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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma foto que nos mostra mais do que parece...

11.10.19

Esta fotografia foi, provavelmente, tirada nos primeiros anos da década de 60 do século XIX. Embora a paisagem nos pareça a um primeiro olhar idêntica à de hoje, na verdade ela apresenta enormes diferenças em relação à cidade atual. O centro histórico que temos na nossa frente é (quase) ainda aquele que recebemos dos finais do século XVIII. No entanto, a partir dos meados do século XIX, a cidade velha entraria numa roda viva de transformações que em boa verdade só terminaria nos meados do século seguinte. Por tudo isso, esta imagem, mostra a um olhar um pouco mais atento, algumas vislumbres do passado edificado que já não volta. Eis as diferenças, mais notórias, para a atualidade:

 

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Vê-se, em primeiro plano, a Casa do Infante (n.º2), que na altura ainda desempenhava funções alfandegarias. Observando-a, constatamos que o seu edifício se encontra em plena remodelação, sendo visíveis os fortes esteios que o sustentam; por onde se haviam de mover, mais de cem anos depois, todos os que pretendam explorar o manancial de documentação histórica que o arquivo da Câmara possuí.[1] Foi para esta empreitada que foi demolida a casa que fazia gaveto entre as ruas da Alfândega e da Fonte Taurina, onde uma bonita janela manuelina se mostrava a todos os que a quisessem ver. Felizmente preservada, esta janela encontra-se hoje depositada na Quinta da Aveleda, em Penafiel.

 

Ao cimo da rua do Infante, se a fotografia fosse posterior a 1896, veríamos, imponente, a estátua de D. Henrique e por trás dela o Mercado Ferreira Borges... mas aqui o que vemos? Vemos a fachada de um edifício! (n.º1) É que, nesta época, ainda existiam edifícios desde a esquina da Rua Ferreira Borges (onde agora se encontra a entrada do parque de estacionamento) até às Congostas (sensivelmente onde começa a Rua Mouzinho da Silveira); é a fachada de um desses edifícios, portanto, que ali vemos.

 

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Excerto com os pormenores referidos no texto

 

Como nota de passagem, repare-se que esta fotografia deverá ter sido tirada no inverno, pelo menos é o que denuncia as árvores sem folhas da Bateria da Vitória (n.º4), que surgem bem verdejantes em outras imagens contemporâneas. Mas prosseguindo:

 

Atrás das casas mencionadas no número 1, embora não visível, o que por ali existia era um monte semiabandonado, que fora horta do convento de S. Domingos. Apenas em 1883 o local foi completamente terraplanado para dar lugar ao espaço público que todos hoje conhecemos como Praça do Infante D. Henrique[2].

 

Ainda mais atrás, já um pouco esbatido mas visível, apresenta-se-nos o topo da parede sul do dormitório abandonado e calcinado do antigo mosteiro de S. Domingos (n.º3), que ali esteve em pardieiro mais de 30 anos, como relíquia de um passado fradesco que não volta mais!

 

Para finalizar, dois outros pormenores me saltam à vista: o primeiro, é o arco embutido na muralha, junto à lingueta de carga e descarga (n.º5). Não sendo medieval, não deixa ainda assim de suscitar curiosidade quanto à época em que foi rasgado; o que presumo tenha ocorrido durante o século XVII.[3] Certo é que, com o altear do cais no final de oitocentos, uma nova porta foi aberta naquele local, aliás à semelhança de uma outra que já existia a seu lado. Para memória futura ficou-nos esta imagem bem como, aos que aquele sítio visitarem, algumas aduelas do arco original, ainda visíveis à altura dos nossos joelhos.

 

O último pormenor vai para a singela capela da Senhora do Ó, que ainda não apresentava o nicho que atualmente encima a sua entrada.

