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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O arranjo urbanístico no bairro da Sé e o 'Acto Medieval'

por Nuno Cruz, em 27.07.18

Compulsando os relatórios camarários produzidos nos anos 40 do século passado, é possível verificar uma contínua preocupação com a salubridade da cidade. Fosse na demolição de Ilhas, substituídas por outras funcionalidades no mesmo espaço[1], fosse na construção de novos bairros ou edifícios sociais[2]. Este último exemplo, aliás único na época[3], talvez tenha albergado parcial ou totalmente os habitantes da área da Sé que foram expatriados em 1939, quando se deram as conhecidas demolições que para sempre estropiaram a mais antiga das mais antigas zonas da cidade; criando no seu lugar a plataforma artificial agora denominada Terreiro da Sé[4].

 

O plano que abaixo se apresenta surge no relatório camarário de 1940. Nele podemos comprovar as demolições que realmente se efetuaram, mas também verificar as demolições a fazer numa 2ª fase que, felizmente, não foram levadas avante[5]. Pois é caros leitores, a tragédia poderia ter sido bem maior uma vez que as demolições que não ocorreram estendiam-se até ao edificado da rua de Santana junto do local onde podemos observar restos da muralha românica! Outro ponto negativo: o x amarelo indica o Solar dos Correias que no plano se encontra marcado como edifício de interesse, o que não impediu que fosse demolido e que se tivesse perdido o rasto das suas pedras previamente numeradas para uma possível reconstrução cerca de uma década depois!!!

 

 

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 i1 A vermelho as principais modificações ocorridas em 1939-40; a verde aquelas adiadas para a nunca realizada segunda fase. Notar que este era o estado de coisas em inícios de 1941; posteriormente muito mais foi suprimido nomeadamente na calçada da Vandoma e no morro da cividade...

 

 

Para sempre desaparecidas estão a rua da Sr.ª de Agosto, a rua do Paço e o largo do Paço Episcopal; a própria rua de S. Sebastião viu a sua face E ser obliterada do traçado citadino. Restam-nos diversos registos fotográficos, que nos dão uma parca sensação do que seria passar por aquelas ruas, decadentes é certo mas ainda assim arruamentos que seriam dos mais antigos da cidade velha, dentro do perímetro do castelo[6].

 

O intuito dos arquitetos era o de desafogar a Sé Catedral das excrescências à sua volta, fossem estruturas a ela afetas, fossem casas de habitação; e nem uma capela, a dos Alfaites a isso escapou![7] Com esse desafogamento, pretendia-se que o monumento fosse apreciado em toda a sua plenitude. Mas se é verdade que a operação resultou num melhor vislumbre daquela imensa nave, em minha opinião, haveria uma outra imponência quando se avistava uma torre da Sé do fundo da rua Senhora de Agosto (ver i2), como se o estreitar da visão provoque uma maior magnitude e capacidade impactante da mole granítica[8].

 

 

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I2 O antigo largo do Paço Episcopal e a rua da Sr.ª de Agosto. Ao fundo a imensa mole pétrea da Catedral permite ao transeunte antever o grandioso edifício que encontrará ao chegar junto a ela. Na casa do gaveto com o largo do Paço Episcopal é curioso notar no pilar chanfrado que a mesma apresenta, aparentando ser mais antigo do que a casa em si, o que parece apontar para um aproveitamento da versão mais antiga daquela construção(?)

 

 

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i3 Várias são as imagens disponíveis no AMP que poderia usar para ilustrar estas demolições, mas optei contudo por apresentar apenas duas. Esta mostra-nos o largo do Paço Episcopal, em primeiro plano e as rua da Sr.ª de Agosto (3) e Paço Episcopal (2). O n.º 1 assinala a pequena plataforma onde existiram os famosos açougues que por muito tempo deram o nome a este largo; a demolição deste edifício contudo é bem anterior a 1939 e por isso completamente independente desta intervenção.

 

 

Destas demolições apressadas (o plano original data de junho de 1939) não está isento de culpa o duplo centenário que passou à história como Acto Medieval, que se celebrou na cidade em 7 de junho de 1940 e que se desejava tivesse lugar naquele local.[9]

 

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i4 Início da cerimónia do Acto Medieval, logo após anfitriões e convidados haverem deixado as suas viaturas no início da calçada da Vandoma; aqui vão já subindo a mesma calçada, com o Prof. Dr. Mendes Correia, Presidente da Comissão Municipal, a liderar (3ª pessoa da pé a contar da direita). Reparar, à esquerda, nas casas da remodelada calçada da Vandoma (com holofotes a apontar para a Sé Catedral) bem como mais longe ainda à esquerda vemos as traseiras de algumas casas do largo da Cividade: tudo também demolido poucos anos depois.

