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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Como se completou o Jardim de S. Lázaro

por Nuno Cruz, em 21.10.18

Na sequência da publicação curiosa sobre os mesquinhos ódios entre um liberal e um suposto miguelista, admitido como vigía do jardim de S. Lázaro em 1837, aproveito para republicar o texto que o leitor pode consultar abaixo. É um daqueles maravilhosos artigos que apenas se encontram quando vasculhamos os jornais da época, folha a folha, dia a dia... Este em particular - colhido da Chronica Constitucional da Cidade do Porto do dia 14 de Outubro de 1834 - abre-nos uma fresta para o Porto de poucos meses após o fim da guerra, quando as pessoas se começavam a preocupar com a sadia fruição dos seus tempos livres, agora que já não necessitavam de temer por um tiro de canhão não lhes cair dentro de casa... O texto é longo mas vale a pena pelo imersão no Porto daquele tempo que nos provoca.

 

 

*

« Todos sabem, e era matéria afluente nas conversações acerca de diversos recreios, quando se tratava de falar em aformoseamento desta cidade, que o único passeio público que podia merecer esse nome, era a alameda e paredão das Fontainhas; passeio que infelizmente, havendo sido uma das belas projeções de Francisco de Almada, peca no defeito capital da proximidade do matadouro geral, que torna o local incómodo, se não mesmo insadio, tanto pelo cheiro, e imundice, quanto pela asquerosa concorrência dos que traficam nesse modo de vida ainda tão fora de polícia e limpeza corporal em seu manejo; pois que se em algum ramo se conhece o atraso de melhoramentos municipais em comparação com Inglaterra, França, Bélgica e Holanda, que tantos emigrados observaram, é decerto nesta parte de similhantes trabalhos no uso dos misteres necessários ao uso da vida![1]

 

E nem só a natureza do cheiro do assento do matadouro nas costas do passeio, e junto à mãe de água tornam este sítio insalubre e desagradável; a existência de uma fábrica de curtumes de pelicas, com os seus tanque à face de mais de metade da sua extensão, é por outro outro lado a segunda causa de intolerável persistência num sítio com tantas proporções de ser, sem estes inconvenientes, um dos mais próprios a gozar de vistas pitorescas, ou ao longo do rio para o lado de seu tráfico comercial até ao cais por baixo da eminência do antigo castelo de Gaia, ou para o lado de suas ribeiras e vales de Quebrantões, coroados pelos declives em anfiteatro dos outeiros e colinas de Oliveira do Douro e Avintes em diferentes planos e distâncias!

 

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i1 Planta de 1798 do AHMP. Nela se vê o campo de S. Lázaro (A) , onde veio a ser construído o jardim; o matadouro (B) e com a letra D - para auxílio da percepção do local - assinalo o local da atual Ponte do Infante; mesmo ao lado das Fontainhas.

 

Nesta falta de um passeio público digno da segunda capital do reino, enquanto se não leva a efeito o tão apregoado sistema da remoção do matadouro para o Monte Pedral, e dos pelames para diverso local acomodado, era forçoso lançar mão de outro sítio onde se pudesse formar um passeio que no entanto substituísse aquela insuficiência, cuja duração não se sabe aonde poderá ter seu limite.[2]

 

O campo de S. Lázaro oferecia uma substituição sofrível em sua posição, como chave da aproximação de duas estradas, a de Valongo à esquerda, e a de Campanhã à direita, direções tão frequentadas aos Domingos e dias festivos para poder ser uma praça aformoseada, capaz de suprir o intento no intermédio em que as Fontainhas se melhoram, ou que um passeio público, digno deste nome, se erige.

 

A supressão do convento dos frades Antoninhos facilitava ũa das mais apreciáveis regalias, que nestes estabelecimentos se requerem, qual a do serviço do imenso jorro de água, que dando um ar de beleza ao seu centro em tanque majestoso, facilitasse a rega dos arbustos, plantas e flores que adornassem os tabuleiros da sua configuração.

 

Tentou pois uma autoridade superior desta cidade, o fazer edificar um jardim em frente da livraria pública, criada por decreto do imortal duque regente, de saudosíssima memória, assim como da Galaria de Pinturas que se fundou com a denominação de Ateneu D. Pedro; fundações estabelecidas na parte superior e inferior do edifício do referido convento de Santo António da Cidade, concedido pelo governo para obras de tão transcendente utilidade.[3]

 

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i2 Edifício do antigo Asilo de Mendicidade, que resulta da adaptação do do antigo Matadouro referido no texto (ver também: aqui), edifício bem visível para quem atravessa o rio pela ponte do Infante.

