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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Como era a Rua do Infante D. Henrique, até 1882

17.02.20

A imagem abaixo apresentada - i1 - é uma fotografia que capta a Rua dos Ingleses (hoje Rua do Infante D. Henrique), nos meados do século XIX. Por ela se vê que a rua se encontrava completamente ocupada por edifícios, alguns ao bonito estilo setecentista e dos quais poucos ainda lá se encontram. Há contudo uma grande diferença entre esta imagem e a realidade atual: o correr de casas à esquerda da foto foram demolidos em 1883 para dar lugar ao Jardim do Infante.

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i1

Se i1 nos mostra a rua do Infante D. Henrique antes de 1882, a i2, é uma sua equivalente dos anos 30 ou 40 do século XX, onde a rua já apresenta o seu aspeto atual. A diferença é capital e mudou por completo a ambiência da rua, quando o jardim foi aberto no local onde desde o século XV continuamente tinham existido casas (naquele século e em parte do seguinte, foi a rua da cidade onde os seus "melhores" cidadãos viviam).

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i2

A i3, abaixo, apresenta-nos um pormenor da i1, onde melhor se vê o correr de casa que já não existem, bem como a entrada antiga (quase escondida por completo) da rua das Congostas. Ali, embora não visível porque semi-tapado por uma uma árvore, está um Passo idêntico aos que ainda subsistem no cunhal de S. Francisco e no topo da rua Escura.

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i3

A i4 é um outro aspeto do mesmo local da i3. A foto foi tirada menos de uma década depois da anterior, mas com o fotógrafo a rodar uns 100º para a esquerda em relação ao anterior. O Palácio da Bolsa lá está (no seu aspeto geral, foi concluído menos de duas décadas antes das primeiras fotografias do Porto que conheço), mas o jardim ainda não existe. O que ali se encontra é apenas o chão terraplanado, que fora outrora ocupado pelas casas que vemos na i2.

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i4

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i5

A i5 é o pormenor do outro lado da rua, que ainda apresenta um aspeto reconhecivel. Ali estão eles, os trens de praça, com os seus cocheiros a postos (bem, uns mais do que outros...) a receber quem deles precisasse. Por esta altura este tipo de transporte era tabelado e com locais próprios, tal como os taxis da atualidade. A imagem deixa ainda ver, lá ao fundo, na rua dos Mercadores, a erguerem-se altaneiros, os edifícios demolidos em meados do século XX para se abrir o túnel da Ribeira.

 

Esta rua foi alvo de uma pintura do Barão de Forrester, bastante conhecida, que nos mostra a "Bolsa a céu aberto", quando o edifício do Palácio da Bolsa ainda não se encontrava totalmente disponível (i6). Por mim, que tenho o hábito de vasculhar jornais antigos, já me dei com uma ou outra notícia de crianças mendigas que à noite, nessa mesma época, dormiam nos portais destas casas opulentas. O que era uma azáfama de negócios durante o dia, era um triste, frio e enorme colchão de pedra para alguns seres humanos... Termino com este apontamento agridoce, na tentativa de mais uma vez fazer a ponte entre o charme destas fotos antigas do Porto do romantismo, com a realidade que elas muitas vezes escondiam.

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i6

Sendo umas décadas anterior à fotografia, ainda não existia o americano, cujos carris se vêm na i1; e certamente da época em que o Palácio da Bolsa se encontrava por concluir, pelo que os negócios eram feitos na rua. Também a sede da Associação Comercial do Porto, convenientemente, se localizou por aqui durante alguns anos.

 

Mas esta rua, mandada abrir pelo rei D. João I, tem bem mais histórias para contar. Uma delas, reporta ao tempo em que os nobres não podiam pousar dentro de muros e que deu origem a uma terrível "queimada"... Mas sobre isso falaremos mais à frente...

 

 

20/05/16

O palacete da Torre da Marca

02.02.20

Caros leitores, hoje trago-vos mais um texto que creio ser inédito, sobre um dos diversos palacetes que existem (e mais existiam) espalhados pela atual cidade, e digo atual uma vez que vários deles se situavam fora dela aquando da sua construção. Trata-se de mais um excerto recuperado do 5º volume dos Apontamentos... de Henrique Duarte e Sousa Reis, que se mantêm inédito nos cofres da Biblioteca Pública Municipal do Porto, acessível a todos que tiverem o gosto de o procurar.

 

Este edifício está hoje entregue ao Centro de Cultura Católica e no seu próprio site é possível ler um breve mas profundo estudo sobre este palacete e a torre que por trás dele se encontra (AQUI). Tal como quase todos os outros, o edifício está hoje completamente estrangulado pela malha urbana da cidade moderna, que lhe retirou a maior parte da sua zona verde. Ficou-nos a casa e parte do seu quintal, e é claro, a famosa torre medieval!

