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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Como era a Porta Nova ou Nobre

por Nuno Cruz, em 30.09.18

Esta deveria ter sido a publicação de abertura do blogue aqui no Sapo, tal como o foi na sua casa anterior no blogspot. Contudo e porque pretendia desenvolver um pouco mais o tema e corrigir/modificar o registo anterior, acabou por se estender no tempo a sua publicação que apenas agora se dá. Assim, faço-a mesmo coincidir com o aniversário d' A Porta Nobre, trabalho que melhor ou pior iniciei em 30 de setembro de 2009.

Ora após este breve mas pertinente comentário, vamos ao assunto em mãos.

 

A Porta Nova ou Nobre era uma das entradas medievais na cidade do Porto situada grosso modo a meio da atual rua Nova da Alfândega, ainda que a uma cota inferior. Inicialmente um simples postigo da muralha que abraçava a cidade, foi supostamente alargada e elevada à categoria de porta durante o reinado de D. Manuel I [1]. Por diversas vezes por ela entraram os mais altos dignitários que demandavam esta cidade, vindos da outra banda, atravessando o rio e acostando os barcos de passagem no areal que desapareceu com a construção do edifício da alfândega. Transposta a dita porta faziam a sua entrada no burgo pela rua dos Banhos. Existiu até 1871, ano em que foi sacrificada em nome do progresso e com ela um pouco mais da história e da memória da cidade.

 

Na i1, colhida no googlemaps de há uns anos atrás, podemos ver a área da rua Nova da Alfândega que abarca o antigo correr da muralha e a zona da porta em estudo. O lanço que ainda hoje vemos nas escadas do Caminho Novo continuava uns poucos metros mais para abaixo em direção ao rio e ligava com a porta que se abria para poente. Logo a seguir a ela teríamos o baluarte que lhe fazia companhia e depois, invertendo para nascente, o antigo caminho de rolda da muralha passava a chamar-se rua de Cima do Muro que em 1871 à custa da demolição do bairro dos Banhos perdeu grande parte da sua extensão, permanecendo apenas um troço denominado muro dos bacalhoeiros).

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i1 

 

Aquando de umas sondagens arqueológicas prévias naquele local motivadas por um projeto da REFER que não chegou a avançar, foi encontrado em 2004 um troço desse velho muro (visíveis na imagem onde a linha vermelha se interrompe). Isso permitiu constatar o que já parecia muito plausível quando se observavam as fotografias da época das demolições: que os nossos bisavós não destruíram aqueles muros por completo! De facto, parte da muralha ainda lá se encontra in situ, talvez por ficar demasiado dispendioso, mesmo desnecessário, demolir pedra a pedra dado que a rua a abrir seria a uma cota superior; deixando parte do passado ali enterrado à guisa de sepultura.

 

São muito poucas as fotografias que nos mostram a Porta Nova, e ainda assim sempre ao longe e sem grande definição. A i2, preparada por mim, é uma montagem de duas dessas imagens.

 

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 i2 Na imagem da esquerda é perfeitamente visível a abertura da Porta Nova ou Nobre, ao centro da estrutura assinalada pelo retângulo branco. O retângulo amarelo assinala o edifício construído por cima dela no século XVIII. É importante ter em mente que todas as casas que estão à sua frente, no areal de Miragaia, já não existem: em seu lugar e a uma cota superior está agora o largo Artur Arcos. A imagem da direita mostra-nos um outro ângulo do mesmo edificado: o B assinala a pequena viela que dava ingresso ás escadas do Caminho Novo; a letra A mostra as únicas casas que se encostavam à muralha pelo lado de fora que sobreviveram à hecatombe de 1870/71; apenas para serem demolidas nos anos 50 do século XX (ver i3)

 

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i3 Escadas do Caminho Novo nos anos 30 do século passado. Ao fundo o retângulo amarelo assinala as casas que se vêm ainda nas fotos onde consta a Porta Nova, assinaladas na I2 com a letra B e na i8 com o n.º 5 (os portais destas casas ainda lá estão entaipados).

