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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Uma hipótese para uma esfera

20.08.19

Todos conhecerão o local onde se situa o Ateneu Comercial do Porto, histórica e viva instituição da cidade que irá completar 150 anos de existência no próximo dia 29 de agosto. O que muitos poderão não saber é que atrás do seu edifício existe uma escondida viela sem saída que dá pelo nome de Beco de Passos Manuel e que nessa viela se esconde um pequeno segredo. Quem descer a rampa contígua ao Ateneu e virar à sua direita, dará quase de imediato com um pequeno armazém que remontará possivelmente ao início do século XX. Se atentar na empena verá ao centro uma estranha pedra que à primeira vista parece um pipo com uma cruz a encima-lo. Essa pedra é tão somente uma Esfera Armilar acompanhada pela cruz da Ordem de Cristo[1]: símbolos manuelinos bem conhecidos.

 

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i1 a Esfera Armilar coroada pela Cruz de Cristo - foto do autor

 

Qual a origem dela? Terá vindo de outro local? Terá sido criada de raiz para ali ser colocada? Difícil será responder a essa pergunta... Ela não parece contudo apresentar qualidade suficiente para ter encimado quer a Porta Nova de Carros quer o convento de S. Bento de Avé-Maria, ambos criações manuelinas que se apresentam como os mais aptos - por mais próximos - a terem cedido aquele pétreo símbolo ao local onde agora se encontra. É que, convenhamos, a esfera tem um aspeto algo rústico e desproporcional. Até que ponto teria sido aceite por quem quer que estivesse encarregado de gerir as obras quer da porta quer do mosteiro, para ser colocado como símbolo da grandeza do homem mais poderoso do mundo no seu tempo?

 

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i2 eis como se encontra o edifício onde subsiste aquela pedra. As referências aos seus antigos proprietários foram apagadas mas algumas das palavras ainda se adivinham: no topo em ambos os lados esteve a palavra Armazéns; por baixo à esquerda a palavra Granado - foto do autor

 

Há boleia desta questão não pude deixar de verificar o que dizia Sousa Reis sobre o convento de S. Bento e sobre ele li o seguinte: « ... conservando-se para eterna memória de seu fundador sobre a entrada principal voltado para o lado do largo da Feira de S. Bento[2] uma esfera, e a cruz da Ordem de Cristo, tudo de pedra empresa deste monarca.». Com esta informação em memória de pronto pesquisei em várias imagens do convento de S. Bento de Avé-Maria, sendo que uma delas acabou por me mostrar a tal esfera com relativo pormenor (o mesmo não acontecendo com a cruz por se encontrar fora do enquadramento). E com essa imagem tirei a teima: a esfera do beco de Passos Manuel e do mosteiro de Avé-Maria não são a mesma. Para além da clara diferença no arredondado da esfera, a pedra que está patente no beco de Passos Manuel deixa transparecer tratar-se de um só elemento.

 

Mas se essa questão se dissipava no pensamento outra se levantava ou contemplar aquela fotografia tão rica pelos pormenores barrocos que mostra, quer do pátio do convento quer da fachada do coro e igreja. E no que toca à sua Esfera Armilar tinha a certeza de já ter visto algo semelhante...

 

A i2 mostra-nos uma Esfera Armilar que se encontra desde 1940 em depósito no Museu Nacional Soares dos Reis; tendo sido exposta na Casa do Infante aquando do quinto centenário da outorga do foral ao Porto por D. Manuel I.[3] Esta pedra com meio metro de altura datará do século XVI ou XVII.[4]

 

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i2 «Escultura em granito. Elemento arquitetónico anepígrafo constituído por uma esfera com seis anéis na horizontal (deviam ser cinco paralelas: Equador, trópicos e circulos polares) e treze meridianos, sendo a elíptica representado por um anel vertical sobreposto aos restantes. É coroado por um pequeno pináculo troncocónico, apresentando na base um encaixe quadrangular para fixação num suporte».[5]

 

No final do século XIX a Câmara Municipal acordou com as poucas religiosas de S. Bento que ainda ali louvavam a Deus, a demolição de uma parte substancial do mosteiro para poderem alargar o largo da Feira que pouco mais larga seria do que a própria rua das Flores. Essa demolição afetou o pátio onde figuravam aquelas pedras, que foram por isso removidas. Veja-se esta nota do Relatório Municipal de julho de 1888:

 

«Tem prosseguido com a possível celeridade a demolição de parte do convento de S. Bento de Avé-Maria, destinada a ampliar aquela principal e quase única via de comunicação entre a parte norte e a parte sul da cidade, e que tanto carece de capacidade para o grande movimento que por ali se realiza.

