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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A quase esquecida revolta dos marceneiros

por Nuno Cruz, em 31.05.18

A nossa cidade conta já com algumas revoltas ou motins ao longo da sua história; umas mais bem sucedidas do que outras, umas mais importantes do que outras e umas mais conhecidas do que outras. A que vos proponho relatar faz parte do lote das pouco conhecidas. Não me posso arvorar em portador de uma grande novidade, pois os tumultos que tiveram lugar no Porto em 25 e 26 de abril de 1836 foram já descritos por um ou outro historiador da cidade. Ainda assim, não conheço descrição que o refira com o pormenor que aqui pretendo expor; resultante da consulta dos jornais da época onde podemos encontrar miudezas que talvez nos entreguem melhor conhecimento sobre os protagonistas e a forma como tudo se terá passado.

 

Vamos primeiro contextualizar: estamos em meados de 1836. O país vai ainda no início da sua caminhada pela monarquia liberal, que só estabilizara realmente cerca de quinze anos depois. A cidade passa por um período de grande aperto alimentar com a falta do cereal, matéria prima do pão, ao mesmo tempo que o comércio nesta secular cidade comercial se vai abrindo aos bens comprados no estrangeiro. Ora, se eu tenho fome mas não consigo vender os bens que produzo por não conseguir competir com a concorrência... (isto sou eu a colocar-me na pele de um artesão português da época); Entram agora os tumultuários (que não se lhes pode chamar revoltosos). Deixarei a responsabilidade de relatar tudo o que se terá passado aos jornais A Vedeta da Liberdade e O Artilheiro de 26 de abril de 1836, para então depois acrescentar alguma informação que nos dias subsequentes foi sendo aditada, entre justificações pessoais, documentos oficiais e desmentidos.[1]

 

***

Segundo A Vedeta da Liberdade:

«TUMULTOS DOS ASSAMBLADORES

Houveram ontem sérios tumultos nesta cidade, mas nenhuma cor política os acompanhava – era a miséria e a fome a guerrear a indolência do Governo. É este o caso.

Souberam os sambladores que estavam desembarcando de um brigue hamburgês muitos trastes, como mesas, cómodas, relojos (sic), pianos, e outras cousas de mão-de-obra estrangeira. Foram ter-se com o Exmo. Governador Civil, representando-lhe que desse as providências necessárias para cessar o desembarque de similhantes móveis que vinham fazer a sua miséria, por virem empatar a venda dos nacionais, e sujeitar por conseguinte milhares de pessoas há morte. Sossegou-os o Exmo. Governador Civil dizendo-lhes que não podia violar a Lei suspendendo o desembarque, mas que estivessem certos que iria representar a S. M., e que havia de obter o remédio para os seus males. Partiu o povo, mas este que não atende à lei quando a necessidade urge, foi fazer ao Ilmo. Administrador da Alfândega a mesma petição que ao Exmo. Governador Civil tinha feito, no que também não foi atendido.


Exasperaram-se então os pretendentes, e determinaram fazer-se justiça por suas próprias mãos. Foram às barcas que conduziam os móveis, e quebraram toda aquela quinquilharia, não deixando um cavaco direito. - Não contentes com isto foram ao armazém da igreja velha de S. Domingos, e fizeram outro tanto aos que aí se tinham já recolhido. - Quiseram ir também a casa de Mr. Guichard, mas o Exmo. Governador Civil que aí se achava presente, pode conseguir que se retirassem sem barulho algum. - Dizem que alguns pequenos grupos quiseram fazer o mesmo por diversas partes. Na Alfândega quiseram também entrar por fim, mas aparecendo o Exmo. Governador Civil, e uma patrulha da Guarda Municipal lançando fora o grupo e fechando as portas, pôs fim àquela pertenção.


Tanto na igreja velha de S. Domingos, como na Alfândega, apareceu o Exmo. Governador das Armas, sossegando o povo, e dando com ele vivas à rainha e à Carta.


Na calçada dos Clérigos foi aonde os tumultos duraram até à noite, defronte das lojas de Guichard e Tallone.


Chegada que foi a noite tudo se retirou a suas casas sossegadamente, isto é – sem força alguma que a isso os obrigasse.


Diga-se uma vez em abono do povo – não consta que alguém fosse ofendido em sua pessoa, nem que se cometesse roubo nem ainda do mais pequeno valor – era uma multidão inerme que não usou de outras armas além das que lhe deu o furor desatinado.


E diga-se também em justo louvor do Exmo. Governador das Armas, que só a sua prudência salvou o Porto ontem dos horrores da anarquia. Nenhuma violência usou para com o povo – e a sua presença – a persuasão e o bom modo, foram as únicas armas que empregou para com a multidão que lhe pedia pão, ou meios honestos de o ganhar. Uma autoridade que carregasse o povo, ou que ousasse contra ele arrancar a espada, faria correr rios de sangue, e não conseguiria talvez o desejado fim.

(...) »

 

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« ...o certo é que os homens sairam e reunindo-se a mais alguns marcharam direitos ao cais do Douro e fizeram em pedaços todos os móveis que ainda se achavam nas lanchas que os tinham trazido de bordo do navio... »

 

Segundo O Artilheiro:

«"Hoje [25] pela manhã perto do meio-dia, uma porção de homens que se diziam merceneiros, se reuniu na praça da Batalha desta cidade, e dirigiu uma deputação, segundo nos disseram, de três de entre si, ao Exmo. Gov. Civil Interino, a representar-lhe que desse providências para obstar ao desembarque que se estava fazendo de alguns moveis estrangeiros que vinham abundar o nosso mercado, e por consequência diminuir o trabalho daqueles operários, e que por isso ficavam sem ter em que trabalhar para ganharem o necessário para a sua sustentação. Parece que S. Exc. lhe disse que nada podia fazer, visto que a admissão dos móveis era permitida pela lei.: o certo é que os homens sairam e reunindo-se a mais alguns marcharam direitos ao cais do Douro e fizeram em pedaços todos os móveis que ainda se achavam nas lanchas que os tinham trazido de bordo do navio. Este procedimento atraiu muita gente, como era natural, alguma da qual tomou também parte nele: depois dirigiram-se à rua de S. Domingos, onde havia um armazém de móveis estrangeiros, ao qual quiseram lançar fogo, ao que obstou o comandente da Guarda Municipal, não podendo contudo obstar a que quebrassem alguns dos mesmos móveis.