 

 

No final deste evento o acrescento ao coro alto da igreja da Sé, propositadamente construído para a solenidade, foi possível de ser removido. Cá fora contudo, as casas e ruas que haviam desaparecido não mais puderam reaparecer. E assim, uma boa parte daquele cantinho histórico portuense povoado de memórias que abarcavam um período de pelo menos 900 anos apagou-se para sempre!

 

 

Como nota final, convido os meus leitores a lerem o excelente trabalho de Maria Leonor Botelho intitulado A Sé do Porto no século XX. Embora seja um estudo sobre as intervenções por que passou o nosso mais importante monumento durante aquele século (algumas delas verdadeiras sevícias...); não podia deixar de referir, é claro, as transformações à sua envolvente, que deixaram aquela área com a sua forma atual.

 

________

1 - Veja-se o exemplo da “Ilha do Zeferino” na rua Senhora das Dores que deu lugar a um parque infantil em 1942;

2 - Como o caso do bloco de apartamentos da rua Duque de Saldanha, concluído em 1941;

3 - O próprio relatório camarário aponta já outras diretrizes para alojar as classes mais pobres.

4 - Bonito miradouro citadino mas que resultou de um crime patrimonial, fruto da forma de ver a cidade e os seus monumentos da época, à qual não eram alheias as formas de atuação, no mesmo âmbito, do regime fascista de Mussolini;

5 - Quem sabe, uma consequência da falta de fundos provocada pelo eclodir da 2ª guerra mundial;

6 - Nome pelo qual a certa altura começou a ser conhecido o burgo amuralhado da Penaventosa;

7 - Capela seiscentista que foi depois reconstruída à entrada da rua do Sol.

8 - Não posso dissociar este pensamento da chegada junto do Al Khazneh, na distante Petra, onde o mesmo efeito se produz. Quanto à memória descritiva da intervenção na Sé, ele diz pretender melhorar as condições de trânsito do local, «libertando-o de certos prédios inestéticos, o que permitiria desafrontar as fachadas da Sé e dos Paços do Concelho, criando novas perspectivas e pontos de vista» (os Paços do Concelho estavam à época temporariamente alojados no Paço Episcopal).

9 - Centenário da Formação e Independência de Portugal, aliás comemorado em várias localidades do país.

Viagem a um Porto de outro tempo .6

por Nuno Cruz, em 20.07.18

Prosseguindo na transcrição de uma (grande) parte do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas, iremos desta vez acompanhar o autor numa viagem à Foz e a Leça, num registo breve mas recheado de curiosas referências.

 

*

«(...) Prometi-lhes, caros leitores, acompanha-los numa digressão pelo rio acima, e podem estar certos que realizarei a promessa. Antes, porém, que o faça, convido-os a um passeio para o lado oposto: passeio que terá por fim ver a Foz, Leça da Palmeira e Matosinhos.

 

A viagem e um "insólito"

Já ninguém se lembra do inverno, e o sol, rindo no céu azul, faz esquecer a todos as carrancas das nuvens. O magnífico panorama, que se desfruta descendo a rua da Restauração, revela-se em todo o seu esplendor, despido dos véus espessos do nevoeiro, em que muitas vezes se envolve. Ou seja, porque a rainha do Douro queria fazer a corte aos ingleses, que abundam no seu seio, ou seja simplesmente por uma prosaica razão meteorológica (...) é certo que as brumas, que acompanham muitas das manhãs do Porto, pouco terão que invejar à cerrada neblina de Londres. (...)

 

Felizmente, o spleen não acometera os filhos da pérfida Albion no dia, que destinamos à romaria da Foz, e o céu meridional ostentava-se com todo o seu brilhantismo encantador. Saímos do hotel da Europa (...), e depois de nos termos persignado, e termos feito uma solene promessa ao Senhor de Matosinhos, cuja capela íamos visitar, se voltássemos a salvamento, aventuramo-nos, guiados por um cocheiro preto, nessas ruas do Porto, ruas democráticas, que castigam a ambição de quem tem o atrevimento de meter num caleche com a ameaça perene de lhe partirem as costelas, ou pelo menos de o estatelarem na lama, onde ficará servindo de exemplo a todos os peões refratários.

