Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sobre o botequim do Pepino

por Nuno Cruz, em 31.03.18

A publicação que vos trago hoje não é nova, agrega as duas que sobre o tema coloquei na antiga casa deste blogue com 5 anos de intervalo! É a continuação da prometida trasladação das publicações que no meu entender não merecem desaparecer; pelo que a pouco e pouco as farei aqui renascer, mesmo sabendo que várias ganharam já o direito de figurar em outros blogues.

 

 

I

Sobre este botequim diz-nos Pinho Leal no vol. VI - p. 62 - do seu Portugal Antigo e Moderno:

 

« Houve na rua de Cima do Muro, nesta freguesia de S. Nicolau, um pouco ao poente do Postigo dos Banhos, um botequim, que se tornou célebre e conhecido como nenhum outro no Porto e fora do Porto, até mesmo na Inglaterra, na Rússia, na Alemanha, na França, etc.

Era público e notório, que naquele botequim ou casa de café e bebidas, foram roubados e mortos muitos marinheiros ingleses e de outras nações, e é certo que aquela casa esteve muitos anos debaixo da vigilância das autoridades locais, persistindo, a despeito de toda a vigilância policial, os boatos mais aterradores: até que a casa foi expropriada e demolida pela câmara, como todas as circunvizinhas, para a abertura da rua da Nova Alfândega - sem se apurar o fundamento de tão sinistros boatos.

É certo que aquele botequim, todas as noites se enchia de mulheres perdidas, marujada, principalmente estrangeira, e homens de má nota; que ali havia música e danças (cancan) desonestas, e um arruido infernal até deshoras; - que ali houve por vezes rijo bofetão e grossa pancadaria, - e que muitos dos fregueses, nomeadamente marítimos russos, ingleses e alemães, lá pernoitavam, estirados no chão, com o peso do vinho, até ao dia seguinte, - dizendo as más línguas que eram embriagados artificialmente, e de propósito, pelo dono da casa, para os roubar, quando levavam consigo dinheiro, e que depois os lançava ao rio. E acrescentavam - que muitos cadáveres apareceram no Douro, que se disse serem maritimos estrangeiros que se afogaram casualmente, quando a verdade era - que haviam sido roubados e assassinados no maldito botequim...


Nunca pôde averiguar-se bem a cousa, mas parece vir a propósito o aforismo - vox populi, vox diaboli!...

O proprietário deste... botequim, enriqueceu com o seu ignóbil negócio, e era tão astuto que adivinhava sempre o dia e hora em que a polícia vinha dar-lhe busca...

Chamava-se António Pereira Porto, por alcunha o Pepino, e por isso o seu botequim ganhou o título de Botequim do Pepino.


O tal Pereira Porto, faleceu aproximadamente em 1850, mas a viúva conservou o célebre botequim (mas já muito decadente) até 1870 a 1871, data da demolição daquela rua e das ruas adjacentes. »

 

pep.jpg

O retângulo vermelho indica o local onde terá existido o botequim de António Pereira Porto, um pouco a poente do postigo dos Banhos (letra A), tal como indicado por Pinho Leal



II

Ainda sobre este célebre - por fracas razões - botequim, dei de cara n' O Tripeiro com umas preciosas notas no volume correspondente ao seu primeiro ano (1908), na secção perguntas e respostas. Tencionava verter para aqui a informação que lá surge com a descrição que Arnaldo Gama lhe faz; contudo opto por não o fazer dado que iria repetir a informação já difundida no blogue Porto, de Agostinho R. da Costa aos nossos dias.

Apenas apenso a essa informação a seguinte, com caráter já secundário, mas que está também na tal secção de perguntas e respostas, escrito por um tripeiro de gema batizado em S. Nicolau:

« O Botequim do Pepino, em Cima do Muro, era muito concorrido da marinhagem estrangeira e de mulheres de má nota do Forno Velho e imediações. As desordens ali eram frequentes. O prédio, juntamente com os demais do mesmo lanço do muro, foi demolido, quando se construiu a rua que segue da dos Ingleses para a Alfândega. O botequim transferiu-se para o Forno Velho. Não sei se ainda lá existe ou algum seu descendente. O Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, era acusado pela imprensa adversária por ter sido freguês do mesmo café, quando era guarda da Alfândega ou coisa que o valha. Cito este facto de memória mas creio não estar em erro.

