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Recupero hoje uma publicação que se encontrava na casa antiga d' A Porta Nobre. Curiosamente ela não foge muito no tempo ao que lemos mais atrás na companhia de Manuel Pinheiro Chagas; mas este escrito é de caráter bem diferente...

A rivalidade entre Porto e Lisboa não é do nosso tempo, e muito menos se limita ao futebol. Não discorrendo sobre a sua origem, causas e desenvolvimento, deixo aqui um pequeno texto que saiu em 14 de Setembro de 1855, no jornal O Comércio (primeiro nome d' O Comércio do Porto) que brinca com o lisboeta que vêm de visita ao Porto. Notar que nos situamos em meados do século XIX...

 

«As festas da aclamação [de D. Pedro V] em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.

É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciam-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.

Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretensioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.

Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale (sic) nesta retrógrada terra.

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Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.

A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense traz-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital. O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilização da capital, porque, seja dito entre parêntesis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.

O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo. Vanitas, vanitatum, alfacia, alfaciarum

Este texto, diga-se, surgiu no jornal uns dias depois de um outro mais curto, escrito com certeza por um capitalista, sobre o provinciano que visita Lisboa. Mas quanto a esse deixo que algum 'lisbonense' que visite a Biblioteca Nacional o procure e traga a lume no seu blog sobre Lisboa...

Como nota final devo referir que não sou anti Lisboa nem coisa que se pareça. Amo a minha cidade sem ser fundamentalista. O Porto é uma cidade soturna, granítica, cinzenta, por vezes encoberta por um nevoeiro que lhe confere um sublime carácter londrino. E por isso acredito que não seja, mesmo para o lisboeta com coração aberto, fácil de gostar. Já Lisboa tem uma natureza luminosa: gosto particularmente da imensa luz que inunda a baixa pombalina e dos edifícios que a compõem. Após o terramoto, a cidade pode em boa parte renovar-se e assumir um plano mais regular de ruas e praças, de uma regularidade que sinceramente me agrada e da qual o Porto ficou aquém, ao menos a julgar pelas dezenas de plantas almadinas que subsistem.

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