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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sobre a livraria Lello & Irmão

por Nuno Cruz, em 17.06.18

O texto que abaixo transcrevo foi publicado no jornal O Porto[1] de 4 de julho de 1911. Trata-se de uma resenha histórica sobre a origem da formosa livraria Lello & Irmão. No jornal, por baixo de uma fotografia da fachada que tão bem conhecemos deste estabelecimento estão, em destaque, as palavras com as quais inicio a transcrição.

 

*

«LIVRARIA CHARDRON - Rua das Carmelitas - FIRMA LELLO & IRMÃO

Aí por 1868 estavam em princípio de decadência as duas mais importantes livrarias do Porto: a do Moré, na esquina da Praça de D. Pedro, e a do Podestá, aonde se acha agora o café Chaves[2].

 

Estacionavam perante o progresso, sem coragem para divulgarem entre o povo a leitura variada e barata, que então inundava a França, pelas penas de Montepin, Kock e Ponson de Terrail.

 

Alguns destes livros, publicados em folhetins nos jornais daqui e do Rio de Janeiro, despertavam a cobiça da burguesia, que almejava te-los sobre a cómoda, para os ler devagar, nas noites de inverno, ou nas tardes calmosas, sem esperar pelo continua do dia seguinte.

 

Ernesto Chardron, que viera de França, para a primeira daquelas livrarias, conhecendo o desejo do público e a negação da casa, que servia para essa iniciativa, abalançou-se a deixa-la e a estabelecer-se, por sua conta, a fim de tentar a experiência.

 

Fê-lo, e logo desde o princípio viu desenvolver-se o consumo das suas edições, e aplaudida a escolha da literatura, que lançara no mercado.

 

Desde então, a maior parte dos autores portugueses trabalharam para ele: traduziam; ele negociava os manuscritos, e o Teixeira, da Cancela Velha, imprimia tudo.

 

Não havia, ali, uma hora de descanso.

 

Como iniciara a publicação às cadernetas, todas as semanas, aquela casa era um verdadeiro armazém a contar, a empacotar, a expedir, a escriturar e a guardar dinheiro!

 

Atrás da literatura ligeira, importada da França, veio outra mais suculenta e séria, como as obras de Camilo, o Dicionário de Fr. Domingos, e depois Eça, a literatura religiosa, Teófilo Braga e outros, uma interminável lista, que abrange todos os nomes mais evidentes da literatura do segundo quartel do século XIX.

 

Por esse motivo, tornou-se aquela livraria, às tardes, o centro de conversa de todos esses autores, os que viviam nesta cidade, e os que, por aqui, passavam, a espairecerem, ou a tratarem de negócios.

 

Um dia saturou-se o mercado dessa literatura de tradução barata, que cansara o Chardron, resolvendo por isso, abandonar as obras de fancaria e dedicar-se, apenas, às de mérito.

 

A saúde também se lhe abalara, e tão intensamente que a vida se lhe escoou, ainda no vigor da idade[3].

 

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Fachada da livraria Lello & Irmão antes do restauro de 2016 (imagem Wikimedia Commons).

 

Passou, por isso, a casa à firma Lugan & Genelioux, que, pouco tempo depois, a transmitiu aos atuais proprietários, a respeitável firma Lello & Irmão[4].

 

O negócio tinha, nessa data, um fundo respeitável, de obras próprias, adquiridas; os novos proprietários aspiravam a concentrar em si o mercado editorial, estendendo ao Brasil a sua ação, para o que resolveram construir um prédio novo e apropriado, nas Carmelitas, especialmente adaptável a esse género de indústria.

 

Levantou-se, para esse fim, a elegante construção, representada na nossa gravura, e cujas instalações internas são dignas de ser visitadas, pois é um dos poucos prédios do Porto, propositadamente instalado para o fim a que se dedicou[5].

 

Entramos ali, e logo sentimos a impressão de estarmos numa casa, que conhece minuciosamente o artigo do seu comércio, e não num armazém de livros, em que tudo se amontoe péle méle sem critério, sem ordem e sem gosto.

 

Conhecem-a nacionais e estrangeiros; ali se encontra ou fornece tudo o que se procurar, com a vantagem de se colherem esclarecimentos prontos e exatos do que quisermos, - um requisito apreciável para quem dispõem de pouco tempo e, às vezes, deseja informações rápidas.

 

Apesar de estarmos quasi em frente, um do outro, não tomem os Srs. Lellos estas palavras, como lisonja de quem deseja ser bem visto pelos vizinhos; são expressões sinceras, de homenagem ao trabalho, à honestidade e ao mérito.[6]»

*

 

Hoje um ícone do Porto, esta livraria é um local de visita incontornável dos roteiros turísticos, sendo visitada por milhares de pessoas todos os anos. Igualmente merece que o portuense com o gosto pela história da sua cidade a visite e comprove que o seu interior é tão agradável à vista e digno de menção como a sua bonita fachada.

 

______

1 - Este jornal, que se definia como monárquico e extra-partidário, existiu entre dezembro de 1909 e o mesmo mês de 1911. Foi seu fundador e proprietário o Visconde de Sousa Soares e diretor Henrique Batista, capitão de Infantaria n.º 18. Era «excelentemente redigido e magnificamente impresso ... com larga informação, abundância de gravuras de acontecimentos, retratos de homens do dia, etc., e com interessantes e bem colaboradas secções» (Alberto Bessa in O Tripeiro, Série IV, p. 138).

2 - A primeira na esquina do Largo dos Lóios e a segunda no gaveto da rua do Laranjal com a rua de D. Pedro, um pouco acima do local onde agora podemos ver, na Avenida dos Aliados, a estátua da menina nua.

3 - Faleceu com 45 anos.

4 - Dos irmãos José e António Lelo.

5 - Foi no dia 13 de janeiro de 1906 que a livraria Chardron, inaugurou a sua nova casa na rua das Carmelitas. Presentes estiveram, entre muitos outros: Guerra Junqueiro, Afonso Costa, Duarte Leite, Abel Botelho, João Grave, João Arroio, Bento Carqueja, Júlio Brandão, Rocha Peixoto, Marques de Abreu, José Leite de Vasconcelos, Aires de Carvalho, Germano Martins, Bartolomeu Severino, Justino de Montalvão, Adriano Pimenta, Graça e Cruz, Sá de Albergaria, Xavier Esteves, M. Lugan, etc. O edifício foi construído em estilo neogótico inglês, projetado por Xavier Esteves e conta também com pinturas de José Bielman e medalhões em baixo relevo de Romão Júnior (O Tripeiro, Série V, n.º Ano XI, p. 284).

6 - Ainda segundo Alberto Bessa, os seus escritórios e oficinas situava-se « na Galeria de Paris, às Carmelitas, e na então rua da Rainha D.ª Amélia» e eram «das mais luxuosas e elegantes, não tendo havido até aí empresa jornalística alguma que se avantajasse».