 

Deu-se pois princípio a esta obra, debaixo da direção do Sr. J. B. Ribeiro, que teve a satisfação de ver no espaço de 3 meses correr água para o espaçoso tanque que se edificou no meio da praça, de que um quarto de configuração se ultimou logo, e de que até hoje, que pouco mais ou menos se contam 7 meses de trabalho, quasi metade está completo, incluindo-se a magnifica escadaria que deve servir de entrada principal do lado da Rua de Entreparedes.

 

A satisfação que toda a cidade mostrou no andamento desta obra tão popular, manifestou-se desde o princípio na continuada concorrência de todas as famílias do Porto, e de seus habitantes em geral, que todas as tardes, e principalmente nos dias festivos enchem o recinto deste sítio tão aprazível e agradável.

 

Por outro lado se tem manifestado esta popularidade de aprovação, nos imensos presentes com que tem sido brindado o jardim, como já em outra ocasião mencionamos a respeito do Sr. L. S. de C. - modernamente temos a mencionar acerca dos Srs. M. L. C. e seu filho – J. J. de F. - J. L. - M. F. S. - A. P. d’A. - J. G. R. N. - D. J. R. G. - e do próprio jardineiro, e de outras muitas pessoas e famílias, que tem ofertado arbustos, flores, e sementes, em tal quantidade, que  sua variedade e profusão se tem feito notável e rica.

 

Mas tanta prosperidade do jardim, está balanceada pelas ocorrências sobre vindas, e é preciso ou acudir-lhe, ou ver perder-se no espaço de poucas semanas o fruto de tantos meses, e as esperanças da permanência deste recreativo passeio!

 

É alheio deste lugar a investigação das causas, e dos motivos porque os meios, que tem servido até agora, para por o jardim no estado em que se acha, pararam de repente! Consola-nos contudo a esperança, de que assim como as obra da Livraria Pública, e do Ateneu pararam, sendo natural que o governo não queira que elas venham a aumentar o anexim de que no Porto tudo fica em começo, ou fica torto – venha a olhar por isto, porque o povo necessita de instrução e recreio, e o Porto merece que tais obras principiadas tenham o seu andamento e conclusão.

 

Deixando porém a Livraria, e o Ateneu, como obras mais gigantescas, e que por si falarão altamente por orgão da necessidade de acudir ao edifício arruinado pelas obras em projeto, e que a não acabar-se, ameação prejuizo mais iminente – do que se imagina…

 

Tratemos do nosso jardim, que bem nosso lhe podemos chamar pela posse de concorrermos ali, nós todos os habitantes do Porto, que estamos no hábito da sua diária, e contínua fruição.

 

Se lhe não acudimos, ele perece; e o modo de lhe acudir é fácil, e acessível a todas as famílias e amadores deste recreio.

 

Está aberta uma subscrição puramente particular, de 480 rs. por cabeça, para costear, e beneficiar, tanto quanto seja possível, com o fundo resultante, o estado, e melhoramento do jardim.

 

O mesmo Sr. J. B. Ribeiro, sabemos que se presta a coadjuvar com a sua direção o progresso das obras em andamento, e no fim de cada mês se darão contas públicas por nossa intervenção, para se saber que a mesma economia se emprega neste objeto.

 

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i3 O jardim de S. Lázaro num conhecido postal do início do século passado que nos mostra o seu lado sul, virado à avenida Rodrigues de Freitas; do outro lado deste arruamento vemos o antigo Recolhimento das Orfãs.

 

O meio de se darem contas públicas sem se usar dos nomes de pessoas, que talvez tenham melindre de que seus nomes sejam referidos, é seguir o método usado em países estrangeiros: cada subscritor ou seja mencionado com letras iniciais, ou com o anónimo, tem o seu n.º de algarismo, e por eles assim se nota o total da receita, para que cada pessoa vendo o seu número, saiba que a sua quantia entrou legitimamente, e teve  a saída na despesa respetiva.

 

O Sr. J. B. Ribeiro é o próprio tesoureiro, e sabemos que as obras  já desde o principio deste mês correm por conta da subscrição particular.

 

É a primeira vez que entre nós se pratica este método de auxílio a obras públicas; e esperemos que ele seja tão profícuo, quanto é útil o seu fim.»

 

_____

1 - Nas Fontainhas construíram-se, no século XVIII, a alameda e o matadouro (só terminado em 1808). Para esta zona foram também transferidos os aloques da Biquinha, ou seja, a suja indústria dos curtumes que por séculos se manteve no local onde hoje temos a  fonte monumental da Rua Mouzinho da Silveira.

