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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um outro Guilherme Gomes Fernandes

por Nuno Cruz, em 27.10.17

Gosto bastante de ler os artigos das primeiras séries da revista O Tripeiro. Isto sem desprimor para as mais recentes é claro, que desde a série IV vem apresentando artigos muito bons e são peças incontornáveis para se conhecer a história da nossa cidade, sua evolução, suas personalidades... Mas aquelas três primeiras séries dizem-me muito não por serem as lançadas em vida do fundador da revista, Alfredo Ferreira de Faria, mas porque são repositórios feitos de muitas memórias de indivíduos que testemunharam grandes transformações na cidade. Esses escritos em particular são, a bem da verdade, por vezes confusos e anacrónicos porque feitos de memórias pessoais; ainda assim bastante importante se analisados com a devida ponderação.

Isto para dizer que recentemente li um pequeno "artigo-memória" de um tripeiro certamente já há muito falecido, referente ao comandante das bombas José Ribeiro Cardoso. Pessoalmente tem esse texto dupla importância: o homenageado e a história da rua Mouzinho da Silveira (já vão saber porquê...)

O texto foi publicado em janeiro de 1927 e homenageia esse enérgico comandante dos "verdadeiros" bombeiros, isto é, dos que manejavam e puxavam as bombas.

 

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JOSÉ RIBEIRO CARDOSO

O Comandande das bombas

 

Snr. Alfredo Ferreira de Faria, dig.mo director de O Tripeiro.

O seu periodico é uma publicação das mais interessantes, que todos os portuenses de alma e coração devem possuir e venerar. A satisfação e o enlevo que elle nos dá, quando nos colloca diante dos olhos typos, costumes, scenas e edificações que já se tinham varrido da nossa memória e nos faz retroceder ao tempo feliz da nossa mocidade, cuja evocação realisa, tempo que desappareceu nas sombras do passado, para não mais voltar, offerece-nos uns deliciosos momentos de intima concentração, em que o nosso espirito se compraz em viver a vida passada, que nos é gratissimo recordar com saudade, misturada de intenso jubilo.

 

E porque assim é, consinta V. ... que eu venha concorrer para que no seu O Tripeiro se faça justa referencia a um portuense que, ha cêrca de sessenta annos, teve na invicta cidade um lugar de destaque.

 

Sem ter curado de saber se nos três volumes já publicados ha qualquer noticia a respeito d'esse benemerito, peço-lhe vénia para lhe lembrar que no seu quinzenario merece condigna homenagem o «Guilherme Gomes Fernandes» d'essa época, denominado o Commandante das bombas.

 

Chamave-se elle José Ribeiro Cardoso e era proprietario de uma importante drogaria na rua da Bainharia, installada em um dos dois predios cujas trazeiras constituem a maior vergonha da rua do Mousinho da Silveira, pelo seu estado de abandono e de immundice em que se encontram, na parte da referida rua, que depois de tantos annos volvidos ainda não está edificada. Sem conhecer as causas porque o proprietario d'essas duas casas não as augmentou, trazendo-as ao alinhamento da citada rua, fica-se vexado perante o aspecto sórdido e infecto que ellas apresentam, deprimindo a cidade. Escorrencias de aguas immundas pelas paredes e pela cantaria, vidraças em estilhaços, portas de sentinas desmanteladas e esburacadas, varandas de ferro carcomidas pela ferrugem, e teias de aranha pendentes de todos os lados, eis o que hoje nos resta da moradia de um homem que ha mais de meio seculo tanto se fez notavel no burgo portuense.

 

A sua acção passou-se no tempo em que as bombas para extincção dos incendios eram conduzidas aos locaes dos sinistros pelos proprios bombeiros municipaes, auxiliados pelo rapazio e por todo e qualquer cidadão que se prestasse a puchar pela corda adaptada ás carretas das bombas, para vagarosamente as arrastarem das respectivas estações ou postos, chamadas pelo badalar dos sinos das torres das igrejas, badalar a que se dava o nome de signaes de incendio, e que era tanto mais violento quanto maior era a intensidade e o perigo do fogo.

