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UM ALINHAMENTO POLÉMICO

por Nuno Cruz, em 11.12.17

Algumas plantas que se apresentam à disposição no sítio do Arquivo Municipal do Porto, embora de uma forma geral elucidativas, vêm muitas vezes descontextualizadas dos seus suportes escritos, que nos permitem melhor avaliar o projeto que se nos apresenta. Por mais de uma vez dei por mim a consultar pareceres em que as referências a essas plantas existem, mas as plantas não estão junto deles. É o caso de um texto que se refere à planta que apresento abaixo e que, creio, se não foi feito para ela, está intimamente relacionado com ela.

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Planta aprovada em 1838 e elaborada por Costa Lima Júnior, nela diz: «Plano topográfico que representa a atual direção da rua Ferreira Borges pelas linhas marcadas de preto, e ao mesmo tempo a direção que a mesma pode tomar para impedir a demolição de hua parte da igreja de S. Francisco, seguindo as linhas de pontos que terminam em AB».

A planta acima mostra-nos a parte final do alinhamento da rua Ferreira Borges e que deu bastante polémica nos jornais da época aquando da sua abertura (1835-1838); nomeadamente mostra-nos a dúvida sobre como deveria ser rematada a rua no seu extremo sul, local em que passava por detrás de igreja de S. Francisco. Convêm elucidar que a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto (ACP) que a tomou a cargo desde o início e com o apoio camarário. Contudo, após a Revolução de Setembro (1836), esse apoio desvaneceu.

Já em 1837, a comissão daquela instituição encarregada de superintender a obra da rua propõe à ACP a destruição da capela-mor da igreja, para o correto alinhamento da rua. Num ato de lucidez a mesma rejeita essa proposta, sendo elaborado um novo projeto que a substitui, posteriormente apresentado à Câmara. Ainda assim, convêm não esquecer que o projeto original da rua - de 1835 - aparentemente incluía a demolição daquela parte da igreja gótica, tendo sido aprovada com a conivência da Câmara da altura (talvez neste particular se possa desabafar: bendita revolução setembrista...). Isto porque em consequência da resolução (interna) de manter aquela parte da igreja, a Associação solicita-a à Câmara informando ao mesmo tempo que outra planta estava já em preparação.

A edilidade aproveita o momento para tomar um pouco as rédeas de uma obra que estivera fora da sua alçada, fazendo uma vistoria ao local. Mas, não querendo tomar parte definitiva na resolução do problema, elabora também ela a sua proposta para o remate da rua. Explica a Câmara que «se o edifício do Tribunal do Comércio não fica na frente desse alinhamento, nem por isso se peora o aformoseamento, estabelecendo dele ao pavimento da rua um paredão que forme um terraço, no qual colocada uma baranda muito concorre à boa vista que apresentará, e à perfeita segurança que ainda se torna indispensável aos alicerces daquele edifício, que no estado em que se acham, carecem indispensavelmente de alguma atenção para poder-se tirar proveito de tal edifício, podendo nesse mesmo paredão formar-se uma arcaria que poderia ter bom rendimento pela sua localidade». Para além disso, a Câmara exigia que a ACP revertesse o uso da igreja para o seu original intento do culto divino, suprimindo-a ao enxovalho de ser usada como armazém alfandegário, e também que o alinhamento se fizesse pela sua planta.

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Em primeiro plano vê-se a zona da polémica onde é visível a iminente ruína da capela-mor (desenho de J. Holland, 1837). Notar que o edifício da Bolsa ainda não existe pois a sua construção só foi iniciada em 1842; o que ali se vê é a antiga estrutura do convento franciscano.

Assim decorre durante quase todo o ano de 1837, uma polémica sobre os três alinhamentos agora propostos: o original que faz demolir a capela-mor, o alternativo da ACP e o da Câmara. A juntar a tudo isto existe também envolvido o pedido de licenciamento por parte de José Ferreira dos Santos Silva[1] para um grande edifício a construir em frente ao Palácio da Bolsa, também com fachada virada à rua do Infante D. Henrique; projeto esse que aguardava a conclusão da rua e que tardava a arrancar dado o "imbróglio" que ali se apresentava.