2 - Esta transferência viria a ocorrer umas décadas depois, para o local onde atualmente se encontra a Direção de Ambiente da câmara, na Rua de São Dinis.

3 - Nos seus primeiros anos a biblioteca municipal ocupava apenas o andar superior do edifício onde ainda hoje se encontra, sendo que por baixo se encontrava o Ateneu, que, nada tendo que ver com a instituição que hoje dignifica este nome; levantou durante uns bons anos o estandarte de museu municipal (foi este museu que em 1838 cedeu o lavatório da sacristia do convento dominicano para o Jardim de S. Lázaro onde ainda está; obra fina feita para interior mas exposto à inclemência do tempo há quase duzentos anos!).

 

NOTA: Publicado originalmente no blogspot em 04.05.2017

Curiosidades (2) - Inimizades Absolutamente Liberais

por Nuno Cruz, em 13.10.18

Notícias curiosas, algumas inusitadas, que vou encontrando nos jornais do século XIX, é o que pretendo colocar neste tipo de publicação. Os títulos que não se encontrem dentro de «» são de minha autoria e como já vem sendo habitual a ortografia é atualizada exceto em algumas palavras que poderão indicar uma outra pronúncia.

 

 

Inimizades Absolutamente Liberais.

Parte A: « Sr. Redator, Passando um destes dias no Jardim de S. Lázaro observei haver ali um novo Guarda, e ao mesmo tempo fiquei surpreendido vendo no dito um perseguidor meu, e por isso admirei não haver um homem que tivesse prestado serviços à causa que fosse capaz de ocupar aquele lugar; ignoro que fosse o Padrinho que ali o colocou, e para conhecimento do público se estas linhas tiverem lugar no seu acreditado Periódico por isso lhe ficará sumamente agradecido este que se preza ser seu constante leitor e assinante. » (O Inimigo dos Miguelistas)

Publicado n' Vedeta da Liberdade de 22 de março de 1837

 

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Parte B: « Tendo sido há pouco nomeado Vigía do Jardim de S. Lázaro, não posso por isso deixar de entender alusiva à minha pessoa a imputação feita na Carta com que termina a sua folha N.º 67 de 22 de Março próximo passado. E como por factos nada equívocos demonstrei sempre a minha adesão à Causa da Liberdade, muito desejo convencer de caluniador o Autor de tal Carta, sendo para esse fim indispensável que ele se desembuce, e apresente o seu nome. Para esse fim rogo-lhe, Sr. Redactor, a inserção deste convite no seu acreditado Periódico, para que possa justificar-me; ou no caso de silêncio, convencer o Público de que tal imputação não passa de redícula calúnia. Sou Sr. Redactor, etc.» (João Pereira de Carvalho Guimarães)

Publicado n' Vedeta da Liberdade de 4 de abril de 1837

O mercado do Anjo - cento e dez anos de existência

por Nuno Cruz, em 08.10.18

O mercado do Anjo foi inaugurado em 1839, logo após ter sido demolido e terraplanado o espaço onde existira o Recolhimento do Anjo - daí o seu nome - cuja autorização de demolição fora dado pelo governo dois anos antes à Câmara. Ao longo da sua história, foi passando quase que incólume a modernização e só em 1948, várias décadas depois de primeiramente se ter aventado que o mesmo já não estaria em condições condignas com as exigências quer higiénicas quer de funcionalidade da época, foi este mercado finalmente demolido.

É um pequeno texto que encontrei nos Boletins da Câmara de 1937 que me move a escrever estas linhas. mas acima de tudo, foi a vontade de dar a conhece-lo a vós meus caríssimos leitores, que resolvi traslada-lo para este blogue.

 

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i1 O mercado do Anjo no início do século passado (entrada da rua das Carmelitas).

 

*

« Entre as diversas 'ilhas' do Porto uma há com especial fisionomia: 'O Mercado do Anjo'!

 

Vivem adentro dele, dia e noite, permanentemente, em péssimas condições higiénicas e morais dezenas de pessoas, algumas em míseros subterrâneos sem ar, sem luz, e sem o mais rudimentar saneamento, mercadejam constantemente centenas de outras, ora molhadas pela chuva e enregeladas pelo frio destes dias invernosos, ora torrificadas pelo sol e abrasadas pelo calor na temporada estival. Castigada é por vezes duramente a grande clientela que o procura.

 

Trabalha-se ali afincada e resignadamente, angariado o pão nosso de cada dia, sem queixumes de maior, mas com o protesto íntimo e veemente de todos aqueles que à causa pública e aos fracos da fortuna, dão generosamente o melhor dos seus esforços e da sua inteligência; de todos aqueles que se esforçam pelo revigoramento da raça e que estudam a solução dos mais instantes problemas da profilaxia da higiene sociais e até e também e muito de todos aqueles que desejam satisfazer os mais elementares princípios da moral e da caridade cristãs.