Hoje, que se conta com a construção de uma estação de caminho-de-ferro nos terrenos ocupados pelo convento e sua cerca, poderá julgar-se um desperdício o que ali se tem despendido.

É necessário, porém, não esquecer, que as obras foram começadas, quando a construção da estação era uma simples aspiração; que apeados os telhados e parte do muro exterior, forçoso era conceder ao convento a vedação que estava estabelecida no contrato exarado no respetivo processo de expropriação, e sobretudo que as expropriações e demolições de todos os edifícios cujo terreno tivesse de ser aproveitado para a via pública, teriam de ser sempre feitos a expensas do cofre municipal.»[6]

 

Nos arquivos da Câmara existem alguns documentos referentes à venda de materiais resultantes da demolição do convento. E é sabido que várias pedras lavradas impregnadas de elementos barrocos foram parar a mãos de particulares. Mas não todas... algumas terão sido recolhidas pela edilidade para o museu municipal a S. Lázaro, e daí transitando para o Soares dos Reis. E é de crer que a Esfera Armilar e a cruz que sempre a acompanha tenham tido esse destino. Para além do seu valor estético e documental, eles eram apesar de tudo símbolos reais e Portugal era ainda uma monarquia. É de crer que as mesmas fossem recolhidas ao museu, tendo-se perdido o rasto de onde vieram ou por ausência/extravio da documentação (ou porque simplesmente ninguém até hoje se preocupou em a procurar!).

 

 

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i3 parte de uma conhecida imagem do convento na sua máxima extensão construtiva, com a Esfera Armilar assinalada por uma seta.

 

No pormenor da fotografia (i4 abaixo) é possível comprovar a enorme semelhança entre aquela pedra e a da i2 (no lado oposto estava a Cruz de Cristo que infelizmente não surge na fotografia). Faço notar que alguns dos elementos barrocos ali presentes ainda hoje adornam parques da nossa cidade sem nós sabermos muito bem de onde eles vêm (os mais conhecidos serão os arcos do pátio - visíveis na foto - que hoje se encontram na Serra do Pilar a meses de se tornarem átrio de hotel).

 

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i4 recorte dessa mesma imagem mostrando a Esfera Armilar com algum pormenor

 

A minha proposta é portanto simples: A Esfera Armilar que pertenceu ao Mosteiro de S. Bento de Avé-Maria é aquela se encontra depositada no Soares dos Reis. Ainda que se realmente assim é, certeza absoluta possivelmente nunca teremos a não ser que algum documento venha a surgir no Arquivo Municipal do Porto ou no Museu Nacional Soares dos Reis. Parece-me contudo ser essa a hipótese mais plausível à luz dos dados que conheço.

 

Há certamente algum meu leitor que, por mais abalizado, me poderá contradizer, concordar ou retificar; a quem desde já agradeço todo e qualquer pertinente comentário.

 

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1 - A Ordem de Cristo foi a continuação em Portugal dos famosos templários extintos em 1319 pelo papado; sendo um arguto subterfúgio encontrado por D. Dinis para não dispersar os bens desta última, na prática mantendo-a com outro nome. O nome oficial de ambas era Ordem da Milícia de Jesus Cristo (para a Ordem de Cristo) e Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (para os templários).

2 - Hoje praça de Almeida Garret.

3 - O foral manuelino, ainda que um documento organizativo fundamental da cidade, não deixa de ser como que um primeiro símbolo do centralismo político crescente.

4 - Para vergonha e agora tristeza minhas, não visitei aquela exposição! Não pude contudo deixar de ver a pedra de que falo pois ela encontrava-se precisamente em frente à porta de entrada do átrio do Arquivo Municipal do Porto e por ela passei diversas vezes quando fui fazer as minhas pesquisas.

5 - Texto retirado da brochura Peça do Mês de março de 2015, da autoria do Dr. António Manuel Silva.

6 - Estas demolições não são, como o próprio texto deixa implícito, as da totalidade do convento que só ocorreriam alguns anos depois. Foi contudo a primeira machadada na integridade daquela casa cujo fim inglório e até em parte injustificado, já se adivinhava...

