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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O bueiro da Natividade

por Nuno V. Cruz, em 31.10.18
Recordam-se os leitores de ler em crónicas do insigne historiador da cidade Germano Silva (creio que a notícia original surge na 2ª série de O Tripeiro) sobre uma remodelação dos aquedutos das águas ocorrido na Praça da Liberdade aí pelos anos vinte do século passado? E recordam-se também de ler que o povo dizia serem aqueles túneis para os frades se encontrarem com as freiras? Bom, disparates à parte que a imaginação popular por vezes cria na sua santa ignorância, verdade é que os subterrâneos existiram mesmo mas não seguramente com a intenção imaginativa que a eles se queria atribuir.
 
Em baixo podemos ler uma notícia de um periódico dos anos 30 do século XIX, onde esses túneis se viram envolvidos numa banal tentativa de roubo, mas de onde podemos extrair alguma informação preciosa sobre eles; sempre levando em conta que esta história é cerca de 100 anos mais antiga do que a remodelação que acima referi.
 
 
 
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«Todo Porto sabe que há um aqueduto geral chamado Rio da Vila, que vai desaguar ao Douro, e corre a descoberto desde a viela do Largo do Souto, até à Biquinha, pelas traseiras da Rua das Flores. Este aqueduto recebe em si as vertentes do regato de Liceiras, e os enxurros das ruas, que entram por bueiros abertos em várias partes, como no fim da rua de Santo António, largo da praça de D. Pedro, no sítio onde foi a Natividade, no lado dos Congregados, Caldeireiros, etc.
 
Estes bueiros tinham todos na sua permitiva (sic); isto é, anos há, travessões de ferro, que apenas deixavam passar as águas; e é tanto verdade, que às vezes, a terra e as areias arrastadas na corrente, os tapavam, e faziam inundações nas vizinhanças a ponto de ser necessário grande esforço e tempo para os desentulhar e deixar passar grande quantidade de povo, que era obrigado a interromper o seu trânsito em ocasiões de grandes bátegas de chuva. Alguns destes varões de ferro hão desaparecido de vez em quando, e ninguém tem prestado atenção a esta falta.
 
 

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i1 1- localização da antiga Fonte da Natividade / 2- traseiras do edifício 'das Cardosas', onde se constata que originalmente eram edifícios distintos apesar da fachada regular em comum / 3- local onde os diversos regatos se juntam formando o Rio da Vila. Notar que nos anos 30 do século XIX este edifício ainda não estaria concluído e nas suas traseiras o convento dos Loios ainda existia, sendo usado como quartel.
 
 
Ainda mais: o bueiro do sítio onde foi a Natividade, não só deixou de ter os ferros há muito tempo, mas está de tal maneira esburacado, que parece mais uma entrada de funda cova, do que bueiro para a água. Pode entrar uma pessoa sem grande dificuldade. Esta abertura, assim mais praticável, data do tempo da demolição da Natividade; época em que o tal bueiro esteve metido entre as pedras e entulho que na demolição se iam acumulando em redor, enquanto se não alimpou o sítio inteiramente; e então o buraco ficou como estava, e ninguém lhe prestou atenção, porque não houve motivo para isso. Um caso imprevisto veio porém dar celebridade ao bueiro do Rio da Vila no sítio da Natividade!
 
Domingo passado, em uma casa da Praça de D. Pedro, das que têm traseiras para a cerca do extinto Convento dos Lóios, seriam 2 para 3 horas da noite, sentiu-se rumor em uma pequena janela, ou postigo, que ao nível do teto da loja dá luz à parte detrás dela. Aplicou-se atenção; o rumor cessou; e abrindo-se pela manhã a portada que fecha a tal janela, viu-se que a vidraça interior estava fechada com a cravelha costumada, e nenhuma aparência fazia desconfiança.
 
Porém o tal rumor, pelo que agora se descobriu, foi originado por se tirar o betume de um vidro, e tentear-se um buraco que apenas serve para mostrar que é dia, o qual está aberto na porta ao direito do tal vidro que se tirou. Tornaram a por o vidro, com novo betume, depois de verem a grossura da janela para os seus planos, e como os vidros são abetumados pela parte de fora, ninguém tal viu, até ontem, que as circunstâncias fizeram inspecionar a janela.
 
