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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Curiosidades e notícias 'fora da norma'

por Nuno Cruz, em 12.08.18

Notícias curiosas, algumas inusitadas, que vou encontrando nos jornais do século XIX, é o que pretendo colocar nesta publicação. Chamo a atenção para o facto de esta espécie de arquivo ser sempre a mesma publicação em constante - no lado relativo da palavra - atualização. Os títulos que não se encontrem dentro de «» são de minha autoria e como já vem sendo habitual a ortografia é atualizada exceto em algumas palavras que poderão indicar uma outra pronúncia.

 

 

1. Onde se pode ver que os falsos peditórios não são invenção dos nossos tempo...

« Rita de Cassia de Jesus, desta cidade, faz público : que João da Rocha Passos, morador no largo dos Lóios, desta cidade, sabendo d'uma operação do cancro que a ela foi feita, tomou a infame deliberação de se servir deste acontecimento, promovendo uma subscrição a favor da operação sem com esta ter relações algumas, e só com o fim de roubar dinheiros, que já tem recebido : a subscrição verdadeira é promovida pelo irmão da dita operada, Antonio Marques de Santos Alão, morador na travessa da Picaria n. 19, bem conhecido pela sua aleijão. Por consequência as pessoas a quem o tal Rocha Passos se dirigir, devem repeli-lo com a indignação que merece o seu péssimo caráter. »

Anúncio publicado na Vedeta da Liberdade de 4 de setembro de 1836

A Companhia União Fabril Portuense em 1911

por Nuno Cruz, em 08.08.18

Nesta publicação trago aos olhos dos meus estimados leitores um texto quase perdido para o mundo, sepultado por entre páginas e páginas de jornais amarelecidos que quase ninguém lê. Na verdade, se os três grandes do jornalismo portuense são bastante consultados na BPMP[1], a maioria dos jornais menos conhecidos e de menor duração passam muitas vezes despercebidos. Isso é precisamente o que acontece com um periódico de curta vida mas boa qualidade, que dava pelo incomensuravelmente grande nome de O Porto.

 

Já recentemente trouxe a estas páginas um texto daquele periódico relacionado com a livraria Lello & Irmão. Desta vez o tema é a fábrica de cerveja da Companhia União Fabril Portuense e as suas novas instalações da rua da Piedade. Sem mais delongas, deixo-vos com este singelo mas informativo texto. Notar que em algumas palavras mantive a forma escrita do texto original, escrito aliás, no preciso ano da grande reforma ortográfica portuguesa.

 

*

«A pretexto de abrirmos de novo esta secção[2], vamos hoje referir-nos ligeiramente à fábrica de cerveja cá do burgo, à União Fabril Portuense.

 

Ao Porto, que vive principalmente do comércio e da indústria, devem interessar estes ramos de atividade de que sucintamente vamos falar.

 

Fomos, pois, em rápida visita aos armazéns e ás várias dependências da União Fabril e tivemos ocasião de ver ali, a série interminável de engrenagens e maquinismos duma fábrica de cerveja, Juntamente, há também uma fábrica de gelo, cuja fabricação é interessantíssima. Entramos nos longos corredores das adegas, onde o frio é intenso e que, de mistura com a sombra, nos dá a impressão de alguma coisa de misterioso e diabólico.

 

Miramos os depósitos onde grandes pipas repoisam umas sobre as outras, silenciosamente, à sombra, para sairmos dali em direção a outras dependências.

 

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i1 Fachada constante no projeto submetido á Câmara em 1909, onde o edifício a construir é criteriosamente descrito. Teria 40 metros de frente para a rua da Piedade e 15 metros de frente para uma rua «em projeto» (futura rua Júlio Dinis). Ali se lê igualmente que: «a parte destinada à fabricação do gelo e depósito ocupa o corpo central e lateral, lado poente, e o corpo lateral, lado nascente destina-se ao engarrafamento e depósito de cerveja, escritório e dependências». De referir que o projeto é mais abrangente, mostrando a totalidade das frentes e a disposição das várias repartições no interior da fábrica.

 

Atravessamos as casas do engarrafamento da cerveja, curiosíssimo por sinal, e das gasosas, refrigerantes, etc, bem como os lugares onde a cerveja fermenta e onde em grandes caldeirões é preparada.

