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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A praça da Liberdade à época da revolução de 1820

por Nuno V. Cruz, em 16.12.18

Nas primeiras décadas do século XIX, a imprensa começava a dar os seus primeiros passos e um pouco por todo o lado iam surgindo publicações periódicas, a esmagadora maioria delas de vida efémera. No Porto, um ano após a revolta de 1820 um dos jornais existentes era o Patriota PortuenseLonge ainda do tipo de publicação que veremos surgir nos anos 40 e sobretudo 50 daquele século, nele se notam contudo já algumas notícias locais e não apenas a publicação de Decretos ou notícias de carácter nacional do Reino Unido (de Portugal, Algarve e Brasil). E nele se começavam a ver também publicadas as correspondências de leitores que aproveitavam para mostrar o seu descontentamento com aspetos e modos como eram conduzidos os assuntos da cidade.

Nos dois artigos abaixo essas mesmas opiniões servem atualmente como pequenas janelas para um Porto que começava por fim a expandir-se para fora das suas muralhas medievais, mas onde Massarelos e Cedofeita eram ainda denominados de subúrbios. Neste contexto a atual Praça da Liberdade iniciava o seu lento processo de regularização e transformação, que só teria conclusão com a construção do edifício do Banco de Portugal e a demolição dos palacetes[1] do topo norte para abertura da Avenida dos Aliados, mais de cem anos depois.

 

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i1 a Praça Nova com o aspeto aproximado ao de 1821 (parcial de uma planta de 1790). O 1 assinala o palacete adquirido em 1819 para Paços do Concelho; o 2 indica e igreja e restante edificado dos Congregados ainda com a escadaria original demolida em 1838. O 3 é a célebre Fonte da Natividade com o seu mercado em redor, tudo demolido em 1833. O 4 aponta-nos a viela do Polé, que ainda foi captada em foto (ver aqui) pois só desapareceu no início do século XX para dar lugar ao edifício do Banco de Portugal; e finalmente o 5 reporta ao convento dos Loios, acompanhado pela sua torre e pela muralha que naquele local fazia um curioso cotovelo.

 

Mas vejamos então quais eram as "polémicas" à volta da praça da Constituição, em 1821.

 

*
Patriota Portuense, 24 de Novembro
«CORRESPONDÊNCIA de um tal Brás Cata-cego

«Em 23 de dezembro no ano próximo passado é que se publicou a Portaria da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino para que a Praça Nova se chamasse, para o futuro, Praça da Constituição; que, no lugar mais acomodado da dita praça, se levantasse um monumento, executado em pedra, com desenho que melhor possa exprimir o grande acontecimento do memorando dia 24 de agosto; e para que a praça se aformoseasse mais e tivesse extensão e capacidade necessária para este objeto, se demolisse o edifício da Natividade: recomendando-se à Ilma. Câmara que pusesse em prática tudo o que já dantes se achava determinado a este respeito, a fim de que esta utilíssima obra se não demorasse.

Tem decorrido quase um ano, e só vimos trocar-se a denominação da praça, sem solenidade alguma, porque o regime constitucional não admite cerimónias. Em quanto a monumento e demolição do edifício, fica para a ressurreição dos capuchos; pois que agora há falta de operários e ressurgindo aqueles haverá gente para tudo. Bendito seja Deus, que assim se executa o que um Governo determina!

Mas, sr. redator, como a obra está embarrancada não se há-de perder tudo, visto que se lhe deu começo in illo tempore que a pedra, daí tirada, dava para aquilo com que se compram os melões: bem haja quem é dotado de astúcia, que em ninharias faz dinheiro, e o tempo só está para pouquidades! Portanto lembro que se deve conservar aquela tapagem que se acha na obra (que é bem bonita!), e acabando-se de terraplanar o sítio da fonte, tem a cidade regeneradora um côrro para touros, cavalinhos, ursos e elefantes, com que os forasteiros nos armam ao dinheiro: desta sorte não nos incomodarão pelas ruas com os seus bicharocos e gaitas de fole, e jamais se irão hospedar com eles em casas de pasto, habitações impróprias para tal canalha: as janelas servem para as senhoras, como mais medrosas; e para os homens faz-se um tablado no lugar da varanda: esta lembrança não é para desprezar, porque além da comodidade destes aventureiros da santa conveniência, serve de chamariz para as lojas do bom e barato: e é de esperar que ela tenha a breve decisão que tem tido as memórias e modelos para a construção do dito monumento.