 

Impõe-se, pois, a necessidade urgente e inadiável de eliminar o velho, desmantelado e insalubre 'Mercado do Anjo', substituindo-o condignamente por outro.

 

Assim o tem pensado anteriores Vereações, assim o pensa a atual Vereação.

 

Em 1934, abriu a Excelentíssima Câmara de então um concurso para apresentação de ante-projetos para um grande mercado geral a construir no atual 'Mercado do Peixe', sendo apresentado apenas um, aliás grandioso e bem concebido, mas irrealizável por ser incomportável com as possibilidades financeiras deste Município, o que nos levou a estudar de novo o problema, procurando solução mais económica e consequentemente mais rápida.

 

Em sessão de 11 de junho do ano findo [1936], tivemos a honra de propor à Excelentíssima Câmara a nomeação de uma Comissão, para proceder aos primeiros estudos (...).

 

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i2 Um aspeto da demolição do Mercado do Anjo, vendo-se o fontenário central que já pouco teria que ver com o original. Ao fundo vislumbra-se o edifício da Livraria Lello.

 

Reuniu-se esta comissão várias vezes escolhendo e localizando definitivamente o terreno em que deve ser construído o novo mercado, preferindo-se um ante-projeto simples, agradável e económico, e, consideradas todas as nossas sugestões, resolveu-se seguir metodicamente um plano para melhorar alguns dos departamentos municipais e criar outros, onde a população desta laboriosa cidade se abasteça.

 

Todos sentiram e convencidos estamos que toda a cidade sente que não pode continuar, o que existe.

(...)

O velho 'mercado do Anjo' será transferido para o atual local do mercado do Peixe e terrenos anexos, a oeste do jardim da Cordoaria. Por sua vez, o que está atualmente ocupado pelo mercado do Anjo, numa área de 6.000 metros quadrados, por exigências de urbanização e de salubridade, será transformado numa nova e formosa praça ajardinada, a que muito bem poderemos chamar 'Praça da Universidade'.

 

Teremos assim desafogado e valorizado dois grandes e imponentes edifícios citadinos: O Palácio da Universidade e o Templo dos Clérigos e ainda um terceiro, o da Relação todos de momento amesquinhados pela vizinhança insalubre dum conjunto de miseráveis barracas que formam esse mercado do Anjo!»

*

 

O que acima se leu é um excerto de um texto do vereador João de Paiva de Faria Leitão Brandão, lido em sessão de Câmara de 4 de fevereiro de 1937, que aborda na totalidade o assunto dos mercados. Olhando para trás, podemos verificar que entre os projetos e a realidade, como aliás é frequente, muito se alterou. Não obstante estas intenções, só dez anos depois o mercado seria fechado e transferido para um outro, provisório, no local onde existira a Roda, paredes meias com o mercado do Peixe. Daí e juntamente com o seu vizinho, mudou-se de malas e bagagens para os lados do Bom Sucesso em 1952.

 

Contudo, a extinção daquele mercado era já previsto no Plano de melhoramentos... de 1881, onde se previa a sua mudança para um novo edifício a construir na área do convento das Carmelitas; o que mais uma vez não se veio a materializar. E já em 1887, diz o relatório camarário da época, causava uma deplorável impressão a quem visitava a nossa cidade, o dito mercado, por se encontrar arruinado e sem capacidade para a vendagem que ali se fazia.

 

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 i3 Maqueta do projeto para a futura Praça de Lisboa, nunca executado.

 

 

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i4 Construção do mercado provisório da Cordoaria, que substituiu o do Anjo enquanto não surgia o mercado do Bom Sucesso. Para a sua construção foi demolida a antiga capela do Calvário Novo bem como o edifício da antiga Roda dos Expostos que fora, na sua origem Hospício dos frades de Vale da Piedade (ao fundo ainda se vê uma parede dele).

 

 

O local onde existiu, por quase 110 anos, aquele mercado, ficou durante bastante tempo um parque de estacionamento e posteriormente um como que mercado a céu aberto de pequenos vendedores que outro sítio não tinham e por ali se ajuntavam. Já no início dos anos 90 do século passado surgiu um Clérigos Shopping de não saudosa memória, e só há poucos anos, por fim, o espaço voltou a ter uma ocupação condigna de tudo o que por ali existiu, com um bonito olival a encimar uma área de restauração.

