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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

As últimas casas manuelinas do Porto

22.03.20

Sabem os meus leitores assíduos que volta e meia costumo referir os escritos de Henrique Duarte Sousa e Reis, indivíduo que legou à cidade uns manuscritos compilados por si e a que deu o título de Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, que nos prestam muitas e variadas informações sobre a cidade do seu tempo, algumas delas únicas. Desses manuscritos quatro foram já publicados, mantendo-se três por publicar.[1] Tive oportunidade de recolher alguma informação do seu 5º volume (o primeiro não publicado) e é dele mesmo que translado o texto que se vai ler. São apontamentos singelos mas preciosos sobre dois edifícios que deixaram de existir nos meados do século XIX e que o autor ainda conheceu.[2] Tratavam-se de dois exemplares de arquitetura habitacional manuelina, os únicos ou os últimos resistentes na cidade, cujos congéneres ainda se podem encontrar em várias localidades de Portugal, nomeadamente nas de pequena e média dimensão, não tão sujeitas à pressão urbanística.

 

Eis, então, o texto:

§§

«Recordação das casas da rua da Alfândega e da rua da Ferraria de Baixo, a que chamam do Patim; cujas edificações eram antiquíssimas e bem é de crer fossem nesses tempos os palacetes mais nobre desta Cidade do Porto.[3]

DEMOLIÇÕES

A casa n.º 7 situada na rua da Alfândega desta cidade à esquerda de quem desce, era talvez uma das mais antigas casas nobres do Porto, e edificada poucos anos antes daquela chamada a dos do Patim, e que estava assente logo no princípio da rua da Ferraria de Baixo ao descer de S. Domingos, e também ao lado esquerdo, porque eram quase iguais na arquitetura, tendo ambas os mainéis das janelas e portas não só circulares na parte superior delas, mas todo o seu vivo rebaixado, e nele em alto relevo lavradas contas e flores.

As mudanças que em tão poucos anos tem havido nesta nossa cidade do Porto me instiga, a como sei e posso faça as lembranças ocorrentes daquelas, que durante a minha vida presenciei, e assim ache algum curioso nestes apontamentos algum instante, em que se recreie, assunto para partirem[?] as suas ideias, ou motivo para tirarem alguma dúvida sobre a localidade e forma de tais edifícios; destes dous farei a descrição se não minuciosa ao menos clara.

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i1 fotografia da casa  no Terreiro da Alfândega sobre o qual nos fala Sousa Reis. A janela de canto assinalada ainda existe na quinta da Aveleda em Penafiel (ver aqui)

 

Constava a casa da rua da Alfândega de três faces ou frontarias exteriores e visíveis, porque parte da primeira, e toda a voltada ao lado do nascente estavam encravadas no edifício da Alfândega de forma tal, que daquela que olhava para o norte ou embocadura da rua logo ao descer da dos Ingleses[4], apenas se via cousa de 12 palmos[5] saliente, e tantos importava, o que ela obstruía a referida calçada da Alfândega, e foi agora demolida para facilidade do trânsito, e da outra fachada do nascente nada se alcançava pela razão acima dita; nestas faces não havia obra alguma mais que paredes lisas, o que assaz prova ter estado esta parte saliente e visível igualmente encoberta e encostada a outras casas antes da fundação da fachada da repartição da Alfândega, que é natural recuasse esses 12 palmos para alargar a rua do mesmo nome, que com este estabelecimento deveria ser muito concorrida, sendo até aí estreitíssima como testemunha esse grande avanço que esta propriedade tinha. Essa rua estreita foi em antigos tempos chamada rua do cunhal de S. Francisco, se não houve engano em um documento, que vi, respetivo a esta casa, que descrevo.

Na frontaria da parte do oeste tinha praticada, mui próximo ao cunhal do norte, uma porta e a seu par uma janela engradada de ferro de grandíssimas dimensões, e tão lisamente feitas, que bem mostravam ter sido abertas assim para corresponder às janelas centrais dos dous andares da fachada principal virada ao sul, com quem diziam perfeitamente no talhe, porém em lugar de serem arcadas eram direitas as padieiras, e todos os mainéis com elas mostravam cortado e em meia cana saliente e filetes[6] nas margens, os seus vivos, de forma tal, que bem poderia julgar se foram elas obras mais modernas, se isso fora possível: desvaneios do arquiteto, ou gosto variado do dono da propriedade.

