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Fund. 30 - IX - 2009


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A maioria da informação divulgada nesta blogue é subsidiária dos muitos livros e artigos já existentes que nos dão elementos preciosos para a reconstrução de fases pretéritas da nossa cidade. Mas de quando em vez surgem nos documentos que consulto quer no AMP, quer no ADP, quer mesmo (mais raramente) na TT; elementos para a história da nossa cidade que reputo inéditos mas bem interessantes. O que se segue é um desses pedaços de história que não estão perdidos como a esmagadora maioria dela está, mas sim apenas guardado, escondido em manuscritos amarelecidos à espera que alguém por eles se interesse.

 

Há uns tempos atrás, pesquisando nos livros que chegaram aos nossos dias do convento franciscano sobre locais e acontecimentos que os ligam aos dominicanos, encontrei uma referência curiosa a uma estrutura a que chamavam Boca do Inferno. Sem mais delongas apresento o texto tal como escrito pelo reformador do cartório no início do século XIX. A explicação virá a seguir:

 

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«A BOCA DO INFERNO

Era este lugar da Boca do Inferno o sítio em que estava uma espécie de depósito de água em que se repartia a Manuel Cirne, senhor das casas que ficam mais chegadas a este convento, por trás da capela-mor.

Aquele depósito ficava sendo a bacia de um muito alto poço de pedra que tem a sua superfície na altura do segundo dormitório da parte do nascente, ao lado esquerdo do principio das escadinhas que antigamente serviam para ir ao campanário, e também para o telhado da igreja; como servem ainda hoje [c. 1820]. Este poço corre bem por trás da capela de Santa Luzia, ou altar da Trindade, e se observa pela frente do lado do evangelho da capela de Santo António.

Com o andar do tempo se fez inútil para todos este poço que em toda a sua altura tinha vários postigos ou frestas para lhe comunicar luz, e ar, e por fazer-se assim inútil e também perigoso, se entulhou todo em 1816 até ao lugar com que hoje se acha na superfície um passadiço para se compor quando é necessário, o telhado da dita capela de Santo António, ficando ainda à vista cousa de dez palmos [2,2m] que mostram qual é a extensão e forma do referido poço entulhado cuja bacia ficava na mesma altura, pouco mais ou menos, do atual plano da sancristia da nossa igreja.»

''

 

Perguntarão os leitores onde ficava então a Boca do Inferno. Melhor do que palavras talvez a imagem que aqui coloco nos dê uma ideia do local onde estava este poço; e não será de estranhar se parte dele ainda lá estiver, bem fundo, entulhado na sapata que sustenta a capela-mor da igreja conventual!

 

capt2.png

i1 1 - Capela de Santo António; 2 - O que resta das escadas para ir ao telhado; 3 - alinhamento antigo do convento; o X marca o local onde creio existia este poço (fonte: googlemaps).

 

Porque foi colocada esta descrição explicativa no tombo dedicado à água do convento? Bem, ela surge a seguir a um documento de 1704 que o refere, em que os frades cedem a um António Pereira Chaves a água que fora da casa de Manuel Cirne (este Manuel Cirne é um famoso portuense feitor na Flandres e um bom artigo sobre ele podem os interessados encontrar AQUI).

 

Contrariamente por exemplo aos seus congéneres dominicanos, o convento da Ordem dos Frades Menores foi sempre alimentado por uma boa nascente de água que provinha desde lá de cima do campo do meloal, sensivelmente onde existe hoje a zona da Trindade. Por canos vinha ela até ao convento e nessa Boca do Inferno infiro que fosse armazenada. Realmente essa fonte deveria ser abundante e de boa qualidade, pois os franciscanos para além de cederem uma pena dela a Manuel Cirne também o fizeram aos padres lóios e aos dominicos; conventos por onde passava o seu cano. Mais tarde cederam também água à sua Ordem Terceira, nomeadamente para o lavatório da sacristia e para o seu hospital na rua Comércio do Porto.

 

As casas de Manuel Cirne estiveram localizadas junto ao lado sul da cabeceira da igreja e englobaram o terreno que se encontrava por trás da capela-mor, cedido em 1529 por ser «lugar estéril e que não aproveitava cousa nenhua ao dito mosteiro, antes fazia dano e fedor, por assim se fazer ali monturo e se poderia fazer outras cousas ilícitas e deserviço de Deus».

