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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (3)

19.04.19

Nesta terceira apresentação das cartas de Joseph James Forrester, aproveito para fazer uma ressalva: não estou a respeitar os "parágrafos" dados pelo jornal onde elas foram publicadas, pois que nele cada frase estava como que transformada em parágrafo. Nesta conformidade decidi formatar o texto por forma a torná-lo visualmente mais apelativo e menos maçudo: terei conseguido?

 

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«QUARTA CARTA

O Convento de Ancede situado num belo vale, ainda que em posição elevada, a um quarto de légua de Porto Manso, é digno de atenção: mas o seu estado actual de abandono e a ausência dos frades, contrastam de uma maneira singular com o seu aspecto ordinário em outros tempos. O lugar de Porto Manso muito sente a extinção destas corporações religiosas, pelas esmolas que os frades distribuíam diariamente aos pobres – e quanto ao terem acabado os dízimos, dizem os povos que este benefício resultou só a favor dos proprietários. Conheço um indivíduo que ganhou com a mudança e é o meu compadra e arrais, António de Oliveira Dias (mestre o mais hábil no Douro) que tem aqui seu casal, e que costuma nas ocasiões da minha chegada empregar os serviços do ex-cozinheiro do dito extinto convento de Ancede.

 

Em mui poucos países tenho assistido a jantares mais bem servidos e abundantes do que o foi um, que o meu compadre aqui me deu. Todas as cobertas foram servidas com delicadeza e asseio. Tivemos excelente caldo, vaca cozida e arroz – galinhas cozidas com presunto e salsichões – enorme peru assado com o seu picado à Ancede – dois gansos formidáveis – alguns frangos – uma perna de vitela – presunto de Melgaço feito em fiambre – boa cernelha de vaca assada – três coelhos bravos ensopados – dois excelentes guisados – um leitão muito tostadinho – e meia dúzia de perdizes mortas com toda a cerimónia da antiga lei, em 1 de Setembro. Depois seguiram pudins, pão-de-ló (ou cavaca fina), biscoutos, morcelas, melancia, melão, laranjas, limas, maças, pêras, pêssegos e doce de calda; - porém nem um só cacho de uvas, nem tão pouco uma garrafa de vinho! As uvas pela maior parte se perderam e tal será a escassez de vinho nestes sítios, que o velho que em outros anos se comprava a seis mil reis e moeda de ouro, já se está vendendo a 30$ooo réis.

 

Fiz os meus cumprimentos ao meu compadre pela sua pródiga hospitalidade e ele respondeu-me que muito estimava poder mostrar-me que nos vinte anos que me tinha servido, não somente tinha ganho para o sustento e educação da sua família mas também poupado bastante dos dinheiros que eu lhe tinha dado a ganhar, não somente para me fazer este pequeno oferecimento mas também para que tivéssemos um petisco para comermos na viagem que íamos seguindo.

 

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rosácea românica da igreja do mosteiro de Santo André de Ancede, reaproveitada para óculo da capela-mor aquando da reconstrução da igreja no final do século XVII

 

De Porto Manso fiz uma digressão até à antiquíssima vila de Canaveses, onde no Marco achei as videiras com a mais bela aparência e cheias de magnificas uvas – facto este o mais notável, quando nos arredores todas as uvas estão perdidas pela moléstia. O Tâmega em Canaveses, ainda trás bastante água e tem uns 400 a 500 palmos de largo. O sítio é tão belo, que apesar da falta de comodidades, achei bastante em que me entreter durante dois dias inteiros. Em todo o concelho de Baião, o pão está muito caro em razão do calor que tem perdido a maior parte do que estava na terra e que não servirá senão para o gado. A ribeira de Porto Manso, outrora mui produtiva e abundante em água, este ano produz menos que metade do usual e se as chuvas continuarem a faltar, as consequências poderão ser mui fatais.

 

O estado do rio Douro entre o ribeiro de Pala e o rio Bestança é digno de particular observação. O leito está todo descoberto e o rio é um mero canal que apenas tem 60 palmos de largura e cujo curso é entre enormes rochedos de granito de 25 a 35 palmos de altura. Estes rochedos estendem-se sobre um espaço de 800 palmos de largura em cada uma das margens, até á casa do açougue em Porto Manso e a casa do Souto no cais do rio Bestança – e ambos estes pontos estão na altura de 60 a 70 palmos da borda do rio. Mesmo quando estes rochedos se acham cobertos, é uma temeridade navegar no rio com barcos carregados – porém no Inverno acontece muitas vezes que as enchentes do rio trazem dentro do curto espaço de três dias tal quantidade de água, que o rio sobe até às duas casas indicadas, tendo pois 1600 palmos em lugar de 60 de largura, e 90 de altura. 