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i2 aqui a casa foi já em parte demolida, e encontra-se em construção o edifício atual, que hoje alberga o Arquivo Municipal do Porto. Na imagens vê-se uma parte da fachada da casa manuelina, à direita, que ainda não foi demolida; bem como a pedra da mesma casa espalhada pela rua que muito certamente foi reutilizada no novo edifício

 

Esta parte dava entrada geral para este palacete, pois assim se podia chamar, porque naqueles tempos decerto podia; e devia ser considerado.

A fachada principal como já disse era voltada para o sul, e em sua frente ficava-lhe o espaço chamado o Terreiro, e compunha-se de dous andares, sobre três portas baixas abertas em forma circular como que formando no centro um bico, e muito natural é, serem dentro delas os cómodos dos criados e cavalgaduras; que os primitivos habitantes e edificadores desta propriedade pela sua posição social careciam: eram extremamente acanhadas estas portas, correspondiam-lhe logo superiores no primeiro andar três janelas de sacada com varandas de ferro, sendo a do centro mais elegante porém singela no lavor como a porta principal da entrada e a janela contígua, que já descrevi, e as duas laterais sacadas posto que mais baixas e estreitas eram todas cobertas de florões tão salientes e tantos, que topavam com as soleiras das sacadas do segundo andar, que lhe ficavam por cima, igual em construção, gosto, dimensões e adornos, e só diferia em conter demais junto ao cunhal da parte do oeste ou fronteiro a capelinha do Terreiro um como mirante ou miradouro ricamente adornado e feito em tal gosto, que era o único no seu género nesta cidade, e por essa singularidade não me pouparei a fazer distinta descrição dele.

A coronigem que cobria este miradouro foi construída debaixo da mesma linha, que a geral das três fachadas; sobre o cunhal da casa, que ficava inteiramente partido e rematado no nível do pavimento do segundo andar, em que esta obra era montada, se levantara um peitoril de pedra para o lado da rua da Alfândega, e outro para o do Terreiro, e na esquina ou juntoura deles, e na linha perpendicular e a prumo do referido cunhal pousava uma mui delicada e bem trabalhada coluna de pedra que sustentava as duas padieiras formadas por grandes roscas[?] e retorcidos de veias ou listões de pedras, e a coronigem acima indicada.

Estes peitoris, a parte que distava das padieiras à coronigem, e os lados exteriores deste miradouro eram enriquecidos com tarjas de flores, folhas, pomos e arabescos fantasiados tão bem lavrados em pedra, e ainda que era antiquíssimo aquele trabalho, tinha na ocasião da demolição valor excessivo pelo seu muito merecimento.

Diz-se que quando a Rainha Dona Filipa de Castela[7] atravessou o rio Douro para nesta cidade se casar com el-rei D. João 1º de Portugal, que em Évora se achava, de cujas festas faz larga menção D. Rodrigo da Cunha na Crónica deste rei a fl. 241[8] várias autoridades esperaram a real noiva neste palacete, e algum tempo de se demoraram no miradouro descrito, por serem dele facilmente descobertas as embarcações, que deveriam fazer o cortejo da nova soberana portuguesa. Tão memorável e rica peça foi no ano anterior de 1855, apeada não só pelo estado ruinoso do restante edifício, e causou as vistorias de 5 de Julho de 1848 e outras mais, como por estar essa parte dele estreitando o caminho tão precioso para a contínua servidão da Alfândega desta segunda capital.

Pertencia esta propriedade a Manuel Guedes da Silva da Fonseca, e em seu vínculo estava incorporada, razão esta porque tinham sido infrutuosos todos os esforços que a câmara muitos anos e repetidas vezes fizera para levar a efeito esta demolição a qual conseguiu ultimamente por pacto amigável com seu possuidor, a quem pagou a quantia de R 1:700$000 só pela parte adiantada do alinho da casa da Alfândega, mas o vendedor tal preço fazia deste miradouro, que no contrato o reservou para si; e todas as pedras de que se compunha foram cuidadosamente apeadas e recolhidas à sua habitação nobre sita na praça da Batalha, para em tempo e lugar oportuno talvez colocar este chefe[?] de arquitetura antiga.

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i3 o local na atualidade (comparar com a i1)

 

Não era por certo muito mais moderna a edificação da famigerada casa dos do Patim,[9] pertencente à família de Van Zelleres acreditados negociantes desta praça, a qual já disse, onde era situada, porém como seja necessário descrever-lhe os acessórios para melhor se compreender a descrição da mudança, que se fez nessa parte da cidade, com eles me vou entreter um pouco.

