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Hoje, sem grandes palavras próprias, deixo-vos com uma descrição do convento dos Congregados, que Sousa Reis conheceu quer na sua versão original, quer posteriormente na adaptação a prédios de rendimento; antes de todo ele desaparecer, deixando a igreja descontextualizada. De referir, no entanto, que o convento que ali existiu durante cerca de 150 anos, veio subrepticiamente subtrair uma capela ereta a Santo António à irmandade que dela cuidava.[1]

BPMP_MS-1479_091_t24-C-R0072.jpg

 

aspeto do edificado do convento em 1833, pela mão de Vitória Villanova, quando este desempenhava função de depósito militar e onde é visível um sentinela à porta de armas, na antiga portaria do convento

 

Eis o texto:

«Tinha este convento a sua principal fachada voltada para a porta de Carros, ficando-lhe o fronstispício do seu templo no centro, a qual toda descansava em um largo patio ladrilhado e de figura quadrilonga, com uma escadaria de mais de dez degraus, que ocupava quase todo o lado fronteiro; à esquerda da porta da igreja e na parte do convento, que ficava até à esquina da Praça Nova[2] estava praticada a portaria, sobre ela se via, em formas colossais, metido em um grande nicho a imagem do padroeiro, e logo acima estavam rasgadas duas janelas de sacada com suas varandas de ferro, servindo de remate a torre dos sinos: do outro lado da igreja havia um idêntico edifício, em tudo igual menos na torre que não tinha, e esteve sempre habitado por inquilinos que pagavam o aluguer ao convento, cuja parte habitada pelos frades era esta que ainda se estende pela parte do nascente da Praça de D. Pedro, sendo apenas alterada pelos herdeiros de Manuel José de Sousa Guimarães, que comprou ao estado, em lhe rasgarem mais janelas de varanda no primeiro andar do que as que tinha antes, fazendo-lhe ao mesmo tempo, no pavimento térreo portais regulares, sendo antigamente baixos e que davam entrada às lojas soterradas, que os padres costumavam arrendar por bem acrescida quantia.[3]

 

Tinha este convento uma escolhida livraria, e no seu interior, além da capela-mor, um pátio ou claustro, que no seu centro continha um chafariz com a estátua de S. Filipe deitando água. A sacristia era situada para o lado da praça de D. Pedro, recebia muita luz, possuía bem constituídos caixões cheios de ricos paramentos, e suas paredes eram adornadas com os retratos dos propósitos da congregação; esta, com a torre foi demolida pelo comprador, e regularizado o risco, para comodidade dos moradores, destas casas, que edificou, mas não conseguiu a demolição sem ter uma forte questão judicial com a irmandade, que pretendia ambas estas peças do edifício por serem pertenças da Igreja que lhe tinha sido dada pela Soberana a Senhora D. Maria II.[4]


edificio_congregados.JPG

nesta imagem podemos verificar a modificação que o edifício do convento voltado à praça sofreu, para ser adaptado a casas de habitação (c. 1845) . tudo seria progressivamente substituído pelas construções atuais, de aparato monumental


(...)

A igreja é linda, e nada dela direi, porque só vendo-a se avalia a boa arquitetura, decerto muito melhorada com a nova e moderna capela-mor que os Congregados lhe construíram pelos anos de 1825 ou 1826, hoje é sustentado o culto divino dela pelos cuidados da confraria de Santo António, e pelas esmolas dos cidadãos do Porto.

 

Havia antigamente na frente deste templo um largo pátio com sua escadaria, que muito obstruía e estreitava a localidade, tinha lojas de abóbada por baixo cujos réditos não eram dos padres, mas sendo extintos a câmara pediu ao governo lhe cedesse tudo, e sendo concedida pela portaria de 29 de outubro de 1836 preferiu o embelezamento aos interesses demolindo, esse pátio e extensa escadaria.

(...)


Foi lançada a primeira pedra do novo edifício a 8 de dezembro de 1683 (...), e tanta pressa se deu à obra que dentro de um ano se construiu o dormitório, que corria do lado do sul para o norte junto da capela-mor, o qual abrangia a portaria e oratório dos exorcismos, sagrada pelo bispo D. João de Sousa que nele disse a primeira missa, por cima, no primeiro [piso] deste corpo do edifício, estava montada a secretaria e sala para receber visitas, no segundo eram os cubículos dos padres e para o noviciado reservou-se a água furtada, incómoda moradia que se melhorou depois, renovando-se para outra parte, quando se concluiu este mesmo lanço do dormitório, apenas findou o grande pleito com o Cabido da Sé, que não queria consentir no rasgamento de janelas voltadas para a Praça Nova (...). O Cabido era o direto senhor das hortas ou terreno ocupado ao presente pela referida praça.


