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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

1474: O ano em que o Porto quis assar um fidalgo !

04.03.20

É um lugar comum dizer que o Porto nunca permitiu a permanência de nobres dentro de portas. Mas, como todos os lugares comuns da história, esta afirmação é verdadeira só até certo ponto. Dá-se o caso de ser o assunto mais complexo do que o que pode descrever um simples blogue dedicado a recuperar memórias portuenses. Mas não nos enganamos fatalmente se afirmarmos que este privilégio se manteve por um período não muito superior a cem anos, com especial incidência no século XV[1]. Em 1390 é explicitamente referido numa carta da chancelaria de D. João I que: «...ho huso e costume da dita Cidade do Porto foi e he tal que nom morem em ella nenhum fidalgo, de nenhuma condiçõm que seja, nem haja morada nenhuma, nem faça hi estada porlongada e que com o dito huso e costume se pobrou a dita Cidade».[2] D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II darão continuidade, com mais ou menos atrito, a este privilégio; mas com D. Manuel o caso começa a mudar de figura...

 

É no século XV que ocorre o mais famoso exemplo da aguerrida forma com que os homens-bons da cidade pugnavam por manter o seu privilégio quanto à não permanência de fidalgos por mais de três dias na cidade. Corria o ano de 1474, o fidalgo Rui Pereira instala-se na rua mais nobre do Porto, a prestigiada rua Nova, em casas da viúva Leonor Vaz[3]. Findos os três dias que lhe era permitido ali permanecer, o mesmo recusa-se a abandona-la. Os dias passam, a tensão cresce, e o portuense comum, juntando-se aos seus representantes do paço da rolaçom, incendiam a habitação. Rui Pereira e seus criados fogem, não sem alguns deles ficarem gravemente feridos. O livro do Cofre da Câmara para o ano de 1474 tem o registo de pagamento a quatro escravos por «acarretarem auga para apagaar o fogo», bem como, logo a seguir, o pagamento a dois negros «que andaram hum dya cavando na dita casa para tyrarem algumas cousas que jaziam soterradas que ele [Rui Pereira?] tem».

 

O caso ficou para a história da cidade e é recorrentemente contado pelos divulgadores dos pergaminhos deste velho burgo. O que poucos talvez saibam é que, o local onde essa casa existiu ainda não foi tragado por uma qualquer expropriação compulsiva para formar uma praça, jardim ou parque de estacionamento.[4] É verdade que as casas da rua Nova, perdão, da rua do Infante D. Henrique, já nada tem que ver com as suas originais do século XV. Se à época as suas habitações eram as mais modernas e melhor equipadas da cidade, certo é que os tempos evoluíram, e no século XVIII e XIX, as comodidades e conforto exigidos eram já outros, pelo que hoje a rua é ocupada por, maioritariamente, bonitos edifícios sete e oitocentistas. O espaço contudo, manteve-se, e na i1 ele surge assinalado, para memória a ser usada pelos guias turísticos da cidade quando quiserem referir aos seus clientes que "foi precisamente aqui que..."

 

00042513.png

i1 casa que ocupa o mesmo local onde existiu a que foi queimada (A). Notar que, até à construção da nova igreja de S. Nicolau (B), iniciada em 1671, existiam mais casas à direita dela. Atrás ficava a pequena igreja medieval de S. Nicolau (orientada nascente poente) e o sítio de Vale de Pegas, onde já existiam edificações no século XII. Esta foto tem a particularidade de nos mostrar, em segundo plano, uma casa entretanto demolida, que denota construção bastante antiga (C), mesmo que não tão antiga que a permitisse testemunhar a queima da sua vizinha da frente.  - foto SIPA , nº 00042513

 

Diga-se que Rui Pereira levou o caso aos tribunais, tendo a cidade saído vitoriosa, com uma sentença emitida a 9 de março de 1475. Em setembro do mesmo ano, D. Afonso V mandou lavrar estas firmes e resolutas palavras na confirmação do privilégio citadino: «tenho por bem e declaro nos ditos privilégios que nenhuus duques, marquezes, condes, fidalgos, cavalleiros, abades bentos, priores, comendadores e pessoas poderosas de qualquer estado e condiçom que sejam, que na dita cidade nom possam estar, quando a ella vierem, mais dos ditos tres dias, nem tenham em ella aposentadoria nem casa de morada, e querendo ho a elles em ella estar, mando a vos, juizes, e officiais da dita cidade que lho nom consentam»; e acrescenta: «e quando se nom quiserem sair, mando que a cidade os posa fora lançar; e por esta quero que todo o mal, perda e mortes que dello recrecer aas ditas pesoas que assi sair nam quizerem, ou aa dita cidade, que elles sejam por ello teudos a Deos e a nosa justiça e a dita cidade nam».

Santo rei que palavras tão firmes lavrou. Paz à sua memória!


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1 - Se bem que, ainda no século anterior é conhecida uma determinação municipal neste sentido em 1350, e várias régias em 1355, 1368 e 1374.

2 - Que foi estendido às dignidades eclesiásticas em 1412.

3 - Isto é, Leonor Vaz era a detentora do foro.

4 - Em 30 de maio de 1478, no aforamento da mesma casa a Fernão de Neiva, criado do rei, é referido que as casas: «...foram queymadas no arroydo que ha cidade ouvera com Ruy Pereyra».

 

§§
Bilbiografia:

-  2º vol. da História da cidade do Porto (Portucalense Editora)
 - A Construção de um novo centro cívico: notas para a história da rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV,  pelo Prof. Dr. Ferrão Afonso, publicado na revista Museu  n.º 9 (2000).

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