Todos sabemos, onde está situada a Caixa Filial do Banco de Portugal, cujo edifício nos assegura, que muitas gerações conheceram no futuro ser ele parte do convento dos religiosos de S. Domingos, e assente ao sul da rua deste nome, pois saibam também os vindouros, que ao cunhal do poente desta casa estava ligada a igreja dominicana, e seu frontispício coberto de pilastras, com um historiado óculo de vidraças, era rematado por floreadas pirâmides de pedra, e tudo se estendia para a mesma parte do poente, e de tal forma que apenas ficava a distância de uma mui estreita viela entre este templo, e as casas, que por este mesmo lado ficavam fronteiras, e ainda existem. Descendo-se por esta viela encarava-se em frente com um portão, que talhado na parede logo em face através da calçada, e seguia o alinhamento da parte do sul das propriedades da rua da Ferraria de Baixo; este portão dava entrada para a pequena cerca dos frades de S. Domingos, e nesse muro pegava a caza da família do Patim de tal arte, que parte dela se via, logo a embocar nesta viela.

Era a mencionada casa dos do Patim de dous andares, e em cada um havia rasgadas três janelas entre si distantes por grandes intervalos, sendo as do primeiro de sacada com engradamento de ferro e as de segundo de peitoril; três portas lhe correspondiam, porém desiguais na altura por ser a referida rua da Ferraria muito inclinada, não lhe obstando os rebaixes por vezes feitos, ainda é áspera a sua descida. Estas seis janelas tinham as padieiras arcadas, e os vivos dos mainéis rebaixados a meia esquadria: neste rebaixe eram levantadas folhas e pomos, que iam rematar em florões no centro superior de cada um das janelas, e às quais serviam de remate ou fecho, e haviam sido tão solidamente construídas todas as obras desta habitação apalaçada, que poderia ainda durar anos e talvez séculos, mas a necessidade era tal, a fim de que a cidade alcançasse fácil comunicação mais direita e curta, com a Alfândega e cais da descarga, que obrigou à Câmara Municipal a imaginar e levar a efeito pelos anos de 1836[10] a abertura da rua Ferreira Borges; e para isso forçoso foi demolir toda a igreja de S. Domingos de que apenas existem vestígios, arrasar o muro e portão da cerca, e parte das paredes do convento dos religiosos do mesmo santo, que todo ardeu durante o cerco da heróica cidade do Porto,[11] e cortar na largura de uma janela a notável casa dos Van Zeller do Patim; o restante desta casa, passados anos foi comprada por um particular, para sobre seus alicerces levantar essa série de propriedades modernas, que bons alugueres lhe rendem.

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i4 para quem tem difculdade em identificar o local da casa do Patim: 1- casa que substituiu a do Patim, no novo alinhamento : 2- este passeio, é grosso modo, equivalente à viela que existia no século XVIII e início do XIX, estando o restante - até ao local onde se tirou a foto - ocupado pela igreja dos Terceiros dominicanos : 3- foi sensivelmente aqui que existiu o portão que dava acesso à cerca de S. Domingos, antes das demolições de 1835.

 

Seguiu-se para completa abertura desta nova rua, a demolição de uma grande propriedade de casas de três andares, situada na rua nova de S. João,[12] e fronteira à paroquial igreja de S. Nicolau pertencente a Vicente Ferreira de Novais, e logo nela se levantaram para embelezamento de tão cómoda passagem o majestoso edifício da Bolsa, ou praça do Comércio, em que se converteram os magníficos restos do incendiado mosteiro de S. Francisco, e a par desta a segura casa do Banco Comercial do Porto, que cada uma em seu diverso gosto arquitetónico mostram haver nesta cidade operários e mestres tão peritos como nessas capitais da Europa, onde tanto se ostentam os bem delineados riscos, e sumptuosas execuções.»

§§

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i5 a única imagem da casa do Patim é esta e data de 1836 (infelizmente trata-se de um desenho algo estilizado). por esta época a rua ainda estava longe de ser concluída. nela pode-se ver o murete que veio depois dar lugar à rua da Bolsa e ao edifício do Banco Comercial do Porto (agora Instituto dos vinhos do Douro e Porto), entre outros

 

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NOTAS:

s/nº: o autor usa a palavra coronigem, sem dúvida correspondendo à mais atual cornija.