 

Na imagem vê-se igualmente, atrás do vapor, um inestético barracão que ocupava grande parte do cais. Esse barracão era parte integrante da alfândega e por ali acampou uns bons anos, tendo-o as autoridades finalmente removido em meados dos anos setenta do século XIX. Isto depois de, quer nos jornais quer na Câmara, choverem protestos dos moradores das casas contíguas por causa dos cheiros - por exemplo, de víveres podres - e animais que para ele eram atraídos, cujos dejetos pejavam o local.

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1 - pela minha parte, vão já para cima de muitas as horas em que por ali me perdi em busca de informação; à custa disso tropeçando em muitas mais!

2 - Ou melhor, daquela que ali existiu até se ter esventrado a terra para ali empilhar automóveis. O arranjo atual é, em minha opinião, uma versão muito pobre da praça original. Neste caso, me desculpem, andamos para trás ao querer andar para a frente.

3 - Atenção: este informe é só e apenas isso, uma presunção.

 

 


§ Originalmente publicado no blogspot em 04-08-2011

Como era a capela do Senhor Salvador do Mundo em 1755

30.09.19

Caríssimos leitores, este blogue celebra hoje dez outonos. A maior parte da sua vida passou-a no blogspot, tendo em 2017 sofrido uma trasladação para esta casa lusitana, no sentido sobretudo de melhorar a sua qualidade visual, ao mesmo tempo que as suas publicações vão sendo para aqui reaolocadas, após uma revisão ou mesmo pontual correção, do seu conteúdo. Enquanto tal ocorre, novas publicações vão sendo intercaladas com as suas irmãs mais velhas. Aquando do fecho no blogspot, o número de visualizações ultrapassava os 181.000. Desde 2017, quando A Porta Nobre mudou de casa e o contador voltou a 0, esse número foi drasticamente reduzido, não ultrapassando hoje as 25.000 visualizações.[1]

 

A todos os que me leem, especialmente os que o fazem desde o início, o meu muito obrigado! É meu desejo ter força para prosseguir neste trabalho que executado com carinho, mas que, como qualquer atividade, tem dias mais motivadores do que outros... Quem corre por gosto não cansa, diz-se popularmente, e é por isso que, não tendo em vista o lucro material, por cá me pretendo manter, divulgando pedaços da história da cidade de uma forma um pouco diferente da habitual, apresentando documentos e factos desconhecidos, ou, pelo menos, pouco conhecidos, de todos os interessados pela história desta urbe.

 

«»

 

Não fosse a mensagem acima, e esta publicação não seria assim tão extensa... Hoje trago-vos a medição de uma capela que atualmente quase passa despercebida, mas que durante vários séculos foi bastante conhecida. No século XIX, porém, esteve quase para desaparecer, transformada em algum armazém ou, quem sabe, numa casa de habitação para alojar os numerosíssimos galegos, sem os quais a vida da cidade não fluía (é preciso que se lembre!).[2] Mas, como dizia, o que hoje vos pretendo dar a conhecer é a medição da capela pertencente à Confraria do Senhor Salvador do Mundo, sita nas Congostas. Esta capela vem, pelo menos, desde os finais do século XV, quando os habitantes da Rua das Congostas se reunirem em confraria após a peste que assolou a cidade os ter poupado. A primitiva capela ruiu no ano de 1656, tendo sido reedificada no ano seguinte à custa de esmolas. Já no final do século XIX, a dita capela sofreu as obras de ampliação necessárias para a trazer ao alinhamento da Rua Mouzinho da Silveira, ficando nessa época com o aspeto exterior que ainda hoje apresenta.