 

A agua era fornecida pela colonia gallega em grandes canecos de madeira conduzidos aos hombros, serviço a que essa colonia se obrigava em troca da concessão que a Camara Municipal lhe fazia de poder conservar os seus canecos em fileiras junto dos tanques e fontes publicas, onde lhe era reservada uma bica para encher os canecos e fornecer, por contracto mensal, agua ás casas da cidade baixa, que não possuiam poços onde se podessem abastecer.

 

Era digna de admiração a acção prodigiosa de José Ribeiro Cardoso n'estes lances difficeis e angustiosos. Homem de meia idade, de estatura mediana, trajando quasi sempre de côres escuras e usando umas suissas compridas, sedosas e completamente brancas, como as de um negociante que existia e creio que ainda existe na rua do Almada, elle acudia, activo e pressuroso, a toda a parte, animando, ordenando, prevenindo os perigos e incitando com o seu exemplo, valor e coragem os seus subordinados. Para aquella época e com recursos tão mesquinhos era modelar a sua obra.

bombasprimitivas.JPG

Dominado o incendio, passava em revista o pessoal, tomando nota das faltas, quer dos bombeiros, quer dos aguadeiros, e punia essas faltas se não fossem devidamente justificadas, como mandava o regulamento.

 

Era, sem dúvida, ha sessenta annos o nosso chorado, admirado e nunca esquecido «Guilherme Gomes Fernandes», guardadas, é certo, as distancias da época, em que este viveu, e os recursos materiaes, physicos e intellectuaes de que dispôz largamente.

 

Era consorciado com uma senhora da boa sociedade portuense, viuva do negociante José de Sampaio Pereira, D. Anna de Sampaio Pereira, sogra do fallecido chefe dos escriptorios de O Commercio do Porto Augusto Antonio dos Santos, e avó dos fallecidos e distictos medicos portuenses Dr. Augusto Antonio dos Santos Junior e Dr. Fernando Augusto dos Santos, que proficientemente tiveram a seu cargo a direcção clinica das Aguas do Gerez.

 

Na velha rua da Bainharia e nos archivos da Camara Municipal talvez se possam obter valiosos e melhores informes que viessem completar estas modestas notas que a minha memoria me deixou escrever.

 

É meu sincero e ardente desejo que assim succeda, para condignamente se render preito aos valiosos serviços prestados á causa publica por tão prestimoso cidadão, serviços ainda mais dignos de aprêço por serem, se bem me recordo, gratuitos.

 

D'estes ligeiros apontamentos fará V. ... o uso que entender. Se merecerem a publicação em O Tripeiro aqui fica desde já consignado o meu agradecimento pela justiça que se faz recordando o nome de um notavel cidadão que ao Porto deu o melhor do seu esforço, como pôde e como soube.

 

Com estima sou de V. ..., etc

Henrique Pereira de Oliveira

 

Nota. Depois de escriptas estas linhas, passei na rua do Mousinho da Silveira e vi que as trazeiras dos dois predios a que fiz referencia soffreram uma ligeira limpeza e foram imperfeitamente caiados. Não foi o que era preciso e devia ser: mas mais vale pouco do que nada. Só a falta de recursos póde justificar o que se tem dado com estes dois predios. - H O.

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Segundo o testamento deste cavalheiro (disponível em linha no Arquivo Municipal do Porto), o mesmo faleceu em 9 de maio de 1877 e morava na rua da Bainharia n.º 59 e 61.

 

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Imagem: Arquivo Histórico do Porto

 

Bibliografia:

José Ribeiro Cardoso, o commandante das bombas, de Henrique Pereira de Oliveira, publicado n' O Tripeiro de janeiro de 1927.

