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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um Outeiro em S. Bento e uma notícia sobre nada

por Nuno Cruz, em 25.12.17

Caros leitores, neste dia de Natal, que espero esteja a ser agradável a todos vós, deixo-vos duas "notícias" do século XIX colhidas de dois jornais distintos. Vêm trasladadas do blogue O Porto de oitocentos que tem de ficar brevemente devoluto.

A primeira, muito possívelmente escrita por Camilo Castelo Branco, refere os célebres outeiros das freiras de S. Bento, também mencionados por vários outros autores e onde os poetas da altura se enamoravam das jovens ocupantes daquele mosteiro fundado por D. Manuel I.

A segunda é uma notícia banal; aliás, será notícia mesmo? Apenas aqui a coloco pelo pitoresco da história, pela pequena fresta que abre para aquele tempo. Talvez que quando foi publicada tivesse uma conotação subjacente que hoje não seja possível captar...

 

É enfim, para o leitor, uma publicação de "fácil digestão", própria para entreter cinco minutos enquanto se come uma rabanada! Bom Natal a todos!

 

 

DOIS ECLIPSES

«Para ontem à noite estava anunciado um outeiro e um eclipse: a lua não fez descortesia ao Borda d'Agua; as freiras de S. Bento deixaram por mentiroso o noticiador. Foram dous eclipses totais ao mesmo tempo. A nova abadessa, já nos constava, fez um protesto solene contra a poesia, receiosa de que, envolta em algum soneto, fosse hervada frecha de Deus vendado varar o peito de alguma das jovens seculares agasalhadas na casa do Senhor; mas quando anunciávamos a festa, tomávamos o papel do articulista do Times na questão de Nápoles, e incitávamos o público a ir com a sua presença no pátio, fazer o que dizem irá fazer a esquadra; obrigar aquele soberano absoluto, cujo ceptro é o báculo, a dar mais liberdade às suas subditas; deixa-las vir à grade; que mortas por isso estavam elas.

A pressão foi, porém, ineficaz; a abadessa mais política do que Fernando 2º deu-lhes uma festa, e em quanto os Manricos davam provas de que não eram bem cisnes, fugindo do pátio inundado por um aguaceiro, cantava-se lá dentro o miserere do Trovador.

Abstraindo desta pequena contrariedade, as filhas espirituais de S. Bento estão contentes com a abadessa, e posto que antecipadamente se falasse muito na candidatura desta e daquela, chegando-se mesmo a dizer, que uma estava em eminente risco de ser eleitora, sem para isso trabalhar, nem o saber e mesmo sem querer, votou tudo a carga cerrada, como se também lá por dentro houvesse chapéu mágico e lista de chapa.

Deus lhe conceda vida larga para dirigir aquelas ovelhas recolhidas no aprisco do Senhor.»

 

De O Clammor Publico de 14 de Outubro de 1856

 

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MORA AÍ PARA OS LADOS...

«Mora aí para os lados da rua Chã um sapateiro, que é, na frase do vulgo, mesmo o que se chama um larachista, quer dizer, um homem que conta muitos carapetões, que tem muito palavreado, que é o primeiro a rir-se daquilo que diz.

Ao pé dele mora um empregado público, que é casado com uma delambida que faz versos à lua, e não sabe deitar uns fundilhos numas celouras (sic), nem apontar uns coturnos. Ora, o pobre do empregado público, cujo chefe vai para a repartição logo pela manhã, e quer que os empregados entrem infalivelmente às 9 horas, tem muitas ocasiões em que quer ir para a repartição por serem horas, e não tem ainda almoçado(1), porque a cara metade está ainda deitada, sonhando com o sol e as estrelas. Acontece pois que o nosso homem sai sempre de casa com muito mau humor, porque se lembra que o chefe lhe dará algum sabonete se for mais tarde do que o costume.

O mesmo lhe acontece quando sai da repartição, porque então vai meditando o pobre do homem na grande tolice que faz um homem em casar com uma poetisa, que é cousa insuportável, muito mais para um empregado público.

