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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O açougue da cidade

20
Jun21

Caro leitor, o texto que abaixo poderá ler é da autoria do incansável Henrique Duarte e Sousa Reis, já por diversas vezes por mim aqui mencionado, como certamente se lembrarão. O tema é o açougue[1] que existia no local mais antigo da cidade - o morro da Penaventosa -  e que não era equivalente ao atual talho. Antes representava o estabelecimento onde se matava e esquartejava o gado, e só nele tal operação podia ter lugar. Mas vamos ao texto, onde há muito que ler!

 

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«Memória sobre a casa e local do Açougue Real ou Matadouro Público da Cidade do Porto, antes da edificação do Matadouro das Fontainhas, hoje destinado para asilo da Mendicidade, e do situado no Monte Pedral em Paranhos, o qual de presente é o único que existe.[2]
 
 
Matadouro público chamado Açougue Real situado no sítio do Castelo velho da cidade, hoje largo do Açougue.
 
Entre a atual rua do Paço Episcopal que ainda corre do nascente ao poente, ao longo e encostada à parede do pátio do mesmo paço, e três moradas de casas que estão no termo dele, e voltam as suas fronteiras ao norte: e entre a rua da Senhora de Agosto,[3] que seguindo a mesma linha vai entroncar-se na rua de S. Sebastião que passa em frente do Aljube, havia logo nas costas da casa do Auditório Eclesiástico estabelecido sobre as cocheiras dos bispos, cujo edifício ainda existe em frente da casa capitular do cabido,[4] algumas casas com os frontispícios voltados ao poente olhavam sobre um pequeno largo quase quadrado, que ficava pelo sul com a rua do Paço até descer às escadas do colégio dos Jesuítas (S. Lourenço) pelo norte com a rua da Senhora de Agosto, pelo nascente com as casas que sobre este largo olhavam, e pelo poente com as pequenas casinhas que voltavam suas traseiras sobre as escadas e largo do Colégio.
 
 
No meio deste largo houve um grande armazém quase quadrado, que nas paredes do nascente (para onde havia um estreito beco, que o separava das casas fronteiras) do norte e sul à altura pouco mais ou menos de 20 palmos se rasgaram 6 frestas gradeadas de ferro.
 

Screenshot_1.jpg

nesta vista de c. 1928, captada do Paço Episcopal (à época, efetivamente, os Paços do Concelho), vemos em primeiro plano boa parte do que hoje é o largo do Dr. Pedro Vitorino: 1 - demolida rua do Bispo, 2 - local onde existiram os açougues, 3 - edifício ainda existente, 4 - antiga rua da Sapataria, hoje repartida pelo largo Dr. Pedro Vitorino e pela rua de S. Sebastião.

A casa-torre (5) aqui presente, onde os antigos açougues se encostavam, foi remontada uns parcos metros do seu local original e nela esteve sediado o Gabinete de História da Cidade

 
Constava a frontaria deste armazém, que era voltado ao poente, de um larguíssimo portal, e sobre a sua padieira se levantava em meio relevo, um muito mal trabalhado e até monstruoso homem todo feito de pedra e de tais dimensões, que ocupava com sua estatura toda a distância existente desde a dita padieira até ao cimo da empena, e na mão tinha uma haste, talvez figurando a lança de guerreiro; a esta figura chamavam o Porto.[5]
 
 
Foi este grande armazém edificado para matadouro público da cidade donde iam as rezes mortas entregar-se aos poucos açougues, que nela então havia, por depender seu estabelecimento de prévias licenças do senado, que a negava o concedia, como lhe parecia, e neles iam as autoridades primeiro que o povo receber e escolher para seu gasto e das pessoas de seu conhecimento e amizade as melhores peças dessas rezes, das quais só tocava ao consumo geral dos cidadãos a carne de mais péssima qualidade e os miúdos; por tais motivos muitas queixas eram feitas quase diariamente ao senado da câmara, que projetava reformar, fazia ensaios, multava e perseguia por seus ofícios de justiça privativos, e pela almotaçaria as quais tanto abusavam da paciência popular, mas eram tantas e tais as influências e dependências dessas autoridades, que manietavam os vereadores, e forçoso lhes era fecharem os ouvidos e olhos à justiça que lhes pediam, e toleravam pacientes tanta iniquidade. Junto do açougue ou matadouro, havia uma pequena casa chamada da Almotaçaria, na qual ela fazia as suas sessões e vigiava os cortadores.
 