1 - No meu entender esses manuscritos merecem nova e integral publicação, com a ortografia atualizada e com notas sobre a mesma quando necessário. Esse trabalho merecia igualmente ser acompanhado de vários comentários, pois, como em todas as obras de vulto, por vezes o autor erra.

2 - Quando o edifício do Patim foi demolido o autor contava 25 anos. Quando o mesmo aconteceu ao da rua da Alfândega, o mesmo estaria já perto dos 60.

3 - Poderá haver aqui algum exagero do autor. Estas casas seriam as únicas que haviam chegado aos tempos modernos, tenho para mim que mais haviam existido anteriormente, sofrendo o azar de serem demolidas em tempos em que este tipo de edificações não era valorizado artisticamente.

4 - Hoje rua do Infante D. Henrique.

5 - Aprox. 2,60m.

6 - No texto parece estar escrito efiletes.

7 - É lapso por Lencastre.

8 - Algum confusão aqui há. D. Rodrigo da Cunha não escreveu a crónica do rei D. João I mas sim o Catálogo dos Bispos do Porto. Nesse trabalho, a pp. 241 surge o traslado de um documento que descreve a cerimónia de assento da primeira pedra do convento de Santa Clara, onde D. João I participou, mas sendo já rei. Quem escreveu a crónica do rei é Fernão Lopes (ver aqui).

9 - A casa dos do Patim, é necessário ter presente que a palavra Patim nada tem que ver com o nome de uma família, antes do lugar onde ela foi construída que era em patamar.

10 - Na verdade a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto, e foi inicida em maio de 1835.

11 - Num outro manuscrito, que não pertence a esta série, diz o mesmo autor: «1 de junho[de 1835]. Neste dia principiou-se a demolição da igreja pertencente ao extinto convento dos religiosos dominicos, para abertura da rua Ferreira Borges». Segue logo abaixo, a letra diferente, mas do seu punho: «Era este templo grande porém escuro, e o seu frontispício de bela arquitetura e todo e pedraria lavrada, porém como a rua de S. Domigos é estreita e a mesma igreja sobremodo apertava a rua da Ferraria de Baixo, ambas vinham a ser escuríssimas; se por um lado pois melhor (sic) a cidade e a localidade pela demolição e abertura de mais uma via de comunicação, por outro perdeu-se mais um bom edifício, cujo remate cheio de pirâmides lavradas atestava o gosto nas obras de edificação, e a religiosa veneração deste povo por tudo, quanto diz respeito à religião católica».

12 - Lapso por rua dos Ingleses, hoje rua do Infante D. Henrique. É possível que esta casa fosse também ela, na sua origem, manuelina. Era uma casa foreira ao mosteiro de S. Francisco, tendo sido originalmente erguida por Manuel Cirne, feitor na Flandres. A despesa de exproriação desta casa fi, em abril de1835, orçada no valor de 10,200 mil reis.

Impressões sobre a igreja de Santa Clara.

14.03.20

Hoje, caro leitor, deixo-lhe um texto simples de um crítico de arte inglês, escrito nos meados do século passado, quando o mesmo passou pelo Porto e visitou a nossa pequena mas lindíssima igreja de Santa Clara. Espero que vos agrade.

§§

«De manhã, antes que os meus companheiros acordassem, saí, dirigindo-me ao convento de Santa Clara. Um dos seus melhores encantos é não ser fácil de encontrar e, depois de descoberto, bem difícil de lá entrar. Tinhamos tentado na tarde anterior. A porta não pudemos então abrir, e de umas casinhas próximas apontaram-nos a entrada lateral, dizendo-nos que batessemos aí. Batemos, tornamos a bater, cabeças apareceram a janelas, mas ninguém desceu com a chave. De manhã foi outra vez a mesma odisseia, e por fim decidi ir dar um passeio, de que voltei um quarto de hora mais tarde para tornar a bater. Nesta porta, onde até é difícil de bater com força, tem de se procurar nas algibeiras[1] algum objeto de metal para o conseguir. Uma moeda será o mais apropriado, mas depois de algumas pancadas caiu-nos da mão e rola pelo pátio adiante. Só à quarta tentativa, se bem que ela tivesse ouvido logo de princípio e descido imediatamente em resposta ao nosso chamamento, uma velha abriu a porta lateral, de maneira para nós invisível porque parece não haver ali nem fechadura nem batente. A velha desceu ao pátio, trazendo a chave de Santa Clara na sua mão ossuda.

