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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um aparte e um erro de datação

por Nuno Cruz, em 30.11.17

Ontem, numa amena e interessante conversa com outro historiador da nossa cidade, veio a certa altura à baila a questão dos erros que por vezes decorrem das investigações, sejam elas feitas por pessoas formadas na área, sejam elas de historiadores amadores, onde humildemente me insiro.

E concordo com a sua ideia base: eu proponho algo e digo que é assim pois mediante a documentação que consultei cheguei a esta conclusão. Mas outra pessoa refuta e diz: não o senhor está errado. Obviamente que quer eu quer ela teremos de sustentar a nossa ideia. Não bastará dizer que, por exemplo, alguém está errado e não fundamentar o porquê (e quem sabe poder vir a ser contradito). Ainda pior serão os que poderão desconsiderar o trabalho de outrem apenas porque se é investigador "encartado" e o outro é médico, advogado ou um simples empregado de escritório como eu; pois aí falamos já do preconceito. Mas não quero chegar aí... (Pedro Vitorino era médico de formação e Artur de Magalhães Basto advogado, isto para dar dois exemplos dos mais exímios historiadores portuenses, dos quais ninguém põe em causa a qualidade dos seus ensinamentos).

 

Sou o primeiro a apelar aos meus leitores para me corrigirem (vejam a minha primeira publicação, por favor). O erro depois de repetido muitas vezes é como a peçonha, espalha-se e não há quem o erradique. Até porque, e nisso a internet é fértil, não faltam sítios em que as mesmas coisas são copiadas e recopiadas e copiadas por outros a partir do mesmo texto, etc, etc... se o texto não é fidedigno lá vão os erros atrás, as generalizações... e em vez de apurarmos a verdade, somos acompanhados destes ditos, datas e informações de duvidoso teor, embora os aceitemos como verdade.

 

Eu próprio já me auto corrigi e não só: ainda recentemente, uma pessoa que conheço e que divulga o Porto com mestria - aliás bastante conhecido neste nosso Porto - me chamou a atenção para que a palavra Belomonte se escreve com o "o" ao contrário da forma que usava: Belmonte, como a terra do distrito de Castelo Branco. Fui confirmar, verifiquei que estava errado e corrigi o erro agradecendo a chamada de atenção (curiosamente verifiquei depois que um dos doutos historiadores desta cidade cai no mesmo erro que eu, neste caso em obra publicada, o que só serve para erodir o preconceito do amador/profissional). Pela minha parte, e sem me querer desculpar, já vi Belomonte escrito de diversas formas em textos antigos e só pode residir aí a minha confusão.

 

Sou picuinhas quando se trata de história. Dizia o historiador desta cidade a que me refiro no início do texto que o facto de eu vincar que um acontecimento tinha ocorrido num ano e não no outro seria "coisa à historiador" não obstante ser eu apenas historiador na alma. Não concordo, como lhe disse, e isso não nos incompatibiliza creio para (seguramente) conversas ou eventuais trabalhos futuros. Por outro lado concordou comigo quando vemos, e neste caso falávamos do sítio do Arquivo Municipal do Porto, diversas gravuras e imagens com legendas erradas. Eu próprio já alertei para algumas e embora tenha obtido amável e-mail de agradecimento, elas lá continuam... A título de curiosidade, aqui fica uma e com isto findo.

Atente-se na gravura abaixo:

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Esta gravura é referida como sendo da autoria de J. Holland e datada de 1838. Esse indivíduo, que realmente visitou Portugal nesta época e é autor de lindíssimas gravuras não só do Porto mas de outras partes do país, nunca poderia ter desenhado esta imagem, pelo menos naquela época. Porquê? Porque esta aguarela foi seguramente pintada após 1883.

Caro leitor, o que vê ao fundo da rua do Infante, no meio da rua? Se pensou nada ou numa árvore, acertou. Pois é, mas nos anos 30, 40, 50, 60 até 1871 existia ali o início de duas ruas: a rua de S. Francisco e a rua de S. Nicolau (ex-Ourivesaria). E não se pense que seria à cota atual pois a primeira estaria num local elevado (a diferença de cota para a igreja de S. Francisco não era tão grande e a escadaria era menor) e a segunda a uma cota mais baixa (aliás parte dela ainda existe, mas sem saída). A primeira casa que se veria entre essas ruas teria um aspeto "medieval" e aparece na gravura da igreja de S. Nicolau de J. Cardoso V. Vilanova e também numa nesga de uma foto do Palácio da Bolsa (que poderá constatar no final desta publicação).

