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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A tragédia da rua do Pombal

por Nuno V. Cruz, em 28.02.18

Esta notícia que hoje vos trago nada tem de bonito, é trágica e ilustra bem o que era a segurança no trabalho em meados do século XIX... O acontecimento dá-se a 8 de junho de 1865, na rua do Pombal. Mas onde fica a rua do Pombal, pergunta o leitor de si para consigo. Se lhe disser que a rua do Pombal ligava o Campo Pequeno à rua dos Quartéis(1), ficou na mesma? Bem, traduzindo para a atual nomenclatura citadina, trata-se da rua de Adolfo Casais Monteiro, que liga o largo da Maternidade de Júlio Dinis com a rua de D. Manuel II (1).

 

Os mais atentos à data terão notado que naquele ano teve lugar um acontecimento grandioso na cidade: a Exposição Internacional do Porto. Este facto levou à construção de um lindíssimo equipamento para a albergar - o Palácio de Cristal - bem como motivou várias melhorias nos arruamentos da cidade que os jornais da época bem espelham.

 

Mas vamos então à notícia:

 

«Horroroso desastre
Toma as proporções de um acontecimento verdadeiramente horroroso o que hoje pela manhã se deu nesta cidade e de que só sucintamente podemos por enquanto informar os nossos leitores.

Por volta das seis horas, na ocasião em que um grande número de operários do Palácio de Cristal se ocupava nos trabalhos de escavação a que há tempos se tem procedido num quintal da rua do Pombal, a fim de ser conduzido deste ponto para o jardim do Palácio a melhor camada de terra, o muro que limita o referido quintal, e que em virtude das escavações feitas se achava suspenso, desabou numa grande extensão, colhendo debaixo todos os operários que por desgraça se acharam ao alcance das pedras.

Este funesto sucesso atraiu logo uma multidão considerável de povo, contristando-a e impressionando-a da maneira dolorosa que é fácil imaginar.

Numerosos braços acudiram imediatamente a desenterrar de entre as ruínas do muro desabado as vitimas, das quais a incerteza do número aumentava ainda o horror desta cena.

À hora em que escrevemos tinham sido extraídas umas doze pessoas, quatro das quais já cadáveres. As outras, umas com o corpo completamente esmagado quasi da cinta para baixo, outros com as pernas e braços quebrados, e todas gravemente feridas e escorrendo em sangue, foram transportadas em macas para o hospital da Misericórdia (2).

Por enquanto é difícil fixar o número dos desgraçados a quem àquela hora matinal estava já reservada tão negra sorte. Em mais de vinte porém se calculam os que mais ou menos terrivelmente sofreram as consequências deste desastre.

A não serem os prontos socorros prestados pelo resto dos operários do Palácio de Cristal, tratando de desentulhar o muro desabado, muitos dos que saíram vivos, teriam ali encontrado uma morte infalível.

As vitimas compõem-se de mulheres, homens e crianças de um e outro sexo.

Com duas destas deu-se um caso que se pode dizer providencial. No desabamento do muro, de tal modo se entestaram as pedras que caíram sobre elas, que estando as crianças completamente sepultadas debaixo das ruínas, a abóbada, contudo, formada pelas pedras, as preservou da morte e até de ferimentos importantes.

O desastre da rua do Pombal foi uma cena de horror que é fácil de imaginar mas que custa a descrever.»

1865, 8 de junho – O Comércio do Porto

 

183s.JPG

Esta planta é cerca de trinta anos anterior à época do desastre mas mostra contudo a área não alinhada da rua onde terá ocorrido aquela fatalidade. Para uma melhor localização assinalei com o n.º 1 o atual Museu Nacional de Soares dos Reis; o n.º 2 indica o antigo quartel da Torre da Marca (nas suas traseiras está hoje a Faculdade de Farmácia) e o n.º 3 o jardim do Largo da Maternidade de Júlio Dinis. Não nos surpreenda o atraso no alinhamento da rua; alguns desses alinhamentos projetados acabariam mesmo por não ter efeito...

