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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Alexandre Herculano: um homem de carácter

08.08.20

Este blogue não entra muito no tema da política ou da biografia, não é essa a sua intenção nem sequer um desejo subjacente à sua ideia. Quantos nomes há, espalhados por ruas desta e de outras cidades, cuja sua ligação ao passado os vestem de uma aura de santidade mas que foram na sua época tão movidos pela sede do poder e dinheiro como os de agora (e acreditem, muitos dos de agora vão estar em 2116 convertidos com aura de santidade também...).

 

Ainda assim, uma pessoa há que gostava de salientar dos demais, de seu nome Alexandre Herculano de Carvalho Araújo. Um ser que se distinguiu da maioria das figuras de proa do seu tempo, tendo um papel (aparentemente) secundário na vida do país. Mas não duvidemos: contribuiu para a sua estabilidade após a guerra dos irmãos, da guerra patulaica e outras ocorrências onde em nome do povo alguns flautista de Heimlich, tocaram a mesma música que há muito se canta ainda...

 

Aquando da guerra civil de 1832-1834, Alexandre Herculano foi colocado como 2º bibliotecário na então recém criada Biblioteca Pública Municipal do Porto. E foi nesta mesma biblioteca que há dias vim a "descobrir" no Periódico dos Pobre no Porto estes muito interessantes documentos que reproduzo abaixo (lembro que para este episódio temos de ter em conta que semanas antes se havida dado um golpe, ficando conhecido como a Revolução de Setembro). Dias depois, era Alexandre Herculano dispensado do seu lugar, englobado numa cornucópia de exonerações dos indivíduos que não serviam aos interesses da fação ora instalada.


Foi precisamente contra esta revolução que Herculano se estreou na literatura com A Voz do Profeta e o próprio regime que o afastara, anos mais tarde voltou a chama-lo, desta vez para redator do Diário do Governo. Foi também maçon, mas cedo abandonou essa agremiação, quem sabe por se querer manter totalmente isento e livre(?).


Mas, mesmo que nos bastidores, qual será a sua implicação na Regeneração como conselheiro do rei consorte D. Fernando e subsequente estabilização do país? Certo é que nos últimos dez anos da sua vida (faleceu em 1877) se retirou para a sua propriedade de Vale de Lobos, para a tranquilidade de uma quase vida monástica, como produtor de azeite, mantendo até ao fim uma autoridade moral inigualável.

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Alexandre Herculano no final da sua vida ou Alexandre Herculano, o lavrador


Vejamos então o que se encontra publicado no periódico:

 

«Pede-se-nos que publiquemos na nossa folha os documentos seguintes:

Exmo.º Sr. Manuel da Silva Passos.
Há um mês que o 1.º Bibliotecário da Biblioteca Pública desta cidade e eu fomos convocados para prestar juramento à Constituição de 1822, que então e hoje, de futuro alterada, felizmente nos regia e rege. Ambos recusamos praticar este ato: procedimento a que, pela minha parte, me levaram as razões que V. Ex.ª verá da resposta que dei, e que remeto inclusa. Foi logo demitido o meu colega, e eu ainda aqui estou esquecido. Não atribuo isto a falta de equidade de V. Ex.ª, porque reconheço a retidão da sua alma e que nem ódio nem afeição seriam capazes de torcer os principios de V. Ex.ª, antes o lanço à conta dos muitos cuidados e negócio que cercam V. Ex.ª no alto cargo em que o colocou o voto unânime da nação e a livre escolha de S. M. a Rainha. Só da minha insignificância me dôo, que fez não ser eu lembrado de V. Ex., que a tantos com mão profusa tem liberalisado a honra da demissão.
Não creia V. Ex.ª, que por este modo a peço: porque nem uma demissão pediria ao governo atual: esta minha carta é apenas um memorandum que levo à presença de V. Ex.ª, como se eu fosse alheio ao caso; porém não indiferente à boa fama e glória de V. Ex.ª.
A Providência não se esqueça de V. Ex.ª nem de nós, como todos precisamos para que Portugal seja salvo.