 

Depois disso o que vemos à direita? Pois é, o jardim do Infante já lá está! Até o quiosque que eu ainda conheci na sua versão anos 80 do século XX! Ou seja, as casas que aí existiam nos anos 30, 40, 50, 60 já lá não estão. Se por um acaso pudéssemos espiar e o Infante já lá estivesse erguendo a sua mão, poderíamos então dizer que a imagem foi criada já no limiar do século XIX ou mesmo inícios do seguinte. Sendo assim, fiquei-me pela datação possível (em história, várias vezes mais não há do que isso). Mas posso dizer que o filho da Inclita geração não estava lá ainda. É que, mais recentemente, vi no excelente livro O Porto das luzes ao liberalismo esta mesma aguarela descrita como sendo da autoria de um senhor chamado T. M. Johnson e datado de 1893. Que eu estava certo não tinha dúvida, mas é sempre bom encontrar um argumento que dá sustentação a uma dedução "a olho".

 

Portanto, o alerta que faço aos meus leitores é: aceitem a informação que vos passam sempre criticamente. Sem dúvida essa advertência se estende àquela que aqui vou colocando!

O Barredo (segundo Pinho Leal)

por Nuno Cruz, em 27.11.17

Dou agora continuidade ao traslado das publicações colocadas na casa antiga d' A Porta Nobre no blogspot. Desta feita um pequeno apontamento sobre o Barredo da responsabilidade de Pinho Leal, autor do célebre Portugal Antigo e Moderno...

Segundo aquele autor, nos anos 70 do século XIX aquele bairro era o mais imundo do Porto. Estava todo iluminado a gás e era bastante povoado ainda que quase exclusivamente por Vareiras, Regateiras, Vendilhões e Carrejões.

 

Escreve ainda Pinho Leal:

«Não há muito que o autor destas linhas, com sol claro, e por mera curiosidade, atravessou este bairro, só para poder falar dele; e creiam os leitores que nunca vi no Porto, nem na capital, uma série de ruas, vielas, escadas e barracões, que se assemelhassem àquilo. Tudo transudando água e imundice, obrigando-me o fétido a acelerar o passo, e arrepiando-se-me o cabelo o imaginar-me metido em semelhante labirinto, em uma noite de inverno, mesmo no actual século, antes de montar-se a iluminação pública.
É este bairro um montão de lixo e um sorvedouro de vidas, quando pesa a mais leve epidemia sobre a cidade, e por todas estas considerações façamos votos por que a câmara abra sem demora as ruas em projecto.»

Pinho Leal in Portugal Antigo e Moderno (1875), Vol. VI, verbete S. Nicolau.

 

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A Lada, uma das entradas para o Barrredo profundo. 

 

Mas isso não aconteceu. Embora ainda em 1874 se fale na elaboração da planta para a rua que ligaria a rua Nova de S. João à ponte D. Maria II, aparentemente nem o projeto terá saído de... projeto! Dai resultou que por mais de um século ficou sendo o Barredo - juntamente com o bairro da Sé - os locais de pior fama no Porto: estes mesmos agora classificados (e bem) de Património da Humanidade.

O contrário aconteceu precisamente no outro extremo desta freguesia, no bairro dos Banhos, onde toda a podridão das casas, das tabernas - e quem sabe das almas - desapareceu. Tudo levado por um furacão de demolições e aterros que em pouco mais de um um ano destruiu o que séculos de vida da cidade ajudara a criar. Pergunto-me o que poderia dar ele à cidade de hoje, quando vivemos tempos da hegemonia do turismo?

 

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Nota: Publicado originalmente no blogspot em 30 de novembro de 2009, agora revisto e ligeiramente ampliado.

Bibliografia: volume 7 do Portugal antigo e moderno de Augusto Soares A. B. de Pinho Leal, publicado em 1875.