Neste tempo acudiu o Exmo. Barão da Fonte Nova, governador das Armas desta província, em virtude da participação que tinha do facto, e tendo a fortuna de atrair as simpatias deste povo, falou aos alborotadores, a persuadi-los que desistissem da sua empresa, o que com efeito conseguiu, e eles se dispersaram aparentemente.

 

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« ... Não contentes com isto foram ao armazém da igreja velha de S. Domingos, e fizeram outro tanto aos que aí se tinham já recolhido ... »


Pouco depois tornam-se a reunir e foram atacar a Alfândega, e segundo nos informaram, aí desenvolviam a sua raiva contra todas as manufaturas estrangeiras: porém foram contidos pela Guarda e empregados da mesma Alfândega, e se puderam fechar as portas: entretanto conservaram-se nas ruas adjacentes, até que tornando a aparecer os Exmos. Barão da Fonte Nova, e o Exmo. Gov Civil, conseguiu pela segunda vez e por meio de persuasão, que os alborotadores se dispersassem: porém ainda não desistiram da sua empresa porque: no fim da tarde se tornaram a reunir na calçada dos Clérigos, e aí atacaram duas lojas, com o pretexto de serem estrangeiros; porém tornando a aparecer o Exmo. General, conseguiu o mesmo que das outras vezes, de sorte que ao começar a noite estava tudo tranquilo, depois de ter mostrado um aspeto assustador: o que não obstante o Exmo. General não deixou de tomar todas as cautelas, e de dar as maiores providências para que se não repetissem semelhante atos....»

***

 

Os tumultos continuaram ainda no dia seguinte mas já sem o caráter assustador dos do anterior. Desta vez os ataques foram dirigidos ao excessivo preço do milho dado que os negociantes da praça dos Voluntários da Rainha se viram na necessidade de o vender a 430 rs. Isso originou a que imenso povo ali se concentrasse, obrigando as autoridades a colocar sentinelas à porta dos celeiros para conter qualquer desordem. Diz o jornal que uso para estas linhas - A Vedeta da liberdade - que o milho foi todo ele vendido mas quem o comprou foram maioritariamente clientes das freguesias fora da cidade, que ali tinham vindo por ser dia de feira. Diz mais: «Assim ficou a cidade sem pão, e talvez arriscada a não ter quem de fora lho venha trazer, por não haver quem se queira sujeitar a vender por um preço inferior ao que vale na sua terra, pagando bem caro a irreflexão, e o prazer momentâneo de que nenhum interesse resultou aos mesmos revoltosos».

 

Nesse mesmo dia o Governador Civil publica um Edital que se pode resumir na satisfação que sentia por ver a cidade em perfeita ordem após os tumultos perpetrados por «um pequeno grupo de cidadãos incautos e iludidos, os quais reconhecendo o seu erro cederam à voz da Lei e das autoridades constituídas». Mas também alerta para que não ocorram novas manifestações, pois nessa altura «as autoridades de mãos dadas saberão sempre empregar quantos meios legais tem ao seu alcance para manter a religiosa observância das leis».

 

N' O Artilheiro, um Investigador publica um comunicado lançando ao Governador Civil acusações de inação, que o mesmo veio desmentir. Em sua defesa refere numa comunicação que nunca os marceneiros haviam ameaçado com a quebra dos móveis estrangeiros se não fossem atendidos; e testemunhas disso haviam sido os próprios marceneiros da Comissão que o interpelaram. Eram eles Manuel Pereira Dias Sampaio com loja na travessa do Tabaco, José Ganchinho com loja «na travessa localizada atrás da igreja da Vitória» e João Teixeira de Lemos[2], droguista da rua das Flores, que os acompanhava. Nenhuma pessoa mais assistiu, refere, à conversa tida naquela altura.[3]

 

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« ... Na calçada dos Clérigos foi aonde os tumultos duraram até à noite, defronte das lojas de Guichard e Tallone... » 

 

Também o Administrador da Alfândega António Joaquim da Costa Carvalho[4] fez publicar um esclarecimento de como teriam ocorrido as factos quando os tumultuários tentaram invadir a Alfândega. Relata que o grupo que aí irrompeu pelas 15h desse dia e «entrou violentamente as portas da Alfândega» tendo sido repelido por ele devidamente ajudado por empregados daquela repartição mas também com o auxílio do Delegado do Administrador do Concelho, António Ferreira Novais e do Alferes da Guarda Municipal, Francisco Pinto da Mota: tendo conseguido encerrar as portas. Pelas 16h de tudo deu conhecimento ao Governador Civil.

 

Um outro comunicado do Governador Civil descreve, quem sabe da forma mais exata, o sucedido. Endereçado ao Duque da Terceira[5], nele refere que os tumultos se tinham dado perto das 15h, conforme já indicada noutra comunicação. E prossegue: «Depois das três horas se reuniram mais grupos compostos de homens os mais ordinários, tendo por base a necessidade (gritavam eles) que tinham fome, que queriam trabalho, e que para o haver forçoso era quebrar, e destruir tudo quanto fosse estrangeiro; mas no meio deste alarido nunca perderam o respeito, pelo contrário se mostraram submissos às minhas admoestações, a que acederam por fim muito próximo da noite. Eu cansado e fatigado de percorrer as ruas tinha dado todas as providências, no caso de não cederem, de empregar meios enérgicos, e usei de toda a prudência para mostrar quanto me era repugnante lançar mão daqueles recursos.

 

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Bento da França Pinto de Oliveira (1793/1852), Barão da Fonte Nova, era o Governador Civil Interino do Porto à época dos tumultos e um dos seus protagonistas por força do cargo que desempenhava.

 

Ignoro o motivo de um tão repentino acontecimento; por mais conjecturas que fazia, não podia combinar como estes grupos fossem levados ao excesso sem uma causa promotora; corre contudo que o agente, ou agentes da desorganização, instigavam estes imprudentes, e crédulos, talvez aproveitando a ocasião para chegarem a fins sinistros. Não posso deixar de dizer a V. Exa. Que honra seja feita a todos os habitantes desta cidade, quero dizer, aos que tem que perder, os que amam a liberdade geral, que todos se prestaram com a melhor vontade para que os tumultos se dissipassem, já persuadindo, já influindo nas massas, para que se retirassem a suas casas, acompanhando-me a maior parte nos giros que fiz na cidade, cujo comportamento é digno do maior elogio».