 

 

Henrique Duarte Sousa Reis ainda conheceu esta porta e descreve-a da seguinte forma:

'Consta a Porta Nobre de um edifício fortemente construído com toda a solidez, quasi quadrado em forma de torre feita de pedra assente: é alta e nela praticado está um elegante arco liso e sem adornos ou maineis; olha ao poente para onde é voltada a fachada principal exterior, e sobre ele se vêm duas ordens de janelas de peitoris (sic), que correspondem aos andares, de que esta torre se compõem, contendo cada um deles duas janelas, e no espaço das primeiras lá se encontra no centro o escudo com as reais quinas portuguesas.
Na face interna deste primeiro andar, e logo sobre a porta estava aberto um oratório, aonde se venerava a imagem  de «Nossa Senhora das Neves» que todo era voltado para a rua dos Banhos; acha-se hoje [c. 1865] tapado de pedra e cal. (...) [2]
O segundo andar desta torre era reservado para residência de alguma autoridade civíl ou militar, ou finalmente para qualquer repartição pública, como demonstra a grande porta inferior a outro escudo real que sobre a sua padieira se conserva, e é voltada para o lado do sul, e tem comunicação pela escada de pedra fabricada para o cimo da muralha, e próximo ao fortim (...).
Para o mesmo lado do sul corre, desta torre, um pouco mais recuado da linha do frontispício dela, um lanço de muralha lisa, que sobe até à altura da soleira da porta do segundo andar, de que já falei, e pelo lado superior do mesmo lanço foi delineada através de toda a sua grossura a escada, que facilita a entrada para esse andar, mas só por cima do muro de defesa da cidade ao qual se sobe por outro lanço de escadaria também de pedra praticada pela face externa da muralha, de encontro à parede das costas do fortim (...).'

 

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i4 Neste extrato da planta de 1852 para abertura da rua que viria a denominar-se Nova da Alfândega, podemos ver o que parecem ser dois maciços torreões da Porta Nova que nos dá uma boa ideia da sua robustez (n.º 1). O n.º 2 indica o fortim, o 3 a praia de Miragaia, o 4 é a rua das Barreiras, 5 a rua dos Banhos e 6 as escadas do Caminho Novo (parte desaparecida).

 

Mas afinal qual era o verdadeiro aspeto desta anciã entrada da cidade? Já Mário de Menezes no artigo publicado n' O Tripeiro - Vol. XII/6.ª série - havia colocado em dúvida qual a sua real forma face às hipóteses que na sua frente se lhe apresentavam. Contudo este autor parece não conhecer qualquer imagem fotográfica dela (ou pelo menos, não lhe faz referência). A gravura que serve de base a todos nós para ajuizar da sua forma e dimensão - i5 - foi apresentada na revista O Tripeirio de março de 1926; acompanhada de um texto que aparentemente lhe dá bastante credibilidade. Creio contudo que é preciso olhar com olhos bem críticos para esta gravura[3] e não a creditar como definitiva - muito pelo contrário - pois na verdade as datas não estão de acordo com o que aparentemente seria real. Ora o texto que acompanha a gravura, a certa altura, diz-nos: 'Graças à boa ideia que teve o nosso amigo Sr. Francisco José de Sousa, antigo e abalizado professor de desenho, de fixar no papel o desenho da Porta Nova, copiando-a do natural, na sua mocidade, é que O Tripeiro pode hoje fornecer aos seus leitores a interessantíssima ilustração que acompanha esta artigo'. [4]

 

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 i5 A Porta Nova ou Nobre, conforme representada por quem ainda a conheceu, mas certamente não com esta forma tão primitiva.

 

Ainda assim não posso estar plenamente de acordo com aquelas palavras. Não duvidando que o autor do desenho o tenha feito a partir do original, estou igualmente convicto que o fez interpretando o que via, transpondo para um possível espeto dela no antigamente. De facto, aquela velha entrada na cidade nunca poderia ter aquele aspeto quando o autor a desenhou. Por todo o século XIX as ameias já se encontravam ausentes e a alvenaria de granito que a compunha não apresentaria certamente aquela forma no 'segundo andar', uma vez que este fora substituído nos inícios de setecentos por um edifício de dois pisos. Também o esguio torreão do lado direito me levanta, por essa mesma caraterística, bastantes dúvidas sobre a sua real existência...