 

Digamos já, para não quebrarmos depois o fim da narração, o motivo, porque apesar de poder escrever são e salvo estas linhas, não cumpri a solene promessa feita ao Cristo milagroso, que, prestemos-lhe essa justiça, nunca fez maior milagre do que este (...). Confesso, que, em boa hora, nos devíamos ter pesado a cera, a nós, à carruagem, aos cavalos e ao preto. Mas, exatamente neste último ponto está o intrincado do negócio. Um preto de cera é um caso não previsto no código dos ex voto! (...)

(...)

Seria forçado a repetir-me, se quisesse descrever-lhe a estrada da Foz. Já percorremos uma boa porção dela, quando fomos ao Palácio de Cristal, já divisamos uma outra parte, quando da eminência da Torre da Marca relanceamos a vista para o cenário que se desenrolava aos nossos pés. Contentemo-nos por conseguinte em saborearmos a doçura destes raios de sol, e em nos enfeitiçarmos silenciosamente com a perene verdura, e pitoresca disposição das casas da margem fronteira.

 

Não nos enlevaremos porém tanto, que não reparemos na lisonjeira atenção que nos prestam todos os que vão passando junto de nós. Reparo que ficam por muito tempo a olharem-nos, pasmados, que chamam uns pelos outros, que se reúnem em magotes, que vêm correndo para nos verem melhor. A que será devida tamanha popularidade? Pensei modestamente em me fazer eleger deputado, e olhei com modos afáveis para as pessoas que nos rodeavam. Meditava no meu programa, quando notei que eram as crianças os admiradores mais obstinados e entusiásticos que tínhamos. Soltavam, gritos de alegria, assim que nos viam, davam cabriolas em sinal de regozijo, mostravam enfim sincero desejo de nos fazerem uma ovação delirante. Admirei de mim para mim a precoce inteligência dos portuenses infantis, e contemplei com enternecimento os exercícios ginásticos a que se entregavam. Isto de saltos mortais, da cabriolas e reviravoltas é de bom agouro para uma eleição. São quasi sempre os candidatos que se entregam a esses exercícios. A mímica das crianças não podia querer dizer outra coisa senão: «Serás deputado.» (...)

 

Confesso que tive uma atroz desilusão, quando me vi obrigado a reconhecer que a pessoa a quem eu devia aquele espetáculo, a pessoa, que me iluminava com um reflexo da sua popularidade, era o cocheiro preto! O homem, habituado segundo parece, àquelas manifestações, conservava-se impassível, e ouvia sem espanto as mulheres do Porto chamarem-se umas às outras, para se colocarem diante dele em contemplação extática.

 

A Foz

Foi debaixo desta impressão que eu cheguei à Foz. Deliciei-me em estar ali, não porque a foz seja um sítio muito bonito, nem muito pitoresco, mas porque eu enlevo-me sempre com o espetáculo imutavelmente sublime do oceano, porque fico horas e horas sentado nas fragas, vendo a meus pés quebrarem e espadanarem as ondas. os que se enlevam com estas belezas devem ir à Foz. A costa, eriçada de rochedos, irrita a fúria do leão dos mares, e obriga as ondas a desfazerem-se num verdadeiro delírio de espuma. É um espetáculo majestosamente belo ver essa extensa praia, beijada por uma onda, que se empina lá ao longe, que enrola a sua fita verde, corda-se a um tempo de um diadema de espuma que o sol doira logo em todos os pontos, curva graciosamente o solo, como corcel garboso, que se prepara para a investida, corre modulando o seu cântico magnífico, depois dá num rochedo, solta um grito de raiva, quebra com medonho estampido, como que ergue os espumantes braços ao céu para o ameaçar, blasfema, por lhe ter colocado ali aquela pedra, mudo e impassível obstáculo, afinal salpica as fragas, desfaz-se em catarata alvejante, que cintila ao sol como um montão de pedras preciosas, e cede o lugar à que se lhe segue imediatamente.

 

Mais adiante outra porção da mesma onda espraia-se com voluptuosidade no areal, presenteia-o com limos verdes e cinzeladas conchinhas, foge murmurando, ou antes arrulhando um adeus, deixa ficar atrás gotinhas de espuma, que a seguem pesarosas, e se vão arrastando languidamente até se prenderem num seixo, e ali ficarem escondidas, abrigadas do temeroso combate.