 

A julgar pelo exterior, ninguém envidaria esforço algum para entrar em Santa Clara, antes à primeira dificuldade se iria embora satisfeito. Porque nada há de notável na sua fachada.[2] Não há exteriormente sinais do seu fantástico interior doirado.

 

A portaria do convento, donde emergira a velha, tem um par de colunas salomónicas e há ali janelas gradeadas que sempre sugerem um certo recolhimento e expectativa. Mas logo no mesmo instante em que se entra na igreja, o encanto corta-nos literalmente a respiração. É uma airosa capela de construção medieval transformada num camarim de oiro. Mas a transformação não foi arquitetural, é a arte do doirador e do cenógrafo de altar, muito influenciado pelo teatro, ou, melhor dizendo, debaixo da influência da música sacra. Isto é uma manifestação inteiramente portuguesa, nada tendo a ver com os arquitectos italianos que trabalharam em Portugal, ainda que afetada pela ópera italiana e pintura cenográfica. É um êxtase ou delírio final e culminante do barroco; e é de notar que há qualquer coisa no temperamento dos portugueses em que o tema da freira na Virgem sagrada - particularmente se se tratasse de uma princesa ou senhora de grande merecimento que se unia em espiritual matrimónio com a Ordem das pobres clarissas - se revela de transcendente e dominadora inspiração. Já vimos isto em Braga, onde a Conceição era uma comunidade de Santa Clara, e havemos de a encontrar, novamente no convento de Jesus de Aveiro, e no de Arouca. São das mais encantadoras de todo o Portugal, e todas de idêntica inspiração. Debaixo do seus auspícios, a fantasia e a imaginação do estilo nacional, o manuelino, renasce. Para o encanto dos delirantes e transcendentes efeitos, o convento-capela de Santa Clara do Porto a todos supera.

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Há cinco altares da cada banda, e sobre eles grandes janelas de grades, através das quais sentimos postos em nós os olhares de desvanecidas religiosas.[3] Até a abóbada de pedra da capela ostenta grandes, doirados relevos que pendem dela, enquanto floreados de oiro se espalham e florescem sobre as nervuras góticas. Assim parece cair do teto uma densa chuva doirada. O altar maior tem um enorme arco triunfal, de toda a altura da capela, com doiradas imagens de tamanho natural fazendo guarda sob doirados locais. Por detrás deste, o retábulo-mor é uma fresta de oiro nesta câmara dourada. Podemos bem passar aqui uma estirada hora, estudando o labirinto doirado que na sua espiritualidade é prolixo, como as esculturas de um templo Hindu da idade do oiro. Por cima e por detrás do altar, os assentos doirados diminuem, degrau a degrau, e parece subirem incessatamente, como trepando por uma fita, ou como cascata de vidro sobre um relógio, que esvoaça e se move, aqui transformado em celestial argumento de uma escola para o Paraíso.

 

Mas a beleza suprema de Santa Clara é o coro alto. Como se apresenta tão maravilhosamente encerrado o mistério do oiro! É aí que a inspiração poética, emanando do tema da virgindade santa, atinge o seu apogeu. Só tem paralelo nas capelas do convento de Santa Rosa e Santa Clara em Querétaro, no México, [... ...] ... o mistério do coro alto de Santa Clara do Porto. Porque o mistério é impenetrável. Do pavimento da capela é impossível todo o pormenor. É, na verdade, uma lição de como proporcionar efeitos de mistério, apesar de que não conseguimos saber como tal se conseguiu. Só temos a impressão de pálidas, desvanecidas formas doiradas e relevos por detrás das grades. Deve haver aí cadeirais para as freiras, um trono para a abadessa, altos espelhos dourados, mas nada se pode afirmar. Uma área de requintada e arrebatadora essência desde do coro das freiras.

 

Do mais que possa existir no convento de Santa Clara, não o sabemos. Talvez que no seu rosto de pobreza as freiras tudo gastaram na sua capela. Ou será a parte escondida do convento tão romântica como o de Jesus de Aveiro? Outro mistério de Santa Clara, é a dificuldade de o datar em pormenor. A talha doirada parece ser de todo o período que vai de 1680 até ao terceiro quartel do século XVIII. Tudo bem considerado, diremos que é um teatro sacro ou, mais precisamente, uma casa de ópera sagrada. E em face dele, qualquer outro monumento do Porto, incluindo S. Francisco, é ermo e triste [... ...]. É triste deixar o Porto, sem saber quando se tornará a admirar o camarim dourado de Santa Clara! »

§§

Extrato do livro Portugal and Madeira, de Sacheverell Sitwell, publicado em Londres em 1954. Tradução de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas, surgida n'O Tripeiro, série VI, ano XI.