 

Ainda sobre qual seria o aspeto original desta fortificação, na i6 mostro dois estudos de Gouveia Portuense, claramente contrastantes. Quer um quer outro se aproximarão eventualmente mais da realidade nuns pontos enquanto se afastarão radicalmente dela em outros. Qual deles o mais verdadeiro?

 

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i6 Imagens apresentadas na revista O tripeiro, da autoria de Gouveia Portuense.

 

 

Também Artur Arcos, no seu belíssimo painel em que quase fotografa a Miragaia ribeirinha, pintou esta estrutura, certamente como a viu numa panorâmica bastante antiga e que lhe deve ter servido de inspiração[5]. Esta é no meu entender a melhor interpretação daquela entrada da cidade que conheço; ainda que esteja convencido necessitar de vários acertos.

 

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i7 Interpretação de Artur Arcos da área da Porta Nova.

 

Queria também eu apresentar a minha humilde contribuição para ajuizarmos do aspeto desta porta, cuja designação escolhi para dar nome a este blogue. Ainda assim, não o faço por agora: prefiro dar a conhecer uma outra fotografia que não obstante a fraca definição, é bastante interessante por ter sido tirada numa altura em que o sol não projetava grande sombra sobre o local. Nela procurei igualmente colocar mais pontos de referência modernos, por forma a ajudar o leitor a realmente ver onde a porta se encontrava (hoje soterrada por baixo da entrada do estacionamento do Parque da Alfândega).

 

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i8 1. À direita é visível o topo da abertura praticada na porta / 2. Casa construída no século XVIII, entre as duas janelas pode-se ver as armas lá colocadas. / 3. Casa atualmente ocupada pelo Grupo Musical de Miragaia (na antiga rua das Barreiras, hoje incorporada na rua da Arménia) / 4. Casa atualmente ocupada pelo Mirajazz (nas escadas do Caminho Novo) / 5. Última casa a ser demolida, já no século XX, que se encontrava encostada à muralha, onde atualmente a mesma faz o seu último cotovelo e finaliza (ver i3) / 6. Casa atualmente ocupada pela Escola de S. Nicolau, no topo das escadas do Recanto (aquele pequeno correr é o que resta da antiga rua do Forno Velho de Baixo).

 

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i9 Esta imagem pretende contrapor a anterior, mostrando a atualidade do local: os números assinalados são precisamente os mesmos locais, na imagem i8: 3. Grupo Musical de Miragaia, 4. Mirajazz, 5.último cotovelo da muralha antes de a mesma finar na Porta Nova, onde se encostavam as casas assinaladas com 5 na i8.

 

 

Em novembro de 1870 o arco da Porta Nova foi entaipado 'até meio das pedras' uma vez que era já muito perigoso transitar por ali dado o grande amontoado de entulho e as demolições em curso. Ainda no mesmo mês n' O Comércio do Porto é referido que se andava à procura de nova casa para a 3.ª Esquadra de Polícia que se encontrava na que ficava 'sobre o arco da Porta Nobre', que ia ser demolida[6]. Ao contrário do que surge escrito em alguns números da revista O Tripeiro na sua 3ª, 5ª e 6ª séries, a Porta Nova não foi destruída em 1872 mas sim em 1871. Eu próprio tive ocasião e o verificar nos jornais a época (fazendo justiça àquela centenária revista, este erro de um ano é corrigido no seu último volume da 6º série, mas não o mês que continua a ser dado como fevereiro).

 

Na atualidade, tudo o que dela nos resta são as armas 'fernandinas', que possuem a curiosa característica de desenharem onze castelos ao invés dos atuais sete, bem como umas suas congéneres do século XVIII: ambas guardadas no Museu Nacional Soares dos Reis. Mas há também a grande possibilidade de pelo menos os primeiros metros em altura desta porta ainda se encontrarem no seu local original, ali, debaixo da rua que a sepultou para sempre...