 

No mais a Foz de inverno não tem encantos especiais que a recomendem ao viajante. No tempo dos banhos creio que há uma animação inexcedível naquelas praias, naquelas ruas. Agora só se encontram pescadores fumando indolentemente à porta das casas, ou dormitando com uma tranquilidade, que contrasta singularmente com a azáfama incessante em que andam os portuenses.

 

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O rio Leça num registo da Photo Guedes preservado pelo AMP, ao fundo Leça da Palmeira. No centro da imagem descortina-se um pedaço da ponte de pedra construída no século XVII, arrasada aquando da demolição da Doca n.º 2 do porto de Leixões. O fotógrafo estará, segundo creio, posicionado não muito longe do local onde agora existe a ponte móvel.

 

Leça da Palmeira

Não assim Leça da Palmeira. Esta graciosa aldeia tem em se mesma os atrativos, que namoram os olhos de quem vai vê-la, ao por do sol, com as suas casinhas brancas banhando os pés no mar. Faz gosto viver ali; há como que um perfume de sossegada poesia na atmosfera. O oceano, o próprio oceano parece abrandar os seus rugidos, para que a sua voz não destoe das serenas melodias da terra. Animado por essa meiguice do gigante, o rio, que dá o nome à povoação e que a separa de Matosinhos, entra afoitamente nas suas águas, e dá-se ao prazer de ter uma foz em miniatura, bonitinha, tranquila, que o mar respeita mais do que a barra do Douro. (...)

 

Passei momentos deliciosos na janela do hotel Estefânia, por baixo da qual vem o oceano, de concerto com o rio, entoar uma serenata, onde os rugidos do baixo profundo se casam harmoniosamente com os flébeis murmúrios do tenor.

 

No horizonte, perdidas no imenso mar, viam-se umas velinhas brancas que pareciam gaivotas imóveis, a espanejarem as asas doiradas pelos raios de sol. Ali, a pouca distância, o areal onde expiravam meigamente as ondas. Lá ao longe a coroa de espuma, que cingia momentaneamente a fronte das rochas, denunciava a luta das vagas com os fraguedos da Foz. Para trás espreguiçava o rio Leça as suas águas por entre margens viçosas e verdejantes, onde sobressaia a alvura das duas aldeias vizinhas. Uma capelinha em forma de arco triunfal, em cujo centro se via de perfil a cruz de Cristo, majestosa ali mais do que em qualquer outro sítio, erguia-se a dois passos do mar, onde a colocou a poética devoção dos pescadores, que desejam poder divisar entre os escarcéus a imagem daquele que só os pode domar. E o sol, já declinando para o acaso, iluminava com os seus esmorecidos resplendores esta cena verdadeiramente pitoresca, distribuía, como hábil artista, a luz e a sombra, doirava a imensa extensão das ondas, purpureava o horizonte, incendiava com os seus fogos os vidros de uma janela distante, fazia realçar num ponto a verdura, noutro amarelecia o arvoredo.

 

Uma celebridade...

Mesmo à beira mar, sentado numa pedra, que as vagas lambiam, vi um anão, um anão de cabeça disforme, baloiçando frenético as pernas pequeninas, que a espuma borrifava de vez em quando. Era o anão de Leça, que nenhum dos leitores que ali tenham ido, desconhece de certo. A qualquer hora do dia que se entre no hotel Estefânia, encontra-se o anão, implorando com infindos trejeitos a caridade dos visitantes. A praia é a sua residência predileta. Gosta de fazer caretas ao oceano, de o apupar, e não sei mesmo se o apedreja. O mar está costumado com ele e não lhe faz mal, estima-o até, chega a considera-lo como um enorme búzio, que um dia arrojou à praia distraído. (...)

(...)

(...) A glória não é para ele coisa nova. É considerado como uma curiosidade de Leça, figura nos álbuns fotográficos que se vendem no Porto, e não há miss, nem lady de loiros cabelos, que, ao passar por este sítio, se não tenha sentado diante do ufaníssimo anão, e não o tenha desenhado no mimoso velino do seu sketch-book.

 

O que é certo é que me roubou tempo, amigo leitor, que o sol está quasi a atufar-se nas águas, e que ainda não visitamos a capela do Senhor de Matosinhos. Não temos remédio pois, senão considerar isto como uma peça teatral, onde se respeite a regra das três unidades, e aprazaremos a curiosidade dos leitores para o segundo ato, que principiará no mesmo sítio e à mesma hora.