 

O motivo do rio levantar tanto neste sitio é bem óbvio: - nos pontos de Escarnidas e Fiéis de Deus, o aperto das margens e a altura dos rochedos impede que as águas desemboquem, e por isso espalham-se pelo cais de Porto Manso, da mesma maneira que em 1780 antes de se demolir o cachão de S. João da Baleira, as águas não achando expediente cobriram toda a Ribeira da Vilariça. Logo acima das pedras da Morteira, que são os mais altos rochedos no cais de S. Paio, defronte do Porto Antigo, existia no meio do rio a pedra nativa chamada da Seixeira, que tinha 20 palmos de altura sobre a actual margem do rio – mas não era prejudicial à navegação – antes era uma rica propriedade de um particular, que dela tirava bom rendimento pela pescaria que até 1828 rendeu seiscentos e tantos sáveis num dia. Apesar do dispêndio, inutilmente feito a meu ver, com a demolição deste rochedo – ele ainda tem seis palmos de altura fora de água. Se antes de empreender estas obras, se tivessem aconselhado com os homens práticos, haviam de ter-se informado que o princípio da resistência da água da Seixeira, nascia da Fisga para baixo – águas que não levam os barcos para a Seixeira, mas sim sobre o rochedo Gonçalo Velho, no cais do Souto do Rio, onde iam e ainda vão bater: e em prova desta nossa asserção a corrente que principia na Fisga ainda continua com a mesma força na marca do rio em que sempre é prejudicial.

 

A pólvora não está muito cara – o ferro não falta – a gente da terra tem sempre vontade de trabalhar, venha a ordem para a demolição somente de metade do assustador Gonçalo Velho, e em poucos dias e sem que se faça grande despesa, ele deixará de existir.

Sou, de VV. &c. J.J. Forrester»

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«QUINTA CARTA

Desde Porto Manso até o Ponto do Piar, distante cerca de três léguas, o rio actual passa entre rochedos e altas penadias. Na margem direita há os insignificantes povos de Lugar das Vendas, Mirão, Porto do Rei e a Vila de Barqueiros; na margem oposta apenas há o povo das Caldas de Aregos e algumas casas defronte de Mirão, Porto de Rei &c. Vê-se a cultura em alguns intervalos, porém com imenso custo em razão da natureza do terreno. Depois da demolição das azenhas, tem-se estabelecido moinhos em barcas sobre alguns pontos do rio, mas apesar dos ventos soprarem constantemente, não há moinho de vento algum desde S. João da Foz até à raia!

 

Logo acima do Portozelo, por exemplo no ribeiro de Cabrão, sítio lindíssimo e que produz azeite e algum vinho, há moinhos que, apesar da escassez geral das águas, são de certo, os melhores do rio; mas assim mesmo os habitantes precisam esperar alguns dias para lhes tocar a vez para moer o seu pão, em razão da grande concorrência dos povos vizinhos, que vêem aqui moer o seu pão trigo, bem como o milho e centeio enviado da cidade invicta de propósito para este fim. Ora neste século de progresso, depois de recebidos no Porto os cereais da raia, com, pelo menos, 30 léguas de carretos e frete, tem estes de tornar a voltar dez léguas e três quartos de caminho para serem moídos e depois de novo conduzidos para o Porto!!!

 

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uma barca de passagem, algures no Douro

 

Estávamos no cais da Rapinha, quando chegaram dous barcos, um dos quais carregado de sacas de milho e trigo vindas do Porto e conduzidas por um homem, sua mulher e filha. Trouxeram apenas três carros e meio em 20 sacas. O frete da condução do grão para cima, e para baixo, de farinha, apenas importava em sete mil reis, e por esta diminuta quantia, a família havia de gastar pelo menos 15 dias, pagando por sua conta as alagens e a algum homem para os ajudar a subir os pontos! O segundo barco era de passagem de uma para a outra margem do rio, e logo que chegou a terra debaixo de uma salva de trovões e relâmpagos, saltou na praia um sujeito vestido de chambre de riscado e chapéu de palha, com um pau argolado, o qual se dirigiu a mim exclamando: “dê cá esses ossos!” e conheci que quem me abraçava com tanta amizade, não era outro que o distinguíssimo Ministro de Estado honorário Dias de Oliveira. Este recto juiz tendo aqui as suas terras, veio há pouco ver as obras que trás, e tendo visto do alto da sua quinta passar a minha barquinha, apareceu na forma do costume sem aparato algum nem bazófia, a oferecer-me a sua hospitalidade.

 

Da mesma maneira que os meus patrícios da Escócia aparecem por toda a parte, também se encontram nacionais da Galiza. Na Rapinha, neste sítio tão remoto e pouco povoado, logo que chegaram os dous barcos indicados, apareceu um galego para conduzir os sacos para o moinho, e com efeito ele só os levou. Como cada saco trazia 7 alqueires e ele tinha de o levar até ao moinho, distante uns 180 passos, fez pelo menos de ida e volta, uma légua de jornada na condução dos 20 sacos, e por este trabalho recebeu 200 réis.

 

As perspectivas são belíssimas nestas três léguas até o Piar; mas a cada passo há uma galeira que torna a navegação perigosíssima em toda a marca do rio. O leito está descoberto e acham-se à vista todos os obstáculos à livre navegação: as enormes pedras que em certa marca do rio estão cobertas, vêem-se-lhes agora as raízes cercadas de erva infernal e de bichinhos, como lagartos e pequenas cobras que eu nunca imaginava encontrar em semelhantes sítios.

 

Na ínsua da Bula é onde os rochedos apresentam uma configuração mais curiosa e pitoresca, por causa da força das correntes das águas, e aqui o rio agora (25 de Setembro) junto à laje da Bula apenas tem 40 palmos de largura e 25 a 30 de profundidade, tendo os rochedos em cada margem pelo menos 40 palmos fora de água. Tem-se alteado e reformado o paredão da Bula – é uma bela obra esta, tão bem executada como concebida.

