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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Elevador dos Guindais: dissecando um desastre

15.06.19

O elevador dos Guindais, foi inaugurado a 3 de junho de 1891, teve curta vida uma vez que dois dias após ter completado o segundo ano de funcionamento sofreu um acidente sem fatalidades, o que levou a que a cidade ficasse durante muito tempo sem permitir a existência de outro qualquer transporte do mesmo género. E apesar da rapidez que os seus promotores garantiam na reparação daquele equipamento para de novo ser colocado em serviço, tal nunca veio a suceder.

 

O que abaixo se pode ler é um extrato do relatório apresentado em 1893 pela comissão nomeada pela Câmara para sindicar «da causa que motivou o sinistro ocorrido no elevador dos Guindais no dia 5 do corrente, e também para examinarmos o estado do material e indicar as precauções a tomar para o futuro». Para isso foi visitado o local do desastre, examinados o carro destruído bem como os outros dois restantes, o material da via e instalação das máquinas. Foram também inquiridos «o pessoal da exploração, maquinistas, condutores, azeitador etc. com exceção do condutor doente no hospital», para averiguar «tanto dos factos ocorridos na ocasião, como da forma como era feito ordinariamente o serviço». Para aqui transcrevo apenas os parágrafos referentes à averiguação ao acidente, uma vez que na verdade aquele elevador nunca mais foi reativado nem outros foram instalados nos diferentes locais para onde se planeavam.

 

***

«No dia do sinistro, e quando se fazia a 54ª viagem, estando o carro n.º 2 da linha principal próximo a chegar na descida ao extremo da viagem nos Guindais, e ao mesmo tempo o carro que lhe faz contrapeso próximo a chegar na saída ao extremo da sua carreira junto à casa das máquinas, o maquinista que estava de serviço e que pouco antes tinha entrado de turno, tendo notado que o mostrador, que na sua frente lhe indica a posição que os diferentes carros vão sucessivamente ocupando na linha, não estava dando indicações rigorosamente exatas, como já tinha notado na viagem imediatamente anterior (a primeira do seu turno), e que precisava de ser acertado ou corrigido, operação que os maquinistas costumam fazer ao entrar de turno, lembrou-se irrefletida e inoportunamente de o fazer com os carros em marcha, e saindo do seu lugar foi a três ou quatro passos à frente molhar a corda que da árvore da máquina transmite o movimento aos ponteiros do regulador.

 

Talvez pela precipitação com que fez este serviço, ao molhar a dita corda transmissora que estava frouxa pelo calor, impediu a transmissão do movimento, atrasando ainda mais a marcha dos ponteiros, de forma que, ao chegar ao seu lugar, o mostrador indicava-lhe que o carro n.º 2 em descida ainda estava a 6 metros da distância do extremo da carreira, isto é ainda 1 metro distante do ponto onde ele devia começar a fechar o regulador do vapor para reduzir a velocidade da máquina, e portanto dos carros, de maneira que a paragem se fizesse, como se deve e é costume, gradual e insensivelmente.

 

Não fechou pois o regulador a tempo, por errada indicação dos ponteiros, e foi disso advertido imediatamente pela paragem abrupta da máquina em resultado do choque do carro n.º 2 contra a muralha que limita na parte inferior o extremo da carreira.

 

 

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o elevador dos Guindais em funcionamento, vendo-se igualmente a casa das máquinas que o fazia mover, com a sua alta chaminé de cerca de 30 metros de altura

 

Mais contribuiu ainda para este sucesso a falta de aviso das campainhas elétricas que nesse dia estavam desarranjadas, e que de outra forma teriam automaticamente advertido o maquinista de que o carro estava próximo do extremo da carreira, pois que tocando, como deviam, a 5,5m e a 1,5m, o poriam de sobreaviso contra a falsa indicação do mostrador.

 

Não tendo pois o maquinista afrouxado a velocidade, o carro n.º 2 chocou-se contra a muralha inferior e parou abruptamente, enquanto o carro de contrapeso, animado da velocidade adquirida, ainda avançou qualquer coisa além do ponto superior onde teria de estacionar em paragem normal, produzindo assim um afrouxamento da tensão do cabo no seu extremo oposto que estava engatado por meio da tranquilha no colchete o gancho do carro n.º 2 que se chocou; e esta porção do cabo estendida sobre roletes ao longo da linha principal, em que rolava na descida o carro n.º 2, animada também da mesma velocidade, quando este foi obrigado a parar pela resistência da muralha com que se chocou, avançou além dos limites do colchete do engate que não te peça alguma que obste a tal avançamento.

 

Avançando pois a extremidade do cabo, como dissemos, ainda além do comprimento do colchete, que é relativamente pequeno, caiu ao chão, ficando assim completamente desfeito o engate.

 

Começou portanto o carro do contrapeso a descer, arrastando consigo todo o cabo estendido na linha principal e desligado na sua extremidade inferior do carro n.º 2 a que estivera engatado.

 

É talvez devido à ação em sentido contrário do peso importante desta porção do cabo com a extensão de 110 metros, que o carro de contrapeso tinha de arrastar e fazer subir no princípio da marcha, que não se disparou o freio automático, como se deveria disparar e funcionar no caso das fraturas previstas do cabo, em que uma mola em sentido contrário à sua tensão, quando completamente livre da ação dele, dispara o freio automático para que este possa atuar.

 

Tivemos ocasião de averiguar na nossa inquirição que os freios automáticos estavam suficientemente sensíveis à tensão do cabo, pois que se averiguou que algumas vezes, e mesmo ainda recentemente, eles tinham feito imobilizar os carros que estavam em andamento, quando por acaso acontecia, por manobra menos bem regulada, afrouxar-se rapidamente a velocidade da máquina.

 

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neste postal do início do século passado vê-se já a rampa do elevador ocupada por casario e hortas em socalco. A chaminé da antiga casa das máquinas também já desaparecera

 

Não atuou pois no princípio da descida do carro contrapeso o freio automático que o imobilizaria e evitaria o sinistro.

 

O condutor tinha ao seu dispor o freio de mão de que devia fazer uso, e cuja manobra facílima, que pela inquirição averiguamos saberem bem todos os condutores, e que se limita a carregar por uma só vez num braço da alavanca, o condutor, repetimos, desvairado com a eminência do perigo não a executou a tempo, limitando-se a agarrar-se ao primeiro apoio que encontrou.