A Ilma. Câmara fez certamente o que devia em renovar e ornar os Paços do Concelho em quanto o cofre tinha churume: em verdade, o interior do edifício tem belíssimas pinturas, gosto delicado nos tetos estucados, magníficos reposteiros, portas com ricos entalhos, etc; o exterior (aqui torce a porca o rabo!) é justíssimamente como um homem vestido à sebastianista, com um chapéu de copa alta (à constitucional) com uma pluma em cima, que é a primorosa e excelente estátua do Porto que, na sua mão de obra escusava tanta delicadeza para tanta altura. Porém, Deus perdoe a quem fez tal judiaria; que, depois de feita a tal obrinha, deu peco no cofre da cidade, que não anda para trás nem para diante... (...)

 

«»


Patriota Portuense, 29 novembro
CORRESPONDÊNCIA de resposta ao tal Brás Cata-cego

Estranhei que no n.º 279 do seu Diário o correspondente Brás se apelidasse Cata-cego, quando ele tem olhos tão espreiteiros! Porém se todavia ele é pesquisador, ainda lhe escapuliu da lembrança advertir o seguinte:

Há meses afixou-se um Edital para derrubar as barracas da feira no tempo perentório de oito dias; mas o tempo determinado foi-se, e após ele decorreram meses, servindo o Edital só para oprimir esquinas!

Pode ser que estorvasse esta providencia alguma medida político-lucratoria que as descaradas regateiras arranjassem com seus embustes, pois que para isso são amestradas; porém dado que assim fosse são elas diabólicas feiticeiras, capazes até de virar o mundo com o debaixo para riba! Eu as esconjuro; porque temo mais seus feitiços do que suas pragas, baldões e bravatas. Mas, sr. redator, pela chibança das regateirinhas há-de valer um cominho o Edital dos srs. Juízes Almotaçés, e o seu conteúdo ter o privilégio do caranguejo? E nós se quisermos transitar naquele sítio, havemos de vêr-nos abarbados com encontrões, e alcançarmos indulgência plenária para sair dele!

Eu conheço que as tais barracas servem de embelezar a nossa cidade, pois que nos apresentam um retalho das ruas de Constantinopla; mas o Brigadeiro N. Trant[2], não lhe importando belezas, pespegou com elas em terra a despeito das mesinhas, caramunhas, e feitiços das guapas regateiras. Ele tudo podia; porque além de pouco se lhe dar que galrassem, não temia feitiços, por neles não crer como protestante e não católico: assim, fazia sempre o que premeditava. Ora, eu não quisera desmanchar prazeres: mas se os tais casebres de madeira, são próprios só para os Turcos, mandem-se-lhes para lá os donos dos de cá, e a Justiça que os consente; assim ficaríamos livres dos tais empecilhos, e não se embespenharia e nausearia o público contra a falta de execução do celebrado Edital!

(...) Bem lembrado catará de quando todos os vendedores e vendedeiras dos mercados andaram em bolandas; ei-los já para aqui, ei-los já para ali, ei-los outra vez para cá, ei-los outra vez para lá; até que por fim todos tiveram o seu paradeiro.

Na praça de Santa Teresa ficaram os padeiros de pão de milho (vulgo broa): tanto uns como outros foram despedidos da praça da Constituição, para aquele lugar ficar amplo, não só por ser de muito trânsito, mas para se fazer a parada, render-se a guarda principal, etc: muito boa providência, esclamaram todos; porém muitos dias não eram passados, quando atrás do tanque desta praça se viram encouchadas algumas padeiras do pão de broa; e como aí se demorassem algum tempo, sem que a justiça dos Almotacés as enxergasse (pois que todos andam cegos com estas cousas), foram-se plantar com toda a cachimonia no sítio donde tinham saído as padeiras do pão molete; e lá se conservam muito empertigadas nas suas tripeças. As vendedeiras da sardinha, do bacalhau podre, das quentinhas, e algumas de molete, como lhes não fizessem bom gasalhado onde estavam, mui arteiras se fincaram ao pé das outras; e aí temos a entrada da praça entulhada com hum mercado de mixtiforios! Como ali hajam filhos de muitas mães, chovem por conseguinte os impropérios, pulhas, chufas, pragas e tudo o que é contrario à decência e bons costumes: e isto no centro da cidade onde continuamente passam famílias e pessoas honestas!

(...) A Câmara (composta de Fidalgos!!) está quase a expirar-lhe o prazo de sua governança; veremos agora se, com estas viravoltas constitucionais, temos Câmara constitucional (...); então veremos, executando-se o que um Governo constitucional determinou, derrubar-se o encantado edifício da Natividade, e alevantar-se o esquecido monumento constitucional; veremos também publicar-se as contas do cofre da Cidade, porque, se ele lhe pertence, é inconstitucional ocultar-se sua receita e despesa (...).»