 

Finalizo esta publicação com umas curiosas notícias respeitantes aos últimos dia daquele imponente entrada na cidade que por quase 500 anos campeou, na paisagem da praia de Miragaia:

1. «Arco da Porta Nobre - Conforme já informamos os leitores, anda-se procedendo à demolição do antigo arco da Porta Nobre e do edifício que lhe ficava por cima par a abertura da rua da nova alfândega. No edifício a que nos referimos havia umas armas e uma inscrição que a Exma. Câmara, com louvável desvelo, fez remover para o Museu Municipal da rua da Restauração. A inscrição diz o seguinte: GOVERNANDO AS ARMAS DESTA CIDADE E SEU PARTIDO, O CORONEL ANTONIO MONERO DE ALMEIDA, SE FEZ ESTA OBRA NO ANO DE 1731. No andar que ficava ao nível do pátio do mesmo edifício, apareceu também um letreiro toscamente feito em uma pedra, a qual, segundo se pode entender, diz: 17 DO 6º DE 1410. No espaço que ia de uma a outra janela conhecia-se que havia brechas iguais ás e inclinar as peças.» In O Comércio do Porto e 28 de abril de 1871 

2. «Rua da Nova Alfândega - Principiaram ontem os trabalhos para a construção da rampa do lado da antiga Porta Nobre para a carga e descarga dos barcos, (...). O Arco da Porta Nobre já está todo desfeitoIn O Comércio do Porto e 17 de agosto de 1871 (o sublinhado é meu)

 

E em jeito de remate, recordo uma notícia de 15 de agosto de 1871 do O Jornal do Porto sobre um acontecimento que se dera dois dias antes. Embora irrelevante, serve aqui para contrapor um registo mais leve, para o leitor descomprimir da densidade da matéria acima estudada. Recordemos que por aquela altura andava em construção a rua Nova da Alfândega, e o arco da Porta Nova iria ser dentro de dias demolido, pelo que a paisagem em redor dela seria de um caos de pó, buracos, terra e pedra:

'Ante-ontem, ao cair da noite, voltavam da Foz quatro cavalerias (sic) da Guarda Municipal, e chegavam à Porta Nobre quando já a vozeria dos barqueiros lhes anunciava que tinham de retroceder até à Restauração, por causa do tapume que obstrue o arco.

Quando os cavaleiros conheceram o engano, já a vozeria era estrepitosa e acerada de motejos desta laia:
    - Para trás!
    - É tornar pela Restauração!
    - É ter paciência!
Os cavalerias (sic), de repente, como se se tivessem passado palavra, cravam os acicates nos cavalos e arremetem denodadamente contra as escadas de Cima do Muro[7].
    Num momento desapareceram cavalos, e cavaleiros diante da multidão que, de motejadora, ficou boquiaberta.'

 

Convenhamos que ver aqueles cavaleiros a subir aquela escadaria deve ter sido uma visão única, mesmo para aquele tempo!

 

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1 - Facto que carece de esclarecimento. Por exemplo, J.P. n' O Tripeiro de Agosto de 1910 diz que a porta foi alargada por ordem de D. Manuel I em 1522, juntamente com o fortim. Mas D. Manuel I morreu em 1521 e o fortim foi apenas construído anos depois, fazendo parte da linha de defesa da cidade como último reduto de defesa após o forte de S. João da Foz.

2 - Segundo Pinho Leal seria a Nossa Senhora do Socorro. Mais à frente na sua obra refere Sousa Reis sobre este oratório: «primitivamente esteve sobre o arco de S. Domingos, e depois foi transferido para cima do arco da Porta Nobre, onde ainda pelo lado da rua dos Banhos, se vêm os restos».

3 - Um pouco à semelhança do que fez Magalhães Basto com as gravuras da Porta da Vandoma, artigo quem um dia recuperarei neste blogue.