 

Caiu o pano.»

*

 

Relembrando que os pequenos títulos intercalares do que atrás se leu são de minha autoria, é com prazer que vos informo que esta viagem prosseguirá...

Miragaia - uma fotografia insignificante...

por Nuno Cruz, em 17.07.18

A

A imagem que deu razão a esta publicação é uma insignificante (feia até) fotografia de uma parte dos cobertos de Miragaia. Contudo, melhor a analisando podemos verificar que se trata de um documento único apesar do confrangedor cenário de semirruina que ali se apresenta. Ei-la:

 

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 i1 A rua dos Cobertos (agora de Miragaia)

 

Olhando e re-olhando para ele verifica-se que estas casas são as que se apresentam no pormenor da imagem abaixo assinaladas com o rectângulo. A ladeá-las estava aquela que agora é a primeira casa na rua de Miragaia vindo do largo Artur Arcos (assinalada em i2 com o n.º 2 mas não presente na i1). Do lado oposto, o edifício assinalado com o n.º 1 em ambas as imagens parece, mas não é, o mesmo. Para melhor localizar assinala-se com o n.º 3 a Porta Nova ou Nobre e o seu fortim, na i2.

 

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i2 Pormenor de uma panorâmica antiga

 

A i3 mostra o local na atualidade. Será de reparar que a i1 foi já tirada de cima da sapata da rua Nova da Alfândega, construída dali para poente em direção ao edifício alfandegário, primeiro do que o lado nascente, pelo que a i3 só tem a beneficiar disso em termos de perspetiva... A casa 1 e 2 estão assinaladas para melhor localização e o X marca o local onde estavam as casinhas.

 

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i3 O local na atualidade

 

Como curiosidade, na i4 que consiste num pormenor da gravura de 1736 de Duncalf, podem-se vislumbrar os edifícios referenciados, em parte apresentando já varandas que parecem ser de ferro e outras ainda usando um sistema com portadas de madeira que abrem debaixo para cima e não para os lados como estamos modernamente acostumados, um sistema sem dúvida mais antigo (remontando ao tempo em que ter vidros nas janelas era um luxo?).

 

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i4 Gravura de Duncalf (1736)

 

Sem dúvida terá sido mais o seu estado de ruína aliado à necessidade de alargar aquele espaço, tendo em vista a perda que toda a zona acabara de sofrer com o desaparecimento da praia de Miragaia, que terá ditado a demolição daquelas singelas construções. Felizmente ficou-nos esta fotografia, outros verdadeiros monumentos pudessem ter tido essa sorte...

 

B

Outras demolições vieram, por exemplo, anos mais tarde a dar lugar ao largo de S. Pedro de Miragaia (1941). A i5, uma montagem feita com duas imagens do AMP, são registos dessas demolições (outros existem no AMP e no espólio da Casa Alvão, à guarda do CPF). A imagem i6 mostra-nos o local ainda no século XIX, antes das modificações causadas pela construção do novo edifício da Alfândega.

 

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i5 Demolições na rua de Miragaia e na rua Arménia, que originaram o largo de S. Pedro de Miragaia (1941).

 

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i6 A área do atual largo de S. Pedro de Miragaia é a rodeada pelo retângulo amarelo. Curiosamente, a pequena viela à direita dentro desse retângulo desapareceu, mas uma nova viela existe hoje entre o edifício que ali foi construído não há muitos anos e o primeiro fora do retângulo, à direita (hoje parcialmente demolido, pelo seu estado ruinoso).

 

Após as demolições e englobado no programa de recintos infantis que a Câmara vinha construíndo, foi ali inaugurado em 1946 o recinto infantil Salazar (i7).

 

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i7 a cerimónia de inauguração e um aspeto geral do Recinto Infantil Salazar.

 

Outras demolições tiveram ali lugar, que permitiram por exemplo levar mais luz à rua da Arménia, ao mesmo tempo que desapareciam casas que seguramente se encontrariam bastante arruindas (por exemplo o pequeno largo criado em frente às instalações da serralharia civil e artística A Conquistadora).