O Porto em 1883 (n.º 4)

por Nuno Cruz, em 24.11.17

E eis que chegamos à conclusão da divulgação do texto de Ramalho Ortigão sobre o Porto, tal como o encontrou vinte anos depois de o ter deixado. Tenho para mim que esta é a melhor parte de um texto já de si bom.

 

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«É certo que na ordem intelectual, e na ordem industrial igualmente, o progresso da cidade está em muitos pontos de vista longe de condizer com o seu desenvolvimento material, no decurso dos últimos anos.


O comércio dos vinhos finos, por exemplo, esse grande veio da riqueza local, decai lamentavelmente de ano para ano, de dia para dia. A probidade impecável, a honradez proverbial que presidia a esta indústria, passou a ser matéria hipotética, ponto de contestação. Observa-se este fenómeno contrastante: por um lado a filoxera diminuiu consideravelmente a produção, por outro lado aumentou o consumo; entre estas duas influências combinadas para diminuir a oferta e para aumentar o valor deu-se precisamente o facto contrário: o preço desceu e a produção subiu! Que quer isto dizer? Que há duas espécies de filoxera, uma nos vinhedos do agricultor e outra nos armazéns do negociante; a primeira diminui e encarece a uva, a segunda embaratece e aumenta a droga. O bicho destinado a destruir dentro de poucos anos o famoso comércio dos vinhos do Porto não é o que ataca a videira, é o que ataca o vinho. A ruína não vem da cepa, vem da pipa. O flagelo mortal não está nas terras do Douro, está na Rua dos Ingleses. Compreende-se o mal enorme desta situação, perfeitamente declarada e manifesta, com relação ao comércio de um produto de condições especialíssimas, como o vinho, tanto mais difícil de acreditar quanto é mais fácil de corromper. O vinho adulterado, como o homem doente de nascença, tem a vida curta. A maior parte da beberagem que hoje se negoceia sob o nome de vinho do Porto não é suscetível de envelhecer. Como os relógios baratos, tem apenas equilíbrio para dois ou três anos. É preciso bebê-lo enquanto ele regula, isto é, imediatamente depois de pronto, como a sopa. Se o fazem esperar, por pouco que seja, ele embaça e transtorna-se. Mais alguns anos de experiência — o tempo preciso para os colecionadores de garrafeiras começarem a provar como velhos os vinhos presentemente novos —, e hão de ver que ninguém mais quererá vinho da véspera, e que os negociantes terão de o mandar pelas portas fresco do próprio dia, precisamente como o pão!


Antigamente os negociantes de vinho, no Porto e em Vila Nova de Gaia, constituíam verdadeiras dinastias burguesas, em que a honra do negócio e o respeito da firma passavam em brasão de pais a filhos e de filhos a netos. Esta aristocracia mercante acabou com o advento da nova aristocracia política. Antigamente contentavam-se em ser nobres pela probidade e criavam os filhos para mercadores como eles. Agora quase todos querem ser viscondes pela intriga e apelintram os filhos pedagogicamente para deputados. Enquanto ao vinho, dizem-me que as novas camadas sociais ainda sabem, no geral, bebê-lo; mas já não sabem negociá-lo.

 

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Outra indústria em decadência, como a do vinho, é a tão simpática indústria caseira da ourivesaria de Valbom. Os antigos feitores habilidosos que faziam ao alicate, em casa, às noites, depois do trabalho dos campos, as bolsas para dinheiro, os cordões de ouro e de prata, ou passaram a trabalhar na joalharia fina, à francesa, ou abandonaram o ofício, ou emigraram. As bolsas e os cordões ficaram apenas para os aprendizes, e são cada vez mais mal feitos, até que deixem de se fazer de todo, por não haver mais quem os queira.


Haverá talvez ainda, se procurarmos bem, um ou outro sinal de decadência nos costumes burgueses, no comércio marítimo, nas indústrias navais, na solidez da riqueza, no culto da arte.


