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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A capela do Calvário Novo e duas fotos intrigantes...

por Nuno V. Cruz, em 30.08.18

A capela do Senhor do Calvário erguia-se no local onde hoje se encontra a entrada do parque de estacionamento privado do Palácio da Justiça. Praticamente adjacente a ela encontrava-se a Roda dos Expostos - triste reflexo de uma expressão social felizmente erradicada - e ao lado desta esteve o Mercado do Peixe no local onde se haviam já erguido outrora os celeiros da cidade. Confuso o leitor? Nada que as fotos não resolvam!

 

 

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i1 Local onde esteve a capela do Calvário Novo (foto SIPA). À esquerda temos a íngreme rua Dr. António de Sousa Macedo (antes travessa do Calvário) e a rua Dr. Barbosa de Castro (antes rua do Calvário).

 

 

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i2 Pormenor de uma panorâmica anterior, pelo menos, a 1864. 1) Celeiros da cidade onde mais tarde existirá o Mercado do Peixe, também já desaparecido; 2) Roda dos Expostos (antigo Hospício dos Capuchos); 3) Capela do Calvário; 4) Reitoria da Universidade do Porto (em construção); 5) Paredão das Virtudes; 6) Igreja da Graça e Colégio dos Meninos Orfãos (demolido para dar lugar ao edifício da Reitoria).

 

 

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i3 Neste pormenor de uma outra panorâmica, esta já dos anos 20/30 do século XX, vemos quase os mesmos edifícios (mantive a numeração); contudo o n.º 1 é agora o Mercado do Peixe, demolido nos anos 50 do mesmo século.

 

 

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i4 Neste extrato de uma planta do Arquivo Municipal do Porto vemos os edifícios que tenho vendo a referir, onde indico para melhor localização do local, a Capela das Taipas (a) e o Hospital de Santo António (b).

 

 

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i5 Outro extrato de uma planta do Arquivo Municipal do Porto, desta feita a de Teles Ferreira (1892), onde se vêm os edifícios em questão.

 

Mas, centrando a vossa atenção na capela, pude consultar a obra de 1972 de Bernardo Xavier Coutinho (História documental da Ordem da Trindade) onde consta um documento curioso para a história desta capela e sua confraria. Diz assim:

 

«ORIGEM DA CAPELA E CONFRARIA DO CALVÁRIO NOVO

Teve princípio a capela e confraria do Senhor do Calvário Novo com o título do Bom Jesus de Bouças pela via sacra que principiava na Senhora da Esperança - o Calvário Velho foi onde hoje se acha a igreja e convento das Carmelitas [lado sul da praça Guilherme Gomes Fernandes] - havia uma simples cruz de pedra quadrada antiguíssima e nela uma imagem de Cristo pintada junto a uma cerca de terra dízima a Deus. Consta do prazo que fez à Câmara João Batista Ferreira, em 1683 haver já a Capelinha do Senhor, como se vê das confrontações, crescia em aumento esta confraria de sorte que, no ano de 1700, fizeram uns estatutos confirmados e sujeitos ao Ordinário. Tendo grande devoção, Madalena da Cruz Campobello, da Vila de Guimarães com o Senhor, fez o contracto de doação à Confraria, em 1703, com a obrigação de lhe fazerem uma casa junto à capela que julgo ser a terra da cerquinha da dita Madalena da Cruz, para a dita viver .... Consistia a capela naquele tempo ser pequena, baixa, com um alpendre de fora e uma casa ao pé da fábrica e ermitão...

 

Em o ano de 1703 emprazaram os Mordomos à Camera a terra para reedificarem o corpo da Capela com o alpendre por prazo fateuzim ... acabaramo o corpo da capela em 1705 e continuaram a obras de 1737 ... Em 1734 foram inquietados pelos religiosos vezinhos Capuchos[1], além das demandas, em pedirem a capela ao rei o Senhor D. João Quinto. Em 1737 fizeram os assentos ao redor da capela e outras obras, tudo à custa da confraria, como se vê de uma pedra nela esculpida que diz: Esta obra assim casas como pátio e assentos se mandou fazer à custa das do Calvário Novo ano 1737.

 

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I6 A capela e adjacências nos inícios do século XVIII

 

Em 1739 para 1740, se tirou a cruz de pedra e se pôs na Sacristia; se colocaram as imagens que tinham mandado fazer em vulto do Senhor Crucificado, e morto.

 

Não se descuidaram os Capuchos em verem de que modo hav[er]ião de usurpar a capela, de sorte que começaram a miná-la pela parte de trás que confina com a sua cerca, e movendo-se pleitos sobre isto se fez vistoria que se julgou por sentença ... e de que dipois resultou fazer-se o paredão. Da parte da viela intentou o Galvão fazer umas casas térreas encostado ao muro do passeio e logradouro da dita capella e fazendo-se vistoria, se julgou ser a terra do público ....