 

 

III

Em relação ao dono deste estabelecimento, conheço biograficamente uma data, a do seu casamento! Isto porque no Periódico dos Pobres no Porto de 18 de Outubro de 1845, me deparei casualmente com esta notícia:

« Anteontem de tarde atravessava a todo o trote a Praça de S. Lázaro um cabriolé a quatro, carregado de pessoas do sexo feminino em grande luxo, e acompanhado de cavaleiros. Era o botequineiro Pepino de Cima do Muro que tinha ido casar, e que se recolhia a casa em grande estado. »

Hum.. Não querendo ser má língua, fico contudo a matutar se António Pereira Porto era apenas dono de um botequim, ou haveria mais negócio nos andares superiores do seu estabelecimento?...

 

Como nota final devo acrescentar que é muito estranho que Pinho Leal diriga o ano da morte de António Pereira Porto para os anos 50 do século XIX, quando no Arquivo Municipal do Porto está o seu registo de falecimento que nos dá a sua morte como ocorrida em 6 de fevereiro de 1888. E ainda mais estranho que este registo o dê como morador na rua de Cima do Muro quando esta rua praticamente deixou de existir em 1871. Será que António Pereira Porto ficou a residir numa das casas que ainda hoje existem desta rua, hoje mais conhecida por Muro dos Bacalhoeiros?

No seu testamento, feito em 1874, António Pereira Porto declara que não tendo filhos deixava como herdeira natural a sua esposa mas também legava «vinte e cinco esmolas de mil reis a pessoas mais necessitadas desta freguesia de S. Nicolau», bem como 20$000 a distribuir pelos seus sobrinhos.

 

_________________

Publicadas originalmente no blogspot em 06.12.2009 e 13.01.2014, agora revistas. Acrescentado de um parágrafo no final, em 12.04.2018.

Um equívoco e um mistério

por Nuno Cruz, em 23.03.18

Parte 1 - o equívoco

 

No sítio do Arquivo Municipal do Porto deparei com a imagem que se pode ver abaixo, identificada como «Retrato de homem no adro da igreja de Águas Santas». Mesmo sendo o cenário secundário - a julgar pela forma como a fotografia foi tirada o objetivo estaria na pessoa retratada - a igreja, posso assegurar, não é a de Águas Santas. A resposta vai mais abaixo, mas antes de o leitor a procurar desafio-o a primeiro olhar, meditar, e descobrir por si só...

agsant.jpg

i1 imagem do Arquivo Municipal do Porto

 

Na verdade esta fotografia mostra parte do adro da igreja do antigo convento de S. Francisco do Porto com o seu portal lateral entaipado, aspeto com que se apresentava até c. de 1935. Pode o leitor comprovar isso mesmo na imagem tríplice que preparei e que confronta dois estágios pretéritos daquele portal com a atualidade (i2). O tipo de pedra usada para entaipar esta passagem parece ser bastante regular, o que fica dando a ideia que a obra será ainda do tempo do convento (talvez da época em que este foi quase completamente refeito, na segunda metade do século XVIII). A ajudar a esta ideia estava a porta que se lhe abriu uns metros mais ao lado e que desapareceu quando o monumento foi restaurado no século XX.

portal1.jpg

i2 À esquerda vemos o portal tal como chegou aos início do século XX. Ao meio temo-lo já liberto do tapamento mas à sua volta tudo o mais ainda se mantinha. À direita está ele e o espaço que o circunda com o aspeto que hoje conhecemos.

 

Parece incrível, e é de facto quase um milagre, que esta igreja tenha sobrevivido até aos nossos dias apresentando ainda de uma forma global o aspeto gótico com que foi construída. O contraste entre o antes e o depois não é substancial, pois felizmente as intervenções não adulteraram a sua traça. Ainda assim podemos identificar várias diferenças, que melhor se podem ver na i3 e sua legenda.

igj.JPG

i3 imagem do Arquivo Municipal do Porto

 

Esta imagem talvez ainda dos finais do séc. XIX mostra-nos a igreja antes das modificações que sofreu no exterior. Os elementos suprimidos são: 1- janela, 2- divisórias(?) em pedra, 3- porta lateral e 5- janela. O n.º 4 é o portal lateral original da igreja que foi desentaipado, como já referido. O 6 indica as capelas laterais da igreja e a sacristia da mesma, com o aspeto com que ficaram em 1872 após a demolição da também capela de Santo Elói que ali se encostava. Neste ponto aliás, tiveram lugar as principais modificações externas na estrutura - ilustradas pela i4 - onde se pode ver que (afinal) também a igreja de São Francisco do Porto foi alvo de reconstruções por parte da DGEMN, mesmo que em menor escala quando comparadas com as de outros monumentos nacionais.

