumento a ter a altura total de 10m). Viajou da Bélgica para Lisboa em peças no vapor Rhone, tendo chegado à estação das Devesas (ainda não havia comboio no Porto) em 21 de setembro de 1866. Logo iniciou o artista a sua montagem, no chão junto ao pedestal. No dia 29 faltava montar a peça que constituía o dorso da figura do rei. Isso foi conseguido a 4 de outubro, auxiliado por um guindaste emprestado pela Escola Politécnica de Lisboa, e grossos cabos e correntes de ferro do Arsenal da Marinha e um cabo forte emprestado pelas obras do Paço dos Estudos do Porto (a antiga faculdade de Ciências).

O monumento foi finalmente inaugurado em 18 de Outubro de 1866 pelo rei D. Luís e seu pai D. Fernando.

 

Já ao tempo de Magalhães Basto os baixo-relevos encontravam-se depositados no Museu Soares dos Reis, para onde foram levados após terem sofrido sevícias de alguns idiotas (no blogue Do Porto e não só poderão ver uma foto deles) e no seu lugar temos agora réplicas de bronze(?). A bandeira que um dos baixo relevos representa estava também no museu Soares dos Reis quando Magalhães Basto escreveu contudo não revalido a informação do autor - datada de 1945 - pois desconheço se ainda é verdade ou se a mesma já transitou para algum outro museu, quem sabe até de cariz militar.

DSC02355.JPG

Fotografia do modelo que ganhou o concurso em 1862

 

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Bibliografia: Silva de história e Arte

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