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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um agradecimento e algo mais...

14.12.19

Obrigado a todos pelas palavras de apreço e gratidão, que ainda hoje, uma semana depois, continuo a receber.

 

Cada vez mais me convenço que a decisão de remover A Porta Nobre poderá ter sido algo precipitada. As vossas palavras tem sido extraordinárias, trazendo-me à ponderação se de facto esta auto-censura fará sentido. Com efeito, este blogue é uma publicação sem caráter comercial, antes de pura e simples investigação. Pela nossa internet pululam publicações do género que fazem igual uso das imagens e textos disponíveis (ainda assim, a nova lei europeia dos direitos autorais, aparentemente, ainda não se encontra em vigor, pelo que é possível que muitos sítios, blogues, canais de youtube, páginas do facebook, etc, ainda venham a sofrer esses cortes aplicados automaticamente pelas plataformas). Atualmente, e tal como mais de um de vós referiu, os potenciais donos poderão, se assim o entenderem, pedir para as remover, quer seja n' A Porta Nobre , quer a outro qualquer seu congénere ou afim.

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Confesso que mais pessoas do que contava se manifestaram. Saber que tenho leitores para as palavras que escrevo com prazer e com o objetivo de levar ao conhecimento dos que gostam de História do Porto, é o maior contentamento que posso ter. E sobretudo um que gostava de continuar a ter.

 

Assim, tentarei hoje recolocar as publicações que removi, esperando que elas surjam nas suas datas originais (não creio que o sapo  inunde a caixa de correio eletrónicos dos meus caríssimos subscritores com avisos de publicações,  já que ele garante que apenas um e-mail por dia é gerado). Seguidamente irei trabalhar na próxima publicação, para que a A Porta Nobre possa continuar a contribuir para o conhecimento da história da nossa cidade.

 

Muito obrigado a todos pelo apoio e incentivo!

 

Nuno V. Cruz

Porque extingo "A Porta Nobre"

06.12.19

É com tristeza que vos dou a conhecer a decisão que tomei de extinguir este blogue.

 

Não escapará ao mais desatento leitor d'A Porta Nobre que esta casa tem sido um veículo acima de tudo de informação escrita, contrariamente a vários outros blogues ou páginas nas redes sociais cujo ênfase é a imagem. Contudo, em boa parte das publicações, as imagens são incontornáveis porque essenciais para explicar, quantas vezes através da inclusão de 'rabiscos' nas próprias, o que existia, o que deixou de existir, etc, etc... (esta era a forma que mais 'gozo' me dava, descobrir e partilhar convosco fases urbanas pretéritas, por vezes partindo de uma só pedra...)

 

Acontece que, muitas vezes nos esquecemos, que nós não somos donos das imagens (ou pelo menos da maioria delas), nem o podemos ser se as mesmas não estiverem em domínio público. O facto de a internet ter generalizado a troca de imagens e tornado o acesso bem mais fácil às mesmas, seja em que parte do mundo elas se encontrem, fez com que qualquer um de nós, as copie, use, recorte (algo que aparentemente é bem grave à luz dos direitos autorais!), e assim as transmita, perdendo-se muitas vezes mesmo a noção de onde ela era originária.

 

Temos à nossa disposição dezenas de arquivos a nível nacional (para não falar no espólio que existe lá fora) que nos proporcionam o acesso a documentos, que de outra forma muito dificilmente teriamos acesso. Só por isso já podemos estar gratos, até porque podemos guardar e usar essas imagens conforme quisermos, mas sempre de forma privada. Se por outro lado a pretendemos divulgar, teremos de pedir autorização ao autor ou produtor da imagem, careça essa autorização de pagamento ou não (o que, convenhamos, na internet quase ninguém faz!).

 

Não pretendo ficar nessa zona escura! E por isso, em conversa com uma pessoa conhecida que domina o assunto por dentro e sabe do que fala, concluí que a melhor solução é pura supressão do blogue, pois sem as imagens que o complementam ele fica incompleto. Pretendo também com esta ação evitar danos futuros na minha parca carteira de empregado de escritório remediado que não lucra um tostão com A Porta Nobre.