 

Depois de visitarmos a casa das máquinas, que, só para a fabricação do gelo, são três, derigimo-nos ainda para os depósitos da garrafaria e do encaixotamento, vimos as cavalariças, etc. Um nunca acabar de depósitos, armações, maquinismos que nos levam quasi a não perceber como um pobre copo de cerveja, pacatamente servido por um garçon, no primeiro botequim, leva tanta volta, passa por tanta metamorfose desde que, ainda simples grão de cevada, entra no moinho e é lançado ao caldeirão, até ser bebida, loira e espumante que nós bebemos em tardes de calor.

 

Esta fábrica, desde a sua fundação, em março de 1890, (já lá vão vinte e um anos!) até hoje, tem tido um considerável avanço, graças à magnífica qualidade da cerveja ali fabricada, à reputação adquirida em anos de incessante trabalho e à boa direção.

 

Sabemos também que o fabrico do gelo foi uma das grandes causas do seu avanço. Dezenas e dezenas de navios, fazem ali o sortimento para o exercício da sua indústria de pescaria. Casas sem número fornecem-se largamente ali, dando assim um grande impulso àquela empresa.

 

Sem competidores, e de reputação feita, tem conseguido impor-se, em prejuízo da cerveja estrangeira muito mais cara e, quantas vezes pior!

 

É enorme a exportação de cerveja desta fábrica para as províncias, não esquecendo as cervejarias da cidade onde o consumo é larguíssimo e lucrativo.

 

Como são insuficientes já as dependências da fábrica, várias vezes ampliada, a empresa vê-se obrigada a fundar nova fábrica, maior e mais cómoda, na rua da Restauração onde brevemente, por certo, funcionará. [3]

 

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i2 Nesta imagem, já de 1939, vemos o edifício da União Fabril Portuense construído em 1909/10 (3) na rua da Piedade. A seu lado um outro edifício, mais moderno, da mesma fábrica. Para nos ajudar na localização: o n.º 1 marca o cruzamento da rua da Piedade com a rua Júlio Dinis e o n.º 2 a área da futura praça da Galiza (nas costas do fotógrafo virá a estar a Escola Industrial Infante D. Henrique). A área ocupada pelo complexo fabril é hoje uma zona ajardinada também ela com a denominação de praça da Galiza.

 

É interessante que esta companhia, dispondo atualmente de um capital de 300.000$000 de reis, que cada vez mais amplia as suas dependências e vê o consumo da sua cerveja aumentar cada vez mais, principiou pela junção de várias fábricas deminutas que ao tempo havia no Porto [4]. Ligados os capitais e as pequenas fábricas, deram hoje a empresa forte que nós sabemos, competindo, vantajosamente, com as fábricas de cerveja estrangeira.

 

Orgulhamo-nos porque, sendo filhos do Porto e defendendo os interesses desta cidade, que é nossa, folgamos ver a prosperidade, com as suas asas cor-de-rosa, ondular por sobre esta terra gloriosa e boa.

 

Ao findar estas notas, ligeiramente tracejadas, não podemos deixar de agradecer ao senhor Fontana, consideradíssimo guarda livros da companhia, a amabilidade com que nos recebeu e esclareceu, bem como não podemos esquecer o Sr. José Esteves Fraga (...), diretor há 17 anos, da União, à qual tem prestado belos e relevantes serviços e a que tem dedicado todos os seus esforços. A ele deve a União Fabril Portuense a maior parte das prosperidades, e da reputação enorme que disfruta entre nós.

 

Não podemos, pois, deixar de louvar um homem que, pondo toda a sua boa vontade e todo o seu esforço no avanço da fábrica de que é distinto diretor, contribui, por sua vez, para aumentar o prestígio industrial da nossa querida e invicta cidade do Porto». 

*

 

Para saber um pouco mais sobre a União Fabril e o seu posterior (e anterior) desenvolvimento, convido os leitores a visitarem esta página do excelente blogue Restos de Coleção, bem como a página dedicada à história do agora denominado Super Bock Group, nesta página do seu sítio, onde aliás podemos ver uma imagem da modernização que as instalações da rua da Piedade/rua Júlio Dinis sofreram.

 

____________

1- Refiro-me é claro ao O Comércio do Porto, ao O Primeiro de Janeiro e ao ainda resistente O Jornal de Notícias.

2 - Uma secção a que o jornal dava o nome de O Porto Industrial e Comercial.