 

Veja-se portanto que a preocupação destes artigos de opinião, nome que modernamente lhes daríamos, residia na Fonte da Natividade ou mais propriamente no comércio que ao redor dela existiam. Uma vez que nós próximos dez anos iríamos entrar num período muito complicado da história de Portugal, o que se havia projetado fazer, isto é, a demolição daquela fonte e trasladação dos comerciantes para outros espaços da cidade, teria de aguardar por 1832-33 e bem assim o pagamento das indemnizações aos donos das barracas prolongariam-se ainda no tempo por mais uns anos. Mas essa situação será explorada mais à frente, numa publicação dedicada exclusivamente à fonte da Natividade. Por agora deixo o meu caro leitor com os pequenos apontamentos que atrás leu, que andavam esquecidos em jornais amarelecidos pelo tempo.

 

 

1- Um deles serviu quase cem anos como Paços do Concelho.

2 - Nicholas Trant, oficial inglês que governou as Armas do Porto entre 1814-1818. Mais conhecido por Nicolau Trant uma vez que naquela época ainda era costume corrente aportuguesar alguns dos nomes de estrangeiros (veja-se o exemplo máximo de Niccolò Nasoni), foi a ele que foi dedicada a célebre planta redonda de George Balck.

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Publicado originalmente a 11.01.2015 no blogspot, agora revisto.

Fragmentos da cerca velha da cidade do Porto

por Nuno V. Cruz, em 10.12.18

Todos os portuenses que gostam da história da sua cidade sabem que existiu uma 'muralha fernandina' da qual ainda podemos apreciar trechos mais ou menos longos nos Guindais e nas escadas do Caminho Novo. O que nem sempre se tem presente é que o burgo teve anteriormente a esta, que é do século XIV e que mais precisamente se deveria chamar gótica, uma outra cerca que a cingiu durante séculos e que foi alvo de ampliações e melhoramentos ao longo da sua vida útil.

Na i3 abaixo, que está disponível no Arquivo Histórico do Porto, vemos um dos dois panos da cerca velha ou muro velho, que foram encontrados aquando das demolições na calçada da Vandoma nos meados do século passado.

 

 

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i1 a letra A indica o local do resquício em questão e a B o cubelo e pano que ainda hoje se vê; a estrela vermelha - colocada por mim - indica a localização da desaparecida porta da Vandoma.

 

 

Contudo, embora um desses panos tenha ficado exposto, constituindo ainda hoje o mais notável resquício de muralha românica e pré-românica que abarcava o pequeno burgo do século X a XIII (ver i2); o outro foi soterrado em virtude dos planos urbanísticos que para aquela zona existiam, e assim permaneceu até esse mesmo arranjo ruir nos anos 50. O que fizeram posteriormente deixou-o exposto, mas na atualidade ele encontra-se novamente escondido bem perto da estátua de Vimara Peres, o dux asturiano que em 868 colocou a cidade definitivamente em mãos cristãs.

 

 

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i2 Pequeno pano de muralha e cubelo que se encontravam escondidos atrás dos edifícios demolidos aquando do arranjo urbanístico desta área, nos meados do século XX. As fiadas superiores do cubelo e as ameias são obra de reconstrução dessa mesma época, quando a política de restauro dos monumentos era bem diferente da que agora temos.

 

 

A i1 é o desenho incorporado na monumental obra coordenada por Damião Peres dedicada à história da cidade, que nos mapeia a localização destes veneráveis restos.

Outros haverão ainda escondidos pelo casario das ruas da Sé, que serão expostos, ainda que temporariamente, conforme as obras de requalificação das habitações forem decorrendo. Mesmo estes dois trechos só foram descobertos graças às obras efetuadas na calçada da Vandoma e adjacências, que desvirtuaram completamente o local deixando (a meu ver) como único ponto positivo o trazer à luz do dia estes parcos restos da muralha que nos ensina que o Porto já foi outrora um quase insignificante burgo empoleirado no topo de um monte.

 

 

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i3 O pano de muralha dentro do círculo tem por cima, à esquerda, a Catedral e à direita - as pedras mais claras - a construção do paredão por onde se acede, em túnel, à rua Escura.