4 - Francisco José de Sousa tinha, aquando da publicação destas linhas em 1923, mais de 90 anos; pelo que à data da demolição da Porta estaria perto dos 40.

5 - Artur Arcos nasceu em 1914, 43 anos após a demolição do monumento, e começou a pintar em 1959. A outra pintura onde o autor representa esta entrada da cidade é um fausto de pompa e cor ainda que o anacronismo impere (a ação tem lugar no século XV sendo-nos apresentada com o edificado do século XIX) e seja, a meu ver, irrealista na forma quer da porta quer do fortim.

6 - Esta casa é precisamente a que Sousa Reis descreve e que se encontrava por cima do torreão da porta em estudo.

7 - A Câmara designara como alternativa à rua dos Banhos enquanto se ia abrindo a rua Nova da Alfândega,a calçada da Esperança; hoje denominada rua de Tomás Gonzaga.

 

 

NOTA: Esta publicação é uma revisão e ampliação das publicadas originalmente no blogspot em 30 de setembro de 2009, 26 de novembro de 2009, 18 de dezembro de 2013 e 18 de abril de 2016.

A rivalidade entre o Porto e Lisboa

por Nuno Cruz, em 18.09.18

Recupero hoje uma publicação que se encontrava na casa antiga d' A Porta Nobre. Curiosamente ela não foge muito no tempo ao que lemos mais atrás na companhia de Manuel Pinheiro Chagas; mas este escrito é de caráter bem diferente...

 

A rivalidade entre Porto e Lisboa não é do nosso tempo, e muito menos se limita ao futebol. Não tendo pergaminhos para discorrer sobre a sua origem, causas e desenvolvimento, deixo aqui um pequeno texto que saiu em 14 de Setembro de 1855, no jornal O Comércio (primeiro nome d' O Comércio do Porto) que brinca com o lisboeta que vêm de visita ao Porto. Notar que nos situamos em meados do século XIX...

 

 

*

'As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.


É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciam-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.


Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretensioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.


Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale (sic) nesta retrógrada terra.

 

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Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.


A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense traz-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital. O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilização da capital, porque, seja dito entre parêntesis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.


O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo. Vanitas, vanitatum, alfacia, alfaciarum.'

*

 

Este texto, diga-se, surgiu no jornal uns dias depois de um outro mais curto, escrito com certeza por um capitalista, sobre o provinciano que visita Lisboa. Mas quanto a esse deixo que algum 'lisbonense' que visite a Biblioteca Nacional o procure e traga a lume no seu blog sobre Lisboa...

 

Como nota final devo referir que não sou anti Lisboa nem coisa que se pareça. Amo a minha cidade sem ser fundamentalista. O Porto é uma cidade soturna, granítica, cinzenta, por vezes encoberta por um nevoeiro que lhe confere um sublime carácter londrino. E por isso acredito que não seja, mesmo para o lisboeta com coração aberto, fácil de gostar. Já Lisboa tem uma natureza luminosa: gosto particularmente da imensa luz que inunda a baixa pombalina e dos edifícios que a compõem. Após o terramoto, a cidade pode em boa parte renovar-se e assumir um plano mais regular de ruas e praças que sinceramente me agrada.

 

E mais poderia dizer, mas por aqui me fico.

 

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Publicada originalmente no blogspot em 24.11.2013.

Cinco relíquias das Congostas e mais alguns curiosos detalhes....

por Nuno V. Cruz, em 11.09.18

A rua das Congostas era uma artéria íngreme e bastante antiga que partindo da rua do Infante subia o declive que ainda hoje se apresenta a quem inicia a subida da rua Mouzinho da Silveira, indo desembocar junto à encruzilhada da rua de S. João, Biquinha (também ela já desaparecida) com o largo ou calçada de S. Crispim (designação dada no século XIX à rampa que sobe para S. Domingos). Esta rua mantinha ainda muito do seu carácter medieval na tortuosidade e estreiteza que a caracterizava - sendo talvez a dos Mercadores um bom exemplo de comparação. Aquando da grande revolução urbana promovida no casco histórico da cidade à época de Pinto Bessa (1867-1878) foi inteiramente sacrificada por forma à cidade ficar com melhores acessos à recem inaugurada Nova Alfândega em Miragaia.