 

Em 1784 tornaram a pedir a capela os Capuchos à Rainha a Senhora D. Maria primeira, vindo a informar responderam até o ano de 1787 por motivo de que fizeram o contracto de transação com a Ordem [da Trindade].»

 

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 i7 A capela no fim do século XIX ou início do século XX, já reduzida a armazém.

 

Com efeito, a Ordem da Trindade foi ereta na capela da Batalha (também já desaparecida) em 29 de junho de 1781, transferindo-se para a do Calvário em 26 de Novembro de 1786. No processo aglutinaram a confraria do Calvário: «... por isso fizerão aquele contrato, com os da Confraria do Cálvario, de tomar conta, e posse da capela e todos os mais bens, ficando a confraria extinta, entrando para irmãos terceiros todos que eram, e possuiô a dita confraria ... declarando somento que no dia da festa da Santíssima Trindade no qual costumavam festejar o Senhor do Calvario fariam comemoração do mesmo Senhor....»

 

Mas os vizinhos Capuchos não deixaram de azucrinar a cabeça, agora à Ordem da Trindade. E assim pediram ao Chanceler Governador Roberto Vidal da Gama que lhes dispensasse a capela para nela poderem confessar. Este acedeu ao pedido e «...foram os Padres com ofeciais de justiça com um confencionário para entravar a capela ao que acodiu o reverendo capelão que nela se achava atualmente e a pontapés sacodiu tudo pela porta fora...»

 

A igreja da Trindade, na verdade, poderia nunca ter sido erguida no local onde hoje se encontra, caso os Capuchos não tivesse feito de tudo para ficar com aquela capela; pois que a Ordem, querendo construir uma igreja maior, obteve uma provisão para emprazar terreno até à face da rua e com esse espaço mais o seu terreno próprio, teria área suficiente para uma igreja de tamanho mais decente, em acordo com o número de irmãos. No entanto logo os Capuchos armaram desordem: «... e trabalhar já a respeito de votar pedra - na testada já com o embargo sobre o tilheiro da cal de firmar sobre a parede da parte do caminho, e no mesmo fazendo-se o alicerse saíram com paus nas mãos para darem em alguns trabalhadores e benfeitores que depois do dia andavam no alicerse a tirar entulhos para adiantamento da obra...». Os Capuchos vieram argumentar junto da rainha que aquela igreja era desnecessária por haver muitas à volta, que seria sumptuosa e assim esvaziaria os cofres da Ordem... E a ordem saiu para «que se conservasse tudo no estado antíguo».

 

E assim, querendo os da Trindade se defender, «tratou-se de mostrar a verdade porém como esta é mansa e anda de vagar» os irmãos já não conseguiram reverter a situação.

 

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i8 A antiga capela nos anos 30 do séc. XX, pouco antes da demolição. Notar que já se haviam rasgado quatro portais no seu rés-do-chão, fruto de uma utilização de décadas como edifício comercial. A seu lado a Roda dos Expostos (2) e o Mercado do Peixe (1) ao lado. Mais ao fundo vê-se um pouco do frontão do Hospital de Santo António (face virada à rua da Restauração)

 

Assim, o sonho de construir ali uma igreja, tão ampla como a da Trindade que agora temos, esfumou-se e após as últimas alegações dos Capuchos que diziam que na abertura dos alicerces já tinham morrido 3 homens, deu ordem para «entupir» esses mesmos alicerces o Juíz dos Orfãos da cidade e quando a Ordem da Trindade requereu um local para arrumar a pedra lavrada, «respondeu que a metesse pela igreja dentro...». Diz-nos Firmino Pereira a pp. 157-159 do seu O Porto d' outros tempos de 1914, que após o abandono deste edifício por parte da Ordem da Trindade estes profanaram a igreja vendendo «ao desbarato os altares e alfaias que  a adornavam, e alienando os terrenos que ali possuía[m] a Francisco José Gomes Monteiro». Mais à frente: «A capela da Cordoaria foi, há anos, transformada... em cavalariça, quando lá se estabeleceu a Companhia de Transportes Portuense, que liquidou em 1874. Depois foi padaria, taberna e... lupanar!

 

 

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i9 Nesta imagem - mas uma vez do Arquivo Municipal do Porto, vemos em destaque as traseiras do Mercado do Peixe e ao seu lado (2), o edifício da Roda dos Expostos, antigo Hospício dos Capuchos.