 

Prossegue nos elogios ao apoio dado pelos Comandantes e Oficiais dos Corpos de Linha, bem como os «Voluntários, e mais repartições»; teve também precioso auxilio do Presidente da Relação, Francisco de Serpa Saraiva, bem como o Administrador da Alfândega, Antonio Joaquim da Costa Carvalho, «que muito trabalharam para a ordem». Quase a finalizar não deixa de dizer que «Tudo terminou sem haver um bofetão.» E relembra que a classe laboriosa sofre muito com a escassez de cereais, pedindo que seja isso lembrado à rainha, «bem como da entrada de efeitos estrangeiros, objeto que foi o pretexto da desordem».

 

Este sucesso pode ser rematado com o adágio a revolta pariu uma desordem; pois a julgar pelos esclarecimentos dados por alguns dos seus protagonistas o estrago foi ainda menor do que os jornais relatavam ainda a quente. Depois disto muita água correu por baixo da ponte, veio a revolução de Setembro, as pautas protecionistas de Passos Manuel... Mas em abril quem realmente sofreu avultados prejuízos com o tudo isto foi o importador da mobília estrangeira, que viu o seu investimento reduzido a cacos.[6]

 

Caros leitores, este relato que aqui vos deixo, todo ele alicerçado em informações de época, é o mais completo que conheço desta catárse tumultuária, que na verdade nada mais será do que uma nota de rodapé na história da nossa secular cidade. A todos que tiveram a amabilidade de o ler na integra, faço votos sinceros que o tenham apreciado.

__________________

1 - O texto atualiza a ortografia, mantendo pequenos traços que diferenciam a linguagem da época, como aliás tenho por hábito fazer.

2 - O próprio Teixeira Lemos faz publicar um esclarecimento nos jornais onde consta o seguinte: «vendo naquele memorando o meu nome, como um dos da comissão de Mercineiros, que no dia 25 de abril do passado se dirigiram ao S. Exa. a pedir a suspensão do desembarque dos trastes Estrangeiros, eu devo ao público a explicação, e aos meus concidadãos a explicação do acidente porque ali me achei, e o meu ulterior comportamento. Eu não sou mercineiro, nem contrato em trastes, o meu negócio é de tintas e ferragens; por acaso naquele dia tinha de ir a S. Lázaro, e passando no largo da Batalha quando alguns marcineiros se achavam juntos, a curiosidade fez-me demorar, quando destacaram alguns indivíduos daquele grupo; e me vieram instar para que fosse representar a S. Exa. que suspendesse o desembarque.

Então mesmo não tive eu receio em representar, que S. Exa. não podia fazer o que se pedia, e que o desembarque sendo de trastes, de que se tinham pago os direitos, e permitida a sua importação, não se podia suspender; todavia temendo fazer maior resistência anuí, e sendo-me nomeados pelo povo os dous declarados na dita correspondência os acompanhei.

É bem natural de ver a resposta que deu sua Exa. à representação mencionada; ela respondeu em sentido quase idêntico ao das reflexões do abaixo assinado, e acrescentou que aquela não era a maneira de pedir providências, que se recolhessem a suas casas, que se quisessem fizessem uma representação, que ele prometia dirigi-la a S. M. a rainha.

A comissão facilmente se deixou possuir destas verdades; e particularmente eu que as tinha participado antes mesmo daquele ato; mas os grupos, que esperavam a comissão, ouvindo aquela resposta, mostraram-se menos satisfeitos, queixaram-se de que tinham feito igualmente requerimento às câmaras, e que nenhum resultado tinham obtido, e que tudo isto eram panos quentes, e que o remédio era quebrar os trastes.

Até aqui estive eu, e sem medo de ser desmentido, posso asseverar que até àquela época esta é a verdadeira história do sucesso, daí em diante, nada sei, porque imediatamente me retirei a minha casa, e loja sem mais me importar de similhantes movimentos, assim como antes me não tinha importado. (...)»

3 - Mais tarde, nos "auto de conhecimento judicial" uma outra pessoa surge para além destas três: trata-se de um Corneta de um Batalhão Móvel da cidade que fora visto «nos tumultos defronte de Santo Eloi».

4 - Uma breve notícia da sua vida bem como referência aos seus últimos dias e funeral, na igreja da Lapa em 1875, pode ser encontrado aqui: http://digitarq.adstb.dgarq.gov.pt/details?id=1340567.

5 - António José de Sousa Manuel de Meneses, que havia sido empossado Presidente do Concelho de Ministros muito recentemente, em 20 de abril.

6 - Podemos talvez balizar o remate desta questão no dia 11 de maio, quando é publicada a louvação que o Tesouro Público faz à forma como o Administrador da Alfândega se comportara nos tumultos. Nele se refere que «Sendo presente a Sua Majestade a Rainha, os ofícios de 25, 26 e 28 de abril último, em que o Conselheiro Administrador Geral das Alfândegas do Norte, dá parte de que no primeiro dos ditos dias, uma porção de povo amotinado, na maior parte oficiais de Samblador, ou por estes incitados na ocasião de ter chegado ao cais da descarga da Alfândega do Porto, uma barca com móveis, procedente de Hamburgo, saltara dentro, e passara a inutilizar os referidos móveis; e seguindo depois com grande vozeria, ao armazém do proprietário, fizera o mesmo estrago em uma porção que já se achava recolhida, tentando os mesmos amotinadores, às 3 horas do dia imediato, invadir aquela Alfândega, debaixo do pretexto de destruir todas as mercadorias estrangeiras», era digno de salientar que o Administrador da Alfândega conseguira «salvar toda a propriedade depositada por diferentes armazéns da alfândega».

Viagem a um Porto de outro tempo .3

por Nuno Cruz, em 25.05.18

Continuemos a acompanhar Manuel Pinheiro Chagas, na qualidade de turista, pela nossa cidade.