Um cenário para sempre irrepetível

11.08.19

Ainda hoje portadora de um sentimento medieval, a freguesia da Sé era tudo o que nela ainda se encontra e bem mais... Como é de geral conhecimento, algumas ruas que se situavam em frente e nas imediações da Catedral foram demolidas em 1939/40[1], com o intuito de ali se criar um largo - o Terreiro da Sé - com vista à monumentalização do conjunto dos edifícios episcopais, tornando-os mais visíveis, mais airosos e altaneiros[2]. Disso resultando uma acrópole medievo-barroca de forte impacto cénico ainda que artificial por ser completamente desprovida de historicidade[3]. A bonita imagem que o leitor pode ver logo abaixo é um dos poucos registos que nos ficaram do local tal como as gerações anteriores nos legaram, fruto das modificações por elas executadas ao sabor das suas necessidades mais do que das suas paixões.

 

 

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i1 esta irrepetível imagem mostra-nos o bem mais acanhado acesso à igreja da Sé que existiu até 1939. Oponente à sua fachada, sobre cujas escadas da entrada uma pessoa descansa, temos a Capela de N.ª Sr.ª de Agosto (também conhecida por Capela dos Alfaiates), que dali foi levada para o gaveto entra a rua do Sol e a rua de São Luís.

 

 

E assim foi: em 1940, por ocasião de umas comemorações que por ali tiveram lugar, foi inaugurado oficialmente este espaço que se nos apresenta hoje aos nossos olhos livre já das casas antigas em ruas centenares que faziam frente à Sé Catedral, Casa do Cabido e Paço Episcopal. Mas a filosofia de restauro da época vivia ligada à monumentalização dos edifícios pátrios construídos sobretudo nos estilos românico e gótico, a que não foi alheio o culto da Nação à maneira do Estado Novo. Assim se impunha e assim se fez.

 

 

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i2 esta planta surge num relatório da Câmara Municipal de 1938 e mostra-nos que o plano de demolições era bem mais ambicioso (felizmente não todo concretizado). Aqui já não figura a capela da foto acima (local assinalado com o X) no entanto o restanto edificado que iria desaparecer ainda lá se encontra. Mais: caso o plano fosse inteiramente executado, teriam sido exterminados pura e simplesmente quase todos os edifícios situados dentro do chamado muro velho; i. é, a muralha defensiva pré-românica e românica!

 

 

É claro que essa atitude, que teve quanto a mim o único efeito positivo de trazer alguma salubridade ao bairro da Sé, levou a que as gerações vindouras apenas pudessem aceder a uma boa fatia da história da cidade através dos escritos que nos foram deixados (por exemplo os Tombos da Mitra e do Cabido), nas fotografias (felizmente já existia este tipo de registo!) ou nas diversas plantas depositadas no Arquivo Municipal do Porto. Ficou-nos contudo irremediavalmente vedado o confronto desses registos com que poderia existir in loco, pois graças aquela fatídica decisão de 1938 para sempre se perderam aquelas ruas.

 

Para Sempre!

 

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1 - A mui antiga rua das Tendas, por exemplo, era um desses arruamento, ainda que nos nossos dias não fosse esse já o seu nome.

2 - A triste verdade é que se "devolveu" imponência a um edifício que nunca o pretendeu ter, ao menos da forma como o pensavam o governo nacionalista de meados do século XX. Nem passava aliás pela cabeça das gentes medievais tal ideia; mesmo tomando em consideração que a cércea das habitações comuns foram pelo menos até ao século XVII/XVIII bem menores que as dos edifícios atuais (a maioria do século XIX) o que certamente faria com que os fortes muros catedralícios sobressaíssem no conjunto urbano.

3 - Sendo a cidade medieval um amontado de casas desalinhadas, hortas, pomares, fraguedos, terrenos baldios, açougues, pelames, etc; nunca esta área esteve livre da outras edificações que se lhe avizinhavam, mais próximas ou mais afastadas. Tome-se como exemplo a primitiva casa da Câmara que até meados do século XIV se adossava à própria Sé numa casa de madeira pequena e desconjuntada.

 

 

§ Texto originalmente colocado no blogspot em 05.03.2014, agora revisto e aumentado.

Breves notas sobre o 'palacete' da Praça da Batalha

07.08.19

«Falemos agora de uma outra casa, a da Batalha, construída na esquina da Praça da Batalha com a Rua de Entreparedes, em fins do século XVIII por José Anastácio da Silva da Fonseca, fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo (...).

 

Era também casa de grandes proporções, a cujo salão de baile só podia comparar-se, em extensão, o da velha Feitoria Inglesa.

 

Pertenceu seguidamente a Manuel Guedes da Silva da Fonseca Meireles de Carvalho, moço fidalgo da Casa Real, tenente-coronel de milícias de Penafiel, comendador das Ordens de Carlos III e de Isabel a Católica (...)