 

Não vi preparativo algum para o melhoramento do ponto de Louvagem – pois as pedras bem descobertas estão – mostrando claramente quão fácil seria a sua demolição. Bastante gente anda trabalhando no Cadão, a alargar a pequena estrada que existe na margem esquerda para a alagem dos barcos. Aqui vêem-se muitos rapazes e raparigas levando pedras e entulho em pequenas canastras à cabeça(!) e algumas pedras em terra se andam quebrando, porém nas pedras do ponto mesmo, não se tem bolido. É pois de recear que se deixe passar esta ocasião para talvez nunca mais voltar, em que o curso do rio podia tão facilmente ser temporariamente conduzido em outra direcção, enquanto se fizessem as obras necessárias, no sítio mesmo daquele ponto. No buraco do Cadão, existe uma pedra sobre a qual batem todos os barcos nesta marca do rio; - com meia dúzia de arráteis de pólvora, dentro de dous dias, podia desaparecer este obstáculo, porque agora apenas trás meio palmo de água por cima.

 

Igualmente na Figueira Velha não vejo andar obra alguma quando também em poucos dias e diminuta despesa, este ponto poderia melhorar-se. Canedo em que em outros tempo tão grossas somas se gastaram – ainda nesta marca do rio restam uma pequena obra a fazer-se, que dentro de 8 dias em se podia efectuar e com mui pouca despesa e que será quase impossível logo que venham as águas. Na Ripança andam obras para facilitar a descida dos barcos carregados quando a marca de trinta anda a descobrir e juntamente para a subida dos barcos. Esta obra não deixará de ser útil até onde ela chegar.

 

No Piar sentimos verdadeiro gosto por ver que finalmente se tinha tapado um dos canais neste ponto com uns poucos de sacos cheios de areia, de sorte que com a maior facilidade se podiam limpar as pedras soltas e entulho de calhau que ai se achavam depositados. Este ponto é um dos mais interessantes em todo o Douro, 1º por ser a chave das montanhas do distrito vinhateiro, e 2º por ser o único sítio em todo o rio onde se tentou fazer uma ponte de pedra. É evidente que esta ponte nunca se concluiu, ainda que, na margem esquerda existe a maior parte de uma coluna de pedra de cantaria, não há indício algum até de ter havido princípio da estrada. No Calhau da margem direita, havia há anos uma das colunas mui bem conservada e também se viam os alicerces das outras duas, porém agora estes estão cobertos de areia e a torre está quase desfeita.

Sou de VV.
J.J. Forrester»

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Publicadas originalmente em 12.05.2013 e 19.05.2013 na antiga casa da A Porta Nobre, no blogspot.

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (2)

12.04.19

Vou, caro leitor, paulatinamente dando sequência à reposição das cartas do (futuro) Barão de Forrester. Contrariamente ao que modo que usei na publicação original no blogspot - i. é, uma publicação por carta - opto por de agora em diante colocar duas cartas em cada publicação. E isto tem duas razões: primeiro para não arrastar no tempo algo que com o decorrer do mesmo tornará sem importância a sua subdivisão; a segunda, que refreia o facto de não colocar de uma vez só um bloco de 3, 4 ou 5 cartas, para que a leitura delas se mantenha prazerosa e não pesarosa. Prossigamos então:

 

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SEGUNDA CARTA

(20 de Setembro)

«Logo ao amanhecer continuamos a nossa viagem – mas depois de grande trabalho da parte da tripulação que andou na água a levantar o barco para poder passar no seco da Varjiela, e custou-nos a chegar a Melres, levando-nos três horas a andar esta pequena distância de meia légoa! Defronte deste povo almoçamos, e durante este descanço podemos notar que o sítio abunda em férteis campos, lenhas, cortiça, laranja e vinho, com tudo isso parece que os habitantes não gozam da maior prosperidade. As habitações são miseráveis e não há entre elas uma única casa que se possa supor pertencer a lavrador abastado. Esta circunstancia é mais notável em razão da benignidade do clima que faz que as terras produzam quase espontâneamente, e dos habitantes não precisarem fazer grande despesa com o seu sustento e vestuário. Os homens apenas trazem calças, colete e camisa – as mulheres contentam-se com uma saia, camisa e colete, e as crianças – rapazes e raparigas, até à idade de 8 ou 9 anos, andam só com camisinha, aqueles que a tem.

 

Entre o Carvoeiro e Melres passamos na margem esquerda do rio o povo de Pé da Moura, sendo este o extremo ponto onde chega a maré e de onde a maior força da carqueja é remetida ao Porto. É curioso notar a direcção que nestes sítios toma o rio, porque principando em Lombeiro de Atães e acabando em Pédorido e Rio Mau, um quarto de légua adiante de Melres, descreve o perfil de uma cara de homem. Ao meio dia o calor era tanto, marcando o termómetro 123 graus[1], e a atmosfera tão abafada, que não tivemos remédio senão dar à nossa tripulação três horas de descanço no areio d’hortos, ao pé do ribeiro da Raiva; mas depois o vento favoreceu-nos e podemos chegar à noitinha a Fontelas.