 

O azeitador que estava na linha, viu passar por ele o carro, e gritou ao condutor que soltasse o freio, quando o carro ia proximamente no primeiro terço da sua carreira.

 

É possível que ele então o soltasse, mas a velocidade já devia ser tal que a fricção deste freio não era suficiente para imobilizar o carro.

 

É provável e até muito natural que, a meio da carreira, quando metade do cabo de suspensão já estava para o lado do carro que descia, então se disparasse o freio automático, por ter assim desaparecido completamente a tensão do cabo no respetivo engate; mas então é que a velocidade já devia ser vertiginosa, e este freio de grandíssima potência, firmando o carro à via, ou arrancaria esta ou se fraturaria, pois que para descidas daquela inclinação e depois de adquiridas tais velocidades, não há freios que evitem despenhar-se o carro por qualquer forma.

 

Ou os freios atuam quando a velocidade é ainda pouco superior á normal ou atuando mais tarde são inúteis.

 

Nos destroços deste carro, que despenhando-se veio amolgar-se de encontro à muralha do extremo inferior da carreira, encontramos os freios automáticos em posição indicativa de se terem disparado, como era natural que acontecesse, mas, como devia ser, tinham partidas as correntes que transmitem o movimento de rotação dos eixos das rodas ao mecanismo de aperto das chapas de fricção, inutilizando-os assim completamente para o seu funcionamento; e isto de certo se deu, como acima dissemos, por não poderem as referidas correntes resistir ao esforço correspondente a tão excecional velocidade.

 

O cabo que ligava este carro ao da linha principal encontra-se partido junto à extremidade a que estava ligada a tranquilha do engate.

 

Mas tal fratura deu-se necessariamente depois do desengate; e isto não se averiguou pela prova testemunhal, mas evidenciou-se pelos vestígios encontrados na via, resultantes de fraturas importantes dos ferros dela, em pontos onde a extremidade do cabo desarmada da tranquilha as não podia fazer, e sobretudo pela posição onde a própria tranquilha foi encontrada junto à casa das máquinas depois de ter percutido um dos carris a alguns metros abaixo, onde, amolgando-o profundamente, deixou bem impresso o seu choque anterior.

 

É para nós fora de dúvida que o cabo, em seguida ao desengate, veio subindo pela linha principal com a velocidade sucessivamente crescente do carro contrapeso a que estava ligado e que se despenhava pela outra linha.

 

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traseiras dos edifícios da casa das máquinas do antigo elevador, hoje adaptados a bem diferentes funções, vistos do local onde se encontra a estátua de Arnaldo Gama

 

 

A massa de ferro da tranquilha que tinha na extremidade, vinha batendo e fraturando as peças metálicas em que se apoia a linha e que dela fazem parte, até que, entalada a mesma tranquilha em qualquer delas que lhe fez maior resistência, e isto já muito próximo do extremo do seu curso quando a velocidade tinha atingido o seu máximo, foi o cabo sujeito a tão forte tensão que se despedaçou, indo então a tranquilha chocar-se com o carril que se encontra amolgado, para daí recochetar para o ponto junto à casa das máquinas onde foi encontrada.

 

Resumindo diremos que a causa do desastre foi complexa; e, tendo origem na irreflexão ou leviandade do maquinista em se desviar do seu posto inoportunamente para acertar o regulador, se agravou com a circunstância casual de estarem desarranjadas nesse dia as campainhas elétricas de aviso automático, e se completou com a falta duma peça, que se deve inventar para completar o sistema de engate, de forma que em casos daqueles se não possa dar o desacolchetamento da tranquilha; e finalmente não lhe poderem ser atenuados ou anulados os efeitos pela circunstância extraordinária e imprevista do desengate naquelas condições não deixar funcionar oportunamente o freio automático, como funcionaria no caso das fraturas previstas do cabo, e de nem mesmo o condutor conservar a serenidade bastante para executar a simplíssima (sic) manobra de empurrar a tempo, logo no princípio da descida, o freio de mão que tinha ao seu lado».

***

 

Este relatório não refere os feridos, com exceção feita ao condutor causador do acidente. Essas pessoas foram um passageiro do carro contrapeso que foi projetado a grande distância e uma criança cujo pai se preparava para a tirar ao colo do mesmo carro, quando este começou a sua descida desalmada rampa abaixo. A criança, tendo-se colocado debaixo de um banco, sofreu apenas ligeiras escoriações.

 

Iremos numa próxima publicação voltar ao tema do Elevador dos Guindais; para já, cabe referir que apesar de mais de uma centena de anos se terem passado (2004) o Porto tem de novo um funicular precisamente no mesmo local onde em 1893 se dera o desastre que vimos atrás. A este desejo uma futura e prospera vida, sem percalços!

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (7)

04.06.19

Chega hoje ao cabo a republicação das cartas de Joseph James Forrester que em 2013 pretendi dar a conhecer através deste meio poderosíssimo que é a web, que a todos a todo o lado consegue chegar. Esta carta surge separada uma vez que ela já não trata propriamente da viagem ao Douro; antes ocupa a substância das suas linhas com assuntos ainda mais pessoais do Barão...

 

Não termino contudo sem revelar que, quando em 10 de abril (ver aqui), refletia: «Estas cartas do Barão de Forrester estariam inéditas até eu as ter redescoberto em 2013? Não o posso dizer, embora acredite que não». E de facto não, não estavam! Estas cartas foram - pelo menos - publicas em 2005 neste trabalho de Norman R. Bennett que convido o leitor interessado a ler pois não só as transcreve, como igualmente nos revela mais pormenores sobre esta personagem, os ingleses que negociavam no vinho, e sobre o próprio Douro[1].

 

 

*

«DUODÉCIMA CARTA

Assim como até aqui me tenho entretido como que de uma vida irregular, escrevendo acerca das pedras do Douro, acomodações de estalagens, etc, etc, assim também passarei agora a dizer uma ou duas palavras sobre um objeto que grave impressão me tem causado pelas terras por onde tenho passado: refiro-me a certas casas, geralmente muito mal construídas, mas sempre em lugares mais públicos, e com as janelas au rez de chaussès, junto das quais geralmente se vê bastante gente, congregada, falando e divertindo-se como romeiros em dia de festa. Estas casas, Sr. Redator, são as cadeias, para onde, de certo, não vai gente que tenha praticado boas ações; contudo, se o objeto de uma prisão é castigar os culpados, e o do castigo é corrigi-los, parecem-me muito fora de razão que sejam dados aos povos, semelhantes maus exemplos como estes a que me refiro; porque, em muitos sítios, longe de ser castigo, os presos vivem, só com a diferença de não terem a sua liberdade, melhor e em maior abundância que jamais conheceram, simplesmente porque pertencem a alguém destes povos de aldeia, como parentes ou compadres que também têm os seus; de sorte que uma espécie de maçonaria ou fraternidade existem entre eles, e a confraria é quem os sustenta.