 

 

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i4 outra imagem do troço de muralha que vimos em i3 e que hoje se encontra sensivelmente por baixo da estátua de Vimara Peres

 

 

A i4 mostra-nos uma fotografia do Boletim Cultural da CMP de junho de 1939 (pp. 260/1) - cuja legenda é pertinente transcrever: «Este lanço de muralha primitiva foi posto a descoberto durante a execução duns trabalhos a que procederam, de 15 a 30 de abril do corrente ano, os serviços de Obras e Urbanização da 3ª Direção da Excelentíssima Câmara Municipal do Porto. Esses trabalhos tiveram por fim regularizar o adro da Sé. Porque havia necessidade de aterrar de novo o local, foi fotografado o lanço da muralha então posto a descoberto e levantou-se uma planta donde consta a sua localização. Na gravura n.º 2 notam-se ainda os buracos abertos para o travejamento de uma casa demolida e que tinha por uma das suas paredes a referida muralha».

 

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Originalmente publicado no blogspot em 02.11.2014, agora revisto e aumentado.

Onde ficava o Sério ?

por Nuno V. Cruz, em 06.12.18

Confesso que embora esta questão pairasse na minha mente apenas recentemente lhe procurei solução, não tendo sido difícil desencobrir a resposta. Todas as referências que consultei sobre o local apontavam para a rua Antero de Quental, todavia sempre me pareceu muito vaga e inexata esta designação: um lugar não é uma rua, sobretudo uma rua grande como a referida. As ruas são posteriores aos lugares e serviam, quando o automóvel não era omnipotente neste planeta, para pôr em contato sítios, lugares, povoas, casais, enfim aldeolas ou 'micro urbanidades' que nos arredores do Porto não faltavam! Mas é verdade que o local ficava algures ao longo daquela rua, ou seja, na estrada para Braga.

 

Esta designação de lugar do Sério ou sítio do Sério surge bem referenciada a partir dos inícios do século XIX, deixando dela se ouvir falar aí pelos finais da mesma centúria. Pela minha parte, em jornais de 1837 deparei-me com pelo menos duas referências ao Sério em anúncios: o primeiro, de maio, refere umas casas para venda 'logo abaixo do portão do Sério', uma com frente para a estrada de Braga [rua do Vale Formoso] a outra com frente para a estrada de Paranhos [rua Antero de Quental/rua do Campo Lindo]. Em outubro encontrava-se à venda 'uma grande propriedade, na rua da Rainha [Antero de Quental], ao pé das portas do Sério'.

 

Uma planta disponível no sítio da Biblioteca Nacional Digital - excelente para conhecer os arredores do Porto naquela época - ajuda-nos a melhor localizar aquele sítio, apresentando-o tal como ele era por alturas do Cerco do Porto. Ei-la:

 

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i1 O Lugar do Sério numa planta elaborada a partir da de Balck de 1813 (à qual foram acrescentado os arredores do Porto nos anos 30 do mesmo século). Vêm-se os fortes e baterias do tempo do Cerco; a norte do traço escuro ficavam os migueis (absolutistas), para sul os malhados (liberais).

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i2 A mesma área na atualidade. Eis a legenda: 1- Monte Pedral que numa pequena parte ainda subsiste no local do quartel dos bombeiros e das piscinas da Constituição (a); 2- Rua do Capitão Pombeiro; 3- Rua do Vale Formoso; 4- Rua de Antero de Quental (ex-Rua da Rainha); 5-Quinta do Lindo Vale, agora Parque do Covelo onde se encontram as ruínas do edifício da quinta e sua capela anexa).

 

Hoje o local está reduzido a mero cruzamento urbano, regulado pelos muito reguladores semáforos, muitas vezes um caos nas horas de ponta. Enfim, nada de novo aqui... (Mas qual é o lugar, que nunca mais o mostras, pergunta o leitor já um pouco ansioso! Calma... Como referi é um banal cruzamento).

 

Ecce Loco:

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i3 e i4 - O lugar do Sério ou dito de outra forma, o cruzamento da rua Antero de Quental, Capitão Pombeiro e António Cândido!

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Foi durante o cerco do Porto que o Sério teve os seus quinze minutos de fama na história de Portugal. Aqui existiam duas baterias liberais: a de D. Maria II a poente da estrada e a de D. Pedro a nascente. Ali terão existido também dois aquartelamentos de tropa, mas tudo estruturas de caráter provisório. Comparando a planta acima com as fotos do local na atualidade, podemos verificar que era sobretudo no lado nascente, onde estão os edifícios da residencial e do toldo vermelho, que se encontrava o descampado de uma dessas baterias.