 

*

Cafés

«Cerrei o capítulo passado, abandonando os leitores na praça Nova ou antes na praça de D. Pedro, como a câmara municipal ordena com tão pouco sucesso (...).

Sem mais reflexões, e atendendo a que o leitor deve estar farto de sentir a bulha dos tamancos, e de contemplar o madeiramento central do largo, crisálida bastante feia, de onde há-de sair, segundo creio, não uma borboleta mas uma estátua, vou oferecer-me para lhe servir de guia, meio seguríssimo de se extraviar, porque eu mesmo ainda não fui capaz de voltar à rua do Bonjardim, sem ter feito primeiramente um giro completo em torno da praça como se fosse cavaleiro de toiradas, e andasse executando as cortesias preliminares. [1]

(...)

Aqui tem os meus caros leitores o café Portuense, o mais notável, segundo creio, de todos os botequins da cidade invicta. Entremos por conseguinte nele com a veneração, que inspiram estas academias da moderna geração, academias onde todos os assuntos se discutem, onde se fazem e desfazem reputações, onde a virtude das mulheres e o talento dos escritores são despedaçados com a mesma faca, com que se parte o fiambre, ou se afogam nas ondas do ponche, onde se vai também muitas vezes a pique o senso comum.

 

Estou que os fumos da vaidade, e os modos despejados de que a mocidade contemporânea é acusada, e, inda mal, com justiça, são devidos à substituição dos antigos salões pelos grémios e pelos botequins, donde é repelido o delicado e suave prestigio feminil, cujos meigos raios sobredoiravam de certa elegância e de certo encanto os próprios vícios desenfreados da sociedade do século passado. [2]

 

Ou fosse porque o dono do café Portuense se compenetrasse da influência, que os botequins exercem na civilização, ou fosse por qualquer outro motivo, é certo que uma sala de academia não podia ser mais majestosa. Não ousa a gente falar em voz alta, e os jornais assumem naquelas mesas o venerando aspeto duns Evangelhos. Já é!

 

Duas estátuas, em atitude mais ou menos graciosa, recebem o freguês, que sente logo dali inocular-se-lhe no ânimo a ciência infusa de belas-artes, indispensável a todos os frequentadores de botequins, mas que em Lisboa só se encontra no fundos das garrafas, ou nas pinturas equivocas de alguns quadrinhos. As paredes, forradas de espelhos, entremeados com grandes telas, absorvem a luz, que os vidros polidos, colocados de distância a distância, refletem com tal ou qual repugnância. Sente-se nisto a opolência e a gravidade, a riqueza severa, a firme intenção de não sacrificar nos frivolos altares da moda, de não animar as frívolas tendências das modernas gerações e de dirigir os espíritos pelo são caminho da filosofia! (...)

 

Quem vem habituado à abundância de luz do café Martinho, espanta-se desta aparência sobria do café Portuense. Tem de confessar depois que, se bem adotasse outro sistema, o botequim da cidade invicta não é inferior ao café de Lisboa, e a vastidão do estabelecimento e os cinco magníficos bilhares, de que este se ufana, dão-lhe jús à estima dos amadores.

(...)

Passemos por defronte do edifício da câmara, com a veneração a que tem direito estas residências municipais, torneemos a praça, e paremos finalmente diante da livraria Moré, casa perfeitamente lisbonense, em cujas estantes campea o lindo romance de Camilo, Agulha em palheiro, que sai agora mesmo do prelo, e que se vem juntar à magnífica lista deste editor, a quem está atualmente devendo imenso a literatura nacional.

 

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Deixemos ao lado direito a rua dos Clérigos, ao lado esquerdo a rua de Santo António, vamos seguindo em frente, até entrarmos na rua das Flores, onde os ourives apresentam, na vidraça das suas lojas, expostos à admiração das mulheres do povo formidáveis cordões e arrecadas, proporcionadas à força muscular deste sexo frágil, que põe baús à cabeça, e arrasta socos nos pés [3], e que de certo andaria em equilíbrio instável, se estes formidáveis contrapesos não viessem contribuir para conservar a posição vertical das populares portuenses.

 

Continuemos descendo sempre, caminhemos em direção ao rio; agora vamo-nos perder com toda a certeza (...).

 

Pois com estas ideias, caros leitores, estamos perdidos no labirinto de vielas estreitas, escuras, emaranhadas, que vão ter a Miragaia. Contudo, encostemo-nos um ao outro, e vamos por aí fora.

 

O Porto antigo

O Porto primitivo, da mesma forma que a primitiva Lisboa, do mesmo modo que todas as cidades, que brotam à beira dos rios, agrupou-se timidamente, mirando-se no torvo espelho do seu Douro, como a donosa Lisboa mirava os seus encantos no límpido cristal do Tejo; mas não foi tão imprudente nesses enlevos de vaidade, que espraiasse as suas casas por toda a margem, formando longa fila paralela à corrente, e perdendo a segurança com a extensão. As habitações foram trepando pelos penhascos, que se empinavam tremendos à beira do rio apertado neste leito de fragas, até ficarem todas à sombra do paço episcopal, que se ergueu entre elas mais com o seu aspeto mais de castelo roqueiro, do que de residência eclesiástica. Assim devia de ser, atendendo a que o bispo era não só pai espiritual, mas senhor temporal, e que, possuindo os habitantes do Porto em corpo e alma, por tal forma os tinha seguros no seio da igreja, que muito arteiro devia ser o demónio, se fosse capaz de se apossar de uma perna, só que fosse, de um cidadão portuense.

(...)

Assim, pois, como vassalos humildes e cautelosos cristãos, aninharam-se os moradores do Porto em torno da sagrada habitação do seu bispo e senhor, chegando-se bem uns aos outros, fazendo negaças ao sol, que dificilmente se poderia aventurar nas estreitíssimas vielas da cidade, a qual não faltava por este modo aos usos e costumes da idade-média, que, sendo uma era de gigantes, folgava em não caber por estas ruas e portinhas de anões.

(...)

A pouco e pouco, como é natural, o Porto foi-se sentindo apertado, quis desafogar, e irrompeu em todos os sentidos, trepando mais por um lado, espraiando-se para outro, e afastando-se da religiosa sombra do seu paço episcopal, que, da altura onde campeava, pode ver tristemente as suas ovelhas fugirem-lhe a bom fugir, e irem à procura destes bens temporais, que se chamam ar e luz, sem os quais não pode viver a frágil organização humana.