Tanto à ida para a repartição como à vinda, passa ele pela porta do sapateiro, de que falamos no princípio do verídico facto que estamos narrando; e para ser perfeito o contraste, o sapateiro está sempre a rir-se quando o infeliz marido passa cabisbaixo.

Durava isto há muito; mas um destes dias disse o bom do homem de si para si:

- Isto é comigo.

Não me bastam as aflições que tenho; ainda o meu vizinho sapateiro escarnece de mim, rindo quando eu lhe passo pela porta! Mas deixa, que eu te ensinarei.

Foi direito ao regedor, e queixou-se do sapateiro. Este foi intimado e compareceram os dous contendores diante da autoridade, no dia seguinte.

O empregado público formulou a sua acusação, dizendo que vivia muito apoquentado pelas causas que o leitor já sabe, e que de propósito para lhe causar ferro, e atormenta-lo mais, o seu vizinho se ria dele.

- Há-de pois dizer-me, exclamou ele com violência e agarrando o sapateiro pela gola do casaco; há-de dizer-me para que se ri quando eu passo em frente da sua loja!

- Sim, sim, respondeu o sapateiro no mesmo tom; há-de você também dizer-me porque passa em frente da minha loja, quando eu me riu!

- Muito bem, disse o regedor, dirigindo-se ao empregado público; isso são apreensões suas, e bem se vê que este homem não se ri de V. S.ª mas, como ele diz, e diz muito bem, a questão é passar pela porta dele quando ele se ri. Ora, o remédio, é V. S.ª mudar de caminho quando vai para a sua repartição, e quando sai dela para se dirigir a casa.

Assim se fez. O empregado público mudou de caminho, e o sapateiro continua a rir-se quando tem vontade.»

 

In Jornal de Noticias (2) de 27 de Junho de 1865

 

1 - O almoço do século XIX corresponde ao nosso pequeno-almoço. Jantava-se aí pelas 14h, a meio da tarde havia a merenda e à noite a ceia (ainda hoje em galego almorzo e xantar tem os significados originais da palavra, tal como no Portugal do século XIX).

2 - Este não é o periódico que todos conhecemos e que ainda existe - fundado em 1888 - mas sim um outro que existiu apenas em 1865 e que está, em parte, na base do O Primeiro de Janeiro.

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Nota: Originalmente publicadas no blogspot em 24 de dezembro e 29 de dezembro de 2013, respetivamente.

O armazém do Sr. Forrester

por Nuno Cruz, em 17.12.17

Em agosto de 1854, o jornal O Comércio (futuro O Comércio do Porto) visitou o armazém de vinhos de Joseph James Forrester, mais conhecido pelos interessados pela história do vinho do Porto e do próprio Porto por Barão de Forrester(1). Dessa visita resultou a "reportagem" que abaixo transcrevo, muito interessante sobre vários aspetos, mas sobretudo para entendermos como era e como se trabalhava no armazém desta figura tão proeminente na sua época, precocemente desaparecida de uma forma trágica.

 

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«Sabendo que o Sr. Forrester tinha estabelecido no seu armazém da Ermida em Vila Nova de Gaia um caminho-de-ferro por onde girava um carro acelerado construído convenientemente para o serviço das vasilhas, levado pela curiosidade que nos promovera objeto tão novo, fomos à morada do Sr. Forrester; e seguro da dignidade que caracteriza este cavalheiro solicitamos de S. Sª o mostrar-nos o seu armazém e a permitir-nos presenciar o trabalho pelo seu novo sistema.


Não tínhamos a honra de contar-nos na tratabilidade do Sr. Forrester, e o nosso título de apresentação não passava do desejo, que assistia a uma pessoa, quase desconhecida deste patriótico comerciante. Faltávamos a um rigoroso dever se deixássemos de patentear como fôramos recebidos pelo Sr. Forrester, e pelo seu digno filho, da maneira que mais podia lisonjear-nos. S. Sª tiveram a nobre franqueza de mostrar-nos todo o seu estabelecimento, dando-nos civilizada e agradavelmente as necessárias explicações tendo nós a ocasião de ver que o novo mecanismo, que o Sr. Forrester apropriara ao seu armazém, aponta a passagem para o progresso naquela qualidade de trabalho.