 

Mas vamos ao texto, que deverá ter sido escrito no final da década de sessenta do século XIX:

 

«Palacete dos Condes de Terena, também conhecido até curta época pela denominação de Palácio da Torre da Marca

 

Quando o Palácio Real tinha o nome dos Carrancas, falando-se em Palácio da Torre da Marca sabia-se, que era o dos Condes de Terena, hoje que àquele se denomina da Torre da Marca, recebeu este a designação dos Condes seus possuidores.

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o palacete nos meados do século XX (fonte: AMP)

 

Mui antiga é a nobilíssima família dos Brandões da Torre da Marca, e muito conhecida em todo o reino, com especialidade nesta cidade do Porto, aonde membros distintos dela tem exercido dignamente altos cargos públicos, tendo-se tornado ainda entre nós mais notáveis na estima pela superioridade das qualidades que em herança, parece, orçam os descendentes desta nobre família. É necessário não os conhecer para não os estimar.

 

Sem que faça ofensa a algum dos fidalgos da Casa da Torre da Marca, a bondade e bizarria natural do Conde de Terena (José) segundo deste título, foram sempre tão conhecidas e apreciadas pelos portuenses, que em qualquer parte aonde aparecia José Maria Brandão todos o acatavam, e no seu falecimento a cidade senti-o como devia sentir a falta de um seu estimadíssimo habitante.

 

A arquitetura deste Palacete denota que foi construído no século 18º, pois nela se divisão os sinais do gosto que já declinava para o modernismo. É certo que alguma parte do antigo edifício se aproveitou na nova construção, e consta que a torre, que sobressai pelo lado do nascente do palacete e ainda é de estilo de remotas eras, fora na reedificação transferida para local mais remoto da frontaria[1]: contudo conservou-se-lhe a forma, e por isso as claras provas da sua velhice, a qual sem dúvida havia de condizer com a do interior da habitação. Externamente por todas as faces do palacete são visíveis os melhoramentos, à exceção da mencionada torre que dá muito merecimento àquela propriedade, assente numa elevação ainda coadjuvada, para ter excelentes vistas, pela altura superior da mesma torre, que bem longe denuncia a sua situação.

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o palacete visto dos jardins do palácio de cristal (século XIX)

 

Internamente tem o palacete espaçosas salas e outros cómodos para numerosa família, e também para serem nela recebidos personagens de altas categorias, e não são poucas as que ali se hospedam honrosamente, pois o Conde falecido era em toda a extensão da palavra um bizarro cavalheiro.

 

Entre todos os hóspedes, lembrar-se só, o Duque da Terceira, o General feliz e invicto das campanhas da liberdade[2]. Corria o ano de 1846 e o povo do Minho havia-se revolucionado, tomando incremento essas ideias por diversas partes do reino: o duque era então o Ministro da Guerra e foi decidido em Conselho de Estado que ele a quem os portugueses tanto deviam viesse ao Porto a qualidade de Lugar Tenente da rainha D. Maria 2ª, a fim de por um termo ao movimento irrefletido do povo. A brandura de que usou o delegado da soberana não foi apreciada pelos exaltados, e o comandante dos corpos militares da guarnição desprezaram as suas ordens, nestes termos os chefes de partido acharam-se livres de qualquer embaraço e à viva força se apoderam do referido Lugar Tenente, que só por milagre escapou à morte, com que foi ameaçado. Preso foi conduzido ao Castelo de S. João da Foz do Douro, aonde sem respeito aos seus serviços ou à sua pessoa sofreu muitos desgostos, e não poucos riscos de vida. Deste presídio incomunicável foi removido para as cadeias da Relação, de onde só saiu livre quando o exército espanhol entrou nesta cidade para derribar uma revolução, cujo curso horrorizava aqueles que meditavam no futuro; seus chefes já temiam os fins de tal construção política que no princípio teve só em vista obrigar um ministério a demitir-se do governo depois tentava contra a dinastia.

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o duque da Terceira, António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, que José da Silva Passos aprisionou no castelo da Foz (salvando-o de um possível linchamento) : ilustre hóspede deste palácio onde se encontravam igualmente os generais afetos à rainha quando chegaram ao Porto para conter a eminente revolução

 

Anexo ao palacete há um sofrível terreno cultivado, inferior ao pavimento do jardim que para tornar mais agradável a residência ali fica ao nível do andar nobre pela parte do poente: é ornado com as galas que a natureza nos dá para embeleza-lo e com taças e repuxos, cujas águas reluzem como fios de prata dando-lhe o sua[3] na sua descida para o ocidente, quando elas caiem nesses redondos depósitos aonde vivem em constante[s] movimentos centenares de peixinhos.

 

Fronteiro como ficou ao palácio de Cristal, ganhou muitíssimo este palacete, apesar de antes já possuir um sofrível largo bastante desafrontado, o qual recebeu maiores proporções dando à família dos Brandões a encantadora vista dos jardins e jogos de água pertencentes ao palácio industrial, nos quais se alimentam sempre verdes entre a relva as boninas e arbustos com que acham guarnecidos.