00077920.JPG

i4 Imagem do Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

 

 

Parte 2 - o mistério

 

Se o leitor atentar na i2 como se de um "descubra as diferenças" se tratasse, poderá verificar que numa daquelas fotos falta um pequeno elemento decorativo... Não me refiro ao pentagrama, obra de meados do século XX a querer parecer antiga; falo da mísula que se vê bem junto ao portal e que terá servido de apoio à arcaria de um alpendre, estrutura que se vislumbra na vista do Porto produzida em 1736 (i5).

duncsans.jpg

i5 pormenor da vista setecentista de Duncalf

 

É sem dúvida possível que a igreja de São Francisco tenha sido rodeada por um alpendre, género de construção hoje praticamente inexistente no país salvo em pequenas capelas. Por exemplo uma reunião concelhia teve lugar na clasta segunda deste convento em 20 de janeiro de 1400. Este termo (e a sua variante crasta) era usado no português medieval como sinónimo de claustro, mas também podia significar alpendre, sobretudo quando se refere a ele como segundo.

Mas será o alpendre que vemos em Duncalf, que a julgar pela imagem se estendia apenas por cima da porta lateral, contemporâneo da época em que a igreja foi erguida? Se atentarmos bem, ao longo do corpo da igreja existe ainda hoje um entalhe onde poderão ter encaixado as traves que sustentariam uma alpendrada, o que parece tornar incompatível a coexistência de ambos por causa da sobreposição estrutural. Além disso, a ter existido um alpendre que corresse o adro pelo sul e poente até à entrada principal da igreja, foi talvez forçoso remove-lo para transformar o portal gótico naquele tão belo conjunto que hoje temos com as suas colunas salomónicas de belo efeito. É um pensamento meu que tão só pretendo que o leitor veja como uma hipótese.

 

Sejam ou não cabais estas ideias, o facto é que aquela mísula de arte idêntica à construção da igreja esteve tranquila até ao momento em que os homens decidiram tira-la do lugar que por séculos, qual sentinela, ocupara. Para onde terá ido aquela pedra só aparentemente insignificante? E porquê remover uma peça que fazia parte da estrutura original da igreja, numa época em que a mentalidade restauradora tendia para a reintegração na traça original dos monumentos? São perguntas que por agora terão de ficar sem resposta...

 

misula.png

 

________

NOTA FINAL: para uma descrição sucinta mas completa sobre o restauro do exterior da igreja ver o texto de Lúcia Rosas a pp. 116 do recente volume O Convento e a Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto, das Edições Afrontamento (obra coordenada por Natália Marinho Ferreira-Alves e Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves).

O 'mogno do Laranjal' e outras memórias

por Nuno Cruz, em 13.03.18

A ideia para esta publicação surgiu após me deparar com memórias dos anciãos de 1946, quando folhava casualmente um volume d' O Tripeiro. A reboque da imagem que abaixo se apresenta, vários portuenses da época recordavam com saudade aquele largo do Laranjal, tão próximo de um outro topónimo já desaparecido de sonoridade romântica, a Cancela Velha. Decidi contudo levar mais longe esta retrospectiva e aproveitando que o local chegou a ser fotografado rodeado de edifícios que nos são familiares, recupero aqui várias imagens antigas, ensaiando o seu enquadramento com a atualidade.

 

chlaranj1.png

Img.1 Legenda: a > rua de D. Pedro IV (rua de Elias Garcia após o advento da república); bb > direção por onde corria a rua do Laranjal (que passava por trás da casa em primeiro plano); c > entrada da viela do Cirne; d > rua Adriano Machado (que até ao fim permaneceu sem saída); o círculo vermelho mostra-nos as casas da rua do Bonjardim ainda existentes (ver imagem abaixo).

 

Excertos do comentário de R. Machado:

«Trata-se do largo do Laranjal e característico tanque-chafariz, muito perto da Cancela Velha e da antiga rua de D. Pedro, O pequeno largo, quasi quadrado, atravessado (ou ladeado) pela rua do Laranjal, a então conhecida e movimentada rua das alquilarias e cocheiras, entre as quais as do Zé Galiza, ficava situado próximo da actual Praça do Município ... no cimo da Avenida dos Aliados, em frente do monumental edifício dos novos Passos do Concelho.