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O armazém  de um comprimento de perto de 500 palmos, é cortado no centro por uma linha férrea das dimensões usadas nos caminhos de ferro ordinários. Por esta linha, que separa os seis rumos, que comporta a capacidade do armazém, percorre o carro acelerado pelo impulso, que pode dar-lhe a força de um ou mais homens conforme a necessidade o exija. Este carro mandado construir de propósito na Inglaterra debaixo da inspecão do Sr. James, filho do Sr. Forrester, compoem-se de dois corpos, estando num deles colocado um guindaste, que levanta as pipas ou para o 2º ou 3º corpo, a fim de serem transportadas para o ponto que se queira ou para a altura do lote, a que seja necessário eleva-las. O serviço assim feito substitui o trabalho pelo menos de três quartas partes dos homens, que se empregavam e empregam no sistema antigo. As lotações e os benifícios fazem-se com tal celeridade que a grande a conveniência do carro e do guindaste se torna evidentemente palpável. Para quem nos outros armazéns presencia a fadiga dos trabalhadores para fazer rolar as pipas levando-as a qualquer ponto determinado através do custoso impulso das mãos, vendo-as rojar pelo pavimento térreo com manifesta deterioração de todos os elementos, que as compõem, além dos grandes balanços, que o líquido sofre dentro da vasilha, estorvando a sua pronta depuração, não pode deixar de maravilhar-se que o Sr. Forrester achasse o segredo de acabar com estes inconvenientes tornando o serviço mais suave e reconhecidamente mais proveitoso para as vasilhas e líquidos armazenados. Para mais satisfazermos nossa curiosidade quisemos experimentar a impressão do movimento do carro através do carril de ferro, e com os nossos companheiros fizemos a carreira de toda a linha e foramos perfeitamente surpreendidos, podendo fazer ideia, se bem que aproximada, do trânsito das locomotivas nas vias férreas, de que só temos visto a descrição(2).

Seria bem para desejar que os comerciantes de vinhos seguissem o exemplo do Sr. Forrester, aproveitando os grandes resultados, que a ciência da máquina oferece ao trabalho, dando assim uma prova de que os adiantamentos daquela ciência não passam infrutíferos para nós.

Além da inovação do caminho-de-ferro, e do carro, que por ele percorre, que não pode alcançar todo o serviço a fazer no armazém, o Sr. Forrester introduziu no trabalho, que dirige, pequenos carros de mão adequados aos misteres. Os hoptrucks servem especialmente para transportas os cascos vazios, demandando apenas a pequena força de um rapaz. Uns de quatro rodas baixas, que se empregam na condução das pipas cheias para qualquer dos pontos dos terceiros rumos pelas diferentes coxias do armazém: e outros mais pequenos, que servem unicamente no trânsito ao vinho engarrafado, tendo a vantagem, além de se moverem com facilidade, serem construidos de modo tal, que a quebrar-se alguma das garrafas o vinho é recebido num depósito e aproveitado.

Não há só a notar no armazém do Sr. Forrester  as inovações, que deixamos mencionadas: além delas, a regularidade na colocação de todos os objetos para que apareçam de pronto quando necessários, concorre também muito para a singularidade do estabelecimento. As ferramentas e demais utensílios são todos no possível esmero do trabalho, não podendo deixar de promover um vantajoso resultado nas operações. Os utensílios, que se destinam à depuração das borras, são tão engenhosamente concebidos que produzem uma notável disparidade, comparados com os do sistema nos outros armazéns seguido.