 

O último senhor deste palacete foi Luís Brandão de Melo 3º conde e 2º marquês de Terena, de quem sua filha única casou com o marquês de Monfalim, ficando herdeira de valiosas propriedades sitas em diferentes pontos deste reino e principalmente no Minho. As alianças que alguns dos descendentes desta família tem feito com as famílias da primeira nobreza de Portugal, acrescentaram ainda mais a consideração que já tinha».

 

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1 - não creio que a torre tenha sofrido trasladação. Mais acredito que o edifício do século XVIII se tenha adaptado à sua preexistência.

2 - A segunda guerra civil do século XIX, que passou à história com o nome de Patuleia.

3 - Sic. Creio que o autor queria escrever sol.

O 'macadam' segundo Arnaldo Gama

04.01.20

Esta publicação poderia perfeitamente encaixar no blogue que extingui denominado O Porto de Oitocentos[1]. Trata-se de uma passagem de um famoso livro de Arnaldo Gama intitulado Um motim há cem anos. Nesta obra Gonçalo Antunes é um antiquário e investigador, amigo fictício(?) do narrador que este visita no Hospital do Carmo onde o Sr. Antunes residia havia dois anos. Na parte introdutória da história que o mesmo irá contar, discorre a personagem sobre a inovação do macadam que chegou às ruas do Porto por meados do século XIX e que nunca acolheu o agrado geral. Pelos anos 80 do mesmo século iniciou-se finalmente a sua substituição gradual por paralelepípedos de Canelas, sistema ainda hoje utilizado.

 

 

*

«- Antes de lhe chamar a atenção para a localidade, onde, ainda há pouco tempo, existia uma das mais importantes antigualhas do Porto, deixe dizer-lhe duas palavras a respeito do sistema de calçar as ruas usado em 1757. Nesse ano o Porto ainda não tinha a felicidade de ter ruas macadamisadas. Os pobres diabos dos tripeiros ainda não haviam tocado aquele grau de perfeita civilização, que lhes deu em resultado um sistema de pavimentar ruas, que, chovendo, os faz caminhar por entre lama até o joelho, e, fazendo vento, cospe de si turbilhões de poeira que os suja, e que os cega[2]. Em 1757 as ruas do Porto ainda eram calçadas por grandes e lisas pedras do magnífico granito, com que a natureza lhes fecundou o solo. Era um salão continuado; o pavimento das ruas atestava a opulência desta rica cidade. E assim se conservaram por mais trinta anos seguidos, até 1787, em que a câmara, em atenção à comodidade das carruagens, substituiu a obra majestosa dos nossos passados por um pavimento de seixos roliços, que no Porto se chamavam então burgos, e hoje se chamam bôgos. Deles ainda restam vestígios em algumas ruas menos importantes da cidade. Ficou-lhe à câmara desse tempo o juízo a arder com a lembrança; mas ainda mais lhe arderia a reputação, se a atualidade lhe não justificasse o tolo alvitre com o pulverulento macadame. Este então rematou a obra; foi oiro sobre azul. Que os ingleses preconizem o macadame como o mais económico e cómodo pavimento de estradas, e que nós lhes abracemos por este motivo a ideia, vá; é justo, é sensato. Que as nações, que não têm granito para pavimentar as ruas, as cubram de macadam tão perfeitamente combinado, que consigam por esta forma empedrá-las artificialmente, é natural, naturalíssimo. Mas que nós, que abundamos em granito, que o trazemos aí aos pontapés diante de nós, macadamisemos as nossas ruas só por tolo espírito de imitação, isto brada ao céu. E dizem que é por causa das carruagens e das bestas que as puxam! Pois a comodidade de cem, duzentos, mil trens, se quiserem, vale porventura a pena de estragar uma grande cidade e de incomodar uma população de cem mil habitantes? Que lucram eles com a comodidade de trezentas ou quatrocentas pessoas que podem andar de sege? E que direito têm, os que podem ter a comodidade duma sege, a incomodar as cem mil pessoas que a não podem ter, unicamente com o fim de juntar ao cómodo de ser levados nas pernas de outrém o gozo de ser doce e suavemente levados? Ah! Bom arrocho! E depois dizem que é por filantropia, por amor pelos pobres animais que arrastam as seges! Esta humanidade exemplar pela comodidade das bestas é perigosa para a reputação dos caridosos camaristas. Que homens! Que cabeças! A ideia faz-lhes honra; em nome dela a posteridade há de decretar-lhes as glórias do panteon da asneira.

O antiquário parou de novo, meneando gravemente a cabeça.


— Desafogada — continuou, finalmente — esta minha justa indignação.. (justa e justíssima porque sou uma das vítimas mais ofendidas do maldito macadam, em razão duma oftalmia que, por causa dele, sofri um ano a fio, e que me deixou, como vê, sem metade das pestanas que tinha nas pálpebras) ...»