A rua da Almea ou Boa Vista, artéria esquecida da cidade

por Nuno Cruz, em 19.10.17

Há ruas agora extintas que pela sua importância na construção da cidade ou pelo seu relativamente recente desaparecimento, ficaram melhor vincadas na memória coletiva do que outras. Basta lembrar por exemplo a Rua das Congostas (que para mim ainda existe, mas isso são outros quinhentos...) ou a enorme mortandade de ruas ocorrida aquando do quase total arrasamento do Bairro dos Banhos, que obliterou várias delas da memória da cidade ao ponto de algumas pessoas falarem por exemplo na Rua da Minhota (ali localizada) como se essa designação fosse a de oitocentos; assim misturando nomes mais recentes com os antigos, sem levarem em consideração que anterior desapareceu bem antes da rua em si. Outro exemplo e bem ali perto é o da Rua de S. Nicolau que fora anteriormente nomeada Rua da Ourivesaria (parte dela ainda existe!). Portanto, esse cuidado urge para que não se misturem épocas de vida da cidade por vezes separadas por séculos.

 

Mas vamos ao tema: então onde era a Rua da Almea? Creio que poucos amantes da história deste velho burgo terão ouvido falar nela pois desapareceu de uma assentada no início do século XVII. Os responsáveis foram os Ermitas de Santo Agostinho, que no seu local construíram o convento de S. João Novo, agora transformado em tribunal. Com efeito, pelo ano de 1602 foi entregue a esta Ordem religiosa a igreja paroquial de Belomonte após extinção da paróquia que acabou retalhada entre as de São Nicolau e Vitória. A igreja estava ainda inacabada, e depois de algumas obras e alguns anos de uso, os frades optaram por a demolir e construir um novo templo naquele espaço. Obviamente que a rua não desapareceu apenas por causa da nova igreja, mas a máquina do convento a construir era grandiosa e a somar a isso era necessário reservar espaço para a cerca, que qualquer bom convento deve ter. Foi todo este estaleiro que ditou o desaparecimento da Rua da Almeia, ou melhor, da Boa Vista, conforme era já conhecida naquele século. Para isso foram compradas vinte e uma casas e seus quintais bem como outros cinco quintais em separado, necessários à definição do perímetro conventual. É fácil concluir que a razia que disso resultou provocou a extinção daquela artéria, quase ao ponto de também se extinguir da memória da cidade.

almea2.png

O bairro dos Banhos e a localização da rua da Almea/Boa Vista. A atual Calçada do Forno Velho era no século XIX conhecido por Forno Velho de Cima e aquela que aponto como possível Rua da Minhota era conhecida por Forno Velho de Baixo, de que uma parte ínfima ainda existe no topo das Escadas do Recanto (planta do AHMP).

 

A rua correria na direção Norte-Sul sensivelmente paralela à muralha fernandina, desde a Porta Nova (ou Nobre) até ao pequeno rossio formado junto ao Postigo da Cordoaria, à entrada da Rua Tomás Gonzaga. Unia-se ao Bairro dos Banhos pela Minhota, a julgar por estas descrições de casas que os dominicanos possuíam nas redondezas no século XVI: "esta rua é abaixo de Belomonte entre a porta nova e o postigo de S. Pedro, perto do muro", mais à frente: "rua detrás da minhota ou almea" ou ainda: "rua da porta nova [Rua dos Banhos] ... da banda do norte, pegada com a escada que vai da porta nova para cima para a rua da almeia ao longo do muro" (pormenor curioso: foi pertença dos dominicanos a casa onde existiu o forno que originou a designação de Forno Velho).

A palavra Almea poderá advir de uma pequena torre situada um pouco abaixo do local onde hoje temos a capela de Nossa Senhora da Esperança, e que talvez tenha correspondido a uma almeara árabe, edifício destinado à sinalização marítima! Segundo o historiador Dr. Ferrão Afonso, de onde extraio estas últimas notas, a torre existia ainda nos finais do século XVI, posto que bastante arruinada.[ver nota final]

almea.jpeg

localização (conjetural) da rua da Almea / da Boa Vista (imagem do bingmaps)

 

Mas são tão poucas as referências a este arruamento que ele não aparece mesmo na maqueta medieval presente na Casa do Infante, ainda que contudo a rua poderia ainda não existir na época a que o modelo reporta. E como prova de que nos finais do século XVII ela começava já a entrar na bruma do esquecimento, vejamos a vistoria que se segue, feita no sítio onde os Ermitas de Santo Agostinho possuíam duas casas de um conjunto de três que haviam comprado em 1604. A terceira, mais pequena, ficou incorporada na cerca enquanto as outras duas foram emprazadas ao seu antigo proprietário, Gaspar Pimentel. Mas por meados do século as casas acabaram por se arruinar, caindo em pardieiro e delas tomaram posse indevida duas famílias durante largos anos, até que finalmente o convento lhes moveu ação judicial. É de uma dessas ações, presente no cartório do convento depositado no Arquivo Distrital do Porto, que retiro o seguinte apontamento da vistoria feita ao local em 21 de Agosto de 1696:

