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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um troço ignorado da muralha pré-românica

por Nuno Cruz, em 30.08.17

Em Dezembro de 2016 referi na publicação do blogspot intitulada  "Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri" que num arruamento desativado desde o século XVIII - a viela de São Lourenço - que circundava pelo exterior a muralha antiga da cidade a oeste e que terminava junto da porta de Santa Ana, havia sido recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, como parece ser o caso, estas pedras são as mais antigas que se encontram expostas. Ainda mais antigas do que o mais conhecido cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo (embora englobadas na mesma cerca defensiva) e seguramente mais antigas do que a torre do Barredo (casa que é reputada como a mais antiga ainda existente na cidade).

 

Ilustrando esta pequena descrição coloquei a imagem que se vê abaixo, tirada umas semanas antes. Esse caminho é a antiga viela de S. Lourenço que deixou de ter saída, como referi, ainda no século XVIII. O seu aspecto degradado advém da utilização que os proprietários das casas da rua dos Mercadores (à esquerda na foto) fizeram desse espaço, aproveitando-o como extensão das suas propriedades. Na altura esta imagem foi captada através da porta que impedia a passagem para aquela área. Contudo, meses volvidos e por intermédio do portal PORTO, obtive a excelente notícia que o espaço havia sido recuperado!

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Com efeito, foi em finais de maio deste ano que aquele espaço foi devolvido à cidade devidamente reabilitado. Agora, turistas ou simples portuenses com curiosidade pelas antiqualhas da sua cidade dispõem de um bom acesso através do miradouro junto à igreja de S. Lourenço, deixando assim de existir o que se efetuava por baixo de um edifício da rua de Santana, que estava aberto  apenas a determinadas horas do dia para acesso dos moradores aos lavadouros que ali existem.

As imagens ilustrativas desta nova realidade que tirei logo em junho falam por si (ver abaixo). Mas não há nada melhor, caro leitor, do que deslocar-se ali pessoalmente e depois de contemplar a vista magnífica, deitar o olhar para aquelas humildes pedras que se falassem nos contariam histórias de mouros, normandos e presúrias cristãs...

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Embora as casas da rua de Santana neste local em boa parte assentem na antiga muralha pré-românica/românica, apenas aquele pequeno troço na imagem mais à direita parece apresentar o seu aparelho original intocado. Não obstante no restante troço surgirem vários silhares de aspeto idêntico que terão sido reaproveitados após o desmonte da estrutura original. Foi pelo menos o que me sugeriu a observação no local (aguardo com expectativa os comentários dos meus leitores cujo mester seja a arqueologia).

Este troço passa despercebido, é verdade; mas se a Câmara Municipal do Porto ali colocar um marco explicativo conforme se vê junto a muitos outros monumentos, em breve isso deixará de acontecer. Pelo contrário, será valorizado e assumido como uma mais valia para a cidade acrescentando-lhe valor patrimonial.

 

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Nota: A fonte e inspiração para esta publicação veio de uma fotografia patente na obra A imagem tem que saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606), do Dr. José Ferrão Afonso publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia (2014).

'A rua das Congostas, como a conheci'

por Nuno Cruz, em 24.08.17

«Esta rua, completamente modificada, ou por outra, que desapareceu, deu lugar à hoje rua do Mouzinho da Silveira, na parte que fica entre a rua do Infante D. Henrique e o cimo da rua de São João.

Era uma rua estreita, calçada à romana(1). Ao subir, do lado esquerdo havia uma fonte [ver foto] aonde estavam agrupados os canecos dos antigos aguadeiros (todos estes cidadãos da Galiza) que, com aquela vasilha ao ombro, resguardado por um pedaço de couro afim de não molharem o casaco ou a jaleca, no seu passo cadenciado, levavam a água às casas, subindo quatro ou cinco andares, mediante uma pequena quantia. (...). 

Do mesmo lado existia o restaurante do conhecido e honrado José Villas, muito frequentado pela colónia Inglesa. Tinha um criado chamado Manoel, o verdadeiro tipo de criado antigo, muito dedicado ao seu patrão.

Na mesma rua se encontrava um importante estabelecimento de marcenaria da família Garrido (...). 