Da água potável do chafariz abasteciam-se os moradores do populoso local, e o tanque cilíndrico continha a água que dessedentava o gado cavalar e servia, também, para lavagem dos trens, tipóias e carroças que, muitas vezes, pejavam a pequena praça e ruas próximas.

Na gravura vêm-se as frontarias, ao fundo, dos prédios, ainda existentes, da rua do Bonjardim, com frente para o quarteirão onde actualmente se projecta a construção do grande edifício dos Correios, integrado no plano de urbanização que, recentemente, foi tão discutido na imprensa diária portuense.»

 

bonjardimformosa.jpg

Img.2 Esta foto atual mostra-nos o entroncamento da rua do Bonjardim (1) com a rua Formosa (2) e a rua Guilherme Costa Carvalho. A rua da Cancela Velha correria a partir dos edifícios assinalados com o círculo vermelho (a) - os mesmos da Img.1 - para diante, isto é, acompanhando a entrada das traseiras do Palácio dos Correios, onde se encontram alguns veículos estacionados.

 

Excertos do comentário de João Moreira da Silva:

«Ainda estou a ver o velho José Galiza, alquilador, com as suíças grisalhas e com os seus carros e carroças, a mandar o seu pessoal lavar os rodados.

Ao lado, quasi em frente, havia umas oficinas de louzeiros (sic) e ao fundo os fabricantes de cadeiras e outras mobílias de madeira de pinho, que, no engraçado dizer do saudoso Guedes de Oliveira, era mogno do laranjal!!! - e mais ao fundo a velha cervejaria Bastos, que nas noites calmosas, oferecia aos seus frequentadores cerveja de pipa, muito fresca.»

 

plantal.jpeg

Img.3 Perdoará o leitor esta montagem muito rústica que fiz de duas folhas da planta de Teles Ferreira, mas com ela pretendo apresentar, melhor contextualizada, a área de que falamos. O circulo vermelho representa as casas da rua do Bonjardim que surgem nas fotos acima, e o azul o largo do Laranjal com o seu chafariz. As letras representam: a* - rua do Laranjal, b* - viela do Cirne, c* - rua de Adriano Machado, d - rua do Bonjardim, e* - rua da Cancela Velha, f* - rua de D. Pedro (depois Elias Garcia), g - rua Formosa, h - rua do Almada (as ruas assinaladas com asterisco já não existem).

 

Excertos do comentário de F.M.N.J.:

«Em um dos prédios do referido largo [do Laranjal] estavam instalados os conhecidos armazéns de vinhos Morêda. E nos altos do mesmo prédio foi a sede durante bastantes anos do célebre e muito recordado ginásio Paul Lauret... Vê-se na gravura, no primeiro plano depois do chafariz, a rua do Laranjal, mais acima, do lado esquerdo e ao fundo a rua do Bonjardim. Na casa que faz esquina para a rua Adriano Machado, em que se vêm os toldos descidos, eram os escritórios da velha companhia do Gás, e na casa mais alta que se vê na rua do Bonjardim e que também tem os toldos descidos, era a farmácia Rica, propriedade do saudoso poeta Maximiano Rica.

Em época muito mais recuada e quasi em frente á rua de D. Pedro existiu um teatro que desapareceu, parece destruído por um incêndio. O nome do teatro não me recordo (...) Isto vai talvez há mais de 65 anos!... Muito mais tarde começaram a construir, mais para o lado da rua do Bonjardim, um novo teatro de grandes proporções, mas não chegou a concluir-se e depois foi demolido para a abertura da rua de Adriano Machado - abertura é como quem diz, pois a rua era .. tapado, um autêntico beco sem saída...»

glanraj.jpg

Img.4 Com a ajuda do googlemaps podemos ver uma imagem aérea, bem reconhecível, que nos mostra as casas da rua do Bonjardim com o circulo vermelho e o local onde esteve o largo do Laranjal (aprox.) com o circulo azul. A linha branca é uma hipótese, creio que bastante fiável, da orientação da rua da Cancela Velha. Curiosamente, funcionárias de um consultório que frequentei nos anos 80 e 90 na rua Guilherme Costa Carvalho ainda se referiam àquela zona como a Cancela Velha!

