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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A ponte D. Maria II

por Nuno Cruz, em 28.01.18

Terá, caro leitor, ficado por uns segundos confuso com esta designação? Que ponte é esta?! A do caminho-de-ferro? Não essa era a de D. Maria Pia, a princesa italiana que casou com o rei D. Luís e que em 1910 foi obrigada, já idosa, a embarcar para o exílio juntamente com o neto D. Manuel II. Na verdade, esta ponte é a estrutura que ficou conhecida por ponte pênsil, nome pela qual os jornais da época quase a tratavam em exclusivo, alternando com o termo ponte sobre o Douro. Teve o mérito de ser a primeira ponte permanente que existiu ligando as duas margens e constituía o remate da também primeira verdadeira estrada Lisboa-Porto. Levou o nome de D. Maria II, monarca reinante aquando da sua construção, que viria a falecer em 1853 durante o parto do undécimo filho.

 

Pessoalmente, fico sempre encantado quando olho para uma qualquer fotografia que a revele, sobretudo quando tirada da Serra do Pilar. O conjunto dado por aquela estrutura, pela silhueta da cidade velha atrás e os "longínquos" montes do Candal, Arrábida e lá bem ao fundo a foz do Douro; transportam-me sempre para uma época em que - incompreensível para o portuense de hoje - o Porto era ali. As localidades não se entrecruzavam, Massarelos e Cedofeita eram arrabaldes e o mundo andava talvez a um ritmo mais humano. Não ocorrera ainda a cisão da paisagem, que a ponte Luiz I viria a impor com a sua colossal massa de ferro... Estavamos portanto na presença do Porto do romantismo na sua plenitude!

Mais abaixo deixo-vos com o texto que Pinho Leal nos legou no seu Portugal Antigo e Moderno, sobre esta ponte.

 

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Neste pormenor de uma imagem de cerca 1872 vê-se a ponte D. Maria II mas também a antiga estrutura onde apoiava a ponte de barcas, já com as alminhas para sempre lembrando o fatídico desastre de 29 de março de 1809. Aquando da inauguração da ponte D. Maria II os barqueiros foram relocados para lugares mais distantes dela, o que originou o seu protesto por se verem discriminados face à nova concorrência daquela passagem.

 

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«Vê-se ainda sobre o Douro a Ponte Pênsil, um pouco mais ao nascente do local onde esteve anteriormente a ponte das barcas (...). Fica entre os Guindais, do lado do Porto, e o sítio denominado o Penedo, na margem fronteira.

Está suspensa por oito grossas correntes, feitas de fios de arame de ferro queimado, cobertas de uma espessa crusta de verniz, as quais, divididas em dois grupos, assentam sobre quatro elegantes obeliscos ou colunas de granito, que se erguem das margens do rio nos dois extremos da ponte, sendo cada par de colunas ligado entre si por pranchas de ferro junto aos capitéis, e vendo-se nas ditas pranchas a seguinte legenda: “D. Maria II – 1842”. As oito correntes atravessam as quatro colunas, e descendo até ao solo, são chumbadas com grande solidez em rocha viva muito abaixo do nível de superfície com enormes chumbadouros dentados, que alargam por largo a rocha. Destas correntes pendem perpendicularmente outras da mesma espécie, mas muito mais delgadas, em número de 211, ficando 108 do lado do nascente, e 103 do lado do poente, e dispostas em iguais distâncias seguram pela extremidade inferior as vigas sobre que assenta o pavimento da ponte, que é de madeira, variando o comprimento destas correntes na razão da curva que descrevem as oito correntes principais. No centro das duas colunas do lado da cidade há uma casa, cujo pavimento inferior serve de quartel para a guarda militar, que faz a polícia da ponte, e no pavimento superior há uma espécie de salva-vidas com uma maca, uma cama, roupas e aparelhos próprios para socorrer as vitimas de qualquer naufrágio ou desastre; e do lado de Vila Nova há outra casa igual àquela, que serve de habitação para alguns dos empregados na cobrança das passagens, e armazém de utensílios da ponte. Há também nas extremidades da ponte duas casinhas, onde se cobra o imposto de trânsito, e que é, com pequena diferença, o mesmo que se pagava na antiga ponte de barcas.