 

*

 

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pormenor da rua das Taipas ainda macadamisada

 

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1 - Cujas publicações foram trasladadas para A Porta Nobre.

2 - Por este sistema as ruas necessitavam de manutenção permanente. Ficaram famosos os pipinhos da câmara municipal: funcionários que tinham por obrigação regá-las no tempo seco para que a poeira não tornasse impossível o trânsito de pessoas e animais. Outra queixa frequente nos jornais era a do constante pó que se metia dentro das casas nas ruas calçadas por este sistema.

Uma descrição inédita do Palácio de Cristal?

27.12.19

Um dos monumentos desaparecidos da nossa cidade cuja 'memória' é ainda transversal a quase todas as gerações de portuenses é, ou foi, o Palácio de Cristal. E pese embora em 2020 todos os que o verdadeiramente conheceram tenham forçosamente de possuir uma idade superior a 70 anos; creio que, mesmo em gerações mais novas, há no ar a ideia de o terem conhecido, e que essa sensação permanece (o que é fisicamente impossível dado que a sua demolição ocorreu em 1952).

 

Mas adiante! O texto que abaixo se vai ler é talvez inédito, remetendo-os para um tempo desde a origem do processo constitutivo da sociedade que o tornou uma realidade, até à descrição daquela estrutura, plangentemente lembrada pelos portuenses. Encontra-se no 5º volume dos Apontamentos para a verdadeira história... do incansável Henrique Duarte e Sousa Reis.[1] O texto é transcrito quase na integra, pelo que requer a atenção do caríssimo leitor por uns vinte minutinhos, para ler e absorver...

 

*

«Palácio de Cristal no monte da Torre da Marca, atualmente chamado campo Duque de Bragança


Os cidadãos António Ferreira Braga, Alfredo Allen, Guilherme Augusto Machado Pereira, depois visconde de Pereira Machado, e outros cidadãos portugueses residentes nesta cidade do Porto tiveram no ano de 1860 o alto pensamento de fundarem um Palácio de Cristal destinado nesta segunda capital para as exposições de objetos de toda a qualidade de indústria e artes, e bem assim para outros misteres de utilidade pública e recreio dos portuenses, e tanto mais elevada é esta lembrança quanto nela envolve o singular desejo, sumamente patriótico, de o Porto que primeiro tentasse esta obra de civilização engrandecendo-se assim e a estes reinos, que por este meio convidará os estrangeiros a visitar-nos, além da concorrência dos naturais que decerto se tornará numerosíssima vindo às vindouras exposições.

 

Foram as exposições agrícolas de 1857 e 1860 e a industrial promovida pela respetiva Associação Portuense em 186 [falta o algarismo das unidades] que despertaram e arreigaram a grandiosa ideia desta fundação, prognóstico do bom resultado que depois teve.

 

Coadjuvados os primeiros fundadores pela boa vontade de outros cidadãos, que com seus cabedais se prestaram alegres a inscreverem-se acionistas na empresa, afanosamente trabalharam todos para realizar-se uma obra de tanta importância política.

 

As amiudadas sessões que fizeram adiantaram muitíssimo tudo quanto se carecia para formular as bases sobre que devia apoiar-se este voo do mais acrisolado civismo, e discutidos os estatutos acharam eles benévolo favor do monarca excelso, que nos regia então, e pronta a vontade do respetivo ministro para por em rápido andamento a sua aprovação, durante que se curava de levantar a planta, contratar a fatura do Palácio apropriado para o desejado fim com um experiente engenheiro, obtendo-se conveniente local para a sua fundação.

(...)

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construção do edifício (1864?). Muita da pedra usada foi retirada de uma pedreira de Cedofeita, como no texto se pode ler

 

Foram aprovados os estatutos por decreto de 20 de agosto de 1861, época em que a subscrição já montava a 102:000$000 reis, quantia que se reputou em mais de cinco oitavos do fundo inicial, sendo a 30 do mesmo mês a instalação da sociedade, pertencendo de direito o nome de instaladores a António Ferreira Braga, Alfredo Allen, António José do Nascimento Leão, António Ribeiro Fernandes Forbes, Barão de Nova Cintra, Eduardo de Oliveira Chamiço, Francisco Pinto Bessa, Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães, doutor José Frutuoso Aires de Gouveia Osório, José Joaquim Pereira Lima, visconde de Castro Silva e visconde de Pereira Machado. Em época posterior reformaram-se os estatutos, porque as ocorrências assim o aconselharam, e então o decreto de 15 de março de 1865 aprovou os definitivos que ao presente vigoram[2].