3- Este edifício, contrariamente ao da rua da Piedade, ainda existe. Trata-se da bonita construção que se ergue no cotovelo da rua da Restauração, abarcando os n.º 48 a 80. Arquivada n' O Tripeiro, Vol. 4 da 6º série encontra-se a noticia de junho de 1914 que refere: «28/29 - Inaugura-se a nova e modernamente apetrechada fábrica de Cerveja Leão, instalada num magnífico edifício para o efeito modernamente construído à Rua da Restauração pela Companhia União Fabril Portuense. (...)».

4 - Recorda o autor deste blogue que, ao consultar jornais de meados do século XIX, se deparou com queixas dos habitantes de Miragaia na zona dos armazéns, onde a fábrica de cerveja ali existente derramava os seus líquidos para a via pública.

 

NOTA: As imagens que ilustram esta publicação são do Arquivo Municipal do Porto.

Viagem a um Porto de outro tempo .7

por Nuno Cruz, em 03.08.18

Prosseguimos na companhia do jovem jornalista Manuel Pinheiro Chagas, na sua viagem pelo Porto e arredores. De Matosinhos ao Freixo, vejamos as impressões que este lisboeta recolheu, algumas delas não tanto lisonjeiras...

 

*

No Senhor de Matosinhos

« (...) Espero que se lembrarão ainda do sítio, em que nos separamos, do cocheiro preto e da romaria que íamos empreender, com o piedoso fim de visitarmos a milagrosa imagem do protetor dos navegantes.

 

Esmoreciam já os resplendores do sol, desmaiavam os vivos tons das campinas, perdiam-se os horizontes nas esfumadas brumas do crepúsculo, quando me vi obrigado a separar-me do leitor. Transportemo-nos de novo ao mesmo sítio, e à mesma hora, e aproveitemos a luz que nos resta para visitarmos a igreja.

 

Apeemo-nos à porta do adro, e deixando para a saída as capelinhas, que nos ficam de um e de outro lado, entremos na igreja, que, por um feliz acaso, se acha aberta.

 

A tíbia luz do sol, que iluminava frouxamente a nave, o leve murmúrio dos campos que se escutava ao longe, tudo predispunha o espírito para receber a impressão religiosa, que flutua na atmosfera dos templos. Infelizmente a igreja de Matosinhos é completamente incapaz de inspirar nos mais crentes esse sentimento poético, que salteia os próprios incrédulos nos majestosos recintos das velhas catedrais, ou na singela nave da igreja campesina.

 

O deplorável gosto, cujo domínio notei nas poucas igrejas do Porto que vi, campeia desassombrado neste templo, a que seria tão fácil dar um tom de mística poesia. Bastava que lhe não tocassem, e que dessem por santuário à tosca imagem do Salvador a simples capela das aldeias. Para desgraça nossa, espalhou-se a notícia de que este Cristo fazia milagres, e a interesseira devoção dos que tomam Deus por um negociante não se julgou segura enquanto não forrou de oiro as paredes e o teto do pobre templozinho. As colunas caiadas aparecem no meio desta opulência pesada, como uns tamancos na sala de um burguês enriquecido.

 

É esta a verdadeira impressão que produz a igreja!
(...)
(...) Artista e crente são igualmente repelidos.

 

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Igreja do Senhor de Matosinhos. Ao seu lado, um pouco recuado, o edifício que alberga o Museu de Arte Sacra da Irmandade. (imagem http://www.matosinhoswbf.pt/)

 

É muito conhecida a lenda da aparição da imagem, que ora campeia no altar-mor dessa igreja-barão. Arrojou-a o mar à praia; haviam-lhe apenas as ondas roubado um braço. Uma pobre mulher, que andava pelos rochedos colhendo lenha para a sua pobre cozinha, encontrou um madeira que lhe serviu, e levou-o para casa. Mas o fogo repelia constantemente o alimento que lhe ofertavam, e o pedaço de pau saltava para fora das labaredas que o respeitavam (...). Espantada de tamanho prodígio, a pobre velha foi pedir a solução do enigma a um sacerdote, que lha deu imediatamente. O bem aventurado madeiro não era senão o braço do Senhor naufrágo.
(...)
Dos repetidos milagres, que este senhor tem efetuado, dão clara prova os quadros da sacristia, que conseguimos ver, depois de algumas dificuldades rapidamente superadas. COnvencem-se os mais incrédulos à vista das telas, em que ignorados Rafaeis exposeram, com um notável vigor de colorido, as cenas patéticas do alto mar. Estão os navios colocados em posições por tal forma arrojadas, que seriam necessários dois milagres, o primeiro para arranjar um naufrágio assim, o segundo para livrar dele uns baixeis tão anormais. Saem os mastros das quilhas, os barcos vão de encontro a uns rochedos azuis banhados por ondas amarelas, e a imagem do Senhor de Matosinhos aparece providencialmente, ocupando só por si metade do quadro e deixando a outra metade ao oceano, ao navio, aos cachopos, à equipagem, e ao dístico. Notemos de passagem que são os dísticos unicamente que ficam maltratados pela procela. Aí é que não houve remédio senão alijar gramática, e ortografia! Mas se tudo isto nos desperta um sorriso, o sorriso fenece imediatamente nos lábios, quando pensamos no sincero e ingénuo sentimento, que inspirou aquelas toscas ações de graças, que guiou o rude e inexperto pincel do piedoso artista.