 

Finalizo com um enigma... As duas imagens que se mostram abaixo pertencem ao Arquivo Municipal do Porto e não estão identificadas quanto ao edifício que representa, mas onde se pode claramente verificar que foi na sua origem religioso. Se olharmos com alguma atenção, na parede interna visível existem muitos entalhes onde se colocaram traves por forma a sustentar um sobrado, algo muito inverosímil numa igreja sobretudo naquele, na aproximação à capela-mor. Assim, poderemos inferior sem grande margem de erro que aquele edifício terá desempenhado outras funções...

 

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Tenho para mim, que estas fotos representam a demolição capela do Senhor do Calvário. Ajudou-me também a pensar desta forma a ausência de edifícios atrás, bem como o desnível aparente que se vê para o edifício que surge na esquerda com a sua clarabóia, que parece ser o mesmo que se encontra do outro lado da rua na i2. Com certeza que nunca ou dificilmente terei certeza deste meu pensar, mas e já agora, pergunto aos meus caros leitores: Estarei a querer ver demais?

 

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1 - Os Capuchos referidos no texto eram os franciscanos do Vale da Piedade em Gaia, que resolvendo construir um estabelecimento para a cura dos seus doentes requereram à Câmara fazê-lo dentro da cidade. Em 1722 foi-lhes concedido um local na praça da Cordoaria, onde segundo Sousa Reis construiram «uma enfermaria ... e de tal forma a levantaram que veio a ser um bom Hospício bem assente com ótimas vistas, anexando-lhe dous soberbos armazéns de que colhiam pingues alugueres». Este edifício foi em 1833 escolhido para instalar a Biblioteca Pública Municipal do Porto; no entanto, concluindo-se que o mesmo era desadequado a este fim, acabou por nele tomar lugar a Roda dos Expostos.

 

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publicado originalmente no blogspot em 22.01.2017. Última modificação em 20.11.2018

Curiosas notas do tempo da iluminação a azeite

por Nuno V. Cruz, em 26.08.18

Sempre tive a Foz do Douro como um território algo apartado, diferente, do restante Porto; ou para ser mais concreto, do seu centro histórico. Pela sua situação e importância bem que merecia, a meu ver, o nome de Vila (um pouco à imagem de Sintra). Não no sentido de a diminuir, mas no sentido de dar ênfase ao seu caráter diferenciado, que em certa medida ainda se faz sentir no território que hoje muito administrativamente chamamos concelho do Porto (e quanto a opiniões, por aqui me fico). Talvez poucos portuenses saibam que já existiu o concelho de S. João da Foz do Douro[1], que teve a efémera vida de 3 anos. Ocorreu em 1833, na altura em que o Portugal moderno começava a nascer após o triunfo do liberalismo, numa reorganização do território. Em 1836 uma reforma mais profunda dessa organização territorial viria a extingui-lo (tenhamos presente que naquela época mesmo Massarelos era ainda um arrabalde do Porto e que este último distava do mar quase 4 km!).

 

O curioso apontamento que se vai ler abaixo encontrei-o numa secção Correspondência do jornal A Vedeta de Liberdade em outubro 1835, o último ano completo em que tal concelho existiu.

 

 

*

«Sou de S. João da Foz, aonde tenho vivido toda a minha vida, passei, e corri todos os riscos que ali houveram no tempo do memorável assédio, e saindo triunfante da luta, com todos os meus concidadãos, pensei que poderia gozar em paz os frutos de um governo justo. Concorro, e sempre concorri para os encargos do concelho, porque estou convencido que quem goza dos benefícios da sociedade, deve sofrer os seus encargos. Mas que injustiça, Sr. Redator, não é ser eu obrigado agora a pagar para a iluminação da cidade do Porto, quando este concelho é separado e independente!

 

Eu nada sei de lei, mas tenho ouvido dizer que existem leis a este respeito, que nos não mandam concorrer para similhante tributo, e que uma portaria que existe que nos manda pagar por nos aproveitarmos daquela iluminação, não pode derrogar leis anteriores, porque o ministro não pode legislar, e além disso é uma injustiça concorrerem os da Foz para a iluminação daquela cidade tendo nós precisão de iluminarmos nosso município, de que também se aproveitam os Srs. daquela cidade, devendo concorrer para a nossa, se nós houvermos concorrer para a deles.

 

Veja pois o Sr. Redator o seguinte ofício que a municipalidade de S. João da Foz dirigiu ao Governador Civil, e esperamos pela sua resolução.