 

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o Douro e o Tâmega em Entre-os-Rios, ao fundo a malograda ponte Hintze Ribeiro, construída já após o tempo do Barão de Forrester. Notar o fraco caudal do rio Douro que ainda assim, apesar de segundo em extensão, é o mais caudaloso da Península Ibérica

 

As vistas de ambas as margens são belíssimas, porém são poucos os povos e o seu estado em nada difere daquele que acabamos de descrever. Há bastantes oliveiras e sobreiros desde Pé Doirido até defronte d’Entre –Ambos-os-Rios, onde o Tâmega desemboca no Douro. A perspectiva pelo vale do Tâmega é mui bela, quanto à natureza; porém é lastimoso notar-se que nem pelo rio nem por terra tenha a arte ajudado a aumentar os meios de comunicação com o interior do país, nem mesmo com Canaveses e muito menos com a importante vila de Amarante por onde o rio passa. Em Entre-os-Rios tem aparecido bastantes vestigios dos romanos, e tanto neste povo como em Canaveses há caldas e águas férreas que deviam talvez ser de bastante estimação se houvesse comodidade que chamasse a gente a frequenta-las. Neste sitio havia registo, pela antiga Companhia[2], de todos os barcos que iam para o Porto.

 

Castelo de Paiva é uma terra insignificante, mas de um aspecto muito romântico, sendo a origem do seu nome a ilha de rochedos pitorescos no meio do rio em frente da povoação. O rio Paiva é abundante em peixeis, especialmente trutas. Nos tempos feudais quando os senhores recebiam os foros dos caseiros e tinham direito de pesca em certas estações do ano, além das galinhas que lhes foram dadas para merenda, era forçoso até fornecer-lhes o trovisco. Entre os povos mais afamados naqueles tempos, o Castelo de Paiva, não era o menos importante pelas suas pescarias de trovisco, conforme o que coligímos de vários escritores, e apesar da pesca de trovisco ser, por lei, de há muito proibida, neste povo de Castelo de Paiva ainda continuam a pagar-se muitos foros em galinhas, aplicadas em outras áreas para as merendas da pesca de trovisco. Nos arredores de Paiva, fabrica-se grande quantidade de carvão de choça que se vende na cidade.

 

Tenho deplorado o estado de miséria em que parecem achar-se todos os povos que passamos entre o Porto e este sítio – agora acrescentarei que nos intervalos que medeia entre um povo e outro, não se encontra nem gente, nem gado, nem rebanhos, parecendo um país não habitado: ao mesmo tempo que cada passo aparecem deliciosos sítios a convidar o homem de gosto a ir para ali estabelecer o seu domicílio.

Sou de VV. & c.

J. J. Forrester»

 

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TERCEIRA CARTA

(20 de Setembro)

«A digressão de hoje foi de três léguas desde Fontelas até Porto Manso. O vento foi favorável de tarde, e poderíamos ter feito maior jornada se não nos tivessem extasiado as belíssimas vistas por toda a extensão do rio, as quais se fossem conhecidas pelos artistas dos países do norte, chamariam metade do mundo viajante para admirar estas belezas, infelizmente ignoradas no seu próprio país. É verdade que são em muitos sítios os enormes rochedos que apresentam os primeiros planos aos quadros que desejáramos ver pintados; e como o governo de S.M.F. decretou que daqui em diante uma certa soma será aplicada para demolir estes obstáculos para a livre navegação do Douro, - se os viajantes se não apressarem a cá vir por estes primeiros meses, poderá ser que, pelo ano que vem, a marcha da civilização destrua os principais objectos de gosto artístico que a mim, que os tenho admirado mais do que outros quaisquer que tenho visto, ainda me chamam como em peregrinação três vezes por ano.

 

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paisagem anterior às barragens, que nos demonstra visualmente os perigos do Douro antes do desbaste dos grandes penedos que muitas vezes eram causa de uma tragédia humana. Ainda assim o que se pode ver parece já não ser um aspeto inteiramente natural do rio, antes algo transformada pelos homens(?)


Na marca atual do rio, que é talvez a mais baixa de que os práticos se lembram, até Porto Manso não há pontos nem galeiras ainda que nos pontos da Retorta, do Colo, Tojal e Escarnida não deixam de fazer sua corrente que bastante embaraço causa à navegação quando não há vento, de meia vela a favor, porque em caso contrário seria indispensável empregar gente ou bois para alar os barcos nestes pontos. No ponto da Retorta, logo acima do Convento de Alpendorada, havia um rochedo enorme que por mais de vinte anos era muito nosso conhecido, e tão alto era ele que os boieiros para cambarem o cabo por cima, precisavam de uma escada de 14 degraus: chamava-se o Penedo do Corvo.


Ultimamente, no ano passado foi em parte demolido; porém em 1853 o Verão foi sempre chuvoso e conservou-se muita água no rio – agora em 1854 o litoral está à vista – Que bela ocasião para os engenheiros do Governo completarem a sua obra, desfazendo mais uns cinco palmos que ainda tem o calhau, para assim facilitar a passagem dos barcos com setenta pipas com a marca do Pinhão, sem serem obrigados a desviarem-se dos restos do penedo tomando outro rumo, pelo qual correm o risco de quebrarem-se na pedra da Retorta! Nos pontos de Valvela e Couces de Vimeiro, observei umas pedras quebradas por cima, com a evidente tenção de formar em cada um dos sítios um canal para passarem os barcos em certa marca do rio, que é das águas do Tua; porém, ficando estas obras como estão, receio que a navegação não tire muita vantagem delas.