Viagem a um Porto de outro tempo .4

por Nuno Cruz, em 10.06.18

Continuemos acompanhando Manuel Pinheiro Chagas na sua viagem ao Porto, naquele já longínquo mês de janeiro (e fevereiro) de 1865. Relembro os meus caros leitores que os títulos que antecedem os excertos transcritos fui eu quem tomou a liberdade de os criar.

 

*

O indomável Douro

«O Douro galgou por cima do cais, tomou as ruas, e intercetou em muitos pontos as comunicações. Como um leão, que se espreguiça sem a mínima intenção feroz, e que não outro direito senão o de estar à vontade, o Douro, sentido-se incomodado pela estreiteza do seu leito, invadiu pacífica mas irresistivelmente os sítios, que encontrou mais à mão, estabeleceu-se ali serenamente, lambendo com toda a amabilidade as paredes das casas, dando mostras de se querer portar como bom vizinho, de estar até resolvido a respeitar as posturas da câmara municipal, contanto que nestas não haja alguma disposição, que o contrarie.

 

Se o Douro fosse menos bem educado, o que seria feito das árvores e dos candeeiros do cais! Podia muito bem arranca-los brutalmente, e ir oferece-los ao oceano próximo. Era possível que o fizesse, se estivesse de mau humor; não estava. As árvores bracejam sossegadamente os seus ramos por sobre as águas. Os candeeiros contemplam com serenidade, e até com certo orgulho, os seus irmãos da terra firme, como pacíficos burgueses, que, ao princípio, todos apavorados por se verem metidos num barco entre as ondas, se recobram afinal do susto, reconhecendo a pacatez do mar, e olham desdenhosamente para os seus companheiros, que se ficaram na praia.

 

Depois das copiosas chuvas de janeiro, amanheceu finalmente, sereno e esplêndido, o dia vinte e oito, sábado. Toda a cidade soltou um suspiro de satisfação. Despovoaram-se as casas, e, como as lajes das ruas se enxugaram com uma rapidez verdadeiramente maravilhosa, as senhoras, não temendo macular as suas galas, correram pressurosas a visitar o Douro, que se dignára hospedar-se no Porto, determinado a espairecer algum tempo por aqui.

 

Aproveitemos o dia, leitor, e vamos ver a cheia.

 

Prepare-se para algumas surpresas. (...)

 

(...). Se formos renovar a nossa excursão a Miragaia, e quisermos passar pela Porta Nobre, antes de lá chegarmos, encontraremos o rio, que, sabendo talvez do que intentávamos, se deu pressa em vir ao nosso encontro. Agradeçamos-lhe a amabilidade, e voltemos para trás. Vamos a Cima do Muro, e vejamos isto.

 

O Douro, trepando até pouca distância dos primeiros andares, proibiu o uso das portas, e pôs fora os habitantes das lojas. Sumamente romanesco, só consente que se saia pelas janelas. A escada de corda, a aventurosa companheira dos ladrões e dos namorados, tem agora foros de legalidade. As escapades estão agora autorizadas.

 

Oh arrojo dos galanteadores! Escadas aéreas que as auras baloiçam! Capas flutuantes ao vento! Vultos gentis de mulheres, encostadas ao peitoril das janelas, esperando ansiosamente o resultado da intrépida excursão, empreendida pelos seus galãs! Oh! Mistério suavíssimo destas entrevistas! Lições ocultas de amor, cujos segredos enlevam tanto mais, quanto mais a furto se revelam! Afoitezas de amantes, perdestes o vosso prestígio!

 

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i1 Uma cheia no Douro (foto do Arquivo Municipal do Porto)

 

Sobem e descem os Bartolos pela escada dos Almavivas! Nas varandas das Rosinas encostam-se as cozinheiras! Os vultos, que deslizam ao longo das muralhas, não usam capa, usam capote de barregana! Tem obesidade, em vez da proverbial magresa! É nas bochechas do sol, indignado com tamanha audácia, que se executam estas façanhas, que só a lua costuma iluminar! É à face dos regedores, e dos tios, que estas coisas se praticam! Que digo? São os mesmos regedores, são os próprios tios, que perpetram estes descomedimentos! E descem para os barcos, e os barqueiros cortam a água com os remos, e o bote lá voga, lá foge, como se aquela casa esguia fosse um castelo roqueiro com os fossos profundíssimos, aquela janela uma gótica ventana, aquela rubicunda senhora uma pálida castelã, aquela casca de noz uma ligeira gôndola, aquele negociante um enamorado trovador!

(...)

Se o leitor está disposto a continuar a digressão, tem ainda muito que ver! Paremos aqui.

 

Há neste ponto uma prancha, que dá passagem de Cima do Muro para uma janela do primeiro andar! Ponte levadiça! Lá passa um vulto com passo firme.

(...)

Correi, homens de armas! Apressai-vos, dom castelão, vinde receber o nobre visitante! Pagens e donzeis, fazei honra! Pouco se demorou o cavaleiro! E ei-lo sai!... Trás um pacote de de velas de sebo!

 

Agora a explicação do enigma!

 

Na loja deste prédio havia uma mercearia. O Douro exigiu do merceeiro que lhe trespassasse a casa, e não houve remédio senão ceder! Mas o merceeiro não era homem que descoroçoasse por tão pouco. Viu-se expelido do rez-de-chaussée, estabeleceu-se no primeiro andar! Se o Douro continuasse a subir, o digno portuense iria para o telhado, e faria concorrência aos gatos! No primeiro andar improvisou um balcão, e armou a tenda. Os fregueses, não menos intrépidos do que ele, não o abandonaram. A ponte levadiça foi estabelecida. A frágil tábua chamou os habituais compradores, e, daqui por diante, a par do denodo militar e do denodo civil, há-de fulgurar com igual brilhantismo o denodo merceeiro!

 

Desçamos a escada que de Cima do Muro conduz à Porta Nobre, transformando-a em gruta aquática. Saltemos para um bote, e demo-nos ao prazer de passearmos embarcados no sítio onde, há pouco tempo andamos a pé.

 

Dizem que o primeiro barco fora um tronco de árvore cavado. Ei-nos voltados às Eras primitivas! A pouca distância de nós navega um homem não metido num tronco, mas num gavetão! É mil vezes mais pitoresco! Uma gaveta pacífica transformada em jangada! Oh! Inconstância das coisas humanas! Oh! Versatilidade da fortuna! Nem as gavetas podem contar com o futuro!

 

Desembarquemos e dirijamo-nos ao Palácio de Cristal. O dia é de veras favorável ao passeio! Que esplêndido, que saboroso sol de inverno! Parece que a natureza, temendo a volta imediata dos temporais, se apressa em gozar as delícias dessa primavera de um dia. A nós dá-nos maior prazer a trégua do inverno, do que a plena paz da primavera! Não é mais deleitoso o fresco oásis, no meio da aridez do deserto, do que as campinas esmaltadas de flores de extensas e sempre viçosas regiões?