 

Por muito prazer que tirasse do meu trabalho (ainda agora preparava uma pequena publicação de mais um texto inédito, desta vez sobre o palacete da Torre da Marca, onde iria incluir uma imagem ilustrativa) e mesmo tendo a noção que ele acrescenta algo novo aos conhecimentos da história da cidade (e só assim fazia sentido), a verdade é que não quero correr o risco de um dia me deparar com ele suprimido judicialmente, com todas as consequências que possa acarretar.

 

Estou convencido que vos devia esta explicação, para que não ficassem surpreendidos quando aqui chegassem e se deparassem com a casa vazia.

 

Desta forma, caros leitores, me despeço não com um adeus mas com um até breve. É que isto de escrever é um bichinho que se mete...

 

Nuno V. Cruz

 

 

PS - a imagem usada no frontão do blogue não tem direitos autorais atribuidos.

O Carroção, pela pena de Ramalho Ortigão

29.11.19
Excerto de um texto de Ramalho Ortigão, de 1876, onde este se refere ao carroção, o primeiro transporte coletivo do Porto.
 
 
*
«(...) Muita gente vinha do Porto, de madrugada [à Foz], tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinário inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. O carroção era um pequeno prédio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas paralelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada por uma cor alegre, lia-se o nome do proprietário e do inventor da máquina: Manoel José de Oliveira.
 
Quanta gente cabia num carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma família. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a de vagar, mas ia-a levando sempre. Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do teatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora!
 
Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matosinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes e penso para os bois! Para este fim havia bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidades, poderia arrumar-se -- outra família.
 

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um carroção particular

 
Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções, por um pinto (...). Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.
 
Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro dele e de se por a olhar para fora pelos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.
 
O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé  foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boavista. Em certo dia de função suburbana Tavares pôs na rua três carroções novos, de cores extraordinárias, maiores do que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o apenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rápido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto à Foz, uma légua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, - um dia. Manel Zé, vendo passar o Ligeiro, - e só Deus sabe o tempo que o Ligeiro levava a passar! - desmaiou de desgosto.
 
 

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ensaio de um carroção dos meados do século XIX

 
Além destes carroções de aluguer puxados por bois, havia os carroções particulares, puxados por vacas. Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento. (...)»
*
 
 
Completo estas notas com uns curiosos apontamento de notícias. Por exemplo, em 1836, num jornal da época, é referido um acidente que sofreu uma distinta família da cidade que descia Cimo de Vila para vir ao teatro, no seu carroção. Acontece que, estando a passar uma banda marcial do exército em pleno toque, os bois, assustados, botaram a correr rua abaixo. Separaram-se do carro que aos trambolhões se imobilizou em frente à fonte e continuaram a sua marcha rebocando apenas as rodas frontais, até populares os imobilizarem em frente à igreja da Misericórdia!!
 
Num outro apontamento, na Vedeta da Liberdade de dezembro do ano seguinte, entre vários casos policiais relatados, conta-se a da prisão de um indivíduo que «furtou uma junta de bois à porta do Teatro, que aí tinham conduzido um carroção com a família dos Machadinhos».
 
E, para finalizar, vejam-se estes curiosos anúncios de outubro do mesmo ano, também da Vedeta, que se referem a carroções, mas também a outros meios de transporte. Com efeito, estava para venda «um carroção de muito boa figura, seguro, e em bom uso; uma traquitana quase nova, e uma caixa de sege com cortinas, vários arreios de bolea [sic], e duas cadeirinhas». Na Vedeta do mesmo mês «vende-se um carroção de bom gosto montado em boas molas». já em novembro outro que diz «quem pretender comprar uma elegante carruagem inglesa, fale com o Segeiro Francisco José Gomes...»
 
 
 
§ Originalmente publicado no blogspot em 05.08.2016, agora revisto e aumentado.