 

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i2 o palacete no início do século XX

 

Com a entrada das tropas liberais no Porto o Governo tomou conta do edifício e fez lá instalar diferentes repartições públicas. Também serviu de hospital de sangue. A família abandonou-o então e foi refugiar-se na casa da Aveleda.*

 

Bernardo de Sá Nogueira, depois barão, conde e marquês de Sá da Bandeira, gravemente ferido em combate, travado no lugar da Bandeira, em Santo Ovídio (Vila Nova de Gaia), teve de sujeitar-se à amputação do braço direito, feito na casa da Batalha. E o braço foi enterrado nos jardins, junto a um cedro, sobre cujos terrenos veio a construir-se, relativamente há pouco tempo, o atual edifício das encomendas postais.

 

Em 1842 a casa foi novamente restituída aos seus proprietários.

 

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i1 o palacete em 1833. Em 1861 a Câmara Municipal terraplanou a Praça da Batalha, indemnizando o proprietário por o obrigar a readaptar o edifício ao novo nivelamento

 

No dia 25 de fevereiro de 1863, podia ler-se no jornal «O Anunciador» (...), o anúncio de um grande leilão de mobílias a realizar no palácio da Praça da Batalha, 62 (...); rendeu esse leilão a quantia de 8.408$284 rs., importância muito avultada para a época.

 

A casa então já era pertença de Manuel Pedro Guedes da Silva da Fonseca Meireles de Carvalho, moço fidalgo da Casa Real com exercício no Paço, senhor da Casa da Aveleda (...), que o alugou ao Estado pela renda anual de 1.200$000 rs., e depois a vendeu, para instalação da estação dos Correios, Telégrafos e Telefones, que ainda lá se encontra, aguardando desde há muito tempo transferência para novo edifício, a construir no cimo da Avenida dos Aliados (...).

 

Há relativamente poucos anos, na administração geral dos Correios e Telégrafos não existia a escritura de compra, pelo que esse departamento do Estado chegou a suspeitar que o prédio não tivesse sido vendido, mas simplesmente alugado, e assim o comunicou à família Guedes. Ao cabo porém, de várias pesquisas (...), foi encontrado o respetivo documento na Torre do Tombo, não restando portanto nenhuma dúvida sobre a transação efetuada».

Excerto de um artigo do Brigadeiro Nunes da Ponte in O Tripeiro de fevereiro de 1952

*

 

Em 2007, sendo este edifício propriedade da Portugal Telecom, foi colocado à venda e posteriormente adquirido por um grupo hoteleiro coimbrão. Atualmente, no local onde existiu o palacete, existe um novo edifício que preserva a fachada do século XVIII bem como os arcos do átrio do seu antecessor, como se pode verificar no sítio do Hotel Collection Porto Batalha. Essas parcas pedras bem como as memórias escritas que nos deixaram as anteriores gerações, são tudo o que resta daquela mansão como legado para as gerações vindouras.

 

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i3 edifício que substituíu o palacete, preservando a sua fachada. Notar que os óculos superiores a algumas das janelas do primeiro andar não são originais. Pela análise das imagens existentes, podemos constatar que a fachada os apresenta apenas desde meados do século XX. Mais recentemente, aquando da construção do novo edifício, foi aumentada a fenestração a esse nível com a adição de duas pequenas janelas quadradas nas laterais do brasão bem como janelas retângulares encimando as restantes janelas do primeiro andar que não apresentavam óculos.

 

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* Os proprietários, partidários de D. Miguel, dadas as circunstâncias viram-se obrigados a abandonar a cidade.

A Rua Escura

03.08.19

A Rua Escura é uma das mais antigas artérias da cidade do Porto, talvez mesmo a primeira a surgir fora da muralha primitiva que circuitava o Morro da Penaventosa. Principiava à esquerda da Porta da Vandoma (a principal saída da cidade) e por ela se descia ao rio Douro pelo carreiro que viria a dar origem à Rua da Bainharia e Rua dos Mercadores. Denominada Rua Nova no século XIV, em documentação do século XV apresenta já o epíteto de Escura, um nome que provirá provavelmente da sua parca largura aliada à construção medieval que não sendo de tendência para casas muito altas, tinha contudo nos sobrados-ladrão amplamente usados na baixa-média e tão característicos daquele período, um grande contributo para o encobrimento daquela artéria.

 

Relacionadas com esta rua existem duas curiosas imagens do AMP catalogadas como tendo sido tiradas na Rua Chã, ainda que essa afirmação seja mais verdadeira para uma delas. Têm em comum o apresentarem paisagens para sempre fisicamente desaparecidas da cidade, permanecendo assim na memória através destes raros e preciosos documentos fotográficos.