 

Assim, leitor, avante! Aspiremos a plenos pulmões esta aragem seca e fria, que bebe de um trago as emanações húmidas da terra ensopada em chuva, como o areal bebe os rios que nele se perdem. Deixemo-nos beijar por esta luz clara e límpida do astro-rei, que fulgura tão esplendidamente no céu azul e desassombrado de nuvens agoirentas! Contemplemos a margem esquerda do rio, sempre verde, apesar do inverno, e que promete para os ardores do estio, frescas sombras e frondosíssimo arvoredo! A natureza, desejando resguardar estes sítios das iras do Douro, encobriu-lhes a aridez das rochas com o manto verdejante, que o inverno despe dos floridos recamos, mas que não consegue arrancar. Podem os troncos despojar-se das folhas, cair por terra amarelecido o magnífico dossel dessas florestas, mas as rochas nunca ficarão nuas, nunca os penedos ousarão mostrar nestes lugares abençoados a sua cabeça escalvada.

 

Ao longe, e no último cotovelo, que daqui se divisa, feito pelo Douro, descortina-se a serra do Pilar, nome tão gloriosamente celebrado nos fastos liberais. Depois Vila Nova vem molhar timidamente os pés no rio, que, lascivo como um sultão, em vez de lhos beijar trémulo e palpitante, ousa erguer-se voluptuosamente, e enlaçar a cintura da gentil vizinha do Porto, que de longe a está namorando, e contemplando aflito sem poder acudir-lhe, porque se vê igualmente dominado pelo diabólico déspota.

(...)»

 

O Candal

«Se o Douro é sultão, devemos inveja-lo; porque nenhum teve ainda mais formoso harém! Depois de Vila Nova a louçã, Candal a viçosa! Candal, onde o Guilherme do Amaral de Camilo, foi esconder os seus amores! Se amores são rouxinóis, que gostam do mistério e da sombra do arvoredo, nunca mais risonho e misterioso tálamo se lhes ofereceu para se ocultarem da vista do mundo, e descantaram lá do fundo da espessura as suas trovas apaixonadas! Agora a luz do sol de inverno revela-a, como formosa mulher, a quem um postigo indiscreto, abrindo-se de súbito, faz aparecer no mais simples e desalinhado negligé da manhã! Vergonhosa de se ver surpreendida, retrai-se, procura esconder-se; mas brilha o sol em todo o seu esplendor, e não pode deixar de se mostrar desataviada como o inverno a deixou. Mas de verão, quando pompear todas as suas galas, todo o viço dos seus bosques, todo o esplendor das suas flores, como deve ser bom viver ali, e duplicadamente bom amar... amar que é viver duplicadamente.

 

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i2 Vista do Vale de Amores ou Vale da Piedade tirada dos jardins do Palácio de Cristal. Ao centro temos a propriedade particular que já foi convento de Santo António de Vale da Piedade, mais atrás, parte da zona do Candal. (fotografia do Autor)

 

E que deliciosas vivendas que por lá se vêm, agora isoladas, mas que no estio se descortinam apenas por entre a maciça verdura que as rodeia! Além ergue-se uma casa situada admiravelmente! É uma saboaria! Dizem-me que, num outro sítio também delicioso das margens do Douro, o Freixo, existe igualmente uma fábrica de sabão! Será o sabão, um missionário do prosaísmo, encarregado de desencardir as lindas paisagens dos arredores do Porto da poesia, que as mácula aos olhos dos utilitários? Pois irão força-la até nos últimos entrincheiramentos? Fugiu das cidades, deixou o campo livre às especulações mercantis, refugiou-se nos arvoredos, escolheu para habitar esses pavilhões de verdura, que não supôs lhe seriam invejados, esses palácios, aonde não vão os mestres de obras, e cujas majestosas colunatas foram erguidas por esse medíocre arquiteto, que se chama... Deus, arquiteto, que não pode por forma alguma rivalizar com os refazedores sublimes das modernas cidades, esses teatros, onde canta uma companhia lírica de rouxinóis, que nem dão o  de peito, nem fazem ginástica de garganta... e daí mesmo a vão espancar! Mandam as saboarias estabelecer-se nesse asilo umbroso de poetas e namorados!»

 

Vale de Amores

«E então que lindo nome que tem esse sítio! Vale de Amores! Vejam como isto soa bem! Saboaria de Vale de Amores! Quando se dirá: «Fábrica de curtumes da Fonte das Lágrimas! Refinação de Açúcar da Saudade!». É não pararem em tão bom caminho!

 

Este nome de Vale de Amores tem uma história. Foi este, segundo creio, o primitivo nome; porém depois edificou-se ali um convento. Os frades assustaram-se com a profanidade de tal denominação, temeram que nome tão azado a devaneios pouco religiosos os perturbasse nas suas meditações, e lhes fizesse voltar os olhos do céu para a terra, mais vezes do que era mister!

 

Tinha que ver se o sítio do convento vinha a ser motivo de tentações, e se os pobres frades, que já se viam abarbados com o mundo, o diabo e a carne, tinham ainda às costas o nome do mosteiro! O título do vale foi abolido, proscrito, excomungado, e substituído pelo pacífico e bem aventurado nome de Vale da Piedade! Não sei se as voluptuosas emanações, que deviam rescender na ramaria, e no arrelvado tapete de tão formoso lugar, fugiram com a denominação exilada, nem se as devotas intenções do excomungador foram cumpridas à risca; sei apenas que, mal desapareceram os monges, reapareceu o nome de Vale de Amores, o qual, como já lhes disse, escapou do convento, e caiu numa saboaria, e, se continuar na escala descendente, há-de ir parar nalgum barão, que é, segundo o parecer de Garret, o herdeiro do frade.

 

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i3 Jardim do antigo convento de Santo António de Vale da Piedade, hoje propriedade particular (fotografia do Autor) 

 

Adiante, leitor! Veja-me este Douro; como ele corre impetuosamente! E com tal velocidade que nem o sol tem tempo de se lhe espreguiçar nas águas, e doidejar graciosamente, espalhando por cima dele os seus dourados raios!

 

Seintila, e a corrente leva-lhe as faíscas na vertiginosa carreira, como serpente que se vai arrastando veloz com escamas reluzentes! Se o leitor o visse ao pá da ponte, furioso por encontrar resistência! As águas chegam, batem, não podem passar, empinam-se com desespero, voltam sobre as outras que se lhes seguem, travam medonho colóquio, rugem, desabam umas sobre as outras, fervendo em cachão, redemoinham de um modo assustador; e assim estão naquele combate incessante, temíveis até na sua impotência!

 

Mas já passamos o Cais Novo, e, para irmos ao palácio de Cristal, temos que subir uma formidável ladeira. Não acha melhor que respiremos um pouco, e que tomemos folego antes de principiarmos a ascensão?»

*

 

Prosseguirá...