 

Excertos do comentário de V. Alves Moreira:

«Lembro-me muito bem que era nesse largo que existia a afamada casa de vinhos e destilações "O Alambique" (fundada em 1860), bem como o alquilador José Galiza, que no mesmo largo fazia, diariamente, grande estendal de cavalos, muares, carros e carroças; e ainda o Café Primavera, com um pequeno palco, música e bailarinas.

A casa de três andares que se vê na gravura, do lado direito, ao cimo da calçada, creio que era a que fazia esquina para a rua de D. Pedro IV, desaparecida na mesma época em que foram demolidos os prédios das ruas dos Lavadouros, Laranjal, e Viela do Cirne, passeios favoritos da rapaziada de então e as de Adriano Machado e Cancela Velha.»

 

Outras memórias avulsas se colhe, por exemplo o Sr. J. Gonçalves: «Aquele chafariz estava situado no centro dum terreno que marginava a rua do Laranjal e em frente à rampa da Cancela Velha. Ao fundo havia um bom prédio, onde estava instalado "O Alambique", armazém de vinhos que ainda hoje existe. Dos prédios contíguos, da parte de cima, saia um cheiro terrível a amoníaco e outras perfumarias das grandes lojas iluminadas a candeias de petróleo e habitadas pelas chamadas mulas do Galiza. Ou a de Augusto Coelho Pereira de Araújo, que refere: «A fonte, antes de transformada em chafariz, existiu mais abaixo, constando de uma fonte rasa, para a qual se descia por degraus abertos no pavimento da rua, a qual era conhecida pela fonte do Olho do c., e para que o povo perdesse o hábito do chamadoiro, a Câmara mudou-a para o local agora mostrado na gravura, transformando-a num artístico chafariz».

 

Várias outras memórias pessoais e institucionais poderia aqui referir. Por ora deixo-vos com estes preciosos apontamentos e imagens ilustrativas, com a promessa porém, que volveremos a estas paragens. Quase finalizo com uma outra imagem muito semelhante à primeira, que nos mostra com mais pormenor o chafariz do Laranjal.

chlaranj2.png

Img.5 Neste chafariz, que se encontra atualmente na praça da Trindade, foram reutilizadas algumas pedras lavradas do medieval chafariz do largo de S. Domingos, que havia sido de lá removido em 1845 (notar o interessante pormenor do lajeado de granito em volta do tanque). Igualmente se vê, ainda melhor do que na Img.1, a entrada do trecho superior da rua do Laranjal que ia sair à praça da Trindade junto ao palacete do Ferreirinha.

 

E também com uma série de imagens que documentam as demolições das casas e ruas associados à área da Cancela Velha. Tivessem outras transformações urbanísticas tido pelo menos a sorte de ficarem documentadas desta forma...

 

C2.jpg

Nesta primeira foto podemos ver o traçado da rua da Cancela Velha (A) e algumas casas que tinham frente para ela. À direita, o edifício dos Paços do Concelho. Notar a diferença de cota (F) que o Palácio dos Correios obliterou.

 

C1.jpg

Esta segunda imagem precede no tempo a anterior, pois o prédio que ainda se encontra completo quase na extremidade direita desta já não existia naquela. Notar que ainda mais à direita desse prédio temos um outro quase totalmente demolido, que fazia gaveto para a rua de D. Pedro/Elias Garcia.

 

C3.jpg

E aqui vemos melhor o que restava ainda do traçado da rua da Cancela Velha, com as casas da rua do Bonjardim ao fundo (lembram-se da primeira foto desta publicação?). As casas viradas para o fotógrafo seriam, creio, da rua/beco Adriano Machado.

 

C4.jpg

E agora o fotógrafo subiu o que restava da rua da Cancela Velha e foi registar, para memória futura, uma vista olhando para a Avenida dos Aliados ao fundo, com as traseiras das casas da rua do Almada ainda mais ao fundo. O circulo azul representa a área do antigo largo do Laranjal. A letra B à direita a entrada da rua do Bonjardim. Atrás do fotógrafo está a rua Formosa. Como vemos este local fazia um pequeno largo, talvez fruto dos alinhamentos polémicos que a Câmara fez em 1874 para beneficiar a Companhia Carris de Ferro do Porto...

 

C5.jpg

Tirada do edifício dos Paços do Concelho, nesta interessante imagem mais recente do que as anteriores, a rua da Cancela Velha fora já suprimida; para a simbolizar assinalei o seu percurso com o traço branco. E lá estão, quase omnipresentes, as casas da rua do Bonjardim que nos tem servido de farol (circulo vermelho). A cota já foi muito rebaixada para dar lugar à execução do projeto do Palácio dos Correios.

