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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

As escadas da Vitória

11
Set16

As escadas da Vitória são um equipamento não enquadrável na definição de monumento ou ponto de referência emblemático da cidade. Trata-se de uma pura granítica serventia que permite com mais facilidade galgar a encosta do belo monte naquela área, permitindo uma maior rapidez de acesso entre a parte alta e a parte baixa da cidade. Não posso contudo deixar de iniciar este périplo histórico sem fazer referência ao triste estado em que se encontram atualmente votadas. Fiz uso delas precisamente na deslocação ao AMP, perseguindo o objetivo de conhecer melhor a história destas escadas; e confesso que as encontrei num lastimável estado de desleixo higiénico. Um cheiro fétido a excreções humanas ali está presente, num local usado por muitos turistas. É verdade que por ali se corta muito caminho, mas quem sai das cuidadas ruas da área mais turística, mal entra naquelas escadas, dá de cara com um aspeto nada agradável, fazendo-me lembrar as histórias que ouvi sobre Veneza onde naquelas águas lamacentas percorridas pelas esguias gôndolas se sente por vezes o cheiro a esgoto... Não é possível a câmara limpar aquela área com mais frequência? Os turistas e os portuenses agradeceriam e sobretudo a imagem da cidade também.[1]

 

As escadas da Vitória atuais não são muito antigas; aliás os seus grandes e bem cortados blocos de granito isso denunciam. Mas a prova está no projeto delas, arquivado no AMP e que data de 1878.

Ainda antes desse projeto, podemos verificar num pormenor da planta apresentada à câmara 1851 por Joaquim da Costa Lima Júnior a propósito do alinhamento da rua da Vitória, que as escadas daquela época tinham três entradas separadas por umas dezenas de metros entre si (acredito que este alinhamento nunca tenha sido levado a efeito pois as edificações que ainda hoje lá se conservam apresentam forma quase idêntica).

 

vit.jpg

alinhamentos proposto para a rua de S. Roque (rua da Vitória), em 1851 . notar o traçado das escada, muito divergente do atual e aparentando ser feito num declive mais suave

 

No que toca às escadas, surge em 1878 o projeto para melhorar substancialmente aquela passagem, projeto esse que devemos enquadrar na época a que se reporta, i. é, quando estava já em pleno funcionamento os novos acessos à zona baixa da cidade via rua Mouzinho da Silveira e rua Nova de São Domingos (depois Sousa Viterbo) embora estas ruas tenham sido rasgadas a pensar no trânsito em geral, sobretudo no cada vez maior tráfego de carros (de tração animal, bem entendido). Mas isso só demonstra que este acesso, secundário por assim dizer, tinha ainda um papel a desempenhar no trânsito pedonal. Isso mesmo o expressa a memória descritiva do projeto que abaixo se apresenta:

«A escadaria da Esnoga é pela sua situação a passagem mais concorrida das que deste género existem entre a parte baixa, ou marginal desta cidade do Porto, e o alto do bairro ocidental da mesma cidade. As pessoas que deste bairro se dirigem a pé para a Ribeira, para a alfândega ou vice-versa, preferem aquele caminho ou para encurtarem a grande distância a percorrer pela rua das Flores, ou evitar o incómodo e perigoso trânsito das íngremes calçadas que de diversos pontos da cidade descem para a margem do Douro, tais são as ruas do Ferraz, Caldeireiros, S. João Novo, e outros mais.

A escadaria porém, pela sua má disformação em parte, e pelo seu estado de ruína, necessita de uma reforma radical para satisfazer convenientemente às condições de viabilidade.

Na reforma da escadaria o projeto mais elegante, e que contribuiria consideravelmente para o melhoramento da localidade, seria o que em largura igual à da rua Ferreira Borges, seguisse no prolongamento da mesma rua em lanços de escada duplos, que de patins laterais convergissem em patins centrais, correspondentes ao mais da escadaria. Este projeto, além de obras dispendiosas exigiria o corte de prédios, cuja expropriação não seria inferior a vinte e quatro contos de réis e o custo total elevar-se-ia a quarenta contos. A adoção portanto deste projeto importaria num grave erro de administração, em consequência das finanças municipais não permitirem obras de luxo com prejuízo de outras de urgente e primeira necessidade.

Abandonada a ideia deste luxuoso projeto, delineei aquele, que em anteprojeto apresentei em 2 de Novembro de 1877, e que passo a justificar.

 

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ante-projeto das escadas, elaborado em 1877 . nele ainda se podem ver as escadas antigas, que foram depois demolidas, bem como o lanço na planta anterior, entretanto desativado (?)