 

É interessante cruzar esta informação com a tese do Dr. Manuel Real, antigo Diretor do Arquivo Histórico, de que os arcos que se vêm nas traseiras da capela-mor na célebre imagem desenhada em 1839 de James Holland, seriam possivelmente remanescêcias de um criptopórtico, localizando ali o Forum da Cale romana. Humildemente confesso que não partilho da mesma opinião e creio que o documento de aforamento a Manuel Cirne da sua casa bem como esta cisterna e umas sepulturas medievais descobertas em 1871 em frente à porta principal do Palácio da Bolsa, contribuem - como que pistas forenses - para o estudo deste mistério.

 

capt.png

i2 1 - Arcos em questão; 2 - "segundo dormitório" (ainda não existe o Palácio da Bolsa); 3 - início das casas da rua Infante D. Henrique (onde hoje está a entrada do parque de estacionamento do Infante); 4 - Rua Ferreira Borges (aquando da elaboração desta imagem a rua fora completamente rasgada havia um ano).

 

 

capt3.png

i3 A - local onde em 1871 foram encontradas sepulturas medievais; 3 - local do ponto 3 da imagem anterior; o círculo indica a área onde terá estado a Boca do inferno.

 

A i2 representa uma realidade uns anos posterior à i3, que é um extrato de uma planta de 1835, quando o traçado da rua Ferreira Borges estava ainda em discussão.

 

 

ADITAMENTO

Após ter escrito a publicação que acabou de ler, encontrei numa pasta de documentos avulsos do cartório do convento de S. Domingos um manuscrito que refere uma "outra" Boca do Inferno. Trata-se de um documento de 1845, já portanto de uma época posterior à extinção dos conventos, referente à água que pertenceria a uma casa da rua do Infante D. Henrique, onde vinham cair as vertentes da água do antigo convento dominicano. Curiosamente, os depoimentos das diversas testemunhas (que me parecem concertados...) referem a Boca do Inferno como sendo a arca que albergava a nascente da água que vinha ao convento franciscano, e não na outra ponta do encanamento. Ou seja, no tal campo do Meloal, lá em cima no Laranjal. Quase todas as testemunhas são unânimes em dizer que a água saía «de uma cisterna chamada Boca do Inferno, situada em uma casa da rua do Laranjal ... passava encanada por baixo de propriedades diversas da mesma rua com direção aos extintos conventos de St. Elói, S. Domingos e cerca de S. Francisco até entrar na dita propriedade»; uma das testemunhas, pedreiro de profissão, conhecera mesmo o colega que fizera a demolição da «Pia de Registo  que existia dentro da cerca de São Domingos, donde saía a água para S. Francisco».

 

Temos portanto a mesma nomenclatura, o mesmo tipo de estrutura, mas referindo-se aos extremos opostos do encanamento! Qual a correta versão? Pessoalmente tendo-me a inclinar para a versão do convento, uma vez que esta parece representar uma cisterna de elevada altura ao passo que a outra aponta para uma simples arca que resguardava a nascenta de uma fonte. Poderá dar-se igualmente o caso de em 1845 já se ter perdido a noção do lugar original da tal Boca do Inferno, mas saber-se que estava associada ao cano da água dos franciscanos... ou quem sabe, poderão ambas representar uma designação válida, cada uma no seu local. São meras hipóteses que só outra documentação que venha um dia a ser revelada, poderá responder.

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 31.12.2016; agora revista e aumentada.

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De novo trago duas publicações que estavam alojadas na casa antiga d' A Porta Nobre. Como sempre faço nesta situação aproveitei para rever o texto, ficando este acrescido de uma pequena novidade que não constava anteriormente...

 

1ª parte

Em 1756 a capela de S. Roque existente em frente da galilé da Sé Catedral foi demolida por se encontrar arruinada em consequência do terremoto do ano anterior. Por essa altura, e já na vigência da Junta das Obras Públicas (dirigida pelo "homólogo" de Sebastião José de Carvalho e Melo no Porto, seu primo direito João de Almada e Melo) se pensava em erradicar os pelames do Souto do centro da cidade. Com efeito essa tão poluente indústria fora sempre relegada para o limite das povoações, não sendo disso o Porto exceção. Contudo, o que na época medieval era um local relativamente afastado ou pelo menos isolado da maioria dos vizinhos, tornara-se no século XVIII absolutamente central e era agora impensável numa cidade que se queria moderna e higienizada, manter esta situação. Assim, foi a indústria dos pelames obrigada a transferir-se para as Fontainhas (à época lugar praticamente ermo) e os aloques onde por séculos se haviam curtido peles e couros para a cidade, desativados e destruídos. No seu lugar foi construída uma bonita - ainda que pequena - praça denominada praça de Santa Ana ou largo de S. Roque e mais tarde, já no século XIX, largo do Souto.