 

Dizem, - mas eu como viajante não posso dizer se é verdade, - que estes estabelecimentos são só privilégio dos pobres; e que até, por muitos e sucessivos anos, gozam deste mesmo privilégio, ou por esquecimento, ou porque nenhuma despesa fazem ao Estado; mas, ainda assim, frequentes vezes acontece que no meio do seu regozijo e repentinamente aparece uma ordem não de soltura, mas para que, ligados uns aos outros, vão seguindo caminho do Porto ou Lisboa, para cumprirem o degredo, expiarem as últimas penas.

 

Eu não me acho com forças, nem a ocasião é própria, para entrar deveras neste assunto; contudo, na cadeia da Relação da cidade do Porto, acontece quase o mesmo, e em muito maior escala, quanto ao edifício, mas não quanto aos confortos em razão da ausência dos parentes. Aqui consta que há também inquilinos de muitos anos, que ocupam, segundo os anos de serviço, diversas graduações; e que seu chairman (desculpe o termo inglês por não saber o termo técnico) tem muita autoridade, e os seus decretos tem força de lei; e de certo, são rigorosamente cumpridos, e com maior presteza, que costumam os empregados legais. Não digo isto para ofender repartição pública alguma; porque é bem sabido que nenhuma tem a obrigação de trabalhar dia e noite, como pratica a clientela do dito chairman.

 

Haverá quem diga que eu sou um estrangeiro muito perverso, e que agora abuso da hospitalidade dos dignos portugueses, fazendo estas minhas críticas, da mesma forma que, quando me atacaram na época em que falei nos vinhos do Porto; e quando mereci o lisonjeiro epíteto de ser uma "ave estranha num país estrangeiro". Porém, Sr. Redator, já estou muito velho e à prova de bomba; não me intimidam quando eu trato de fazer bem ao país que amo como meu. Vou contar-lhe uma história que tem seus visos de romance; mas nem por isso deixa de ser menos verdadeira.

 

Quando habitei a casa na Ramada Alta atualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo em lugar de Ilmo. e Exmo.) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algibeiria com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguém me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei a cada um deles um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redator, nesta ocasião que alguém me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mor a que acima me referi.

 

Mandei falar a este potentado por eu não ter a honra de o conhecer pessoalmente, remetendo-lhe os sinais do objeto roubado, e contando-lhe todas as circunstâncias do roubo. Recebi logo um recado verbal mui atencioso, já se sabe, no estilo de - "fulano faz os seus cumprimentos a sicrano, &c; e logo que possa, dará conta da sua missão": Com efeito - na mesma noite uma pessoa mui bem trajada, com hábito de Cristo ao peito, me procurou em casa; e tal era a sua presença de respeitabilidade, que o meu novo criado sem hesitação alguma o encaminhou à minha sala de visitas, pondo as competentes velas de cera; e apresentando-lhe uma cadeira, convidou-o a assentar-se em quanto que vinha ao meu gabinete chamar-me. Pode bem imaginar-se a minha surpresa, quando entrei na sala, e depois da devida troca de cumprimentos, o cavaleiro hóspede participou-me que era o embaixador do Ilmo. ladrão mor da cadeia; e que vinha, da sua parte, para assegurar-me que o roubador não tinha sido nenhum membro da honrada profissão a que ele presidia, aliás com muito gosto me teria sido já restituído o relógio.

 

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Joseph James Forrester, ou como melhor é conhecido, o Barão de Forrester (27.05.1809 - 12.05.1861)

 

Agradeci, como era de supor, a finesa do cavaleiro e lhe retribui os cumprimentos da personagem que ele vinha representar. Confesso, porém, que enquanto o meu criado o acompanhava até à porta, passei um golpe de vista por toda a sala para verificar se, com efeito, mais alguma outra redoma me faltava.

 

Publiquei anúncios nas gazetas, oferecendo alvissaras de 6 moedas a quem me desse notícias do meu pobre cavalo branco, e seu condutor africano. Em seguida veio um adeleiro convidar-me para ir ver um relógio muito bonito que ele - que não tinha visto os anúncios - julgava poder servir-me, dando ao mesmo tempo uma descrição exatíssima do objeto.

 

Acompanhado por um amigo, segui o adeleiro até uma casa na rua de....... na cidade baixa; entrei numa loja onde estava a conversar uma mulher de mantilha com o dono: não reparei muito neste mulher no momento da entrada; mas vi sobre o mostrador 3 montes a 2 moedas em que ela pegou sem as contar, metendo-as num lenço, e saindo precipitadamente. A quantia do dinheiro por ser aquele que eu tinha oferecido de alvissaras, fez que eu, ainda que tarde, lançasse os olhos após a mulher; e não pude deixar de pensar que eu a tinha visto em diferentes ocasiões, falando com os meus criados.

 

O lojista não me conhecia; e eu também nada lhe disse do fim da minha visita. O adeleiro disse-lhe que eu era muito tentado com objetos de gosto, e queria ver a sua coleção. Levou-nos para uma sala no 1º andar; e logo que entrei, vi numa prateleira entre ricos vasos de porcelana e outros objetos, o meu cavalinho com todos os mais aprestes. O bom do homem abriu as suas gavetas, e caixa-forte; em poucos momentos cobriu a mesa de pulseiras, cordões de ouro, alfinetes de peito, tiaras e aneis de brilhantes, e um sem número de condecorações. E em várias outras partes da sala apontou toda a qualidade de roupa feita, e alguns lenços de seda pendurados sobre uma corda que comunicava com uma campainha fora da porta.

 

Logo conheci que eu estava no atelier de um ladrão de profissão; cujos discípulos eram ensaiados neste recinto, praticando a gíria de furtar lenços sem serem pressentidos, sendo o grau de perfeição na arte o poder tirar um destes lenços da corda solta sem tocar a campainha.