Os armazéns de Vila Nova não sendo de construção subterrânea, como o são em outros países para ministrar aos líquidos a frescura de que necessitam, precisam de ser continuamente refrescados com água. Para esse refresco mandou o Sr. Forrester vir e emprega no seu armazém a bomba chamada force-pump, que o refresca e ao mesmo tempo as vasilhas que nele se acham, servindo também para bomba de incêndio.

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Para estimular os sentimentos dos trabalhadores e infundir-lhes os preceitos da moralidade, que devem guiar o homem em qualquer posição, que se encontre, o Sr. Forrester mandou escrever na porta do armazém os dois preceitos que devem dirigir a conduta dos operários - O mérito será premiado - o vício será punido - Praticando estas duas saudáveis máximas, o Sr. Forrester todos os sábados recompensa monetariamente o trabalhador ou trabalhadores, que de recompensa se tornem dignos durante a semana.

Ao lado do armazém está a tanoaria, descobrindo-se nela o mesmo sistema de regularidade. O alimento dos trabalhadores é preparado em comum a troco de uma diminuta parte do salário a qual não excede a vinte réis diários, tendo assim aqueles por uma insignificante quantia um rancho excelente, muito mais barato e abundante do que o teriam feito por conta de cada um em particular, resultando, além desta vantagem do trabalhador a do Sr. Forrester que nos disse não prejudicar-se e conseguir para o trabalho o tempo que cada trabalhador perdia com o seu arranjo particular de comida, que pelo sistema adotado se faz convenientemente por dous aprendizes da tanoaria ou do armazém. Os aprendizes não concorrem para o rancho, que o Sr. Forrester lhes manda ministrar gratuitamente, concedendo-lhes de mais quatro horas por dia para poderem ir à escola. O Sr. Forrester leva tanto a empenho de interessar os operários no seu estabelecimento que ele próprio vigia a cozinha, procurando por todos os modos que o rancho seja tanto quanto ser possa agradável aos trabalhadores. O vinho dado de bebedagem é dado regradamente; mas na precisa abundância, não sendo negado de modo algum, quando o exige o cansaço do trabalho.
A economia na despesa é um feliz resultado de todas as combinações, em que a experiência do Sr. Forrester assentou o seu novo sistema. É assim que a boa prática de administrar pode reunir as reciprocas vantagens do trabalhador e do dono do armazém. Parece-nos que deviamos a nossos leitores a descrição do que viramos, pois que ela não será indiferente a parte deles, que na especialidade se empregam no importante ramo do comércio do vinho.»

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do jornal O Comércio(3), de 30 de agosto de 1854.

 

1 - Título que apenas lhe foi atribuído no ano seguinte.

2 - Ainda não existia caminho de ferro em Portugal em 1854...

3 - Que a partir de 1855 passaria a diário com o nome O Comércio do Porto.

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Publicado originalmente no alojamento d' A Porta Nobre no blogspot em 23 de dezembro de 2012.

Imagens meramente ilustrativas do Arquivo Municipal do Porto.

 

Um alinhamento polémico

por Nuno Cruz, em 11.12.17

Algumas plantas que se apresentam à disposição no sítio do Arquivo Municipal do Porto, embora de uma forma geral elucidativas, vêm muitas vezes descontextualizadas dos seus suportes escritos, que nos permitem melhor avaliar o projeto que se nos apresenta. Por mais de uma vez dei por mim a consultar pareceres em que as referências a essas plantas existem, mas as plantas não estão junto deles. É o caso de um texto que se refere à planta que apresento abaixo e que, creio, se não foi feito para ela, está intimamente relacionado com ela.

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Planta aprovada em 1838 e elaborada por Costa Lima Júnior, nela diz: «Plano topográfico que representa a atual direção da rua Ferreira Borges pelas linhas marcadas de preto, e ao mesmo tempo a direção que a mesma pode tomar para impedir a demolição de hua parte da igreja de S. Francisco, seguindo as linhas de pontos que terminam em AB».