 

 

C

Uma outra fotografia insignificante do AMP é a que abaixo se apresenta:

 

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Esta casa, que se encontra na rua de Miragaia entre a rua dos Armazéns e a viela da Companhia, apresentava nos inícios do século XX o decrépito mas muito curioso aspeto que se vê acima. Pela forma e materiais utilizados suponho-a de construção anterior ao século XVII, ou no mínimo originária dele. Ainda apresenta os famosos sobrados ladrom medievais, que avançavam sobre a rua. Nela podemos também admirar uma pequena colunata que daria auxilio no suporte dos andares superiores. Fossem estas colunas originárias da época da construção inicial ou acrescentos posteriores mesmo que vetustos, certo é que o edifício perdeu-as há largos anos. Tendo entrado em declínio estrutural, como quase todos os edifícios antigos da nossa cidade, a sua ruína chegou ao fim quando foi reconstruido para alojar um hotel com o nome de Miragaia House. Do edifício original quase nada terá restado, mas terão os arquitetos responsáveis pela reconstrução tido conhecimento daquelas colunas no edifício original?

 

Em baixo e para fecho desta publicação, deixo-vos uma outra imagem, da Ilustração Portuguesa, referente às cheias de 1909, onde assinalo com o n.º 1 a casa que vimos acima.

 

 

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Irão os leitores desculpar-me pela publicação de retalhos, mas se é verdade que A Porta Nobre almeja distinguir-se pelo conteúdo, não é seguramente contra o seu caráter trazer à luz uma publicação onde a imagem, ainda que sobressaindo, se acaba por fundir com sucesso na parca informação escrita.

 _________

Publicado originalmente em 27.08.2016, no blogspot agora revista e bastante aumentada.

Viagem a um Porto de outro tempo .5

por Nuno Cruz, em 02.07.18

E eis que vos trago mais um capítulo do livrinho de Manuel Pinheiro Chagas. As suas descrições são deliciosas de ler, embora provindas de uma alma ainda jovem e em início de carreira. É o prazer que obtenho na sua leitura que me move nesta partilha convosco, caros leitores; de um texto que é praticamente desconhecido.

 

*

«Há tanto tempo que os leitores, recostados comigo à beira do Douro, estão tomando forças para empreender a ascensão que nos deve levar à eminência da Torre da Marca, que os julgo capazes já de treparem até aos píncaros mais elevados do Himalaia, quanto mais ao aprazível outeiro, onde campeiam a Capela de Carlos Alberto e o Palácio de Cristal. (...)

 

Para evitarmos demoras, permita-me o leitor que o leve num vôo ao cume do monte, o que lhe poupa a fadiga, e lhe permite gozar mais depressa a dilatada e esplêndida perspetiva, que dali se desfruta.

 

Como o sol brilha alegremente inundando com os seus raios a mais pequena minuciosidade desse quadro magnífico! Lá em baixo agrupam-se as casas brancas de Massarelos por trás das árvores da alameda, verdejante mantilha, que de verão as protege contra a curiosidade indiscreta do sol, mas que o inverno rasga e dispersa, deixando-as ficar todas vergonhosas, quando o astro radiante surge e as surpreende, como hoje, até que o sopro verificador da primavera renove o aéreo tecido da folhagem. Para o outro lado estende-se em gracioso anfiteatro a casaria de Entre Quintas e Vilar. Entre essas casas obscuras avulta uma, não pela magnificência do edifício, não por ser minimamente pitoresco o sítio em que poisa, mas porque aí residiu Carlos Alberto, porque foi o mosteiro de S. Justo de um monarca não saciado de ambição, não farto de deleites, mas desalentado do seu combate heróico e incessante contra os ímpios decretos do destino (...).

 

Depois, se estendermos a vista para a margem fronteira, depara-se-nos o viçoso e perene tapete de verdura, que já lhes descrevi, por onde se espreguiçam as casas do Candal, e que se dilata sem perder o matiz até ao longínquo horizonte, onde se fecha no cortinado dos pinheirais, dispersos como vedetas, imóveis como elas, e parecendo como elas atentos aos vagos ruídos, que lhes leva a aragem. Depois Vila Nova, e no último cotovelo oriental do rio o morro imponente da Serra do Pilar, visível de todas as eminências da cidade, como se a Providência nos quisesse por sempre ante os olhos a memória dos feitos heróicos, praticados pelos nossos pais para nos legarem o sistema liberal, que tão degenerado vai, quanto esquecidas já estão essas façanhas, e olvidados os que as levaram a cabo.

 

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Se as pedras pudessem rir e chorar!

 

Não podem, felizmente para os atores de tantas comédias, cujo vergonhoso enredo se desenrola diante desses silenciosos bastidores. Eia pois! Sejamos como Cilas, e não perturbemos o majestoso esplendor desta admirável natureza com a recordação das misérias da humanidade.