 

No dia 9 de Abril de 1833 as tropas miguelistas tentaram ocupar o monte do Covelo, que por aqueles dias era terra de ninguém. Mas foram obrigados a abandonar aquele sítio por uma ação comandada pelo Coronel Pacheco, auxiliado pelo Major Pimentel, que fez dividir em duas colunas cerca de 400 a 500 homens: uma aproximando-se pela estrada da Aguardente (estrada para Guimarães, agora rua Costa Cabral e rua do Lindo Vale) e outra pela estrada do Sério. Postos os 'migueis' em fuga, os barris e ferramentas ali encontrados que estavam a ser usados para montar o reduto foram de pronto usados pelos liberais para o mesmo efeito.

 

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i5 Muro que aparenta ser a secção mais antiga da rua Capitão Pombeiro (coevo da guerra civil?). Todas as edificações novas desse lado da rua estão recuadas por forma a alargar os passeios mas ainda um punhado delas permanecem neste alinhamento.

 

Igualmente me recordo de algures num jornal dos anos 70 do século XIX ter lido uma notícia que referia o Sério como sendo um 'caso sério' de negligência por parte da Câmara face ao terrível estado em que aquela estrada se encontrava. Com efeito aquela artéria era uma das mais importantes de saída da cidade e constatantemente percorrida por inúmero trânsito, incluso a diligência para Braga. Tal deveria ser o desmezelo em que se encontrava o macadam, que as cabeças dos passageiros daquele transporte batiam constantemente no teto das carruagens!

 

Finalizando: a pergunta mas difícil ainda não a respondi e nao logro faze-lo embora esteja sempre recetivo à amável partilha de informação por parte dos meus caríssimos leitores: como surgiu esta designação? Outras duas perguntas poderei igualmente fazer: quando terá verdadeiramente morrido este micro-topónimo e quantos como ele terão já perecido com a equalização promovida pela expansão urbana, que varreu literalmente do mapa os nomes de muitos lugares bem como as suas identidades?

 

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Originalmente colocado no blogspot em 24.02.2017, agora revisto e ligeiramente acrescentado.

Os edifícios da confraria de S. Crispim e S. Crispiniano

por Nuno V. Cruz, em 01.12.18

A confraria de São Crispim e Crispiniano é uma das mais antigas instituições vivas da cidade e manteve por vários séculos um hospital que se dedicava - sobretudo no seu início - em acolher os peregrinos que rumavam a Santiago de Compostela. Sofreu algumas vicissitudes ao longo da sua já longa vida, entre elas a transferência para o lugar antigamente denominado da Póvoa de Cima(1), que definitivamente a deslocou para bem longe do seu local de origem. Uma outra, bastante anterior, foi a resistência que opôs à anexação por parte da Santa Casa da Misericórdia do Porto que na sua formação aglutinou vários outros hospitais da cidade.

 

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i1 Área ocupada pelo complexo capela/hospital, junto à antigamente denominada cruz de S. Domingos que ligava a rua da Ponte de S. Domingos e a viela da Palma com a rua da Biquinha e rua das Congostas. (imagem do GoogleMaps)

 

 

Quando ainda no seu local original (ver i1) teve a confraria pelo menos duas capelas. A primeira, medieval, terá existido até aos meados do século XVIII. A segunda adveio de uma reforma promovida pela demolição parcial que este instituto sofreu a mando da Junta das Obras Públicas. Uma descrição da primeira capela existe, e apresenta-se abaixo.

 

 

A PRIMEIRA CAPELA

Ficava na rua da Ponte de S. Domingos indo do convento de S. Domingos para baixo fazendo frente por um lado à rua das Congostas. A casa de S. Crispim e S. Crispiniano era composta de capela, sacristia e hospital(2).

 

A capela dividia-se da casa do hospital por umas grades de ferro e um arco e tinha a mesma largura da do hospital medindo 22m comprimento (medidas por dentro e pelo meio da parede) e de largura cerca de 8m. Havia nesta um retábulo dourado em que estavam as imagens de vulto: no meio a de Nossa Senhora da Natividade, dos lados a dos Santos Crispim e Crispiniano e no cimo as de S. João Batista e S. Pedro Gonçalves. Tinha também um coro e por trás deste havia uma sala com alcova e cozinha em que viviam os enfermeiros. A porta principal media 7,7m e dava acesso tanto à capela como ao hospital. Ficava no alçado poente e tinha umas escadas de pedra lavrada com grades de ferro que dava descida, de um lado, para a rua da Biquinha e do outro lado, para a rua que vem dos arcos de S. Domingos para as Congostas. As escadas e o pátio mediam de largura 1,65m (entrando na medição as guardas) e ocupavam toda a largura da casa do hospital.