«… e logo achou ele corregedor que as casas da contenda estavam sitas entre a rua da Minhota e a rua do Forno Velho fazendo faces para ambas as ruas pelo norte e pelo sul e defronte e delas pela parte do Forno Velho fica a cerca dos autores metendo-se somente a rua em meio que terá doze ou catorze palmos em largo e confronta pela parte do nascente com as casas de que é direta senhoria a Misericórdia que foram de Isabel Nunes e pela parte do poente confrontam com pardieiros que diz ocupa António Pereira Roriz e entre umas e outras vai uma viela munto estreita que terá dez palmos e meio de largo ao poente destas casas que possuí António Pereira Roriz fica no andar da mesma rua em que vive o réu que diz são de Manuel Monteiro, tanoeiro». Ora o corregedor, com esta vistoria: «não achou noticia donde fosse a rua da Boa Vista mas entende-se pelo que as partes dizem que a Boa Vista era uma rua que se embebeu na cerca do mesmo convento e o padre procurador dos autores respondeu que não tem notícia onde era a rua da Boa Vista mas que se devia entender era esta do Forno Velho por não haver notícia em contrário e por as primeiras confrontações do lugar condizerem com a certidão ... do tombo da Misericórdia». Por aqui se vê que menos de um século depois de ela desaparecer materialmente já o mesmo teria ocorrido na memória coletiva no que toca à sua exata localização. Faço votos que este despretensioso contributo possa fazer chegar a memória do que ali existiu a todos os interessados das fases pretéritas da cidade do Porto.

 

Nota final: Consultando o dicionário onomástico de José Pedro Machado, encontrei as seguintes definições para Almeia: a) Do ár. al-mai'â, em Pedro de Alcalá, 99, méaã, «almea, yerua». Séc. XVIII: «Das Indias de Castella a almeia e oleo della para as mãos», Floresta, I, 5, 179. // b) Do fr. almée, por sua vez do ár. 'ãlmii, «mundando, profano, laico». Séc. XIX: «Bailadeira e cantora entre os povos orientais que a mulher torna almeia...», Castilho, Outono, p.130, ed. de 1863; c) Em Almiar (topónimo de Águeda) temos: Do s.m. almiar, este do ár. al-miãr, pl. de al-mir, «aprovisionamento», «monte de cereal». O pl. tornou-se coletivo e, depois, s.m. Em Almiara (topónimo de Águeda, Montemor-o-Velho, Torres Vedras, V. N. de Gaia), temos: Nome de unidade do s.m. al-miãr; tornado nome comum. Séc. XIII: -... diuidit cum termino de Combrianos et de Camdelo et de Almeara...», Leges, p.662: em 1195 (Dissert., V, p.63); em 1482: - hũũa ponte que se chama d almeara que he açerqua desta villa [de Aveiro] ...», Desc., II, p.641. No dicionário etimológico, para Almeia, temos: a) do ár. ãlamii, sábia, pelo fr. almée. Dançarina egípcia cujas danças lascivas são entremeadas de cantos, a maior parte das vezes improvisados e b) do ár. al-mai'â. Árvore, o mesmo que Zimbro-da-cicília // Bálsamo natural dessa árvore, produzido no Oriente e preparado em Marselha. Apesar de tudo isto, não encontro nestas definições alguma que se enquadre melhor do que a proposta pelo Dr. Ferrão Afonso.

 

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NOTA: Publicado originalmente no blogspot em 3 de Agosto de 2016, agora revisto e aumentado.

 

Bibliografia: Documentos do cartório do convento dos Pregadores em depósito no ADP, documentos do cartório do convento dos Ermitas de Santo Agostinho no mesmo arquivo e A imagem tem que saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606), de José Ferrão Afonso, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia em 2014.