Ontem às 3 horas da noite, tornou-se a sentir o mesmo rumor, no mesmo sítio, e ouviu-se tinir vidro quebrado. Então a gente da casa se levantou e pode conhecer que com um trado se faziam furos na janela.
 
Como a janela é forrada com chapas de ferro de arcos de pipas, deu lugar a operação dos ladrões, a tomarem-se medidas pelo lado da praça, pedindo auxílio à Guarda do Trem dos Congregados, a quem se ministrou um lampeão; (tudo isto da janela, para que não se abrisse a porta da rua ao direito do sítio da operação, e se espantasse a caça) e se lhe ensinou que fosse a escolta pedir entrada ao Quartel dos Lóios, para entrar na cerca, e pilhar os ladrões. Assim se fez. À baioneta calada caiu a escolta com ímpeto sobre o sítio do assalto, aonde estavam 4 homens. Dous deles tiveram a coragem de se lançar abaixo de uma alta parede, e os outros dous que estavam em cima da escada para chegar à janela, foram presos. Perguntados por onde entraram para esta cerca murada de todos os lados, apontaram para um bueiro, que está dentro da mesma, e que serve de escoadouro de águas no seu plano inclinado, tendo entrado eles dous pelo bueiro da Natividade, dizendo que não sabiam por onde tinham entrado os outros dous, os quaes já se achavam no sítio. E parece que talvez eles entrassem por onde saltaram!
 
 

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i2 Esta imagem mostra-nos o lado da praça da Liberdade no início do século XX onde posteriormente foi erguido o Banco de Portugal. Com o n. 1 assinalo o edifício 'das Cardosas', onde os ladrões seguiram em peregrinação; e com o n.º 2 o casario do lado poente, onde creio que estaria o tal quarto subterrâneo (duas curiosidades já desaparecidas são a viela do Polé, que se vê na imagem e para a direita mas fora do enquadramento encontrava-se o tanque que substituíu a Fonte da Natividade). Notar que o tipo de construção que aqui se vê é típica do século XIX, contudo à data dos acontecimentos narrados - 1836 - provavelmente não teriamos o edificado totalmente com este aspeto(?); ainda assim creio ser a melhor imagem para ajudar a ilustrar esta publicação.

 
 
A escolta deixando seguros os presos teve a coragem de descer pelo bueiro e foi seguindo uma das seis ramificações em que diz que a certa distância se divide o aqueduto, e foi dar com uma casa subterrânea, com porta e fechadura que estava aberta! Dentro desta casa havia uma cama de palha, parecendo à escolta que um vulto fugia para um dos lados. A quentura da palha indicava que pouco antes ali estaria alguém deitado. Nesta casa estavam duas cadeira, alguns pipinhos de vinho, bastantes cebolas, uns paus como tocheiras de por à janela com tocos, em ocasiões de luminárias, e alguns estofos velhos, que dizem parecer ser de igreja... Esta casinhola tem comunicação para a casa de D. António de Amorim na Praça de D. Pedro, por cuja porta da rua veio a sair a escolta.
 
Tal é o facto, segundo por diversas vias nos informamos.
 
No sítio do roubo, existem dous vidros quebrados na vidraça, e três furos na portada, um que varou, e dous que vieram de encontro às chapas dos arcos que a forram.
 
Os presos atravessaram a cidade no meio de imensa multidão, quando foram à presença do Ministro de Polícia Correcional, e depois para a cadeia.
 
Todo o dia, grande ajuntamento concorria a ver o célebre bueiro, e não há mais em que falar nesta cidade.
 
Por esta razão, e para fazer rir os nossos leitores como se estivéssemos a ler a história do Gil Brás de Santilhana, resolvemo-nos a relatar o facto, para ver se alguém cuida em providenciar como convêm a similhante respeito!»
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Artigo extraído d' O Artilheiro de Quinta-feira, 24 de Março de 1836.
 
 
 
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Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.09.2016, agora revista.