(...)

No Porto não acontece assim [4]. A mão poderosa da natureza não veio ajudar as transformações dos homens e do tempo, e tudo se foi fazendo por conseguinte a pouco e pouco. De forma que a cidade velha ficou conservando o posto que ocupava, sem perceber as inovações, que se lhe iam adicionando, mas que a não desalojavam, nem se lhe metia de permeio. Apenas uma ou outra rua nova ousa espreitar por entre o montão de casas esguias, que se atropelam umas às outras, e se conservam carrancudas e imóveis, apertando-se cada vez mais, como que para oporem o seu cerrado esquadrão às invasões do progresso. Olham de soslaio para a ponte pênsil, e contam ao Douro, seu sombrio confidente, o rancor que lhes inspira a arrojada fita, que ousa saltar duma à outra margem, sem respeito algum pela sua venerada catadura. O Douro, que tem também os seus agravos, e que se vê ofendido no seu orgulho pela incrível audácia da atrevida, que lhe não pediu licença para o transpor, jura vingança, e ruge enfurecido, ameaçando, sempre que pode, soverter a insensata, e galgar pelas ribas penhascosas para ir bramir nas praças amodernadas da sua gentil vizinha.

 

Mas a velha cidade não suspeita sequer as louçanias, em que a civilização se tem desentranhado, enquanto ela se conserva imóvel com as suas casas negras, espantando-se apenas de não ver passar cavaleiros e donzéis pelas tortuosas ruas, onde o trabalho campeia, onde se projeta a cada instante a luz avermelhada da forja, onde se escuta o retinir do martelo na bigorna (...). Mas, se, mais feliz do que Lisboa, pode conservar o terreno que ocupava, e não ceder um ponto só às modernas construções, não pode impedir que nos sítios, que deixava livres em torno de si, se fossem a pouco e pouco erguendo novas cidades, que se sucedem umas às outras, e formam um conjunto pitoresco, e digno de se observar. À medida que o Porto se vai afastando do rio, vão-se alargando as ruas, as casas vão deixando essa aparência esguia (...). O bairro de Cedofeita, que tem um tal ou qual ponto de contacto com o bairro lisbonense de Buenos Aires, é perfeitamente um bairro confortável, construído, com todas as comodidades exigidas pelo espírito moderno.

(...)

Vamos pois visitar o Douro, antes que ele nos visite, o que seria da sua parte muito delicado, mas muito desagradável para nós. Contudo, o torvo rio está dando mostras de nos querer fazer essa amabilidade, e, ou seja porque as chuvas torrentosas o tenham engrossado, ou porque esteja decididamente curioso de nos ver, vai-se levantando nos bicos de pés, e erguendo acima do areal a sua feia catadura, com grande desprazer dos portuenses, que receiam receber alguma dessas visitas, como as que ele lhes tem feito frequentemente, e em que toma a liberdade de se estirar por praças e ruas, como vilão em casa de seu sogro.

 

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Saiamos pois, da rua das Flores, entremos na de Ferreira Borges, e deixando à direita a da Ferraria, não nos esqueçamos contudo que perto dessa rua existe o local, onde se erguia outrora o arco de Santana [5], tão conhecido dos leitores do nosso querido Garret (...).

 

Continuemos a descer, que de relance podemos ir vendo ruas ilustradas literariamente, e cujas negras casas se douram com um reflexo de auréola, que cinge a fronte de um romancista, cuja fecunda e esplêndida imaginação se compraz em iluminar estes escuros recintos do velho Porto, sendo nisso mais generosa do que a companhia do gás, que os deixa ficar muitas vezes sepultados em completa sombra, e que outras vezes derrame neles a mentirosa luz de uns candeeiros, que me fizeram perceber perfeitamente as trevas visíveis, em que fala o cantor do Paraíso Perdido.

(...)

Passemos por conseguinte à Porta Nobre ou Porta Nova, porque andam os arqueólogos em discussão sobre qual será o verdadeiro nome, que lhe deve competir. Esta discussão felizmente não pode degenerar em luta, porque, a falarmos a verdade, pela porta, que lhes serve de tema, não podiam entrar a um tempo dois dos contendores.

 

Ambos os partidos alegam razões tão fortes, que eu não sei realmente para que lado hei-de pender, de forma que me parece melhor darmos-lhe os dois nomes, ambos merecidos, o de Porta Nobre, por ser plebeia bastante, e o de Porta Nova, por ser velha como Matusalém.

(...)

Estamos pois em Miragaia, se as minhas informações não erram; do lado esquerdo o imenso madeiramento, onde vão progredindo vagarosamente as obras da nova alfândega; para o lado direito ... repare o leitor numa daquelas vielas escuras, imundas, tortuosas. É a rua dos Arménios, donde saiu a Augusta do - Onde está a felicidade? - a Augusta, cuja linda casa do Candal se pode ver além na margem fronteira. Se continuarmos, se formos pelo caminho da Foz, havemos de encontrar o convento de Monchique, onde morreu, abraçada às grades do mirante, a Teresa do Amor de Perdição!

 

(...) Pareceu-me divisar encostada à negra fachada de uma dessas casas da rua dos Arménios a pálida fisionomia de Augusta, de resignada mártir, uma das mais suaves criações de Camilo. Por entre as grades do mirante de Monchique julguei descortinar o branco vulto de Teresa, vendo partir para o desterro o navio, que lhe roubava o amante, e com o amante a vida.

 

A chuva, que protestou decididamente interromper-me todas as reflexões, e destruir as intenções descritivas da minha viagem, desabou de novo em cima das lajes portuenses. Abra o chapéu leitor!

*

 

Prosseguirá... 

 

__

1 - Este madeiramento central do largo era o tapume do pedestal e estátua de D. Pedro IV, que por esta altura ia sendo montada (ver AQUI)

2 - O séc. XVIII, evidentemente.

3 - Ver a primeira e segunda parte destas transcrições.

4 - O autor refere-se ao parágrafo anterior, que omiti, e que versava Lisboa.

5 - Este perto é relativo pois falamos de cerca de 350m de distância entre os dois pontos...