 

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i1

 

Na i1, podemos ver em primeiro plano o Solar dos Correias, edifício demolido mas numerado pedra por pedra das quais o paradeiro se perdeu. A verde está indicada a direção da Rua Chã, um caminho muito importante que saía da Porta da Vandoma, dando início à estrada para o interior norte do país; a vermelho temos a indicação da Calçada da Vandoma, onde bem perto do fotografo existiu até meados do século XIX essa famigerada porta do muro velho; finalmente a azul a Rua Escura; situada logo ali à ilharga daquela entrada, onde chegavam as pessoas e mercadorias que vinham de passar o rio para aceder ao burgo de D. Hugo e seus sucessores.

 

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i2

 

A i2 foi a que mais me intrigou! Está classificada como tendo sido tomada na Rua Chã, mas não pode ser! A Rua Chã nunca foi daquela diminuta largura para além de que o termo chã implica que seja plana, coisa que esta rua não é. Acrescenta ainda o facto da Rua Chã ter sido igualmente conhecida, em tempos mais idos, por Rua Chã das Eiras por ser o arruamento onde existiam os eirados de trilhar e secar os cereais, o que não se compadece com a largura que este arruamento apresenta. Bem sei que na foto podemos ver uma placa toponímica com o dístico Rua Chã[1]  (seta amarela), mas essa placa refere-se à rua que vem em direção ao fotógrafo e não aquela que realmente se vê na foto. Aquela é na verdade a Rua Escura que ali se ligava com a Rua Chã, entrando ambas no burgo velho pela Porta da Vandoma, a dois passos da Sé. Se esta argumentação não convencer, bastará olhar para a parede de pedra do lado esquerdo da i2 e compará-lo com a da i1 e concluir o óbvio: estamos na presença da mesma rua!

 

A elipse laranja que coloquei na i2 assinala um ponto fixo de referência que de certo modo ainda existe: é o edifício que se vê na i3, um cliché bem conhecido por figurar em inumeros postais (compare o leitor com o aspeto atual na i4).

 

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i3 este local, posto que bastante modificado, ainda existe: à esquerda e em sentido ascendente temos a Rua de São Sebastião, à direita no sentido descendente apresenta-se-nos a Rua Escura. Aqui estiveram os primitivos Paços do Concelho, junto a mais uma porta do muro velho (que existiu sensivelmente onde está a guarita do sentinela do Aljube).

 

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i4 o mesmo local em 2016 (foto do autor)

 

 

Escusado seria referir que as imagens que deram mote a esta publicação - i1 e i2 - não são passíveis de serem colhidas nos nossos dias uma vez que toda aquela área foi destruída e o solo rebaixado, dando lugar à passagem que agora nos permite o acesso à Rua Escura vindo da Avenida D. Afonso Henriques. A i5, preciosa ajuda do googlemaps, mostra-nos uma vista do céu de toda aquela área e que melhor ajuda o leitor a identificar o troço da Rua Escura que desapareceu.

 

 

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i5 creio ser facilmente identificável por todos o local que se nos apresenta na frente (atente-se na igreja da Sé ao lado esquerdo). As linhas a vermelho escuro indicam a parte da rua que já não existe. As letras indicam, a um patamar criado após a demolição de casas da Calçada da Vandoma que assinalo na i6o preciso local onde existiu o Solar dos Correias, (como se constata na mesma imagem.

 

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i6 o Solar dos Correias no antigo início da Rua Escura (diante dele vê-se o patamar criado aquando das primeiras demolições na Calçada da Vandoma). Onde foram parar as pedras deste edifício?

 

 

E assim mais uma vez se se comprova, caro leitor, como uma simples foto pode ser tão preciosa, por documentar uma realidade centenar que para sempre deixou de existir, e logo localizada bem no núcleo da cidade velha. Quantos outros locais que já desapareceram não tiveram esta sorte?

*

 

NOTA: 1- A placa toponímica apresenta o nome da rua como Rua Chaã (com o til sobre os dois aa). Tratou-se eventualmente de uma placa com a chancela do Gabinete de História da Cidade, uma vez que seria essa a grafia dos documentos do século XV. A forma atual é uma simplificação que decorre da evolução da língua. Em português antigo a pronúncia seria algo aproximada a rua tchãã, já de si uma evolução de chana (ler tchana). A palavra original latina é plana, no masculino planus. A forma atual resulta de um fenómeno que ocorre em milhares de palavras da nossa língua, denominado crase (fusão de duas vogais).

 

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Publicada originalmente no blogspot em 29.02.2016, agora revista.