A tristeza apodera-se-me do coração...

por Nuno Cruz, em 13.10.17

Esta postagem não é bem sobre história... ou será que é?

 

Os filmes Passarinho da Ribeira e A costureirinha da Sé, filmes produzidos na nossa cidade aí pelos anos 50, não serão provavelmente conhecidos por toda a gente, nomeadamente dos mais novos; e quando se fala de filmes antigos feitos no Porto o primeiro que salta à mente de todos será provavelmente o Aniki-Bobo nem que seja por mera analogia com o nome de quem o realizou. Contudo estes dois filmes, de história singela, fruto do seu tempo, são uma pequena janela para um Porto que já não volta mas é pertença de várias gerações ainda vivas e que por isso esse tempo está de uma certa forma ainda vivo (se me faço entender).

 
Ao (re)ver a Costureirinha da Sé não pude deixar de sentir uma certa tristeza pelo ambiente atual do seu cenário principal, a casa no pequeno largo à entrada da rua da Penaventosa, lar das protagonistas principais. Eu já por ali passei várias vezes e ainda não havia registado o estado do edifício atualmente, mas já havia na minha ideia esta postagem a mostrar um 1958 vs 2016.
 
Cá está ela, "desfrutem"...
 

195801.jpeg

1958 (1)

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2 de dezembro de 2016

 

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1958 (2) 

 

Como se vê aquela casinha do século XVII (ou melhor, a fachada) está em pardieiro. Até a Nossa Senhora já saiu da edícula e se foi refugiar num outro qualquer local... Para quando a restauração daquela casinha bem como de outras de igual têmpera e ancianidade que pela cidade existem? Muito se tem feito já, é verdade, mas muito mais, creio, falta fazer. Mas faço votos de uma coisa: que não seja transformada em mais um hostel ou casa de aluguer para turistas. COLOQUEM LÁ PESSOAS A VIVER. Tenho a certeza que encontrarão pessoas que possam dizer: "aqui vou ser feliz!"

 

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NOTA: publicado originalmente no blogspot em 12 de dezembro de 2016. Transladada sem modificações pois infelizmente o que se pode acrescentar é que a casinha continua na mesma triste situação.

Notícias do tempo do romantismo

por Nuno Cruz, em 09.10.17

Caros leitores, quero confessar-me! Estou a ter uma micro crise de "conclusivite". Esta doença inventada por mim agora mesmo enquanto escrevo, ataca a conclusão de novas publicações neste blogue (e o seu mais escondido irmão http://conventodesaodomingosdoporto.blogs.sapo.pt/). Tenho quatro publicações em rascunho, duas delas quase prontas, mas falta rever e concluir muito bem a matéria, pois trata de motivos que são mesmo espinhosos até para os historiadores encartados; por isso imaginem para mim, humilde empregado de escritório com enorme amor pela história, sobretudo a da sua cidade...

Mas tenho um trunfo na manga! Tenho de deixar a casa antiga deste blogue (no blogger) devoluta e por isso, como já se aperceberam, vou transferindo para esta nova mansão as suas publicações: acrescentando-as, corrigindo-as, fundindo-as... sempre ficando a ganhar elas na qualidade, eu na credibilidade e vocês na segurança da informação!

 

Sem mais delongas ou enredos, deixo-vos mais duas notícias deliciosas de ler, eventualmente escritas por Camilo Castelo Branco. O que têm elas em comum? Ambas se referem à Foz e seus subúrbios, que por aquele tempo ainda ficava algo apartada da cidade... 

 

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Modelos de architectura

«As construções luxuosas augmentam na Foz. Já se não edificam casinholas apenas commodas. Entre os edifícios de mais lavor distingue-se o do snr. Domingos Maia, cujas portas e janellas da fachada tem a ogiva aguda, e arabescos e rendilhados as cornijas. Este edificio tem suscitado mais questoens que as problematicas piramides do Egipto. Não se harmonisam os intendedores de architectura na classe em que devem pôr a casa. Entre os partidarios da dorica e corinthia, da bysantina, da góthica e da egipcia ha uma outra eschola que nos quer convencer que a entrada da casa é pela trapeira. Se não é mangação este genero de architectura, sempre os homens tem inventado coisas! Como quer que seja o frontespicio é bonito, e aformoseará, quando estiver ultimado o local. O segundo no aparato é do snr. Gandra. Tem altura para tres andares, e é tão solida como elegante. Não tem ventilado tanta argumentação como a do snr. Maia, porque na opinião geral a entrada é pela porta. Também nos parece que é.»