Teles Ferreira no século XXI

por Nuno Cruz, em 20.05.18

Confesso que tinha agendado mais para a frente falar-vos de novo sobre a carta topográfica da cidade do Porto de 1892, pois encontrei nos relatórios camarários um documento da autoria do "grande arquiteto" da primeira planta executada com base científica da cidade do Porto que pretendia aqui reproduzir. A razão porque o ia fazer apenas mais à frente advém de ainda há pouco ter colocado uma publicação versando este tema (como podem comprovar aqui). Contudo, tendo tido a felicidade de hoje[1] assistir ao Um objeto e seus discursos precisamente sobre uma pedra litográfica de um conjunto de seis que foram executadas para a impressão da planta da cidade numa versão mais reduzida do que as magníficas folhas aguareladas que hoje existem bem guardadas no Arquivo Municipal do Porto e disponíveis on line; não vi melhor altura do que esta para avançar com a minha ideia.

 

O evento foi muito interessante. Apreciei bastante a intervenção do Sr. vereador Pedro Baganha, cujas palavras, além de elucidativas, me fez acreditar no seu genuíno amor à cidade. Igualmente interessante foi a intervenção do técnico informático responsável pelo desenvolvimento de um excelente projeto que hoje teve o seu dia 1 fora dos circuitos fechados dos servidores da câmara (incrível é como este projeto, originalmente pensado para auxiliar na gestão dos cemitérios municipais, em boa hora se transformou neste grande empreendimento!). Trata-se precisamente de uma planta da cidade interativa, totalmente gratuita e disponível on line. Esta planta tem como base de arranque precisamente a de Teles Ferreira. Mas o seu objetivo é traze-la camada a camada até ao presente e mesmo até aos anos anteriores a 1892. Por agora apenas se encontra disponível o centro histórico da cidade, mas no futuro é todo o seu território que nos será mostrado, chegando ao pormenor de indicar muita documentação que existe inerente a monumentos, edifícios, arruamentos e praças, etc, relacionando-os com outros sítios na internet. Poderão desde já encontrar a(s) planta(s) a que me refiro aqui http://www.cm-porto.pt/cartas-historicas-interativas-do-porto/cartas-historicas-interativas-do-porto. Não se admirem, caros leitores, se passarem horas a explorar esta ferramenta...

 

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Pedra litográfica presente no evento (pedra n.º 2 de 6 correspondente à folha 5) - foto do autor.

 

Mas, e como este blogue não pretende falar do presente mas sim do passado, voltemos ao Eng. Teles Ferreira e ao trabalho que ele teve durante anos a fio para que hoje todos nos pudéssemos quase que hipnotizar com a simples observação de uma aguarela da sua planta e perdermo-nos nos pormenores que ela nos mostra de um mundo que já não existe.

O que se vai ler abaixo é um relatório de Teles Ferreira por sua vez incorporado no Relatório da Comissão Municipal publicado em julho de 1893 (nesta época, a cada trimestre era produzido um relatório). É muito interessante para se conhecer melhor o que está por trás deste precioso auxiliar à gestão e planeamento citadino, e em complementaridade com a publicação que vos dei já a conhecer.

 

 

*

«Ilmo e Exmo. Sr.,

 

Devendo terminar em agosto próximo, a comissão de que fui encarregado, do levantamento da planta da cidade do Porto, cumpre-me levar ao conhecimento da Exma. Câmara o estado em que ficam estes trabalhos, e bem assim apresentar alguns alvitres, que julgo necessários para conservação deles, que representa a importante verba de reis 40:000$00 e que não havendo muita fiscalização, desaparecerão se não no todo pelo menos em grande parte.

 

A carta topográfica da cidade do Porto compõem-se de quatro cartas, cuja planimetria está completa, e todas as folhas numeradas e por mim chanceladas e seladas com o selo da Câmara, acondicionadas em pastas próprias.

 

Carta n. 1 - Minutas de campos, escala de 1:500; compõe-se de 464 folhas de 0,80x0,50, sem margens e coladas em pano para sua melhor conservação, e ligeiramente passadas a limpo.

 

Destas folhas são completas 360 com 3:600 hectares de levantamento e 104 incompletas com 400 hectares. Nestas folhas já algumas tem as cotas de nivel.

 

Carta número 2 - Carta a limpo, cópia fiel da antecedente, que se compõe igualmente de 464 folhas, mas com margens.

 

Esta carta está desenhada a cores, segundo as convenções topográficas adotadas na Escola do Exército, em papel Woltreman colado em pano.

 

Carta número 3 - Carta cadastral na escala de 1:2500, redução da número 1, com todos os detalhes, compõe-se de 24 folhas de 0,80x0,50 com nivelamento em algumas delas e todas desenhadas a nankin.

 

Carta número 4 - Carta de gabinete na escala de 1/5000 redução da número 3.

 

Esta que se vai gravar compõe-se de 6 folhas com detalhes por massas, igualmente desenhada a nankin.

 

Entendo que a carta número 2, salvo melhores determinações de V. Exa., deve ser entregue no Arquivo da Exma. Câmara, sem nunca dali sair sem ordem expressa de V. Exa. Esta carta é um documento oficial e autêntico do estado da cidade em 1892, muito útil em consultar em épocas futuras e um auxiliar importante em questões judiciais.

 

A carta número 4 vai ser entregue aos gravadores, e a sua reprodução de mil exemplares será um valioso auxiliar para atenuar o seu custo em talvez dois terços dele, se a venda for bem administrada e fiscalizada.

 

Restam as cartas número 1 e 3, que são as que devem ficar a cargo de empregados competentes, debaixo das ordens diretas do Exmo. Engenheiro. Estas cartas devem ficar resguardadas o mais possível, devendo tirar-se da carta número 1 uma cópia em papel tela para uso da repartição técnica.

 

Na carta número 1 devem ser lançadas dia a dia as diversas alterações que se vão dando na cidade tanto em ruas como em construções, e as cotas de nivelamento, como já têm muitas folhas; igualmente também estas cotas devem ser lançadas na carta número 3 para melhor se apreciar o seu conjunto.

 

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Folha n. 5 da Carta Topográfica da Cidade do Porto reduzida da que foi mandada levantar na escala 1:500. Trata-se da folha correspondente à litografia apresentada como mote para a sessão Um objeto e seus discursos deste sábado.