 

NOTA FINAL: Embora Horácio Marçal no seu sóbrio artigo sobre este mercado publicado na série Nova d' O Tripeiro, indique que o provisório que o substituiu se localizasse onde estivera o Mercado do Peixe, tal afirmação oferecia-me dúvida a julgar pela imagem 4 aqui apresentada. A parede que se vê ao fundo do edifício demolido para dar lugar a esta estrutura provisória está, a meu ver, mais de acordo com a arquitetura de uma instituição como foi o Hospício dos frades de Vale de Piedade: com os seus cachorros nas beiras das janelas para recreação destes enquanto contemplavam a paisagem circundante. As janelas do mercado do Peixe eram de um formato completamente diferente e sem qualquer intenção de permitir aos seus frequentadores tais descansos contemplativos, sem dúvida desagradáveis dado o cheiro que por ali deveria imperar! Aliás, o Mercado do Peixe encostava por completo a sua face Sul à casa da Roda, o que parece ser o caso nesta fotografia uma vez que as janelas que aqui se vêm são (ou estão) cegas.

Após ter escrito estas linhas, e ter mesmo tornado publica a publicação, pude comprovar no sítio do AMP a existência de umas imagens digitalizadas em formato bastante reduzido, que comprovam esta ideia (ver i5).

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i5 Fotografias aéreas do Mercado do Peixe e do mercado provisório que substituíu o Anjo, datadas de 1952. Seria a intenção de os registar para memória futura da cidade?

Como era a Porta Nova ou Nobre

por Nuno Cruz, em 30.09.18

Esta deveria ter sido a publicação de abertura do blogue aqui no Sapo, tal como o foi na sua casa anterior no blogspot. Contudo e porque pretendia desenvolver um pouco mais o tema e corrigir/modificar o registo anterior, acabou por se estender no tempo a sua publicação que apenas agora se dá. Assim, faço-a mesmo coincidir com o aniversário d' A Porta Nobre, trabalho que melhor ou pior iniciei em 30 de setembro de 2009.

Ora após este breve mas pertinente comentário, vamos ao assunto em mãos.

 

A Porta Nova ou Nobre era uma das entradas medievais na cidade do Porto situada grosso modo a meio da atual rua Nova da Alfândega, ainda que a uma cota inferior. Inicialmente um simples postigo da muralha que abraçava a cidade, foi supostamente alargada e elevada à categoria de porta durante o reinado de D. Manuel I [1]. Por diversas vezes por ela entraram os mais altos dignitários que demandavam esta cidade, vindos da outra banda, atravessando o rio e acostando os barcos de passagem no areal que desapareceu com a construção do edifício da alfândega. Transposta a dita porta faziam a sua entrada no burgo pela rua dos Banhos. Existiu até 1871, ano em que foi sacrificada em nome do progresso e com ela um pouco mais da história e da memória da cidade.

 

Na i1, colhida no googlemaps de há uns anos atrás, podemos ver a área da rua Nova da Alfândega que abarca o antigo correr da muralha e a zona da porta em estudo. O lanço que ainda hoje vemos nas escadas do Caminho Novo continuava uns poucos metros mais para abaixo em direção ao rio e ligava com a porta que se abria para poente. Logo a seguir a ela teríamos o baluarte que lhe fazia companhia e depois, invertendo para nascente, o antigo caminho de rolda da muralha passava a chamar-se rua de Cima do Muro que em 1871 à custa da demolição do bairro dos Banhos perdeu grande parte da sua extensão, permanecendo apenas um troço denominado muro dos bacalhoeiros).

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i1 

 

Aquando de umas sondagens arqueológicas prévias naquele local motivadas por um projeto da REFER que não chegou a avançar, foi encontrado em 2004 um troço desse velho muro (visíveis na imagem onde a linha vermelha se interrompe). Isso permitiu constatar o que já parecia muito plausível quando se observavam as fotografias da época das demolições: que os nossos bisavós não destruíram aqueles muros por completo! De facto, parte da muralha ainda lá se encontra in situ, talvez por ficar demasiado dispendioso, mesmo desnecessário, demolir pedra a pedra dado que a rua a abrir seria a uma cota superior; deixando parte do passado ali enterrado à guisa de sepultura.

 

São muito poucas as fotografias que nos mostram a Porta Nova, e ainda assim sempre ao longe e sem grande definição. A i2, preparada por mim, é uma montagem de duas dessas imagens.