 

Se prestarmos bem o ouvido, escutaremos ao longe o ruído do mar, aqui mais perto o murmúrio do rio, além o sussurrar da brisa nas árvores da serra. Por cima de nós o dossel azul do firmamento, o doirado pavilhão do sol, em torno o ambiente salutar das eminências! (...)

 

Enfastiado de tantas digressões, já o leitor me está chamando: «E o Palácio de Cristal?».

 

Aqui o temos, esse documento da energia, e da vigorosa iniciativa da segunda cidade do reino. Quisera também dizer: e do bom gosto artístico de quem o construiu, se essas desgraciosas torrinhas, que flanqueiam o edifício, me não desmentissem formalmente. Bem situado está ele; talvez em todo o reino se não encontrasse um ponto tão apropriado; e de certo que os seus irmãos de Londres e de Paris dariam uma boa porção dos seus esplendores em troco desta inexcedível posição. Os jardins hão de formar um lindíssimo passeio, a que nenhum outro se poderá equiparar, e que resgatará magnificamente a pasmosa insuficiência do jardim de S. Lázaro, onde se atropela aos domingos a sociedade elegante do Porto.

 

Os vidros de cores, colocados no fundo da sala grande do palácio, hão de dar aos visitantes um magnífico espetáculo, quando se incendiarem com os vívidos fogos do sol meridional, e entornarem por todos os pontos do vasto salão uma chuva de rubins (sic), topázios e esmeraldas. A natureza preparou aquele terreiro para uma festa da humanidade, e comprovou-se em agrupar ali todos os encantos, todas as magnificências que podem lembrar ao homem, no orgulhoso delírio produzido pela vista das obras primas da sua indústria, quanto elas são pequenas e imperfeitas perante os esplendores das obras de Deus.

 

Crítica à exposição de 1865 

Supõem o leitor por isto que eu sou fanático da ideia da exposição universal. Acho-a prematura, incrivelmente prematura.

(...)

É digno desta nobre cidade o patriótico pensamento de chamar sobre nós a atenção da Europa, e de nos fazer colher os benefícios que resultam sempre da afluência dos estrangeiros. Mas o patriotismo levado a esse ponto é um patriotismo egoísta. Não podemos dizer aos outros povos: "Venham, porque a sua vinda é para nós uma felicidade e um provento." E contudo, que outro motivo se pode alegar?

 

É o Porto por acaso uma cidade central, cuja posição cómoda para os expositores do mundo inteiro desculpe a completa falta de comodidades, que encontrarão aqui? Não. É por acaso uma cidade tão adiantada em indústria, que todos os inconvenientes se dissipem diante do desejo de visitar, de estudar as suas fábricas? Não. (..) É forçoso não o dissimularmos.

 

Mas nesse caso, como tenciona o Porto receber a Europa? Dando-lhe céu azul, fulgido sol, panoramas admiráveis? A receção é barata, consoladora para ânimos poéticos, mas não sei se será suficiente (...).

 

Aqui os estrangeiros têm ruas, onde as carruagens mais fofas e suaves causam maiores torturas do que a sege de Nicolau Tolentino; iluminação que se fia mais na lua e nas estrelas do que nos recursos da companhia de gás, polícia suficientíssima para uma cidade sossegada como está é, mas impossível com a população flutuante que se há-de aqui acumular. Cidade eminentemente trabalhadora, não teve ainda tempo de cuidar nos regalos da vida. E contudo faltam cinco meses e meio para a abertura da exposição[1], e neste pequeno lapso de tempo hão de se criar hospedarias confortáveis, tornar luminosas as noites, fazer sair do nada um modo de se não andar sempre a pé[a], [e] todos os outros melhoramentos de que o Porto precisa! Nada é impossível com a vigorosa energia desta cidade, mas há-de ser difícil.

(...)

Avante leitor, que isto não é vida. (...)

(...)

(...) Aqui tem o Palácio dos Carrancas, onde D. Pedro IV residiu por algum tempo na época do assédio, e que é atualmente residência real, pequena, mas graciosa. A sua fachada simples, mas nobre e regular, é superior à do absurdo Palácio das Necessidades. Aqui tem mais adiante o hospital da Misericórdia, edifício magnífico mas incompleto, com muito boas condições arquitetónicas, mas com péssimas condições higiénicas. (...) Atravessamos o vasto largo da Cordoaria, que se chama oficialmente Campo dos Mártires da Pátria, e onde se vendem tachos de barro, que não sei se são os tais mártires da pátria, mas que julgo estarem antes predestinados a serem mártires dos garotos. Silêncio, musa folhetinistica! Neste campo, agora tão prosaico, foram enforcadas as vítimas do absolutismo em 1829. Honra aos manos ilustres!