 

Nestas alturas tirei da algibeira o Periódico dos Pobres, e mostrei o meu anúncio ao professor da arte ligeira. Ele mudou de cor, e deu um passo para a porta; porém intercetei-lhe a retirada, e em poucas palavras, mas com muita firmeza, reclamei o que me pertencia. Pranteou, - suplicou perdão, - protestou a sua inocência, dizendo que não lhe era possível saber de onde vinham os objetos que lhe ofereciam à venda, ou em penhor; - que não conhecia quem lhe tinha trazido o relógio; e que muito sentia não ter visto o anúncio, porque no momento da minha entrada na sua loja, a mulher que dias antes havia trazido o objeto roubado, estava neste ato levando as 6 moedas, preço que lhe tinha custado. Continuou a jurar que nada sabia do furto, mas acrescentando que, visto que o objeto era meu - conhecia ser da sua obrigação entregar-mo; o que com efeito fez dentro de meia hora.

 

Como vi que não era possível descobrir o modo engenhoso, com que o relógio tinha sido roubado de minha casa, forçoso foi que me contentasse com a sua restituição, sem ulterior procedimento; mas - quando cheguei a casa, e principiei a dar corda ao relógio reparei que a fábrica tinha sido atada com um bocadinho de retrós de seda verde, que havia sido tirada da pequena mesa de costura que estava no outro lado da sala - operação esta que decerto não foi feita no momento, e que tinha por fim evitar que o relógio desse horas durante a mudança. Este facto deixou suspeitas sobre mais de um indivíduo; e será força de imaginação, mas é facto, que quando eu passo por certa rua muito estreita que conduz ao postigo do Sol, uma mulher, que julgo ser a mesma que eu tinha visto recebendo o dinheiro na loja de que já falei, - logo que me avista, retira-se para dentro de casa.

 

Tenha paciência, Sr. redactor, com esta massada - mas estas reflexões são consequência da prisão voluntária a que me votei na minha barquinha, e da minha imaginação precisar de distração. Porém o remédio está na sua mão e não gostando do que tenho escrito, remédio será queimar esta carta.

 

Agora falemos sério. Sentirei, Sr. Redator, se eu nesta narração entrar em seara alheia; por isso que sei que o meu amigo Sr. José Frutuoso Aires Gouveia Osório, doutor pela universidade de Coimbra, e Edimburgo, nas suas viagens à Inglaterra, França, Bélgica, e países do norte, estudou teórica e praticamente a organização das prisões. Desejava muito perguntar a este meu amigo, por que motivo não tem ainda publicado as suas observações àquele respeito. Será, por acaso, que ele, também[2] como eu, tenha pedido estatísticas, sobre o assunto a algum ministro de estado, e as não tenha recebido, depois de lhas prometerem? Quem sabe!


Sou de VV.

J. J. Forrester»

*

 

1- Tive conhecimento deste trabalho quando fazia a segunda republicação destas cartas, ainda assim optei por esperar pela última por crer ser o tempo mais oportuno para o divulgar. 

2 - No original tãobem.

 

______________________

Publicado originalmente na antiga casa d' A Porta Nobre em 14.07.2013.

 

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (6)

31.05.19

«DÉCIMA CARTA

O cachão da Baleira é o sítio mais romântico e importante de todo o rio Douro.

 

Até 1791 um enorme rochedo que aqui fazia cachão, impossibilitava a navegação direita por toda a extensão do rio. Então, Tua era um lugar importante por ser o cais onde se descarregavam os géneros que tinham de ir por terra para cima do Cachão, ou se carregavam os que vinham da raia e embarcavam para baixo. O rio está atualmente tão seco que nas raízes deste, outrora formidável rochedo, se vêm a meio palmo abaixo de água os buracos das brocas, dos trabalhos do século passado, quando a dez palmos mais acima e outros tantos mais abaixo, o poço tem de 40 a 50 palmos de profundidade. No fragão à esquerda, por baixo de uma coroa imperial, vê-se a inscrição seguinte:

 

"Imperando Dona Maria I já se demoliu o famoso rochedo que fazendo aqui um cachão inacessível, impossibilitava a navegação desde o princípio à séculos, Durou a obra desde mil setecentos e oitenta até mil setecentos e noventa e um"

 

Ainda há poucos anos desapareceram uma espada e bandeira que aqui existiam. O insigne geólogo português, Dr. J. Pinto Rebello, (que teve de se expatriar, por não achar meios no seu país) descreve este sítio do Douro nos seguintes termos:

 

"É precisamente neste ponto, onde outrora existiu a catarata que se opunha à navegação superior do rio, que termina o país vinhateiro propriamente dito. - É pois a quinta da Valeira, que ultima a demarcação da Companhia Geral, encostada ao grande penhasco de granito por onde o Douro se precipita numa longa e estreita fenda."

 

O canal do cachão propriamente chamado, tem de comprimento 400 braças, contando do ribeiro de Campeires até ao cais da Baleira. As margens são rocha viva, que não tem menos de 1500 palmos de altura. Abundam aqui pombos bravos e as corujas fazem entoar o seu grito melancólico por todo o sítio.

 

Na margem esquerda sobre o ponto mais elevado do penhasco citado, existe a Ermida de S. Salvador do Mundo e Senhora da Penha com todas as suas capelas e passos do Senhor, que não podem ser comparados em importância e extensão com o Bom Jesus de Braga; contudo belíssima que é a vista do senhor do Monte não iguala em majestade e aspeto sublime, a perspetiva que de S. Salvador se descobre. Que sítio este para o artista, para o homem de gosto, admirador da natureza inculta, para o geologista, arqueólogo ou naturalista! Daqui do lado do nascente os castelos de Numão e Anciães, situados em elevados terrenos de granito, conquistam um e outro a uma légua de distância objetos que tornaremos a referir quando concluirmos a nossa viagem pelo rio. Nota-se mui distintamente logo meia légua adiante que acabam os granitos e principiam os xistos e com eles a célebre Quinta do Vesúvio do qual nos ocuparemos quando aqui chegarmos. Pelo lado do norte descobre-se uma grande extensão de terreno montanhoso coroado pelo notável alto da Senhora da Cunha, pelo sul os vales de S. Xisto e Caçarelhes, cobertos de ricos olivais, e na encostada do mesmo monte de S. Salvador vêem-se sítios que serviam de túmulos aos Romanos e mais acima entre as vinhas de terreno de lousa e granito encontram-se provas irrefragáveis de ter aqui havido em outras eras erupções vulcânicas: finalmente, voltando-se o expectador para o poente, logo se admira vendo correr o Douro no primeiro plano entre vinhas, no segundo entre granitos e no terceiro outra vez nos xistos.