 

Nivelamento. - Terminada a planimetria, falta o complemento deste trabalho, o nivelamento, sem o qual a carta não poderá prestar serviço completo.

 

Estão feitas deste trabalho 70 a 80 folhas com a superfície aproximada de 550 hectares, faltando portanto 7/8. Este serviço é desempenhado pelo condutor de obras públicas, Otávio José Machado, que vence pelas folhas semanais 700 reis nos dias úteis, não tendo sido possível, para ativar este trabalho, desviar os outros empregados, por estarem todos encarregados da retificação da planimetria de todas as cartas.

 

Sendo de incontestável necessidade que este trabalho se complete, lembro a V. Exa., que debaixo da fiscalização direta do Exmo. Engenheiro, deverá ser desempenhado pelo mesmo condutor, para não alterar a ordem e o sistema com que tem sido feito, visto o pessoal técnico da junta de obras ser diminuto e mal chegar para o serviço daquela repartição.

 

Este serviço é muito moroso, porquanto o montei de maneira a ser da maior precisão possível, tanto quanto podem dar os instrumentos e pessoal de que se dispõe. É necessário aproveitar os dias em boas condições atmosféricas e tem muitas vezes de se reproduzir polígnos, que acusam mais de um centímetro por quilometro, metade do erro exigido em Obras Públicas.

 

Nestas circunstâncias, se for bem aproveitado e fiscalizado o tempo e o serviço, não se poderá completar o nivelamento em menos de dois anos e o seu custo em empregados e serventes não deve exceder a 800$000 reis.

 

Conservação. - Permita-me V. Exa. que nesta parte eu seja um pouco minucioso. Obriga-me a isso o natural desleixo que há, não conservação de documentos, aliás importantes, que desaparecem das repartições, sem que a responsabilidade vá a quem toca; e também os interesses da Exa. Câmara, que tem despendido com estes trabalhos uma importante soma, que se não forem bem zelados e conservados,  é dinheiro literalmente deitado à rua.

 

É certo que estes trabalhos, que só os interessados conhecem, não são simpáticos,  não se vêm, não se apalpam e o público mal ajuíza deles, se é que ajuiza muitas vezes; mas a esclarecida competência de V. Exa. e da Exma. Câmara, não deixará de concordar, que pelo seu valor merecem, senão maior pelo menos igual cuidado, ao que se dispensa às praças ajardinadas, ruas, mercados, etc, para os quais depois de concluidos se nomeiam logo guardas, para sua vigilância e conservação.

 

Não são empregados do quadro que eu peço se nomeiem para este serviço; isso hoje não o pode fazer a Exma. Câmara.

 

Ficando como devem estes trabalhos debaixo das ordens imediatas do Exmo. Engenheiro, poder-se-ia julgar que a junta das obras se poderia encarregar deste trabalho; mas esta repartição tem o quadro tão restritamente preciso para os muitos trabalhos técnicos, que dificilmente se poderá encarregar destes, que darão bem que fazer a dois empregados; porquanto não é só a guarda e conservação, de que se devem encarregar, mas tem ainda as contínuas alterações a fazer dia a dia na carta pelo movimento de construções, a cópia em papel tela que se deve tirar para conservação dos originais de campo, e para uso da repartição técnica, e mais tarde a planta de todos os encanamentos, o que é importante e de muito dispêndio, podendo a pouco e pouco ir-se fazendo, já aproveitando das plantas existentes, já procedendo a estudos no terreno.

 

Estabelecida pois a necessidade da conservação da carta e não podendo a junta de obras encarregar-se deste serviço, é claro que se terá de criar um pessoal; lembro à Exma. Câmara (o que já fiz em duas sessões plenárias, sendo em ambas tomado em consideração) os dois empregados, que atualmente desempenham excelentes serviços nesta repartição, Manuel Pereira da Costa e Moisés Augusto, empregados por mim educados neste serviço e os únicos que pelos seus quinze anos de serviço nesta repartição melhor conhecem a topografia da cidade e melhor poderão esclarecer o Exmo. Engenheiro sobre a mesma carta.

 

Assim nomeando V. Exa. o primeiro daqueles empregados conservador e o segundo medidor, conservando-lhes os atuais vencimentos de 700 reis diários ao primeiro, 500 reis ao segundo, nos dias úteis, não só adquire empregados mais competentes, como remunera quinze anos de bom serviço a esta casa, e não os pondo hoje (que deixaram os seus antigos ofícios, de que já não podem lançar mão) na contingência de não terem onde ganhar a vida.

 

Não pareça a V. Exa. excessiva a quantia de 400$000 reis anuais em que importará o salário desses empregados. Se a comparar com os guardas dos mercados e jardins, V.Exa. verá quão diminuta ela é, e quão superior é o serviço. E para que V. Exa. veja a importância que em Lisboa se dá a este serviço, basta observar que o pessoal da secção técnica, encarregado dele, compõem-se além do Engenheiro, de um condutor, dois desenhadores, um medidor e um porteiro, despendendo todo este pessoal 5:000$000 anuais.

 

Se porém as razões que acabo de apontar, e ainda as de economia forem estorvo a esta nomeação, tenho a honra de apresentar a V. Exa. a criação da receita dada pela mesma carta, que se não cobrir a despesa, pelo menos muito a atenuará.

 

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Folha n. 6 da Carta Topográfica da Cidade do Porto reduzida da que foi mandada levantar na escala 1:500, parte integrante da planta litografada para possibilitar a sua impressão. Trata-se da zona oriental da cidade, destacando-se a Estação do Pinheiro (Campanhã), os vales do Tinto e Torto na área em que correm dentro do município portuense.  

 

Desde que comecei estes trabalhos, todas as plantas necessárias à junta de obras têm sido cópias tiradas da planta geral, e assim deveria ser; mas o que não pode continuar sem lesar os interesses da Exma. Câmara, é um sem número de cópias para serviços particulares, umas autorizadas sobre a requisição da junta de obras, e outras por simples recomendação.