A Sociedade de Instrução é, porém, um fenómeno significativo e consolador. Não sei até que ponto a simpatia do espírito público acompanha os esforços desta operosa associação, nem quais as forças de que ela hoje dispõe, mas creio que lucraria muito o engrandecimento da cidade e o futuro do seu comércio se uma liga de negociantes honrados e instruídos empreendesse na esfera prática uma renovação de movimento semelhante àquele que tão brilhantemente iniciou na órbita das ideias e nos domínios do ensino a associação a que me refiro.


Cumpre-me enfim consignar que o Porto perdeu esse bom e saudável cheiro provincial que tão especialmente embebe como de um aroma antigo a prosa dos seus grandes escritores — O Arco de Sant’Ana, de Garrett, e alguns dos romances burgueses de Camilo Castelo Branco e de Júlio Dinis.

 

Os antigos costumes locais desapareceram com as liteiras do Lopes e do Carneiro, com as cadeirinhas da Rua do Almada, com as tortas do pasteleiro da Rua de Santo António, com os carroções do Manuel José de Oliveira, com os Sanjoões da Lapa, do Bonfim e de Cedofeita, com as merendas pelo rio acima, com a política jacobina de José Passos, na sua casa da Viela da Neta, e com o velho botequim das Hortas, em que à noite se jogava o loto a vintém o cartão, e que, ao abrir-se uma das suas portas envidraçadas guarnecidas da cortininha de cassa branca, enchia de um picante perfume de calda de capilé e de café torrado a rua toda, sobre cujos lajedos dormiam estiraçados ao sol, entre os fardos de estopa e as molhadas de verguinha de ferro, os podengos cor de raposa e os galgos dos lojistas.


Aos domingos de Verão, o picheleiro do Souto, o guarda-soleiro da Bainharia, o ourives ou o mercador de panos da Rua das Flores, ia com o romper do dia à missa das almas a S. Francisco ou aos Congregados; comprava depois o melão, a melancia e as laranjas na Feira do Anjo, e, às seis horas da manhã, na frescura aquática do Cais da Ribeira, embarcava com a família em barco de toldo para a Oliveira, para Avintes ou para Quebrantões.

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O patrão, de quinzena de ganga e chapéu de esteira; as filhas à frente em toilette de musselina; a mulher ao lado, de saia de nobreza, luvas de retrós e a mantilha de lapim no braço, a jovem com as roupinhas novas de camponesa maiata; e o marçano atrás com niza de briche, camisa de linho caseiro, chinelas amarelas de grosso bezerro de Penafiel, e à cabeça o açafate dos víveres, discretamente cobertos com a alva toalha de olho-de-perdiz, e com o chapéu braguês, duro e afunilado, posto em cima, de remate ao festivo monumento campestre de gastronomia dominical: — o alguidar novo com a infalível sapateimda, as postas de pescada frita, as alfaces, as frutas e a inolvidável borracha de canada com o vinho maduro da Companhia, que há de ir refrescar ao fundo do poço, de borda ornada de craveiros e manjericos, debaixo dos álamos, enquanto a família em folga ripar a salada, sentada na erva.

 

 

 

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Bem sei caro leitor que estamos no final de um texto longo, nem sempre centrado na cidade, mas que nunca dela foge verdadeiramente pois tudo o resto é mero comparativo à realidade portuense. Finalizo sem mais enfastiar a sua paciência, até porque nada do que diga poderia substituir-se ao grande escritor que nos legou as linhas acima.

O Porto em 1883 (n.º 3)

por Nuno Cruz, em 21.11.17

Continuação da publicação anterior:

 

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«São espantosos os progressos do espírito de associação no Porto. Há ainda mais associações novas do que novas ruas. Perde-se a imaginação no abismo de tantas designações diversas: Sociedade Alexandre Herculano; Sociedade de Beneficência D. Luís I; Sociedade de Beneficência D. Pedro V; Associação Artística Portuense D. Maria Pia; Associação de Beneficência D. Fernando; Associação Humanitária Infante D. Augusto; Associação Liberal D. Pedro IV; Associação Liberal do Príncipe D. Carlos; Real Associação Restauradora de D. Maria Pia; Associação Vila-Novense Fé, Esperança e Caridade; Associação Católica; Associação Firmeza e Aliança; Associação Fraternal de Beneficência Universal; Associação Fraternal do Infante D. Afonso; Socorros Mútuos de Ambos os Sexos do Porto; Luz e Auxílio; Nova Euterpe; Sociedade Camoniana; Tecidos dos Operários do Porto; Amadores Vila-Novenses; Restauração de Portugal; Protetora do Porto; Beneficente Fúnebre Familiar; Sociedade Talma; Sociedade Parturiente Fúnebre; etc., etc., etc. Conto muito para cima de cem e afundo-me na voragem tenebrosa das mais devoradoras conjeturas ao querer interpretar o sentido dos títulos da maior parte delas.