 

No dia seguinte, o mesmo periódico desenvolve a notícia, da qual extrai a seguinte passagem:


«O desastre da rua do Pombal
(…) As escavações a que nos referimos são as que tem tornado necessárias a construção de um novo muro que substitua o que até agora vedava a quinta do palácio real (3), por aquele lado, a fim de que, demolindo-se o que existe, se verifique o alargamento daquela rua projetado pela excelentíssima câmara.

A terra que tem saído das escavações, as quais são feitas pelo lado de dentro da quinta, tem sido transportada para o Palácio de Cristal, onde é aproveitada nos jardins.

Como o desaterro se verifica no sopé do muro antigo, este foi gradualmente ficando com os alicerces a descoberto, até que por último, fugindo-lhe a camada de terra em que aqueles assentavam, desabou.

Infelizmente deu-se este facto na pior das ocasiões, porque teve lugar quando um grande número de operários do Palácio de Cristal, como se disse, se achava ocupado no serviço de escavar terra e encher os cestos às mulheres e crianças que se empregam em conduzi-los.

Apenas o muro desabou, o estrondo das pedras e os gritos de socorro dos que não ficaram debaixo delas atraíram numerosa multidão, sendo os primeiros a acudir alguns vizinhos e os soldados de infantaria n.º 5.

Tanto estes como os operários do Palácio de Cristal, que sem demora correram ao local do sinistro, empregaram os mais ativos esforços em desentulhar prontamente das ruínas aqueles que tinham tido a desgraça de ficar sepultados nelas.

Dentro de pouco tempo tinham-o (sic) conseguido. À medida, porém, que iam aparecendo as vitimas, ia aumentando o horror daquele espetáculo. Os gemidos dos feridos, o seu aspeto ensanguentado, a vista dos mortos, o choro de numerosas mulheres, convertiam numa tristíssima cena aquele acontecimento.

Dos que morreram, um apareceu dobrados os pés com a cabeça, evidenciando-se por esta circunstância que o colheu a morte no momento talvez em que se curvava em pegar em algum cesto para o deitar acima da rota em que todos trabalhavam.

Um outro tinha o peito atravessado pelo cabo da enxada, como quem tivesse feito dela apoio para se encostar.

Desafogado o terreno em grande parte e conduzidas para o hospital da Misericórdia(3) todas as vítimas desta lamentável desgraça, verificou-se pela chamada a que se procedeu que não faltava mais ninguém.

O número de vítimas excede em mais um àquele que ontem dissemos, sendo 5 homens mortos, e 2 homens e 11 mulheres feridas. (...) »

1865, 9 de junho – O Comércio do Porto

 

A notícia continua, dando conta dos nomes das vítimas, suas idades, estado civil e local de morada, que são também elas interessantes do ponto de vista sociológico mas que aqui me abstenho de mencionar. Apenas uma exceção para um pai, que aflito por julgar que o seu filho de 12 anos estava entre as vitimas, corre para ali e vem a descobrir pela boca de um rapaz da mesma idade, que já não tinha filho...

 

Esta e outras tragédias similares (recordo uma outra que ocorreu na rua dos Lavadouros, sobre a qual tive também conhecimento pelos jornais da época) mostram a falta de segurança que existia e viria ainda por muitas décadas a existir nesta e em outro tipo de empreitadas. A isso se juntava a triste e dura vida da maioria da população que obrigava muitos pais a colocarem os seus filhos a trabalhar em idade tão tenra, o que só há relativamente pouco tempo cessou para grande vergonha nossa.

 

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Nesta imagem de abril de 2018 podemos ver a entrada da rua de Adolfo Casais Monteiro, antiga rua do Pombal. Com bastante probabilidade terá sido na área ocupada pelo edifício de cor vermelha que o acidente ocorreu.

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1 - Chamou-se também rua do Triunfo.