 

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 i2 Na imagem da esquerda é perfeitamente visível a abertura da Porta Nova ou Nobre, ao centro da estrutura assinalada pelo retângulo branco. O retângulo amarelo assinala o edifício construído por cima dela no século XVIII. É importante ter em mente que todas as casas que estão à sua frente, no areal de Miragaia, já não existem: em seu lugar e a uma cota superior está agora o largo Artur Arcos. A imagem da direita mostra-nos um outro ângulo do mesmo edificado: o B assinala a pequena viela que dava ingresso ás escadas do Caminho Novo; a letra A mostra as únicas casas que se encostavam à muralha pelo lado de fora que sobreviveram à hecatombe de 1870/71; apenas para serem demolidas nos anos 50 do século XX (ver i3)

 

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i3 Escadas do Caminho Novo nos anos 30 do século passado. Ao fundo o retângulo amarelo assinala as casas que se vêm ainda nas fotos onde consta a Porta Nova, assinaladas na I2 com a letra B e na i8 com o n.º 5 (os portais destas casas ainda lá estão entaipados).

 

 

Henrique Duarte Sousa Reis ainda conheceu esta porta e descreve-a da seguinte forma:

'Consta a Porta Nobre de um edifício fortemente construído com toda a solidez, quasi quadrado em forma de torre feita de pedra assente: é alta e nela praticado está um elegante arco liso e sem adornos ou maineis; olha ao poente para onde é voltada a fachada principal exterior, e sobre ele se vêm duas ordens de janelas de peitoris (sic), que correspondem aos andares, de que esta torre se compõem, contendo cada um deles duas janelas, e no espaço das primeiras lá se encontra no centro o escudo com as reais quinas portuguesas.
Na face interna deste primeiro andar, e logo sobre a porta estava aberto um oratório, aonde se venerava a imagem  de «Nossa Senhora das Neves» que todo era voltado para a rua dos Banhos; acha-se hoje [c. 1865] tapado de pedra e cal. (...) [2]
O segundo andar desta torre era reservado para residência de alguma autoridade civíl ou militar, ou finalmente para qualquer repartição pública, como demonstra a grande porta inferior a outro escudo real que sobre a sua padieira se conserva, e é voltada para o lado do sul, e tem comunicação pela escada de pedra fabricada para o cimo da muralha, e próximo ao fortim (...).
Para o mesmo lado do sul corre, desta torre, um pouco mais recuado da linha do frontispício dela, um lanço de muralha lisa, que sobe até à altura da soleira da porta do segundo andar, de que já falei, e pelo lado superior do mesmo lanço foi delineada através de toda a sua grossura a escada, que facilita a entrada para esse andar, mas só por cima do muro de defesa da cidade ao qual se sobe por outro lanço de escadaria também de pedra praticada pela face externa da muralha, de encontro à parede das costas do fortim (...).'

 

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i4 Neste extrato da planta de 1852 para abertura da rua que viria a denominar-se Nova da Alfândega, podemos ver o que parecem ser dois maciços torreões da Porta Nova que nos dá uma boa ideia da sua robustez (n.º 1). O n.º 2 indica o fortim, o 3 a praia de Miragaia, o 4 é a rua das Barreiras, 5 a rua dos Banhos e 6 as escadas do Caminho Novo (parte desaparecida).

 

Mas afinal qual era o verdadeiro aspeto desta anciã entrada da cidade? Já Mário de Menezes no artigo publicado n' O Tripeiro - Vol. XII/6.ª série - havia colocado em dúvida qual a sua real forma face às hipóteses que na sua frente se lhe apresentavam. Contudo este autor parece não conhecer qualquer imagem fotográfica dela (ou pelo menos, não lhe faz referência). A gravura que serve de base a todos nós para ajuizar da sua forma e dimensão - i5 - foi apresentada na revista O Tripeirio de março de 1926; acompanhada de um texto que aparentemente lhe dá bastante credibilidade. Creio contudo que é preciso olhar com olhos bem críticos para esta gravura[3] e não a creditar como definitiva - muito pelo contrário - pois na verdade as datas não estão de acordo com o que aparentemente seria real. Ora o texto que acompanha a gravura, a certa altura, diz-nos: 'Graças à boa ideia que teve o nosso amigo Sr. Francisco José de Sousa, antigo e abalizado professor de desenho, de fixar no papel o desenho da Porta Nova, copiando-a do natural, na sua mocidade, é que O Tripeiro pode hoje fornecer aos seus leitores a interessantíssima ilustração que acompanha esta artigo'. [4]

 

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 i5 A Porta Nova ou Nobre, conforme representada por quem ainda a conheceu, mas certamente não com esta forma tão primitiva.