 

C6.jpg

Esta fotografia é muito, muito interessante. Vemos nela: C a rua/beco Adriano Machado, D casas do lado nascente da rua de D. Pedro/Elias Garcia e o E são já os belíssimos edifícios da Avenida dos Aliados no seu alinhamento atual. Em primeiro plano está a construção dos Paços do Concelho (traseiras viradas para a Praça da Trindade).

C7.jpg

Para finalizar, uma foto que será a mais recente do lote. O H é a praça do Município/General Humberto Delgado, A a rua da Cancela Velha (ou o que resta dela...), G a nova rua de Rodrigues Sampaio e F o inicio do passeio nascente da Avenida dos Aliados, ainda sem o edifício do gaveto. Esta imagem é, das antigas, talvez a que melhor mostre a um portuense de hoje onde ficava a Cancela Velha e o largo do Laranjal.

 

Henrique Duarte Sousa Reis dizia sobre a rua da Cancela Velha: «É possível, que alguma cancela velha, que por aquele sítio houvesse para vedar o terreno particular desse ao povo o direito de assim chamar a esta rua, que sem dúvida conservará por séculos.» Como estava enganado! Não chegou a completar o segundo!

____

Bibliografia: O Tripeiro, Vol. 1 da 5.ª Série. Imagens do arquivo Arquivo Municipal do Porto e de Domingos Alvão (as que apresentam a marca de água).

Para a história da carta topográfica do Porto de 1892

por Nuno Cruz, em 05.03.18

É conhecida de todos os portuenses com interesse pela história da sua cidade esta famosa carta topográfica. Nela tem o investigador uma fonte indispensável e incontornável de consulta para se orientar nos meandros da urbe do final do século XIX. Uma boa notícia para quem a quer consultar e não pretende ou não se pode deslocar ao Arquivo Municipal do Porto, foi a colocação on line desta planta, folha a folha, quadrícula a quadrícula (aqui).

 

Não obstante ela se encontre associada à data de 1892, o moroso e paciente trabalho para o seu levantamento teve início em 1877, ainda que a decisão camarária da sua execução remonte ao ano de 1869!

 

A empreitada foi inicialmente contratada com o engenheiro Bartolomeu Dejante pelo preço de 2$800 réis o hectare, «dificuldades porém se levantaram depois e entre elas a do falecimento do engenheiro Dejante, que fizeram interromper este serviço». Só em 7 de junho de 1877 o engenheiro municipal Agnelo José Moreira foi encarregado de levar avante o projeto, tendo este chamado para seu ajudante o capitão Augusto Gerardo Teles Ferreira que se apresentou ao serviço em 7 de agosto de 1877. Nesse mesmo mês se procedeu «ao reconhecimento do terreno a levantar, e à colocação dos pontos trigonométricos e divisão das folhas, em que devia ser dividido o atlas da carta».

 

A triangulação fora bem feita mas não se adequava, uma vez que havia sido feita para a escala 1,10000 (usada na planta de Lisboa), quando mais tarde se determinou que a escala deveria ser 1,500 - para se obter a necessária minúcia no detalhe - mas aquela triangulação desadequada «apresentava folhas consecutivas sem um só ponto trigonométrico, o que dificultava o bom andamento do trabalho, e teve de se proceder à determinação de pontos subsidiários ... reservando-se para o seu seguimento a determinação de outros que fossem sendo urgentes.»

 

Apesar da mudança de escala ter representado mais despesa para a câmara e mais tempo para a sua elaboração, «não deixa este de ser bem compensado com as vantagens da quadruplicação da superfície da mesma planta, prestando-se esta assim melhor, à divisão da propriedade, onde só falta por os nomes dos indivíduos a quem pertence, e o seu rendimento para ser uma verdadeira carta cadastral.»

