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Fund. 30 - IX - 2009


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Um dos mais importantes passos dados na aliança anglo-lusa pouco depois da celebração da mesma, deu-se com o casamento de D. João I, fundador da 2ª dinastia portuguesa, com a inglesa Phillipa of Lancaster, filha do primeiro duque de Lencastre, John of Gaunt.

Creio ser geralmente sabido que essa união teve lugar na Sé Catedral do Porto. Fernão Lopes transmite-nos em suas páginas, vívidas memórias de como tudo se terá passado. E é precisamente esse episódio que pretendo recordar nesta publicação - hoje que se completam 631 anos da efeméride - com a transcrição parcial do capítulo da crónica referente ao casamento real.

 

Notar que no dia 2 D. João I veio ao Porto para casar, como casou. Contudo a cerimónia e boda só ocorreram quase dez dias depois, motivado pelo seu périplo pelo país a mobilizar tropas para a causa do (agora) sogro. Phillipa contudo esteve mais tempo na cidade: chegara em novembro do ano anterior e desde essa altura até ao seu casamento ficou alojada no paço episcopal (não o atual mas o medieval que ficava no mesmo espaço). Durante este tempo conheceu finalmente o seu futuro esposo:

 

Os noivos conhecem-se

« (...) foi em tanto trazida mui honradamente de mandado de seu padre a Infanta Dona Felipa à cidade do Porto (...) u[1] foi recebida com gram festa; e prazer, vindo muito acompanhada de ingreses, e portugueses (...), e pousou nos paços do bispo, que som muito perto da Sé deste logar.

El-rei partio de Évora, e o Condestabre com ele: e quando chegou ao Porto achou hí a Infante Dona Felipa, sua molher que havia de ser, e pousou em S. Francisco, e em outro dia foi ver a Infante, que ainda não vira, e falou com ela, presente aquele bispo, per um bom espaço, e espedio-se, e foi jantar[2], e depois que el-rei comeo, mandou à Infante suas jóias, e ela a ele, (...) : e el-rei esteve ali poucos dias, e foi-se caminho de Guimarães »

 

Só agora, na verdade, se vai dar o acontecimento do dia 2, o casamento, feito à pressa por causa da Quaresma que iria ter início e que inviabilizaria a cerimónia, por isso:

 

O casamento

« (...) escreveu logo el-rei ao bispo do Porto, que em outro dia tivesse todo prestes pera lhe fazer as benções: o bispo feze-o assi. El-rei cavalgou [desde Guimarães] este dia à tarde, e andou toda a noite, em guisa que, andadas aquelas oito légoas, amanheceo na cidade. O bispo D. João já estava prestes revestido em pontifical, e seus beneficiádos como compria. A infante foi trazida mui honradamente dos paços, u pousava, à Sé: e ali em nome do senhor Deos a recebeu el-rei (...): e esto foi a dous dias de fevereiro em festa da purificação da Benta Virgem: e havendo entom el-rei vintenove anos, e a infante sua esposa vinteoito, e esto acabado, ordenou logo el-rei de fazer sua voda, e tomar casa da quinta-feira seguinte a oito dias (...) »

 

E agora chega a descrição das festas do dia 11, que Fernão Lopes pinta com todo o seu colorido verdadeiramente medieval:

 

Os dias festivos

« (...) encomendou el-rei a certos oficiais de sua casa, e aos oficiais da cidade o encarrego, que cada um desto tivesse, e com gram diligência, e sentido, tinhom todos cuidado do que el-rei lhes encomendara, uns para fazerem praças; e desempacharem as ruas, por u haviam dandar as gentes, outros de fazer jogos, e trebelhos, e matinadas de noite, e fizerom mui à pressa uma ũa grande praça ante S. Domingos, e a rua do Souto, que era entom tudo hortas, u justavom, e torneavam grandes fidalgos, e cavaleiros, que o bem sabiom fazer, e outra gente nom[3]. Assi que toda a cidade era ocupada em desvairados[4] cuidados desta festa. E todo prestes para aquele dia, partio-se el-rei à quarta-feira, donde pousava, e foi-se aos paços do bispo, u pousava a Infante, e a quinta-feira forom as gentes da cidade juntas em desvairados bandos de jogos, e danças per todalas praças, com muitos trebelhos[5], que faziom.

 

marc.jpg

 Quadro francês representando o casamento real na Sé do Porto, pintado já no século XV. Embora oficializado no dia 2 de fevereiro, a cerimónia realizou-se apenas no dia 11 (ver mais abaixo).