A planta acima mostra-nos a parte final do alinhamento da rua Ferreira Borges e que deu bastante polémica nos jornais da época aquando da sua abertura (1835-1838); nomeadamente mostra-nos a dúvida sobre como deveria ser rematada a rua no seu extremo sul, local em que passava por detrás de igreja de S. Francisco. Convêm elucidar que a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto (ACP) que a tomou a cargo desde o início e com o apoio camarário. Contudo, após a Revolução de Setembro (1836), esse apoio desvaneceu.

Já em 1837, a comissão daquela instituição encarregada de superintender a obra da rua propõe à ACP a destruição da capela-mor da igreja, para o correto alinhamento da rua. Num ato de lucidez a mesma rejeita essa proposta, sendo elaborado um novo projeto que a substitui, posteriormente apresentado à Câmara. Ainda assim, convêm não esquecer que o projeto original da rua - de 1835 - aparentemente incluía a demolição daquela parte da igreja gótica, tendo sido aprovada com a conivência da Câmara da altura (talvez neste particular se possa desabafar: bendita revolução setembrista...). Isto porque em consequência da resolução (interna) de manter aquela parte da igreja, a Associação solicita-a à Câmara informando ao mesmo tempo que outra planta estava já em preparação.

A edilidade aproveita o momento para tomar um pouco as rédeas de uma obra que estivera fora da sua alçada, fazendo uma vistoria ao local. Mas, não querendo tomar parte definitiva na resolução do problema, elabora também ela a sua proposta para o remate da rua. Explica a Câmara que «se o edifício do Tribunal do Comércio não fica na frente desse alinhamento, nem por isso se peora o aformoseamento, estabelecendo dele ao pavimento da rua um paredão que forme um terraço, no qual colocada uma baranda muito concorre à boa vista que apresentará, e à perfeita segurança que ainda se torna indispensável aos alicerces daquele edifício, que no estado em que se acham, carecem indispensavelmente de alguma atenção para poder-se tirar proveito de tal edifício, podendo nesse mesmo paredão formar-se uma arcaria que poderia ter bom rendimento pela sua localidade». Para além disso, a Câmara exigia que a ACP revertesse o uso da igreja para o seu original intento do culto divino, suprimindo-a ao enxovalho de ser usada como armazém alfandegário, e também que o alinhamento se fizesse pela sua planta.

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Em primeiro plano vê-se a zona da polémica onde é visível a iminente ruína da capela-mor (desenho de J. Holland, 1837). Notar que o edifício da Bolsa ainda não existe pois a sua construção só foi iniciada em 1842; o que ali se vê é a antiga estrutura do convento franciscano.

Assim decorre durante quase todo o ano de 1837, uma polémica sobre os três alinhamentos agora propostos: o original que faz demolir a capela-mor, o alternativo da ACP e o da Câmara. A juntar a tudo isto existe também envolvido o pedido de licenciamento por parte de José Ferreira dos Santos Silva[1] para um grande edifício a construir em frente ao Palácio da Bolsa, também com fachada virada à rua do Infante D. Henrique; projeto esse que aguardava a conclusão da rua e que tardava a arrancar dado o "imbróglio" que ali se apresentava.

Em outubro de 1837 o administrador geral do Distrito do Porto requer à Câmara um parecer sobre a conservação da capela-mor e a sua transformação em armazém da alfândega, mandando também o arquiteto da cidade levantar a planta da Rua Ferreira Borges de modo a conservar a capela. Neste parecer, elaborado por Joaquim da Costa Sampaio Lima onde este refere que, excluída que estava a demolição da capela-mor, o alinhamento da Câmara é preferível com vantagem de com o projetado terraço exterior ao edifício o mesmo edifício recuperaria maior solidez do que muito precisa por se achar ameaçando ruína e bastante desaprumado e também que esta rua alinharia mais exatamente com a frente de S. Nicolau. Além de que o seu alinhamento destruiria em parte a agudeza do ângulo formado com a rua do Infante D. Henrique, e o tornaria mais vizinho à linha perpendicular e claro, se pouparia a demolição daquela parte do templo que algum respeito merecia. Mas diz mais:


