Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O largo de S. Domingos (quase) inédito

28
Fev17

Foi com alegre surpresa que encontrei num número de O Comércio do Porto Ilustrado um conto de Sousa Viterbo, de 1899, onde este refere a sua cidade natal, e dentro dela, mais especificamente, o seu lugar berço: o largo de S. Domingos. Francisco Marques de Sousa Viterbo foi um portuense ilustre, mas que viveu a maior parte da sua vida na capital. Tendo nascido em 1845 na freguesia de São Nicolau, veio a falecer em 1910 em Lisboa e aí se encontra sepultado no Cemitério dos Prazeres. Mesmo quando a partir 1879 foi perdendo progressivamente a visão, nem por isso deixou de ser um trabalhador incansável legando-nos várias obras de elevada qualidade e erudição (algumas podem ser lidas aqui). Este singelo conto creio não se encontra editado em mais lado algum. O interesse especial que ele encerra, a um nível pessoal, é a descrição maravilhosa que o autor faz do local da cidade que mais profundamente tenho estudado e procurado conhecer.

 

Abaixo transcrevo a parte inicial desta obra, precisamente aquela que nos pinta o quadro do palco onde se desenrola grande parte da ação e que por conseguinte precede a parte ficcionada.

«»

JUDAS VINGADOR
(Quadro de costumes portuenses)


 
« O largo de S. Domingos era, há 50 anos um dos mais íngremes e tortuosos da cidade da Virgem. Era e é, porque, apesar de todas as modificações que tem sofrido, ainda hoje é irregularíssimo, cheio de esquinas e de cantos, de modo que bem se lhe poderá aplicar o ditado – quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita(1).

 

Ao centro ornava-o um chafariz, que foi demolido, construindo-se, em seu lugar, uma fonte ao lado, em arco, sob umas casas do Sr. Araújo, que tem loja de papel, o mais antigo estabelecimento deste local. Na casa que confina com esta, ao canto, havia uma loja de droguista, de que era proprietário um sujeitinho magro, bom homem, Manuel António Figueira, apaixonado amador de livros, que competia com os mais afamados bibliófilos portuenses, o Sousa Guimarães, o Vieira Pinto, o Carlos Lopes e o visconde de Azevedo, que morreu com mais um grau no seu título.

lsdpjc.jpg

Uma imagem que ilustra este conto e que mostra o chafariz (que hoje se encontra atrás da Câmara Municipal) ainda no largo. Contudo este não co-existiu com o edifício à esquerda (da Araújo & Sobrinho), pelo que o desenho foi certamente feito de propósito para ilustra-lo; quando o chafariz era já uma memória e apenas nos portuenses com mais de 50 primaveras.

 

Contíguo com o extinto convento dos frades, que deram o nome ao largo, havia uns prédios que foram demolidos para abertura de uma rua e que formavam um dos mais afamados recantos do sítio. Era ali a loja do capitão do cantinho(2). Ás vezes, à porta, em manhãs estivas, sentava-se a tomar o refresco o Lobo da Reboleira, um dos mais curiosos e excêntricos tipos de ricaço portuense. Rico e avaro. Era todavia dotado de certa ilustração e perspicácia natural. Contam-se dele, até anedotas e ditos engraçados, mais do que engraçados, de uma ironia mordente. Uma ocasião, indo ele da praça com uma pescada, encontrou-se com um titular de fresca data que lhe disse:

 

- Ó Sr. Lobo, então não tinha quem lhe servisse de moço?
- Que quer V. Exa.? Desde que os moços de esquina se fizeram fidalgos, não temos outro remédio senão servir-nos a nós próprios!(3)

 

Defronte, à direita, quem vinha da rua de S. João, havia um renque de casarias de madeira, que foram deitadas a terra e substituídas por outras de pedra, de boa aparência.

 

Àquele tempo, o largo de S. Domingos quasi se poderia dizer o coração da cidade, porque nele vinham desembocar as duas artérias de mais movimento: a rua das Flores e a rua de S. João(4). Em dias de mercado, sobretudo às terças-feiras, a animação ali era extraordinária, de um pitoresco indescritível, de um ruído insurdescente, de um aparato deslumbrante, pela mistura e confusão dos ruídos, das vozes, dos pregões, dos costumes, dos animais e dos homens. Poucos animatógrafos apresentariam um quadro de mais sensacional impressão.

 

O largo de S. Domingos, se era um dos focos mais ativos do comércio portuense, era também o ponto obrigado de todas as grandes cerimónias. Os cortejos reais, nas entradas da cidade, as cavalgadas carnavalescas, as procissões mais solenes, tudo desfilava por ali. Pelo tempo das romarias nada mais curioso que ver passar os ranchos dos devotos campesinos, com os seus trajos peculiares, variadíssimos segundo as localidades. Os ricaços, a cavalo nas suas mulas, levando as mulheres ao peito ostentosas tabuletas de ourives; os monstruosos corações de filigrana e os crucifixos de ouro, pendentes de grilhões. Os pobres, a pé, numa alegria doudejante, bailando sempre, ao som das violas, das rebecas e dos clarinetes, levando às vezes, no centro do grupo, uma extensa vara, no extremo da qual um bonifrate fazia os seus exercícios acrobáticos. A filarmónica acompanhava-se então de um coro de gargalhadas, soltado pelo rapazio que acudia ao espetáculo.

 

Antigamente o largo era calçado por enormes lajeas (sic) de granito como lapides sepulcrais de túmulos de gigantes. Um dia de madrugada, os moradores acordaram com um ruído estranho e com uma visão sinistra. Era o batalhão dos grilhetas, isto é, dos encarcerados da Relação, que vinham levantar o lajeado, brita-lo, e reduzir o piso ao novo sistema de macadam. Então eram os condenados que trabalhavam nas obras públicas, de onde lhe vinha o nome vulgar de calcetas. Se no dia de hoje presenciássemos outra vez aquelas cenas repugnantes, se víssemos chegar o grupo dos miseráveis, algemados de pés e mãos, evocados como números e não como homens, tratados como animais inferiores, que nunca tivessem tido a noção de dignidade, por certo que soltaríamos um brado de indignação ou uma frase de tédio pelo menos, e não trautearíamos saudosamente, na melopeia da tristeza, na melancolia das cousas santas, a chanson du bon vieux temps! »

«»


___________________________________

(1) - A irregular regularidade que agora tem foi obtida em 1845 após a demolição do murinho de S. Domingos e a remoção do chafariz de S. Domingos. Algumas das pedras do murinho foram usadas na construção de uma fonte na rua do Bonjardim, esquina com a de Sá da Bandeira (agora Sampaio Bruno).
 
(2) - Eram duas casas conhecidas como casas do cantinho pois que estavam ali como que aconchegadas à parede do edifício do Banco de Portugal (antigo convento dominicano) e ligeiramente mais recuadas que as restantes. Essas casas encontravam-se no local onde existira o lado norte do transepto da igreja dominicana e também a sacristia de uma antiga capela da mesma igreja bem como a capela de Nossa Senhora das Neves. A rua a que Sousa Viterbo se refere é a rua agora com o seu nome que até 1913 se chamou rua Nova de São Domingos, que atravessa solo anteriormente ocupado pela igreja velha, a sacristia velha, o claustro e outras dependências do convento dominicano.
 
(3) - Nas séries mais antigas de O Tripeiro encontram-se outras versões desta história, bem como outras relacionadas com o mesmo personagem.
 
(4) - Mouzinho da Silveira só foi rasgada entre 1874-1877.

Pág. 1/4