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A de Socorros dos Sexos, Por exemplo, faz-me ourar a cabeça. A Tecidos de Operários arrepia-me os cabelos de horror. A divisa demagógica do sangue do último dos padres bebido pelo crânio do último dos reis parece-me aqui invertida para o lado dos conservadores, de um modo não menos canibalesco. Enquanto uns beneficiam toda a real família, desde o finado Pedro IV até à tenra vergôntea D. Afonso, apoiados na católica, nas três virtudes teologais de Vila Nova de Gaia, na luz e auxílio e, porventura, na própria firmeza e aliança, outros põem tabuletas de tecidos de operários e fornecem talvez dobrada de classes trabalhadoras com ervilhas aos restauradores da senhora D . Maria Pia!


Que fazem no entanto os beneficentes fúnebres familiares? Iluminam com lutuosos círios amarelos a agonizante bisca doméstica? Cantam aos pianos da Rua das Flores responsos de sepultura? Ensaiam no Jardim de S. Lázaro enterramentos simulados, de amadores, por companhias de defuntos curiosos? Organizam merendas de pingos de tocha pelo rio acima, em regatas de caixão à cova? Passeiam de corpo à terra, em berlindas de segunda classe, pela Rua de Trás da Sé? Ou cruzam os braços inertes no peito dos balandraus, hirtos, com dois rádios em X no laço da gravata, vendo circular os enganos e as ilusões da vida pela Calçada dos Clérigos em frente do António das Alminhas?!


Que devo pensar da Parturiente Fúnebre, ó meu Deus? Qual pode ser na terra a missão dos dignos sócios desta conspícua assembleia, adornada da sua respetiva presidência, dos seus dois secretários tesoureiro, cartorário e cobrador?... Desisto de o investigar.


Do número das sociedades recreativas desapareceu a velha Filarmónica, templo da antiga arte musical da cidade do Porto, santuário célebre onde receberam o primeiro batismo de semifusas tantos meninos prodígios e tantas donzelas que o Método Carpentier, manuseado com ardor, levou aos grandes triunfos da arte em convívio familiar na Rua da Fábrica, e onde se coroaram com os seus primeiros louros tantos músicos célebres, como o Francisco Eduardo da Costa, o Francisco de Sá Noronha e as grandes dinastias artísticas dos Ribas, dos Arroios, dos Napoleões.


Persistem ainda o Clube Portuense e a Assembleia Portuense, e há vários clubes novos, como o Real Clube Naval, o Real Clube Fluvial Portuense, o Clube Ginástico, o Clube dos Caçadores e o Clube dos Progressistas, assembleia de recreio fundada por operários e regularmente frequentada por eles e pelas suas mulheres.

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De entre todas estas associações, sintomas mais ou menos característicos do estado da civilização portuense, sobressai, como instituição de primeira ordem, em competência no País, a Sociedade de Instrução do Porto. Fundada para vulgarizar ideias e espalhar noções, a Sociedade de Instrução tem cumprido brilhantemente a missão que se propôs, e ela só, em quatro anos de existência, tem feito mais para o progresso dos conhecimentos do que os institutos oficiais de natureza análoga, todos juntos. No fim do primeiro ano da sua instalação, o presidente José Frutuoso Aires de Gouveia Osório resumia o movimento dos trabalhos empreendidos nos seguintes termos:

 