D. Manuel de Santa Inês - um bispo proscrito

por Nuno Cruz, em 05.06.18

Nestas coisas de ver jornais velhos, vou encontrando histórias bem interessantes e surpreendentes; muitas delas dignas de figurar em livros monográficos. A história das cerimónias fúnebres do bispo em título é disto um exemplo.

 

Em 24 de janeiro de 1840 faleceu D. Manoel de Santa Ignez, governador do Porto e seu bispo desde 1832. Separava-o dos outros bispos a forma como chegara ao cargo: por escolha régia. Na verdade, este bispo nunca foi confirmado pelo papa, e claro, foi eleito por D. Pedro IV por ser um caso raro: um eclesiástico afeto à causa liberal! Data de 18 de julho a sua nomeação, assinada por José Xavier Mouzinho da SIlveira que refere: «Tendo-se verificado por inquirição de testemunhas que o bispo do Porto desertara daquele rebanho de Jesus Cristo, que tinha sido confiado ao seu ministério (...): Hei por bem, em nome da rainha, nomear para fazer as vezes de bispo, na qualidade de Governador do mesmo bispado, a Frei Manuel de Santa Inês, da Ordem dos Religiosos de Santo Agostinho Descalços (...)». Assim vem publicado na Cronica Constitucional do Porto de 19 de julho de 1832. Diga-se de passagem, que ao mesmo prelado foi entregue o arcebispado de Braga, que se encontrava em Sede Vacante pelo mesmo motivo: fuga.

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i1 - busto de D. Manuel de Santa Inês em Baguim do Monte, sua terra natal (foto: wikipedia)

 

O bispo ausente era D. João de Magalhães e Avelar, que sempre se mostrara contra o liberalismo (ironia das ironias, falecido logo em 1833, a sua valiosa biblioteca pessoal veio a constituir o núcleo inicial da Biblioteca Pública Municipal do Porto, fundada por D. Pedro IV no mesmo ano!).

Mas Dom Manuel de Santa Inês parece ter sido algo proscrito pelo Cabido; e mesmo a cronologia dos bispos do Porto disponível na internet não o inclui, talvez pela falta de confirmação papal, que de facto nunca teve (veja-se a imagem abaixo).[1]

 

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i2 - Excerto da Cronologia dos bispos do Porto onde D. Manuel de Santa Inês não consta.

 

Contudo, esta publicação centra-se sobretudo na forma como se passaram as suas exéquias fúnebres, que reforça a minha convicção de que aquele bispo nunca foi bem aceite por todo o clero diocesano...
Mas antes de lerem o restante, caros leitores, a advertência de sempre: toda esta informação colhi-a n' A Vedeta da Liberdade, pelo que dada a clara "cor" dos jornais da altura (e os de hoje serão assim tão diferentes?...), representa os factos vistos unicamente por aquele periódico que não morria de amores pela Carta Constitucional...

 

Logo no dia 25 teve lugar na Sé «o ofício solene de defuntos, pelo repouso da alma do Exmo. bispo eleito». A missa foi cantada pelo Chantre Tomás da Rocha Pinho «e tanto este senhor como os seus companheiros, que estava no seu coro baixo, de batina e capa, só figuravam como particulares, e não como cabido.»

O jornal prossegue com uma pequena descrição das autoridades e militares presentes, dizendo também que o General Barão de Alcobaça «tinha mandado dar tiros de artilharia de espaço a espaço, e ele mesmo se postou à testa de toda a tropa de pret e voluntários móveis, fixos, e provisórios, tanto da cidade, como dos subúrbios, que chegava desde a porta da Sé até ao meio da rua Chã».

E prossegue: «Quando o finado bispo eleito se sacramentou, com aquela candura, e humildade cristã, que tanto o dominava, pediu ao Ilmo. cabido, que por favor sepultassem seu corpo em uma sepultura do claustro; é neste lugar, que se sepultam os cónegos[2] (...). O Illmo. cabido, ou quem quer, que domina em designar, em tais casos, as sepulturas, mandou abrir a campa, não no claustro, debaixo dos arcos, mas sim num lugar descoberto, que fica circundado pelo claustro.

Acabado o ofício quando se tirava da eça o caixão para se conduzir à sepultura, principiou um grande alarido, pedindo uns que o cadáver fosse conduzido para a real capela da Lapa, e outros, que fosse sepultado no jazigo dos Srs. bispos; crescia cada vez mais o tumulto, e o povo ameaçava os cónegos, e lhes exprobrava não fazerem as devidas honras ao bispo feito pelo Sr. D. Pedro = os que levavam o caixão, e o mais do préstito fugiram, e o caixão ficou ao desemparo no meio do chão, e só ficou abraçado no mesmo caixão o Sr. abade de S. Nicolau: nisto deu o Sr. abade um público testemunho da sua amizade, e da sua gratidão, nisto mostrou este benemérito pastor, que se não esqueceu, que ele era esse Sr. Faustino, a quem sua Excelência tanto beneficiou em vida, como já dissemos[3].

 

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i3 - A área central do claustro da Sé portuense numa fotografia disponível na Gallica, seria este o "lugar descoberto" onde se pretendeu sepultar D. Manoel de Santa Inês?

 

Estando as cousas nesta desordem o Exmo. Sr. Barão de Alcobaça e o Exmo. Sr. Administrador Geral trataram de acomodar o túmulo (sic), do melhor modo possível: o Ilmo. cabido assustado já oferecia, que o cadáver fosse sepultado na capela de S. Vicente, jazigo dos Srs. bispos; um momento pareceu o povo deliberar, mas as vozes se ouviram: à Lapa à Lapa, porque podem desenterrar o corpo e leva-lo para outra parte: estas vozes foram seguidas, e o caixão tornou-se a por na eça, havendo a circunstância, que algum cuidado deu, de se queimar um bocado do bambolim, que servia de ornato à eça.

 

Decidido, que o cadáver fosse sepultar à Lapa, deram-se todas as providências para esse fim.

 

A irmandade da Lapa, mandou à pressa armar de preto os altares, da sua ampla, e majestosa igreja. O concurso foi imenso à porta da Sé, e ruas contiguas; e apesar de estar uma noite escura, e chuvosa, o acompanhamento, e concurso das ruas do trânsito, era grande.

Seriam 8 horas quando chegou à Lapa o carro da morte, puxado a duas parelhas.

O caixão foi recebido à porta da igreja, aonde se lhe entoou um responso, cantando a oração o Ilmo. Sr. Cónego Luís de Santa Rita Araújo, especial amigo de sua Ex.ª.
- Depositado o caixão na capela mor, e cantado o responso a musica, foi o cadáver conduzido para o jazigo dos mesarios, e aí se lhe fez a embalsemação, para se transportar, a seu tempo, ao mausoléu, que se lhe destina fazer.

Toda a real capela da Lapa estava iluminada, e o número de assistentes com tochas era prodigioso. Uma força de artilharia de linha, em grande uniforme, um esquadrão de cavalaria, e uma pequena força do 1º batalhão da G. N. com a sua música acompanharam, com imenso povo, o carro da morte.