 

 

Cópia do Ofício

Ilmº e Exmº Sr. A esta Câmara Municipal do concelho de S. João da Foz, é presente o ofício de V. Excª com data de 26 de mês passado, em que lhe faz constar o indeferimento, que por Sua Majestade tivera o requerimento de Manuel Felizardo de Sousa e Melo, arrematante do imposto de dous reis em cada arratel de carne, aplicados para a iluminação dessa cidade; e pedindo abatimento no preço da arrematação, pela importância não recebida dos concelhos circunvizinhos, por terem as Câmaras respetivas arrecadado este com outros seus rendimentos; e posto que esta Câmara se não diga explicitamente o destino desta participação, parece todavia encaminhar-se a que ao dito arrematante esteja pertencendo direito, e ação para haver dela, o arrecadado produto do dito imposto no seu município; porém a Câmara Municipal de S. João da Foz se julga no rigoroso dever de patentear, e expôr o seguinte: que esta municipalidade de S. João da Foz está inteiramente separada e independente da dessa cidade do Porto, por leis muito expressas, e terminantes, quaes o Decreto n.º 23 de 16 de maio de 1832, e Decreto de 28 de Junho de 1833, e mapa a ele junto, que esta independência assim estabelecida pelos ditos decretos, e corroborada no Decreto de 18 de julho de 1835, está francamente reconhecida pela Ilm.ª Câmara Municipal do Porto no seu ofício a essa prefeitura, em data de 15 de maio de 1834, que em consequência de ser assim independente, esta câmara de S. João da Foz não reconhece, nem pode reconhecer na dessa cidade, a faculdade de se intrometer na arrematação, e administração dos impostos cobráveis dentro do seu município; anuiria a Ilustríssima Câmara dessa cidade, que a deste concelho da Foz se intrometesse, na administração dos seus bens, e direitos? São por ventura comunicáveis a esta municipalidade de S. João da Foz as regalias, e favores concedidos à do Porto? Esta Câmara está constituída na mais restrita responsabilidade, e é a única, competente para administrar, e reger os bens e impostos do seu concelho, segundo o artigo 23 do citado Decreto de 18 de julho deste ano, nesta povoação de S. João da Foz, composta de mil e duzentos fogos, e não de 942, como se diz no mapa moderno do distrito do Porto; contando-se além disso trinta e duas ruas, precisa-se tanto ou mais a iluminação, como na cidade do Porto, porque o tráfico da pesca, e serviço da barra exige, que os seus habitantes quasi não façam diferença, entre a noite e dia, e mais se aproveitam os portuenses ali da iluminação, nos meses próprios da banhos, do que os moradores da Foz, da iluminação das ruas do Porto; nada valendo o fundamento deduzido dos Expostos, porque mui diversa é essa repartição, nem a despeito das leis vigentes se pode estabelecer a lembrada compensação, quando lugar tivesse.

 

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Finalmente expõem esta Câmara que a iluminação desta povoação, já teve princípio em 1831 a 1832; a requerimento dos povos deste concelho, e se contavam 12 lampiões acesos; contudo esta Câmara, se prontifica à entrega requerida, e a contribuir do mesmo modo que até aqui, uma vez que a Câmara do Porto lhe mande concluir a iluminação à sua custa, e continuar debaixo da administração desta Câmara, atenta à independência estabelecida, de jamais reconhecer-se responsável por contrato que não fez. As percas e danos, e os serviços prestados pelos povos deste concelho, à rainha, e à Carta Constitucional, no tempo do terrível assédio, são assaz bem notórios. e merecem a mais séria atenção de Sua Majestade; e se tantos serviços não merecem prémio, nenhum serviço merece ser premiado: esta Câmara julga ter assim desempenhado o que lhe cumpre; e roga a V. Excelência se digne dar a esta sua franca exposição, o destino que achar justo. Deus guarde a V. Exc.ª em Câmara de 14 de outubro de 1835. - Joaquim Turíbio de Meireles, Presidente. - José António de Oliveira, Fiscal. - Francisco António de Miranda, Vereador. = Exmo.º Sr. Governador Civil do Distrito do Porto.»

*

 

 

Um ofício realmente arrojado... Para esclarecimento dos meus leitores que vivem no século XXI, convêm referir que naquele tempo vários impostos eram ainda cobrados ao nível dos municípios, daí a referência ao imposto sobre o arratel de carne (mas vários outros existiam) com a sua cobrança a ser arrematada por particulares por determinado período de tempo. A referência aos Expostos, provêm das queixas da Câmara do Porto, que já por essa época enviara várias petições ao Governo, por exemplo, para que este pagasse os empréstimos que a Câmara lhe havia feito na época do cerco, pois que a despesa só com este estabelecimento era já um abismo, faltando somar-lhe o restante dispêndio como fosse a abertura de algumas ruas, etc...