 

Mas nem toda a rua desapareceu... ou melhor dito; nem todos os edifícios que a compunham desapareceram. Com efeito, o projecto levado a cabo para a rua das Congostas expropriou quase todos os proprietários dos prédios nela sitos, uma vez que o seu alinhamento iria ser completamente diferente do existente, em face do novo arruamento que se queria mais amplo e desafogado; tendo-se eventualmente mostrado desnecessário demolir cinco prédios do lado nascente. Esses cinco edifícios constituem como que uma relíquia do arruamento que por séculos ali existiu e que desde cerca de 1875 desapareceu para sempre. Na i1, colhida ontem no local[1], podem ver-se em destaque os edifícios em questão (a fonte para esta afirmação foi o Projecto Base de Documento Estratégico para o quarteirão da Feitoria Inglesa da Porto Vivo).

 

 

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i1 - Ressalvando a eventual remodelação das suas fachadas e/ou reperfilamento dos portais, estas cinco casas são o que resta in situ da antiquíssima rua das Congostas.

 


Mas outros pequenos factos curiosos descobri[2] no AMP no que toca a esta rua, posteriormente à publicação original destas linhas. Em primeiro lugar é necessário retificar o que escrevi acima (2013): pois caro leitor parece que, afinal, daquelas 5 casinhas pelo menos a que se encontra mais a sul teve a sua fachada realinhada. Isso mesmo constatei ao me deparar com um documento referente a uma outra sua vizinha, mais precisamente a primeira acima delas.

 

Ora o caso é o seguinte: em junho de 1892, 36 proprietários e moradores da rua Mouzinho da Silveira entregaram na câmara (mais) um abaixo assinado pedindo o corte dos prédios com os nº 58 a 66, com vista «ao complemento da referida rua e fazer desaparecer a má impressão e péssimo efeito que produz o conservar-se o referido prédio fora do alinhamento». O documento refere também que já se andava a proceder ao alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo[3] bem como do prédio com o n.º 50 e 52, ficando por conseguinte muito fora do alinhamento e fazendo má vista aquele edifício; o único que faltava alinhar. Alertavam também para o facto de ser aquela altura do ano a melhor ocasião para os inquilinos do referido prédio procurarem habitação e o proprietário não se opor ao alinhamento com o fundamento de não poder despedir os inquilinos senão na época própria.

 

 

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i2 - Planta de 1892 usada pelos técnicos da Câmara para expor a questão do realinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do edifício a sul deste. Legenda: P - Pátio de S. Salvador : A - área de terreno da antiga rua que a nova capela de S. Salvador do Mundo veio a ocupar para a trazer ao alinhamento atual : b - terreno que a Câmara teve de expropriar para alinhar aquele edifício : c - terreno que a Câmara teve de alienar para trazer o edifício ao novo alinhamento. O traço verde representa o alinhamento das fachadas e o azul o das guias do passeio da rua Mouzinho da Silveira.

 

Há depois a resposta dos serviços técnicos da câmara, datada de 4 de agosto de 1892, que informa: «O prédio nº 58 a 66 da rua Mouzinho da Silveira, pertencente a José Nogueira Pinto compõem-se de duas casas, uma que tem os n.ºs 58, 60 e 62, de quatro andares, tem de avançar na sua maior parte para vir ao alinhamento da rua, e a outra que tem os nº 64 e 66 de 3 andares tem de recuar para o alinhamento segundo a planta junta (i2), levando por isso a excelentíssima câmara a adquirir o terreno que faz parte da casa 64 e 66 com a superfície de 5,75m2 (...) e de alienar o terreno que defronta com a casa que tem os nºs 58, 60 e 62 com a superfície de 1,65m2 (...)». Seguem-se as contas de deve e haver na alienação e compra do terreno, apeamento e reconstrução da fachada do nº 64 e 66, valor de 6 meses de renda dessa casa e indemnização ao proprietário para reparos no interior e rebaixe de um portal nas traseiras. Não incluiu o técnico da câmara a indemnização pela demolição e reconstrução da fachada da casa nº 58 a 62 por essa obra não ser urgente não sendo necessário a câmara compelir o proprietário a executa-la[4].