A ponte é iluminada a petróleo nas noites em que não há luar, por seis candeeiros, além dos da casinha do lado da cidade, pois de noite só nesta casinha se paga o imposto do trânsito.

 

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Mais antiga cerca de uma década do que a imagem acima, este pormenor de uma vista panorâmica da cidade mostra-nos os pilares norte da ponte, aqueles que ainda hoje subsistem (os pequenos círculos a laranja mostram o local onde os tirantes foram chumbados na rocha). No miolo desses pilares encontra-se a casa da guarda da ponte bem como o andar superior com os apetrechos salva-vidas. Vê-se também a casa da cobrança do imposto (1), a rampa construída - não sem polémica - para acesso à ponte (2), uma passagem pedestre para cima do muro (3) e aquilo que parece ser um troço da antiga muralha gótica, na continuação dos arcos (4). Este troço está atualmente em parte exposto dentro de um pequeno espaço comercial.


O pavimento da ponte tem passeios e varandas de madeira, e destas a do lado de o nascente mede desde a coluna do sul até à casinha de arrecadação do lado norte, 154m, e a casinha 4,5m; e desta casinha até à coluna que fica do mesmo lado, 8 metros e dois centímetros – total, 166 metros e 70 centímetros. A varanda do lado poente, por causa da entrada da cidade para a ponte, é menos extensa, e mede 153 metros; a altura destas varandas é de um metro e dois decímetros; o passeio tem de largo um metro, e a ponte 6 metros de abertura. Os obeliscos, que são perfeitamente iguais, medem desde a base até à sua extremidade superior, que é decorada por um globo metálico, 18 metros de altura; cada um daqueles globos tem um metro de diâmetro, e os tirantes, ou pranchas de ferro que ligam as colunas, medem de comprimento 7 metros e dois decímetros, e de largura 5 decímetros, cada um.

Deu-se princípio a esta ponte no dia 2 de Maio de 1841, aniversário da coroação da rainha, ao tempo a senhora D. Maria II. No dia 1 de Fevereiro de 1843 já se achavam completas as obras principais e esperava-se apenas ordem do governo para a inauguração e abertura da ponte, dispondo-se os representantes da companhia construtora para tornarem aquele ato solene e aparatoso; mas sobrevindo uma cheia no Douro, que obrigou a retirar, na forma do costume, a velha ponte de barcas no dia 17 de Fevereiro daquele ano, abriu-se para o trânsito público a nova ponte no dia 18 de Fevereiro de 1843.

Foi feita esta ponte sob a direção do engenheiro de Claranges Luccotte, a expensas de uma companhia de acionistas que a devia fruir por espaço de 30 anos, entregando-a no fim deles ao Estado, de quem é propriedade, e foi construída na praia de Miragaia, no mesmo local que hoje ocupa a nova Alfândega; e para aquele efeito, a empresa construtora levantou ali um amplo abarracamento para montar as forjas e mais oficinas necessárias, precedendo licença da Câmara Municipal, e assinando a companhia um termo pelo qual se obrigava a demolir tudo, e repor aquele chão no estado em que o encontrou, apenas terminasse a obra, cláusula que a empresa por último não queria cumprir, mas a Câmara recorreu ao poder judicial, oficiando ao juiz eleito da freguesia de Miragaia, a fim de compelir (como compeliu) a empresa a satisfazer o estipulado.»

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Embora Pinho Leal refira Claranges Lucotte como o engenheiro que superintendeu a construção, o engenheiro responsável pela sua conceção foi Stanislas BigotAqui poderá o leitor curioso ter acesso ao livro publicado em Lisboa em 1843, onde é explicado o projeto. Este opúsculo é também assinado por um engenheiro auxiliar(?), Amédée Carruette, nome que trago para a frente no intuito de a sua memória poder colher algum dos louros daquele monumento, que por cerca de meia centena de anos uniu em permanência as duas margens.
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Nota: publicado em 12/09/2009 no blogspot, agora revisto e aumentado.