 

 

Não sendo esta a primeira nem mesmo a vigésima primeira vez que tenho visitado estes sítios não me esqueci que uma pinga do meu bom vinho do Duque do Porto, do Marquês do Pombal, ou antes de D. Maria I (por ela ser a senhora do Cachão) misturado com a deliciosa água da bela fonte que nasce na casinha da - Ermida - acompanhada com um petisco tendo para sobremesa as belas vistas naturais, havia de saber bem; aqui descansei num gozo perfeito, esquecendo-me de amigos e inimigos, dos filhos, parentes, negócios e cuidados; entregue ao novo mundo criado na minha imaginação, à admiração da natureza e dela ao Criador de tudo.

 

Ah! Que satisfação não teria metade dos habitantes desse país se pudessem também gozar destas delícias; porém não há estradas, ainda que em S. João da Pesqueira que dista um quarto de légua, se vêm palácios e edifícios magníficos não há comodidades para os viajantes.

 

Eu digo isto por experiência: passei as últimas duas pontes em uma intitulada estalagem na qual não tivemos luxo, a não ser que a abundância de percevejos à noute e o importe da nossa conta pela manhã, possam assim ser considerados. Quando pedi contas, a resposta do estalajadeiro foi muito galante - fumando o seu cigarro e dando uma cuspidela formidável para o meio do chão, disse-me que quanto a contas não se lembrava para as dar por miúdo, porém o que tinha a receber que eram dous osberunos.

 

Perguntei-lhe de que terra ele era - respondeu-me: "Sou de Vila Nova de Foz Côa - A vossa senhoria parece-lhe que a conta é grande? Eu também tenho andado pelo país e não me parece muito o que tenho levado!"

 

Há anos, encontramos no monte de S. Salvador, vestígios de um acampamento e vários tijolos romanos - bem como algumas moedas - pedras de moer pão, ou de pisar terras metálica - porém, Sr. redator, vamos continuando com as pedras do rio, deixando o monte de S. Salvador para quando tivermos mais vagar.

 

A descida desta posição elevada até ao cais da Baleira levou-nos um bom quarto de hora. Quando entramos na barquinha tivemos ocasião de gozar as escabrosas margens do poço da Caçarelhos até à Ripança e dai até S. Xisto onde intervêm os xistos e continuam até Arnozelo - aqui tornam a atravessar os granitos pela distância de um quarto de légua - ou até à quinta do Vesúvio, ou das Figueiras, em cujo cais paramos.

Sou de VV.

J. J. Forrester»

*

 

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*

«UNDÉCIMA CARTA

Tendo os meus finados e muito respeitados amigos os Srs. António Bernardo Ferreira, e José Bernardo Ferreira sido os maiores empreendedores no país do Douro, hábeis lavradores, proprietários ilustrados, e cavalheiros estimados por todos os que tiveram a fortuna de possuir a sua amizade, julgo bem descrever as principais propriedades outrora destes fidalgos, e agora pertencentes à Exmª Sr.ª Dª Antónia Adelaide Ferreira.

 

Na margem direita do rio Douro, a um quarto de légua ao norte da Régua, sobre uma colina e no lugar de Travassos, está situada a casa e quinta do Sr. José Bernardo Ferreira, sem dúvida a mais fértil, e mais rica de todas as propriedades que se encontram nas duas margens deste rio, em todo o país, a que ele dá o seu nome.

 

O génio empreendedor e franco de seu dono à custa de grossos cabedais, e de penoso trabalho, fez que se tornasse um terreno, que era escabroso, pela maior parte inculto, cheio de rochedos, e rodeado de precipícios, em vinhas, campos, olivais, pomares, jardins, armazéns, lagares, e uma bela e apalaçada morada de casas.

 

Vai um soberbo muro circuitando a mesma quinta e casa, que tendo de altura 18 palmos, e pintado de branco, numa situação elevada, é visto na distância de 5 léguas.

 

Desde Travassos até Paredes se elevam nesta quinta um sem número de socalcos, lançados em forma de grandes degraus. estes socalcos feitos em ordem a sustentar horizontalmente o terreno que os separa, não são feitos de alvenaria como nas outras quintas: são grandes e grossos paredões de pedra faceada, e de espaço a espaço com um largo lanço de escadas, que os comunica.

 

Do alto desta quinta se goza um golpe de vista, que sempre se apetece e se deseja: dali se vê o pitoresco, o belo, e o terrível; ali se apresenta tudo em perspetiva: lá se vê o Marão elevando às nuvens seus escabrosos penhascos cobertos de neves sempre constantes... Vila Real, Cumieira, Santa Marta, Sanhoane, Lobrigos, Peso, Régua, Jugueiros e todas as povoações, até ao Moledo, dali se observam!...

 

De lá se vê o Douro desde a Varosa até ao Carvalho. Canelas, Presegueda, Fonte do Peso, toda a estrada desde o rio até Lamego, e todas as eminências até à serra de Santa Helena, que fica 8 léguas de distância, dai se descobrem...

 

Há mais abaixo um tanque que recebe 40 pipas de água, despejada por uma fonte que abrange o volume de uma telha; esta água tem a sua origem de uma extensa mina, que se abriu através dos rochedos, para se lhe encontrar o manancial. O seu aqueduto é feito com asseio, segurança e grandeza; daqui até o pomar de espinho é vinha, granjeada de tal modo que um arbusto não teria mais zelosa cultura; o que faz que toda a vinha tenha uma aparência ajardinada.

 

O pomar de espinho consiste em dois grandes tabuleiros, guarnecidos de altas paredes, vestidas de limeiras, limoeiros, bergamotas, cidreiras, etc.; quatro ordens de frondosas laranjeiras estão ao longo de cada tabuleiro: no primeiro há um grande tanque, que recebe duas bicas de abundante água, do qual se despejam para regarem as árvores.

 

Segue-se um jardim plantado a buxo: nele se vêm vários arbustos, flores em volta de uma taça com seu repuxo. Para o nascente inclinado ao sul tem uma varanda de pedra de cantaria em todo o comprimento do jardim, que tendo no centro um semicírculo saliente, guarnecido de bancos, é terminada nos dous extremos por duas portarias. As quatro partes do mundo e as quatro estações representadas em estátuas, ali existem levantadas em pilares ao longo da varanda.