Porto 19 de Outubro de 1836. = Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo

 

Seguem-se apresentados os documentos que provocaram esta reacção, de fina ironia, de A.H.:

« Illm.º Sr. = Tendo S. M. a Rainha determinado que a Câmara e mais autoridades e empregados jurem a Constituição de 1822, assim o faço saber a V. S.ª para que hoje, ao meio dia, venha ao Paço do Concelho prestar o mesmo juramento, e deferi-lo depois aos empregados dessa repartição. Deus guarde a V. S.ª

Porto 17 de Setembro de 1836 = Illmo.º Sr. Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo = Manuel Pereira Guimarães, Presidente.»

 

Ao que Herculano respondeu:

«Ilm.º Sr. - Persuadido pela voz da íntima consciência de que não devo prestar o juramento para que V. S.ª me convida no seu oficio de hoje, julguei também que cumpria comunicar-lhe imediatamente a minha resolução.
A fé que prometi guardar à Carta Constitucional da Monarquia, selei-a com as misérias do desterro, e com os padecimentos e perigos de soldado, os quais passei na emancipação da pátria: para a conservação de um cargo público eu não sacrificarei, por tanto, nem a religião do juramento, nem o orgulho que me inspiram as minhas ações passadas.
Pode assim V. S.ª declarar a essa Ilm.ª Camara que o meu lugar de 2º Bibliotecario está vago, para que ela proponha ao governo atual outra qualquer pessoa, que por certo, melhor do que eu, desempenhará as obrigações a ele anexas. Deus guarde a V. S.ª Porto 17 de Setembro de 1836. - Illm.º Sr. Manoel Pereira Guimarães. = Alexandre Herculano de Carvalho

 

Aqui está, espraiada em palavras, a nobreza de carácter que este homem possuía. E o Porto, como tem tratado da casa onde ele viveu enquanto por aqui permaneceu? Bem, da maneira que abaixo vemos...

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casa na Travessa de S. Sebastião em que viveu Alexandre Herculano . esta artéria denominou-se Viela dos Gatos até 1 de julho de 1874 (e claro, assim se chamava quando Herculano ali viveu) . a imagem é de 2016, para uma imagem desta casa, ainda habitada, ver AQUI

 

 

13/05/16

As primeiras praças de touros do Porto

28.07.20

As notícias que se seguem são retiradas d' O Commercio do Porto, neste caso do primeiro semestre de 1870, ano em que foram construídas as duas primeiras praças de touros permanentes da cidade do Porto: uma na Boavista e a outra no largo da Aguardente (atual Praça Marquês de Pombal).  Abaixo vem a descrição daquela que se localizava na Aguardente, publicada a 31 de Março, aquando da ultimação dos trabalhos de construção:

«O espaço reservado às corridas mede 36m de largura; a distância da primeira à segunda trincheira é de 1,2m e o espaço desta ao tapamento; isto é, à largura das galerias é de 7,5m. Além de uma ordem de 52 camarotes, tem no correr destes uma galeria superior. Em frente da porta do cavaleiro fica o camarote da autoridade. Por baixo desta ficam a enfermaria, o escritório e outros compartimentos. O camarote real fica superior ao da autoridade. Por cima da porta do cavaleiro fica o camarote da empresa e por cima deste o coreto de música. Nos corredores, por baixo das galerias ficam as cavalariças e quartos para os moços e homens de forcado. A praça é toda construída de madeira de forma quase idêntica à da Boavista e tem lugar para 8.000 pessoas.»

Na altura em que esta notícia era publicada já a praça da Boavista tinha sido inaugurada, sendo portanto essa e não esta, a primeira a ser colocada à disposição dos aficionados. Neste seguimento, recuemos então alguns dias para ficarmos agora com alguns apontamentos noticiosos sobre a primeira delas, a da Boavista, inaugurada umas semanas antes da da Aguardente.