 

Todas estas cópias são pagas lá fora por preços excessivos, quando, se fossem pagas por um preço diminuto e tiradas na Câmara, montariam já a uma soma importante; e para que V. Exa. avalie melhor, basta referir que a última que a Exma. Mitra tirou, autorizada por ordem do Exmo. Presidente Oliveira Monteiro, se fosse paga a 10 reis o centímetro quadrado, importaria em 880$00 reis; acrescendo ainda, que essa grande porção de trabalho fica lá fora e que em pouco tempo haverá especulador que possua a planta toda, auferindo daí lucros que só pertencem à Exma. Câmara.

 

Ordene portanto, V. Exa. que todas as plantas que lhe forem presentes, para abertura de ruas, construções, etc. sejam cópias da sua planta oficial, pagando 10 reis por centímetro quadrado na escala de 1/500 e 50 reis na escala de 1/2500 nunca menos de 100 centímetros na primeira escala e 25 na segunda.

 

A fiscalização e execução deste serviço pode e deve ser desempenhada pelos empregados na conservação, e sendo rigorosa a fiscalização, dará boa receita para a Exma. Câmara, e os particulares lucrarão pela modicidade do preço.

 

Não veja V. Exa. na exposição que acabo de fazer, senão o meu empenho em ver conservar o trabalho que criei e igualmente conclui, como dar aos empregados que durante quinze anos me acompanharam, e que tão bons serviços prestaram, a justa recompensa desses serviços.

 

E ao deixar esta comissão, acompanha-me a certeza de que V. Exa. mais uma vez, adotando estas minhas reflexões, me dará uma prova de deferência, que juntarei às muitas, que V. Exa. e todas as Exmas. Câmaras sempre me dispensaram, de que me confessarei eternamente reconhecido.

 

Por último lembro a V. Exa. que o orçamento votado neste ano para estes trabalhos de 1:500$000 reis estará acabado em fim de setembro.

 

Se V. Exa. não quiser interromper estes trabalhos, serão suficientes até ao fim do ano, 240$000 reis. De futuro V. Exa. providenciará como melhor entender. - Deus guarde a V. Exa. - Porto e Repartição da Planta da Cidade, 21 de junho de 1893. - Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro António Ribeiro da Costa e Almeida, Meritíssimo Presidente da Câmara Municipal do Porto.

 

Augusto Gerardo Teles Ferreira

Encarregado do levantamento da Planta da Cidade do Porto»

*

 

Espero que tenham apreciado a leitura deste relatório escrito por aquele que por mais de uma quinzena de anos trabalhou no sentido de completar esta enorme obra que, tendo um objetivo essencialmente prático, pode ser incluída sem grande esforço no conjunto do património artístico portuense.

 

Nota final: Todas as folhas da planta aqui apresentada estão disponíveis no sítio do Arquivo Municipal do Porto; para limitar a busca bastará escrever na caixa de procura, por exemplo, Carta Topográfica da Cidade do Porto reduzida.

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1 - Sábado, 19 de maio de 2018.

Uma imagem intrigante e única do passado

por Nuno Cruz, em 16.05.18

A imagem que abaixo se apresenta bastante me intrigava uma vez que nada do que surge em primeiro plano parece reconhecível, pese embora a silhueta da Sé Catedral, Paço Episcopal e Igreja de S. Lourenço não abra brecha para dúvida: é o Porto! Mas, aqueles barracões e traseiras de casas que surgem em primeiro plano nada parecem ter que ver com o ângulo de onde a foto poderia ter sido obtida. Só olhando para plantas antigas da cidade, tentando descortinar esse mesmo local e comparar com o que lá se encontra agora, é que me dissipou alguma dúvida que ainda pudesse ter de que esta vista foi captada daquele que é agora o Palácio da Bolsa, talvez no primeiro ou mesmo segundo andar do seu ângulo voltado à rua Ferreira Borges.

 

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Legenda: A - casa da rua das Congostas adjacente àquela em que se encostava a fonte, B - madeira empilhada referida pela notícia de 1860, C - barracões do pequeno mercado que ali temporariamente existiu, D - janelas e porta rasgadas nas traseiras das casas das Congostas / E - casas do lado nascente da mesma rua.

 

Aquilo que nos surge em primeiro plano, e analisando a planta existente no ADP bem como uma outra foto onde se vê o dormitório do convento dominicano visto de sul para norte (recentemente utilizada numa crónica do Sr. Germano Silva) indicam que se trata da parte mais a sul da antiga cerca dos dominicanos. Aqueles barracões estavam, grosso modo, onde agora corre a rua da Bolsa até ao gaveto da esquadra policial, nos baixos do mercado Ferreira Borges. As madeiras que se vêm depositadas no canto inferior direito ocupam a área onde agora encontramos o monumento ao Infante D. Henrique (essas madeiras estarão provavelmente relacionadas com uma pequena notícia que encontrei n' O Comércio do Porto de 1860 que refere que «um particular ocupou indevidamente grande parte da cerca do extinto convento com carros e carros de madeira que todos os dias servem de latrina pública, indo completamente contra as posturas municipais». As traseiras das casas que vemos são as da rua das Congostas (ou Cangostas), completamente arrasada para abertura da fase 2 da Rua Mouzinho da Silveira. Pormenor curioso é o das janelas e mesmo uma porta de acesso que naquelas paredes foram rasgadas; facto proibido na altura em que os dominicanos eram donos daquele espaço para não devassar a clausura (apenas se podiam construir pequenas aberturas e frestas como as restantes que ainda se vêm também na imagem).

 

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Excerto da planta acima mencionada: para além das letras já referidas, temos: F- fonte das Congostas, 1 - rua das Congostas, 2 - rua de S. João, 3 - rua do Ferreira Borges. O circulo e seta colocados no Palácio da Bolsa indicam a direção da objetiva fotográfica.

 

Para os meus caros leitores que ainda apresentam reservas, logo abaixo poderão ver uma foto tirada não há muitos anos, e que nos mostra com alguma aproximação o mesmo local nos nossos dias. Dever-se-á levar em conta que aquele terreno foi rebaixado em 1866 no local do edificado do convento bem como em 1871 na parte afeta à sua cerca; tendo sido terraplanado e alinhado em altura com a rua Ferreira Borges, aberta entre 1835 e 1839.

 

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(2012 - foto do autor)

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Originalmente publicado no blogspot em 29.05.2013 com o nome Uma imagem intrigante; agora revisto e aumentado.

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