 

Ali têm a Cadeia da Relação. Leiam as Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, e a sua negra fachada iluminar-se-á com os esplendores da poesia.

 

Para a esquerda está o edifício de todas as academias do Porto. Eu havia de dizer muito mal dele, se a Escola Politécnica e a Academia de Belas Artes de Lisboa me não tapassem a boca. Aí ao lado tem uma imensidade de feiras, da , do pão, dos sapatos, porque tudo aqui se vende em feiras, menos as consciências, que essas concorrem à feira central de S. Bento. Aqui ao pé a airosa Torre dos Clérigos, e a sua igreja, uma das melhores do Porto, talvez uma das poucas onde se vêm mármores. Nas que tenho visto, há muito oiro e muita cal. Paremos agora, estamos na Vitória.

 

Que admirável panorama! O que dá ao Porto um aspeto inexcedivelmente pitoresco é a situação original das colinas, em que está construído, que se levantam logo da beira do Douro, e ficam empinadas sem transição alguma, inundadas de casario, que parece aferrar-se à rocha, para evitar o despenhar-se. Lá em baixo o magnífico edifício da Bolsa; além a Sé erguida desassombradamente num píncaro, e arrojando ao céu as suas duas torres, um pouco mais abaixo, o Paço do bispo, e no fundo os intermináveis e deliciosos meandros do rio, que a cada instante nos estão preparando surpresas que nos arrancam gritos de admiração.

 

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Avante, leitor, não me esteja pasmado nem parado, que o sol já se não entretêm com estas coisas, e continua implacavelmente o seu caminho. Vamos; aqui tem Santo Ildefonso, e o hotel da Europa, onde estabeleci os meus novos arraiais. Não lhe ofereço entrar, porque não tenho tempo. Aqui tem a Batalha, onde um gracioso pedestal espera a estátua de D. Pedro V. Nós somos a nação dos pedestais. Na minha vida, que não é muito longa, tenho visto quatro; estátuas, ainda estou reduzido à de D. José, no que não sou mais feliz que o meu bisavó (...). Ali tem o teatro de S. João, que é em algumas coisas superior, noutras inferior ao de S. Carlos. Aqui está a Porta do Sol, espantadíssima de se ver metida no centro da cidade, quando outrora lhe era limite. Junto da Porta do Sol, o convento de Santa Clara, tão célebre pelos seus pastéis, quanto o de Odivelas pela marmelada; porque isto de fazer doces é uma ocupação ascética, que me fez sempre ter uma alta ideia da poesia dos mosteiros, e que me tem mostrado em beatificas visões as esposas de Cristo em torno das fornalhas, a calcularem o peso do açúcar! (...)

 

Avante, atravessemos as Fontainhas, onde se poderia fazer um delicioso passeio, e, passando pelo cemitério do Prado do Repouso paramos finalmente junto do edifício arruinado do Seminário.

(...)

E há quem viaje fora do reino, antes de ter visto esta admirável perspectiva, antes de ter visto o espetáculo verdejante, que nos fica fronteiro, as aldeias agrupadas graciosamente como gentis camponesas, umas a mirarem-se no rio, outras fugindo dele, como que assustadas, e parando a meia encosta! E o Douro, em contínuos torcicolos, assaz tranquilo aqui, e parecendo não poder desprender-se do admirável espetáculo, em que se enleva, Que mais lindo pode ser um lago da Suíça, onde se poderão encontrar mais deliciosos efeitos de luz e sombra, onde mais suaves longes, mais campestre panorama? (...) Onde há um céu mais azul, para servir de dossel a estas esplêndidas cenas?

 

Mas o sol furta-se-nos decididamente. Desprendamo-nos daqui. Um dia voltaremos, e passeando pelo rio acima, poderemos admirar, pausadamente estes magníficos sítios.

 

1. Escrevia-se isto em janeiro de 1865. Nada do que se temia se realizou; porque foi pequeníssima ou nula a afluência estrangeira.»

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Prosseguirá...

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a - O Carro americano seria introduzido no Porto em 1872 e apenas na linha marginal. Só a partir de 1874 se construíram linhas no interior da cidade.