 

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i1 o Real Coliseu Portuense , única praça construída de materiais não perecíveis, situava-se no miolo do quarteirão do Tabernáculo Baptista, na área onde a avenida se encontra com a rotunda (cf. aqui)


A fonte é, como sempre, O Commercio do Porto, e nesta primeira notícia, de 22 de março, temos a chegada do gado que iria ser corrido:

«Anteontem à noute atravessou a cidade o gado que vem para ser corrido na [inauguração] da praça de touros da Boavista. A manada compunha-se ao todo de 22 cabeças, entrando neste número 4 chocas. É portanto de 18 o número de touros que tem de entrar nesta corrida(1). Informam-nos que são dos campos de Tentúgal, das manadas pertencentes aos lavradores os Srs. Bento Pena e Francisco Maria Correia Soares e Brito. Alguns amadores e outras pessoas foram esperar o gado. Os proprietários do circo tencionam dar a primeira corrida de touros na próxima 6ª feira. Chegou também ao Porto o gosto por este bárbaro divertimento. E foi tão intenso este acesso de paixão tauromática, que, em vez de um circo, se levantaram logo dous, para adoçar os costumes do povo com estes espectáculos de sangue. Ò civilização, repugnante seria o teu destino, se fosses isto!».



O gado ficava guardado nos campos pertencentes ao lavradores da zona da Foz enquanto esperava para ser corrido. Tratam-se, provavelmente, de terrenos hoje ocupados pela Foz Nova, Nevogilde e poente da futura avenida da Boavista, que nessa altura não tinha a extensão que hoje lhe conhecemos. Como facto curioso (pelo menos para o leigo autor destas linhas) aqui fica uma outra notícia, do mesmo jornal e datada de 24 de março, onde se dá a conhecer como foi atribuído o alvará da Praça de Touros da Boavista:

«Pelo Governo Civil foi passado o competente alvará de licença ao empresário da Praça de Touros na rua da Boavista para dar espectáculos na mencionada praça. O empresário obrigou-se a depositar no Governo Civil 30$000 réis para qualquer estabelecimento de beneficiência em seguida a cada corrida que ali tenha lugar, sendo com esta cláusula que lhe foi concedida a licença»


No ano seguinte nova praça surge na "rua da Boavista", local que era, à data, longe do centro da cidade. Para quem tiver paciência de a ler, vale a pena, pelo pitoresco do que descreve, ao qual ajuda também o tipo de escrita:

«Inaugurou-se na 6ª feira, com a primeira corrida, como estava anunciado, a praça de touros que se acaba de construir na rua da Boavista. O gado, segundo requerem as exigências tauromáticas, em geral foi mau, o que tornou a corrida destituída de interesse para os amadores. Apenas dous ou três dos touros foram sofríveis, havendo principalmente um, que era destemido e fino, dando que fazer aos capinhas. Pontes e Calabaça meteram bem alguns ferros, fazendo o segundo, além disso, alguns saltos à vara curta. Ambos foram muito aplaudidos, especialmente o último. O cavaleiro Batalha fez bem as cortesias e meteu alguns ferros curtos com muita destreza. Foi por isso muito vitoriado, recebendo um bouquet. Os outros capinhas pouco se distinguiram, porque o gado não se prestava a isso. Os homens do forcado portaram-se bem, e fizeram algumas boas pegas de cara e uma de cernelha. Os touros que se não prestaram às sortes foram recebidos com apupos e assobios.

Tocaram duas bandas, sendo uma a de caçadores 9 e outra particular. A praça achava-se inteiramente adornada de bandeiras e festões de flores, e exteriormente de grande número de mastros com bandeiras. Estas estendiam-se igualmente pela rua da Boavista até ao Campo de Santo Ovídio [hoje Praça da República] e até parte da rua de Cedofeita. Em volta havia um perfeito arraial: barracas de comida, pipas de vinho, etc, Custava a transitar com a grande multidão que ali afluía, apesar do vento que fazia.

