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O CARROÇÃO

pela pena de Ramalho Ortigão

05.08.16
Excerto de um texto de Ramalho Ortigão, de 1876, onde este se refere ao carroção, o primeiro transporte coletivo do Porto.

 

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«(...) Muita gente vinha do Porto, de madrugada [à Foz], tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinário inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. O carroção era um pequeno prédio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas paralelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada por uma cor alegre, lia-se o nome do proprietário e do inventor da máquina: Manoel José de Oliveira.

 

Quanta gente cabia num carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma família. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a de vagar, mas ia-a levando sempre. Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do teatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora!

 

Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matosinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes e penso para os bois! Para este fim havia bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidades, poderia arrumar-se -- outra família.

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um carroção particular

Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções, por um pinto (...). Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.

 

Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro dele e de se por a olhar para fora pelos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.

 

O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé  foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boavista. Em certo dia de função suburbana Tavares pôs na rua três carroções novos, de cores extraordinárias, maiores do que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o apenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rápido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto à Foz, uma légua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, - um dia. Manel Zé, vendo passar o Ligeiro, - e só Deus sabe o tempo que o Ligeiro levava a passar! - desmaiou de desgosto.

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ensaio de um carroção dos meados do século XIX

Além destes carroções de aluguer puxados por bois, havia os carroções particulares, puxados por vacas. Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento. (...)»

 

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Completo estas notas com uns curiosos apontamento de notícias. Por exemplo, em 1836, num jornal da época, é referido um acidente que sofreu uma distinta família da cidade que descia Cimo de Vila para vir ao teatro, no seu carroção. Acontece que, estando a passar uma banda marcial do exército em pleno toque, os bois, assustados, botaram a correr rua abaixo. Separaram-se do carro que aos trambolhões se imobilizou em frente à fonte e continuaram a sua marcha rebocando apenas as rodas frontais, até populares os imobilizarem em frente à igreja da Misericórdia!!

 

Num outro apontamento, na Vedeta da Liberdade de dezembro do ano seguinte, entre vários casos policiais relatados, conta-se a da prisão de um indivíduo que «furtou uma junta de bois à porta do Teatro, que aí tinham conduzido um carroção com a família dos Machadinhos».

 

E, para finalizar, vejam-se estes curiosos anúncios de outubro do mesmo ano, também da Vedeta, que se referem a carroções, mas também a outros meios de transporte. Com efeito, estava para venda «um carroção de muito boa figura, seguro, e em bom uso; uma traquitana quase nova, e uma caixa de sege com cortinas, vários arreios de bolea [sic], e duas cadeirinhas». Na Vedeta do mesmo mês «vende-se um carroção de bom gosto montado em boas molas». já em novembro outro que diz «quem pretender comprar uma elegante carruagem inglesa, fale com o Segeiro Francisco José Gomes...»

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