 

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capela do Senhor Salvador do Mundo em maio de 2016

 

Sobre a capela anterior, no entanto, existe um curioso documento de maio de 1755, pouco anterior ao grande terremoto, onde aquela estrutura - e não só - é cuidadosamente medida. Medição essa que foi lançada no Tombo da confraria, de onde B. Xavier Coutinho[3] a extraiu e colocou no incontornável arquivo portuense que foi a revista O Tripeiro. Peço ao caríssimo leitor que leia o texto que se lhe apresenta diante dos olhos, e vá tentando imaginar, já que é essa a única hipótese que hoje temos, como seria aquela capela antes de chegar o mundo moderno, ávido de ruas espaçosas. Diz-nos, então, o documento:

 

*

«Ele Dr. Juiz do Tombo mandou ao louvado que a medisse, e medindo-a ele com efeito, achou que a dita capela na loja em baixo tinha de comprido dez braças, com a parede, e livre da parede menos três palmos e quatro dedos da parte do poente ao nascente, de norte a sul cinco palmos e meio. E que a medida da parte do sul ao norte tinha mais um palmo livre das paredes e que pela parte de fora tem de largo sete braças, cuja loja da dita capela tem sua porta para a Viela do Salvador, e sua janela com sua grade de ferro para o poente, e dita Rua do Salvador; e tem mais na dita loja e armazém da capela uma porta que se acha tapada de pedra e cal, que vai ter às casas que ficam na traseira da dita capela para a parte do nascente, que hoje são de António Caetano José de Sousa Magalhães, filhos que ficaram de Manuel de Sousa Dias.

 

E medida a capela em cima do sobrado se achou ter nove braças e meio de comprido do nascente ao poente, livres das paredes, e de largo, de norte a sul, medida da parte da nascente, tem mais seis varas menos um quarto, e medida da parte do poente tem de largo seis varas e uma mão travessa.

 

E tem a dita capela suas janelas rasgadas para a Rua das Congostas e tem duas janelas de peitoril para a parte do sul.

 

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parte de uma planta anterior a 1865 que nos mostra a Viela do Salvador e o edifíco da capela, provavelmente na versão descrita neste texto. Com o alargar da Rua das Congostas (1), depois Mouzinho da Silveira, tornou-se necessário chamar a sua fachada ao novo alinhamento

 

Tem seu alpendre com suas escadas de pedra para a viela chamada do Salvador, com seu campanário e sino; e confronta da parte do nascente com casas dos ditos António Caetano José de Sousa Magalhães e seu irmão o Dr. Vicente José de Sousa Magalhães, que ficam encostadas à dita capela; e da parte do sul com a dita Viela do Salvador, e do norte com casas dos herdeiros do Padre Domingos Tavares, de que é direto senhorio a Santa Casa da Misericórdia desta cidade, e do poente com a dita Viela do Salvador que é larga; e sendo medida, se achou ter de largo três varas, menos uma mão travessa, a qual era muito estreita; e declarou o louvado medidor e os oficiais da confraria da Irmandade da capela, que para efeito de fazerem a dita viela mais larga, compraram as casas na frente da rua para a parte do sul, de Juliana de Jesus, e as desfizeram, tomando terras delas para alargar a dita rua, e depois as tornaram a vender: e quas [sic] as ditas casas dos herdeiros do Padre Domingos Tavares tem para a dita viela cinco janelas de peitoril; a saber: duas no sobrado de baixo pequenas, e três no sobrado de cima, sem que tenha sacada alguma para a dita viela.

 

E as casas que ficam defronte desta, da parte do sul da dita Juliana de Jesus, que são de dous sobrados para a Rua das Cangostas, e tem uma (?) soleirinha (?) para a parte de trás, tem uma porta pegada ao chão confrontando com a mesma capela, com três janelas de peitoril para a parte da mesma capela e para a Viela do Salvador tem também duas janelas de peitoril sem varanda nem sacada; e que a parede da mesma capela tem de grossura três palmos menos uma polegada».