Os povos, que hoje passamos, foram, na margem direita: Vimeiro terra dos arrais de matriz e trasfegueiros – tem muito boas casinhas – reina grande atividade no cais – toda a gente parece ter que fazer e vivem muito bem. Este povo forma um grande contraste com todos os mais que temos visto do Porto para cá. Antigamente a Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro tinha aqui o seu comissário e grandes armazéns; e nenhum arrais passava daquele sítio para baixo sem receber as suas ordens. Lavadouro também é terra dos arrais, mas é um povo mui pequeno. Pala igualmente é terra de arrais e lavradores – todos abastados, que vivem tão bem como os do Vimeiro. Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto. Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e mui produtivo. Na margem esquerda apenas há os pequenos povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios mui pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto. Pode-se calcular, sem exageração, em 20 mil os paus, pés e pontas de castanheiros, que são carregados neste cais todos os anos.

Sou de VV. & c.

J. J. Forrester»

 

1- Se esta gradação se referir à escala Fahrenheit, estaremos a falar de cerca de 50ºC, o que parece manifestamente exagerado.

2 - Fundada em 1756 e conhecida hoje pelo nome de Real Companhia Velha.

 

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Originalmente publicadas no blogspot em 24.03.2013 e 02.05.2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (1)

10.04.19

O anterior alojamento d' A Porta Nobre no blogspot manteve-se ativo desde o seu início em 2009 até meados de 2017, quando optei por lhe dar sequência no Sapo. Logo no início referi que paulatinamente iria transferir para a nova casa as publicações que achasse tal o merecerem. O que abaixo poderá ler é uma dessas publicações. Por ventura pensará o leitor onde é que eu já li isto? Bem a resposta estará certamente no facto de esta (como outras) publicações terem sido reutilizadas por outros blogues versando o Porto e a sua história, tendo entretanto a sua fonte original do blogspot desaparecido. Estas cartas do Barão de Forrester estariam inéditas até eu as ter redescoberto em 2013? Não o posso dizer, embora acredite que não. Certo é que para mim foi uma agradável surpresa descobri-las no local original onde foram publicadas, isto é, no jornal O Comércio de 1854! São um raro testemunho de uma pessoa culta e letrada que singrou este nosso tão belo rio quando ainda selvagem, sem barragens que o domassem e poucos penedos desaparecidos à força do dinamite.

Tenha então o leitor o prazer de ler ou reler a primeira delas, agora mesmo.

 

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«COMEÇAMOS HOJE A PUBLICAÇÃO DE UMA SÉRIE DE CARTAS SOBRE O DOURO, QUE JULGAMOS INTERESSANTES E DEVEMOS À BONDADE DE UM CAVALHEIRO TÃO HABILITADO PARA ESCREVER SOBRE O OBJETO, COMO O ILM.º SR. FORRESTER

 

PRIMEIRA CARTA

Quem quer seguir viagem do Porto pelo rio Douro acima, deve lembrar-se que até Pé de Moura quase nunca no verão os barcos carregados poderão passar sem maré, e ainda que a nossa barquinha não levava o que se pudesse chamar carga, contudo os arranjos de camas, baús e mais utensílios próprios ou necessários para uma longa viagem, bem como a tolda, os armários, beliches, mantimentos, etc. pesavam, pelo menos, metade da lotação do barco que era de nove pipas – escolhemos por conseguinte a hora da maré, que deitava das 3 para as 4 horas da tarde para a nossa saída de hoje. Também ainda que não somos astrólogos nem sabemos calcular bem as mudanças do tempo temos tal ou qual fé nas diferentes fases da Lua – e como há 15 dias a esta parte sempre tivemos vento leste fortíssimo, entendemos que este quarto de Lua crescente nos poderia favorecer, e com efeito assim aconteceu porque não somente podemos aproveitar a maré mas tivemos vento pela popa. Chegamos às 8 horas e meia a Carvoeiro, 3 léguas e meia da cidade, andando à razão de 3 quartos de légua por hora.


O leito do rio Douro até este ponto é uma pouca de areia – o canal para a navegação é estreitíssimo e actualmente na maré baixa apenas trás de 2 a 3 palmos de água. Estas areias depositam-se todos os anos com as enchentes do rio, e as marés de Verão concorrem para a sua conservação. Assim tem acontecido desde que os fenícios se estabeleceram em Portugal – e pelo que se vê, a arte, a ciência, e o mecanismo não poderam remediar o mal! – ao menos pelo que vemos, não parece ter havido tentativa alguma para este fim.