 

Saimos da Sacristia, e dirigimo-nos para a carruagem, porque a noite aproximava-se rapidamente, e no horizonte via-se apenas o purpúreo listão, que o sol deixa após si, quando desaparece no seu leito aquoso. Apesar disso, não podemos deixar de relancear a vista para uma das capelinhas do adro. Havia dentro um grupo, que representava uma das cenas da paixão. Cristo subia ao Calvário, levando aos ombros a cruz ignominiosa. Torturavam-no os soldados romanos, cuja feia catadura era de inspirar pavor. O cinzel do artista entregara-se a um tal delírio de indignação, que eu não desejo tormento maior a todos os algozes do Divino Jesus, do que ter no inferno um escultor destes a modelar-lhes eternamente imagens deste feitio. (...)

 

O nosso preto impacienta-se. Vamos para a carruagem, e voltemos ao Porto.

 

Não julgue, leitor, que o deixo descansar por muito tempo. Trata-se de visitar a casa do Freixo, por conseguinte de subir a corrente do rio.

 

Entremos pois a porta do Sol, desçamos, porque não há outro remédio, as escadas do Codeçal, e vamos ter à Ribeira.

 

Saltemos para qualquer dos barcos, que se nos oferecem. Segundo vê, pode escolher barqueiros ou barqueiras. As denodadas portuenses não se temem das iras do Douro, e com o chapéu de varina na cabeça, em pé nos botes, prometem-nos resistir com intrepidez às fúrias da corrente. Lança-nos o acaso num bote tripulado por dois homens. Resignemo-nos!

 

Não oferece ao princípio muito interesse a nossa navegação. O rio, apertado entre os empinados rochedos em que assentam de um lado o Porto, do outro lado as eminências de Vila Nova, opõe o nosso barco a força da corrente, e não nos oferece em compensação alguma perspectiva deliciosa. Parece que navegamos no fundo de uma caverna, e, servindo provavelmente de espetáculo muito interessante a quem nos estiver contemplando das Fontainhas, ou do Prado do Repouso, não gozamos coisa alguma. Porém o rio continua nas suas sinuosidades, e dentro em pouco oferece-se-nos à vista a graciosa bacia, que tem numa das suas margens a quinta da China, na outra o Areeiro, se me não falha a memória.

 

Este ponto é delicioso, e nunca vi uma paisagem mais suave, e que mais se aproximasse da ideia que formo de um desses lagos encantadores da Suíça, com que enlevam os viajantes. Uma doce luz ilumina o quadro. O rio, que, depois de se espraiar neste sítio, volta bruscamente à direita, favorece a ilusão, porque parece terminar de repente, de forma que o prolongamento da margem esquerda fica-nos fronteiro, e finge lá ao longe ligar-se com a margem oposta, encerrando por esta forma a superfície liquida, que parece dormir sossegada em tão formoso leito. No último plano do quadro divisam-se vagamente uns montes cobertos de neve, que o sol tinge de reflexos rosados. As casas brancas de Avintes trepam pelo outeiro verdejante, que se ergue à beira do rio, e dispõem-se naturalmente em gracioso anfiteatro. Mais em baixo a caso do Freixo, com as suas torres laterais, banha os pés no Douro. Por toda a parte verdura, luz a jorros, casas brancas disseminadas, ou agrupando-se em aldeias garridas, um céu sem nuvens, azul, tão azul que faria estalar de inveja o formoso firmamento italiano. Murmúrios campestres, vozes que se erguem ao longe de uma e de outra margem, e que quem vai pelo rio ouve quasi distintamente, um perfume de tranquilidade na atmosfera, tudo sereno, tudo risonho! O próprio Douro parece sorrir-se e salta de contentamento nas pedras, onde faz redemoinhos e cachões, que talvez o divirtam muito, mas que nos contrariam a nós horrivelmente. Os barqueiros, remando de pá nos barcos como os gondoleiros venezianos, um bote, levado pela corrente, que vai em sentido oposto, que se deixa ir ao som da água, e a cujo bordo vai uma mulher cantando com voz fresca e suave uma trova popular, que a pouco e pouco esmorece com a distância; tudo isto contribuía para produzir em mim esse estado de deliciosa indolência, em que os sentidos dormitam, e em que a alma se deixa ir também como que à tona da água, embalada por alguma vaga e deliciosa canção, que um rouxinol desconhecido nos está gorjeando na fantasia!