Desde o meio da tarde, os sinos da Sé, e à noute todos os da cidade com seus acentos tristes, anunciavam o ato religioso, que à noute teve lugar.

Assim findou este ato, que tantos motivos deu para elogios, e para censuras.

Em toda a cidade é a conversa do dia os procedimentos do Ilmo. Cabido, a quem censuram por mais de um motivo.

Censuram-se os membros do Ilmo. Cabido, que não acompanharam o Sagrado Viático, censuram-no também por não assistir ao ofício, em corpo de cabido, por se ter colocado a eça, no corpo da igreja, como se sua Exa. fosse um sacerdote ordinário. Argumenta o público que tendo todas as autoridades civis, e militares, tributado ao vigoroso vigário capitular, todas as honras de bispo, sem recearem, que o governo os censure, ou lhes tome conta da pólvora, que se gastou, o Ilmo. Cabido, não devia ter tantos escrúpulos, nem ser tão exato nos seus rituais. (...)»

 

Uns dias mais tarde, acharam por bem alguns membros do cabido explicar as suas ações e enviaram uma comunicação para os jornais:

 

«O Cabido da Sé da Invicta Cidade do Porto para conhecimento do Público.
Tendo o Cabido da Sé Catedral desta invicta cidade observado com a maior dor, e mais profundo sentimento; como as cerimónias do funeral feito a S. Exa. o Sr. bispo eleito da diocese D. Manuel de Santa Inês em 25 do corrente foram interrompidas por desentoados alaridos quasi no momento de chegarem à campa os restos mortais daquele virtuoso varão; e vindo no conhecimento, que talvez pessoas mal informadas das Leis Eclesiásticas da liturgia própria do ato, e até da posição do Cabido com relação àquele funeral tem querido lançar o odioso sobre o mesmo Cabido ou alguns dos seus membros; desejando estes que a verdade e só a verdade apareça em objeto tão importante, faltariam aos deveres da caridade cristã, e à sua própria honra se se conservassem silenciosos sobre negócios de tanta gravidade.

A corporação do Cabido não teve ingerência alguma sobre a determinação, e arranjo do funeral; e menos sobre a designação da sepultura. Esta foi da escolha de S. Exa. segundo a declaração da respeitável pessoa que lhe recebeu sua última vontade. O Cabido nem neste ponto, nem noutro relativo ao funeral mostrou a mais pequena repugnância em ordem a honrar os restos mortais do bispo eleito - Em corporação assestiu ao ofício de honras celebrando o chantre do Cabido, e oficiando os mais cónegos segundo o ritual. E em corpo seguia em porcissão o cadáver à sepultura, quando um barulho, e motim veio profanar a santidade e conclusão do ato - ficando tudo na mais completa desordem!!!

Debalde o Reverendo Santa Rita, cónego que havia assistido aos últimos suspiros de S. Exa. declarou qual era a sua vontade, e que conforme ela ia ser sepultado... Esta vontade era esquecida, então mesmo que se inculcava fiscalizar sua glória e que se deviam honrar virtudes, que ninguém desconhecia ... Uns pertendiam que fosse levado o cadáver do Ile. varão ao jazigo dos bispos, e por esta falta quer-se acusar o Cabido - sem se advertir, que o Cabido não tem nada com o jazigo dos bispos, que pertence aos bens da Mitra; que se alguma providência houvesse a dar, pertenceria a sua Exa. o Sr. Administrador Geral (...); e sem enfim se advertir que pedir tal era solicitar a infração do decreto de 21 de setembro de 1835 visto que o jazigo é na capela mor.

Pertendiam outros, no excesso do seu zelo representar de menos decente a sepultura destinada, sem se reparar que aquele local é o próprio cemitério dos cónegos; aquele em que há pouco foi sepultado o Ilmo. e virtuoso conselheiro João Pedro Ribeiro; aquele enfim, que S. Exa. tinha escolhido, ou por humildade de caráter ou pela consideração para com um Cabido, que sempre tinha feito a verdadeira justiça às suas virtudes e com quem sempre vivera em harmonia ainda que pelo Conc. de Terent. Sess. 24 de Reform. C. 12 e Cerimon. Episc. L. 1.C. 8 e L.2.C.8. não pudesse, enquanto não sagrado, acompanha-lo na celebração dos ofícios divinos.

Finalmente lembraram outros o cemitério da Lapa - a vozes tumultuosas de - Lapa, Lapa - sem se saber como ou porque razão dadas!... Esta lembrança; talvez a mais contrária à vontade de S. Exa. prevaleceu, sendo secundada pela autoridade.

O Cabido respeita a ordem, que sancionou aquela voz, cujo fundamento nem mesmo quer investigar; mas não pode consentir, que se menoscabe seu procedimento envolvendo-o numa censura, de que com verdade se não achará causa razoável. Ele fez o que devia, e o que podia sem se afastar uma linha do preceito, e do costume: como é fácil de conhecer pela simples exposição do facto: pertender mais era querer a desordem e eis aqui porque o seu coração tão puro, como suas ações prevê com bem sólido fundamento, que os homens que sabem profundar os objetos, e meditar nas suas relações hão-de fazer-lhe a justiça, que merece... O Cabido tanto tem querido acertar com o verdadeiro caminho que logo que faleceu S. Exa. expediu um próprio a Lisboa a pedir as necessárias instruções sobre nomeação do vigário Capitular para que não deslocando o seu proceder do sistema sensato do governo em matérias religiosas não viesse de alguma sorte a comprometer o andamento das negociações com a Corte de Roma - e a consciência dos povos. Quem assim procede, não teme ser julgado.»

Esta comunicação vinha assinada pelo Chantre Tomás da Rocha Pinto, pelo Tesoureiro mor José da Rocha Pinto, pelo Arcediago de Oliveira Ricardo VanZeller e pelo Acipreste Alexandre da Cunha Vale. Antes dela vem a análise feita pela A Vedeta da Liberdade que não transcrevo para não alongar uma já longa publicação.

 

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i4 - Aspeto atual do mausoléu de D. Manuel de Santa Inês no cemitério da Lapa. De acordo com o Cabido este local da inumação contrariou a última vontade do defunto. (foto do autor)

 

Posteriormente - em 31 de janeiro - o Governo chefeado por Costa Cabral, por lhe ter chegado notícias que «o sossego público da cidade do Porto estivera por momentos a ser seriamente alterado» por alturas do funeral do bispo, e como «não podendo dos papeis, em que este facto é relatado, inferir-se com certeza quem dera a ele motivo, por isso que todos se contradizem entre si»; manda o Conselheiro Presidente da Relação do Porto que o informe muito brevemente «do modo porque teve lugar aquela desagradável ocorrência; declarando se ela foi puramente fortuita, ou se foi provocada, por quem, com que motivos, e para que fins prováveis».