 

Na vereação camarária de 22 do referido mês de agosto requereu a Sociedade do Palácio de Cristal o aforamento do terreno necessário para esta construção no alto do monte da Torre da Marca, que então se chamava campo do Duque de Bragança, sobranceiro ao rio Douro em frente de Gaia, lugar pitoresco e de onde se abrange um quase geral golpe de vista do Porto e seus arrabaldes, ficando-lhe ao nascente a cidade que desse ponto se confunde com o edifício e monte da Serra do Pilar, à qual se prende em continuidade de terreno Vila Nova de Gaia, tão amena e querida de nossos primeiros pais, ao sul a encantadora e viçosa Gaia com a quinta de Vale de Amores, invertida em Piedade, aonde a mendicante Ordem religiosa franciscana da Província da Soledade cenobiticamente viveu e orou entre as sombras do mais formoso arvoredo e não interrompido silêncio da sua edificante residência, ao norte do Palácio fica-lhe como vedado alcançar com os olhos as extensas planícies que se estendem por entre verdura e habitações até Paranhos, fértil território cheio de vida e de animação, porque a torre antiga dos condes de Terena que com as suas ameias indica os passados tempos do feudalismo, para si só quer o gozo das campinas, o alegre verdejar das searas e das árvores apenas várias na cor pelo alvo das casas onde habita tão crescida população; desta forma esconde também a macróbia igreja de Teodemiro, convertida há tantos séculos em santuário de S. Martinho com Colegiada de presbíteros envelhecidos no coro daquele tempo, que igualmente serve de paroquial abrigo para os católicos, e finalmente ao poente estância essa bacia imensa que contem as águas do oceano atlântico entumecido e desinquieto ao receber como tributárias as águas do famigerado Douro, em cuja desembocadura ao lado direito reluzem com a luz do sol as casas da linda vila de S. João da Foz, respeitada pelas muralhas do vetusto castelo erguido para defesa da barra; amada é esta numerosa população pelos salutíferos banhos tomados nas suas praias, e muitíssimo desejada dos nautas que de bem longe entre os perigos das ondas vêm a luz do farol, erguido para nas escuras noites os guiar ao porto de salvamento.

 

Lugar mais adequado para a construção do Palácio não se encontraria, ficando ainda tão vizinho dessa capela ereta à memória do infeliz rei da Sardenha, Carlos Alberto, que com o nosso soberano D. Pedro 5º eternizaram dous factos notabilíssimos do presente século 19º, realizados nesta localidade, pois aquele viveu e morreu em terras deste monte, este assentou por suas próprias mãos a pedra fundamental de importante monumento de glória.

 

Não podia a Câmara Municipal rogar-se à pretensão e favorável despacho, e assim o exarou em petição tão justa e louvável doando e cedendo gratuitamente todo o terreno público: e aproximando-se a despedida do rei D. Pedro 5º e do Infante D. João duque de Beja, que tinham vindo ao Porto inaugurar a exposição industrial na Bolsa do Comércio, não coube no ânimo da nova empresa o abafar o seu desejo de ser o mesmo monarca que fundasse o projetado Palácio de Cristal, e redobrando a sua atividade imediatamente solicitou de novo na mesma vereação de 29 de agosto que independentemente dos trâmites legais por então, e aos quais se sujeitava consentisse o proceder-se desde logo a essa inauguração, e assim se resolveu e deferiu; no dia 3 de setembro dia destinado para essa solenidade ali foi o popular monarca acompanhado do seu Augusto irmão dar principio à fundação.

 

Era meio dia quando mais uma festa pública do Porto teve começo entre as músicas executadas por três bandas marciais no centro de centenares de bandeiras, flâmulas e galhardetes; rodeado de imenso povo o rei cidadão entrou no pavilhão real de antemão preparado, e nesse momento subiram ao ar numerosas girândolas de foguetes; aí examinou cheio de alegria com interesse nunca visto a traça da projetada fábrica com os detalhes de todo o futuro edifício, cuja planta havia sido feita pelo engenheiro inglês Thomas Dillon Jones, a qual estava colocada sobre uma mesa tendo tido o seu autor a honra de ser apresentado nessa ocasião a S. M.

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o Palácio de Cristal, possivelmente no início do século XX. Quanto o leitor voltar aos seus jardins, passe a entrada e suba aquelas escadas que tanto na foto como atualmente ali se encontram, e saberá o local exato onde esteve a porta para este edifício que homens de mesquinha visão fizeram desaparecer

 

Deu princípio à cerimónia o presidente da sociedade Guilherme Augusto Machado Pereira, que logo depois obteve o título de visconde, recitando uma expressiva alocução análogo ao ato, à qual o rei respondeu com frases animadoras e prazenteiras e pegando na pá de prata lançou terra, tirada de um carrinho de mão, à cova feita para os fundamentos do dito Palácio de Cristal. Coube ao doutor José Frutuoso Aires de Gouveia Osório, na qualidade de secretário, o lavrar a ata da inauguração festival desta obra e sendo lida e assinada por SS. M. e A. como também pelas autoridades e pessoas que haviam sido convidadas para a solenidade, a qual findou entre júbilos dos assistentes, os desejos e votos de todos, ambiciosos de verem em breve tempo a conclusão do edifício apenas fundado, ressoaram ali os vivas do povo que entusiasticamente saudava o real fundado, como o mais bondoso e amado dos seus reis. No dia imediato ao deste referido três de setembro, um que os dous augustos visitantes do Porto partiram para Lisboa, a Mesa da Direção da Sociedade foi a bordo do vapor Mindelo, que os haviam (sic) de conduzir; e entregou a S.M El-rei o diploma de Presidente Honorário desta empresa, a S. A. o Duque de Beja, o de Vice Presidente Honorário, e seu Ministro das Obras Públicas que então era Tiago Augusto Veloso da Horta o diploma de Diretor também honorário da sociedade do Palácio.