 

Para quem teve a paciência de ler o texto até ao fim acredito que não deu o seu tempo por perdido, e logrou ficar a saber um pouquinho mais sobre o efémero concelho de S. João da Foz e a pouco pacífica convivência (a julgar por este ofício) com o seu vizinho tripeiro. Se assim for, sinto-me com missão cumprida.

 

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1 - E já agora um outro de Campanhã.

 

Originalmente publicado no blogspot em 05.06.2017

A Porta do Sol

por Nuno V. Cruz, em 22.08.18

Reinicio a trasladação das publicações que se encontravam alojadas na casa antiga d' A Porta Nobre, no blogspot. A presente publicação agrega uma originalmente dividida em três partes publicadas sucessivamente em 22, 23 e 24 de janeiro de 2014. O primeiro artigo aqui transcrito vem do segundo ano da primeira série da revista O Tripeiro (1909-1910). Ele torna-se ainda mais interessante, a meu ver, por ter sido originalmente publicado na revista Porto Illustrado de 1863; portanto numa altura em que a Porta do Sol ainda existia. No segundo, da mesma revista mas já bastante truncado, continua a descrever-se a Porta do Sol e suas imediações, agora da memória de um portuense (1926). Na última parte da republicação, coloco algumas gravuras, que se bem que conhecidas, vêm acompanhadas com comentários e notas. Finalmente uma quarta parte, mais curtinha, onde transcrevo um documento que julgo ainda inédito, naquela que é uma pequena surpresa para os meus leitores...

Espero que gostem!

 

 

I - «A ANTIGA PORTA DO SOL

 

Da muralha que circundou o Porto, construída durante os reinados de D. Afonso IV, D. Pedro e D. Fernando, poucos vestígios existem hoje, dignos de especial menção. O único, talvez, é a Porta do Sol. Porém, a Porta do Sol, elegante construção que ela é, e que bem se mostra despida do caráter dessa antiguidade, a que pertence a muralha; tal como ela existe e como se vê na nossa gravura, não é contemporânea da grande obra que ocupou, diz-se, os reinados dos três soberanos.

 

Além das portas que costumavam ter todas as muralhas das terras afortalezadas, que eram as portas principais para o serviço publico, havia também outras portas mais pequenas, de somenos construção e pequeno concurso, a que batisaram com o modesto nome de postigos, como o dos Banhos e do Pereira, que ainda se vêm de pé, estes com saída para o rio. Pela parte da terra havia outros, e um destes era o do Sol.[1]

 

Porém, sobre o velho Postigo do Sol, por se achar extremamente arruinado, se levantou em 1768 o arco atual, que custou a quantia de 960$306 reis, sendo feito por ordem do general e governador das justiças que então era João d'Almeida [sic] e Melo, pai do grande Francisco d'Almada. Os mestres pedreiros Caetano Pereira e José Francisco foram os que arremataram e levaram a cabo esta obra, que ficou concluída no mês de agosto do dito ano de 1768; mas só a 28 de fevereiro do ano seguinte é que foram embolsados da sua importância.

 

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 i1 - a Porta do Sol num desenho apresentado no artigo d' O tripeiro

 

Eis aqui a conta, conforme se vê no livro competente, que se acha no cartório da câmara desta cidade:

 

 

Liquidação do que importa a obra da Porta do Sol feita por ordem do Il.mº e Ex.mº Sr. General e Governador das Justiças. 

- 4982 palmos de esquadria lavrada de escada de soco, que corre em volta por baixo de toda a obra, superfície das pilastras, e na superfície da imposta, arquitrave e friso, em rústico, e superfície do arco, tudo feito e acabado, posto em seu lugar conforme arrematação e plano - a preço de 79 réis ... 393$578

- 2475 palmos de moldura nas bases das pilastras, capiteis e friso, compreendendo tudo em volta e seus membros particulares, como também o coronamento do tímpano, tanto pela parte interior como exterior, e acabado conforme a arrematação, o palmo pelo preço de 130 rés ... 321$750

- 70 braças e mais 22 palmos no interior da porta no cheio de alvenaria argamassada, a braça de 200 palmos, conforme arrematação, pelo preço cada uma de 2$280 ... 159$765

- 1140 palmos de lajeado no pavimento da empena, o palmo a preço de 18 réis ... 20$220

- 3 braças e mais 175 palmos de alvenaria na parte que uniu o muro à porta da parte do Convento[2], a preço cada braça de 1$400 réis ... 4$997

- 42 braças e mais 250 palmos no muro que fizeram no sítio onde foi a torre, cada braça a preço de 1$400 réis ... 59$716,6/9

 

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960$306/9

 

 

Soma a conta toda a quantia de novecentos e sessenta mil trezentos e seis reis, mais seis nonos de real, que tanto se deve aos mestres.