2 - Hoje Hospital de Santo António.

3 - Atual Museu Nacional de Soares dos Reis.

Uma inovação da era pré-SMAS na fonte da 'Araújo & Sobrinho'

por Nuno Cruz, em 22.02.18

Eis uma notícia que recuperei d' O Comércio do Porto de 10 de abril de 1870 com uma pequena informação que não sendo relevante, é interessante para a história de uma fonte cuja existência terá rondado os 80 anos...

 

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«Acham-se terminadas as obras de melhoramentos na fonte do largo de S. Domingos mandadas fazer pela Exma. Câmara.
Estas obras consistiram em adaptar aquela fonte a um novo sistema, em virtude do qual a água, em vez de correr permanentemente, como até agora, está represada, fazendo-se a extracção dela, quando é precisa, por meio de umas válvulas que se abrem puxando uns botões de metal amarelo, colocados um pouco abaixo das bicas e fora dos tanques.
Para este fim foi substituído o antigo tanque, que tomava toda a largura da fonte, isto é, as duas bicas, por dous pequenos, em arco de circulo, aos cantos, por baixo de cada uma das bicas.
Estas não estão completamente estanques, deitam, porém, apenas a porção de água necessária para encher os pequenos tanques, a fim de servir quando seja necessária para os incêndios ou outro qualquer uso não proibido pelas respectivas posturas.
É a primeira fonte deste género no Porto e constitui de certo um melhoramento de grande vantagem para o abastecimento regular de um dos elementos mais indispensáveis à vida.
A transformação das fontes da cidade segundo o novo sistema parece ser o que asseguraria uma regularidade a todos os habitantes.
Com efeito é como tentativa para esse fim, segundo nos informam, que a Exma. Câmara mandou proceder à inovação que noticiamos.
Oxalá que esta produza os resultados que se tiveram em vista, e os quais se tornem a mais persuasiva prova da vantagem de a adaptar geralmente.
Como tudo que tem o sabor da novidade atrai os curiosos, a fonte de que nos ocupamos, com as alterações que se fizeram, tem sido o ponto de reunião de um não pequeno número deles, a verem como funciona o novo sistema.
Os aguadeiros é que, totalmente alheios à combinação dele, dão ao démo a engenhoca, atribuindo aos defeitos do sistema o que apenas é efeito do desajeitado modo de se servirem dele.»

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 i1 - A fonte na obra Contribuição para a higiene do Porto, de 1908. O rapaz em pé ao centro está encostado à porta de entrada para a arca da água. 

 

Esteve esta fonte embutida no prédio hoje ocupado pelo hotel A.S. 1829, na montra com moldura trabalhada em cantaria, adorno da própria fonte. Dela resta apenas o brasão da cidade, colocado à entrada do jardim do Edifício do SMAS.

 

Um curioso apontamento colhe-se na obra referida na legenda da imagem. Com efeito, o cano para esta fonte «marcha na rua das Flores e no lado poente da rua de S. Domingos até atingir uma pequena pia de pedra da qual a água caí para um grande reservatório também de pedra, que alimenta as duas bicas (... ) uma das mais caras e elegantes da cidade; notamos-lhe de particular também a existência de dous puxadores semelhantes aos de certas campainhas de portais (...) e destinados a levantar uma válvula obturadora do orifício posterior da bica e a evitar que na estiagem a água corra constantemente»; ou seja, a modernização que a notícia do jornal refere.

fonteas1829.jpg

i2 - Nesta imagem podemos ver o local onde esteve a fonte, com a sua moldura ainda embutida no edifício da antiga papelaria Araújo e Sobrinho, atualmente ocupado pelo hotel AS 1829 (foto do autor).

 

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Originalmente publicada no blogspot em 17 de janeiro de 2010, agora revista e aumentada.

Em 20.03.2018 foi alterada a imagem i2.