 

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I2 ... um desses lagos encantadores da Suíça ...  (pormenor de um postal)

 

Distraiu-me a atenção neste instante um espetáculo verdadeiramente pitoresco. Um bote, que ia também lutando com, o rio, metera-se imprudentemente num passo difícil, e não conseguia, por maiores esforços que intentasse, continuar o seu caminho. A tripulação era numerosíssima, e toda feminina, à exceção de um homem, que parecia ser o diretor da companha. (...) as boas das mulheres remavam com a maior energia, fazendo ao mesmo tempo uma algazarra capaz de meter medo ao próprio Douro. Mas, por maior bulha que fizessem, por mais vigor que empregassem, o barco permanecia impassível. Era um espetáculo interessante ver aquele grupo curvado sobre os remos, agitando-se e berrando, e colhendo tantos resultados como os que nadam em casa em cima de uma cadeira. A bulha é que me causava admiração. (...)

 

É necessário contudo atendermos ao que vai pelo nosso lado, porque estamos em risco de imitar involuntariamente as valentes, mas infelizes remadoras. Não houve remédio senão saltar um barqueiro para terra, e ir-nos puxando com uma corda, afim de podermos atravessar um sítio, em que fervia a água por tal forma, e corria com uma velocidade tal, que a simples ação dos remos não seria bastante para nos fazer ultrapassar esse obstáculo. Com o auxílio da corda podemos progredir, não sem o bote ter andado a passear por cima dos rochedos, passeio que me demonstrou a utilidade da ausência da quilha nestes barcos destinados à navegação no Douro.

 

Abordamos finalmente ao Freixo, depois de termos afrontado de rosto sereno muitos perigos, que não enumero por miúdo, para não fazer descorar o leitor, e desmaiar a leitora. Dir-lhes-ei apenas que estivemos horas e horas naquele delicioso sítio, encostados à muralha do jardim desta casa, propriedade outrora do visconde de Azurara, atualmente do Sr. Comendador Velado[1]. O Douro passava sussurrando ao sopé dos muros, e desfilava com toda a galhardia por baixo das primorosas janelas dessa agradável residência.

 

Tão enlevados estávamos a namorar o torvo rio, que se mostrava neste sítio gracioso e meigo, (...) que nem nos lembrávamos que o fim principal da nossa ida ali fora visitar a casa, de que nos haviam dito no Porto maravilhas. Resolvemo-nos finalmente a fazer a visita, pretexto oficial da nossa viagem.

 

Depois de algumas dificuldades, provenientes de estar então em Lisboa o dono da casa, conseguimos, graças à oficiosa e delicada intervenção de dois visitantes autorizados, a realização do nosso desejo.

 

É realmente uma sumptuosa residência, cheia de riqueza, mas principalmente de um apuradíssimo bom gosto. Ali não se descurou a mais pequenina minuciosidade; em tudo se revela a acertada iniciativa de pessoa instintivamente artista.

 

Entre muitas coisas, que ali há a admirar, temos principalmente os trabalhos de estucador. Neste género há verdadeiras maravilhas, e é de espantar a habilidade destes rudes trabalhadores portugueses, que fazem com a mão grosseira brotar prodígios ou da cantaria da Pena, ou do estuque do Freixo. São deveras os descendentes dos artífices de Belém e da Batalha. Como eles lavram, cinzelam, torneiam, a pedra, tão maleável, como a cera, nos seus hábeis dedos!