 

 

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i3  Postal que nos mostra aquelas casas, com as suas lindas janelas setecentistas, ainda no alinhamento original.

 

 

Certo é que após o alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do tal edifício das Congostas supostamente nunca reperfilado; este outro edifício ainda ficou mais uns anos a fazer um estranho e inconveniente cotovelo. Com isso ganhou o direito de ser figurante em vários postais do início do século, sobretudo os que retratam a estátua do Infante D. Henrique.

 

 

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i4 - Outra perspectiva das casas em estudo.

 

 

As duas imagens que deixei para o fim são as que reputo de mais surpreendentes: uma mostra-nos um pouco do rés-do-chão daquele edifício tão desalinhado dos restantes (i5); a outra (i6) mostra-nos o andar cimeiro dos edifícios em questão, com uma ressalva enorme: a rua das Congostas ainda existia!

 

 

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i5 - Nesta imagem podemos ver o completo desalinho do edifício em face à rua Mouzinho da Silveira (amarelo) e também verificamos que a capela de S. Salvador do Mundo já se encontra alinhada (azul).

 

 

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i6 - Por uma acaso fotográfico, os edifícios que temos vindo a acompanhar ficaram registados numa imagem - anterior a 1872 - ainda emaranhados no meio da tortuosa e medievica rua das Congostas!

 

 

Se caro leitor não se apercebeu de que edifício temos vindo a tratar, a i7 ajudará a ver qual o edifício e como ele se encontra na atualidade.

 

 

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i7 - Com uma mãozinha do googlemaps, aqui se apresenta a entrada do pátio de S. Salvador ladeado pela capela do mesmo nome (reconstruída, como vimos, em 1891/1892) e a casa que temos vindo a estudar.

 

 

Como observação final e pessoal, não posso deixar de notar que o projecto original da fase 2 da rua Mouzinho da Silveira previa a manutenção do nome Congostas, o que, se virmos bem faria todo sentido, uma vez que este troço da rua parecerá, ao turista ou transeunte que nada saiba de toponímia, um arruamento independente do outro grande lanço que vai de S. João a Almeida Garret. Não deixaria de ser bem mais pitoresco e quem sabe mais "verdadeiro" ter mantido aquela nome, no entanto a edilidade da altura assim não o entendeu[5].

 

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1 - Isto é, em 02.02.2013.

2 - Foram para o autor destas linhas uma descoberta pois nunca as vi referênciadas talvez por serem meros pormenores, em qualquer outra publicação.

3 - Prometo falar deste assunto em outra publicação...

4 - Ou seja, a fachada que se encontrava recuada poderia, quem sabe, ter assim chegado aos nossos dias.

5 - Aliás o projeto é encarado inicialmente como sendo o alargamento da rua das Congostas!

 

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.02.2013, agora revista e bastante aumentada.

Fragmentos visuais (2) : A Capela de Santo António do Penedo

por Nuno V. Cruz, em 04.09.18

Esta publicação, caros leitores, já está no meu pensamento há longo tempo. Contudo esperava que as obras de Santa Engrácia por que passa o edifício protagonista terminassem, para fazer uso de uma foto colhida por mim próprio. Mas aquilo está mesmo parado e parece que não tem forma de avançar! Assim, recorri ao nosso velho amigo googlemaps. Como pretendo seja habitual nesta série de publicações, quer na foto antiga como na foto moderna coloco uma âncora; isto é, assinalarei algo em ambas que ainda se mantêm para poder fazer a ligação entre o passado e o presente. Ora com esta explicação, quem sabe desnecessária, vamos ao cerne da questão:

 

*

 

A i1 mostra-nos a capela de Santo António do Penedo no antigo largo de Santa Clara e hoje largo Primeiro de Dezembro, aí pelos anos 50 do século XIX. Recentemente vimos uma publicação centrada em volta deste local, quando falamos da Porta do Sol. Contudo, por desnecessário, não viemos espreitar atrás de uma pequena casa apalaçada que surgia na i3 e que é nada mais nada menos do que a fachada do edifício que aqui vemos encostado à esquerda, junto ao cruzeiro (ali colocado no ano de 1643, com uma inscrição datada de 26 de outubro[1]).