 

Saindo do jardim, vai-se entrar em uma longa carreira, com pavimento de cantaria, guarnecida de uma asseada varanda de ferro que sustenta em grossos esteios de ferro, uma elegante gradaria de madeira lavrada, formando uma ramada de diferentes e escolhidas qualidades de uvas, e que se termina em uma casa de fresco feita também de grade de ferro, e tudo pintado de verde. Esta carreira é sobranceira a dois grandes quarteirões cada um dos quais é igualmente guarnecido de varanda de ferro: o primeiro tem uma bem ordenada cascata; o segundo, um tanque com duas bicas de água, e ambos estão plantados em horta ajardinada com as melhores qualidades de hortaliça.

 

À direita há um pomar de diversas qualidades de fruta de pevide e caroço. À esquerda fica a principal entrada da casa e quinta, fechada por um portão de ferro: e do outro lado da casa havia, há 7 anos, uma enorme pedreira; mas já não existe essa rocha; já desfeita, sucumbiu à força da indústria, existem em seu lugar um espaçoso terreiro, guarnecido de alto muro; essa enorme e grande pedreira tornou-se numa bem desenhada escadaria em um jardim: ergue-se à direita dela uma parede com portas que dão entrada para a vinha, e á esquerda é o corrimão de grade de ferro; vai terminar esta escadaria em um jardim guarnecido de gradaria de ferro, e que dá entrada para a casa pelo último andaime.

 

No fundo da quinta está a casa, levanta-se em dois andaimes, cada um de 11 janelas de frente, e na arquitetura é regular, porém no interior aparece o bom gosto e o asseio.

 

A capela está ao lado esquerdo da casa, é bem construída, e bem ornada e nada lhe falta para a decência do culto divino.

 

No primeiro andaime da casa, pela parte de trás das salas de respeito, estão três lagares de grandes dimensões em pedra de cantaria com os seus competentes pesos, fusos e balanças, e por canais praticados através do pavimento corre o vinho par dez toneis de trinta pipas cada um, arcados de ferro, e que estão no armazém, que ocupa toda a extensão da casa, ao nível da rua. Em distância curta deste, há outro armazém no sítio chamado a urtigueira dentro da quinta; dá-lhe entrada um portão de ferro seguido por uma larga rua, onde estão 600 pipas de vinho generoso, e de diferentes qualidades, e idades, divididas em lotes.

 

O rendimento actual desta grande propriedade é de 150 pipas de vinho da melhor qualidade entrando neste número de 48 a 50 pipas de vinho de uva bastardo; virá a ter 4 pipas de azeite, produzindo todas as oliveiras que estão levantadas, para cima.

 

É todavia forçoso advertir que todos os vinhos que produz esta quinta, são feitos com a maior escolha e rigoroso escrúpulo no tempo da vindima: nos lagares são escolhidas as uvas mais bem sazonadas para primeira qualidade, das menos se faz a segunda, e das menos ainda a terceira etc. e assim se tornam sempre os vinhos de maior crédito e de invariável existência; e por isso se torna a sua cultura e colheita a mais dispendiosa.

 

Esta narração em nada é exagerada, e a público não a rogo, mas sim com autoridade dos donos da propriedade, como terei muito gosto em descrever muitas outras quintas importantes em ambas as margens do Douro, no caso que seja a vontade dos seus possuidores.

 

As quintas da Boavista em Vila Maior do Valado e de Vargielas [sic] são, todas, quintas da família Ferreira, e produzem de 120 até 150 pipas de vinho cada uma, boa fruta de espinho, e algum azeite. São todas muito bem granjeadas: os lagares são cómodos e excelentes, e o vinho é feito com todo o esmero, tendo sempre comprador certo. - Mas a quinta das quintas - uma das maravilhas do mundo, outrora parte de uma cordilheira de montanhas incultas, agora servindo de monumento do quanto podem vencer a inteligência, perserverança, e o génio empreendedor do homem, é o VESÚVIO, ou QUINTA DAS FIGUEIRINHAS.

 

Na nossa descrição geológica do litoral do rio já falamos nesta grande propriedade. É situada sobre a margem esquerda do rio, na freguesia de Numão, concelho de Freixo de Numão, 2 1/2 léguas acima do ponto do Cachão. É quase inacessível por terra, exceto a cavalo, pela falta de estradas; mas quem a visitar pelos caminhos atuais, depois de terem andado umas poucas de horas em um deserto, entra no que bem se pode chamar paraíso. Um portão grande dá entrada para esta quinta; e magníficas e largas ruas conduzem por toda a extensão da propriedade, e com especialidade até á margem do rio, onde há uma boa casa de residência, excelente adega, e lagares espaçosos, armazéns, casas próprias para recolher os trabalhadores; e como a quinta é muito longe de qualquer povoação ou vila, há também lojas de peso, de carpinteiro, pedreiro &c. para o serviço da quinta e para suprir a numerosa gente que forçosamente aqui se emprega por todo o ano.

 

Esta belíssima fazenda é cercada de um bom muro, e pode ser plantada para produzir acima de 700 pipas de excelente vinho maduro e encorpado, que também tem comprador certo, apesar de, como já dissemos, ser no cais da Baleira onde acaba a demarcação dos vinhos e embarque.

 

Também a quinta pode produzir de 80 a 100 pipas de azeite, 70 a 80 arrobas de amêndoa, e algum milho e centeio.

 

Enquanto que nos achamos nestes sítios, com estas belas vinhas em nossa frente, e com íntimo conhecimento da belíssima qualidade dos vinhos que produzem - qualidade que poderá ser igualada, mas não excedida em parte alguma da demarcação legal - gritaremos, como temos feito acerca das pedras no rio: Vergonha é que o governo, que se chama progressista, continue a marchar no trilho do retrocesso, e no obscurantismo dos tempos remotos. Em nome da razão, porque não há-de o governo atual ter coragem, sem mais pequena demora e neste momento crítico em que os habitantes do Douro se acham ameaçados com a ruina total das suas vinhas, e o país com a perca da jóia mais brilhante da sua coroa, para decretar que haja plena liberdade para cultivar a videira livremente em toda a parte, para que o vinho possa ser embarcado sem mais alcavalas, provas, e peias, que por um século tem arrasado o país, maniatado os lavradores, fazendo até criminosa toda e qualquer inovação que se encaminhe a progresso?

