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A PESTE DE 1899 NO PORTO

um apontamento...

23.11.21
Apesar dos altos números de infeção neste inverno de 2021, creio que nos encontramos hoje na fase descendente da pandemia que tem vindo a condicionar a sociedade portuguesa, desde março de 2020. Os seus efeitos reais a médio e longo prazo na vida das pessoas ainda estão para demonstrar; e só agora, com o início da normalização, iremos realmente colher os frutos de todas essas condicionantes. Um desses aspetos, particularmente no que toca ao ano de 2020, foi o assistirmos a uma forte estagnação da economia, com grande parte da atividade comercial parada. Foi esse precisamente o pensamento que me veio à memória ao ler o pequeno texto que se segue; e que nos prova, que o que foi por vezes volta a ser, mesmo que muito não se queira... Pois que de facto, neste extrato do relatório anual da Caixa Filial do Banco de Lisboa no Porto referente ao exercício de 1899, podemos notar vários paralelismos com o nosso tempo:
 
 
 
« (...) com relação à segunda parte referente ao 2.º semestre e já sob a administração definitiva que tomou posse a 20 de junho, deram-se ocorrências de tão transcendente importância na praça do Porto, que não podemos deixar de nos referirmos a elas, pela influência extraordinária que tiveram no resultado das operações. Declarada oficialmente a peste bubónica nesta cidade, impostas medidas sanitárias do maior rigor e cercada a cidade pelo cordão militar - estabeleceu-se o pânico e daí a saída precipitada de milhares de pessoas, agravada com o impedimento na vinda de forasteiros que, especialmente, na época balnear dão considerável impulso às transações comerciais.

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A perturbação que este estado de cousas causou na situação económica da cidade, provocou os mais enérgicos protestos de toda a população, principalmente do comércio e da indústria que eram os mais diretamente afetados. Não desejamos referir os sobressaltos e inquietações que tivemos de suportar, tendo, como tínhamos, interesses da maior monta a salvaguardar e defender, vendo o comércio fechado, as fábricas paradas, os operários na rua, e o movimento comercial dos nossos portos marítimos absoluta e completamente paralisada. Nestas circunstâncias, como V. Exas. bem podem avaliar, atravessou a nossa praça uma crise muito dolorosa e de efeitos os mais prejudiciais e nós um período cortado de dificuldades e inquietações. (...) »

 
 
Consegue o leitor encontrar, nestas sucintas linhas, pontos em comum com a pandemia da COVID-19? Não duvido que sim.
 
NotaQuem pretender aprofundar um pouco o que foi a vivência da cidade durante o cordão sanitário,  recomendo a leitura da interessante dissertação de David Laranja Pontes, O cerco da peste no Porto - Cidade, imprensa e saúde pública na crise sanitária de 1899, que pode ser consultada aqui.
 
 
 
ξ ξ ξ ξ
Fonte: Livro 1.º de relatórios da Caixa Filial do Banco de Portugal no Porto, à guarda do Arquivo Histórico do Banco de Portugal. Imagem: Peste Bubónica: desinfestação de uma ilha do Porto.

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