*

 

Também Sousa Reis, um século mais tarde, nos dá uma imagem ainda que muito breve, da frontaria desta capela: « ... e logo no princípio deste mesmo beco ou viela [do Salvador] e em frente da sua entrada, está o oratório e pequena Capela de S. Salvador, a qual posto ter a sua frontaria talhada e aberta em arco espaçoso, que a atravessa em toda a largura, e a porta ampla e inferior a [=à?] balaustrada assente nesse arco, me parece ser em épocas remotas o santuário pertencente ao Hospital das Velhas, que consta existiu naquela rua das Congostas... ».[4]

 

E agora que chegamos ao fim, questiono-o caríssimo leitor: conseguiu imaginar aquele lugar naquele ponto do passado? Certamente que sim. E certamente que a sua imagem é diferente da que eu ou outro leitor formou. Ainda assim, elas só devem divergir em questões de pormenor, limitados à nossa capacidade de, melhor ou pior, integrar a totalidade das formas que se nos apresentam descritas. Espero, que não tenha dado o exercício como perdido! E que volte já na próxima publicação, dando-me a alegria da sua leitura, que desejo sempre agradável.

 

 

1 - Os motivos para tal são, a meu ver, dois: o facto de não existirem 8 anos de publicações que pudessem atrair a atenção do leitor casual, bem como o método de contagem do blogspot, que sempre me pareceu algo desgarrado e por isso enganador.

2 - Muitas casas deste tipo existiram espalhadas pela cidade. Nelas, estes pobres homens eram empilhados em condições desumanas, bastando, para isso comprovar, a consulta aos jornais de meados do seculo XIX. Um exemplo desse tipo de habitações, foi a casa que existiu no local do bonito hotel que há poucos anos veio substituir a Araújo & Sobrinho. (demolida em 1845 e conhecida por A ilha). Ou anos mais tarde, quando a polícia foi obrigada a despejar uma casa que se encontrava a ameaçar ruína na Rua das Congostas, de onde retirou pelo menos 11 galegos que ali 'viviam'.

3 - O Tripeiro,. Série 6, vol. VIII, p. 312.

4 - Apontamentos para a verdadeira história..., vol. 4, p. 346.

Uma curiosidade 'moedística'

23.09.19

Com a atenção que dou ao primeiro convento dominicano da cidade do Porto, por motivos que não cabem neste blogue, do qual atualmente pouco mais resta do que a fachada do Palácio das Artes ao Largo de S. Domingos, não pude deixar de reparar na empena e frontão que fecham a platibanda deste edício, por cima da porta principal. Nela surgem uns ornamentos, como que uns discos, em número de 7. A decoração terá sido colocada pelo Banco de Portugal, como o atestam fotografias do início do século XX. Não podem ser, isso é certo, da época do convento, pois como se pode constatar através do desenho de Vilanova, o edifício não tinha platibanda.[1]

 

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Ora, num edifício bem longe deste, lá para cima para a Aguardente (que é como quem diz Praça do Marquês do Pombal) onde até meados do século XIX acabava a cidade, podemos admirar o mesmo motivo. Com efeito, à entrada da Rua Latino Coelho, mais precisamente num edifício pertencente ao Colégio de Nossa Senhora da Paz, existe um edifício cuja ornamentação muito se assemelha à do anterior. Por debaixo da varanda que o do edifício, na sua parte mais antiga, logo à entrada da rua, existe uma pedra a suportar a dita varanda, que exibe um padrão muito similar com o acima descrito, se bem que mais discreto, com apenas 5 discos, faltando um em cada lado. É, para mim,  curiosa a repetição do motivo. Leigo como sou, apenas posso formular conjeturas: terão as duas pedras vindo da mesma oficina de pedreiro? Terá aquele símbolo um significado que desconhece o cidadão comum do nosso tempo? Terá o mestre que esculpiu a pedra mais recente, gostado do motivo reproduzindo-o na sua obra? Terá o edifício do Marquês algum dia pertencido ao Banco de Portugal?[2]

 

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Só posso apelar aos que se interessam pela história do Porto, bem como aos aficionados pela história da arquitetura, que me ajudem a esclarecer esta curiosa similaridade, que deixou o autor destas linhas deveras curioso.