 

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i1 -  A capela de Santo António do Penedo com a sua galilé que desapareceu em 1860, vinte e cinco anos antes da capela em si. As janelas assinaladas com o círculo no edifício atrás da capela servem de âncora com a i2. Notar: o curiosíssimo pormenor de podermos ver - caso muito raro! - um lampião da primitiva iluminação pública da cidade, anterior ao gás canalizado! Igualmente peço ao leitor que repare nas janelas superiores à galilé, que se encontram aparentemente cravejadas de balas: terá o edifício sido usado por atiradores durante o cerco?

 

Sem querer entrar na centenar história do pequeno templo, convém pelo menos referir o ano em que deixou de existir: 1886. Nesta data ultimava-se a rua Saraiva de Carvalho e este local bem como as redondezas sofriam alguns alinhamentos finais que moldaram o sítio à forma atual. Mas antes disso já a capelinha tinha sofrido alterações de monta que a modificaram substancialmente em relação à imagem que aqui vemos. 

 

Em 1835 a capela estava em ruína. O prédio seu vizinho foi vendido a um Manuel Teixeira Pinto que em 1860, num processo trabalhoso, conseguiu também a capela para si. O agora proprietário tratou de a adaptar ao uso que lhe pretendia e daqui adveio o último estágio evolutivo do monumento, poucos anos antes da destruição final: nivelou-a ao seu prédio do lado poente, demolindo o alpendre bem como a escadaria localizada em frente à sua frente (também visível na foto). Todo este terreno deixado livre foi à sua custa ajardinado, e mais algum de que entretanto se apossou... Mais pobre mas ainda com aspeto de capela, o seu interior foi a partir daí usado como dependência de arrumos do proprietário!

 

Quando quer a capela quer a casa que lhe estava contígua foram demolidas para desafrontar aquele espaço[2], foram por ali encontradas várias ossadas - o que é perfeitamente expectável - mas também várias moedas antigas do período filipino. O arco cruzeiro desta capela, de primoroso lavor, foi salvo da destruição tendo também ele sido remetido para o museu municipal a S. Lázaro. Mas, como refere Pedro Vitorino (ver aqui), quando o quiseram voltar a erguer na quinta do SMAS, o mesmo já se mostrava incompleto!

 

 

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i2 - O local na atualidade. A parte do edifício onde se encontrava a PSP sinalizado pelo retângulo, ajuda a colocar mentalmente a capela de Santo António do Penedo.

 

Agora o local está como o podemos ver acima. Aqui como em quase toda a cidade, a teraplanagem, o rebentamento de penedos e o entulhamento, foram homogeneizando a paisagem citadina. Restam-nos algumas referências antigas, escritas ou visuais, que nos permitem reconstruir - sempre de forma parcial - o que outrora existiu.

 

(Nota final: os apontamentos históricos são extraídos do trabalho de F. A. Carlos das Neves, publicados n'O Tripeiro  ano 1, semestre 2.)

 

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1 - Sousa Reis fala em dezembro desse ano... O padrão referido, após a demolição da capela, foi recolhido no edifício da Biblioteca Municipal, que albergava à época o museu da cidade. Estará agora no Soares dos Reis?

2 - Veja-se os penedos em rocha viva que ainda aparecem na foto e não esquecendo que pelo menos já no século XVIII aqueles ou outros em seu redor haviam já sofrido desbaste, pelo que mais fragoso tudo à volta deveria ser...