 

E o que tem a capela de S. Roque a ver com isto, perguntará o leitor? Bem, é que uma vez que a capela original fora demolida pelo seu estado de ruína, foi a nova capela de S. Roque edificada ao centro desta bonita praça. O traçado da praça e o desenho da capela deve-se a Francisco Pinheiro do Cunha, com o início dos trabalhos em 1767 prolongando-se até 1773. O desenho de Villa Nova (i1) que a mostra é sobejamente conhecido. E felizmente restam-nos um par de fotografias da praça, capela e fonte, ainda que as mesmas sejam de fraca qualidade.

cpls.JPG

 i1. A Praça de S. Roque no belíssmo desenho de Vila Nova

 

Mesmo com a ajuda das plantas não ficará muito explícito ao portuense do século XXI onde se situava esta praça e sobretudo como se orientava no espaço, porque hoje nada dela resta. E ao contrário do que já vi escrito algures, o paredão à entrada da rampa que soube para a rua do Souto não é o que resta desta praça. Não me apoio em documentos para afirmar isto tão categoricamente; mas apenas na comparação das plantas do antes e depois. Na realidade ele está, relativamente a esta imagem, no seu canto direito e quanto muito poderia ser a parede traseira das casas da escadaria desse mesmo lado.

 

Ainda assim nem tudo o que na imagem se vê desapareceu... Ainda algo dela existe que nos pode ajudar a situar o local e a forma. A rua dos Pelames ainda lá se encontra meio escondida e a atual fonte monumental (localizada onde por séculos num penedo ali existente persistiu a tal indústria nauseabunda de curtumes) a sustentar essa mesma rua e umas casas que desde algum tempo se me afiguravam "suspeitas"... Mas creio que não há que enganar: elas ajudam, sem recorrer a plantas e à nossa imaginação, a situar aquela pequena mas bela praça, que um dia (1877) cedeu o seu espaço para que o progresso chamado rua Mouzinho da Silveira chegasse em toda a força. Peço que confiram a minha afirmação olhando para a imagem i2. Convido igualmente o leitor concordante ou discordante a deixar a sua opinião.

prax.jpg

  i2. Comparativo entre a época em que existia a praça e a atualidade, com a rua Mouzinho da Silveira. O aspeto mais importante a reter é o conjunto de habitações na rua dos Pelames, que proporciona uma ponte magnífica entre o passado e o presente.

 

balaust.jpg

i3. Já na imagem anterior assinalei um outro pormenor que agora desenvolvo. É que, segundo a memória de um tripeiro que conheceu ambas as realidades, os balaústres da fonte monumental são os que originalmente ornavam a escadaria da praça de S. Roque!

 

 2ª parte

Num artigo da Revista O Tripeiro, na sua 1ª série (1908-1911), a p.124 do vol. 2, revela um certo C. L. estas curiosas notas:

 

«... Ora, a escadaria era ornamentada com uns magníficos vasos de granito, muito bem trabalhados, os quais - por arte de berliques e berloques apareceram, depois, a embelezar, exteriormente, o restaurante Sentieiro, na rotunda da Boavista. E ainda lá estão expostos à veneração dos fiéis. É o que sei dos despojos do, para mim, saudosíssimo largo do Souto.

 

O largo do Souto!... Parece-me que estou a vê-lo: todo lajeado, com a imponente escadaria, a capelinha lá no alto e a fonte ao centro da meia laranja; era mais - em meia tigela; mas era bonitinho, lá isso era! E a fonte? Que linda! Estou bem certo dela: era formada por uma grande concha de argamassa, que tinha dentro um fedelho de barro, montado num golfinho de pedra com uma bica de ferro na boca, por onde saía melhor água do que a que hoje se vende a dez réis o copo. Ainda hoje se vê, formando beco, na rua do Souto, uma nesga [i4] com cunhal que sobejou do que foi preciso gastar, do largo, para talhar a rua do Mouzinho da Silveira.

nesgga.jpg

i4. Eis a "nesga" restante do antigo largo do Souto. Pertenceriam aqueles parcos degraus ao arranque da escadaria que subia para a capela? Exatamente por baixo passa o Rio da Vila (que na verdade apenas passa por baixo do leito da rua Mouzinho da Silveira no seu percurso mais inferior, num troço antes da rua da Ponte Nova).