Porto, 29 de agosto de 1768

 

 

Isto dizia o Porto Illustrado, de junho de 1863; mas o camartelo do progresso, de então até hoje, encarregou-se de suprimir estas relíquias do velho Porto. Qual mal fazia à cidade a conservação do arco do postigo do Sol?»

*

 

 

II - Uma memória de 1926

 

«Queira o leitor acompanhar-me. A visita é perto e não o cansarei. Sairemos da Praça da Batalha, enquanto não vem o carro eléctrico da linha 17, cuja chegada está para demora, passaremos ao lado do sul do teatro de S. João e pela frente do Quartel General e Casa Pia e, deixando ao nosso lado esquerdo a Rua do Sol e o Recolhimento das Meninas Desamparadas, encaminhar-nos-emos para a Avenida Saraiva de Carvalho, e em frente ao Dispensário faremos alto. Terminou o passeio.

 

O leitor, se é leitor costumado de O Tripeiro, está farto de saber que o Porto teve duas cinturas de muralhas de defesa: A mais antiga e menor - a do Burgo - (...) e a mais moderna, (chamada Fernandina, por se haver concluído no reinado de D. Fernando), de muito maior perímetro, porque a cidade tinha crescido em tamanho. [3]

(...)

A Porta da Batalha era à entrada de Cima de Villa; a Porta de Carros, no largo da Feira de S. Bento; o Postigo de Santo Eloi, nos Lóios; a Porta do Olival, na Cordoaria; a Porta Nova ou Porta Nobre, próximo a Miragaia, e a Porta do Sol, no ponto onde pedi para nos determos, isto é, em frente ao Dispensário.

 

Repare o leitor para a gravura que acompanha estas linhas. Ao centro verá a Porta que uma Câmara de conspícuos vereadores entendeu mandar deitar abaixo em 1875 para se ampliar o edificio da Casa Pia. [4]

 

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i2 A Porta do Sol aqui devidamente acompanhado com estruturas ainda hoje existentes: ao seu lado esquerdo o mirante de Santa Clara, uma antiga torre da muralha que ainda hoje existe à face da Rua Saraiva de Carvalho; à direita o edifício da antiga Casa Pia portuense (ver uma mais completa descrição mais abaixo).

 

Chamava-se Porta do Sol, por que numa das faces do tímpano tinha esculpida a figura de um sol com os raios respetivos. (...) Primeiramente chamou-se Postigo do Carvalho ou dos Carvalhos e depois de Santo António do Penedo, por causa de uma ermida deste santo que aí se construiu.

 

Em 1768 achava-se em completo estado de ruína. O governador D. João de Almada e Melo fê-la demolir e mandou edificar em seu lugar, uma nova, tal como a representa a gravura, ornamentada com o sol em que falei e com esta inscrição latina:

 

SOL HUIC PORTAE

JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO

JOANNES DE ALMADA E MELLO

PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE

PROVINCIIS AETERNUM

JUBAR GANDIUM PERCUNE

 

A gravura que ilustra esta página [ver i2] é a reprodução de uma outra feita a lápis pelo antigo e muito considerado professor de desenho Snr. Francisco José de Sousa, e copiada a crayon, para O Tripeiro, com a sua bem conhecida aptidão artística, pelo meu querido amigo e colaborador artístico Snr. José Augusto de Almeida.

 

Por ela poderemos muito bem ficar fazendo uma ideia da disposição do local em 1859.

 

(...) Do lado esquerdo, ao fundo, vê-se uma parte do Convento de Santa Clara, no qual funciona presentemente o Dispensário; mais à frente, o mirante das freiras, que ainda lá existe, actualmente sem cobertura, e no primeiro plano um barracão baixo. Como, ao tempo, na cidade não havia quartel para cavalaria permanente, era nos barracões do Largo da Policia que se recolhiam as praças e os solípedes dos destacamentos de cavalaria vindos, de quando em quando, de Bragança e Chaves, para aumentar a guarnição do Porto. No do lado esquerdo aquartelavam-se as praças e no da direita os animais.

 

Junto à Porta do Sol, do lado direito, vê-se uma parte do edifício da Casa Pia. Separada dele, por uma rua, a casa para alojamento dos oficiais de cavalaria, nos baixos da qual existia um depósito de palha, e à frente as cavalariças. Um cruzeiro com a imagem do Senhor dos Aflitos, cruzeiro que, mais tarde, foi mudado para junto da capela de Santo António do Penedo, completa o quadro.