 

 

*

1 - A portaria do convento não era, sequer, no arco do meio.

2 - No número 82 da Rua Ferreira Borges, num edifício onde deverá ter existido uma instituição Bancária ou uma seguradora, um antigo cofre apresenta como remate uma ornamentação com discos; em Lisboa, a monumental sede da Caixa Geral de Depósitos encontra-se cravejada com o que parecem ser discos: estará esta ornamentação ligada aos institutos bancários? Por outro lado, existem ornamentos de certas casas oitocentistas que também apresentam motivos circulares simples...

 

 

§ Originalmente colocada o blogspot em 28.07.2014

Uma publicação muito pessoal

16.09.19

Tive o privilégio de ser criado no centro histórico do Porto, no 4º andar do portal n.º 76 da rua Nova da Alfândega, na freguesia de S. Nicolau. A minha paisagem de todos os dias era o cotovelo que a muralha ali faz bem como a horta do mosteiro/tribunal de S. João Novo, isto não contando com o rio e mais ao longe o monte do castelo de Gaia: tudo, como se vê, repleto de história! Irão por isso os meus caros leitores perdoar esta publicação de caráter mais pessoal. Mas não se preocupem, à boleia de um desastre e da saudade vou abordar fases pretéritas da cidade. Digo desastre pois aquela casa foi recentemente afetada no incêndio ocorrido na madrugada do dia 17 de julho. Assim pude ver, através das televisões e com bastante tristeza, as janelas daquele edifício já devoluto escancaradas por forma a permitir o acesso dos bombeiros à sua vizinha envolvida em chamas.

 

Este edifício foi construído na década de 70 do século XIX, tal como quase todos restantes daquele correr, que ainda hoje apresenta um aspeto oitocentista não devassado pelo betão. As suas casas não são obviamente muito antigas e apresentam sensivelmente duas tipologias diferentes, fruto da uniformidade que a câmara municipal impunha a quem construísse. Ocupou um terreno anteriormente preenchido por uma escadaria do lado interno da muralha bem como algumas das casas demolidas, implementadas em estreitas vielas medievais igualmente desaparecidas. A estrutura mais notável nas redondezas terá sido a Porta Nova, sacrificada em 1871 para a construção da rua Nova da Alfândega a uma cota superior (dela já me ocupei aqui).[1] O que quer que reste de tal porta jaz agora escondido pela sapata da nova rua, sensivelmente na área onde se encontra a entrada do parque de estacionamento.

 

A i1 deverá corresponder à época da construção do ramal da alfândega (1881/88) e nela podemos ver vários pormenores interessantes. Pormenor curioso: o 3º andar do edifício a que me refiro não tinha ainda perdido a sua varanda.[2]

 

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i1 A) muralha fernandina : B) águas-furtadas onde foi criado o autor : C) o que resta do fortim de S. Filipe, mais conhecido por fortim da Porta Nova, prestes a ser engolido pela sapata que sustentará a ferrovia (à sua direita ainda se vê um pano de muralha) : D) casas que hoje se encontram ao topo das escadas do Recanto mas que tinham frente para a rua do Forno Velho de Baixo : E) antiga rua das Barreiras, agora incorporada na rua Arménia

 

A i2 é outra panorâmica tirada na mesma altura, que nos permite observar de um ângulo diferente a forma como as casas novas se alinhavam com o fortim.

 

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I2 esta imagem mostra-nos os pormenores acima descritos mas deixando ver as casas que sobreviveram à destruição necessária à construção da nova rua: F) esta casa existiu, pelo menos, até aos anos 50 do século XX[3] : G) as escadas do Recanto que ainda apresentavam um grande desnível face ao aspeto que agora tem. Por ele, creio, se pode inferir o quão irregular deveria ser o bairro dos Banhos, recebido pela cidade moderna com todos os sobe e desce a que a ocupação medieval daquela encosta se adaptara.