 

olh.jpg

i5.  O que restava do largo do Souto nos meados dos anos 80 do século XIX (n.º 2). O n.º 1 indica o edifício da Adega do Olho e o n.º 3 uma casa que se projetava construir no local outrora ocupado por parte da escadaria que subia para a capela, onde aparentemente se vêm ainda alguns restos (atente o leitor na curvatura).

 

Fronteira àquele beco, está uma porta (n.º 103) com a padieira em arco, que era a entrada de um túnel, por onde se ia ter ao "Rio da Vila", e aos "Aloques da Biquinha", e por onde passou, muitas noites, o ex-traquinas que isto escreve...». Esta casa com a padieira em arco ainda hoje se encontra na rua do Souto, sendo uma das poucas que sobreviveu do antigo largo por ser desnecessário expropriar para alinhamento da rua Mouzinho da Silveira (i6).

sobreviventes.jpg

i6. Casas sobreviventes do antigo largo do Souto assinaladas de 1 a 4, a casa 2 possuí o arco referido, que dava acesso à viela do Cadavai. Todas elas fazem hoje parte da rua Afonso Martins Alho.

 

rio.jpg

i7. O rio da Vila parcialmente "à vista" ainda que bastante escondido por uma rede, aquando da obra de requalificação do eixo Mouzinho-Flores. Fotografia de Abril de 2013 na rua Afonso Martins Alho, que o ribeiro atravessa (e não o leito da rua do Mouzinho como normalmente se refere).

 

Num artigo mais extenso (que transcrevo truncado) um senhor de nome João G. Oliveira e Torres descreve-nos muito bem este largo:

 

«... Era a praça ou largo do Souto, pelo lado do nascente, de forma semi-circular e encostava-se perfeitamente aos rochedos que formam o alto dos Pelames em seguida ao Corpo da Guarda; e neste lado foi que a Câmara mandou edificar a capela.

 

larg.jpg

i8. O largo representado na planta para a rua do Mouzinho, a amarelo as casas que sobreviveram, a vermelho o local onde agora temos a fonte monumental. Os pontos azuis indicam o rio da Vila.

 

Era ela exteriormente de forma oitavada e ficava como que encravada na parte central da frontaria; era de boa perspectiva e lindo gosto, e a respeito da qual o padre Rebelo da Costa, que escrevia em 1788, se exprime assim: "... a praça de S. Roque é formada em semi-circulo, lajeada de pedra larga e fina, cercada de casas regulares com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate; duas bem repartidas escadas com balaústres da mesma pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio, cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por similhantes obras."

 

O edifício era todo de pedra lavrada e tinha, por assim dizer, dois corpos: no primeiro sobrepujava-o uma cornija que corria pelas oito faces, e sobre este, mas mais dentro, assentava outro corpo de pouca elevação, que rematava em abóbada, sobre a qual se elevava um formoso zimbório por onde se coava a luz. (...) Ao lado do sul e pegado à capela existia uma pequena sacristia, onde o eclesiástico se paramentava, e em um armário com gavetões se guardavam os poucos paramentos e objetos do culto que possuía, e que pertencia a uma confraria a qual estava a cargo o culto e festividade de S. Gonçalo, confraria composta, na maior parte, de latoeiros que por aquelas proximidades moravam. Além desta festa, também alguns anos ali se festejou ruidosamente a imagem de S. Vicente Mártir.

 

(...) No largo havia feira às terças e sábados, de linho e seus derivados, como: estopa, tomentos e cobertas às riscas. Quando dali saiu o mercado os feirantes opuseram-se, e só em presença da guarda municipal é que submeteram a ir para o Bolhão, lugar que a Câmara lhe designou e onde atualmente se conserva.

hectob.jpg

I9. O largo do Souto antes da hecatombe. A "micro" rua Afonso Martins Alho surgirá do desmembramento da rua do Souto, após o desaparecimento do largo.

 

Se nos últimos tempos o padroeiro S. Roque teve festa, não sei; o que sei é que as imagens que lá conheci eram: S. Roque, S. Gonçalo, S. Vicente e a Virgem das Dores. (...)