 

No início de 1878 estavam já levantados 52 hectares «na sua parte mais difícil, que é a das freguesias da Sé e Vitória, e estava-se durante o inverno tratando da cópia da carta hidográfica do Douro, na parte em que está gravada, a fim de auxiliar o levantamento da planta». Em maio encontravam-se já 275 hectares desenhados (30 folhas) e 5 delas quase completas. Este trabalho já em fase adiantada englobava: «pelo Sul, o rio Douro desde a fábrica de louça na Corticeira até à igreja de Massarelos; por Oeste, desde a igreja de Massarelos, seguindo pelo fim da rua da Restauração, rua de Entre-Quintas, até o Palácio de Cristal, por o Norte, rua do Principe, Cedofeita, Oliveiras, Lavadouros, D. Pedro, Sá da Bandeira, rua Formosa e S. Jerónimo; por Este, rua de S. Jerónimo, Campo 24 de Agosto, rua da Murta, rua e passeio das Fontainhas a fechar na fábrica de louça na Corticeira».

iglse.jpg

Para ilustrar esta publicação optei por não trazer as folhas mais conhecidas referentes à zona central da cidade. Neste caso vemos uma folha de canto, que apresenta o mar, a praia dos Ingleses e algumas habitações da rua da Senhora da Luz. A fonte dela, é claro, é o imprescindivel Arquivo Municipal do Porto.

 

Segundo o documento de onde venho extraindo estas notas, «a planta da cidade até às novas barreiras compreende 2.000 hectares aproximadamente, o que dá para 200 folhas na razão de 10 hectares por folha». De maio de 1878 até ao final de 1879 haviam sido levantados mais 223 hectares, faltando para a sua conclusão 1.725, «por onde se vê que continuando os trabalhos com o mesmo desenvolvimento que até aqui, serão necessários cerca de treze anos anos para completar este serviço.» Esta estimativa errou por excesso, contudo já o próprio documento deixava a subtil esperança que a planta estivesse concluída em dez anos (1890) «atendendo a que o resto da cidade se presta mais facilmente a este género de trabalho, devendo então a planta caminhar com mais rapidez».

 

Até ao final de 1879 o desenho da planta havia sido exclusivamente feito pelo desenhador da câmara, que para isso auferia uma gratificação mensal de 15$000 réis e executava a tarefa nas horas que lhe sobravam dos trabalhos que tinha por obrigação fazer no desempenho do seu cargo. O trabalho contudo estava muito atrasado pelas seguintes razões: «à falta de pessoal necessário para acompanhar o serviço de campo; à necessidade que o desenhador tem de satisfazer ao serviço (...); e à interrupção deste trabalho por algum tempo por falta de papel para o desenho, em consequência de se ter deteriorado com humidade todo o que havia, e por não ter servido uma remessa que ultimamente veio, mas que se não aceitou por não ter as dimensões necessárias».

 

O ideal, refere o documento, seria o capitão Augusto Gerardo Teles Ferreira ser auxiliado por outro técnico, pois que ele estava já na altura com todo o trabalho na sua mão, ou eventualmente abandonar-se a execução por conta da câmara e contratualizar externamente o restante levantamento.

 

Era também urgente e necessário que o plano de levantamento da planta fosse acompanhado pelo trabalho de planimetria [1] nas folhas já levantadas e que esse trabalho prosseguisse acompanhando o da planta, tal como a câmara de 1869 decidira; sem esquecer que a escala da carta haveria posteriormente de ser reduzida de 1,500 para, eventualmente, 1,5000. Isto pela necessidade de se proceder à sua gravação e publicação, procurando o executivo camarário tirar daí algum rendimento que pudesse atenuar o gasto com todo o processo.

 

Julgo, com estes apontamentos, ter dado uma ideia do estado em que se encontrava o levantamento da planta em janeiro de 1880. Dou assim por concluída esta breve recolha de curiosos pormenores sobre aquele documento que todos os apaixonados pela história da cidade sentem como uma referência. Pela minha parte fico na expectativa de mais descobertas que me possa trazer a documentação que amiúde consulto, e sobretudo que os meus leitores encontrem relevância e interesse na informação que por aqui vou partilhando convosco.

________

1 - Representação em mapa ou planta topográfica sem ter em conta o relevo (fonte: dicionário Priberam).

 

Todas as citações do Relatório da gerência da Câmara Municipal do Porto durante o biénio 1878-79, da responsabilidade do presidente António Pinto de Magalhães Aguiar e lido na sessão camarária de 2 de janeiro de 1880 (impresso na Tipografia d' O Jornal do Porto, no n.º 28-30 da rua dos Caldeireiros).

Para saber mais: A CARTA TOPOGRÁFICA DA CIDADE DO PORTO DE 1892— UMA BASE CARTOGRÁFICA PARA A GESTÃO URBANÍSTICA MUNICIPAL