 

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o lugar de Arnelas

 

Pela margem esquerda notamos as pequenas povoações de Quebrantões – Oliveira – Espinhaça de Avintes – Arnelas – Crestuma e Carvoeiro, e pelo lado direito Campanhã, Valbom, Gramido, Atães, Sousa, Gibreiro, Esposar, Lixa e Pombal. Quebrantões é notável por ser o sítio onde na guerra peninsular, os exércitos luso-britânicos passaram, quando os franceses evacuaram o Porto. Agora é neste sítio a barreira por onde nenhum barco, por pequeno que seja, pode passar sem ser examinado. Defronte são as ruinas do grande seminário que foi arruinado durante o cerco do Porto e logo ao pé, também se vêem algumas paredes do palácio desmantelado do bispo: tanto as belas árvores desta quinta como as do convento da serra foram cortadas em 1833. Oliveira, sempre tem sido célebre pelo seu antigo convento e por ser a sua cerca um recreio para os habitantes do Porto. Avintes, é a terra das padeiras que abastecem a cidade do Porto com excelente pão. Arnelas, notável por suas madeiras e lenha e pela sua feira de S. Miguel, em que as nozes abundam.[1] Crestuma, pela abundância de águas e lenhas suficientes para fazer trabalhar imensas fábricas – porém onde por ora ainda não há nenhuma. Aqui no tempo da antiga Companhia havia o registo de todos os barcos com vinho que iam para o Porto. Carvoeiro, pela quantidade de lenhas e madeiras que manda para o Porto. Campanhã, pelas fábricas de curtume e pelo isolado palácio arruinado do Freixo, que tem as armas dos Lencastres sobre a porta. Valbom, por ser a terra dos pescadores, que nas suas belíssimas lanchas vão ao mar. Gramido, sítio onde o sr. D. Miguel em 1833 estabeleceu uma ponte de barcos e onde em 1846 se fez a convenção entre as forças luso-espanholas e a Junta do Porto.

 

Os povos desde Atães até Pombal sustentam-se do produto das suas terras mandando apenas de vez em quando algumas melancias, melões e hortaliças para o Porto. É para notar que em toda esta extensão do rio, em quanto que os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que são as criaturas mais felizes do mundo e que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria. São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte.


Chegados ao nosso ancoradouro, tratamos de fazer os arranjos necessários para aí passarmos a noite.


Sou de VV. & c.
J. J. Forrester»

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Esta carta vem publicada no jornal O Comércio (nome primeiro d' O Comércio do Porto) do dia 11 de setembro de 1854.

 

1- Na publicação original que dela fez no blogspot, um anónimo de Arnelas fez o seguinte comentário, que creio pertinente também recuperar: «Arnelas nunca foi conhecida pelas suas madeiras e lenha, mas sim por ter sido um importante entreposto comercial desde o séc. XVI, na "guerra comercial" que moveu ao Porto nessa altura. Mais tarde foi a localidade onde se implantou uma das primeiras fábricas de cerveja do país. Ficou bem conhecida devido ao sável e à lampreia. É um lugar maravilhoso, não fosse a minha terra. (desculpem a modéstia!)»

 

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Originalmente publicada no blogspot em 21.04.2013

Condições para o fornecimento da iluminação a gás no Porto (1853)

06.04.19

Um das aspetos a meu ver fascinantes quando se estuda a história de qualquer cidade, prende-se com o estudo da evolução da sua iluminação pública. Não posso aqui fazer uma resenha histórica dessa evolução, deixando para um futuro possível uma publicação que o faça. O que pretendo agora dar a conhecer são as condições que a edilidade estipulou em 1853, orientadores da forma como a empresa que ganhasse o concurso para essa iluminação se deveria comportar. Os seus encargos e garantias, direitos e deveres, para com o município. Peço-vos que não o leiam como um "seco" contrato de concessão de um serviço, antes o aproveitem como uma janela para aquele mundo que aos poucos ia saindo do natural mover humano, para um mundo cuja artificialidade que hoje damos como garantida e até mesmo básica, ia tomando o lugar dos vagarosos movimentos naturais do dia e da noite e da real distância das coisas, que regulavam a vida sobretudo anteriormente ao advento da eletricidade.

 

A iluminação a gás chegou tarde ao nosso país. Na década de 10 do século XIX já Londres e Paris a tinham, enquanto no Porto apenas em 1824 se arrancava com a iluminação a azeite(!). Ainda no ano de 1834 a câmara de Lisboa recebeu propostas para dotar a cidade com esta inovação tecnológica, contudo só em julho de 1847 ela arrancaria na capital. No Porto as primeiras condições de que tenho conhecimento datam de dezembro de 1845, quando um indivíduo de nome J. B. Stears se obrigava a construir uma fábrica de produção de gás para iluminar a cidade. Mas ainda não era o momento. Enquanto em Lisboa as obras foram avançando em plena guerra civil (Patuleia), no Porto, mais uma vez o epicentro do conflito nacional, tal não chegou a acontecer. Foi necessário esperar pela Regeneração, tendo a iluminação a gás principiado em abril de 1855.

 

Em 1853, data das linhas que abaixo pode o caro leitor apreciar, quem detinha a concessão era Hardy Hislop. Mas, no ano do arranque da iluminação - 1855 - este trespassou-a à Companhia Portuense de Iluminação a Gás. Vejamos então o que estava em jogo nestas condições:

 

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« O Empresário ou Companhia de iluminação a gás é obrigado a estabelecer o aparelho de destilação, condensadores, depuradores e gasómetros fora de barreiras, em lugar não povoado, e só lhe será permitido o colocar dentro da cidade gasómetros para depósito de gás, precedendo para isso autorização da Câmara, e ouvindo o Delegado de Saúde.