A praça é vasta. Além de quarenta e tantos camarotes, tem uma galeria no sol, ao correr destes, e outros à sombra e ao sol por baixo dos camarotes e daquela outra galeria. Por cima da parte reservada ao cavaleiro acha-se o coreto para a música e defronte dele o camarote da autoridade, tendo pintadas por baixo as armas da cidade. Defronte do touril fica o camarote destinado aos Srs. Governador Civil e geral da Divisão, e por baixo os lugares reservados para a imprensa. Há também um camarote real, onde na 6ª feira, apareceu o retrato do Sr. D. Luís, depois de se tocar o hino de S. M. Ao lado do touril, que tem vários compartimentos para o gado, acha-se uma enfermaria com os medicamentos necessários para quando suceda algum desastre, e os outros compartimentos destinados a diversos usos. Além disto há botequins ou restaurantes nos corredores que ficam por baixo das galerias do sol e da sombra. Em diversos pontos vêm-se dísticos com a data da fundação e inauguração da praça, e o nome do fundador, que o foi também da da Foz(2), o Sr. Augusto César Calhamar."(3)

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i2 a localização da praça de Touros dos anos 70 do século XIX na Boavista, ficou registada para a posteridade na planta referente aos alinhamentos da rua das Valas (hoje de N.ª Sr.ª da Fátima) e da rua do Cemitério de Agramonte . como se pode ver localizava-se quase ao centro da futura rotunda da Boavista, algo deslocada em direção ao que virá a ser a avenida de França - ver aqui


Como curiosidade, refira-se que surgiu no jornal do sábado logo a seguir à corrida, uma notícia de um rapaz que tinha sido atropelado por um qualquer trem que passava naquela zona. Pelos vistos, no meio da confusão de pessoas e trens a passar de um lado para o outro, no meio do reboliço; a pessoa fugiu! Um "atropelamento e fuga" portanto daquele relativamente longínquo tempo de década de 70 do século XIX; que seriam, a bem dizer, tão frequentes como agora,a julgar pelas notícias dos jornais.

 

De volta ao tópico principal desta publicação, embora nas corridas de touros atuais tal não se dê, pela leitura dos jornais da época se vê que era frequente outro tipo de atuações, possivelmente nos intervalos dos touros. O exemplo que recolhi e que apresento abaixo, deu-se numa das corridas inaugurais de 1870, da Praça de Touros da Boavista:

«Na corrida de 3 de Abril houve um número cómico. O quinto touro foi destinado para o intervalo cómico. Foi protagonista desta diversão cómica, que entreteve alegremente os espectadores, o França, criatura de uma elasticidade admirável, que, vestido burlescamente, umas vezes espera o touro, e quando este insiste, vira-lhe as costas, deita-se-lhe entre as armas e deixa-se bolear por ele, outras farpea-o, mas em vez de lhe fugir, deita-se no chão e o touro passa-lhe por cima. O vestuário e as cabriolas deste cómico personagem provocaram a hilaridade do público, que o recompensou do tempo de desenfado que lhe fizera passar, não só aplaudindo-o, mas lançando-lhe dinheiro em abundância. O último touro reservado aos curiosos foi o remate verdadeiramente cómico da corrida. Ao princípio nenhum curioso se animou a saltar à praça, porém depois em vez de um apareceram uns poucos. Foram numerosos os trambolhões e boléus e à força de insistir alguns ferros recebeu o touro. A maior parte deles foram-lhe metidos por um curioso, que entre outros se distingiu notavelmente, sendo vivamente aplaudido. Um acrescido número de espectadores entusiasmados saudaram-no agitando os lenços e os aplausos não tinham termo. A concorrência foi numerosíssima. A praça tem sido melhorada, tendo-se aberto mais entradas, para galerias e colocado portas em alguns camarotes, trabalhos que ainda continuam."

 

Mas a apetência do portuense por este tipo de espetáculos nunca escorreu em abundância... e as praças de touros cedo começaram a ficar vazias de espetadores, após a passagem do entusiasmo da novidade. Várias outras existiram, a mais famosa, o Real Coliseu Portuense, que ilustra esta publicação (ver i1), foi a única construída com a ideia de permanecer no tempo(4); não chegou a durar uma década! Outras com ela coexistiram, nomeadamente na Serra do Pilar e na rua da Alegria. E o que poucos saberão, é que também na zona das Antas uma nova praça de touros esteve para surgir em plano século XX, aquando da urbanização daquela área nos anos 40. Tal projeto, no entanto, não terá passado do papel.