Onde está a estátua do Infante D. Henrique era um monte; e paralelo à rua do mesmo nome (antigamente rua dos Ingleses) existiram casas entre Mouzinho da Silveira e Ferreira Borges(2). Onde está o quiosque(3) havia um passo igual ao que está defronte da Igreja de S. Nicolau. 

O Povo, em vez de dizer rua das Congostas, chamava-lhe rua das Cangostas.»

in O Tripeiro, 3ª Série, Junho 1926

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(1) - O autor refere provavelmente o facto da rua ser pavimentada com grandes lajes de granito, como se vê em fotografias antigas e ainda hoje em alguns locais da cidade que escaparam às sucessivas remodelações.

(2) - O monte referido - último resquício da antiga cerca do convento dominicano - foi desbastado e as casas referidas demolidas, na sequência da execução do plano de melhoramentos para a cidade de 1881. O objetivo foi a criação de uma praça ajardinada que ocupou parte daquele terreno desaproveitado e um mercado que se traduziu no Mercado Ferreira Borges.

(3) - Este quiosque só desapareceu nos anos 90 do século XX pois eu (e com certeza alguns dos meus leitores) ainda tive a felicidade de o conhecer, talvez com uma face mais moderna mas no mesmo local do original!

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A imagem que se pode ver acima é uma preciosa fotografia da fonte da rua das Congostas. Bem visíveis estão os canecos dos aguadeiros e seus donos. Esta imagem foi identificada pelo Dr. Pedro Vitorino em 1931, conforme o relato feito pelo próprio que aqui reproduzo:

«Notando o facto lastimável - a falta no Museu do Pôrto dos elementos indispensáveis para a história da cidade - foi que o grupo recentemente criado dos "Amigos do Museu Municipal" projectou levar a efeito uma exposição de vistas e trechos do Pôrto antigo, que conta em breve realizar. Entre as pessoas mais entusiásticas por essa tentativa de educação pela imagem, conta-se o distinto fotógrafo portuense Snr. Domingos Alvão, meu prezado amigo, que ao mostrar-me há pouco o que já tinha reünido para o certame, me interrogou acêrca de uma fonte que uma esmaecida prova fotográfica fazia reviver.

Que fonte seria essa?

Olhando-a, num relance, ocorreu-me logo uma nota inserta nuns apontamentos manuscritos reünidos pelo pintor Vitorino Ribeiro, a qual dizia: "Esta fonte (das Congostas) tinha a forma de um altar". Essa forma era, na verdade, a que nos mostrava a fotografia. Buscando outros elementos, adquiria dentro em pouco a absoluta certeza.

Possível é, pois, quási cinqüenta anos volvidos sôbre a sua demolição, conhecerem-se as linhas fisionómicas dêsse pequeno monumento arquitectónico.»

in O Tripeiro, 4ª Série, Maio de 1931

 

Pedro Vitorino continua mais à frente descrevendo a fonte, o que prometo ficará para uma publicação seguinte!

 

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Nota: Publicado originalmente no blogspot em 24/OUT/2009, agora revisto e aumentado.

À procura da Cividade

por Nuno Cruz, em 19.08.17

Em 1932 o Prof. Mendes Correia publicou a sua conhecida obra As origens da cidade do Porto, onde o ilustre académico apresenta em aditamento um resultado sumário das suas escavações num quintal de uma das casas do morro onde se situava o largo do Corpo da Guarda. Essas escavações, as primeiras realizadas de modo científico na cidade do Porto, produziram resultados bastante inconclusivos; contudo vale a pena arquivar nas páginas deste blog o périplo que o autor fez por aquela área à procura da Cividade; pequena mas preciosa descrição de uma das mais antigas zonas da cidade que foi completamente obliterada e cujas derradeiras gerações que a calcorrearam estarão agora a atingir o outono da vida.