 

Em junho de 1872 foi aprovada pela Câmara a planta modelo para os edifícios a reedificar entre as escadas do Caminho Novo e a rua do Comércio do Porto (à época rua da Ferraria). Logo em janeiro do ano seguinte um Manuel dos Santos Preguiça submeteu o seu pedido de aprovação da planta da casa que pretendia construir, estando para isso já a demolir a que possuia no mesmo local pelo lado do sul das escadas do Caminho Novo. Aquela planta ficou servindo de modelo às restantes por ser conforme com a que fora aprovada pela Câmara.[4] Para a trazer ao novo alinhamento foi o mesmo proprietário forçado a adquirir à edilidade uma porção de terreno de 27,5m2. Esse edifício é hoje o alojamento local Seventyset.

 

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i3 planta do edifício novo que o Sr. Preguiça construiu, sem o acrescento de um andar solicitado posteriormente

 

Em maio do mesmo ano, Gertrudes Magna da Purificação Monteiro submete à Câmara o pedido de aprovação para a construção de duas casas idênticas, geminadas com a do Sr. Preguiça, mencionado no pedido o termo reconstruir.[5] Por se encontrar no lado de dentro da muralha num local antes ocupado por edifícios e via pública e pelo facto de estarmos na presença de duas casas, a D.ª Gertrudes teve de adquirir dois pedaços de terreno. As suas confrontações deixam-nos vislumbrar alguns fragmentos de toponímia hoje olvidada.

 

O primeiro terreno ia desde a frente do seu prédio (o pré-existente) e a face da nova rua numa extensão de 14,5m do lado poente, 14,1m do nascente, 6,85m do norte e 3,85m do sul.  Confrontava a poente com a rua Nova da Alfândega, nascente com o prédio pré-existente, pelo norte com o edifício do Sr. Preguiça e a sul com terrenos públicos (cujos proprietários dos prédios contíguos teriam de adquirir para submeter os seus edifícios ao novo alinhamento). Já o segundo terreno, diz explicitamente o documento, era uma porção da antiga viela que ficava ao norte do prédio pré-existente, entre ele e a cerca fernandina. O terreno tinha sensivelmente 14,1m por 1,5m - que estreita viela! com as seguintes confrontações: a poente confrontava com o terreno que acima vimos, a nascente com a viela do Forno Velho de Cima (que dava servidão para o prédio pré-existente da D.ª Gertrudes e seus vizinhos), a norte com o antigo muro da cidade nas traseiras das escadas do Caminho Novo e finalmente a sul o próprio prédio que a requerente pretendia reedificar.[6]

 

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i4 planta submetida pela D.ª Gertrudes. O portal mais à esquerda é o do n.º 76, encostando à casa do Sr. Preguiça. Os portais da direita são da agora destruída mercearia Porta Nova. A platibanda difere da realmente construída, o que poderá relacionar-se com um pedido da requerente, de 1875, para modificar as almofadas da platibanda.

 

As casas construídas naquele local, pelo menos até às escadas do Recanto, são reedificações e adaptações do pré-existente, tendo os proprietários que as alinhar dado que agora deitavam para uma pequena escarpa à face da nova rua em construção. A i5 mostra-nos precisamente isso. Creio que não terá restado outra hipótese aos proprietários das casas poupadas à hecatombe a sua demolição se não da totalidade das paredes, pelo menos de todo o seu interior. A casa que conheci, por exemplo, foi certamente construída a pensar em alojar famílias dado que pelo menos o segundo e terceiro andares apresentavam uma enorme boca de extração de fumo na cozinha (a casa é anterior ao aparecimento da eletricidade); o que não joga com um simples acrescentar de paredes para trazer o edifício ao novo alinhamento.