 

Falemos agora do edifício. A pedra, que era de boa esquadria, as escadas e o tanque, tudo foi empregado nas obras da nova rua Mouzinho da Silveira. Os balaustres foram aformosear a parte superior do arco da fonte da mesma rua, e a água que caía no tanque, dizem ser agora a de uma das suas duas bicas. A figura de granito que cavalgava o golfinho, e por muitos anos fora o enlevo dos rapazes e talvez o cismar das raparigas, essa dei-me ao trabalho de a procurar, e por fim encontrei-a. Pouco depois da demolição da capela, era voz pública que aquela estátua fora, por ordem da Câmara, recolhida ao seu edifício, visto que ela era a proprietária de todo aquele monumento; mas passados alguns anos, mandaram-na para um recinto que há junto da casa da Desinfeção Municipal. Aí me dirigi; mas já a tinham removido para as traseiras das obras em construção, lado norte da Biblioteca Municipal. Entre ruínas de arquitetura e destroços de escultura fui encontra-la; mas em que estado? como diria o poeta: nem sei como de nojo o conte! Estava mutilada, sem cabeça, sem um braço, sem um pé, servindo de calçar um pequeno muro, como coisa de nenhum valor! A monte, talvez por se julgarem nulidades, ali encontrei brasões mutilados, cruzes lascadas, taças de fontes incompletas, capitéis partidos, e outras muitas peças truncadas que davam o aspeto de um grande cataclismo

capelaa.png

i10. A capela e a sua pequena sacristia ao lado. Por baixo da capela está o tanque que dava de beber às pessoas e aos animais que por ali passavam.

 

Houve ideia de se aproveitar a capela e coloca-la em outro lugar; nesse sentido se empenhou uma comissão de influentes religiosos e políticos, com a Câmara para lhe permitir reconstrui-la na rua da Bainharia, lado do sul, no lugar onde depois se construíram dois prédios que naquela rua têm os n.º 40 a 52; mas o terreno tinha de ir à praça, e por essa razão a Câmara não o podia ceder, embora cedesse de boa vontade os materiais da demolição e lhe prestasse todo o auxílio em outro lugar que se escolhesse. Os influentes em vista disto, desistiram do seu propósito.

 

E assim desapareceu a capela, espalharam-se as imagens, mutilou-se a estátua, tudo se desfez, e deste naufrágio apenas escapou a devoção de S. Gonçalo cuja imagem, colocada na igreja dos frades franciscanos, é um símbolo de fé, uma memória de piedosa crença dos portuenses.»

 

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Esta publicação agrega duas originalmente colocadas no blogspot em 12.01.2017 e 09.02.2016, tendo sido revista para esta republicação.

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A publicação que vos trago hoje não é nova, agrega as duas que sobre o tema coloquei na antiga casa deste blogue com 5 anos de intervalo! É a continuação da prometida trasladação das publicações que no meu entender não merecem desaparecer; pelo que a pouco e pouco as farei aqui renascer, mesmo sabendo que várias ganharam já o direito de figurar em outros blogues.

 

 

I

Sobre este botequim diz-nos Pinho Leal no vol. VI - p. 62 - do seu Portugal Antigo e Moderno:

 

« Houve na rua de Cima do Muro, nesta freguesia de S. Nicolau, um pouco ao poente do Postigo dos Banhos, um botequim, que se tornou célebre e conhecido como nenhum outro no Porto e fora do Porto, até mesmo na Inglaterra, na Rússia, na Alemanha, na França, etc.

Era público e notório, que naquele botequim ou casa de café e bebidas, foram roubados e mortos muitos marinheiros ingleses e de outras nações, e é certo que aquela casa esteve muitos anos debaixo da vigilância das autoridades locais, persistindo, a despeito de toda a vigilância policial, os boatos mais aterradores: até que a casa foi expropriada e demolida pela câmara, como todas as circunvizinhas, para a abertura da rua da Nova Alfândega - sem se apurar o fundamento de tão sinistros boatos.