 
Consta que fora edificado o Açougue Real ou matadouro público no ano de [em branco] à custa do cofre do município, ou para melhor dizer, das obras públicas, que então era separado.
 
 
Neste mesmo sítio ou suas proximidades, creio ter havido antigamente outra casa mais pequena destinada ao mesmo fim, a que chamavam Açougue do Povo,[6] e eram tais os inconvenientes, que dele provinham à vizinhança, que eram quase contínuas as representações pedindo a sua mudança, mas como eram do povo, desprezavam-se, mas atendidas foram, logo, que o clero as fez, e se não vejamos: no ano de 1584 os padres jesuítas então residentes no convento de S. Lourenço do colégio fizeram uma representação ao senado da câmara, na qual pediam a remoção do Açougue do Povo para outro local, porquanto era insuportável o mau cheiro que exalava e nocivo era aos padres moradores a tão pequena distância: esta suplica foi diferida em vereação de 7 de julho do mesmo ano, preferindo-se o lugar do Poço no monte de Santa Clara por ser dentro da cidade, e ficar distante dos jesuítas, porém não se podendo levar a efeito esta mudança até ao ano seguinte de 1585, por falta de dinheiro para esse novo edifício, acordou[-se] em vereação de 7 de setembro se fizesse desde logo a mencionada transferência do matadouro por que um dos então vereadores ofereceu para ela a quantia de 30$000 rs., com ela se principiou a obra, que penso ser no local junto ao presente Recolhimento das Dores e S. José, não só por ser ele a continuação do monte de Santa Clara, a que antigamente chamavam monte dos Carvalhos, como porque em outro tempo me consta ali houvesse um poço e não é muito antigo o chamar-se à rua do Sol, ou à viela que então havia, viela das Tripas, que de certo modo confirma a proximidade do matadouro, por ser usual as mulheres e criados dos cortadores e fornecedores de carnes ocuparem-se exclusivamente no tráfico de secarem e lavarem as tripas do gado, e sempre residirem nas vizinhanças dos matadouros públicos, até que pela portaria da câmara de 20 de julho de 1850, foram mandadas estabelecer fora das barreiras em sítios ventilados.
 
 
Mas ou porque com a extinção dos jesuítas já não houvesse quem se opusesse, ou por outra qualquer razão tornou a mudar-se para junto das Aldas o matadouro, e para esse fim comprou a câmara em 11 de outubro de 1618 (…) umas casas sitas na Pena Ventosa no Castelo Velho desta cidade, que eram do domínio do cabido da Sé e confrontavam de uma banda com a casa de Jacome de Sousa, e da outra com o açougue da cidade, o antigo matadouro antes da mudança feita a requerimento dos jesuítas, e igual compra por ela no dia imediato (…) de outras casas que lhe eram próximas e situadas no mesmo local pertencendo a Jacome de Sousa (…) que de um lado confrontavam com aquelas, e do outro com as de Pantaleão de Seabra (…).
 