Bibliografia: Portugal antigo e moderno, de Pinho Leal (artigo S. Nicolau no vol. 6).

Dois Autos de Fé no Porto

por Nuno Cruz, em 22.01.18

O rei D. João III ficou para a história como responsável por trazer para o nosso país a Inquisição, que se revelou de uma ignóbil crueldade entre a tentativa de extirpar heresias até ao saque puro e duro sob o disfarce da religião. Não me avançando mais do que estas linhas gerais de tão obscuro movimento, o que pretendo aqui apresentar, e porque este blogue é dedicado à história da cidade do Porto, é a descrição de dois autos de fé que foram registados por uma testemunha contemporânea.

A história de uma cidade não se faz apenas de glórias nem romantismos (quantas vezes essas glórias são obtidas a um grande preço?) e creio que é também importante ligar os locais aos eventos, por muito maus que eles tenham sido, não obstante a inexorável passagem das gerações os tenham colocado a uma distância bastante confortável para os lermos como se de ficção se tratasse. Mas não o foi! Se a Europa dificilmente cairá neste tipo de obscurantismo novamente, várias outras partes do mundo ainda por ele passam enquanto o leitor confortavelmente lê estas linhas e eu as escrevo.

 

A descrição é da pena de Jorge Aranha de Vasconcelos, trazida à luz por Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas no 4.º volume do Boletim Cultural que a Câmara do Porto por muitos anos publicou. O texto impressiona até pela afluência que tal ato motivou!!

Resta-me dizer que atualizei a ortografia, exceto nos momentos em que a escrita aponta para diferenças do português da época em que foi escrito bem como coloquei pontuação aqui e ali para mais fácil leitura.

 

O primeiro Auto-de-Fé

«O primeiro aulto do Santo Ofício que se fez neste reino de Portugal foi nesta cidade do Porto aos sete dias do mês de fevereiro que caíu ao primeiro domingo da quaresma do ano de mil quinhentos corenta e três anos, reinava o El-Rei D. João o terceiro de gloriosa memória que foi avó de El-Rei D. Sebastião. Era bispo nesta cidade Dom Baltazar Limpo que foi frade do Carmo.

 

Estiveram presos os cristãos novos junto na logea das casas que estão ao pee da escada grande da See e as mulheres nos sobrados das casas de defronte de Nossa Senhora do Ferro e se fez o cadafalso no campo do Olival defronte das casas de André Pires(?) cordoeiro e se juntou nesta cidade mais gente que nunca se vio antes nem depois que quase veo todo o termo e muita gente do Minho de cá de Vila Real para cá de Lamego, Viseu e Coimbra, que todo aquele campo desde Nossa Senhora da Graça e S. Miguel, 'té o monte dos Judeos, todos os telhados dos cordoeiros, muros e torres eram pilhado de gente. E estando hua mulher nobre em hua das torres do muro, morreo morte supita vendo dar garrote a um dos quatro que foram queimados neste dia e queimaram muitas estátuas dos culpados que fugiram.

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A paisagem está já muito modificada, mas o local é o mesmo: O círculo vermelho denota o local onde possivelmente foi executado o hediondo ato. O n.º 1 mostra sensivelmente onde ficava a muralha da cidade, 2 temos a rua de S. Bento da Vitória que ali desembocava num largo junto à porta do Olival. O 3 aponta para o local onde estava a Nossa Senhora da Graça - o mesmo da antiga Faculdade de Ciências - que tudo por ali estava apinhado de gente apreciando o macabro espetáculo. Tenhamos presente que provavelmente não existiriam quase nenhumas árvores, as casas eram todas elas mais baixas mesmo em comparação com as do século XIX e edifícios como a Cadeia da Relação e a torre dos Clérigos de onde a foto foi tirada, não existiam ainda.