De O Clammor Publico de 7 de Outubro de 1856

 

Os gatos históricos

«Em 1832, um grupo destacado da brigada do exercito libertador, estacionada no "Pastelleiro" suburbios da Foz, foi de arrancado sobre esta população, aggredindo cruamente os gatos, para os reduzirem a substancia nutriente, visto que as galinhas já tinham passado a molecula alimenticia do exercito. Havia então em S. João da Foz um par de gatos, que eram o Castor e o Pollux da raça felina.

Em hora de colóquio por cumeadas de telhado, estavam os dois bichanos.

N'aquelle engano d'alma ledo e cego que os barbaros aggressores não deixaram durar muito.

Armados de bayonetas nuas, o bando dos soldados, que vieram assalariados de França, onde a civilisação levou o gato ensopado às honras culinárias de sopa de tartaruga, corria sobre os gatos, raivando em nome do sacre nom de Dieu. Os espavoridos bichos, assaltados, embetesgaram-se na primeira lura, que lhes deu refugio para as cavaernas do soalho, especie de Gram-Bretanha, salvação dos proscriptos. Os esforços dos sitiantes famintos, mallograram-se; os gatos, porém que nem ao meio dia conheciam flamengos nem francezes, não vieram a lume já mais, com grande magua da sua dona que, ajustando o nariz com a lorga, longo tempo suspirou em vão chamando os gatos queridos.

Annos depois, foi reformada a caza, e nos desvãos soturnos das ruinas appareceram os dois esqueletos de Pilades e Orestes que, na sua especie se chamavam Farruco e Tartaruguinha.

Um homem, dotado de boa alma, posto que galego, apertou ao seio as ossadas lividas dos gatos, que vira nascer, e pendurou-os sobre duas resteas de cebolas, que tem á porta da sua tenda, na Rua Direita. Seria ingratidão esquecer o nome do snr. Julião, proprietario d'este muzeu ranhoso.

Um poeta, sympathisando com a funebre saudade do snr. Julião, escreveu duas elegias tocantes, que pendem do canello esquerdo de cada gato. Diz-se nellas que o fim dos gatos é a sorte commum de todos, inclusive a do poeta panygirista, que de certo morre de fome, ainda mesmo que os francezes o não persigam.»

De O Clammor Publico de 7 de Outubro de 1856

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No tocante à primeira notícia, não sei a que casa o autor se refere mas na Foz há várias casas de arquitetura, digamos, diferente. Em relação ao lugar do Pasteleiro, onde se passa aquele ato heróico de com fome mas em glória ao ponto de se comerem os gatos (só os gatos?..), mostro abaixo uma imagem, disponível no AHMP que mostra a Casa do Pasteleiro. 

ccasa.jpg

 

Outras imagens do googlemaps com a zona na sua configuração atual e um pormenor de uma planta da época da guerra civil. A casa ficava, creio, no local onde está o bairro da Pasteleira ou o parque urbano ao lado; mas toda aquela área já foi tão revolvida que se torna difícil precisar a sua localização. Na imagem assinalei o lugar do Ouro (verde), Trem do Ouro (amarelo) e Igreja de Lordelo (vermelho). Algum leitor que more para aqueles lados me poderá melhor dizer onde ficava a casa do pasteleiro?

past.jpeg

 

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Nota final: o meu caro leitor Sr. António Coelho fez-me ver que a capelinha junto à possível casa do pasteleiro ainda existe, conforme a imagem abaixo do googlemaps o demonstra. Estará no local original? Terá sido relocalizada? Não tenho resposta a essas perguntas, mas as semelhenças parecem não deixar dúvida de que se trata da mesma capela.

O meu obrigado ao Sr. António Coelho pelo seu contributo.

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