 

Polémicas funerárias à parte, para a eternidade ficaram gravadas estas palavras no túmulo de D. Manoel de Sancta Ignez, ainda hoje patente no cemitério da Lapa:

 

À MEMORIA DE D. MANOEL DE SANCTA IGNÊZ ERIGIRAÕ OS HABITANTES DESTA CIDADE INVICTA ESTE MONUMENTO QUE ENCERRA OS DESPOJOS MORTAIS DO INCLYTO PRELADO TRASLADADOS AQUI A INSTANCIAS DOS CIDADAÕS QUE CONCORRERAÕ ÀS SUAS EXEQUIAS NA CATEDRAL
1840
*
NASCÊO EM 2 DE DEZEMBRO DE 1762, FOI NOMEADO BISPO POR S.M.I. O DUQUE DE BRAGANÇA EM 1833, ANNO DO MEMORAVEL CERCO DO PORTO, FALECÉO EM 24 DE JANEIRO DE 1840
*
A MITRA NAÕ CINGIO A SUA FRONTE; MAS FALTE A MITRA EMBORA: DESSA FALTA NADA SEU GRANDE NOME SE RESENTE ADORNADO, COMO ELLE, DE VIRTUDES QUANDO NAÕ EXISTIO, QUE ASSIM CUMPRISSE DO SACRO MINISTERIO AS FUNCÇÕENS TODAS.


Para quem quiser saber mais sobre a vida deste bispo, existe um manuscrito inédito na Biblioteca Pública Municipal do Porto, pela pena de Henrique Duarte da Sousa Reis que foi seu secretário (mais conhecido por ter escrito os Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto).
Quanto ao bispado portuense, este só ganharia uma nova cabeça passível de ostentar a mitra episcopal três anos depois da morte deste prelado, que fora - não se pode negar - escolhido pelo "regente em nome da rainha"...

 

_________

1 - Para saber um pouco mais sobre a vida deste prelado é só dar um salto à sua página no sítio da Junta de Freguesia de Baguim do Monte.

2 - ou seja, não os bispos, que estes ficavam dentro da igreja.

3 - pelo "tom" das palavras poderá haver aqui uma crítica velada...?

 

NOTA FINAL: Esta publicação foi a última a ser colocada na casa antiga deste blogue no blogspot, dividida em duas partes, em 12 e 18 de junho de 2017.

A quase esquecida revolta dos marceneiros

por Nuno Cruz, em 31.05.18

A nossa cidade conta já com algumas revoltas ou motins ao longo da sua história; umas mais bem sucedidas do que outras, umas mais importantes do que outras e umas mais conhecidas do que outras. A que vos proponho relatar faz parte do lote das pouco conhecidas. Não me posso arvorar em portador de uma grande novidade, pois os tumultos que tiveram lugar no Porto em 25 e 26 de abril de 1836 foram já descritos por um ou outro historiador da cidade. Ainda assim, não conheço descrição que o refira com o pormenor que aqui pretendo expor; resultante da consulta dos jornais da época onde podemos encontrar miudezas que talvez nos entreguem melhor conhecimento sobre os protagonistas e a forma como tudo se terá passado.

 

Vamos primeiro contextualizar: estamos em meados de 1836. O país vai ainda no início da sua caminhada pela monarquia liberal, que só estabilizara realmente cerca de quinze anos depois. A cidade passa por um período de grande aperto alimentar com a falta do cereal, matéria prima do pão, ao mesmo tempo que o comércio nesta secular cidade comercial se vai abrindo aos bens comprados no estrangeiro. Ora, se eu tenho fome mas não consigo vender os bens que produzo por não conseguir competir com a concorrência... (isto sou eu a colocar-me na pele de um artesão português da época); Entram agora os tumultuários (que não se lhes pode chamar revoltosos). Deixarei a responsabilidade de relatar tudo o que se terá passado aos jornais A Vedeta da Liberdade e O Artilheiro de 26 de abril de 1836, para então depois acrescentar alguma informação que nos dias subsequentes foi sendo aditada, entre justificações pessoais, documentos oficiais e desmentidos.[1]

 

***

Segundo A Vedeta da Liberdade:

«TUMULTOS DOS ASSAMBLADORES

Houveram ontem sérios tumultos nesta cidade, mas nenhuma cor política os acompanhava – era a miséria e a fome a guerrear a indolência do Governo. É este o caso.

Souberam os sambladores que estavam desembarcando de um brigue hamburgês muitos trastes, como mesas, cómodas, relojos (sic), pianos, e outras cousas de mão-de-obra estrangeira. Foram ter-se com o Exmo. Governador Civil, representando-lhe que desse as providências necessárias para cessar o desembarque de similhantes móveis que vinham fazer a sua miséria, por virem empatar a venda dos nacionais, e sujeitar por conseguinte milhares de pessoas há morte. Sossegou-os o Exmo. Governador Civil dizendo-lhes que não podia violar a Lei suspendendo o desembarque, mas que estivessem certos que iria representar a S. M., e que havia de obter o remédio para os seus males. Partiu o povo, mas este que não atende à lei quando a necessidade urge, foi fazer ao Ilmo. Administrador da Alfândega a mesma petição que ao Exmo. Governador Civil tinha feito, no que também não foi atendido.


Exasperaram-se então os pretendentes, e determinaram fazer-se justiça por suas próprias mãos. Foram às barcas que conduziam os móveis, e quebraram toda aquela quinquilharia, não deixando um cavaco direito. - Não contentes com isto foram ao armazém da igreja velha de S. Domingos, e fizeram outro tanto aos que aí se tinham já recolhido. - Quiseram ir também a casa de Mr. Guichard, mas o Exmo. Governador Civil que aí se achava presente, pode conseguir que se retirassem sem barulho algum. - Dizem que alguns pequenos grupos quiseram fazer o mesmo por diversas partes. Na Alfândega quiseram também entrar por fim, mas aparecendo o Exmo. Governador Civil, e uma patrulha da Guarda Municipal lançando fora o grupo e fechando as portas, pôs fim àquela pertenção.


Tanto na igreja velha de S. Domingos, como na Alfândega, apareceu o Exmo. Governador das Armas, sossegando o povo, e dando com ele vivas à rainha e à Carta.


Na calçada dos Clérigos foi aonde os tumultos duraram até à noite, defronte das lojas de Guichard e Tallone.


Chegada que foi a noite tudo se retirou a suas casas sossegadamente, isto é – sem força alguma que a isso os obrigasse.


Diga-se uma vez em abono do povo – não consta que alguém fosse ofendido em sua pessoa, nem que se cometesse roubo nem ainda do mais pequeno valor – era uma multidão inerme que não usou de outras armas além das que lhe deu o furor desatinado.