 

O que há no Freixo, como não pode deixar de haver em todas as casas portuguesas, é a ausência completa de quadros e de estátuas. É infelicíssima a pintura mural de uma das salas, e mais infeliz, segundo me consta, ainda fora a primitiva. Os olhos desviam-se dela naturalmente, e procuram de novo deliciar-se com os primorosos ornatos, em que falei, e que o dono da casa preferiu muito acertadamente.

 

A casa ainda não está completa, e tem a lutar com a grande dificuldade de se sujeitar mais ou menos ao risco da que existia. É isso provavelmente o que dá à fachada o aspeto desgracioso que tem. Uma escadaria, que se não espraia majestosamente, mas que se empina aferrada a palácio, oculta metade da frontaria, e produz um efeito desagradável.

 

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O Freixo numa litografia(?) do século XIX (Arquivo Municipal do Porto)

 

Saímos desta deliciosa casa, que está destinada, pela posição que ocupa e pelo bom gosto do seu proprietário, a ser uma das mais belas residências de Portugal, e dirigimo-nos ao ponto de embarque. De passagem notamos uma casa trivial e suja, que destoava horrorosamente das magnificências que tínhamos visto. Era a saboaria do Freixo!

 

Estes contrastes encontram-se no Porto mais do que fora para desejar. É um dos senões da formosa cidade, e é o que lhe lançam mais ao rosto.

 

O andar do tempo deve convencer os portuenses da necessidade de colocarem cada coisa no lugar que lhe compete. Gloriem-se, porque justamente se gloriam, da blusa do operário, mas, por amor de Deus, não a vistam quando forem a um baile.»

 

 

[1] Recebeu há pouco o título de Barão do Freixo (...)

*

 

 

Na próxima publicação, fInalizará!

O arranjo urbanístico no bairro da Sé e o 'Acto Medieval'

por Nuno Cruz, em 27.07.18

Compulsando os relatórios camarários produzidos nos anos 40 do século passado, é possível verificar uma contínua preocupação com a salubridade da cidade. Fosse na demolição de Ilhas, substituídas por outras funcionalidades no mesmo espaço[1], fosse na construção de novos bairros ou edifícios sociais[2]. Este último exemplo, aliás único na época[3], talvez tenha albergado parcial ou totalmente os habitantes da área da Sé que foram expatriados em 1939, quando se deram as conhecidas demolições que para sempre estropiaram a mais antiga das mais antigas zonas da cidade; criando no seu lugar a plataforma artificial agora denominada Terreiro da Sé[4].

 

O plano que abaixo se apresenta surge no relatório camarário de 1940. Nele podemos comprovar as demolições que realmente se efetuaram, mas também verificar as demolições a fazer numa 2ª fase que, felizmente, não foram levadas avante[5]. Pois é caros leitores, a tragédia poderia ter sido bem maior uma vez que as demolições que não ocorreram estendiam-se até ao edificado da rua de Santana junto do local onde podemos observar restos da muralha românica! Outro ponto negativo: o x amarelo indica o Solar dos Correias que no plano se encontra marcado como edifício de interesse, o que não impediu que fosse demolido e que se tivesse perdido o rasto das suas pedras previamente numeradas para uma possível reconstrução cerca de uma década depois!!!

 

 

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 i1 A vermelho as principais modificações ocorridas em 1939-40; a verde aquelas adiadas para a nunca realizada segunda fase. Notar que este era o estado de coisas em inícios de 1941; posteriormente muito mais foi suprimido nomeadamente na calçada da Vandoma e no morro da cividade...

 

 

Para sempre desaparecidas estão a rua da Sr.ª de Agosto, a rua do Paço e o largo do Paço Episcopal; a própria rua de S. Sebastião viu a sua face E ser obliterada do traçado citadino. Restam-nos diversos registos fotográficos, que nos dão uma parca sensação do que seria passar por aquelas ruas, decadentes é certo mas ainda assim arruamentos que seriam dos mais antigos da cidade velha, dentro do perímetro do castelo[6].

 

O intuito dos arquitetos era o de desafogar a Sé Catedral das excrescências à sua volta, fossem estruturas a ela afetas, fossem casas de habitação; e nem uma capela, a dos Alfaites a isso escapou![7] Com esse desafogamento, pretendia-se que o monumento fosse apreciado em toda a sua plenitude. Mas se é verdade que a operação resultou num melhor vislumbre daquela imensa nave, em minha opinião, haveria uma outra imponência quando se avistava uma torre da Sé do fundo da rua Senhora de Agosto (ver i2), como se o estreitar da visão provoque uma maior magnitude e capacidade impactante da mole granítica[8].