Como se completou o Jardim de S. Lázaro

por Nuno Cruz, em 21.10.18

Na sequência da publicação curiosa sobre os mesquinhos ódios entre um liberal e um suposto miguelista, admitido como vigía do jardim de S. Lázaro em 1837, aproveito para republicar o texto que o leitor pode consultar abaixo. É um daqueles maravilhosos artigos que apenas se encontram quando vasculhamos os jornais da época, folha a folha, dia a dia... Este em particular - colhido da Chronica Constitucional da Cidade do Porto do dia 14 de Outubro de 1834 - abre-nos uma fresta para o Porto de poucos meses após o fim da guerra, quando as pessoas se começavam a preocupar com a sadia fruição dos seus tempos livres, agora que já não necessitavam de temer por um tiro de canhão não lhes cair dentro de casa... O texto é longo mas vale a pena pelo imersão no Porto daquele tempo que nos provoca.

 

 

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« Todos sabem, e era matéria afluente nas conversações acerca de diversos recreios, quando se tratava de falar em aformoseamento desta cidade, que o único passeio público que podia merecer esse nome, era a alameda e paredão das Fontainhas; passeio que infelizmente, havendo sido uma das belas projeções de Francisco de Almada, peca no defeito capital da proximidade do matadouro geral, que torna o local incómodo, se não mesmo insadio, tanto pelo cheiro, e imundice, quanto pela asquerosa concorrência dos que traficam nesse modo de vida ainda tão fora de polícia e limpeza corporal em seu manejo; pois que se em algum ramo se conhece o atraso de melhoramentos municipais em comparação com Inglaterra, França, Bélgica e Holanda, que tantos emigrados observaram, é decerto nesta parte de similhantes trabalhos no uso dos misteres necessários ao uso da vida![1]

 

E nem só a natureza do cheiro do assento do matadouro nas costas do passeio, e junto à mãe de água tornam este sítio insalubre e desagradável; a existência de uma fábrica de curtumes de pelicas, com os seus tanque à face de mais de metade da sua extensão, é por outro outro lado a segunda causa de intolerável persistência num sítio com tantas proporções de ser, sem estes inconvenientes, um dos mais próprios a gozar de vistas pitorescas, ou ao longo do rio para o lado de seu tráfico comercial até ao cais por baixo da eminência do antigo castelo de Gaia, ou para o lado de suas ribeiras e vales de Quebrantões, coroados pelos declives em anfiteatro dos outeiros e colinas de Oliveira do Douro e Avintes em diferentes planos e distâncias!

 

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i1 Planta de 1798 do AHMP. Nela se vê o campo de S. Lázaro (A) , onde veio a ser construído o jardim; o matadouro (B) e com a letra D - para auxílio da percepção do local - assinalo o local da atual Ponte do Infante; mesmo ao lado das Fontainhas.

 

Nesta falta de um passeio público digno da segunda capital do reino, enquanto se não leva a efeito o tão apregoado sistema da remoção do matadouro para o Monte Pedral, e dos pelames para diverso local acomodado, era forçoso lançar mão de outro sítio onde se pudesse formar um passeio que no entanto substituísse aquela insuficiência, cuja duração não se sabe aonde poderá ter seu limite.[2]

 

O campo de S. Lázaro oferecia uma substituição sofrível em sua posição, como chave da aproximação de duas estradas, a de Valongo à esquerda, e a de Campanhã à direita, direções tão frequentadas aos Domingos e dias festivos para poder ser uma praça aformoseada, capaz de suprir o intento no intermédio em que as Fontainhas se melhoram, ou que um passeio público, digno deste nome, se erige.

 

A supressão do convento dos frades Antoninhos facilitava ũa das mais apreciáveis regalias, que nestes estabelecimentos se requerem, qual a do serviço do imenso jorro de água, que dando um ar de beleza ao seu centro em tanque majestoso, facilitasse a rega dos arbustos, plantas e flores que adornassem os tabuleiros da sua configuração.

 

Tentou pois uma autoridade superior desta cidade, o fazer edificar um jardim em frente da livraria pública, criada por decreto do imortal duque regente, de saudosíssima memória, assim como da Galaria de Pinturas que se fundou com a denominação de Ateneu D. Pedro; fundações estabelecidas na parte superior e inferior do edifício do referido convento de Santo António da Cidade, concedido pelo governo para obras de tão transcendente utilidade.[3]

 

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i2 Edifício do antigo Asilo de Mendicidade, que resulta da adaptação do do antigo Matadouro referido no texto (ver também: aqui), edifício bem visível para quem atravessa o rio pela ponte do Infante.