Screenshot_2.png


neste pormenor de uma conhecida imagem pretende-se mostrar o que foi edifício nascente do convento, bastante transformado e ampliado (1) .  ao lado, o início da estrada de Guimarães fora da cidade medieval, conhecida como rua do Bonjardim (2), desaparecida c.1916, para se poder alargar a passagem . foi também demolidas a bela escadaria existente em frente da igreja (o n.º 3 indica, sensivelmente, o mesmo local onde na primeira imagem vemos o sentinela à porta de armas)


(...)

Seguiu-se a esta obra a do lanço do dormitório do nascente a poente, a qual veio a demorar até à conclusão da nova capela, sendo por alvará de 22 de julho de 1683 confirmada a mais ampla e cómoda reconstrução tomada sob a real proteção por outro alvará de 12 de julho de 1685 (...).


(...)

Até ao ano de 1694 serviram-se os padres para os ofícios divinos da capela velha, mas em 12 de julho mandaram abrir o[s] alicerces da atual posto reservarem (...) a capela-mor que estava feita antes; lançou-se-lhe a pedra fundamental aos 5 de agosto (...).


(...)

Nove anos se consumiram na construção do templo até ao de 1703 sendo a sua abertura aos 14 de junho fazendo nele pontifical o bispo D. Frei José de Saldanha.


Esta igreja mede no centro da abóbada até ao pavimento 94 palmos, de largura 59 palmos e de fundo 178 palmos, pertencendo à capela-mor, antes de ser ampliada na reedificação de 1823, 53 palmos, no cruzeiro mediam-se 31 palmos de largura sendo o rsto 94 palmos, a extensão do corpo da mesma igreja; a porta da direita situada no cruzeiro, dava entrada para o oratório velho, na atualidade destinado para sacristia, a da esquerda para a sacristia de então que se desfez quando se edificaram casas particulares: ficava disposta ao lado do poente ou do evangelho deste templo.


(...)

(...) O claustro interno deste convento, ficava muito próximo ou por detrás da capela-mor, e tinha por lado de extensão 94 palmos: era circulado de bons arcos de cantaria sobre os quais se sustentavam dois andares de dormitórios, estando aí ultimamente estabelecidas as aulas, das quais se descia para o dito claustro por uma escadaria de pedra.


Screenshot_1.jpg


a área do no século XVIII: 1 - igreja; 2 - edifícios do convento; 3 - rua do Bonjardim; 4 - porta Nova de Carros (saída/entrada da cidade muralhada, construída após a decisão de se erguer o convento de S. Bento de Avé-Maria, ela veio substituir a porta original, localizada na direção da seta) - ver aqui a planta na totalidade


No pátio interno e cerca, ainda que pequena, haviam estátuas e ornamentos de granito que sobremodo embelezavam este recreio dos padres, tendo abundância de água, e ainda forneciam a fonte de Moisés, a do lavatório e a da cozinha.»


Com estas palavras, escritas cerca de 150 anos atrás, pretendo que os leitores possam olhar de uma forma diferente para o quarteirão da igreja dos Congregados, tentando imaginar o convento que ali existiu. E se a elas apusermos o soberbo desenho de Joaquim C. V. Vilanova, ficaremos certamente com um panorama abrangente sobre o edifício, nos seus últimos anos de existência.

_________________

1 - Aqui fizeram os padres de S. Filipe Nery o que não conseguiram fazer no colégio dos meninos órfãos, onde haviam pousado anteriormente, por constatarem que não lhes seria possível apoderar do edificado.

2 - Hoje praça da Liberdade.

3 - A planta para o alçado virado à - hoje - praça da Liberdade, pode o leitor curioso vê-la aqui.

4 - No início da década de 1850, escrevia assim a irmandade à câmara: «(...) Com a extinção das ordens religiosas, foi considerado como Bens Nacionais a igreja e convento dos padres da Congregação do Oratório; mas a Irmandade de Santo António, já então com auxílio da exma. câmara, pode conseguir a restituição da sua igreja; porque clara e efetivamente provou ser sua. Separada a igreja do que ficou sendo propriedade do estado, em cujos edifícios estava encravada, ficou limitada a si própria, sem sacristia, sem comunicação para o coro, sem porta travessa, e sem casa para arrecadação! E neste estado não pode permanecer. O remédio porém, só pode vir de uma graça de sua majestade, e esta graça é a que a Mesa da irmandade implora no requerimento que tem a honra de por nas mãos de V. Exa. (...)»

 

Publicação revista e aumentada em 06/07/2021

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