E diga-se também em justo louvor do Exmo. Governador das Armas, que só a sua prudência salvou o Porto ontem dos horrores da anarquia. Nenhuma violência usou para com o povo – e a sua presença – a persuasão e o bom modo, foram as únicas armas que empregou para com a multidão que lhe pedia pão, ou meios honestos de o ganhar. Uma autoridade que carregasse o povo, ou que ousasse contra ele arrancar a espada, faria correr rios de sangue, e não conseguiria talvez o desejado fim.

(...) »

 

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« ...o certo é que os homens sairam e reunindo-se a mais alguns marcharam direitos ao cais do Douro e fizeram em pedaços todos os móveis que ainda se achavam nas lanchas que os tinham trazido de bordo do navio... »

 

Segundo O Artilheiro:

«"Hoje [25] pela manhã perto do meio-dia, uma porção de homens que se diziam merceneiros, se reuniu na praça da Batalha desta cidade, e dirigiu uma deputação, segundo nos disseram, de três de entre si, ao Exmo. Gov. Civil Interino, a representar-lhe que desse providências para obstar ao desembarque que se estava fazendo de alguns moveis estrangeiros que vinham abundar o nosso mercado, e por consequência diminuir o trabalho daqueles operários, e que por isso ficavam sem ter em que trabalhar para ganharem o necessário para a sua sustentação. Parece que S. Exc. lhe disse que nada podia fazer, visto que a admissão dos móveis era permitida pela lei.: o certo é que os homens sairam e reunindo-se a mais alguns marcharam direitos ao cais do Douro e fizeram em pedaços todos os móveis que ainda se achavam nas lanchas que os tinham trazido de bordo do navio. Este procedimento atraiu muita gente, como era natural, alguma da qual tomou também parte nele: depois dirigiram-se à rua de S. Domingos, onde havia um armazém de móveis estrangeiros, ao qual quiseram lançar fogo, ao que obstou o comandente da Guarda Municipal, não podendo contudo obstar a que quebrassem alguns dos mesmos móveis.


Neste tempo acudiu o Exmo. Barão da Fonte Nova, governador das Armas desta província, em virtude da participação que tinha do facto, e tendo a fortuna de atrair as simpatias deste povo, falou aos alborotadores, a persuadi-los que desistissem da sua empresa, o que com efeito conseguiu, e eles se dispersaram aparentemente.

 

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« ... Não contentes com isto foram ao armazém da igreja velha de S. Domingos, e fizeram outro tanto aos que aí se tinham já recolhido ... »


Pouco depois tornam-se a reunir e foram atacar a Alfândega, e segundo nos informaram, aí desenvolviam a sua raiva contra todas as manufaturas estrangeiras: porém foram contidos pela Guarda e empregados da mesma Alfândega, e se puderam fechar as portas: entretanto conservaram-se nas ruas adjacentes, até que tornando a aparecer os Exmos. Barão da Fonte Nova, e o Exmo. Gov Civil, conseguiu pela segunda vez e por meio de persuasão, que os alborotadores se dispersassem: porém ainda não desistiram da sua empresa porque: no fim da tarde se tornaram a reunir na calçada dos Clérigos, e aí atacaram duas lojas, com o pretexto de serem estrangeiros; porém tornando a aparecer o Exmo. General, conseguiu o mesmo que das outras vezes, de sorte que ao começar a noite estava tudo tranquilo, depois de ter mostrado um aspeto assustador: o que não obstante o Exmo. General não deixou de tomar todas as cautelas, e de dar as maiores providências para que se não repetissem semelhante atos....»

***

 

Os tumultos continuaram ainda no dia seguinte mas já sem o caráter assustador dos do anterior. Desta vez os ataques foram dirigidos ao excessivo preço do milho dado que os negociantes da praça dos Voluntários da Rainha se viram na necessidade de o vender a 430 rs. Isso originou a que imenso povo ali se concentrasse, obrigando as autoridades a colocar sentinelas à porta dos celeiros para conter qualquer desordem. Diz o jornal que uso para estas linhas - A Vedeta da liberdade - que o milho foi todo ele vendido mas quem o comprou foram maioritariamente clientes das freguesias fora da cidade, que ali tinham vindo por ser dia de feira. Diz mais: «Assim ficou a cidade sem pão, e talvez arriscada a não ter quem de fora lho venha trazer, por não haver quem se queira sujeitar a vender por um preço inferior ao que vale na sua terra, pagando bem caro a irreflexão, e o prazer momentâneo de que nenhum interesse resultou aos mesmos revoltosos».

 

Nesse mesmo dia o Governador Civil publica um Edital que se pode resumir na satisfação que sentia por ver a cidade em perfeita ordem após os tumultos perpetrados por «um pequeno grupo de cidadãos incautos e iludidos, os quais reconhecendo o seu erro cederam à voz da Lei e das autoridades constituídas». Mas também alerta para que não ocorram novas manifestações, pois nessa altura «as autoridades de mãos dadas saberão sempre empregar quantos meios legais tem ao seu alcance para manter a religiosa observância das leis».

 

N' O Artilheiro, um Investigador publica um comunicado lançando ao Governador Civil acusações de inação, que o mesmo veio desmentir. Em sua defesa refere numa comunicação que nunca os marceneiros haviam ameaçado com a quebra dos móveis estrangeiros se não fossem atendidos; e testemunhas disso haviam sido os próprios marceneiros da Comissão que o interpelaram. Eram eles Manuel Pereira Dias Sampaio com loja na travessa do Tabaco, José Ganchinho com loja «na travessa localizada atrás da igreja da Vitória» e João Teixeira de Lemos[2], droguista da rua das Flores, que os acompanhava. Nenhuma pessoa mais assistiu, refere, à conversa tida naquela altura.[3]

 

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« ... Na calçada dos Clérigos foi aonde os tumultos duraram até à noite, defronte das lojas de Guichard e Tallone... » 

 

Também o Administrador da Alfândega António Joaquim da Costa Carvalho[4] fez publicar um esclarecimento de como teriam ocorrido as factos quando os tumultuários tentaram invadir a Alfândega. Relata que o grupo que aí irrompeu pelas 15h desse dia e «entrou violentamente as portas da Alfândega» tendo sido repelido por ele devidamente ajudado por empregados daquela repartição mas também com o auxílio do Delegado do Administrador do Concelho, António Ferreira Novais e do Alferes da Guarda Municipal, Francisco Pinto da Mota: tendo conseguido encerrar as portas. Pelas 16h de tudo deu conhecimento ao Governador Civil.

 

Um outro comunicado do Governador Civil descreve, quem sabe da forma mais exata, o sucedido. Endereçado ao Duque da Terceira[5], nele refere que os tumultos se tinham dado perto das 15h, conforme já indicada noutra comunicação. E prossegue: «Depois das três horas se reuniram mais grupos compostos de homens os mais ordinários, tendo por base a necessidade (gritavam eles) que tinham fome, que queriam trabalho, e que para o haver forçoso era quebrar, e destruir tudo quanto fosse estrangeiro; mas no meio deste alarido nunca perderam o respeito, pelo contrário se mostraram submissos às minhas admoestações, a que acederam por fim muito próximo da noite. Eu cansado e fatigado de percorrer as ruas tinha dado todas as providências, no caso de não cederem, de empregar meios enérgicos, e usei de toda a prudência para mostrar quanto me era repugnante lançar mão daqueles recursos.