 

Basta de maçada, leitor. Quando quiser pode voltar à sua vida e ir contemplar o chavascal onde se ergueu a Capela da Batalha, se não preferir ir tirar o retrato á la minute ou tomar um copo de cerveja gelada à Cervejaria Bastos, enquanto espera pelo elétrico n.º 17. (...) »

H.P. in O Tripeiro, 1926

 

 

III - O local e a sua evolução, visualmente falando...

 

Eis algumas imagens sobre a evolução do lugar onde a Porta do Sol se implementava, comparativamente com a nossa época.

 

ab.jpg

i3

 

i3 Na primeira imagem vê-se a subida para a Porta do Sol quando a rua Saraiva de Carvalho ainda não existia, e uma rua mais estreita - a de Santo António do Penedo - ligava a rua Chã à dita entrada e saída da cidade. Assinalo a laranja com um retângulo o Palacete do Visconde de Azevedo (ainda existente) e com uma seta verde um outro edifício que fora de um Miguel Brandão da Silva. Este último estava encostado à Capela de Santo António do Penedo, que foi também ela demolida por esses anos. Iniciada a destruição de toda esta área em 1875 - precisamente com a demolição da Porta do Sol - em 1886 desapareceria quase tudo o resto. Motivo: criar novo e desafogado acesso ao tabuleiro superior da Ponte D. Luíz, ficando como se apresenta na atualidade na segunda imagem.

 
Abaixo (i4) temos uma planta do século XIX da área aqui tratada. Com as mesmas cores são assinaladas as edificações da primeira imagem. Contudo, agora é também assinalada a Capela de St. António do Penedo que, note-se, não era propriedade dos mesmos donos da casa que a ela se adossava (seta verde).
 

Planta_1830.jpg

i4

 

 

A i5 mostra a localização de: a laranja o mesmo ângulo que surge na primeira imagem, a vermelho, o lugar por mim estimado (aceito rebate) da existência da Porta do Sol, o circulo verde aponta o local do edifício adossado à Capela de Santo António do Penedo e a azul o da dita capela. Por curiosidade, marquei com a estrela rosa o local onde foi instituída a "Feira da Ladra" no Porto (à imitação da lisboeta), cujo terreno aparece delimitado por um muro na imagem da parte II.

 

2.png

i5

Na i6, que complementa a anterior, verificamos que a Porta do Sol ficaria junto ao local onde hoje se encontra o quiosque embutido no muro.

3sol.png

i6

 

Na i7 e i8 temos novamente uma planta do como era a área imediatamente fora da Porta do Sol (conhecida por séculos como Carvalhos do Monte), e tal como ela se encontra agora. O local onde estavam as cavalariças é actualmente ocupado pelo término do Eléctrico 22. Para que o leitor não se perca, assinalo a capela do antigo asilo das Desamparadas que servirá como ponto de referência para o resto.

 

Planta.jpg

i7 e i8

 

Finalizo com a "cereja em cima do bolo", isto é, uma fotografia - a única que conheço - da Porta do Sol. Aqui se pode vislumbrar, por entre a porta, parte dos edifícios mencionados acima (i9).

 

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 i9

 

Compare o leitor com a i10, mais conhecida, onde se vê a base de um dos pilares da porta, assinalado em ambas as imagens. E por último faço a transição da i10 para a i11, assinalando a primeira torre ainda subsistente da muralha fernandina na paisagem atual.

 

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i10 e i11

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IV - A arrematação da obra da Porta do Sol

 

Naquele que é um aditamento à publicação original de 2014, transcrevo devidamente adaptada para a ortografia atual, a arrematação da porta que temos vindo a estudar. Foi uma surpresa para mim descobrir esta pequena (e muitas outras) preciosidade num dos livros de arrematações de obras do Arquivo Municipal do Porto. Esta em particular vem lançada a fl. 25v e 26 do livro 4.

 

 

« Termo de arrematação da Porta do Sol que fez o mestre pedreiro José Francisco e o mestre pedreiro Caetano Pereira onde se acha o postigo de Santo António do Penedo.

Aos quinze dias do mês de maio de mil setecentos e sessenta e sete anos nesta cidade do Porto e Casa do Senado da Câmera onde assestiram o Doutor José Paulo de Souza Juiz de Fora do Cível e Vereadores atuais com assistência do Procurador da cidade e aí andando a lanços a Porta do Sol que de novo se abre em o postigo de Santa Clara, lançaram em a dita obra, depois de vários lanços em que tinha andado feita com as condições aqui declaradas abaixo o mestre José Francisco natural de Paranhos e o mestre Caetano Pereira natural da freguesia de Santo Ildefonso.