Screenshot_2 (1).jpg

o último matadouro da cidade, em início de funcionamento (c. 1928), já bem longe do centro histórico e em tempo de maiores preocupações higiénicas (edifício que num futuro próximo terá nova vida)

 
Não sendo talvez ainda o espaço suficiente para a construção do matadouro, o que a câmara tinha já adquirido, promoveu ainda a compra das casas de Pantaleão de Seabra, o que efetuou em 26 de julho de 1620, e é muito natural todas fossem demolidas para se fazer o Açougue Real, e a casa da Almotaçaria, que tudo teve exercício até ao ano de 1821, na qual se permitiu a livre vendagem da carne pois que até aí era fornecida por arrematação ou contrato feito pela municipalidade (…)
 
 
Abandonado este edifício por se ter transferido o matadouro público para as Fontainhas,[7] veio a cair em ruínas, e para isso muito concorreu o cerco desta cidade em 1832, por esse tempo em que se edificava a casa das Fontainhas, que muitos anos levou a concluir, às ocultas, requereu António Joaquim Teixeira Correia, escrivão do Auditório Eclesiástico deste bispado e morador ali próximo, ao cabido da Sé, antigo direto senhorio do terreno, lhe renovasse o prazo de vidas que ele dizia pertencer-lhe (...) [que na realidade] já estava findo nas pessoas de José Lopes Pereira e sua mulher (…).
 
 
Esquecendo o cabido da transação feita com a câmara em 1618, sobre o foro [que passara para uma casa à Ponte de S. Domingos defronte do hospital dos Palmeiros], novamente aforou ao requerente pela renovação de 7 de dezembro de 1815…
 
 
Assim, reconhecido enfiteuta, (…) veio requerer à câmara em 1826 a entrega da casa da Almotaçaria que era apensa ao Açougue Real de que se dizia senhor, e lhe foi concedido por portaria do senado de 17 de janeiro de 1827.
 
 
Assim falsa ou legitimamente empossado este de propriedade alheia foi executado nela por dívida contraída … [comprou António de Moura Adeleiro, morador na rua de S. Sebastião]. E como a casa do Açougue tivesse sofrido prejuízos durante o cerco, este [António Adeleiro] os foi justificar em 6 de março de 1835 [à comissão de perdas] (…) foram julgados belo juiz do bairro de Santa Catarina em 35$000 que o estado lhe havia de pagar em vistas das mesmas leis, o que tudo não teve efeito … nem recebeu a indemnização nem a propriedade, que o tempo e povo foi arruinando, e o largo ficou inteiramente livre e entregue ao uso público.»
 
fonte: 5º vol. de Henrique Duarte Sousa Reis, manuscrito da BPMP (c. 1870)[8]

___________

1 - Não caro leitor, não é brasileirismo. A palavra tem até origem árabe, e foi durante muito tempo corrente no português europeu.

2 - No século XXI já nada disto é realidade: O matadouro das Fontainhas, depois Asilo de Mendicidade, esta hoje ao abandono; o matadouro em Paranhos alberga a Direção Geral de Ambiente e o canil, da câmara portuense; e mesmo o matadouro que Sousa Reis nunca conheceu já não o é, e novos projetos existem para ele.

3 - Quer esta, quer a anterior, feneceram em 1939.

4 - Idem.

5 - Sobre ela, diz Almeida Garret em O Arco de Santana: «Cá estamos juntos à venerada estátua do Porto que, rodeado de assopradas tripas, olha, como do próprio trono, para sobre os domínios da sua jurisdição. Não tinha ainda, naquele tempo, iconoclástica broxa ousado assarapantar de vulgar e rabugenta oca, nem arrebicar de crasso vermelhão aquele primor do cinsel portuense, que então resplancedia em toda a nitidez do prmitivo granito». Palavras, creio, cheias de ironia.

6 - Quer este Açougue do Povo, quer um outro dedicado em exclusivo aos cónegos da Sé, foram criados no meado do século XVI, embora já desde 1475 o cabido tivesse marchante exclusivo no açougue da cidade, autorizados por D. João II.

7 - Será  matadouro das Fontainhas, que aqui podemos ver numa reformulação de finais do século XVIII.

8 - Este registo encontra-se integralmente transcrito a pp. 244 e seg. do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. de 1951; com algumas diferenças de leitura.