 

 

EXCERTO

« ... Veio, porém, o documento de 1519 servir-me de guia para uma perfeita solução do problema [o local da Cividade]. O documento fala na «viela que vai da travessa do Souto para a cividade de sobre os Pelames.» Dirigi-me, na companhia do Dr. Santos Junior, à travessa do Souto, partindo da rua do Souto. A estreita e imunda travessa conduziu-nos à varanda da rua dos Pelames, que domina a rua Mouzinho da Silveira e o rio da Vila, com uma escarpa de forte desnível [topo da fonte monumental que existe na rua Mouzinho da Silveira]. Prosseguindo, fomos por uma rua, hoje continuação da rua dos Pelames, mas que tanto está na sequência desta como na da travessa do Souto. Fomos desembocar quase no alto da calçada do Corpo da Guarda, e, com surpresa, deparámos na nossa frente com um muro alto, que ladeia à esquerda a subida e em cima do qual víamos hortas e árvores. Soubemos logo que as casas que se encontram do mesmo lado e as das ruas Chã e de Loureiro e do largo do Corpo da Guarda que delimitam, com a calçada deste nome, um quadrilátero irregular, ou não têm janelas nas traseiras ou têm janelas e quintais em correspondência apenas com os últimos andares. Entrando nalguns desses quintais, verificámos que essa área corresponde a um escarpado monte, com todas as condições topográficas duma citânia ou cividade. O casario alto é que o ocultava aos nossos olhos. Papéis do fim do séc. XVIII, referentes a um dos prédios, falam da «viela do monte»,  a norte (travessa do Loureiro?).

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Panorâmica tirada da Catedral onde se pode ver o monte da Cividade e no seu topo o largo do Corpo da Guarda. O n.º 1 indica a rua Chã e o 2 a rua do Corpo da Guarda. No local temos agora a uma cota bem mais baixa a avenida Dom Afonso Henriques. (foto: AHMP)

 

 

Assim, ao lado de S. Bento, entre a calçada do Corpo da Guarda e a Rua Chã, separado da eminência da Sé pelo largo do Corpo da Guarda e pelo vale da rua Escura, há um morro que, dominado os Pelames (como dizia da Cividade o documento de 1519), possuía as condições topográficas favoráveis para a Cividade. Esta designação abrangia também pela mesma época (...) as raízes do monte, o sítio onde se edificaram o mosteiro e depois a estação de S. Bento. É um facto vulgar de extensão toponímica. Recentemente o Sr. Dr. Artur de Magalhães Basto, em artigos do «Primeiro de Janeiro» (n.º de 13 a 21 de Maio de 1932), publicou textos vários, quase todos inéditos, que provam também a existência dum chafariz da Cividade e dum chão da Cividade, corresponde este no séc. XV ao local onde se ergueu o mosteiro de Santo Elói entre o largo Almeida Garrett e o dos Lóios. Verifica-se que o nome da Cividade ultrapassava o local correspondente à actual estação de S. Bento. Como o mesmo autor aventou, era possível tratar-se da supressão, com o tempo, da preposição sob que aparece nas passagens dos documentos do séc. XIV, em que se fala do ressyo a sob a Cividade e das Almoynhas de sob a Cividade. Assim, chão de sob a Cividade passaria simplesmente a chão da Cividade.

 

Obsequiosamente os Srs. Engenheiros António Bonfim Barreiros e Nascimento, da Repartição Municipal da Carta da Cidade, mandaram proceder ao levantamento da carta do morro. Em relação à entrada principal da estação de S. Bento, a diferença de nível do ponto mais alto é de 30 m., mas o desnível é maior em relação à parte sul-ocidental da Praça de Almeida Garret e à base da elevação dos Pelames, na rua Mouzinho da Silveira.

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«Fomos desembocar quasi no alto da calçada do Corpo da Guarda, e, com surpresa, deparámos na nossa frente com um muro alto... »: esta passagem refere-se ao local da imagem 1, que se traduz no entroncamento da rua dos Pelames com a rua do Corpo da Guarda. As imagens 2 a 4 mostram vários estágios da demolição de todo o edificado nascente da rua do Corpo da Guarda: por detrás desses edifícios a diferença de cota salta à vista e foi precisamente neste local que Mendes Correia escavou (o muro que formava o talude ainda se pode ver em parte nas imagens 2 e 3. (imagem 1, foto do autor; imagens 2 a 4 do AHMP). Para auxiliar o leitor a comparar a paisagem atual com a dos anos 50 marquei com um X um edifício que surge em ambas as realidades (ver imagens 1 e 4).