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1 - Esta palavra e o constante surgir do ditongo oi por ou são sintomáticos de um texto traduzido por um lisboeta, ainda que um apaixonado pelo Porto e pela sua história e que muito fez por a divulgar.

2 - Que reparo injusto!

3 - Tive a felicidade de me sentir da mesma forma na igreja de Santa Clara do Funchal, de estrutura algo semelhante à nossa, quando no final de um concerto de cravo pude testemunhar três vultos escuros vestidos com hábitos de freira, de pé no coro alto, olhando cá para baixo. Fiz, mentalmente e por breves segundos, uma viagem ao tempo em que tal realidade era comum (o convento está ainda hoje a cargo de uma Ordem religiosa feminina).

1474: O ano em que o Porto quis assar um fidalgo !

04.03.20

É um lugar comum dizer que o Porto nunca permitiu a permanência de nobres dentro de portas. Mas, como todos os lugares comuns da história, esta afirmação é verdadeira só até certo ponto. Dá-se o caso de ser o assunto mais complexo do que o que pode descrever um simples blogue dedicado a recuperar memórias portuenses. Mas não nos enganamos fatalmente se afirmarmos que este privilégio se manteve por um período não muito superior a cem anos, com especial incidência no século XV[1]. Em 1390 é explicitamente referido numa carta da chancelaria de D. João I que: «...ho huso e costume da dita Cidade do Porto foi e he tal que nom morem em ella nenhum fidalgo, de nenhuma condiçõm que seja, nem haja morada nenhuma, nem faça hi estada porlongada e que com o dito huso e costume se pobrou a dita Cidade».[2] D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II darão continuidade, com mais ou menos atrito, a este privilégio; mas com D. Manuel o caso começa a mudar de figura...

 

É no século XV que ocorre o mais famoso exemplo da aguerrida forma com que os homens-bons da cidade pugnavam por manter o seu privilégio quanto à não permanência de fidalgos por mais de três dias na cidade. Corria o ano de 1474, o fidalgo Rui Pereira instala-se na rua mais nobre do Porto, a prestigiada rua Nova, em casas da viúva Leonor Vaz[3]. Findos os três dias que lhe era permitido ali permanecer, o mesmo recusa-se a abandona-la. Os dias passam, a tensão cresce, e o portuense comum, juntando-se aos seus representantes do paço da rolaçom, incendiam a habitação. Rui Pereira e seus criados fogem, não sem alguns deles ficarem gravemente feridos. O livro do Cofre da Câmara para o ano de 1474 tem o registo de pagamento a quatro escravos por «acarretarem auga para apagaar o fogo», bem como, logo a seguir, o pagamento a dois negros «que andaram hum dya cavando na dita casa para tyrarem algumas cousas que jaziam soterradas que ele [Rui Pereira?] tem».

 

O caso ficou para a história da cidade e é recorrentemente contado pelos divulgadores dos pergaminhos deste velho burgo. O que poucos talvez saibam é que, o local onde essa casa existiu ainda não foi tragado por uma qualquer expropriação compulsiva para formar uma praça, jardim ou parque de estacionamento.[4] É verdade que as casas da rua Nova, perdão, da rua do Infante D. Henrique, já nada tem que ver com as suas originais do século XV. Se à época as suas habitações eram as mais modernas e melhor equipadas da cidade, certo é que os tempos evoluíram, e no século XVIII e XIX, as comodidades e conforto exigidos eram já outros, pelo que hoje a rua é ocupada por, maioritariamente, bonitos edifícios sete e oitocentistas. O espaço contudo, manteve-se, e na i1 ele surge assinalado, para memória a ser usada pelos guias turísticos da cidade quando quiserem referir aos seus clientes que "foi precisamente aqui que..."

