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A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

UMA MEMÓRIA DO MOTIM DE 1757

O que abaixo se vai ler foi publicado no 4º volume do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vão já para cima de 70 anos! Foi trazido à luz do dia, por assim dizer, por Vasco Valente, à época diretor do Museu Nacional de Soares dos Reis. Trata-se da descrição de Ignacio Henckell, uma testemunha contemporânea do célebre motim da Companhia. É uma janela para um Portugal felizmente já desaparecido de despotismo do reinado de D. José, quando Sebastião José de Carvalho e Melo - o futuro Marquês do Pombal - governava o país. Apesar da distância do tempo, continua-me a chocar a brutalidade com que a situação foi resolvida, e não consigo olhar para as ruas e praças onde o episódio se desenvolveu sem imagina-lo como se o tivesse lido num jornal de há uns dias atrás e sem conseguir dissociar a violência, daquela usada contra os Távoras em Lisboa menos de um ano depois...

(Notar que atualizei a ortografia e dividi o texto em parágrafos para tornar a leitura mais fluida.)

 

« ... »

 

«Em quarta-feira de Cinza, 23 de fevereiro deste ano 1757 se ajuntou um bando de homens e alguns rapazes e mulheres à porta do Juiz do Povo, junto a S. Domingos e o levaram em cadeirinha a casa do Chanceler[1] na rua Chã, obrigando-o a deitar pregão para todos poderem comprar vinhos, suspendendo os privilégios, que el-rei concedera à Companhia do Alto Douro; foram a casa do Provedor (Beleza)[2] na mesma rua, destruíram muitos móveis, e entrando na casa contígua, onde os da Companhia faziam sua junta rasgaram vários papeis clamando: Viva el-Rei. Morra a Companhia.

 

El-Rei mandou logo para esta cidade o Desembargador do Paço João Pacheco Pereira, e seu filho José de Mascarenhas Desembargador da Suplicação para que como Juiz e Escrivão da Alçada devassarem dos culpados neste motim. E João de Almada e Melo para governar as armas e dar o auxílio necessário. Passaram o rio em Arnelas e entraram na cidade em 15 de março acompanhados pelos Dragões de Aveiro. Alguns dias despois chegaram 80 cavalos ligeiros de Chaves e os Regimentos de Infantaria de Bragança e Viana, ficaram todos aquartelados pelas casas da cidade e subúrbios.

 

Prendeu-se muita gente nas prisões e fortalezas e se sentenciaram os culpados. Na noite de 11 para 12 de outubro se levantaram 5 forcas em Miragaia, junto a S. Domingos, na rua Chã, à porta do Olival, e a porta de Cima de Vila. Em 13 se levantaram mais seis forcas na Cordoaria, juntas umas as outras, nestas seis foram enforcados em 14 do mês 13 homens e 4 mulheres, como também estátuas de 8 homens ausentes. Outra mulher ficou esperada por andar pejada[3]. Os quartos dos homens se repartiram pelas 4 forcas novas e pela da Ribeira, pondo-se em cada uma quatro quartos: e todas as cabeças nas 6 da Cordoaria, e na da porta do Olival. Um par de noites despois desapareceram os quartos, mas as cabeças ficaram enté ao fim do mês, quando se puseram em paus altos pelas estradas em 17 partes. Em 26 do mesmo outubro correram as ruas 32 homens e 8 mulheres, estas e 30 dos homens foram açoutados debaixo da forca da Ribeira e das cinco que primeiro se levantaram. Outros muitos foram para degredo em Angola, Mazagão e Castro Marim; outros para as galés etc - alguns condenados em penas pecuniárias e 6 meses de prisão.

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O símbolo da companhia tal como surge no seu alvará

 

Alguns rapazes assistiram junto das forcas ao suplício das 17 pessoas, e despois tiveram na cadeia castigo de bolos e açoutes. Em o primeiro de novembro foram para as suas terras os Regimentos de Viana e Bragança e a Cavalaria de Chaves. Em 6 foram para Aveiro 250 Dragões, ficando 50 aboletados para guarda dos Ministros; os quaes com eles partiram daqui em 15 de março de 1758; quando os moradores do Porto principiaram a respirar vendo-se livres das tiranias e vexações que padeceram.»

 « ... »

 

 

Ora caros leitores, digam-me lá se este suplício dos cidadãos sem nome a que se chama comummente o povo, é ou não, na sua "contagem de corpos" bem maior do que a dos Távoras, posto que muito menos famosa?

Logo de início D. José ordenou a prisão imediata dos «cabeças do motim, mesmo antes da culpa formada» e com processos verbais ou sumários, sendo que, segundo um documento camarário, estavam nele envolvidos «mais de cinco mil pessoas, cujo número constava de rapazes, galegos, marinheiros, mulheres e alguns oficiais e homens de capote que mostraram ser pessoas de baixa esfera». Contudo os seus instigadores teriam sido os clérigos (os jesuítas terão supostamente argumentado que o vinho da Companhia era impróprio para a missa!) e os ingleses. Nenhuma destas classes de indivíduos foi contudo condenada. Ainda assim os vereadores da câmara foram destituídos e extinto o cargo de procurador do povo bem como a Casa dos Vinte e Quatro.

 

_____________

1- Desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo, Corregedor do crime da Relação do Porto, servindo de Chanceler e Governador das Justiças (nota de Vasco Valente).

2- Luís Beleza de Andrade, Vereador da Câmara e Provedor da Companhia (nota de Vasco Valente). Para mais informação sobre este indivíduo e sua atuação no motim ver AQUI.

3- Sinónimo de prenhe.

 

Obras consultadas : O motim de 1757 segundo uma testemunha coeva; Uma época histórica, uma cidade, três motins - Análise comparativa dos motins do Porto de 1592, 1661 e 1757.

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