 

Criado um fundo de 250:000$000 reis por meio de ações de 100$000 reis cada uma; tratou-se logo de adquirir as propriedades existentes ao norte do campo do Duque de Bragança, e fronteiras ao palácio do conde de Terena, e já nos princípios de novembro deste mesmo ano tomou esta sociedade posse de algumas casas compradas para demolir e dar maior extensão à planície destinada à edificação projetada.

(…)

A planta do frontispício do Palácio de Cristal que foi presente aos príncipes no ato da fundação (…) foi aprovada em sessão de camarária de 6 de fevereiro de 1862.

 

Conforme o plano de então devia ser a construção de pedra, ferro e cristal, ocupando o terreno do dito campo na extensão de 320 pés, e na largura de 280 pés, e foi assim contratada a obra por escrito provisório no Porto aos 14 de setembro de 1861 com C. D. Young & Comp.ª fabricantes e empreiteiros destas obras na Grã-Bretanha por 108:000$000 de reis ou 24:000 L. esterl. Cuja transação tendo sido consentida à casa comercial portuguesa de Londres de Bruno Silva & Filho, ela delegou esta comissão em Mr. Schields engenheiro civil na Inglaterra, que havia sido em 1851 diretor do Palácio de Cristal de Hyde Park, o qual fez e ultimou o seu ajuste com os citados empreiteiros.

 

Portanto veio a ser o referido Schields que desenvolveu os planos durante a construção, sendo a direção da obra confiada ao engenheiro civil Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa, natural desta cidade, ao alemão Emílio David, jardineiro paisagista de Potsdam, entregou-se por indicação de Mr. Lemé o desenho do parque e dos jardins, e mais tarde foi o próprio Mr. F. W. Schields que completou os desenhos e detalhes quase todos executados por ele, confiando-se-lhe ainda os desenhos de outras peças necessárias ao embelezamento da obra, sendo de [d’ acrescentado posteriormente] Owen Jones que se desenharam os ornatos, e se fez a pintura do edifício [os se tornam a frase confusa]. A publicação da sua obra foi de muita utilidade. Alguns dos planos, e a planta frontal e geral do palácio foram posteriormente alterados e os seus traçados estiveram por muito tempo patentes na casa da Bolsa do Comércio.

 

Foi só em vereação da Câmara de 28 de fevereiro do citado ano de 1862, que a direção da sociedade requereu o aforamento do terreno público necessário para tão grandiosa obra, e ofereceu, como compensação deste logradouro que os habitantes perdiam pela alienação solicitada, construir à sua custa uma rua desde o largo da Boa Nova até comunicar por uma rampa suave com a rua da Restauração e Monchique, para cujo fim se nomearia uma comissão de sócios da empresa ou sociedade, e outra de vereadores da Câmara, a qual resolveu se cedesse gratuitamente esse terreno se o tribunal do Conselho do Distrito autorizasse esta deliberação. Nomeou a municipalidade em seguida a sua comissão que ficou composta dos viscondes Alexandre Soares Pinto de Andrade, José Carlos Lopes, e Raimundo Joaquim Martins, e mandou ao arquiteto da cidade Joaquim da Costa Lima Junior procedesse imediatamente às medições e confrontações do preciso terreno público.

 

Em recordação eterna de el-rei D. Pedro 5º, inaugurador dos trabalhos desta edificação e falecido com sentimento geral dos portugueses em 11 de novembro de 1861, resolveu a sociedade nesse mesmo mês e ano que no local, aonde este soberano lançou a primeira pedra do palácio, se erigisse uma estátua ao fundador, e desde logo abriu uma subscrição para essa obra, mas depois teve de abandonar esse projeto porque os artistas portuenses tencionaram levantar um monumento ao mesmo monarca na praça da Batalha, localidade em que se vê uma estátua em pé representando-o no ato de visitar a exposição industrial do referido ano de 1861.

 

Sendo digna de toda a coadjuvação a empresa de construção do Palácio de Cristal, tem ela achado no Governo, nas autoridades e no povo todo o favor quando dele carece, e por essa causa expediu o mesmo Governo o Decreto de 4 de julho de 1862, ordenando, que fosse isenta durante dez anos do pagamento dos direitos de importação na alfândega todo o material preciso para a edificação da dita casa, e por outros Decretos de 12 de novembro e 9 de Dezembro, declarou como sendo de utilidade pública todas as expropriações necessárias para esta obra.