 

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i1 casa que ocupa o mesmo local onde existiu a que foi queimada (A). Notar que, até à construção da nova igreja de S. Nicolau (B), iniciada em 1671, existiam mais casas à direita dela. Atrás ficava a pequena igreja medieval de S. Nicolau (orientada nascente poente) e o sítio de Vale de Pegas, onde já existiam edificações no século XII. Esta foto tem a particularidade de nos mostrar, em segundo plano, uma casa entretanto demolida, que denota construção bastante antiga (C), mesmo que não tão antiga que a permitisse testemunhar a queima da sua vizinha da frente.  - foto SIPA , nº 00042513

 

Diga-se que Rui Pereira levou o caso aos tribunais, tendo a cidade saído vitoriosa, com uma sentença emitida a 9 de março de 1475. Em setembro do mesmo ano, D. Afonso V mandou lavrar estas firmes e resolutas palavras na confirmação do privilégio citadino: «tenho por bem e declaro nos ditos privilégios que nenhuus duques, marquezes, condes, fidalgos, cavalleiros, abades bentos, priores, comendadores e pessoas poderosas de qualquer estado e condiçom que sejam, que na dita cidade nom possam estar, quando a ella vierem, mais dos ditos tres dias, nem tenham em ella aposentadoria nem casa de morada, e querendo ho a elles em ella estar, mando a vos, juizes, e officiais da dita cidade que lho nom consentam»; e acrescenta: «e quando se nom quiserem sair, mando que a cidade os posa fora lançar; e por esta quero que todo o mal, perda e mortes que dello recrecer aas ditas pesoas que assi sair nam quizerem, ou aa dita cidade, que elles sejam por ello teudos a Deos e a nosa justiça e a dita cidade nam».

Santo rei que palavras tão firmes lavrou. Paz à sua memória!


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1 - Se bem que, ainda no século anterior é conhecida uma determinação municipal neste sentido em 1350, e várias régias em 1355, 1368 e 1374.

2 - Que foi estendido às dignidades eclesiásticas em 1412.

3 - Isto é, Leonor Vaz era a detentora do foro.

4 - Em 30 de maio de 1478, no aforamento da mesma casa a Fernão de Neiva, criado do rei, é referido que as casas: «...foram queymadas no arroydo que ha cidade ouvera com Ruy Pereyra».

 

§§
Bilbiografia:

-  2º vol. da História da cidade do Porto (Portucalense Editora)
 - A Construção de um novo centro cívico: notas para a história da rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV,  pelo Prof. Dr. Ferrão Afonso, publicado na revista Museu  n.º 9 (2000).

O palacete da Torre da Marca

02.02.20

Caros leitores, hoje trago-vos mais um texto que creio ser inédito, sobre um dos diversos palacetes que existem (e mais existiam) espalhados pela atual cidade, e digo atual uma vez que vários deles se situavam fora dela aquando da sua construção. Trata-se de mais um excerto recuperado do 5º volume dos Apontamentos... de Henrique Duarte e Sousa Reis, que se mantêm inédito nos cofres da Biblioteca Pública Municipal do Porto, acessível a todos que tiverem o gosto de o procurar.

 

Este edifício está hoje entregue ao Centro de Cultura Católica e no seu próprio site é possível ler um breve mas profundo estudo sobre este palacete e a torre que por trás dele se encontra (AQUI). Tal como quase todos os outros, o edifício está hoje completamente estrangulado pela malha urbana da cidade moderna, que lhe retirou a maior parte da sua zona verde. Ficou-nos a casa e parte do seu quintal, e é claro, a famosa torre medieval!

 

Mas vamos ao texto, que deverá ter sido escrito no final da década de sessenta do século XIX:

 

«Palacete dos Condes de Terena, também conhecido até curta época pela denominação de Palácio da Torre da Marca

 

Quando o Palácio Real tinha o nome dos Carrancas, falando-se em Palácio da Torre da Marca sabia-se, que era o dos Condes de Terena, hoje que àquele se denomina da Torre da Marca, recebeu este a designação dos Condes seus possuidores.

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o palacete nos meados do século XX (fonte: AMP)

 

Mui antiga é a nobilíssima família dos Brandões da Torre da Marca, e muito conhecida em todo o reino, com especialidade nesta cidade do Porto, aonde membros distintos dela tem exercido dignamente altos cargos públicos, tendo-se tornado ainda entre nós mais notáveis na estima pela superioridade das qualidades que em herança, parece, orçam os descendentes desta nobre família. É necessário não os conhecer para não os estimar.

 

Sem que faça ofensa a algum dos fidalgos da Casa da Torre da Marca, a bondade e bizarria natural do Conde de Terena (José) segundo deste título, foram sempre tão conhecidas e apreciadas pelos portuenses, que em qualquer parte aonde aparecia José Maria Brandão todos o acatavam, e no seu falecimento a cidade senti-o como devia sentir a falta de um seu estimadíssimo habitante.