A sacristia ficava pegada à capela na parte norte e tinha uma janela virada a norte. Media de comprimento de nascente a poente cerca de 4m e de largura pelo lado nascente 2,2m e pelo poente o mesmo (refere o documento que esta medição é feita livre das paredes e fica fora das medidas da capela).


O hospital tinha sete alcovas com sete camas e por cima mais três perfazendo dez. Por baixo do hospital capela e sacristia ficavam cinco lojas pertencentes ao hospital que tinham de comprimento a largura dos mesmos; alugadas a mercadores. Na empena sul tinha uma porta sobre a qual tinha um nicho com a imagem de S. João Batista e também na mesma empena, de frente da rua das Congostas, um nicho e varanda de ferro em que está a imagem de Nossa Senhora da Natividade. Tinha ainda nesta parede umas armas em pedra com três flores de lis que se dizem ser as armas dos instituidores do hospital. Confrontava a sul com a rua que vem de São Domingos para as Congostas e Pé-das-Aldas(3). Na empena norte, tem a casa do hospital uma chaminé que vem de baixo até meio da parede defumando para um chipre ou saída das casas vizinhas (...) para onde também tem duas janelas com grades de ferro e mais a da sacristia como já se referiu. O alçado principal ficava virado a poente com a rua da Ponte de S. Domingos e serventia da Biquinha.

 

Esta medição e descrição são adaptadas da original que se encontra no livro do Tombo da confraria, de 1701(?). Segundo as Memórias Paroquiais de 1758, a igreja sofreu uma reedificação em 1733, posterior portanto a esta descrição; pelo que podemos estar na presença de dois edifícios no mesmo local, o que é convergente com tantas outras igrejas e capelas espalhadas pelo nosso país cuja obra atual resulta de remodelações setecentistas(4). Uma planta que ainda mostra o local da capela original pode ver-se abaixo.

 

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i2 Nesta planta de 1774, usada pela Junta das Obras Públicas para planear novos alinhamentos, assinalei a área do hospital original dentro do quadrado vermelho (a letra a assinala a escadaria que lhe dava acesso, referida nas medições). Nela vê-se também um corte assinalado com o nome S. Crispim: trata-se do terreno adquirido pela Junta das Obras Públicas em 1775 com o fim de alargar aquela passagem mas também com a grandiosa ideia de levar a rua Nova de S. João a desembocar em frente à igreja da Misericórdia.

 

 

Após tudo isto, veio o tempo dos Almadas e a construção da rua de S. João que obrigou ao corte que se mostra na i2. As obras ao nível do hospital e capela deverão ter sido mais profundas do que simples realinhamentos porque as estruturas que dele emergiram foram na verdade uma capela nova e um edifício do hospital em harmonia com o restante edificado que ainda hoje podemos ver na rua de S. João. E aqui entra a descrição desta segunda capela que nos é dada pormenorizadamente por Henrique Duarte Sousa Reis.

 

 

A SEGUNDA CAPELA

«É assente no cimo da rua nova de S. João em face da calçada de S. Crispim e vulgarmente conhecida de S. Domingos, à entrada da rua da Biquinha, aonde corre o rio da Vila, por isso mesmo que atravessa nesta parte a cidade, e sobre o qual estava uma ponte para servidão da passagem pública, do santuário e do hospital. Nada tem digno de reparo o frontispício desta capela, que mostra uma porta com proporções bem talhadas, e uma janela igualmente rasgada com elegância logo na parte superior da mesma porta, sendo seus mainéis guarnecidos de frisos nos seus vivos para lhe dar melhor aparência, sendo necessário para a entrada transpor alguns degraus de pedra talhados em meia laranja, que estão cercados de gradaria e cancela de ferro; finaliza o prospeto deste templo um triângulo acompanhado de pequena cornigem e assim formar a corrente das duas águas no telhado deste edifício; a torre fica-lhe pelo lado do norte, e ainda não se acha concluída mas isso não obsta a ter já montado, um sino no seu improvisado campanário, a fim de convocar os fiéis à oração. Junto desta torre ainda mais ao lado do Norte e faceando com a rua da Biquinha mostra umas casas, que indicam velhice, bastante desaprumadas, o que prova menos cuidado pelo passado assento do Hospital dos Palmeiros, que nelas em outro tempo permaneceu (...) 