As litografias de Joseph James Forrester (1835)

15.11.19

Abaixo transcrevo um pequeno texto que descobri quando folheava um dos primeiros periódicos da cidade, o quase desconhecido jornal O Artilheiro, que no dia 4 de março de 1836 publicou o seguinte texto:

 

«BELAS ARTES

É com o sentimento do mais entusiástico amor da pátria, que lançamos mãos da pena para noticiar que a heroica cidade do Porto principia a desenvolver de si o gosto particular de fazer conhecer os magníficos pontos de vista, que a fazem saliente entre as mais pitorescas cidades da Europa. De gravuras representando algumas paragens do Porto, só temos notícia da grande e antiga estampa, de antes de 1790, de toda a elevação da cidade, vista do Choupelo, a qual foi depois resumida para a Descrição de Agostinho Rebelo da Silva [sic]; bem como de uma vista de S. João da Foz, na mesma descrição.

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i1

Há seis anos pouco mais ou menos, que numa obra periódica publicada em Londres, das principais cidades da Europa, se incluiu a cidade do Porto em um dos folhetos, contendo somente 4 vistas - de quatro diferentes pontos, duas ao nascente, e duas ao poente dela. Estava porém reservado para esta época, que Mr. Joseph James Forrester, mancebo inglês pertencente à casa comercial da firma aqui estabelecida com este sobrenome, principiasse a dar uma regular descrição de todas as belezas pitorescas do Porto, de que acabam de publicar-se duas partes, em 9 finíssimas estampas, gravadas primorosamente, e tiras em papel da China.

 

Os objetos escolhidos para princípio dessa coleção são: O Porto visto do alto da Serra da Arrábida, olhando para o nascente [ver i6]. O convento da Serra, visto do lado do sul fora da estrada que fechava a posição militar deste baluarte da liberdade no sítio de 1833, em um momento de ataque e defesa. A vista do anfiteatro de toda a cidade, desde as Escadas do Codeçal até à Porta Nobre, tomado o ponto de vista do sítio das Alminhas nos Guindais de Vila Nova. A vista de todo o lado da Serra, desde a Bateria da Eira, até à Bateria do Castelo de Gaia tomada do sítio em meio caminho da Corticeira [i2].

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i2

A vista do cais, e frontispício da escadaria e igreja de Vale da Piedade, tomada da barreira que lhe fica contígua[i1]. Uma vista tomada do muro do Jardim do Freixo, olhando pelo rio abaixo até às Baterias no alto e no Cais do Prado [i3]. Uma vista tomada do alto de Avintes, sobre a margem oposta, desde Valbom até ao Freixo [i4].

 

Além destas sete estampas, de cenas pitorescas em agradáveis pontos de vista, juntou-lhe o habilidosíssimo autor duas cenas domésticas, de merecimento igualmente distinto. O interior da paroquial igreja de S. Nicolau em ocasião da celebração da missa do dia[i5]. Uma cena no Mercado da Cordoaria, em ocasião de dia de Feira.

 

Por certo, que tudo quanto disséssemos de correção de desenho, beleza de edição, e merecimento geral da obra, seria gastar palavras supérfluas em elogios, que num lance de olhos se podem prestar vendo-se obra tão primorosa e tão lisonjeira para os portuenses, e seus admiradores. O autor juntou a estas 9 vistas do Porto, um do Castelo da Figueira, tomada da parte da terra, em posição que mostra abranger três ou quatro milhas de costa.

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i3

Nós não sabemos que Mr. Forrester tenha de venda estes dous cadernos, que abrangem as 10 mencionadas vistas: sabemos só que muitos dos seus amigos foram subscritores (em cujo número tivemos a honra de entrar) e que a subscrição foi de 4$800 reis. Não há nada mais barato, nem que tanto mostre o gosto e independência do autor, do que tratar ele de dar à luz estes ensaios de seu génio tão distinto em pintura de perspetiva, sem mais algum interesse, porque estamos certos de que estampas iguais, e do mesmo cunho, custam ordinariamente muito mais do dobro.

