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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

UM OUTRO GUILHERME GOMES FERNANDES

Gosto bastante de ler os artigos das primeiras séries da revista "O Tripeiro". Isto sem desprimor para as mais recentes é claro, que desde a série IV vem apresentando artigos muito bons e são peças incontornáveis para se conhecer a história da nossa cidade, sua evolução, suas personalidades... Mas aquelas três primeiras séries dizem-me muito não por serem as lançadas em vida do fundador da revista, Alfredo Ferreira de Faria, mas porque são repositórios feitos de muitas memórias de indivíduos que testemunharam grandes transformações na cidade. Esses escritos em particular são, a bem da verdade, por vezes confusos e anacrónicos porque feitos de memórias pessoais; ainda assim bastante importante se analisados com a devida ponderação.

Isto para dizer que recentemente li um pequeno "artigo-memória" de um tripeiro certamente já há muito falecido, referente ao comandante das bombas José Ribeiro Cardoso. Pessoalmente tem esse texto dupla importância: o homenageado e a história da rua Mouzinho da Silveira (já vão saber porquê...)

O texto foi publicado em janeiro de 1927 e homenageia esse enérgico comandante dos "verdadeiros" bombeiros, isto é, dos que manejavam e puxavam as bombas.

 

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JOSÉ RIBEIRO CARDOSO . O Comandande das bombas

 

Snr. Alfredo Ferreira de Faria, dig.mo director de O Tripeiro.

O seu periodico é uma publicação das mais interessantes, que todos os portuenses de alma e coração devem possuir e venerar. A satisfação e o enlevo que elle nos dá, quando nos colloca diante dos olhos typos, costumes, scenas e edificações que já se tinham varrido da nossa memória e nos faz retroceder ao tempo feliz da nossa mocidade, cuja evocação realisa, tempo que desappareceu nas sombras do passado, para não mais voltar, offerece-nos uns deliciosos momentos de intima concentração, em que o nosso espirito se compraz em viver a vida passada, que nos é gratissimo recordar com saudade, misturada de intenso jubilo.

 

E porque assim é, consinta V. ... que eu venha concorrer para que no seu O Tripeiro se faça justa referencia a um portuense que, ha cêrca de sessenta annos, teve na invicta cidade um lugar de destaque.

 

Sem ter curado de saber se nos três volumes já publicados ha qualquer noticia a respeito d'esse benemerito, peço-lhe vénia para lhe lembrar que no seu quinzenario merece condigna homenagem o «Guilherme Gomes Fernandes» d'essa época, denominado o Commandante das bombas.

 

Chamave-se elle José Ribeiro Cardoso e era proprietario de uma importante drogaria na rua da Bainharia, installada em um dos dois predios cujas trazeiras constituem a maior vergonha da rua do Mousinho da Silveira, pelo seu estado de abandono e de immundice em que se encontram, na parte da referida rua, que depois de tantos annos volvidos ainda não está edificada. Sem conhecer as causas porque o proprietario d'essas duas casas não as augmentou, trazendo-as ao alinhamento da citada rua, fica-se vexado perante o aspecto sórdido e infecto que ellas apresentam, deprimindo a cidade. Escorrencias de aguas immundas pelas paredes e pela cantaria, vidraças em estilhaços, portas de sentinas desmanteladas e esburacadas, varandas de ferro carcomidas pela ferrugem, e teias de aranha pendentes de todos os lados, eis o que hoje nos resta da moradia de um homem que ha mais de meio seculo tanto se fez notavel no burgo portuense.

 

A sua acção passou-se no tempo em que as bombas para extincção dos incendios eram conduzidas aos locaes dos sinistros pelos proprios bombeiros municipaes, auxiliados pelo rapazio e por todo e qualquer cidadão que se prestasse a puchar pela corda adaptada ás carretas das bombas, para vagarosamente as arrastarem das respectivas estações ou postos, chamadas pelo badalar dos sinos das torres das igrejas, badalar a que se dava o nome de signaes de incendio, e que era tanto mais violento quanto maior era a intensidade e o perigo do fogo.

 

A agua era fornecida pela colonia gallega em grandes canecos de madeira conduzidos aos hombros, serviço a que essa colonia se obrigava em troca da concessão que a Camara Municipal lhe fazia de poder conservar os seus canecos em fileiras junto dos tanques e fontes publicas, onde lhe era reservada uma bica para encher os canecos e fornecer, por contracto mensal, agua ás casas da cidade baixa, que não possuiam poços onde se podessem abastecer.

 

Era digna de admiração a acção prodigiosa de José Ribeiro Cardoso n'estes lances difficeis e angustiosos. Homem de meia idade, de estatura mediana, trajando quasi sempre de côres escuras e usando umas suissas compridas, sedosas e completamente brancas, como as de um negociante que existia e creio que ainda existe na rua do Almada, elle acudia, activo e pressuroso, a toda a parte, animando, ordenando, prevenindo os perigos e incitando com o seu exemplo, valor e coragem os seus subordinados. Para aquella época e com recursos tão mesquinhos era modelar a sua obra.

bombasprimitivas.JPG

Dominado o incendio, passava em revista o pessoal, tomando nota das faltas, quer dos bombeiros, quer dos aguadeiros, e punia essas faltas se não fossem devidamente justificadas, como mandava o regulamento.

 

Era, sem dúvida, ha sessenta annos o nosso chorado, admirado e nunca esquecido «Guilherme Gomes Fernandes», guardadas, é certo, as distancias da época, em que este viveu, e os recursos materiaes, physicos e intellectuaes de que dispôz largamente.

 

Era consorciado com uma senhora da boa sociedade portuense, viuva do negociante José de Sampaio Pereira, D. Anna de Sampaio Pereira, sogra do fallecido chefe dos escriptorios de O Commercio do Porto Augusto Antonio dos Santos, e avó dos fallecidos e distictos medicos portuenses Dr. Augusto Antonio dos Santos Junior e Dr. Fernando Augusto dos Santos, que proficientemente tiveram a seu cargo a direcção clinica das Aguas do Gerez.

 

Na velha rua da Bainharia e nos archivos da Camara Municipal talvez se possam obter valiosos e melhores informes que viessem completar estas modestas notas que a minha memoria me deixou escrever.

 

É meu sincero e ardente desejo que assim succeda, para condignamente se render preito aos valiosos serviços prestados á causa publica por tão prestimoso cidadão, serviços ainda mais dignos de aprêço por serem, se bem me recordo, gratuitos.

 

D'estes ligeiros apontamentos fará V. ... o uso que entender. Se merecerem a publicação em O Tripeiro aqui fica desde já consignado o meu agradecimento pela justiça que se faz recordando o nome de um notavel cidadão que ao Porto deu o melhor do seu esforço, como pôde e como soube.

 

Com estima sou de V. ..., etc

Henrique Pereira de Oliveira

 

Nota. Depois de escriptas estas linhas, passei na rua do Mousinho da Silveira e vi que as trazeiras dos dois predios a que fiz referencia soffreram uma ligeira limpeza e foram imperfeitamente caiados. Não foi o que era preciso e devia ser: mas mais vale pouco do que nada. Só a falta de recursos póde justificar o que se tem dado com estes dois predios. - H O.

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Segundo o testamento deste cavalheiro (disponível em linha no Arquivo Municipal do Porto), o mesmo faleceu em 9 de maio de 1877 e morava na rua da Bainharia n.º 59 e 61.

 

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Imagem: Arquivo Histórico do Porto

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