 

A saber:

- A alvenaria feita de pedra nova dando os ditos mestres cal, saibro, e tudo o mais por sua conta, a dous mil duzentos e oitenta reis a braça;

- Esquadria cada palmo a preço de setenta e nove reis;

- Molduras o palmo facial a cento e trinta reis;

- Palmo de roço cúbico a dez reis;

- Entulho a braça de mil palmos a trezentos reis.

 

E com estas condições se obrigaram os ditos mestres a dar a dita obra acabada por todo o mês de outubro dando-lha demolida, logo em o mês de maio, ou quando não depois da demolida a cinco meses; o que assinaram obrigando-se por sua pessoa e bens a satisfaze-lo, do que fiz este termo eu João de Faria de Sousa. »

[ASSINATURA DOS PEDREIROS]

 

Novo aditamento

Por ser igualmente relevante e porque se trata de uma complementaridade em relação à arrematação que lemos acima, poderá o leitor ler agora o termo de arrematação da demolição do postigo da muralha que antecedeu esta bonita porta, infelizmente também ela desaparecida (a pontuação é minha).

 

« Termo de demolição e desmancho da torre e muro do postigo de Santo António do Penedo que rematou o mestre pedreiro Manuel dos Santos

Aos vinte dias do mês de Maio de mil setecentos e sessenta e sete anos nesta cidade do Porto e casa do Senado da Câmara onde assestiram Dr.ª José Paulo de Sousa Juíz de Fora do cível e vereadores atuais com assistência do Procurador da cidade, aí andando a lanços a demolição e desmancho da torre e muro do postigo de Santo António do Penedo lançou nela Manuel dos Santos da freguesia de S. Martinho de Cedofeita e depois de vários lanços em que tinha andado a dita demolição da torre e postigo como também o arrumar toda a pedra que tirar de modo que não houvesse embaraço para a factura da nova porta que ali está determinado fazer-se, se lhe houve por rematada ao dito mestre pelo preço de quarenta e seis mil reis por tudo do que fiz este termo que ele assinou e eu João de Faria de Sousa o escrevi.

[Assinatura do Pedreiro] »

 

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i12 Pormenor de uma panorâmica da cidade onde se vê o convento de Santa Clara (1), a torre da muralha que ainda hoje existe junto à estátua de Arnaldo Gama (2), o edifício chamado da Casa Pia (3) e finalmente o frontão da Porta do Sol (4) que é claramente visivel abaixo do 4.

 

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1 - O nome mais antigo que conheço para este postigo é o de Postigo dos Carvalhos do Monte. A zona do convento das clarissas, onde se encontrava este postigo/porta, era bem mais fragoso até ao século XVIII, época em que se iniciaram obras de desmonte dos grandes penedos que por ali existiam; aliás a capela de Santo António do Penedo já desaparecida, era pelo seu nome indicador disso mesmo.

2 - De Santa Clara.

3 - Na realidade à época da sua construção a muralha gótica ou fernandina abarcou muito espaço ainda não urbanizado certamente tendo em conta a futura expansão da cidade o que veio a verificar-se mais de cem anos depois, no final do século XV mas sobretudo princípio do XVI.

4 -  «...foi um vandalismo quasi escusado, por que o edifício era bastante vasto e o monumento (que em nada estorvava o trânsito público, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegância, adornava o sítio e era um padrão comemorativo do varão a quem o Porto tanto deve». Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, vol. VIII, pag. 285. Crê o autor deste blogue que a porta não foi deitada abaixo para se aumentar ao edifício da Casa Pia, mas sim para alargar o acesso à mesma por aquele lado (é o que me é possível concluir pela observação da planta na i7 quando comparada com a i8 [imagem do googlemaps]).

 

Última modificação: 17/10/2018

Fragmentos visuais (1) : A Câmara Municipal do Porto

por Nuno V. Cruz, em 19.08.18

Este tipo de publicação que hoje inicio servirá sobretudo para nos mostrar imagens antigas, umas mais reconheciveis do que outras, e o seu enquadramento atual. Assim, contrariando o costume deste blogue, não serão publicações orientadas para o texto onde a imagem é complemento mas antes o seu contrário.

 

 

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A imagem acima do Arquivo Municipal do Porto mostra-nos o início da construção do edifício atual dos Paços do Concelho, em 1940. Os edifícios e ruas que se vêm em segundo plano foram quase na sua totalidade demolidos, como o leitor pode verificar AQUI. A imagem abaixo mostra o mesmo local em 2018. Podemos verificar que se trata das traseiras da Câmara Municipal do Porto na Praça da Trindade, ângulo com a Rua Clube dos Fenianos

(Notar a numeração que coloquei nos frisos em ambas as imagens, para auxiliar a sua localização)

 

 

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