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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O edifício do cunhal do largo dos Loios com a rua de Trás

09
Jan16

Hoje no largo dos Loios praticamente todas as habitações ali existentes encontram-se recuperadas apresentando um aspeto exterior novo e fresco que desejo que se mantenha; um deles é o bonito edifício de habitação oitocentista existente à entrada da rua de Trás. Nos arquivos da Câmara Municipal do Porto está ainda em depósito o seu "risco", elaborado por Teodoro de Sousa Maldonado, o primeiro Arquiteto da Cidade[1]. Na i1, trata-se do edifício atrás do obelisco - ali erguido aquando das comemorações henriquinas de 1894 - com os seus arcos já fechados e convertidos em loja de venda a retalho.

 

obel.png

i1

 

Mais abaixo, a i2 é a planta de Maldonado. É curioso notar que embora na planta não surja qualquer data, a sua ficha apresenta a de 9 de Outubro de 1799, talvez a data de aprovação. Assim sendo, esta terá sido porventura uma das derradeiras plantas executadas por Maldonado, pois que elaborada no ano da sua morte.

 

 

mald.png

i2

 

Na realidade o edifício não foi construído conforme o projeto, sendo bem notórias algumas diferenças ao nível do número de arcos, da ornamentação do segundo andar e do próprio telhado. Também a arcaria de elevado pé direito existente no rés-do-chão fora idealizada para que aí se pudesse fazer a venda de pescado que vinha das localidades de Vila do Conde, Matosinhos e São João da Foz; estando prevista nos planos da Junta das Obras Públicas. Se realmente esse mercado foi ali instalado não o sei (quem sabe algum meu leitor mais informado me possa elucidar?).

 

E se o edifício ficou com apenas quatro arcos na fachada que caí para o largo dos Loios, na verdade o quinto arco chegou a ser erguido. Isto se vê por uma planta que acompanha um pedido de abril de 1862 do proprietário da casa que lhe fica adjacente; que pretendendo reedificar a sua arruinada propriedade, desejava demolir esse arco englobando o espaço por ele ocupado no edifício a construir. O documento refere: «como esta antiga fachada não foi concluída no todo, parece que metendo a pilastra na letra B [i, é, aproveita-la para a sua propriedade] fica em harmonia simétrica a propriedade BC [a casa que estamos a estudar], o que era de muita utilidade ao suplicante o meter duas portas regulares» (ver i3).

 

oera.jpg

i3

 

Em resposta, os técnicos da câmara Joaquim da Costa Lima Junior, José Luís Nogueira e António Lopes Ferreira, declararam ser tolerável aquela intervenção pois «a fachada geral é igualmente regular com quatro ou cinco arcadas». Deduzo contudo que, como os arquitetos da câmara alertavam para que a manutenção da fachada ocorresse «muito preciso será para a regularidade da fatura do prospeto estabelecer uniformidade nos níveis de travejamento [os sobrados] entre a antiga e a nova edificação, por evitar nesta parte a desunião e anomalia que a nova planta oferece». Pela observação do que ali se encontra edificado, constata-se que o pedido do suplicante terá sido atendido. Com a eliminação do quinto arco ficou para sempre anulada a conclusão do edifício na forma que havia sido idealizado.

 

act.jpg

i4 o edifício em 2014, com uma ajudinha do Google Maps

 

 

1 - Nascido no Porto em 1759, formou-se em matemática na Universidade de Coimbra e exerceu o cargo de arquiteto na edilidade portuense de 1789 a 1799, ano da sua morte. O seu legado, além das plantas mais técnicas, consiste sobretudo numa bonita vista do Porto executada em 1789 bem como a da barra do Douro que nos apresenta também a (ainda) vila da Foz.