 

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Bento da França Pinto de Oliveira (1793/1852), Barão da Fonte Nova, era o Governador Civil Interino do Porto à época dos tumultos e um dos seus protagonistas por força do cargo que desempenhava.

 

Ignoro o motivo de um tão repentino acontecimento; por mais conjecturas que fazia, não podia combinar como estes grupos fossem levados ao excesso sem uma causa promotora; corre contudo que o agente, ou agentes da desorganização, instigavam estes imprudentes, e crédulos, talvez aproveitando a ocasião para chegarem a fins sinistros. Não posso deixar de dizer a V. Exa. Que honra seja feita a todos os habitantes desta cidade, quero dizer, aos que tem que perder, os que amam a liberdade geral, que todos se prestaram com a melhor vontade para que os tumultos se dissipassem, já persuadindo, já influindo nas massas, para que se retirassem a suas casas, acompanhando-me a maior parte nos giros que fiz na cidade, cujo comportamento é digno do maior elogio».

 

Prossegue nos elogios ao apoio dado pelos Comandantes e Oficiais dos Corpos de Linha, bem como os «Voluntários, e mais repartições»; teve também precioso auxilio do Presidente da Relação, Francisco de Serpa Saraiva, bem como o Administrador da Alfândega, Antonio Joaquim da Costa Carvalho, «que muito trabalharam para a ordem». Quase a finalizar não deixa de dizer que «Tudo terminou sem haver um bofetão.» E relembra que a classe laboriosa sofre muito com a escassez de cereais, pedindo que seja isso lembrado à rainha, «bem como da entrada de efeitos estrangeiros, objeto que foi o pretexto da desordem».

 

Este sucesso pode ser rematado com o adágio a revolta pariu uma desordem; pois a julgar pelos esclarecimentos dados por alguns dos seus protagonistas o estrago foi ainda menor do que os jornais relatavam ainda a quente. Depois disto muita água correu por baixo da ponte, veio a revolução de Setembro, as pautas protecionistas de Passos Manuel... Mas em abril quem realmente sofreu avultados prejuízos com o tudo isto foi o importador da mobília estrangeira, que viu o seu investimento reduzido a cacos.[6]

 

Caros leitores, este relato que aqui vos deixo, todo ele alicerçado em informações de época, é o mais completo que conheço desta catárse tumultuária, que na verdade nada mais será do que uma nota de rodapé na história da nossa secular cidade. A todos que tiveram a amabilidade de o ler na integra, faço votos sinceros que o tenham apreciado.

__________________

1 - O texto atualiza a ortografia, mantendo pequenos traços que diferenciam a linguagem da época, como aliás tenho por hábito fazer.

2 - O próprio Teixeira Lemos faz publicar um esclarecimento nos jornais onde consta o seguinte: «vendo naquele memorando o meu nome, como um dos da comissão de Mercineiros, que no dia 25 de abril do passado se dirigiram ao S. Exa. a pedir a suspensão do desembarque dos trastes Estrangeiros, eu devo ao público a explicação, e aos meus concidadãos a explicação do acidente porque ali me achei, e o meu ulterior comportamento. Eu não sou mercineiro, nem contrato em trastes, o meu negócio é de tintas e ferragens; por acaso naquele dia tinha de ir a S. Lázaro, e passando no largo da Batalha quando alguns marcineiros se achavam juntos, a curiosidade fez-me demorar, quando destacaram alguns indivíduos daquele grupo; e me vieram instar para que fosse representar a S. Exa. que suspendesse o desembarque.

Então mesmo não tive eu receio em representar, que S. Exa. não podia fazer o que se pedia, e que o desembarque sendo de trastes, de que se tinham pago os direitos, e permitida a sua importação, não se podia suspender; todavia temendo fazer maior resistência anuí, e sendo-me nomeados pelo povo os dous declarados na dita correspondência os acompanhei.

É bem natural de ver a resposta que deu sua Exa. à representação mencionada; ela respondeu em sentido quase idêntico ao das reflexões do abaixo assinado, e acrescentou que aquela não era a maneira de pedir providências, que se recolhessem a suas casas, que se quisessem fizessem uma representação, que ele prometia dirigi-la a S. M. a rainha.

A comissão facilmente se deixou possuir destas verdades; e particularmente eu que as tinha participado antes mesmo daquele ato; mas os grupos, que esperavam a comissão, ouvindo aquela resposta, mostraram-se menos satisfeitos, queixaram-se de que tinham feito igualmente requerimento às câmaras, e que nenhum resultado tinham obtido, e que tudo isto eram panos quentes, e que o remédio era quebrar os trastes.

Até aqui estive eu, e sem medo de ser desmentido, posso asseverar que até àquela época esta é a verdadeira história do sucesso, daí em diante, nada sei, porque imediatamente me retirei a minha casa, e loja sem mais me importar de similhantes movimentos, assim como antes me não tinha importado. (...)»

3 - Mais tarde, nos "auto de conhecimento judicial" uma outra pessoa surge para além destas três: trata-se de um Corneta de um Batalhão Móvel da cidade que fora visto «nos tumultos defronte de Santo Eloi».

4 - Uma breve notícia da sua vida bem como referência aos seus últimos dias e funeral, na igreja da Lapa em 1875, pode ser encontrado aqui: http://digitarq.adstb.dgarq.gov.pt/details?id=1340567.

5 - António José de Sousa Manuel de Meneses, que havia sido empossado Presidente do Concelho de Ministros muito recentemente, em 20 de abril.

6 - Podemos talvez balizar o remate desta questão no dia 11 de maio, quando é publicada a louvação que o Tesouro Público faz à forma como o Administrador da Alfândega se comportara nos tumultos. Nele se refere que «Sendo presente a Sua Majestade a Rainha, os ofícios de 25, 26 e 28 de abril último, em que o Conselheiro Administrador Geral das Alfândegas do Norte, dá parte de que no primeiro dos ditos dias, uma porção de povo amotinado, na maior parte oficiais de Samblador, ou por estes incitados na ocasião de ter chegado ao cais da descarga da Alfândega do Porto, uma barca com móveis, procedente de Hamburgo, saltara dentro, e passara a inutilizar os referidos móveis; e seguindo depois com grande vozeria, ao armazém do proprietário, fizera o mesmo estrago em uma porção que já se achava recolhida, tentando os mesmos amotinadores, às 3 horas do dia imediato, invadir aquela Alfândega, debaixo do pretexto de destruir todas as mercadorias estrangeiras», era digno de salientar que o Administrador da Alfândega conseguira «salvar toda a propriedade depositada por diferentes armazéns da alfândega».