 

De 14 a 26 de Abril de 1932, com amável permissão do Sr. Luis Guimarães, proprietário dum terreno na parte mais alta do monte, procedi a escavações nesse terreno. Encontraram-se espessas camadas de entulhos modernos, restos de antigas paredes correspondentes decerto a edificações sucessivas de que não havia notícia alguma, numerosos fragmentos cerâmicos, pregos, moedas, ossos de animais, etc. Mas nada podia dar-se como seguramente mais remoto do que os tempos medievos.  Entre os restos animais, apareceu um dente de veado. As moedas mais antigas encontradas (segundo a determinação do Sr. Prof. Damião Peres) são do séc. XIV. Mas é bem possível que alguma cerâmica, mesmo os alicerces mais fundos, sejam anteriores.

 

(...) Os entulhos e revolvimentos modernos são numerosos. Além disso, o espaço em que se abriram as valas exploradoras é escassíssimo - poucas dezenas de metros quadrados. O declive da rocha natural da base acentuava-se para oeste e a parede circular profunda [possíveis restos de uma habitação de uma citânia] apareceu precisamente no recanto ocidental do terreno cortado por um forte talude artificial, ao fundo do qual há casas modernas. Desse modo, não foi possível prolongar a escavação nêste sentido. Diligenciarei, porém, ainda fazer novas sondagens nalguns outros reduzidos espaços, hoje libertos de edificações. Mas receio bem que a área disponível não baste para uma pesquisa frutuosa e que a ocupação humana ulterior tenha destruído os restos talvez já muito precários da velha citânia»

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O local na atualidade: à esquerda vemos o que resta da rua do Corpo da Guarda, ou seja, a sua face oeste (B) e à direita o atual início da rua Chã (A) que perdeu as habitações do gaveto para o largo do Corpo da Guarda. O que resta do antigo morro da Cividade compreende-se apenas nos quintais das casas da rua Chã. O traço curvo representa simbolicamente esse morro já desaparecido. (foto do autor)

 

O que atrás se leu remonta a 1932, contudo deve advertir-se que o desenvolvimento da arqueologia urbana a partir dos anos 80 do século passado veio revelar que a citânia se localizou não no morro da Cividade mas sim no da Penaventosa. Englobando, pelo menos, a área da Catedral e seu terreiro, a Casa do Cabido, o Paço Episcopal bem como a rua de D. Hugo. Em publicação posterior voltaremos ao largo do Corpo da Guarda e ao palacete que nele existiu, prédio ao qual aliás, pertencia o terreno explorado por Mendes Correia.

 

Como corolário de toda a sua investigação, o prof. Mendes Correia propôs, em sessão de Câmara de 16 de julho de 1936 e na qualidade de Presidente da Câmara Municipal (1936-42) o seguinte:

 

«Estando cientificamente averiguado que o povoamento na área da atual cidade do Porto remonta a uma antiguidade muito maior do que se supunha geralmente;

Sendo cabido e oportuno fixar na toponímia portuense todas as designações que possam relacionar-se com a história mais antiga deste agregado populacional;

Tendo, desde o século XVI, caído em desuso o nome Cividade, dado ao morro, encoberto pelo casario moderno; que existe entre a atual estação central dos caminhos de ferro e o Largo do Corpo da Guarda, nome aquele que, por um processo de extensão muito vulgar, designou também algumas imediações daquele morro, distinto do da Sé e, mesmo de cota, mais elevada do que este último;

Sendo à palavra Cividade, graças aos estudos de Martins Sarmento, Alberto Sampaio, Leite de Vasconcelos, Serpa Pinto, Cuevillas, etc., dada uma significação relacionada (como os nomes Citânia, Castro, etc) com a existência de velhos povoados indignas anteriores à ocupação romana, o que vem a indicar a conveniência de fazer reviver esse termo na nomenclatura portuense de locais, como um eloquente testemunho das remotas origens do Porto;

Tendo sido recentemente regularizado o Largo do Corpo da Guarda limítrofe do morro mencionado e estando o nome de Corpo da Guarda conservado já na calçada assim chamada, a Calçada da antiga Relação;

Tenho a honra de propor que o Largo do Corpo da Guarda passe a designar-se Largo da Cividade, nome que uma tradição secular mantivera nas proximidades até ao século XVI e que deve ser reintegrado na nossa toponímia como um dos mais expressivos títulos da antiguidade portuense.»