 

Como portuense, é nosso único fim agradecer por este modo publicamente ao Sr. Forrester este tributo da sua afeição a uma cidade, em cujo seio ele foi nosso companheiro no tempo do memorável sitio, defendido debaixo das ordens do imortal Duque de Bragança.»

 

No dia seguinte, o mesmo periódico publicava a seguinte adenda publicada no dia seguinte: «No artigo a respeito do merecimento das estampas da cidade do Porto por Mr. Forrester, escapou-nos mencionar, que também tínhamos notícia de uma vista da entrada do Rio Douro pelo Sr. Kopke.». E no dia 24 de Março surge também:

 

«Já n' O Artilheiro demos conta da publicação de várias vistas do Porto, pelo Sr. Forrester. Para que se não julgue que o nosso juízo foi apaixonado no todo, sabemos que uma das pessoas inteligentes e de gosto desta cidade, a quem foram mandadas, por se achar ao presente numa quinta, escreveu a um amigo o seu juízo crítico parcial sobre cada uma das estampas, o qual é o seguinte:

"Restituo as vistas e agradeço o obséquio: resta-me dizer o juízo que faço delas. Quanto ao desenho está bom - a litografia é da melhor que se faz em Inglaterra, mas de algumas Vistas não sei se foram escolhidos os pontos para as tomar.

A Vista da Arrábida para cima, não faz grande efeito: o ponto junto ao rio para dar a mesma vista, abrangendo ambas as margens, parecia-me melhor escolhido: se o A. tomasse o ponto para esta vista de cima da montanha da Torre da Marca, em forma que abrangesse a linda vista do Candal até ao rio, e para cima, parte de Vila Nova &c seria de muito melhor efeito.

A do interior da igreja de S. Nicolau, está muito exata e linda: é pena que não fosse antes o interior da antiga e bela igreja dos frades de S. Francisco, ou a de S. Bento.

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i4

A perspetiva do Freixo, apresenta o Seminário e a China, demasiado pequenos, e nada mais dos muitos cotages que seguem para cima: esta vista seria melhor toada da Pedra Salgada, abrangendo o Freixo quase na sua totalidade, o esteiro de Campanhã e suas imediações.

O convento da Serra no tempo do cerco, está excelente em todo o sentido.

A da cidade tomada do princípio da calçada da Serra, igualmente está muito boa: porém precisava para complemento, de outra vista da cidade tomada do alto da Bandeira, para abranger até à Lapa etc e outra tomada do castelo de Gaia, para abranger de Miragaia, às Virtudes, Hospital Novo, etc. Certo estou que quem tão bem soube desenhar as duas precedentes, igualmente o faria a estas, que em parte viriam a completar os três lados principais, donde o Porto precisa ser visto, e donde apresenta perspetivas diferentes.

A da feira da Cordoaria está linda e exata, mas se fosse tomada mais de longe, e não tanto no centro do local, talvez fizesse melhor efeito: talvez que do mercado do peixe, ou mais no Norte donde a vista abrangesse melhor espaço, seria melhor.

A de Santo António de Vale da Piedade está muito exata e boa.

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A do Freixo parece demasiado pequena, e que se podia tirar mais partido deste belo edifício e local.

O Castelo da Figueira não o conheço; porém a vista é bela; só lhe acho lá um pescador, que me fez lembrar os napolitanos na bela peça do Massaniello: os portugueses não trazem botas, nem se ataviam tanto; ao menos os que tenho visto na maior parte das costas.

A Serra vista das Fontainhas está muito exata e linda."»

 

Creio, caro leitor, que as imagens serão conhecidas da maioria dos apaixonados pela história da cidade; não creio contudo que os textos  que aqui as acompanham sejam assim tão conhecidos (se o eram de todo!). São eles, principalmente, que aqui pretendo divulgar, no sentido de ancorar às imagens um esboço de uma contextualização das mesmas na época exata em que foram publicadas. Espero ter sucedido.

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i6

 

§ Originalmente publicado no blogspot em 29.07.2016, agora revisto.