 

Há 10 anos que pela primeira vez levantei a minha débil voz neste mesmo sentido. O comércio do Porto se lembrará da oposição que me foi feita, e que só em campo era eu o único estrangeiro a pregar esta doutrina - que aqueles, que tinham bem mais interesse que eu, para que os monopólios cessassem, e as leis bárbaras se derrogassem -, tanto contrariaram e impugnaram. Mas toda a sua oposição - toda a sua perversidade - todas as suas asserções a meu respeito alegando que o que eu tinha avançado, fora "vago, infundado, e falso" não me farão sair do meu campo: há 10 anos que tomei a minha posição, tenho podido sempre fazer frente á posição daqueles que me cercavam, e esta posição estou eu resolvido a sustentá-la, até que venha, ainda que tarde, a justiça e a liberdade que eu reclamo e que tenho direito a reclamar entre os mais proprietários do Douro.

 

Pois, Sr. Redator, não se chamava a lei da imprensa a "lei das rolhas"? O governo mais direito tinha a mandar fechar a imprensa, do que tem para dizer-me a mim, e a milhares de outros - que só em certo terreno havemos de plantar couves, e em outro, semear feijão; ou, o que vem mais para o caso, - que em certo sítio de entre muros ou demarcações havemos de cultivar esta ou aquela qualidade de Vinho, o bem para as tavernas, e o ruim para o embarque.

 

já tenho dito que esta não é a primeira vez que tenho expendido estas ideias; mas quem tiver a curiosidade de ver o que eu escrevi sobre - Free Trade - sobre o estado actual de Portugal, e também sobre as belas esperanças que anunciei naquela época (Julho de 1853), podem referir-se a páginas nº 135 até 437 do meu "Ensaio premiado sobre Portugal" - esperanças que, como já disse, têm sido ate agora malogradas.

Sou de VV.

J. J. Forrester»

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Publicados originalmente na antiga casa d' A Porta Nobre em 04.07.2013 e 09.07.2013.

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (5)

20.05.19

Prossigo com a reposição das cartas de Joseph James Forrester, apresentando a 8ª e 9ª cartas.

 

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OITAVA CARTA


Ocupar-me-ei da terceira parte do país vinhateiro, entre o Pinhão e a Baleira e que tenho chamado o Alto Douro. A distância é de três léguas boas, mas quem tem de as caminhar facilmente acreditará serem quatro. Como acontece até aqui, não há caminho nas margens do rio, povos apenas se vem na margem direita Casal de Loivos, Foz Tua, Fiolhal, e Riba Longa, não sendo possível descobrir o rio os povos de Ervadosa, Soutelo, Nagoselo, nem S. João da Pesqueira na margem esquerda. Esta última divisão do terreno marcado para a produção do vinho que (com a exclusão de todo e qualquer outro) é destinado para o embarque, é sumamente interessante para o viajante, amador das belezas e maravilhas da natureza.

 

Em ambas as margens (até os ribeiros de S. Martinho, acima da quinta do Zimbro) há belas quintas de vinho e azeite, e alguns pomares. No Fiolhal há bastantes amoreiras, das quais se faz alguma seda e os pomares em S. Mamade, logo ao pé, produzem a melhor laranjas da província.

 

O rio Tua nasce no reino da Galiza, próximo ao lugar de Pias, corre por Mirandela, fertilizando muitas terras, vem desembocar no Douro, no pequeno povo de Foz Tua. Os ribeiros de S. Martinho separam os xistos dos granitos e são mui notáveis as vinhas na lousa de um lado de cada um dos ribeiros e as grandes e continuadas fragas de granito nos outros lados.

 

Destes sítios até ao 1º ponto dos Culmaços (um bom quarto de légua) as margens apresentam vistas sublimes que encantam o verdadeiro artista e amador da natureza. Nos Culmaços tornam a principiar os xistos e por conseguinte as vinhas e estas na sua vez acabam na Baleira, por baixo do celebre monte de granito de S. Salvador do Mundo. Os pontos, de vergonha para o Governo, são os seguintes: Aroeda, Frete, Carrapata, Roriz, Malvedos, e Culmaços. As terras nestes sítios são mais delgadas do que as do baixo Corgo e os calores são muito fortes. O bastardo e o alvarilhão que produzem bem no distrito de Penaguião não se dão aqui tão bem, e por isso que o gosto do mercado vinhateiro é sem dúvida de vinhos encorpados e com muita cor, se cultivam o Souzão, a Touriga, Tinta Francesa, Tinto Cão, Mourisca, e mais outras tintas. Os vinhos brancos ficam mais desviados das margens do rio.

 

As vindimas estão a findar e por toda a parte os excessivos calores tem secado muito vinho, talvez uma quinta parte da produção total. Tenho dito que as margens do rio, por toda a extensão do país vinhateiro (que vem a ser outo léguas) tem poucos habitantes e não sendo no tempo das vindimas, apenas fica um caseiro em cada adega. Agora porém, o país parece outro, ranchos de trabalhadores com cestos cheios de uvas às costas, comboios de bestas carregadas com odres, conduzindo vinho de umas adegas para as outras; centenares de mulheres nas vinhas, vindimando as uvas e cantando as suas modinhas, os homens nos lagares pisando as uvas ao som do tambor, viola e gaita de fole, é o que se vê e se ouve em todas as direções.

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embarque de vinho na Régua

 

Apesar da moléstia das videiras e a probabilidade de uma continuada escasses de vinho, toda a gente que encontrei parecia contente e satisfeita, contribuindo para isso os altos preços por que se tem vendido os vinhos e não ter havido diferença sensivel nos jornais. Nota-se também que muitos negociantes estrangeiros do Porto, este ano compram uvas e fazem o vinho à sua vontade na época da vindima!!

 

Falei os caseiros que ficam todo o ano a tomar conta das quintas. Honra seja feita a esta classe dos habitantes do Douro. O caseiro tem toda a responsabilidade dos grangeio das vinhas, do fabrico do vinho e sua conservação até que seja carregado, desviado de qualquer povo, sofrendo privações, exposto ao rigor do tempo; recebe apenas por ano em renumeração dos seus serviços e para o seu sustento e da mulher e filhos, umas 15 a 20 moedas; são mui raros os casos em que ele se esquece do seu dever.

 

Os carreiros e carretões tem a consciência mais elástica, tal é o seu cuidado para que nem as pipas nem os odres arrebentem por andarem muitos cheias, que fazem alto muitas vezes pelo caminho, para dar alívio às vasilhas que conduzem, não se esquecendo de convidar os amigos que encontram para tomar parte nesta importante operação. Não deixara de ser interessante o seguinte extracto de uma ordem dada a 9 de Março de 1791 pelo juíz conservador da Companhia Geral do Alto Douro:

Sendo tão público e geral o desafôro praticado pelos carreiros de abrirem as pipas pelos batoques, até furando-as para beberem o vinho, e o dar a quem encontram; ordeno a todos os comissários que a Junta da Companhia tem no Douro, formem processos dos referidos factos &c. &c.