 

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i3 Esta é a famosa vista de Joaquim C. V. Vilanova da frontaria da capela e edifício do hospital, com a sua frente corrida para a travessa da Bainharia. Notar, no topo desse edifício mas na frente voltada a S. Domingos, que foi executado o arranque da cornija para uma possível nova capela ou edifício de continuidade arquitetural dos restantes daquela rua, que prosseguissem a planeada continuação da rua de S. João até à igreja da Misericórdia; plano posteriormente abandonado.

 

 

O interior desta capela é lindo e otimamente executado, e de certo o arquiteto que riscou a sua planta era inteligente e conhecedor da arte, pois não se notam desigualdades ou desarmonias em toda esta formosa obra, que apesar dos estragos do tempo e uso conserva a flor da novidade e o bom gosto dos irmãos, que deliberaram e a edificação de tão apreciado templo, não o sendo pela riqueza das suas alfaias ou adornos, mas sim pelo escolhido do risco e plena observância dele, granito sem defeitos, igual na cor e no trabalho e esta uniformidade se é possível aumenta a sua beleza e preço.

(...)
Falarei primeiramente da capela-mor, cujas paredes laterais tem de alto a baixo duas pilastras de pedra com seus capitéis pertencentes à ordem [ ] formando a mais próxima delas o arco cruzeiro sobre o qual se vêm de relevo em pedra o escudo de armas dos mesmos santos óragos (...). A pilastra mais remota nesta capela mor fica colocada justamente no centro do pano de cada uma das paredes laterais dela, e assim como que as divide ao meio, ficando-lhe de ambas as partes no claro uma porta rasgada ao rés do pavimento e logo por cima uma janela com sua varanda de madeira inserida dentro das ombreiras; na linha destas pilastras e superiormente aos seus capiteis corre a coronigem bem talhada, e na direção dessas mesmas erguem-se para o teto os arcos de cantaria que é costume formar para sólido encontro da abobeda de tejolo, que forma todo o referido teto da dita capela mor todo estucado de branco gesso e nele apresenta dous quadros pintados a fresco para assim melhor destacar a brancura do mesmo estuque.

O retábulo do altar-mor é todo pintado em um só plano, mas tão bem dado o claro e o escuro, que bem parece relevo, o que apenas tem as formas dele; figura uma semi-cúpula apoiada sobre colunas tendo na frente uma empena curva com coronigem dentada com o tímpano liso e pousam-lhe nos extremos sentadas duas estátuas e no cimo dessa cúpula como remate um grupo de anjos, e são tão delicadamente rescados todos estes diversos objetos e o colorido é com tal estudo,  que a ótica se ilude pela luz que buscaram para a pintura e crê-se realidade neles, quando na  verdade são apenas linhas traçadas em pano oleado; o camarim é vazado como se carecia, o altar saliente e de madeira: em dous pegões firmes nas paredes laterais, um a cada lado e junto ao retábulo e neles estão pousadas as lindíssimas imagens dos dous mártires S. Crispim e S. Crispiniano da invocação desta capela e confraria.

(...)

É o corpo desta capela prefeitamente circular, e sem que exceda a sua altura do pé direito aquele que foi marcado para a capela-mor vai a coronigem no mesmo estilo, gosto, feitio e forma, quasi encontrar-se e fechar com a outra se não fora cortada pelas pilastras faciais do arco cruzeiro, e do outro arco igual em tudo de que logo descreverei quando descrever o coro. Nascem do pavimento e por cada lado deste corpo quatro pilastras com capitéis que servem de apoio à mencionada coronigem: duas destas pilastras forma as facies nos extremos ou vivos do arco cruzeiro e do coro, e as outras duas ficam a cada lado centrais e de tal arte repartem três claros ou vãos, os quais são ocupados por outros tantos arcos de cantaria sendo o mais próximo do cruzeiro e o do meio vazados para conterem os altares, banquetas e retábulos para as imagen[s], o restante arco que está junto ao que forma o coro é tapado a pedra e cal e apenas lhe aparecem os mainéis para assim sustentar a simetria e igualdade do risco, is[to] é pelo que diz respeito ao do lado direito pois [n]o do lado esquerdo praticaram o púlpito para o pregador nas solenidades; a cada lado vê-se, sobre o arco do meio uma janela rasgada com sua varanda de balaústres de madeira embutida dentro da linha das suas umbreiras, e sobre cada um dos laterais aberto um óculo oval com a sua competente vidraça, o que tudo faz um conjunto de peças tão agradável à vista como ao embelezamento do interior deste santo templo do Deus vivo.