 

A arquitetura deste Palacete denota que foi construído no século 18º, pois nela se divisão os sinais do gosto que já declinava para o modernismo. É certo que alguma parte do antigo edifício se aproveitou na nova construção, e consta que a torre, que sobressai pelo lado do nascente do palacete e ainda é de estilo de remotas eras, fora na reedificação transferida para local mais remoto da frontaria[1]: contudo conservou-se-lhe a forma, e por isso as claras provas da sua velhice, a qual sem dúvida havia de condizer com a do interior da habitação. Externamente por todas as faces do palacete são visíveis os melhoramentos, à exceção da mencionada torre que dá muito merecimento àquela propriedade, assente numa elevação ainda coadjuvada, para ter excelentes vistas, pela altura superior da mesma torre, que bem longe denuncia a sua situação.

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o palacete visto dos jardins do palácio de cristal (século XIX)

 

Internamente tem o palacete espaçosas salas e outros cómodos para numerosa família, e também para serem nela recebidos personagens de altas categorias, e não são poucas as que ali se hospedam honrosamente, pois o Conde falecido era em toda a extensão da palavra um bizarro cavalheiro.

 

Entre todos os hóspedes, lembrar-se só, o Duque da Terceira, o General feliz e invicto das campanhas da liberdade[2]. Corria o ano de 1846 e o povo do Minho havia-se revolucionado, tomando incremento essas ideias por diversas partes do reino: o duque era então o Ministro da Guerra e foi decidido em Conselho de Estado que ele a quem os portugueses tanto deviam viesse ao Porto a qualidade de Lugar Tenente da rainha D. Maria 2ª, a fim de por um termo ao movimento irrefletido do povo. A brandura de que usou o delegado da soberana não foi apreciada pelos exaltados, e o comandante dos corpos militares da guarnição desprezaram as suas ordens, nestes termos os chefes de partido acharam-se livres de qualquer embaraço e à viva força se apoderam do referido Lugar Tenente, que só por milagre escapou à morte, com que foi ameaçado. Preso foi conduzido ao Castelo de S. João da Foz do Douro, aonde sem respeito aos seus serviços ou à sua pessoa sofreu muitos desgostos, e não poucos riscos de vida. Deste presídio incomunicável foi removido para as cadeias da Relação, de onde só saiu livre quando o exército espanhol entrou nesta cidade para derribar uma revolução, cujo curso horrorizava aqueles que meditavam no futuro; seus chefes já temiam os fins de tal construção política que no princípio teve só em vista obrigar um ministério a demitir-se do governo depois tentava contra a dinastia.

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o duque da Terceira, António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, que José da Silva Passos aprisionou no castelo da Foz (salvando-o de um possível linchamento) : ilustre hóspede deste palácio onde se encontravam igualmente os generais afetos à rainha quando chegaram ao Porto para conter a eminente revolução

 

Anexo ao palacete há um sofrível terreno cultivado, inferior ao pavimento do jardim que para tornar mais agradável a residência ali fica ao nível do andar nobre pela parte do poente: é ornado com as galas que a natureza nos dá para embeleza-lo e com taças e repuxos, cujas águas reluzem como fios de prata dando-lhe o sua[3] na sua descida para o ocidente, quando elas caiem nesses redondos depósitos aonde vivem em constante[s] movimentos centenares de peixinhos.

 

Fronteiro como ficou ao palácio de Cristal, ganhou muitíssimo este palacete, apesar de antes já possuir um sofrível largo bastante desafrontado, o qual recebeu maiores proporções dando à família dos Brandões a encantadora vista dos jardins e jogos de água pertencentes ao palácio industrial, nos quais se alimentam sempre verdes entre a relva as boninas e arbustos com que acham guarnecidos.

 

O último senhor deste palacete foi Luís Brandão de Melo 3º conde e 2º marquês de Terena, de quem sua filha única casou com o marquês de Monfalim, ficando herdeira de valiosas propriedades sitas em diferentes pontos deste reino e principalmente no Minho. As alianças que alguns dos descendentes desta família tem feito com as famílias da primeira nobreza de Portugal, acrescentaram ainda mais a consideração que já tinha».

 

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1 - não creio que a torre tenha sofrido trasladação. Mais acredito que o edifício do século XVIII se tenha adaptado à sua preexistência.

2 - A segunda guerra civil do século XIX, que passou à história com o nome de Patuleia.

3 - Sic. Creio que o autor queria escrever sol.