«Como a Associação (digo) não aceita o novo projecto, e prescinde das suas respectivas vantagens, então julgo que de necessidade se deve abraçar o primeiro plano, o qual consigo arrasta a demolição da referida parte daquele templo que aliás ficaria servindo ali de um perpétuo estorvo. Não concordo porém no que propõe a Associação Comercial quanto a estorvar-se que José Ferreira dos Santos Silva, edifique na porção triangular colocada na extremidade da rua; seria sem dúvida muito mais defeituosa a porção mutilada, o alinhamento interrompido, e o número de ângulos multiplicado ... sendo claro que um ângulo agudo não é senão um defeito, e para fugir deste cairíamos no ângulo obtuso ... que se reduz a um defeito do mesmo valor mas em sentido contrário, portanto sou do parecer que por nenhum modo se estorve que as duas linhas se cruzem no vértice onde as conduz a sua primitiva inclinação e por conseguinte se permita ao mencionado proprietário de edificar no terreno ponte-agudo».

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Acima uma montagem das duas plantas que Santos Silva enviou à Câmara e esta aprovou. À esq. a fachada virada à rua Ferreira Borges (fazendo frente ao Palácio da Bolsa) e à dir. a fachada para a rua do Infante. Esta casa, como sendo a primeira a ser solicitada naquela rua no lado nascente, serviu para modelar uma possível distribuição de edifícios até ao cunhal com a futura rua da Bolsa, como se pode ver na planta abaixo aprovada logo 1838. Nela se lê: «A primeira casa composta de oito portas representa a propriedade que vai edificar José Ferreira dos Santos Silva sobre a rua Ferreira Borges, - as seguintes são as diversas propriedades sujeitas a chãos de vinte e cinco palmos; mas se por ventura algum particular edificar em mais de um chão deverá seguir o estilo da casa de Santos Silva»:[2]

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Arrastando-se ainda por mais um tempo, a questão apenas ficou resolvida em janeiro de 1839, quando o governo concedeu a igreja que outrora fora do convento franciscano à sua Ordem Terceira, que ainda hoje a possui. Também a partir desta altura pode a ACP concentrar todos os seus esforços na construção do Palácio da Bolsa e quanto à casa particular, esta nunca chegou a ser edificada. A Câmara tomou finalmente posse da obra da rua e no relatório apresentado no início de 1840 pelo presidente interino Manuel Joaquim Gomes Cardoso Júnior, podemos ler este singelo mas elucidativo parágrafo sobre ela:

 

«Não era com indiferença que a Câmara olhava para o péssimo estado em que se achava a encetada rua - FERREIRA BORGES - que mais parecia um foco de imoralidades e misérias, do que rua de trânsito em meio de uma cidade; porém esta inação provinha da ideia, ou por melhor dizer, do facto de pertencer o seu complemento ao Governo, visto haver este retirado da Administração Municipal a execução do plano da mesma rua: mas logo que esta lhe foi entregue, por ordem do mesmo Governo, a Câmara não hesitou em tomar esse encargo, e empregando os meios adequados tem levado as suas obras ao ponto de adiantamento em que se acham».

 

Esse ponto de adiantamento não deveria ser muito diferente do estado que a rua apresentava no pormenor fotográfico que se pode ver abaixo, colhida cerca de uma vintena de anos depois. Do lado poente a rua tem já todo o aspeto que se vê na atualidade, mas aquela área da cidade estava ainda longe de revelar na totalidade a aparência que hoje conhecemos...

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1- Notar que embora uma casa ali nos possa causar atualmente estranheza, temos de ter presente que toda a rua do Infante estava edificada, não existindo ainda o jardim.

2 - Quase escusado seria referir que nada do que na planta vemos foi realmente edificado tendo no seu lugar nascido, cerca de 50 anos mais tarde, o jardim do Infante. Uma pena de facto; que belos hotéis e hosteis dariam hoje em dia com vista privilegiada para um dos mais monumentais edifícios da cidade...