Como nasceu a capela do rei Carlos Alberto

por Nuno Cruz, em 13.02.18

Para a história desta capela, concorrem dois interessantes comunicados que surgiram  no jornal O Comércio (primeiro nome d'O Comércio do Porto). Muitos destes comunicados eram acusações e contra acusações, pessoais ou não, sobre um determinado tema, facto ou ação quer individual quer colectiva... Mas entremos no assunto, que é longo mas apaixonante!

 

O primeiro comunicado saiu a 11 de Setembro de 1854 e não ia assinado:


«A importância da cidade do Porto é toda comercial e a cidade mesmo em si, não encerra monumentos grandiosos, fontes elegantes ou estátuas que imprimem um cunho de grandeza a um centro de população e fazem admirar a estrangeiros.
Está-se contruíndo agora no Largo da Torre da Marca, uma capela em memória do herói italiano, o rei Carlos Alberto, mandada fazer pela princesa, sua parente, que há pouco aqui esteve. Consta-nos que quando ela tratou mandar construir a capela, chamara vários arquitetos para lhe darem planos mas parece que afinal dera um esboço da obra, ao mestre pedreiro, encarregado da fiscalização dela, o arquiteto sr. Pedro d'Oliveira.
Custa-nos a crer que se deixe um mestre pedreiro presidir aquela edificação, sem plano algum regular e conveniente; por isso lá vemos nas traseiras da capela que nos dizem gótica, duas janelas de feitio das de qualquer casebre moderno! As paredes laterais em lugar de pedra lavrada vão ser rebocadas exteriormente com cal, o que denota pobreza e mau gosto.
Pedimos por tanto à Ex. Câmara, como zeladora do aformoseamento da cidade, que dê a este negócio a devida atenção, se não quiser ver no largo da Torre de Marca um edifício sem beleza regular, nem harmonia, em fim um outro drop, mas de pedra.
Não somos mestre pedreiro, e pouco nos importa que quem justou a obra, ganhe muito ou pouco, falamos porque hoje em dia é preciso falar e porque estamos cansados de ver obras tristes e azangadas.»

 

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A capela de Carlos Alberto abraçada pela vegetação dos jardins do Palácio de Cristal. Notar que aquando da sua construção toda a envolvente era um enorme descampado, conforme se vê numa imagem mais abaixo. A vegetação ajuda por ventura a disfarçar os aspetos menos elegantes daquele monumento (foto do autor).

 

Esta estória não acabou aqui. Uns dias depois o arquiteto Pedro d'Oliveira respondeu no mesmo jornal, num longo artigo que ilustra muito bem o modo como esta capela foi idealizada e construida, através de um longo comunicado que o jornal publicou na integra ocupando quase uma página completa (numa altura em que os jornais tinham geralmente quatro). Apesar da extensão do mesmo, penso que terá interesse histórico para nos apercebermos como aquele singelo monumento foi erguido, há mais de 160 anos atrás.

 

«29 de Setembro de 1854
Srs. Redatores,
Um comunicado que VV. transcreveram no seu periódico de 14 do corrente, relativo à capela que se está construindo no largo da Torre da Marca, em memória do rei Carlos Alberto e no qual figura o meu nome, me obriga a dar algumas explicações, a fim de repelir de mim toda a responsabilidade pela sua arquitetura o gosto adotado para as quatro faces da capela tanto exterior como interiormente. Principiarei narrando o que comigo se passou a tal respeito.

Logo que chegou a esta cidade a princesa, parente do rei Carlos Alberto, fui convidado para comparecer em casa de sua alteza a fim de ser ouvido e consultado relativamente à construção de uma capela, que em memória ao mesmo rei ela pretendia mandar fazer, e sendo apresentado pela mesma pessoa que em nome de S.A. me tinha convidado, tive a honra e satisfação de falar com a princesa e de ouvi-la a tal respeito. Nesta ocasião mostrou-me S.A. um risco, que tinha sido feito em Lisboa, porém não o achando a seu gosto convidou-me a que eu fizesse um novo risco, dando-me para isso todas as instruções que julgou precisas, e todas aquelas que lhe exigi.