 

 

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I2 O antigo largo do Paço Episcopal e a rua da Sr.ª de Agosto. Ao fundo a imensa mole pétrea da Catedral permite ao transeunte antever o grandioso edifício que encontrará ao chegar junto a ela. Na casa do gaveto com o largo do Paço Episcopal é curioso notar no pilar chanfrado que a mesma apresenta, aparentando ser mais antigo do que a casa em si, o que parece apontar para um aproveitamento da versão mais antiga daquela construção(?)

 

 

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i3 Várias são as imagens disponíveis no AMP que poderia usar para ilustrar estas demolições, mas optei contudo por apresentar apenas duas. Esta mostra-nos o largo do Paço Episcopal, em primeiro plano e as rua da Sr.ª de Agosto (3) e Paço Episcopal (2). O n.º 1 assinala a pequena plataforma onde existiram os famosos açougues que por muito tempo deram o nome a este largo; a demolição deste edifício contudo é bem anterior a 1939 e por isso completamente independente desta intervenção.

 

 

Destas demolições apressadas (o plano original data de junho de 1939) não está isento de culpa o duplo centenário que passou à história como Acto Medieval, que se celebrou na cidade em 7 de junho de 1940 e que se desejava tivesse lugar naquele local.[9]

 

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i4 Início da cerimónia do Acto Medieval, logo após anfitriões e convidados haverem deixado as suas viaturas no início da calçada da Vandoma; aqui vão já subindo a mesma calçada, com o Prof. Dr. Mendes Correia, Presidente da Comissão Municipal, a liderar (3ª pessoa da pé a contar da direita). Reparar, à esquerda, nas casas da remodelada calçada da Vandoma (com holofotes a apontar para a Sé Catedral) bem como mais longe ainda à esquerda vemos as traseiras de algumas casas do largo da Cividade: tudo também demolido poucos anos depois.

 

 

No final deste evento o acrescento ao coro alto da igreja da Sé, propositadamente construído para a solenidade, foi possível de ser removido. Cá fora contudo, as casas e ruas que haviam desaparecido não mais puderam reaparecer. E assim, uma boa parte daquele cantinho histórico portuense povoado de memórias que abarcavam um período de pelo menos 900 anos apagou-se para sempre!

 

 

Como nota final, convido os meus leitores a lerem o excelente trabalho de Maria Leonor Botelho intitulado A Sé do Porto no século XX. Embora seja um estudo sobre as intervenções por que passou o nosso mais importante monumento durante aquele século (algumas delas verdadeiras sevícias...); não podia deixar de referir, é claro, as transformações à sua envolvente, que deixaram aquela área com a sua forma atual.

 

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1 - Veja-se o exemplo da “Ilha do Zeferino” na rua Senhora das Dores que deu lugar a um parque infantil em 1942;

2 - Como o caso do bloco de apartamentos da rua Duque de Saldanha, concluído em 1941;

3 - O próprio relatório camarário aponta já outras diretrizes para alojar as classes mais pobres.

4 - Bonito miradouro citadino mas que resultou de um crime patrimonial, fruto da forma de ver a cidade e os seus monumentos da época, à qual não eram alheias as formas de atuação, no mesmo âmbito, do regime fascista de Mussolini;

5 - Quem sabe, uma consequência da falta de fundos provocada pelo eclodir da 2ª guerra mundial;

6 - Nome pelo qual a certa altura começou a ser conhecido o burgo amuralhado da Penaventosa;

7 - Capela seiscentista que foi depois reconstruída à entrada da rua do Sol.

8 - Não posso dissociar este pensamento da chegada junto do Al Khazneh, na distante Petra, onde o mesmo efeito se produz. Quanto à memória descritiva da intervenção na Sé, ele diz pretender melhorar as condições de trânsito do local, «libertando-o de certos prédios inestéticos, o que permitiria desafrontar as fachadas da Sé e dos Paços do Concelho, criando novas perspectivas e pontos de vista» (os Paços do Concelho estavam à época temporariamente alojados no Paço Episcopal).

9 - Centenário da Formação e Independência de Portugal, aliás comemorado em várias localidades do país.