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i3 - quem sabe que a Praça Velasques/Francisco Sá Carneiro, é circular porque se destinava a receber uma praça de touros?

 

Para saber mais:

- sobre a tauromaquia no Porto, convido a ler este artigo que melhor a resume: https://basta.pt/touradas-no-porto/

- no sítio do Centro Português de fotografia encontrará o leitor algumas imagens de pelo menos uma das praças de Touros de madeira que o Porto teve.

- Para o pesquisador mais interessado, poderá pedir aqui a reprodução de um Protesto público de diversos organismos e particulares do Porto contra a autorização de corridas de touros de morte, datada de 1933 (ano da fundação do Estado Novo!)

*

 

NOTAS: (1) - Na verdade este número de touros repartiu-se por corridas que tiveram lugar nos dias subsequentes à inauguração da Praça . (2) - Em Cadouços : (3) - D' O Commercio do Porto de 27 de março de 1871 : 4 - Tivesse ela chegado aos nossos dias e seria agora mais um "qualquer coisa Arena - Real Coliseu Portuense"...

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Esta publicação agrega quatro outras da casa antiga d' A Porta Nobre, no blogspot, publicadas e 24 de janeiro, 16 de fevereiro e 30 de maio e 6 de junho de 2010.

Sem sair da 'Praça Nova'

03.07.20

Caríssimos leitores, nesta publicação trago-vos mais duas imagens que ainda que bastante danificadas, não pude deixar de encarar com alguma curiosidade. Curiosidade pelo mistério que para mim encerravam e que se traduz num pensamento: se no Porto, que locais eram estes? A princípio não tendo a certeza de estar realmente na presença de temas portuenses, creio hoje que isso não sofre dúvida. Resta-me dizer que o leitor pode encontrar estas e muitas outras interessantes imagens, em linha, no Centro Português de Fotografia.

Atente-se na primeira:

PT-CPF-APR-001-001-007537_m0001_derivada.jpg

i1 . ver aqui

 

A imagem tem a legenda [EDIFÍCIO NÃO IDENTIFICADO] e a referência que o CPF apresenta na secção Âmbito e Conteúdo informa: «Estas fotografias foram tiradas numa ida à região do Douro, por altura das vindimas»; o que poderá confundir o mais incauto. Mas se essa informação for por ventura válida para as restantes fotografias da série, a i1 é, na verdade, um aspeto da praça da Liberdade, ao tempo em que a mesma ainda pertencia ao rei. Trata-se mais precisamente do seu ângulo noroeste, onde tem início a rua do Dr. Artur Magalhães Basto, presente na foto, à época com o designativo de travessa de D. Pedro. Se o leitor conhece o local onde agora se encontra a estátua do 'Porto', saiba que ele se vê nesta fotografia, à esquerda, onde temos alguns vultos de pessoas.

 

Em primeiro plano temos um palacete. É o edifício adquirido pelo município em 1864 por 19:200$000 réis, a Maria da Natividade Guedes de Portugal e Menezes, moradora em Coimbra e que o possuía desde 1840. Foi adquirido para nele se instalarem alguns departamentos camarários, que já se começavam a sentir apertados no seu vizinho e mais conhecido palacete encimado pelo 'Porto', ocupado pela câmara desde 1819. 

Screenshot_2.png

i2 - aspeto da praça de D. Pedro no início do século XX . o retângulo assinala o palacete da i1

 

Como última e curiosa nota respeitante a esta imagem, poderei mencionar a casa imediatamente adjacente ao dito palacete, onde em 1826 nasceu o malogrado poeta Soares de Passos.

 

Vamos então passar à segunda e mais enigmática, imagem do CPF:

PT-CPF-APR-001-001-007552_m0001_derivada.jpg

i2 . ver aqui

 

Pois é caríssimos leitores, e esta? A que local se refere esta imagem? Será no Porto? Será noutra cidade, ainda que seguramente nortenha a julgar pelo aspeto dos edifícios? Confesso que ela me fez coçar um pouco mais a cabeça... ainda assim creio ter descoberto o 'gato'. Mas antes de expor a minha tese devo referir que não estou cem por cento certo da sua correspondência, contrariamente à anterior. Ainda assim me atrevo a aventar esta hipótese por acreditar piamente que não me desvio da verdade.