 

Screenshot_1.jpg

i5 parcial de uma fotografia mostrando o que foi demolido naquela zona: A) local onde existiu a Porta Nova, B) atual término da muralha fernandina, resultante das demolições, C) e E) mostram as casas e escadaria que ainda subsistem das escadas do Recanto e finamente D) serão as casas da D.ª Gertrudes com antigas frentes para a rua do Forno Velho de Baixo (traço amarelo na foto) e rua do Forno Velho de Cima (hoje em parte transformada em saguões das casas existentes)

 

Apelo à boa concentração do leitor para interpretar o parcial de uma planta que apresento abaixo, da altura em que se projetava chegar à nova Alfândega não pela rua que foi efetivamente construída mas pela rua de D. Fernando (atual rua da Bolsa). Ela é plena de pormenores a todos os que queiram melhor conhecer todas as escadinhas que existiam no quase completamente desaparecido bairro dos Banhos (não obstante esta planta apresentar um plano nunca seguido tal não tem afetação para o nosso tema).

 

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i6 eis uma grande fatia do bairro dos Banhos mostrando a área que nos interessa. O retângulo vermelho mostra-nos o atual Forno Velho, sobrevivência da rua do Forno Velho de Cima; o retângulo azul indica as escadas do Recanto, sobrevivência da rua do Forno Velho de Baixo e o castanho a Porta Nova. O verde, é claro, indica o local das casas que se reconstruiram junto à muralha, propriedade da D. Gertrudes. Quase tudo o resto foi destruído

 

Talvez já não se recordem os meus caríssimos leitores da publicação sobre uma rua já desaparecida e completamente esquecida pelos historiadores da cidade (salvo a não surpreendente exceção do Dr. Ferrão Afonso, a quem devo o conhecimento dela), chamada rua da Almea, ou rua da Boa Vista. Nela se falava igualmente na rua da Minhota (ou Munhota), também ela obscura mas mais conhecida por ser frequentas vezes citada como a rua onde existiu uma sinagoga. Ambas se situariam precisamente nesta área, mas ainda hoje nenhum historiador se debruçou sobre elas por forma a identificar com a precisão possível o seu traçado.[7] Ora a rua da Minhota poderá rer sido uma destas duas ruas; talvez com maior probabilidade a rua do Forno Velho de Baixo (hoje reduzida às escadas do Recanto). A rua da Almea situava-se na área agora ocupada pelo convento e já no século XVIII desaparecera da memória dos portuenses (dela ainda sobreviverão restos debaixo da sapata de S. João Novo...).

 

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i7 imagem do saguão da casa colhida em 2017 quando esta era ainda habitada. Para a captar posicionei-me dando as costas à muralha no mesmo local onde se encontrava antes das demolições a escada/viela que descia encostada à dita muralha, dando passagem do Forno Velho de Cima para o Forno Velho de Baixo (ver retângulo verde na i6). Se nos fosse possível ver através dos saguões, teriamos ao fundo o atual Forno Velho. Notar que estes saguões dos edifícios estão ao nível do segundo andar na face voltada à rua, consequência da ocupação da encosta (como vimos atrás na i2, letra G)

 

Na i7 não é percetível o desnível existente entre lado direito que encosta à casa e o lado esquerdo que encosta ao muro, preenchendo um patamar mais elevado no correr da porta entaipada. Estou em crer que esse patamar será tudo o que resta neste lote do solo da antiga viela, pois encontrando-se ele fora do terreno da casa não terá havido a necessidade de o destruir e numa primeira fase seria mesmo importante não o fazer, pois durante algum tempo mais a viela ainda esteve ativa sabendo o autor de viva voz que durante muito tempo por ali se acedeu ao edifício (ver mais abaixo). Uma segunda razão é o facto de aquele patamar ter sensivelmente a medida apontada na explicação do técnico da câmara para a largura do segundo terreno que a D. Gertrudes teria de adquirir - 1,5m - terreno que pela planta i6 se vê ser a continuação daquela viela. É apenas uma hipótese que a arqueologia talvez venha a confirmar ou desmentir.