 

Esta proposta é surpreendente por duas razões: a 1.ª razão é a de ser a primeira e única vez que me recordo de ver um topónimo antigo (largo do Corpo da Guarda), ser substituído por um outro há muito já extinto; em claro contraste com a idiota mania de substituir topónimos seculares por nomes de personalidades! A 2.ª razão é o ficar assim provado que o Estado Novo não só modificou e adulterou, enfim reintegrou monumentos nacionais como permitiu a reintegração de um topónimo morto fazia séculos! Neste caso não foi, como é sabido, por muito tempo, pois que o largo do Corpo da Guarda ou Cividade desapareceu cerca de 1952.

 

E desta forma caros leitores, ficou para mim desfeita a dúvida e mistério de ver um topónimo extinto à quinhentos anos surgir num edifício em demolição anos depois desta proposta, numa banal garagem de automóveis!

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Garagem Cividade no largo que teve este nome durante os derradeiros anos da sua existência: o que não chegou a duas décadas!

 

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Bibliografia:

As origens da cidade do Porto, de Mendes Correia publicado pelas Edições Pátria (1932); Boletim da Câmara Municipal do Porto

 

Última atualização: 07.07.2018

Muda perigosa, mas barata

por Nuno Cruz, em 16.08.17

A pequena notícia que se segue insere-se no ciclo de postagens que, mais do que acontecimentos históricos, visam recuperar pequenos apontamentos "noticioso-literários" sob o tema O Porto de Oitocentos. Também ela recuperada do jornal O Clammor Publico, periódico muito participado por Camilo Castelo Branco bem como outras figuras menos conhecidas na atualidade.

Esta história em particular faz referência aos célebres "galegos", que pelo menos desde os finais do século XVIII são referenciados como trabalhando no Porto nos serviços mais variados, que não apenas ligados à distribuição de água (a sua atividade desenvolve-se por todo o séc. XIX, apenas se extinguindo já em pleno século XX). 

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«Os penates portuenses estão ao sol, ou antes, à chuva. O cidadão de Tui atravessa as ruas levando às costas senão a fortuna de César, que os Cesares de hoje tem as barbas empenhadas aos Rostchilds, a de muito João Fernandes; porque decididamente, com vénia das exceções, o tempo está para os Joões Fernandes. O cidadão de Tui tem sido, apesar de Diogo Alves, o símbolo da fidelidade, e toda a gente vendo um homem de saco ao ombro e corda ao tiracol, confia-lhe a comissão mais pesada e de valor.

Há dous dias um indivíduo, que mora na cidade alta[1], levado por esta confiança, entregou as gavetas da sua cómoda, a sua fortuna, nesta época em que o hábito faz o monge a dous cidadãos que na encadernação mostravam ser um cidadão de Cangas[2], do ovo da Galiza.

Os homens sairam com o fardo, indicado o sítio da muda, e, passados minutos, o nosso homem que tinha negócios urgentes em Santo António do Bonjardim, encontrou-os lá. Como por ali não era caminho para a sua nova morada, gritou-lhes, e os homens desculparam-se, dizendo que tinham percebido mal; sem desconfiar, encarregou-se de os acompanhar, e depois enviou-os junto com um criado em busca de outros tantos. Os homens julgaram que dessa vez lhes seria fácil levar a cabo o seu intento, e foram, mas tiveram a má estrela de voltarem acompanhados. Pacientes tentaram uma terceira execução, desta vez iam limpando uma porção de roupa da cama, quando o criado desconfiou e gritou por socorro, os dous pertendidos galegos, pois que eram tão falsos como as meias coroas da rua de Camões, das quais já não se fala, nem do processo do falsificador[3]; os dois larápios puseram pés em polvorosa e não apareceram até agora para receberem a paga das duas corridas.»

in O Clammor Publico de 13 de Outubro de 1856

 

 

[1] - poderá o articulista aqui referir-se ao Bairro Alto, nome ainda muito vivo naquela época, localizado na zona da Fontinha.

[2] - cidade galega da província de Pontevedra, fronteira a Vigo.

[3] - Agradeço a quem souber pormenores sobre esta referência que o autor faz, a amabilidade de os divulgar nos comentários.

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