 

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NOTA: Originalmente publicado no blogspot em 2 de outubro de 2016, agora revisto e aumentado.

Uma capela e um hotel

por Nuno Cruz, em 05.12.17

Aquando da demolição do antigo bairro do laranjal ou laranjais muitas foram as habitações demolidas e com elas alguns arruamentos suprimidos. Desapareceram também (em 1915) os dois palacetes que se encontravam afetos à Câmara Municipal, tendo a mesma transitado temporariamente para o Paço Episcopal. Por trás do palacete principal da Câmara existia uma capela denominada dos Três Reis Magos que teve forçosamente que desaparecer. Situava-se na rua do Laranjal, bem perto da bifurcação com a rua Elias Garcia.

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(foto retirada do sítio da Câmara Municipal de Cantanhede)

 

Esta capela que fizera parte do palacete, sendo capela privada ainda que com porta para a rua, encontrava-se sensivelmente onde hoje começa a faixa de rodagem ascendente da mesma avenida. No entanto, e ao contrário da hecatombe que tudo ou quase tudo levou, a pedra desta capela foi comprada por um indivíduo e foi deslocada para Cantanhede, mais precisamente para uma terra chamada Pocariça, onde ainda pode ser admirada. Ao lado podemos ver uma foto dessa mesma capela que já estava no local mais central da nossa cidade, mas que agora prossegue a sua vida - e ainda bem - num ambiente algo mais calmo. Não há, infelizmente, muitos exemplos desses.

 

Bem perto dela existia o hotel de Francfort, casa conhecida e com algum nome na cidade. Sobre este hotel apresentou aqui um texto de António Lança, publicado n' O Tripeiro de 1 de abril de 1919:

 

«Já não existe, como todos sabemos. Também não ficou a fazer falta aquele casarão inestético exteriormente, e que só se tornou célebre por durante muitos anos ser o hotel preferido pelos estrangeiros, pelas celebridades de todos os géneros e pelos endinheirados. Frequentar o Francfort dava tom e civilizava os que desejavam adquirir maneiras distintas.

 

Talvez o leitor desconheça que, antes de ser construído aquele prédio, a área por ele ocupada, uma nesga lateral do excesso do terreno, aonde foi aberta a rua do Bispo (depois D. Pedro e agora Elias Garcia[1], foi destinada pela Câmara, em 1849, para cemitério dos cães. V. Ex.ª fica admirado por ter o Porto precedido várias cidades europeias e americanas na invenção de um local destinado à sepultura da população canina, o que talvez fosse motivado por haver aqui cães em abundância e não existir ainda fábrica de guano, ou congéneres, para onde se lhes removesse a carcaça, depois de mortos. Esse destino findou em 1851, ano em que o negociante Luís Domingos da Silva Araújo requereu à Câmara a venda do terreno, para ali edificar o prédio, há dois anos demolido. Está portanto devoluto o terreno do antigo cemitério dos cães, provisoriamente sentina pública, ao natural, enquanto não se integrar na Avenida[2], por onde estadiam o seu luxo e elegância os janotas e as gentis descendentes dos novos ricos.

 