 

 

O segundo Auto-de-Fé

Fezeram o segundo auto do ofício sancto daí a 14 meses no mês de maio do ano de mil quinhentos quarenta e quatro anos onde tãobem concorreo muita gente. Queimaram e afogaram três pessoas e muitas estátuas dos fugidos e todos os sambenitos foram postos no mosteiro de S. Domingos 'té que de podre caíram.

 

Foi cacereiro mor dos presos e presas Alváro d' Aboim cidadão e foi cacereiro menor Sebastião Gllz(?) cordoeiro carpenteiro. (...) »

 

O texto prossegue com a descrição de outros factos, incluso um que talvez venha um dia a recuperar para esta página. Resta dizer que o seu autor, o escrivão Jorge Aranha, redigiu estas notas no ano de 1599, quando Portugal fazia parte do império Espanhol.

 

Felizmente, tudo o que atrás se apresentou é já passado!

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Bibliografia:

A lembrança quinhentista do escrivão Jorge Aranha de Vasconcelos, por Eugénio de Andrea de Cunha e Freitas, publicado no Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto em 1942.

À memória de Almeida Garret

por Nuno Cruz, em 17.01.18

Em 1864 a Câmara Municipal do Porto decidiu colocar uma lápide comemorativa no edifício onde nasceu Almeida Garret na rua Dr. Barbosa de Castro (antiga rua do Calvário). Contudo os trabalhos arrastaram-se e a mesma só foi colocada em finais de Janeiro de 1866, tal como o anuncia O Nacional:

 

«Sempre é certo desta vez colocar-se uma lápide comemorativa na casa onde nasceu esse grande talento que se chamava Almeida Garret.
Na oficina do Sr. Costa, na Rua do Laranjal, trata-se da conclusão dessa lápide, que será de mármore em forma oval, com os emblemas de uma lira, uma coroa, e no centro de uma grinalda de louros, esta inscrição:

 

Casa onde nasceu aos 4 de fevereiro de 1799 João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garret. Mandou gravar à memória do grande poeta a Câmara Municipal d’esta cidade em 1864.

 

Consta que os trabalhos todos que são necessários para a colocação desta lápide, estarão prontos até ao final do mês.»


Com efeito, e como atrás foi dito, assim se concretizou, podendo nós ainda hoje admirar essa mesma lápide, se bem que ela já merecia um restaurozinho....

 

DSC01210.JPG

 

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Nota: publicado originalmente no blogger em 14/04/2013 e agora revisto.

Do Porto houve nome Portugal?

por Nuno Cruz, em 12.01.18

Este título é como que uma pequena provocação que faço ao leitor... A frase é bem conhecida e resume a ideia que foi a partir do nome da cidade do Porto - se bem que ainda na sua forma primitiva - que o país foi batizado. Mas é possível que este nome não seja originário exclusivamente do local onde existe o centro histórico do Porto, algo que não sendo novidade, acredito que a maioria dos portuenses o desconheça. O ponto de interrogação está lá precisamente para isso, para nos fazer pensar um pouco na questão.

 

O Livro Preto da Sé de Coimbra - um códice do século XII hoje guardado na Torre do Tombo - preserva dois documentos preciosos e intrigantes. Ambos se relacionam com uma putativa doação ao mosteiro de Crestuma de um couto e várias outras localidades e rendimentos. Esta doação teria sido feita em 922 pelo rei Ordonho II por intermédio do bispo D. Gomado que se retirara da vida ativa para esse mosteiro. Geralmente tidos como apócrifos, os dois documentos ali arquivados serão falsificações do início do século XII, quando a diocese de Coimbra lutava com a do Porto pelo controlo de paróquias a sul do Douro.

No entanto o seu provável caráter fraudulento não implica que sejam completamente inválidos para os historiadores atuais. Com efeito, na época em que foram produzidos, muitos documentos alti-medievais deveriam ainda existir e os redatores sabendo e conhecendo esses documentos poderão simplesmente ter-se apropriado de elementos que aproveitaram nos seus próprios escritos, nomeadamente a toponímia. Ou por ventura tal não se ter dado e os redatores aproveitaram simplesmente a toponímia viva à altura da redação, o que me parece mais plausível.