Passados alguns dias e quando me achava tratando dos riscos da capela, recebi de sua alteza uma pasta com uns riscos feitos a lápis por S.A. acompanhados de uma carta da pessoa que me havia apresentado, na qual se me pedia o orçamento da despesa da Capela, cujas dimensões eram as mesmas da que se está construindo, segundo os riscos que se me enviaram. Posto que os mesmos nada mais fossem do que uma ideia geral da frente da capela - planta baixa, secção transversal e longitudinal, ou por outra uns esboços, nem por isso deixei de satisfazer ao que se pedia, remediando as omissões, ou falta dos ditos riscos, segundo melhor me pareceu e julguei conveniente, tendo em vista que os lados exteriores da capela, e frente da trazeira ou costas da mesma, deviam estar em harmonia com a frente principal indicada no risco, pois que para os outros três lados não havia risco algum. Neste sentido orcei toda a obra da capela, exceto a da tribuna, que talvez tivesse de ser de mármore, e remeti a sua alteza o orçamento.

 

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Se a fachada (1) da capela anda mostra alguma beleza e harmonia, o mesmo não se pode dizer das suas traseiras (2), feita toda ela ao sabor do gosto do mestre pedreiro (fotos do autor).


Quatro dias depois disto compareci em casa de sua alteza com o projecto da capela riscado por mim na melhor forma, que entendi, e segundo as instruções que de sua alteza tinha recebido, apresentando planta da frente principal, planta das costas da capela, e lado, planta baixa e secção transversal e longitudinal da mesma. Nessa ocasião estava também presente o vice-cônsul da Sardenha o illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa, o qual viu que a sua alteza não desagradou o meu projeto, e que, somente observou as maiores dimensões que ele tinha em relação ao que ela pretendia, no que respondi, - que tinha riscado a capela como entendi, porém que se alguma coisa não agradava a sua alteza, que se lhe fariam as alterações que quisesse, e que quanto às maiores dimensões era isso fácil de remediar, reduzindo o projecto ao tamanho que se quisesse, no que S.A. concordou.

Apesar do risco da frente da capela, que eu tinha riscado, não ser um trabalho perfeito e definitivo, contudo juntou-se ao requerimento, em que S.A. pedia licença à câmara municipal para a construção da capela no largo da Torre da Marca, sendo o illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa encarregado de o apresentar à câmara para ser aprovado e ver o que a câmara decidia a tal respeito, o que me consta logo fizera pois que neste mesmo dia era o da sessão ordinária da câmara. Combinou-se por fim que S.A. iria, um dia ao local da Torre da Marca para ver se preferia o terreno público para a edificação da capela, ou o terreno particular que por certa pessoa lhe fora oferecido para o mesmo fim; dizendo sua alteza que eu seria avisado para comparecer, quando fosse designado o dia. Nesta inteligência, e tendo concluído o fim a que fui a casa de S.A, retirei-me, esperando o aviso do dia em que havia de comparecer.

É certo que nunca recebi tal aviso, mas também é certo que alguns dias depois desta última entrevista com sua alteza - foi a câmara municipal com S.A. em vistoria ao local indicado, acompanhada, segundo me consta, de S. exc.ª  o Sr. Barão de Valado, governador civil, cônsul francês e outras pessoas, e por essa ocasião designaram para a colocação da capela o terreno em que a mesma se está construindo, também é certo que depois da minha última entrevista com sua alteza, em que se passou o que referi, foi convidado o meu amigo e colega o sr. Joaquim da Costa Lima Júnior, para falar com sua alteza e fazer um plano da capela projetada. Sei que ele tratou disso e apresentou a sua alteza o que julgou conveniente e acertado, porem quando justamente se tratava de resolver sobre o definitivo plano da obra ou de discutir o plana do sr. Costa Lima foi contratada a obra da capela pelo mestre pedreiro Lopes, que a anda construindo pela quantia que, de certo, e a estas horas o público não ignorará sobre as condições que se apresentaram e assinaram de parte a parte.