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a não bela, mas bonita, fachada do Palácio de Cristal portuense. Claramente se distingue a divisa em latim da sociedade que o fez nascer - progredior - bem visível no topo da sua nave central. Por cima de cada uma das três portas, no meu muito fraco latim, leio: Hospites nostrus salutamus gaudentes (peço aos leitores que dominem esta língua o favor de me corrigir!).

 

Havia pouco tempo que a sociedade tinha principiado a fazer por sua conta os alicerces, quando em 16 de setembro desse indicado ano teve conhecimento de haver falido a casa de Joung & Companhia, posto que ainda nesse estado de quebra propunha alguns meios e nova[s] condições de levar a efeito o contrato, se lhe permitissem realiza-lo por intermédio de uma companhia anónima com garantia de certa casa respeitável de Londres. Nestes termos dous membros da direção foram à sua custa a Inglaterra, aos quais por acordo do concelho fiscal em reunião de 2 de dezembro deu a sociedade procuração com amplos poderes, para promoverem tudo quando fosse do seu interesse, e em observância desta autorização veio a ser julgado sem efeito o contrato celebrado, como foi notificado oficialmente pelo respetivo solicitador F. W. Hersey. O engenheiro civil Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa acompanhou estes comissários para ajuda-los com os seus conhecimentos práticos e teóricos, todavia retiraram-se todos de Londres sem ultimarem novo contrato, mas aproveitando-se da ocasião aprovaram um novo risco para a obra externa sendo de pedra o que havia sido delineado por Schilds de outros materiais: nesta planta incluiam-se vários melhoramentos, e entre eles o salão filarmónico, o museu etc (…).

 

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parcial da «Planta topográfica do terreno do Campo do Duque de Bragança, do da Torre da Marca, Praça de Dom Pedro V, e dos prédios contíguos», de 1861 (disponível aqui). Nela podemoss ver, em frente ao palacete atualmente ocupado pelo Centro de Cultura Católica do Porto, alguns dos edifícios expropriados para a construção do palácio e seus jardins (a rua Júlio Dinis ainda não existe)

 

Habilitada a sociedade por estes meios a progredir nos seus trabalhos ajustou com diversos indivíduos a construção e fabrico de vários misteres, que precisava para realizar o seu pensamento. As obras de pedreiro deu-as a quatro empreiteiros portuenses no valor de R. 32:194,173 as de ferro a Ormerod Grierson & Companhia de Manchester, incluindo a canalização para o gás pela quantia de 12:514,12,6 [sic] libras; as de madeira trabalhadas à máquina a Eassie & Companhia de Gloucester por 3:930 libras: as de lousa a José Soares da Silva Porto ficando por administração outras obras, como as gradarias de ferro e seu assento, que foram entregues a artistas portuenses.

 

Continuaram desde então as obras na proporção da carência delas, a par dos recursos que se iam obtendo para custeá-las, sendo certo que em 6 de julho de 1864 existiam emitidas 1:411 ações tendo-se cobrado o valor de 134:362,830 reis capital não suficiente para tão grandiosa fábrica, mas na verdade prometedor de maiores auxílios, em forma a não poder falhar a ideia, e as [in]tenções dos ocorrentes.

 

Incluídas foram desde logo em benefício da empresa, observando-se as citadas determinações regias, as propriedades de D.ª Teodora Joaquina da Cunha Rosa, de D.ª Maria Constança, de Joaquim José de Sousa Reis, de João da Rocha e Sousa todas sitas no mencionado monte da Torre da Marca ou campo do Duque de Bragança, mas recusando-se à cedência de seus prédios pelos meios amigáveis tiveram de sustentar alguns pleitos para saberem os seus direitos, que afinal entregaram mediante mais razoáveis indemnizações do que a principio lhes queriam dar, contudo veio a ser muito mais morosa a questão relativa à quinta dos Sete Campinhos, assente à parte do nascente do mesmo terreno público, por isso que se pretendia lesar a sua velha proprietária, que por último se harmonizou um acordo definitivo cedendo o seu prédio pela quantia de 11:800$000 reis. Ao todo, segundo o dizer dos mencionados decretos, montaram as expropriações em 50:020$800 reis.

 

Outra expropriação por autorização regia como sendo de utilidade pública se verificou pelo decreto de 22 de março de 1864, que declarou poder-se realizar contra Maria Martins possuidora de uma pedreira, sita na rua de Cedofeita, para a sua exploração ser empregada na construção de tão grande obra.

 

Por ocasião da estada de el-rei D. Luís 1º nesta cidade do Porto em novembro e dezembro de 1863, pediu a sociedade a S. M. se dignasse aceitar a presidência honorária da mesma sociedade, pedido que foi atendido como se vê do decreto de 30 de referido mês de dezembro. Outra mercê foi ainda concedida pelo monarca conjuntamente com o seu augusto pai, el-rei D. Fernando 2º, como se vê da portaria de 17 e outubro de 1864, prestando-se ambos estes príncipes como lhes havia solicitado a empresa do Palácio de Cristal a inaugurarem a primeira Exposição Internacional portuguesa, que se tencionava nele fazer, declarando mais o imperante que na próxima legislatura seria pelo Governo apresentado o projeto de concurso pelo mesmo Governo na sobre dita exposição.