 

Antes de analisarmos as passagens, levemos em conta que fora por esta altura - século IX e X - que a designação Portucale (sem dúvida Portugale na pronúncia da época) se começou a estender ao território que compunha o 1.º Condado Portucalense extinto em 1044 com a morte violenta do seu último conde Mendo Nunes e que não se deve confundir com o que veio a dar origem ao nosso país. É também importante que o leitor procure ignorar o moderno sentido da palavra Portugal, interiorizando-a como topónimo e não como corónimo.

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O primeiro documento a certa altura da sua narrativa informa que o rei chegando a Portugal, se colocou em navios e subiu rio acima acompanhado pela rainha e os condes locais Lucido Vimaranes e Rodrigo Lucides para vir ao encontro do bispo que não se podia ausentar do mosteiro. É para mim muito literária esta passagem e não posso deixar de a aproximar à lenda de Gaia pela poética; o que me leva a imaginar o rei e seu séquito subindo o Douro; passando Quebrantões, o Areinho, Arnelas e finalmente estacionando diante de Crestuma para desembarcar e ir saudar o prelado retirado na sua vida espiritual! Eis a passagem:

« ... et ipse rex sua mercede et illa Regina excitabit naues in portugale cum suos comites lucido uimarani et roderico luci et sui episcopi fuerunt nauigio eremitam uistare ipsum episcopum et ad orationem ad ipsum locum sanctum ... Et mansit ipse rex cum suo exercitu in ipso monasterio et in alio die fecit concilium et exquisiuit uitam de ipsos, confessores et de ipsa congregatione. ... »

reiOrdonho.png

 Excerto da página do cartulário onde vem a passagem transcrita acima.

 

O documento prossegue dizendo que o rei e os outros nobres que o acompanhavam fizeram várias doações ao mosteiro. Nessas supostas doações está precisamente a passagem que nos interessa:

«Villa de Portugal quomodo diuidit per suos terminos antiquos quomodo diuidit cum illa uilla de Mahamudi et inde per montem a termino de Colimbrianos usque in Gal'.»

viladePortugal.png

Excerto da página onde vem a frase transcrita acima.

 

Sobre esta passagem, diz-nos João Pedro Ribeiro: «Temos por tanto a povoação de Portugale, ou Porto no Séc. X não ao norte, mas ao sul do Douro, confinando pelo nascente com Mafamude, pelo poente com Coimbrões, sítios ainda hoje bem conhecidos, e portanto reduzido à Gaia atual [início do séc. XIX], antiga Cale. À face deste documento se pode retificar o que os nossos escritores, e os estrangeiros tem escrito ácerca desta povoação, que deu o seu nome ao nosso reino».

E esta não é a única referência a tal vila naquele local. Com efeito, existe outra (muito escassa) documentação que menciona uma localidade com o nome de Portugale, Portugalla ou Purtugal do lado gaiense, coisa que não se dá na margem oposta do Douro. O documento em estudo parece apontar para uma Vila de Portugal em correspondência com a Vila Nova (de Rei) da baixa Idade Média, que se desenvolveu centrada na rua Cândido dos Reis (antiga rua Direita).

 

Um outro historiador, o (quase proscrito) Dr. A. de Almeida Fernandes, considera mesmo que o Portucale da margem direita do Douro decaiu graças aos dois «perturbados séculos, cortados de guerras civis e de momentâneas entradas de inimigos, por terra e mar, mouros e normandos». No contraste, o interior florescia enquanto que a localidade junto ao rio pela «sua posição flúvio marítima (passagem e porto) era arriscadíssima, atraindo todos os invasores de terra e mar. Por isso mesmo, entre a tomada do conde Vimara, naquele ano [presúria de 868], e a doação à respectiva Sé, já no séc. XII, não temos mais notícia verdadeira dela.». E eu relembro que ainda em 1147, enquanto Pedro Pitões tentava cativar os cruzados à causa de D. Afonso Henriques, lá lhes ia dizendo que não há muitos anos os mouros ali tinham vindo pilhar....

googlemapss.png

Com a ajuda do GoogleMaps vemos aqui as localidades referidas no documento. A esse rol acrescentei para efeitos de melhor compreensão o Porto medievo e a foz do ribeiro das Azenhas ou de Santo Antão, que por séculos separou Gaia de Vila Nova (seta azul).