 

Ainda assim não posso estar plenamente de acordo com aquelas palavras. Não duvidando que o autor do desenho o tenha feito a partir do original, estou igualmente convicto que o fez interpretando o que via, transpondo para um possível espeto dela no antigamente. De facto, aquela velha entrada na cidade nunca poderia ter aquele aspeto quando o autor a desenhou. Por todo o século XIX as ameias já se encontravam ausentes e a alvenaria de granito que a compunha não apresentaria certamente aquela forma no 'segundo andar', uma vez que este fora substituído nos inícios de setecentos por um edifício de dois pisos. Também o esguio torreão do lado direito me levanta, por essa mesma caraterística, bastantes dúvidas sobre a sua real existência...

 

Ainda sobre qual seria o aspeto original desta fortificação, na i6 mostro dois estudos de Gouveia Portuense, claramente contrastantes. Quer um quer outro se aproximarão eventualmente mais da realidade nuns pontos enquanto se afastarão radicalmente dela em outros. Qual deles o mais verdadeiro?

 

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i6 Imagens apresentadas na revista O tripeiro, da autoria de Gouveia Portuense.

 

 

Também Artur Arcos, no seu belíssimo painel em que quase fotografa a Miragaia ribeirinha, pintou esta estrutura, certamente como a viu numa panorâmica bastante antiga e que lhe deve ter servido de inspiração[5]. Esta é no meu entender a melhor interpretação daquela entrada da cidade que conheço; ainda que esteja convencido necessitar de vários acertos.

 

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i7 Interpretação de Artur Arcos da área da Porta Nova.

 

Queria também eu apresentar a minha humilde contribuição para ajuizarmos do aspeto desta porta, cuja designação escolhi para dar nome a este blogue. Ainda assim, não o faço por agora: prefiro dar a conhecer uma outra fotografia que não obstante a fraca definição, é bastante interessante por ter sido tirada numa altura em que o sol não projetava grande sombra sobre o local. Nela procurei igualmente colocar mais pontos de referência modernos, por forma a ajudar o leitor a realmente ver onde a porta se encontrava (hoje soterrada por baixo da entrada do estacionamento do Parque da Alfândega).

 

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i8 1. À direita é visível o topo da abertura praticada na porta / 2. Casa construída no século XVIII, entre as duas janelas pode-se ver as armas lá colocadas. / 3. Casa atualmente ocupada pelo Grupo Musical de Miragaia (na antiga rua das Barreiras, hoje incorporada na rua da Arménia) / 4. Casa atualmente ocupada pelo Mirajazz (nas escadas do Caminho Novo) / 5. Última casa a ser demolida, já no século XX, que se encontrava encostada à muralha, onde atualmente a mesma faz o seu último cotovelo e finaliza (ver i3) / 6. Casa atualmente ocupada pela Escola de S. Nicolau, no topo das escadas do Recanto (aquele pequeno correr é o que resta da antiga rua do Forno Velho de Baixo).

 

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i9 Esta imagem pretende contrapor a anterior, mostrando a atualidade do local: os números assinalados são precisamente os mesmos locais, na imagem i8: 3. Grupo Musical de Miragaia, 4. Mirajazz, 5.último cotovelo da muralha antes de a mesma finar na Porta Nova, onde se encostavam as casas assinaladas com 5 na i8.

 

 

Em novembro de 1870 o arco da Porta Nova foi entaipado 'até meio das pedras' uma vez que era já muito perigoso transitar por ali dado o grande amontoado de entulho e as demolições em curso. Ainda no mesmo mês n' O Comércio do Porto é referido que se andava à procura de nova casa para a 3.ª Esquadra de Polícia que se encontrava na que ficava 'sobre o arco da Porta Nobre', que ia ser demolida[6]. Ao contrário do que surge escrito em alguns números da revista O Tripeiro na sua 3ª, 5ª e 6ª séries, a Porta Nova não foi destruída em 1872 mas sim em 1871. Eu próprio tive ocasião e o verificar nos jornais a época (fazendo justiça àquela centenária revista, este erro de um ano é corrigido no seu último volume da 6º série, mas não o mês que continua a ser dado como fevereiro).

 

Na atualidade, tudo o que dela nos resta são as armas 'fernandinas', que possuem a curiosa característica de desenharem onze castelos ao invés dos atuais sete, bem como umas suas congéneres do século XVIII: ambas guardadas no Museu Nacional Soares dos Reis. Mas há também a grande possibilidade de pelo menos os primeiros metros em altura desta porta ainda se encontrarem no seu local original, ali, debaixo da rua que a sepultou para sempre...