 

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i4 Esta imagem revela-nos em fotografia um pouco do que na i3 se viu em desenho. O n.º 1 é a fachada da capela, o 2 o seu zimbório e o n,º 3 a tal cornija que parece querer desenhar o arranque de uma magnifica nova capela que nunca surgiu. Para ajudar o leitor a situar-se assinalei estruturas ainda existentes atualmente: a letra A indica o edifício situado no topo da rua de S. João, gaveto com a travessa da Bainharia; a B o Palácio das Artes, antigo convento dominicano que também já foi banco e companhia de seguros e finalmente com a letra C o atual hotel A. S. 1829, (ex-papelaria Araújo & Sobrinho).

 

 

Uma abobeda igualmente circular na sua base cobre este retundo corpo da capela, e é firmado na coronigem circular que o rodeia, mas para não ser desagradável o nascimento desta pesada cúpula, é ela na sua raiz guarnecida por um largo cintado de pedraria lavrada em escudetes e dali se eleva sempre redonda até encontrar o anel onde se firma o alegríssimo zimbório envidraçado que a remata e tão abundantemente espalha no centro da capela a claridade do dia. Nesta abobeda tão prefeita e em calculada altura do cintado e coronigem estão pintados a fresco seis quadros redondos representando os quatro evangelistas, e os dous centrais o Eterno Padre na ação de criar o mundo e a luz: são todos de meio corpo e os estuques cheios de florões de gesso para mais embelezar esta pela formosíssima.

 

Resta-me dizer, que o terreno ocupado pela entrada principal desta capela é um espaço prefeitamente igual ao da capela-mor, e como ela tem outro arco idêntico em dimensões, altura e largura ao chamado cruzeiro, ao qual fica fronteiro, diferindo apenas em ter no meio dele outro arco abatido que forma o coro do santuário esclarecido pela janela regral rasgada no frontespício e desta forma converge no centro desta lindíssima capela, aonde está o seu corpo de feitio retundo a luz do dia transmitida de reverbero da capela-mor, pois nela entra pelas suas quatro janelas abertas nas paredes, que a formam, a claridade vinda diretamente da vidraça do coro, a qual atravessa em toda a sua extensão e finalmente o imenso clarão do sol, que do formoso zimbório desce nesta parte do mesmo santuário; o jogo de luz assim junta no seu centro torna agradável a estada neste santo recinto da oração, pois não há parte alguma interna deste edifício, que não seja alumiada convenientissimamente sem os raios da mesma luz ferirem a vista, e gozam-se com ela os quatro altares laterais e o principal ou maior, quando adornados com velas de cera e alfaias a par dos filetes dourados que alguns deles tem e as boas imagens que aí colocaram sendo os da direita dedicados à Família Sagrada, e o outro a S. Roque, os da esquerda à Senhora da Soledade, e o imediato à Senhora do Pilar, todas de ótima escultura e cuidadosamente zelado o seu decoro, fazem um todo que se torna digníssimo da estima geral desta cidade, que neste templo possui uma peça de muito merecimento.

 

A sacristia e o hospital ficam à parte do Evangelho ou ao norte, aonde as edificaram por isso, que o frontespício da capela olha ao poente.»

 

Por esta descrição verificamos que a capela setecentista era digna de ser admirada e seria sem dúvida uma mais valia para a cidade se tivesse chegado aos nossos dias. Mas o progresso assim não o quis, e em 1874 tudo desapareceu para dar lugar à rua Mouzinho da Silveira(5).

 

Notas:

1 - Em frente à atual praça Rainha D. Amélia

2 - Esta palavra tem na idade média um significado mais concordante com o que hoje denominariamos de hospedaria; ainda que promovesse igualmente cuidados de saúde aos enfermos, com todas as condicionates próprias da época.

3 - Esta expressão foi por vários séculos utilizada para defenir a área da rua da Bainharia junto com o entrocamento da rua das Aldas e à própria rua das Aldas na parte abaixo da Porta de Santa Ana.

4 - O texto diz: «...redificouse este hospital no anno de 1733; he grande, e tem hua boa capela» (vol. 30 f.1641).

5 - No mapa das expropriações para abertura da rua Mouzinho da Silveira vemos lançada em 14 de agosto de 1874 a verba referente às propriedades desta confraria: «Casa e capela no largo de S. Crispim n.º 110 e 111 - casas na rua de S. Crispim, 7 a 11, 13 a 17, 19 a 23; e na rua da Biquinha, 1 a 8, 10 e 12»; tudo pelo valor de 18:806$000.

 

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Bibliografia:

A confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu hospital na idade média de Maria Helena M. R. Oliveira

Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto de Henrique Duarte S. Reis.