 

A fotografia, como vemos, está bastante danificada. Ela apresenta-nos um local recôndito de uma qualquer rua, como tantos que existiam antes do advento da artéria rasgada a regra e esquadro entrar em força nos centros históricos das nossas cidades (felizmente nem mesmo essa moda conseguiu apagar tudo!). A imagem está identificado no CPF como [CASAL/VENDEDORES SENTADO NA ENTRADA DE PRÉDIO NÃO IDENTIFICADO], o que é justo e honesto. O que ela parece representar, quanto a mim, é um casal/vendedores sentado na entrada de prédio junto à viela do Polé!

 

A maioria dos meus leitores talvez nunca tenha ouvido falar deste arruamento; e não será de admirar. Tratava-se de uma viela esconsa e sem grande interesse histórico, que ligava a rua do Almada à praça da Liberdade e que desapareceu há quase um século. Seria, em meu pensar, um resquício das ruelas que aquela zona da praça teve no século XVII e XVIII, quando ainda por ali existia a bela fonte da arca ou da Natividade e os tendeiros que a populavam, tudo desaparecido durante a guerra civil de 1832-34.

 

Para que o leitor possa subscrever ou repudiar esta opinião, convido-o a verificar a i4, onde com um retângulo laranja assinalo a entrada da viela do Polé (confuso quanto à localização dos edifícios patentes na fotografia? Atente ao n.º 1, que assinala o antigo Palácio das Cardosas, agora Hotel Intercontinental).

 

Screenshot_1.png

i4 a entrada para a viela do Polé, nos derradeiros anos da sua existência (aqui)

 

Há um aspeto que não é idêntico nas duas imagens: na i3 a subida para a viela ainda se faz em rampa, composta por um lajeado de pedra grosseira; quer na rampa quer no próprio piso da praça naquele recanto. A i4 já nos mostra a mesma subida regularizada por um lanço de escada, assim como o piso da praça no local se encontra também ele regularizado 'à moderna'. Mas isso não será motivo para descartar a hipótese que coloco e afirmar que se tratam de dois locais distintos; pois não é a primeira vez que uma área da cidade que vai em breve desaparecer, recebe melhoramentos poucos anos antes da sua destruição. E acredito que na época em que os ditos melhoramentos foram introduzidos não fosse certo que a viela estivesse condenada ao desaparecimento; não obstante a câmara ter bloqueado a sua passagem com dois portões de ferro, tendo em atenção a higiene pública, algures antes de 1916.[1]

Finalmente, a 3 de julho de 1918, foi assinada a escritura de venda da viela e dos prédios que com a mesma confinavam pelo lado do sul, para que o Banco de Portugal pudesse aí erguer condignamente o belíssimo edifício da sua caixa filial; inaugurado em 1934, quando a viela do Polé era já apenas uma memória.

 

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1) Ano em que Alberto Pimentel o refere a pp. 56 do seu livro A Praça Nova.

A primeira garagem do Porto?

16.06.20

Se é verdade que a garagem de O Comércio do Porto foi a primeira grande garagem da nossa cidade, como bem afirma o ilustre arqueólogo e divulgador da história e património, Joel Cleto; ainda assim e sendo a sua construção do início da década de 1930, não foi certamente pioneira. De facto, quando ela surge o automóvel tinha já um importante e crescente peso na sociedade da época, ao ponto de se justificar a existência de um aparcamento daquela magnitude. Mas nesta publicação, que já andava há anos bons em ideia, trago-vos um pequeno apontamento sobre aquela que poderá ter sido a primeira garagem existente na cidade, que começava a dar os primeiros passos na moderna vida automobilística sem a qual não conseguimos hoje conceber o nosso mundo.