Em vista, pois, do que se passou, depois da minha última entrevista com sua alteza, e não se me tendo dito mais coisa alguma a tal respeito, pelo que me constava, fiquei na persuasão,de que a capela, que fora logo principiada, era construída segundo o risco apresentado pelo Sr. Costa Lima,e nesta ideia vivi por bastantes dias, e até às vésperas da saída de sua alteza para a Foz para embarcar no primeiro paquete, quando então certo de que mais não se incomodariam comigo para tal fim, recebi um recado para ir de novo falar com sua alteza, o que apesar de todos os pesares, não deixei de fazer. Disse-me então sua alteza que pretendia que eu lhe fizesse um orçamento de certas obras da capela, que não tinham entrado no contracto feito com o mestre Lopes; como eram a tribuna, o passeio de pedra que deve circuitar a capela, e outras mais; - ao que me prontifiquei, pedindo me fosse dada uma relação por escrito dessas obras, o que sua alteza fez, satisfazendo eu pela minha parte como me foi pedido. Depois de largamente conversarmos a respeito da capela, disse-me sua alteza se eu teria dúvida em aceitar a fiscalização da obra da capela pela sua parte, e surpreendendo-me tal proposta, observei a sua alteza que nenhuma dúvida teria, mas que era melhor encarregar disso o sr. Costa Lima, visto ser ele o autor do plano, que se estava seguindo. S.A respondeu-me que o plano não era o dele, e que se eu não tinha dúvida em aceitar a proposta, no dia em que eu fosse entregar o orçamento que me pedia das obras, me falaria a tal respeito definitivamente. Justamente no dia em que sua alteza foi para a Foz, esperando ai embarcar no próximo paquete, fui entregar o orçamento pedido, e então me perguntou sua alteza definitivamente se eu estaria concorde em aceitar a fiscalização da obra da capela pela sua parte; respondi que aceitava a proposta, mas que era conveniente que sua alteza por escrito me indicasse quais as obrigações que eu tinha a cumprir e me pusesse ao facto do contracto da obra, para poder conhecer até onde a mesma obra satisfazia ou apresentava vício ou defeito, sendo aquele o documento com o qual eu devia apresentar-me ao mestre pedreira, exigindo dele o cumprimento do que tratara.

S.A. disse que eu me devia entender com o cônsul francês, a quem informaria de tudo, sabendo ele já que eu ficava encarregado de fiscalizar a obra, e que independentemente do papel que eu exigia e que me iria mandar, diria ao mestre pedreiro o mesmo que tinha dito ao sr. cônsul francês. Ora, sem querer saber se S.A. disse ou não a tal respeito alguma coisa aos indivíduos referidos (que me parece e consta que dissera), o que é certo é, que esse documento que eu exigi não o recebi. Pelo criado de S.A., que viera a minha casa entregar um livro de sua parte, lhe mandei eu dizer que estava esperando pelo documento que ficara de me mandar.

 

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Neste pormenor de uma vista da cidade vê-se a capela (1) praticamente isolada no descampado a que se dava o nome de largo da Torre da Marca, onde durante séculos existira aquela baliza para a navegação. Os terrenos foram depois incorporados nos jardins do Palácio de Cristal (assinalado com o n.º 2) e são atualmente tudo o que resta do binómio Palácio+Jardins.

 

S.A. embarcou e o papel que eu exigi não apareceu; por tanto entendi que não devia ir fiscalizar a obra da capela sem um documento passado pela devida pessoa que me autorizasse a fiscalização.