É certo que aquele botequim, todas as noites se enchia de mulheres perdidas, marujada, principalmente estrangeira, e homens de má nota; que ali havia música e danças (cancan) desonestas, e um arruido infernal até deshoras; - que ali houve por vezes rijo bofetão e grossa pancadaria, - e que muitos dos fregueses, nomeadamente marítimos russos, ingleses e alemães, lá pernoitavam, estirados no chão, com o peso do vinho, até ao dia seguinte, - dizendo as más línguas que eram embriagados artificialmente, e de propósito, pelo dono da casa, para os roubar, quando levavam consigo dinheiro, e que depois os lançava ao rio. E acrescentavam - que muitos cadáveres apareceram no Douro, que se disse serem maritimos estrangeiros que se afogaram casualmente, quando a verdade era - que haviam sido roubados e assassinados no maldito botequim...


Nunca pôde averiguar-se bem a cousa, mas parece vir a propósito o aforismo - vox populi, vox diaboli!...

O proprietário deste... botequim, enriqueceu com o seu ignóbil negócio, e era tão astuto que adivinhava sempre o dia e hora em que a polícia vinha dar-lhe busca...

Chamava-se António Pereira Porto, por alcunha o Pepino, e por isso o seu botequim ganhou o título de Botequim do Pepino.


O tal Pereira Porto, faleceu aproximadamente em 1850, mas a viúva conservou o célebre botequim (mas já muito decadente) até 1870 a 1871, data da demolição daquela rua e das ruas adjacentes. »

 

pep.jpg

O retângulo vermelho indica o local onde terá existido o botequim de António Pereira Porto, um pouco a poente do postigo dos Banhos (letra A), tal como indicado por Pinho Leal



II

Ainda sobre este célebre - por fracas razões - botequim, dei de cara n' O Tripeiro com umas preciosas notas no volume correspondente ao seu primeiro ano (1908), na secção perguntas e respostas. Tencionava verter para aqui a informação que lá surge com a descrição que Arnaldo Gama lhe faz; contudo opto por não o fazer dado que iria repetir a informação já difundida no blogue Porto, de Agostinho R. da Costa aos nossos dias.

Apenas apenso a essa informação a seguinte, com caráter já secundário, mas que está também na tal secção de perguntas e respostas, escrito por um tripeiro de gema batizado em S. Nicolau:

« O Botequim do Pepino, em Cima do Muro, era muito concorrido da marinhagem estrangeira e de mulheres de má nota do Forno Velho e imediações. As desordens ali eram frequentes. O prédio, juntamente com os demais do mesmo lanço do muro, foi demolido, quando se construiu a rua que segue da dos Ingleses para a Alfândega. O botequim transferiu-se para o Forno Velho. Não sei se ainda lá existe ou algum seu descendente. O Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, era acusado pela imprensa adversária por ter sido freguês do mesmo café, quando era guarda da Alfândega ou coisa que o valha. Cito este facto de memória mas creio não estar em erro.

 

 

III

Em relação ao dono deste estabelecimento, conheço biograficamente uma data, a do seu casamento! Isto porque no Periódico dos Pobres no Porto de 18 de Outubro de 1845, me deparei casualmente com esta notícia:

« Anteontem de tarde atravessava a todo o trote a Praça de S. Lázaro um cabriolé a quatro, carregado de pessoas do sexo feminino em grande luxo, e acompanhado de cavaleiros. Era o botequineiro Pepino de Cima do Muro que tinha ido casar, e que se recolhia a casa em grande estado. »

Hum.. Não querendo ser má língua, fico contudo a matutar se António Pereira Porto era apenas dono de um botequim, ou haveria mais negócio nos andares superiores do seu estabelecimento?...

 

Como nota final devo acrescentar que é muito estranho que Pinho Leal diriga o ano da morte de António Pereira Porto para os anos 50 do século XIX, quando no Arquivo Municipal do Porto está o seu registo de falecimento que nos dá a sua morte como ocorrida em 6 de fevereiro de 1888. E ainda mais estranho que este registo o dê como morador na rua de Cima do Muro quando esta rua praticamente deixou de existir em 1871. Será que António Pereira Porto ficou a residir numa das casas que ainda hoje existem desta rua, hoje mais conhecida por Muro dos Bacalhoeiros?

No seu testamento, feito em 1874, António Pereira Porto declara que não tendo filhos deixava como herdeira natural a sua esposa mas também legava «vinte e cinco esmolas de mil reis a pessoas mais necessitadas desta freguesia de S. Nicolau», bem como 20$000 a distribuir pelos seus sobrinhos.

 

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Publicadas originalmente no blogspot em 06.12.2009 e 13.01.2014, agora revistas. Acrescentado de um parágrafo no final, em 12.04.2018.

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