 

Recuando um pouco no tempo para cerca de 30 anos antes da suposta doação de 922, num manuscrito referente à consagração da primeira Catedral de Santiago de Compostela uma passagem dele informa-nos da remoção de colunelos de mármore e outros materiais existentes no oppido portugalense que remontavam à época romana e que foram levados por mar para serem reutilizados no seu pórtico lateral. A passagem, segundo a leitura do investigador José Eduardo Lopez Pereira, diz:

 

« ... De oppido portucalense ratibus deportatas adduximus quadras et calcem unde sunt aedificate columnae decem et VIII, cum aliis columnellis marmoreis simili modo navigio ... »

 

Onde estaria o templo a que estas colunas pertenciam? Em Vila Nova? Em Gaia? No morro da Penaventosa? Em favor deste último existe a descoberta em frente à Sé em 1940 de uma ara votiva dedicada aos Lares Marinhos bem como de duas colunas de mármore, quem sabe irmãs das que foram levadas para a Galiza. Mas uma vez mais, certezas não temos. Quanto ao lado oposto do Douro, creio que só futuras escavações arqueológicas o poderão indicar, mesmo levando em conta que uma boa parte da área foi muito modificada desde os meados do século XVIII, quando aqueles terrenos se foram povoando de armazéns de vinho.

 

Outros documentos existem com referências sugerindo que (um)a localidade Portugal ficaria na margem esquerda do Douro:

a) a primeira menção conhecida à igreja de Santa Marinha é de c. 927: «... monasterium in ipsa villa vocabulo sancta marina ...», vila esta que estaria eventualmente associada à villa de portugal que vimos atrás;

b) em 945 existia uma «... strata veredaria que discurrit de portugal ...» e que é também mencionada em 1118;

c) em 1116, quando D. Hugo era já bispo do Porto mas anteriormente à doação de D. Teresa, surge num documento «... sancta marina de purtugal ...».

Estes apontamentos são importantes sobretudo se tivermos em consideração a ausência de referências para a margem direita do rio entre os anos IX e XI.

 

VilaNova.JPG

 Vila Nova e o seu desaparecido areal vista do morro do castelo de Gaia. Vila Nova corresponderá ao Burgo Velho do foral de Gaia dos meados do séc. XIII, cuja sua igreja - Santa Marinha surge ainda referenciada como Santa Marinha de Portugal no século XII. A imagem abaixo mostra a rua Direita em Gaia durante uma cheia; fenómeno a que o Douro esteve sujeito até à sua "domesticação" na segunda metade do século XX. Ora, dado que esta situação teve que ser enfrentada uma e outra vez, ano após ano, por todas as civilizações que habitaram este cantinho do noroeste peninsular; não será ela de certa forma relevante para aferirmos dos locais de fixação das populações? (ambas as imagens do Arquivo Municipal do Porto).

 

Depois destas referências, o topónimo do lado gaiense começa a evoluir na documentação para Portu dorij logo em 1120, Portum Dorii em 1196, Burgo de Portu de Gaya em 1251 ou apenas portu de Gaya em 1255, vindo a culminar em 1255 e 1288 nos nomes burgo veteri de portu e Burgum vetus. Esta última nomenclatura é na prática dada como extinta naquela data, substituída por Villa Nova de Rey mas perdendo o possessivo poucos tempo depois para estabilizar em Vila Nova, separando-a de Gaia o ribeiro das Azenhas ou de Santo Antão.