Nestas circunstâncias foi correndo a obra, até que há pouco mais de um mês recebi um recado para que me dirigisse ao sr. cônsul francês, que tendo recebido instruções de S.A. a respeito da obra, nas mesmas se mencionava o meu nome como encarregado por S.A. da fiscalização, e que ela exigia que, procedendo o sr. cônsul a uma visita à obra na minha companhia, ela fosse informada circinstanciadamente do andamento e estado da obra, na persuasão de que eu, apesar da falta de autorização por escrito para fiscalizar a obra, ainda assim a fiscalizara. Por esta ocasião expus à pessoa que se dignou dirigir-me o recado o que comigo e S.A. se tinha passado nos últimos dias da sua estada aqui. Apesar de tudo, disse-me essa pessoa, que ainda assim S.A. estava certa, segundo o conteúdo das cartas que tinham vindo, de que eu fiscalizava a obra, e que por isso apesar de não ter ido à mesma obra, fosse falar com o sr. cônsul francês para se combinar no dia da visita. Assim o fiz, e por esta ocasião expus ao sr. cônsul as razões referidas, que me tinham impedido de fiscalizar a obra por parte de S.A., ao que S. S.ª respondeu que embora assim sucedesse devíamos fazer-lhe uma visita para informar S.A. do estado da obra da capela, na forma de sua exigência, ao que prontamente anuí. Marcamos o dia da visita para uma sexta-feira às 6 horas da tarde, e nesse dia ai fomos, indo também o illmo. sr. padre Peixoto, convidado pelo sr. cônsul, e o mestre pedreiro. Foi então que vi o verdadeiro estado e andamento da obra e o plano que servia de regulamento para a mesma que é, sem dúvida alguma, feito por S.A. e por ela está assinado, compondo-se só de um risco no gosto gótico, para a frente principal, planta baixa e secção transversal e longitudinal da capela, tudo feito à lápis. É mais um esboço ou ideia geral, do que um rico definitivo para uma obra de tanta circunstância come aquela.

Encontrei a obra em quanto à frente principal feita até à altura de dez palmos com mui pequena diferença, em quanto às faces laterais, em maior altura; quanto à frente das costas da capela, achava-se já feita a pequena porta de entrada e pequenas janelas de luz do pavimento térreo, e montados os peitoris das janelas do pavimento superior, que há-de ficar sobre a sacristia da mesma, e quanto ao interior achavam-se já assentes algumas bases da colunas que tem de formar as naves, e principiada a parede que deve dividir o corpo da capela da sacristia.

Nesta ocasião observei que, não havendo risco que regulasse a forma da frente das costas da capela, fora esta imaginada, ou feita ad libitum e a gosto do mestre pedreiro, assim como as frentes laterais da mesma capela, não havendo tanto entre estas como entre a frente das costas da mesma, nenhuma semelhança ou harmonia com a frente principal, e são mais um contraste do que outra coisa; além da frente das costas da capela ser de um gosto muito ordinário e muito vulgar.

Quanto ao interior é certo também que as proporções das colunas e mais peças da obra, são da mão do mesmo mestre, que neste caso, vista a falta de esclarecimentos, obrou como quis ou entendeu.

Achando-se pois a obra neste estado, e vistas as circunstâncias expostas, entendi que a minha missão se limitava a examinar a segurança, e boa construção da obra, e quanto ao mais, como os riscos não supriam a falta de explicação no contracto nem este as omissões dos riscos, nenhuma observação fiz a tal respeito, naquela ocasião, mas nem por isso deixei de o observar a certa pessoa, que bastante interessa tem tomado neste negócio da capela, a qual à minha observação respondeu: Que isso agora era mau, que iria levantar uma grande poeira, e que melhor seria entender-me com o mestre pedreiro; eu entendi de outra forma, que foi calar-me, e nada dizer a tal respeito: porque se tal observação fizesse ao mestre pedreiro, ele decerto se oporia a demolir a obra para a fazer de outra forma, e em relação com a frente principal, dando às colunas e bases as devidas proporções, sobretudo quando o risco de uma obra o deixa variar a sua vontade, como agora acontece, e o contracto não supre alguma falta.