 

A Câmara oferece gratuitamente para este efeito o terreno, que for demarcado da denominada Quinta do Prado do Bispo, próximo do cemitério público, na margem direita do rio Douro, podendo o Empresário ou Companhia utilizar-se dele durante o tempo do seu contrato, findo o qual ficará outra vez pertencendo ao município.[1]

 

Outro qualquer terreno, que nos termos do artigo 1º melhor possa convir ao Empresário ou Companhia, será por ele obtido e pago à sua custa, precedendo aprovação da Câmara e ouvido o Delegado de Saúde.

 

O número dos candeeiros a gás não será inferior ao da atual iluminação a azeite.

 

Quando convir à Câmara aumentar o número de candeeiros, marcado na condição 4ª não pagará por cada um maior preço, do que estipula pelo presente contrato para cada um dos outros.

 

A colocação e distribuição dos candeeiros de gás será feita com aprovação prévia da Câmara.
§ único - Se a Câmara a todo o tempo julgar necessário alterar a colocação de alguns candeeiros essa mudança será feita à custa da Câmara.

 

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i1 construção de um gasómetro para o armazenamento do gás (atrás do fotografo fica atualmente o bairro do Aleixo).

 

Os candeeiros serão de chapa de cobre assentado sobre braços ou candelabros de ferro fundido, e todos numerados.
§1 - Nas praças e ruas largas que a Câmara designar, os candeeiros serão colocados em pedestais.
§2 - O modelo dos candeeiros, braços, pedestais e bicos de que trata a condição 10ª será da aprovação da Câmara, e depositado nos Paços do Concelho, para servir de padrão.
§3 - Os candeeiros, braços ou pedestais serão pintados a óleo pelo menos de dous em dous anos.

 

A condução do gás será feita por tubos de ferro fundido de suficiente capacidade, e solidez, e devidamente experimentados perante um delegado da Câmara.
§ único - Os canos parciais da condução do gás para os edifícios públicos ou particulares serão de chumbo feitos com segurança.

 

A Empresa ou Companhia abrirá à sua custa as vias de canalização pelas ruas ou praças restituindo as mesmas ao seu antigo estado.

 

10ª O sistema de iluminação a gás será de leque como se acha estabelecido nas principais cidades da Europa. A chama não será menor de quatro polegadas de altura[2], de luz clara, brilhante, e sem o menor traço de fumo.

 

11ª A iluminação dos edifícios públicos ou particulares será feita a avença das partes, e nunca o seu preço excederá a dous reis por pé cúbico de gás[3]: este será completamente purificado, mas o sistema da luz será a avença das partes, e a colocação dos tubos condutores, lustres, candeeiros, ou bicos luminosos, não será da obrigação do Empresário ou Companhia.

 

12ª Os candeeiros de gás estarão acessos ao anoitecer, e serão apagados ao amanhecer. Nas noites de luar claro, desde o nascer até ao desaparecer da lua, se dará à chama a altura de duas e meia a três polegadas.

 

13ª Quando aconteça que uma ou mais luzes não tenham a altura e mais requisitos marcados nas condições 10ª e 12ª, será descontada ao Empresário ou Companhia, a quantia de duzentos e quarenta réis por cada luz e em cada uma das noites em que ocorrerem essas faltas.
§ único - Essa falta será participada à Câmara pelo Inspetor de Iluminação, e sendo verificada, o preço da multa ou multas a que se refere este artigo será descontado no primeiro pagamento que se houver de fazer à Empresa ou Companhia.

 

14ª A Câmara cede gratuitamente ao Empresário ou Companhia os candeeiros e objetos relativos da actual iluminação, os quais lhe serão entregues à medida que forem substituídos pelos de gás.
§ único - Os primeiros cem candeeiros que vagarem são excetuados desta disposição, e ficarão pertencendo à Câmara como propriedade municipal, sedo depositados nos Paços do Concelho, para em caso de incidente imprevisto poderem substituir temporariamente e parcialmente a iluminação de gás pela de azeite: e para aumento da mesma iluminação a azeite nos locais onde se julgue necessária.

 

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i2 fábrica do gás em Lordelo do Ouro. Hoje todo este grande terreno está ao abandono.

 

15ª Antes que o Empresário ou Companhia principie a iluminar a gás, todas as obras e aparelhos deverão ser examinados e aprovados pela Câmara, e só procedendo a esta aprovação é que a Câmara ficará obrigada aos pagamentos respetivos do presente contrato.

 

16ª Para os processos de distilação, purificação, canalização e mais particularidades relativas à iluminação a gás, o Empresário deverá empregar todos os meios conhecidos, tendentes a precaver todo o perigo na segurança ou detrimento na salubridade pública, e para esse fim fica obrigado à observância dos Decretos de 10 de Março de 1847, e 10 de Outubro de 1848, e bem assim das instruções do Prefeito de Paris de 31 de Maio de 1842.

 

17ª Todas as obras de iluminação por meio de gás deverão estar concluídas no prazo de trinta meses, no de quinze meses as da cidade baixa e mais frequentada, e nos outros quinze, as do resto da cidade e ruas contíguas das freguesias suburbanas.