 

As principais ruas, por u estas festas haviom de ser, todas erom semeadas de desvairadas verduras e cheiros. El-rei saiu daqueles paços em cima de um cavalo branco, em panos douro, realmente vestido, e a rainha em outro tal mui nobremente guarnida: levavom na cabeça coroas douro mui ricamente obradas, de pedras, e a jofar de grande preço. Os moços dos cavalos levavom as mais honradas peças, que hí erom de grande preço, não indo arredos um do outro, mas ambos a igual, e todos mui bem corregidos, e o arcebispo levava a rainha de rédea diante íam pipias e trombetas, e outros instrumentos, tantos que se nom podiom ouvir, donas filhas dalgo, e isso mesmo da cidade, cantavom indo detrás, como é costume de vodas. A gente era tanta, que se nom podiom reger, nem ordenar: por o espaço, que era pequeno, dos paços à igreja: e assi chegarom às portas da Sé, que era dali muito perto, u D. Rodrigo[6] bispo da cidade já estava festivalmente em Pontifical revestido esperando com a cleresia, o qual os tomou pelas mãos e demoveo a dizer aquelas palavras: que a Santa Igreja manda, que se digom em tal sacramento.

 

Entom disse missa, e pregaçam, e acabado seu ofício tornarom el-rei, e a rainha aos paços, donde partirom com semelhante festa, u haviom de comer.

 

As mesas estavom ja mui guarnidas de todo o que lhe compria: nom somente onde os noivos haviom destar, mas aquela, u era ordenado de comerem bispos, e outras honradas pessoas de fidalgos, e burgueses do lugar, e donas e donzelas do paço, e da cidade. O mestre-sala das vodas era Nuno Alvarez Pereira condestabre de Portugal, servidor de toalha, e copa: e doutros ofícios erom grandes fidalgos, e cavaleiros, u houve assaz de iguarias de desvairadas maneiras de manjares. Enquanto o espaço do comer durou, faziom jogos à vista de todos homens, que o bem sabiom fazer; assi como trepar em cordas, e tornos de mesas, e salto real, e outras cousas de sabor: as quaes acabadas alçarom-se todos, e começarom a dançar: e as donas em seu bando cantando arredor com grande prazer.

 

El-rei se foi em tanto pera sua câmara, e depois de cea, ao serão o arcebispo, e outros prelados com muitas tochas acesas lhe benzerom a cama daquelas benções, que a igreja pera tal auto ordenou, e ficando el-rei com sua mulher, foram-se os outros pera suas pousadas. (...) »

 

Agora que muitas localidades vão tendo e promovendo a sua feira medieval, não vejo memória mais feita à medida para também o Porto ter a sua do que a recreação deste casamento e de tudo o que lhe foi subjacente. É uma história que tem tudo: uma princesa instalada num paço, um rei que viria saíndo de um convento subindo a Sé ao encontro dela, todos os cónegos, bispo, homens bons e povo aguardando pelos noivos... e claro depois da solenidade, a festança regada com jogos, comida e vinho!

Não se pense que as feiras medievais são para alegrar localidades de média e pequena dimensão. Creio que não. Tendo em conta o tema, um evento destes tem tudo para dar certo, sobretudo numa cidade como o Porto onde o peso da história se sente no ar. E aquele Terreiro da Sé parece ter sido feito à medida para todo o aparato. Fica dada a ideia...

 

NOTAS:

1 - O u é português antigo para onde.

2 - Naquela época o jantar tinha lugar por volta da atual hora do almoço.

3 - O convento dominicano estava ainda praticamente rodeado de hortas. O local a que Fernão Lopes alude corresponde ao atual largo de S. Domingos e o troço sul da rua das Flores; onde apenas uma azinhaga existia que levava à rua do Souto. Lá em cima, onde agora temos as traseiras da igreja da Vitória, ficavam as barreiras onde os besteiros praticavam a arte da besta para estarem prontos se o rei os chamasse para a guerra.

4 - Desvairado corresponde ao atual diverso.

5 - Difícil é, atualmente, encontrar uma palavra que traduza na perfeição trebelho. Ela relaciona-se com as danças e folguedos como o próprio contexto parece indicar. É também usada para designar as peças do xadrez, o que claramente não é o que pretende Fernão Lopes. Talvez se refira aos objetos utilizados nos jogos e danças que o cronista refere(?).

6 - Aqui deve ter havido lapso de Fernão Lopes, o bispo era D. João (III), tal como ele próprio refere anteriormente.

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Bibliografia:

Chronica DelRey D. Joam I de Boa Memoria e dos Reys  de Portugal o Decimo, de Fernão Lopes (edição de 1644) disponível na Biblioteca Nacional Digital

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1 comentário

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De Anónimo a 03.02.2018 às 14:35

O rei D. João I e a rainha D. Filipa de Lencastre também passaram pela porta da Muralha Fernandina onde existem vestígio no Café Portas do Olival no Porto.

Alexandre Neves
Gondomar

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