Em outubro de 1837 o administrador geral do Distrito do Porto requer à Câmara um parecer sobre a conservação da capela-mor e a sua transformação em armazém da alfândega, mandando também o arquiteto da cidade levantar a planta da Rua Ferreira Borges de modo a conservar a capela. Neste parecer, elaborado por Joaquim da Costa Sampaio Lima onde este refere que, excluída que estava a demolição da capela-mor, o alinhamento da Câmara é preferível com vantagem de com o projetado terraço exterior ao edifício o mesmo edifício recuperaria maior solidez do que muito precisa por se achar ameaçando ruína e bastante desaprumado e também que esta rua alinharia mais exatamente com a frente de S. Nicolau. Além de que o seu alinhamento destruiria em parte a agudeza do ângulo formado com a rua do Infante D. Henrique, e o tornaria mais vizinho à linha perpendicular e claro, se pouparia a demolição daquela parte do templo que algum respeito merecia. Mas diz mais:


«Como a Associação (digo) não aceita o novo projecto, e prescinde das suas respectivas vantagens, então julgo que de necessidade se deve abraçar o primeiro plano, o qual consigo arrasta a demolição da referida parte daquele templo que aliás ficaria servindo ali de um perpétuo estorvo. Não concordo porém no que propõe a Associação Comercial quanto a estorvar-se que José Ferreira dos Santos Silva, edifique na porção triangular colocada na extremidade da rua; seria sem dúvida muito mais defeituosa a porção mutilada, o alinhamento interrompido, e o número de ângulos multiplicado ... sendo claro que um ângulo agudo não é senão um defeito, e para fugir deste cairíamos no ângulo obtuso ... que se reduz a um defeito do mesmo valor mas em sentido contrário, portanto sou do parecer que por nenhum modo se estorve que as duas linhas se cruzem no vértice onde as conduz a sua primitiva inclinação e por conseguinte se permita ao mencionado proprietário de edificar no terreno ponte-agudo».

santossilva.jpeg

Acima uma montagem das duas plantas que Santos Silva enviou à Câmara e esta aprovou. À esq. a fachada virada à rua Ferreira Borges (fazendo frente ao Palácio da Bolsa) e à dir. a fachada para a rua do Infante. Esta casa, como sendo a primeira a ser solicitada naquela rua no lado nascente, serviu para modelar uma possível distribuição de edifícios até ao cunhal com a futura rua da Bolsa, como se pode ver na planta abaixo aprovada logo 1838. Nela se lê: «A primeira casa composta de oito portas representa a propriedade que vai edificar José Ferreira dos Santos Silva sobre a rua Ferreira Borges, - as seguintes são as diversas propriedades sujeitas a chãos de vinte e cinco palmos; mas se por ventura algum particular edificar em mais de um chão deverá seguir o estilo da casa de Santos Silva»:[2]

prospeto.jpeg

 

Arrastando-se ainda por mais um tempo, a questão apenas ficou resolvida em janeiro de 1839, quando o governo concedeu a igreja que outrora fora do convento franciscano à sua Ordem Terceira, que ainda hoje a possui. Também a partir desta altura pode a ACP concentrar todos os seus esforços na construção do Palácio da Bolsa e quanto à casa particular, esta nunca chegou a ser edificada. A Câmara tomou finalmente posse da obra da rua e no relatório apresentado no início de 1840 pelo presidente interino Manuel Joaquim Gomes Cardoso Júnior, podemos ler este singelo mas elucidativo parágrafo sobre ela:

 

«Não era com indiferença que a Câmara olhava para o péssimo estado em que se achava a encetada rua - FERREIRA BORGES - que mais parecia um foco de imoralidades e misérias, do que rua de trânsito em meio de uma cidade; porém esta inação provinha da ideia, ou por melhor dizer, do facto de pertencer o seu complemento ao Governo, visto haver este retirado da Administração Municipal a execução do plano da mesma rua: mas logo que esta lhe foi entregue, por ordem do mesmo Governo, a Câmara não hesitou em tomar esse encargo, e empregando os meios adequados tem levado as suas obras ao ponto de adiantamento em que se acham».

 

Esse ponto de adiantamento não deveria ser muito diferente do estado que a rua apresentava no pormenor fotográfico que se pode ver abaixo, colhida cerca de uma vintena de anos depois. Do lado poente a rua tem já todo o aspeto que se vê na atualidade, mas aquela área da cidade estava ainda longe de revelar na totalidade a aparência que hoje conhecemos...

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1- Notar que embora uma casa ali nos possa causar atualmente estranheza, temos de ter presente que toda a rua do Infante estava edificada, não existindo ainda o jardim.

2 - Quase escusado seria referir que nada do que na planta vemos foi realmente edificado tendo no seu lugar nascido, cerca de 50 anos mais tarde, o jardim do Infante. Uma pena de facto; que belos hotéis e hosteis dariam hoje em dia com vista privilegiada para um dos mais monumentais edifícios da cidade...

 

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NOTA: Originalmente publicado no blogspot em 2 de outubro de 2016, agora revisto e aumentado.

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