 

18ª Logo que o Empresário ou Companhia tiver realizado a iluminação de quinhentos candeeiros a gás, terá princípio o tempo de duração do presente contrato, estipulado na condição 24ª e será obrigado a tomar a seu cargo a iluminação provisória de azeite no resto da cidade e das freguesias suburbanas.
§ único - O preço da iluminação a azeite será calculado para cada candeeiro pelo termo medio do custo da mesma aos últimos cinco anos.

 

19ª - Todas as despesas na prontificação das obras, reparos, limpeza necessária, e costeamento da iluminação são da competência do Empresário ou Companhia, e a Câmara somente fica obrigada ao pagamento trimestral do preço porque foi contratada a iluminação.

 

20ª Todo o incidente imprevisto que obrigar a interromper a iluminação a gás, e a substitui-la pela de azeite em algum ponto da cidade, deve ser participado à Câmara, e perante ela justificado no prazo de vinte e quatro horas.
§1 - As despesas de substituição serão à custa do empresário ou Companhia. A Câmara somente se obriga a emprestar-lhe os candeeiros que conservar em depósito, se ainda os não houver empregado.
§2 - O preço da iluminação a azeite, por cada candeeiro desta substituição será calculado, e pago ao Empresário ou Companhia em conformidade com o estipulado na condição 18ª § único.

 

21ª Até à conclusão completa de todas as obras para a iluminação a gás, o Empresário ou Companhia será obrigado a prestar uma fiança a aprazamento da Câmara, pela quantia de dez contos de reis, e perderá além dessa quantia todas as obras que tiver feito, se não levar a cabo as condições do contrato.

 

22ª Todas as perdas ou danos causados a particulares, ou ao público, pelo Empresário ou Companhia, resultantes das obras, ou processo de iluminação serão por ele indemnizados.
§ único - Para este fim prestará fiança no ato de se efetuar o contrato, por meio de Escritura Pública.

 

23ª Os atuais empregados da iluminação da cidade serão preferidos, em igualdade de circunstâncias para o serviço da Empresa, e da mesma forma serão preferidos sempre que seja possível operários nacionais a estrangeiros.

 

24ª A duração do presente contrato é pelo prazo de vinte anos, contando desde a época marcada na condição 18ª.

 

25ª As fábricas, aparelhos, utensílios, e quaisquer outros materiais, ou obras que a Empresa adquirir, ou fizer para levar a efeito a iluminação a gás, serão no fim do contrato cedidos à Câmara, e por ela pagos à mesma Empresa, precedendo avaliação por peritos.
§ único - O Empresário ou Companhia perderá as fábricas, aparelhos, utensílios, e quaisquer outros materiais, ou obras que a Empresa adquirir ou fizer para levar a efeito a iluminação a gás, e ficarão sendo propriedade municipal se durante os vinte anos abandonar a iluminação sem que ele possa exigir indemnização alguma.

 

26ª Um ano antes de finalizar a duração do contrato quando tenha de se abrir novo concurso, o Empresário ou Companhia que tiver existido será preferido em igualdade de circunstâncias.

 

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i3 desenhos aprovados pela câmara em 1854 para a construção de consolas e candelabros de gás.

 

27ª Em caso de dúvida, constestação, ou divergência, entre o Empresário ou Companhia, e a Câmara será essa dúvida, constestação, ou divergência, decidida por árbitros da forma seguinte:
§1 - A Câmara nomeará dous vogais, e um suplente, e a Companhia ou Empresário nomeará igualmente outros dous vogais, e um suplente.
§2 - Estes vogais e suplentes não serão empregados da Câmara, nem da Empresa.
§3 - Os quatro vogais reunidos resolverão a dúvida contestação, divergência, e no caso de empate um dos suplentes tirado à sorte, decidirá.

 

28ª O Empresário ou Companhia, se for estrangeiro, desistirá de todos os privilégios que nessa qualidade lhe possam pertencer, e fará essa desistência no acto de celebrar o presente contrato.

 

29ª Quando a Câmara julgar necessária a fiscalização ou exame da densidade, pureza do gás, e de todo o mais que diz respeito à policia de iluminação, a Empresa será obrigada a facilitar todos os meios para isso necessários, e quando isso não cumpra, a mesma Empresa perderá da prestação que a Câmara é obrigada a pagar-lhe a parte correspondente ao tempo que durar a repugnância.

 

CONDIÇÕES TRANSITÓRIAS
O concurso para a iluminação a gás estará aberto por espaço de quarenta dias; o preço máximo será de dezasseis mil e quinhentos reis anuais por cada candeeiro; a Empresa será cedida a quem por menos preço a tomar com as condições referidas.

 

Os concorrentes deverão fazer depósito no Banco Comercial desta cidade, ou na Caixa Filial do Banco de Portugal da quantia de dez contos de réis em dinheiro de metal. Este depósito será restituido logo que a Empresa seja cedida e adjudicada. O Empresário preferido só receberá o depósito, depois de ter satisfeito as condições 21ª e 22ª.

 

Está conforme. Porto e Paços do Concelho de fevereiro de 1853
O escrivão da câmara, Domingos José Alves de Sousa»

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1 - O gasómetro nunca naquele terreno se instalou.

2 - Aproximadamente 10cm.

3 - I. é, 0,30 m3.

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Originalmente publicado no blogspot em 27.10.2013, agora revisto.