 

Segundo este projeto aproveita-se o traçado da atual escadaria a partir da rua de Belomonte até ao perfil c c3; abandonando-o deste ponto em diante em consequência do terreno não permitir dar à escada a devida largura, e o desenvolvimento conveniente e em ordem a poder dar aos degraus as dimensões exigidas pela comodidade do trânsito (...).

Na parte em que aproveito o leito da atual escadaria projeto seis patins de comprimentos desiguais e irregulares, separados por lanços de escada em que o número de degraus varia de lanço para lanço. Esta irregular disposição é devida à imperiosa necessidade de estabelecer os patins ao nível das soleiras das portas traseiras de diversos prédios da rua de Belomonte. Se não fosse obrigado a respeitar estas serventias, disporia os patins alternando com os lanços de escada, dando-lhe dimensões uniformes e constantes como sucede do patim n.º 6 em diante.

 

anteprojeto2.jpg

corte transversal, do mesmo anteprojeto de 1877


Do patim n.º 6 até ao fim a escadaria segue em dois ramais em zig-zag tendo de comum o patim n.º 8,  e sendo cada ramal constituído de dois lanços de escada, separados pelos respetivos patins (...)

A largura da escadaria é variável; da origem ao patim n.º 2 é de 2,1 em média para se evitar o corte no prédio adjacente; do patim n. 2 ao n. 6 a largura é de 3; e do patim n.6 ao fim da escada a largura é de 2,7 entre os parapeitos; mas não se dando medir largura nesta parte; porque se 2,10 que a escada tem na sua origem, é largura suficiente para as necessidades de trânsito com mais razão satisfará a largura de 2,70.

Pelo traçado proposto vence-se a diferença de nível de 21,44 entre os pontos extremos por meio de uma escadaria de 80 metros de extensão em excelentes condições, porque os degraus têm geralmente 30 a 35 centímetros de piso, por 14 a 15 centímetros de altura, além disso a maior altura de cada lanço não excede a 2,66, contribuindo todas estas disposições e os descansos nos patins para tornar menos penosa e fatigante a subida e descida da escadaria.

O traçado, cujos detalhes acabo de justificar, parece-me o preferível a qualquer outro, porque sendo obrigado por motivos de economia o aproveitamento de parte do leito da atual escada a contar de origem, não pude deixar de ser considerado como obrigado o ponto em que projeto o patim n.º6 em consequência da disposição dos degraus existentes neste ponto, do nível das soleiras das portas dos prédios confinantes, e da necessidade de no terreno compreendido entre aqueles prédios e a rua de S. Roque haver 6 metros de largura para se poder estabelecer os dois ramais que em zig-zag se seguem ao patim n.6, terminando na rua de S. Roque em ponto correspondente a esse mesmo patim, e que é obrigado em consideração à disposição dos ramais da escada intermédios, a |por acima a saída|*.

A preferência de qualquer outro ponto quer seja situado abaixo do ponto de saída ou acima é inadmissível, porque nos primeiros casos haveria entre os pontos extremos menos diferença de nível, e por conseguinte mais facilidade em obter um melhor perfil para a escada, o terreno porém não oferece a largura suficiente para a sua colocação. No segundo caso, isto é, se fosse preferido para ponto extremo ou de saída outro qualquer acima do projetado haveria terreno em que aos ramais da escada se pudesse aumentar a largura, entretanto o perfil da escada tornava-se mais difícil para se obter em boas condições, obrigando a um traçado mais dispendioso e extenso sem que o trânsito colhesse do aumento de largura vantagens, que compensasse o excesso de despesa.

(...)»

projetofinal.jpg

projeto final das escadas, já de 1878

 


Este documento tem a data de 15 de Julho de 1878, estando assinado pelo engenheiro Agnello José Moreira. O projeto poderá ser consultado na íntegra no Arquivo Histórico da Câmara do Porto, onde existe também a memória descritiva da plano de obra e de engenharia, mapa de materiais e custos, bem como os alçados laterais do mesmo.
 

DSC_0780.jpg

localização das antigas escadas

 

Assim termino, esperando ter dado a conhecer mais um pouco da história da nossa cidade que a meu ver se faz também muito destas obras de engenharia aparentemente insignificantes e por onde muitas vezes passamos sem as valorizar, por não se tratarem de um monumento ou ícone da cidade.

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* leitura duvidosa

1 - Em 2020, quando revi esta publicação, o seu estado era melhor, mas não muito...

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