Instigado pelo comunicado que VV. transcreveram no seu periódico, sou obrigado, para crédito meu, a mostrar que nada tenho com o bom ou mau risco da capela que se está construindo; para prova do que, faço a referida exposição singela e franca de tudo que comigo se tem passado, a tal respeito, a pedindo a VV. se serviam mandá-la transcrever no seu periódico.


Setembro, 27 1854

Pedro d'Oliveira »

Com este comunicado, pretendia Pedro de Oliveira limpar o seu bom nome de profissional de um projecto que a julgar pelo que descreve, foi mal conduzido desde o início, acabando, como por dar origem a um "patinho semi-feio". Não se entende o pedido a dois arquitectos da cidade para elaborarem o projeto da mesma e posteriormente ambos serem descartados a favor dos primitivos esboços que deveriam apenas servir de base de maturação para um traçado estruturado e capaz da mesma.

Em relação à construção desta capela, houve aqui qualquer coisa muito mal contada; no mínimo muita descoordenação! E assim ficamos com aquele pequeno templo que eterniza a memória do rei Carlos Alberto que passou os seus últimos dias no Porto em 1849, um templo feito todo ele praticamente pelo seu mestre pedreiro e quase a seu gosto, onde nenhum projeto parece ter sido verdadeiramente seguido...

 

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Nota: Esta publicação aglutina e melhora as originalmente publicadas no blogspot em 24 de novembro e 5 de dezembro de 2012.

Um mosteiro à prova de bomba?

por Nuno Cruz, em 06.02.18

O título desta publicação, que poderia ter o subtítulo um episódio da guerra civil, é um tanto sensacionalista e serve para captar o interesse do leitor para o que se vai ler. E o que se vai ler é desta vez muito curtinho (prometo)! Trata-se de uma notícia que recupero da Crónica Constitucional do Porto de 18 de setembro de 1832, durante a guerra civil dos manos Miguel e Pedro, e que encontrei enquanto arrumava a casa, perdida no meio das minhas notas ainda não tratadas. Ei-la:

 

«Das bombas que os rebeldes lançaram hoje(1) para a cidade, três caíram sucessivamente no convento de S. Bento, onde se acha estabelecido um dos hospitais militares. A primeira arruinou apenas uma parte exterior do edifício; as outras penetraram até o segundo andar, atravessando o telhado e o forro. A última destas bombas caiu na cama de um doente, a quem matou logo, bem como a um soldado que junto a ele estava. Pegou fogo em parte do edifício; porém foi imediatamente extinto pela diligência dos empregados no serviço das bombas e dos facultativos do hospital. S. Exc.ª o Ministro da Guerra(2) fez cessar alguma confusão inseparável de taes acontecimentos, e restabeleceu a ordem imediatamente. Estão dadas as providências necessárias para que os doentes sejam alojados nos lugares que aquele edifício oferece à prova de bomba, e para evitar os maus efeitos da humidade que mais tarde lhes poderia ser nociva.

 

Devemos igualmente anunciar que todas as reservas de pólvora estão convenientemente repartidas por diferentes subterrâneos, o que põe os moradores desta cidade a salvo de qualquer acontecimento desastroso.»

 

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Para ilustrar esta publicação, escolhi uma imagem do Arquivo Municipal do Porto que nos mostra a rua das Taipas e a fachada oeste do mosteiro beneditino. A imagem é obviamente bastante posterior às linhas aqui transcritas, contudo apresenta uma particularidade importante. Reparou o caro leitor no leito da rua? Pois é, parece ser ainda no velhinho macadam. Ainda não haviam chegado à rua das Taipas os paralelipípedos de Canelas no início do século XX? Ou será a imagem da década de 80 ou 90 do século anterior?...

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1 - Isto é, no dia anterior.

2 - Era ele Agostinho José Freire, assassinado em novembro de 1836 durante a Belenzada.

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