 

Não acontece haver a mesma generosidade da parte dos trabalhadores que conduzem as uvas. Às vezes tendo-lhes pedido um cacho de uvas, respondiam-me que não o podiam dar sem licença do patrão, e logo depois passava o ranco inteiro na barca de Baguste e cada homem com todo o sangue frio lavando enormes cachos no rio, comendo-as e até dando-as ao barqueiro! Não posso dizer com certeza se as vindimeiras costumam esconder passas nas algibeiras, porém o que é facto é que em certas quintas costumam à noute dar busca nas mulheres, na mesma forma que fazem nas fábricas de tabaco em Lisboa, Sevilha e outras cidades.

 

Em todas as quintas há duas cardanhas, uma para os homens, outra para as mullheres. Nos domingos e dias santos, ouve-se missa logo ao romper do dia, para que os trabalhos da vindima não sejam interrompidos. Os homens ganham 200 reis por dia e as mulheres seis vintens; o pão é à custa deles, mas o senhoria dá o almoço, jantar e ceia; em outro tempo também dava vinho, porém agora não o há.

Sou de VV.
J.J. Forrester

 

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NONA CARTA

As minhas vindimas não permitem que eu trate somente do que está no fundo do rio; por isso eis-me nas vizinhanças da quinta do Enxodreiro e Régua, escolhendo alguns cachos de uvas sem defeito - obra bastante dificultosa em razão do oidium que nestes sítios tantos estragos tem feito. Cheguei aqui justamente numa ocasião importante - que vem a ser uma festa musical sobre o rio. Todos os habitantes da Régua - em peso ou estavam no cais ou em barcos toldados e elegantemente armados. Os artistas eram de Jugueiros e da Régua, tocaram muito bem e todo o mundo parecia satisfeito - quando se ouviram gritos por todas as bandas, sensação geral pela aparição de um barco toldado, cortinado, emplumado de preto e cheio de homens vestidos de rigoroso luto!

 

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Esta eça flutuante tinha estado amarrada mais para cima do rio, de sorte que os da festividade não a tinham visto. O barco fúnebre veio vindo vagarosamente para baixo - a música parou, e por alguns minutos todos mostraram certos receios. Ao pé de mim, um sujeito assegurou-me que havia de haver pancada, que as figuras sinistras eram membros do clube musical da Régua, que vinham desafiar os seus irmãos de Jugueiros! Outro, com aparente seriedade, deu-me a entender que talvez fossem alguns conspiradores do reino vizinho, que vinham raptar El-Rei D. Pedro V. Um terceiro (e já se sabe o que diz o adágio acerca de negócio de três) logo que ouviu soar o verbo raptar lembrou-se do substantivo rapto, e possuído desta ideia e evocando os espíritos de seiscentos mil habitantes das regiões inferiores, exclamou com frenesim: "Será o Conde de Saldanha raptando a filha do Ferreirinha". Nisto o barco chegou ao pé de nós - entrou pelo meio de toda a súcia e parando entre as duas bandas de música abriram-se as cortinas e os empregados da Câmara do Peso da Régua, vestidos não de grande gala, mas de luto pesado pela morte de S. Majestade a Rainha [provavelmente D. Maria II], mostraram-se e fizeram as suas cortesias aos amigos e conhecidos.

 

Ora, Srs. redactores, durante o cerco do Porto e mesmo depois o general Conde de Saldanha sempre me fez a honra de me tratar com amizade; e quando escrevi o meu Ensaio sobre Portugal, ainda estava persuadido que sua Exa., já marechal e duque, era meu amigo e desejava promover o bem da sua pátria - porém, em primeiro lugar, se sua Exa. me não enganou, deixou de cumprir a sua palavra, prometendo dar-me todos os orçamentos e estatísticas sobre o país, que havia na secretária, - e não mos deu - e segundo, tanto ele como os Srs. Rodrigo e Fontes de Melo, me asseguraram que estavam resolvidos a fazer o bem destas províncias do norte, ao mesmo tempo que me fizeram a honra de pedir a minha humilde cooperação. Ofereci-me para servir gratuitamente na direcção da empresa - não fui aceite; ofereci o meu dinheiro à perto de um ano - não tem sido preciso. Fiz o que pude, ao menos mostrei a melhor vontade - mas o bem para estas províncias ainda não veio e ainda se não principiaram as estradas!

 

Por estes motivos digo que hei-de pôr de quarentena todos estes bons desejos e profissões, portarias e decretos e discussões de partidos promovidos pelo governo ou seus agentes; e hei-de guardar o meu dinheiro na algibeira até que possa ter alguma garantia não simplesmente de boas palavras mas de boas obras; preferindo, em lugar de dedicar a minha atenção aos projectos de estradas do Minho, ver se posso estabelecer uma academia para a instrução de jovens arrais, na navegação deste rio, cujos obstáculos parece que, por fatalidade, ainda tem de existir por muitos séculos.

 

Falo neste estilo de homens públicos, por serem eles como a caça do monte, que esta exposta, com licença ou sem ela, ao tiro de qualquer caçador, porém ainda que não esteja satisfeito com o proceder do Exmo. presidente do governo e seus colegas, muito senti ouvir semelhantes reflexões sobre o carácter particular do nobre marechal e seu filho, muito especialmente tendo eu há tempos encontrado o próprio conde que vinha de Travassos de visitar a Exma. Srª Dª Margarida Rosa Ferreira, o qual me assegurou que logo que soubera dos acontecimentos que tanto têm dado que falar, se tinha apressado a ir oferecer todas as satisfações à Exma. Srª Dª Antónia Ferreira, e não achando sua Exa. fora muitíssimo bem acolhido por sua Exma. mãe e vinha-se embora muito penhorado da visita.

 

Deixarei tocar os músicos e grazinar os murmuradores, que nestas alturas são ainda mais numerosos do que uma grande parte dos frequentadores da praça do Porto - lastimando em que eles não tenham outra cousa em que se ocupem, e voltarei ao exame das pedras do rio - mas por hoje não serei mais extenso.

Sou de VV.
J.J. Forrester

 

 

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Publicado originalmente n' A Porta Nobre no blogspot em 13.06.2013 e 24.06.2013