 

A memória mais antiga que consegui oralmente recolher sobre este edifício ou o seu antecessor, remete-nos para uma escola que ali existiu cujos alunos usavam a porta entaipada visível na i7 para a ele acederem. Em 1955 o edifício era propriedade de uma senhora de nome Laurinda, que por sua vez o herdara do seu falecido marido. Naquela época o rés-do-chão e o primeiro andar já estavam ocupados por escritórios, o segundo por uma família e o terceiro pela proprietária. Em testamento, a D.ª Laurinda deixou o edifício ao Albergue da Mendicidade do Porto. Pela minha parte, nos anos 80/90, recordo que o primeiro e segundo andares estavam ambos ocupados por escritórios e o piso térreo desocupado. O terceiro ocupado pela antiga vizinha de meus avós (com quem emotivamente me reencontrei em 2017) e claro, no quarto pelos meus queridos avós já desaparecidos, que sempre estarão na minha memória.

 

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i8 o edifício que temos vindo a estudar encontra-se agora em obras de remodelação/reconstrução. O que virá a ser?

 

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i9  pormenor das águas-furtadas daquele edifício onde passei os dias mais despreocupados da minha vida. 

 

E assim caríssimos leitores me despeço, agradecendo a todos que tiveram a amabilidade e paciência de ler esta publicação algo fastidiosa sobre uma simples casinha da rua Nova da Alfândega. Como se pode ver abaixo ela encontra-se agora em obras para ressurgir com uma nova vida. Mudam-se os tempos, muda-se os donos... que eu desejo possuam o bom senso de preservar alguma coisa do que ali existiu e não se renderam ao facilitismo de tudo demolir para erguer em betão. Mais feliz ficaria se aquelas paredes fossem ocupadas por famílias de habitantes em alternativa às famílias de hóspedes, para que o n.º 76 da rua Nova da Alfândega pudesse renascer como um novo berço memórias!

 

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1 - A ligação afetiva a toda aquela área juntamente com o facto de ter sido ali que comecei a verdadeiramente me apaixonar pela história da nossa cidade, foi a principal razão que me levou a dar ao blogue o "pomposo" nome A Porta Nobre. Devo contudo advertir que este nome, de origem ainda incerta, não era o oficial daquela entrada da cidade e ainda não logrei conhecer como e quando ele surgiu.

2 - Na janela mais a poente dessa varanda perdeu o autor destas linhas várias horas a observar a máquina Diesel a manobrar os vagões e a fazer um comboio para depois levar para Campanhã e a observar os elétricos que em baixo passavam de e para o términus da linha 1, no Infante.

3 - Minha mãe, nascida em 1950, ainda conheceu os últimos habitantes da casa cujo senhor tinha o ofício de sapateiro. Nitidamente uma casa com origens medievais, ocupava uma área muito estreita de solo, o que obrigava à existência de uma íngreme escadaria para aceder aos sobrados.

4 - Em  setembro daquele ano o Sr. Preguiça pediu lhe fosse autorizado o acrescento de mais um andar.

5 - O técnico da Câmara que analisa o pedido aplica o mesmo termo.

6 - Ao senso comum os pontos cardeais parecem estar mal orientados, contudo se observarmos a rua na carta da cidade veremos que não. Ainda assim, não sendo a orientação rigorosíssima, ela serve o propósito.

7 - Esta tarefa, árdua mas no final gratificante, poderia ser levada a cabo por algum estudante universitário que quisesse fugir aos estudos clichê sobre a rua Nova, Flores e outras. Para isso terá o mesmo de consultar imprescindivelmente o arquivo dos padres de S. João Novo e o da Câmara bem como, de uma forma mais ligeira, os das restantes congregações religiosas possuidoras de casas naquelas ruas.