 

Animados todos os sócios com esta tão lisonjeira esperança, e ufanos pelo favor que lhes dispensavam as majestades resolveram em sessão de 10 de novembro do dito ano de 1864 que se efetuasse esta festa no dia 21 de agosto de 1865 durando até aos fins de dezembro, e neste sentido se publicaram anúncios com data de 21 de novembro (…).

 

(…) vou mencionar as dimensões do edifício do palácio, para que no futuro se reconheça quanto vale o amor da pátria, o interesse pelos conhecimentos úteis, e desejo de buscar honra e consideração do nome português, e finalmente a persistência no trabalho, e a coragem em arrostar [sic] todos os inconvenientes que sempre se apresentam às empresas desta importância, a par do pouco tempo em que esta se realizou, levando ao cabo o fim principal para que se fez a fundação de tão majestosa casa.

 

O Palácio de Cristal tem de comprido 110 metros, e de largo 72 metros e 34 centímetros: forma três naves todas cobertas de ferro e cristal.

 

A nave central tem de comprido 107 metros e 53 centímetros, de largura 24 metros e 53 centímetros, e de altura 18 metros e 90 centímetros, comportando a capacidade necessária para conter 10 mil pessoas. No fundo existem o soberbo órgão premiado na exposição e Londres de 1862, o qual foi comprado por L. 7:000$000, estando já em segunda mão.

 

Duas galerias laterais, assentes sobre colunas de ferro, acompanham na extensão de toda a nave central as paredes internas.

 

As naves de um e outro lado, medem de comprimento, cada uma, 84 metros e 10 centímetros, e 8 metros e 31 centímetros de largura, por 14 metros e 32 centímetros de altura.

 

A parte principal é voltada ao norte, para onde ao lado do nascente está o salão dos concertos musicais e de diversos espetáculos que mede de comprimento 25 de metros e 54 centímetros, e de largura 13 metros e 72 centímetros, com 10 metros e 30 centímetros de altura.

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parcial de duas fotografias antigas acopladas mostrando: 1- a capela do Rei Carlos Alberto, 2- o Palácio de Cristal, 3- os barracões erguidos para a exposição, 4- o Circo (depois, por breves anos, Museu Industrial), 5- o antigo Quartel da Torre da Marca (hoje parte do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar/Faculdade de Farmácia da UP) e 6- a rua da Restauração.

 

Ao lado do poente há o salão dos quatro bilhares: outras salas e gabinetes para diferentes misteres, como museu, galeria de quadros e casas de pasto. As salas de jantar que são três deixam medir a primeira e a segunda extensão de 15 metros e 39 centímetros, estando-lhe próximos alguns gabinetes de descanso, toucadores para senhoras, sala de leitura, e ainda outros compartimentos mais.

 

A estufa com plantas dos trópicos tem de comprimento 18 metros 65 centímetros e de largura 8 metros e 23 centímetros, tendo de altura 6 metros.

 

Por subterrâneos ficam os armazéns, dispensas, cozinha e sala para criados e mais cómodos familiares.

 

Os jardins e parques ocupam um terreno de 90:000 metros quadrados, contendo na entrada em frente do palácio duas fontes e algumas estátuas de ferro fundido, ao lado do poente uma casa de fresco no gosto suíço, e próximo o pavilhão destinado para a banda instrumental, ao nascente a casa da venda do tabaco, a casa da polícia e anexos com diversos destinos.

 

Tem mais para a parte do nascente, em terreno que foi da quinta dos Sete Campinhos, um cerco para cavalos e outros diferentes recreios, medindo 40 metros de diâmetro, ligado por outro corpo de 60 metros de comprido por 8 metros de largo.

 

E por falta de espaço suficiente para a primeira exposição construiram-se dous anexos de madeira, tendo cada um 63 metros de comprimento, 17 metros e 5 centímetros de largura, por 10 metros e 5 centímetros de altura fora da cúpula.»

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Para saber mais: Imagens e memórias em reconstrução: do Palácio de Cristal portuense ao Pavilhão Rosa Mota, tese de mestrado de Vera Lúcia da Silva Braga Penetra Gonçalves, de 2018.

 

1 - Este volume é o primeiro que ainda se encontra inédito, de uma série de 7, dos quais os quatro primeiros foram na década de 90 do século passado impressos pela Biblioteca Pública Municipal do Porto.

2 - Sousa Reis escreveu estas linhas, muito provavelmente, entre 1866 e 1872.

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Fontes: 5º volume dos Apontamentos para a verdadeira história da cidade do Porto, por Henrique Duarte Sousa Reis.