«O conselho científico, fiel intérprete da nossa lei, tem procurado com a mais louvável assiduidade estudar todos os meios de preparar fáceis soluções para os problemas da pedagogia, que absorvem a atenção de todos os pensadores. Na sua solicitude organizou o regulamento interno; fundou a nossa biblioteca e o seu gabinete de leitura, que hoje conta cento e catorze gazetas e publicações periódicas, e muitas centenas de volumes, alguns valiosos e raros; criou a Revista, de que se publicaram já seis números com duzentas e dez páginas; ordenou a aquisição de uma coleção-modelo para os jornais de infância, segundo o método Froebel; encetou a formação de uma bibliografia portuguesa de livros de ensino; começou o estudo e análise dos compêndios geralmente adotados, recomendando os melhores, o que é certamente um dos maiores serviços que pode prestar-se à pedagogia nacional; apreciou minuciosamente e louvou o compêndio de geografia, original do nosso muito ilustre sócio Augusto Luso; encarregou à provadíssima competência do nosso zeloso secretário-geral, o senhor Joaquim de Vasconcelos, um projeto de organização do ensino técnico com aplicação às escolas de instrução primária; investigou e discutiu detidamente as condições do ensino primário e dos exames de admissão, nomeando uma comissão para formular o programa de um livro de leitura; considerou a importantíssima questão da ortografia nacional; finalmente, uma das duas secções prepara uma exposição de história natural, que será, como creio, o ponto de partida para a organização de um museu, onde se reunirão objetos e meios de estudo sempre necessários para os que pensam em alargar os limites da educação.

 

Depois deste discurso (1881) a Sociedade de Instrução do Porto levou a efeito, com grande êxito, a exposição de história natural, a exposição de cerâmica, a exposição de indústrias caseiras e a exposição de ourivesaria, factos de um interesse incomparável para o estudo da natureza em Portugal, para a história do trabalho industrial, dos costumes domésticos, das tradições artísticas e das aptidões plásticas da família portuguesa.


A magnífica exposição de louças nacionais e a das principais indústrias tradicionais do povo reuniram os mais numerosos, os mais raros, os mais importantes documentos do génio artístico e da filiação estética da raça lusitana. E todos ou quase todos esses documentos foram minuciosamente e zelosamente estudados por alguns membros da corporação e especialmente pelo secretário da sociedade e o seu principal boute-en-tain, o senhor Joaquim de Vasconcelos, o mais competente e o mais erudito dos nossos críticos de arqueologia e de arte. A Revista da Sociedade de Instrução publicou por ocasião de cada uma das exposições, organizadas sob a sua valiosa iniciativa, as mais interessantes e preciosas monografias sobre as rendas portuguesas, sobre a indústria da olaria, da faiança, da porcelana e da louça de barro grosso, sobre os estofos, sobre os móveis, sobre a joalharia, sobre as alfaias e sobre as vestimentas nacionais.

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Além de trabalhos originais contendo a análise de documentos inéditos e estudos de coisas novas, a Revista tornou conhecidas as mais completas bibliografias de todos os trabalhos correlativas esquecidos nas bibliotecas, nos arquivos e nos cartórios do País.

 

No tomo vastíssimo de informações preciosas prestadas aos estudiosos e ao público pela Sociedade de Instrução do Porto encontram-se ainda trabalhos especiais consideravelmente importantes sobre a reforma do ensino, especialmente do ensino artístico e industrial, sobre a organização das escolas, do professorado, das galerias e dos museus, sobre os costumes e as tradições nacionais, sobre a língua e sobre as formas populares da arte, sobre a aprendizagem por oficias, e enfim sobre todos os mais importantes problemas da pedagogia moderna.


Nem as duas casas do Parlamento na discussão das sucessivas leis de instrução primária e de instrução secundária, feitas, desfeitas, refeitas e contrafeitas durante os últimos vinte anos, nem a junta consultiva ou a Direcção-Geral da Instrução Pública, nem os ministros, nem os deputados, nem os chefes de repartição, nem as comissões de estadistas, de professores, de curiosos e de vadios, tantas vezes convocadas, reunidas e louvadas nas dependências oficiais do Ministério do Reino ou das Obras Públicas, produziram jamais coisa que se compare aos relevantes serviços despremiadamente prestados à educação pública pela livre e espontânea iniciativa da esclarecida e benemérita Sociedade de Instrução do Porto.»

 

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(continua)

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