Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

A Porta Ŋobre

« Se a nobre cidade do Porto é o tronco do ilustre nome de Portugal ... que português haverá que tenha zelo da honra deste nome, que o não tenha também da honra desta cidade. » (Gaspar Estaço)

UMA TABERNA DO PORTO EM 1860

O que abaixo se vai ler é o segundo capítulo (bastante truncado) de um romance(1) escrito por António A. Leal e publicado n' Archivo Popular, semanário da sua responsabilidade, nos já longínquos anos 70 de oitocentos. Ainda no primeiro capítulo o autor adverte: «tomando para lugar da acção dos quatro primeiros capitulos d'este romance, que também se há-de desenvolver por palacios explendidos, uma das tabernas que ha vinte annos guarneciam a rua dos Banhos, posso phantasiar muito á minha vontade, descrevendo-a como muito bem me parecer, sem ter medo de que o leitor se me apresente deante de rosto iracundo, taxando-me de menos verdadeiro, o que n'um romancista seria imperdoável.»


Como não estou em crer que o autor se fosse afastar muito da realidade e precisamente pelo seu pitoresco, transcrevo a descrição da desta taberna, real ou fictícia, mas sem dúvida modelar daquele tipo de estabelecimento que abundava à época por aquela rua. Fiquemos então com as palavras do Sr. Leal.

 


**

«Sabido que é n'uma das tabernas da rua dos Banhos que vou introduzir o leitor, pedindo-lhe préviamente perdão de o guiar por logares tão ordinarios e indecentes, o que é comtudo um dos previlegios dos romancistas, convinha fazer a descripção da morada da tia Malareca, nome da respeitavel matrona que empunhava o sceptro de rainha n'aquella especie de Côrte dos Milagres, de que o leitor deve estar lembrado se é que já leu os Mysterios de Paris.

Sempre direi que a taberna da tia Malareca era a mais immunda de todas as que frequentavam n'aquella epoca vadios e prostitutas da baixa, personagens tambem pouco decentes para abrirem um romance; mas, quanto a isto, é-me ainda facil invocar o testemunho dos meus já mencionados collegas Ponso du Terrail e Companhia(2).


Agora deixo ao leitor a liberdade de phantasiar na sua mente um typo de taberna, com todas as côres por mais repugnantes que lhe parecer, porque eu até lhe afianço que por muito negra, muito suja, muito repellente que a imagine, nada será exaggerado em comparação da taberna verdadeira, que já está dito que era negra e suja e repellente. Para completar o tetrico do quadro, falta dizer que a scena se passa de noute, e uma noute tenebrosa do inverno de 1860.


A taberna era composta de uma unica loja, dividida em duas, a primeira das quaes era a cosinha, e a segunda, separada por uns lotes carunchosos e encebados, no meio dos quaes se abria uma porta tapada com uma cortina de chita vermelha, em que se viam pintados passaros vermelhos, com bicos amarellos, de tamanho mais do que natural, phantasia naturalmente do pintor, essa parte da taberna tinha pretenções a sala de jantar. Era alli que se comia o que se preparava na sala de fóra e era tambem onde faziam explosão as alegrias filtradas no cerebro dos frequentadores pelo espumante licor extrahido das dornas por mão da bojuda tia Malareca, que era, como já dissemos, o nome de guerra da dona da locanda.

 

margemdouro.JPG

Excerto de uma imagem da zona ribeirinha da cidade que nos mostra a rua de Cima do Muro e a muralha gótica portuense onde se vê o postigo dos Banhos com o seu areal e o postigo do Pereira, tudo desaparecido. Na área que assinalei com o rectângulo existia a da rua dos Banhos, que por ali tinha o seu início na confluência da rua da Reboleira e rua de São Nicolau (ex-Ourivesaria) e que seguia até à Porta Nova ou Nobre.


Este indespensavel apendice da loja era singelamente mobilado. Uma meza estreita e comprida, e bancos toscos á roda, eram toda a sua guarnição. Esta simplicidade tinha um fim: era deixar o campo livre para os dansadores, ou tocadores de banza. 

 

Cá fora ia um temporal horrivel. Os relampagos crusavam os espaços celestes, acompanhados de estrondosos trovões. O vento assobiava por debaixo do arco da Porta Nobre e introduzia-se pelas tabernas adentro, com a maior semceremonia d'este mundo. A chuva cahia a torrentes e fazia uma enxurrada capaz de arrancar e levar deante de si as pedras das ruas. No relógio da Sé acabavam de dar dez horas.


Á roda da meza comprida, de que fallamos, achavam-se sentados uns seis homens, só tres dos quais tinham barba. Os outros tres eram ainda rapazes. Estes regulariam de quinze a dezoito annos; aquelles de vinte e cinco a trinta. Os trajos eram pouco apurados; pobres, mas não esfarrapados. Em todos se observavam as faixas, desempenhando as funcções de suspensorios. Quem eram estes homens? O seu modo de trajar, os rostos agaiatados, as faixas, os cigarros atraz da orelha, o copo na mão, a indespensavel banza empunhada por um d'elles, indicavam perfeitamente qual era a sua profissão.


Eram vadios. Aquella meia duzia de vadios eram os melhores freguezes da taberna. Deante d'elles, sobre a mesa, ainda se viam os restos da ceia: peixe cosido, cebolas, pão e vinho, muito vinho. E eram estes os restos. Um lampeão d'azeite de purgueira, suspenso do tecto, alumiava tenuamente a sala.


N'essa noute os convivas tinham dado ordem á tia Malareca para que não deixasse entrar mais ninguem no segundo compartimento da taberna, enquanto elles lá estivessem, o que se devia prolongar até muito depois de ser hora de fechar a porta. Effectivamente a porta fechou-se e a tia Malareca, assim como mais umas tres mulheres que se achavam na taberna, aninharam-se por traz das grandes pipas sobrepostas, pelas frestas das quais chegavam d'ahi a pouco os roncos que ellas expelliam, dormindo, aos ouvidos dos freguezes, que conversavam acaloradamente.»

**

 

1. Que ficou incompleto, pelo menos a sua edição.

2. Esta referência vem do capítulo 1.

_________

NOTA: Publicação transcrita d' O Porto de oitocentos no blogspot

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D