Apenas se concluiu o edifício, logo se montou o hotel, em cujos baixos Paulo Podestá, falecido ai por 1869, instalou a sua livraria e tipografia Internacional, sendo aquela a mais bem organizada do Porto. Depois conheci ali a Cervejaria Schreck, e o café Chaves, que de anos a anos muda de poiso. Pelo hotel passaram inúmeros forasteiros de nome, em especial gente de teatro, e muitas celebridades líricas, como a Ida Benza, a Isabella Schwichner, a gloriosa Ristori, a Darclée, a Elisa Hensler, que depois casou com o rei D. Fernando, a Chiaramonte, a Dealberti, etc., pois o Porto em tempos foi grande apreciador de bom teatro lírico, não se contentando com artista de segunda plana. O penúltimo dos seus proprietários, François Babel, muito culto e de bastante iniciativa, quis torná-lo um hotel moderno, dotando-o até de balneário, mas a casa não se prestava a isso. Ainda assim, para o tornar conhecido fora do Porto, estabeleceu ali jantares de réclame, às quintas-feiras, bem servidos, e relativamente baratos, que lhe deram nome. A custo se ia tenteando, se não fosse o advento da república, que deslocou os políticos para o Grande Hotel do Porto, conservando-se-lhe apenas fiel, enquanto viajava, o Sr. Dr. António José de Almeida. A morte do Conde de Alves Machado, que ali viveu durante cerca de 40 anos, produziu nele um imenso vácuo. Babel faleceu, A casa ia em decadência. A freguesia foi-se retraindo e não primava pela generosidade; às vezes nem pontual era no pagamento das contas. Ainda nas vésperas do seu encerramento teve de penhorar as malas de uma conhecida atriz, que passava por trazer a carteira bem recheada. Já por vezes acontecera outro tanto com vários fregueses.

 

As obras da cidade vieram dar-lhe o golpe de morte: o prédio era necessário, a fim de melhor se desenhar o bacalhau[3], adoptado para modelo da sua planta. Custou-lhe, porém, a deixar-se entregar ao município. Ainda lá havia hospedes e já o camartelo municipal lhe esmoucava os telhados e as cantarias. Parece que algo de saudoso lhe custava a desprender-se dali; talvez os vários suicidas, que nos seus leitos se despediam da vida, como o espírito dilacerado da noiva do filho de Urbino de Freitas, vinda do Alentejo ali amortalhar-se, para a colocarem, no jazigo da Lapa, ao lado da alma gémea da sua, que tanto sofrera, em tão curta idade! O último cadáver que de lá saiu, foi o Dr. Teixeira de Sousa, o derradeiro chefe do Partido Regenerador e presidente do conselho, à queda da monarquia: não se suicidou, mas morreu torturado pelos caprichos do destino!»

1 - Destruída para abertura da avenida dos Aliados; 2 - A dos Aliados, é claro; 3- Refere-se, com toda a certeza, ao formato da nova avenida vista de cima.

 

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Da direita para a esquerda temos: restos das traseiras do palacete da Câmara Municipal do Porto, a capela dos três Reis Magos, a rua do laranjal (ao fundo edifícios da rua dos Lavadouros), o Hotel Francfort e finalmente à esquerda a rua Elias Garcia. Tudo desapareceu para se formar a avenida dos Aliados.

 

 

Para termos uma ideia mais precisa do local onde ficava o hotel, atente-se nas imagens aqui colocadas:

 

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A foto acima retrata o progresso das demolições do "bairro do Laranjal" para abertura da avenida dos aliados e creio ter sido tirada aí por 1916... À direita está o edifício do hotel. Verifica-se o que diz o cronista: mesmo com o camartelo à porta ainda laborava! A imagem apresentada abaixo, toscamente elaborada por mim com ajuda do Bingmaps, tenta ilustrar o local de onde esta foto foi tirada. Não estando tudo localizada com a precisão de um GPS, seria contudo naqueles locais que as antigas estruturas se encontravam.

Note-se que desta perspetiva se podem ver algumas casas que antes da construção da nova avenida tinham frente para a rua (de Elias Garcia) e estão agora escondidas, sendo meras traseiras dos imóveis que as substituíram na fachada atual da avenida (este "tapamento" teve logo início no edifício do café Embaixador).

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Legenda: O X vermelho indica o possível local da foto; a azul a antiga rua do Laranjal, verde a rua Elias Garcia e amarelo o Hotel Francfort.

 

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NOTA: Esta publicação aglutina as que existiram no blogspot, publicadas em 29 de novembro de 2009, 19 do mesmo mês e ano e 29 de abril de 2010, respetivamente.

 

Bibliografia:

O Hotel Francfort, artigo de António Lança publicado n' O Tripeiro de 1 de Abril de 1919.