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O termo veteri / vetus creio que será significativo para sustentar a sua ligação à antiga villa de portugal como sendo uma e a mesma coisa. Aliás, já Joaquim António Gonçalves Guimarães, de onde tenho vindo a coligir algumas destas notas, refere na introdução ao seu trabalho as incertezas que existem e provavelmente sempre existirão mas numa coisa parece acreditar, ou assim o interpreto: o da «singularíssima situação em que uma vila rústica do século X, denominada Vila de Portugal, vem a dar o nome a um país que cresce para Norte e para Sul dessa passagem do Rio Douro».

 

Sem prejuízo de o termo Portucale se ter estendido a ambas as margens do Douro englobando o Porto alti-medieval; documentalmente não creio errar ao dizer que também é verdade que esse nome sobreviveu por mais tempo na margem esquerda na povoação de Vila Nova. Para a outra margem, a documentação não vai além do início do século XII(?):

a) na doação de D. Teresa - 1120 - temos a simples palavra burgo;

b) no mesmo ano numa bula papal surge Portu Dorii;

c) no testamento de D. Sancho I temos Portu, ou seja  o topónimo atual latinizado;

d) em 1238 um acordo entre a coroa e a mitra portuense dá-nos Portu Dorii;

e) pelo tempo dos forais gaienses, aquando das inquirições de D. Afonso III o burgo é mencionado como villa portus e a sua zona ribeirinha vila baixa.

 

Com a passagem do tempo, talvez nos inícios do século XIV, o nome Porto do Douro expressa nos documentos cai naturalmente em desuso, cristalizando em Porto, a sua forma simplificada. É na verdade um caso singular no nosso país a existência de uma cidade que "não tem nome", pois que tomou a designação daquilo que a fez nascer e crescer: o ser ponto de passagem fluvial na via latina mais importante do nosso território e posteriormente à estrutura portuária de apoio ao comércio marítimo.

 

Voltando aos textos do século XII que não chegaram a ser usados para os fins menos claros a que talvez os prelados conimbricenses os designassem, termino com as palavras do Padre Miguel de Oliveira no seu artigo publicado na Lusitânia Sacra em 1956:

«Não chegaram a redigir-se os dois documentos, mas lá ficaram as notas que o copista do Livro Preto, sem imaginar o trabalho que havia de dar aos historiadores, trasladou para a sua obra no estado em que se encontravam...»

 

Para concluir, dizer que não foi do Porto que veio o nome Portugal parece-me objetivamente errado. Contudo, e atendendo a tudo o que li dos vários especialistas que se debruçaram sobre o assunto - muitas vezes eles próprios com visões dispares - me parece também que vedar à margem sul do Douro semelhante título honorífico deixa o passado incompleto. Se numa assentou na sua génese o Portucale castro novo e na outra o Portucale castrum antiquum, não deixaram ambos de ter o fundamental em comum: o nome Portucale.

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Alguma bibliografia consultada:

A doação de Ordonho II ao bispo Gomado e ao Mosteiro de Crestuma, do Padre Miguel de Oliveira publicado na revista Lusitânia Sacra em 1956;

O Foral de Gaia de 1255, de Joaquim Ant. Gonçalves Guimarães, José Ant. Afonso e Raúl Solla Prata, editada pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 1983;

Gaia e Vila Nova na Idade Média, de Joaquim António Gonçalves Guimarães editada em 1995 pela Universidade Portucalense;

História da cidade do Porto, coordenada por Damião Peres e editada pela Portucalense editora entre 1962-1965;

História do Porto, dirigida por António A. de Oliveira Ramos, editada pela Porto Editora em 1994;

Ocupação da época romana na cidade do Porto..., de António Manuel S. P. Silva consultado em linha;

As origens da cidade do Porto, de António de Sousa Machado editada pelo próprio em 1972;

Portugal primitivo medievo, de A. de Almeida Fernandes, editada pela Câmara Municipal de Arouca em 2001.

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