 

Finalizo esta publicação com umas curiosas notícias respeitantes aos últimos dia daquele imponente entrada na cidade que por quase 500 anos campeou, na paisagem da praia de Miragaia:

1. «Arco da Porta Nobre - Conforme já informamos os leitores, anda-se procedendo à demolição do antigo arco da Porta Nobre e do edifício que lhe ficava por cima par a abertura da rua da nova alfândega. No edifício a que nos referimos havia umas armas e uma inscrição que a Exma. Câmara, com louvável desvelo, fez remover para o Museu Municipal da rua da Restauração. A inscrição diz o seguinte: GOVERNANDO AS ARMAS DESTA CIDADE E SEU PARTIDO, O CORONEL ANTONIO MONERO DE ALMEIDA, SE FEZ ESTA OBRA NO ANO DE 1731. No andar que ficava ao nível do pátio do mesmo edifício, apareceu também um letreiro toscamente feito em uma pedra, a qual, segundo se pode entender, diz: 17 DO 6º DE 1410. No espaço que ia de uma a outra janela conhecia-se que havia brechas iguais ás e inclinar as peças.» In O Comércio do Porto e 28 de abril de 1871 

2. «Rua da Nova Alfândega - Principiaram ontem os trabalhos para a construção da rampa do lado da antiga Porta Nobre para a carga e descarga dos barcos, (...). O Arco da Porta Nobre já está todo desfeitoIn O Comércio do Porto e 17 de agosto de 1871 (o sublinhado é meu)

 

E em jeito de remate, recordo uma notícia de 15 de agosto de 1871 do O Jornal do Porto sobre um acontecimento que se dera dois dias antes. Embora irrelevante, serve aqui para contrapor um registo mais leve, para o leitor descomprimir da densidade da matéria acima estudada. Recordemos que por aquela altura andava em construção a rua Nova da Alfândega, e o arco da Porta Nova iria ser dentro de dias demolido, pelo que a paisagem em redor dela seria de um caos de pó, buracos, terra e pedra:

'Ante-ontem, ao cair da noite, voltavam da Foz quatro cavalerias (sic) da Guarda Municipal, e chegavam à Porta Nobre quando já a vozeria dos barqueiros lhes anunciava que tinham de retroceder até à Restauração, por causa do tapume que obstrue o arco.

Quando os cavaleiros conheceram o engano, já a vozeria era estrepitosa e acerada de motejos desta laia:
    - Para trás!
    - É tornar pela Restauração!
    - É ter paciência!
Os cavalerias (sic), de repente, como se se tivessem passado palavra, cravam os acicates nos cavalos e arremetem denodadamente contra as escadas de Cima do Muro[7].
    Num momento desapareceram cavalos, e cavaleiros diante da multidão que, de motejadora, ficou boquiaberta.'

 

Convenhamos que ver aqueles cavaleiros a subir aquela escadaria deve ter sido uma visão única, mesmo para aquele tempo!

 

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1 - Facto que carece de esclarecimento. Por exemplo, J.P. n' O Tripeiro de Agosto de 1910 diz que a porta foi alargada por ordem de D. Manuel I em 1522, juntamente com o fortim. Mas D. Manuel I morreu em 1521 e o fortim foi apenas construído anos depois, fazendo parte da linha de defesa da cidade como último reduto de defesa após o forte de S. João da Foz.

2 - Segundo Pinho Leal seria a Nossa Senhora do Socorro. Mais à frente na sua obra refere Sousa Reis sobre este oratório: «primitivamente esteve sobre o arco de S. Domingos, e depois foi transferido para cima do arco da Porta Nobre, onde ainda pelo lado da rua dos Banhos, se vêm os restos».

3 - Um pouco à semelhança do que fez Magalhães Basto com as gravuras da Porta da Vandoma, artigo quem um dia recuperarei neste blogue.

4 - Francisco José de Sousa tinha, aquando da publicação destas linhas em 1923, mais de 90 anos; pelo que à data da demolição da Porta estaria perto dos 40.

5 - Artur Arcos nasceu em 1914, 43 anos após a demolição do monumento, e começou a pintar em 1959. A outra pintura onde o autor representa esta entrada da cidade é um fausto de pompa e cor ainda que o anacronismo impere (a ação tem lugar no século XV sendo-nos apresentada com o edificado do século XIX) e seja, a meu ver, irrealista na forma quer da porta quer do fortim.

6 - Esta casa é precisamente a que Sousa Reis descreve e que se encontrava por cima do torreão da porta em estudo.

7 - A Câmara designara como alternativa à rua dos Banhos enquanto se ia abrindo a rua Nova da Alfândega,a calçada da Esperança; hoje denominada rua de Tomás Gonzaga.

 

 

NOTA: Esta publicação é uma revisão e ampliação das publicadas originalmente no blogspot em 30 de setembro de 2009, 26 de novembro de 2009, 18 de dezembro de 2013 e 18 de abril de 2016.