 

É o caso que, em outubro de 1907, a recentemente constituída sociedade cooperativa Automotora do Porto entrava na câmara com um requerimento para a construção de uma «garage para automóveis, em um terreno situado entre as ruas Duquesa de Bragança e Malmerandas». Aprovado em dezembro, desde logo se terá dado início à sua construção, num terreno entre duas ruas a que hoje chamamos D. João IV e Dr. Alves da Veiga (o terreno era propriedade dos vizinhos da frente, na rua D. João IV). Lendo a descrição constante do projeto submetido à câmara em 1907, tiram-se curiosos apontamentos sobre a construção original, da qual, aparentemente, tudo o que subsiste se reduz às fachadas.

 

O edifício tem, pelo lado da rua D. João IV, 29,20m de largo e em Alves da Veiga 26,75m. O seu comprimento total é de 90m a norte e 85m a sul, formando por isso um ligeiro trapézio. Na origem, tal como hoje, todo ele seria coberto. A entrada principal situava-se nesta mesma rua, onde existia a garagem e uma «exibição de automóveis e acessórios de automobilismo». No lado oposto estacionariam as «várias oficinas para pequenas reparações de carros», com um andar superior a elas para o «escritório e outras dependências da sociedade e vários gabinetes de toillete que são indispensáveis para a limpeza das pessoas que chegam à garagem, sujos de pó». As fachadas não eram portanto idênticas, uma vez que em Alves da Veiga teria o tal andar ao centro, suportado por colunas de ferro, num comprimento de 22m e largura 9,50m.

 

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esta fotografia mostra-nos com algum grau de certeza a garagem e foi tirada num momento em que desempenhou outra função que não a sua habitual (seria para o evento do Futebol Clube do Porto que ali teve lugar em novembro de 1908?) . a imagem é do AMP (ver aqui)


Erguido já no mais moderno cimento e com um pé direito de 6,5m, a estrutura era coberta por telha, em 3 cumes, com lanternins equipados com persianas que podiam ser erguidas, para arejamento. As colunas de ferro que suportavam a cobertura tinha 6 metros de altura. O chão era em betonilha na parte em que os automóveis parassem e em calçada à portuguesa na zona onde os mesmos eram lavados e consertados. A oficina, equipada para efetuar reparos de carpintaria, serralharia e pintura, era isolada em tijolo e ficava no ângulo sudoeste da garagem, entre a rua Dr. Alves da Veiga e a escada de comunicação para os escritórios no andar de cima, cujas divisórias seriam construídas de «tabique dobrado coberto a cal»

 

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segunda imagem do AMP da mesma garagem (aqui), tirada para o lado oposto

 

Estes apontamentos, embora curtos, não deixam de nos transmitir pequenas frestas de história neles próprios. É o caso da referência ao pó com que os automobilistias forçosamente trariam consigo, provável consequência das estradas em macadam e terra batida então existentes. Igualmente as referências a oficinas de carpinteiro e serralheiro deixam antever a ainda emberbe tecnologia das carroçarias dos automóveis, indústria que nas primeiras décadas do século passado estava a dar os seus primeiros passos rumo à massificação. Curioso é igualmente notar que, embora as fachadas fossem construídas em cimento e nas oficinas se usasse o tijolo (de que tipo?); a compartimentação do primeiro andar se processava pelo velhinho tabique, que ainda hoje muito vemos por aí em edifícios velhos degradados ou em pequenas parcelas recuperadas, como motivo decorativo.

 

Importa também referir que as imagens que acima se vêm estão indicadas no AMP como mostrando o mercado Ferreira Borges.* Mas creio que saltará à vista do prezado leitor que tal é impossível. Ainda que não se possa inequívocamente afirmar que se trata da Garagem Automotora do Porto, tudo aponta para que assim seja.

 

Finalizo deixando-vos uma ligação para o projeto original da garagem (AQUI), bem imagem do edifício na atualidade; aliás ainda utilizado na finalidade para a qual foi construído!

Screenshot_2.jpg

entrada principal da garagem em 2016

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* Entretanto retificado no AMP (pf ver comentário)