 

Deu-se pois princípio a esta obra, debaixo da direção do Sr. J. B. Ribeiro, que teve a satisfação de ver no espaço de 3 meses correr água para o espaçoso tanque que se edificou no meio da praça, de que um quarto de configuração se ultimou logo, e de que até hoje, que pouco mais ou menos se contam 7 meses de trabalho, quasi metade está completo, incluindo-se a magnifica escadaria que deve servir de entrada principal do lado da Rua de Entreparedes.

 

A satisfação que toda a cidade mostrou no andamento desta obra tão popular, manifestou-se desde o princípio na continuada concorrência de todas as famílias do Porto, e de seus habitantes em geral, que todas as tardes, e principalmente nos dias festivos enchem o recinto deste sítio tão aprazível e agradável.

 

Por outro lado se tem manifestado esta popularidade de aprovação, nos imensos presentes com que tem sido brindado o jardim, como já em outra ocasião mencionamos a respeito do Sr. L. S. de C. - modernamente temos a mencionar acerca dos Srs. M. L. C. e seu filho – J. J. de F. - J. L. - M. F. S. - A. P. d’A. - J. G. R. N. - D. J. R. G. - e do próprio jardineiro, e de outras muitas pessoas e famílias, que tem ofertado arbustos, flores, e sementes, em tal quantidade, que  sua variedade e profusão se tem feito notável e rica.

 

Mas tanta prosperidade do jardim, está balanceada pelas ocorrências sobre vindas, e é preciso ou acudir-lhe, ou ver perder-se no espaço de poucas semanas o fruto de tantos meses, e as esperanças da permanência deste recreativo passeio!

 

É alheio deste lugar a investigação das causas, e dos motivos porque os meios, que tem servido até agora, para por o jardim no estado em que se acha, pararam de repente! Consola-nos contudo a esperança, de que assim como as obra da Livraria Pública, e do Ateneu pararam, sendo natural que o governo não queira que elas venham a aumentar o anexim de que no Porto tudo fica em começo, ou fica torto – venha a olhar por isto, porque o povo necessita de instrução e recreio, e o Porto merece que tais obras principiadas tenham o seu andamento e conclusão.

 

Deixando porém a Livraria, e o Ateneu, como obras mais gigantescas, e que por si falarão altamente por orgão da necessidade de acudir ao edifício arruinado pelas obras em projeto, e que a não acabar-se, ameação prejuizo mais iminente – do que se imagina…

 

Tratemos do nosso jardim, que bem nosso lhe podemos chamar pela posse de concorrermos ali, nós todos os habitantes do Porto, que estamos no hábito da sua diária, e contínua fruição.

 

Se lhe não acudimos, ele perece; e o modo de lhe acudir é fácil, e acessível a todas as famílias e amadores deste recreio.

 

Está aberta uma subscrição puramente particular, de 480 rs. por cabeça, para costear, e beneficiar, tanto quanto seja possível, com o fundo resultante, o estado, e melhoramento do jardim.

 

O mesmo Sr. J. B. Ribeiro, sabemos que se presta a coadjuvar com a sua direção o progresso das obras em andamento, e no fim de cada mês se darão contas públicas por nossa intervenção, para se saber que a mesma economia se emprega neste objeto.

 

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i3 O jardim de S. Lázaro num conhecido postal do início do século passado que nos mostra o seu lado sul, virado à avenida Rodrigues de Freitas; do outro lado deste arruamento vemos o antigo Recolhimento das Orfãs.

 

O meio de se darem contas públicas sem se usar dos nomes de pessoas, que talvez tenham melindre de que seus nomes sejam referidos, é seguir o método usado em países estrangeiros: cada subscritor ou seja mencionado com letras iniciais, ou com o anónimo, tem o seu n.º de algarismo, e por eles assim se nota o total da receita, para que cada pessoa vendo o seu número, saiba que a sua quantia entrou legitimamente, e teve  a saída na despesa respetiva.

 

O Sr. J. B. Ribeiro é o próprio tesoureiro, e sabemos que as obras  já desde o principio deste mês correm por conta da subscrição particular.

 

É a primeira vez que entre nós se pratica este método de auxílio a obras públicas; e esperemos que ele seja tão profícuo, quanto é útil o seu fim.»

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1 - Nas Fontainhas construíram-se, no século XVIII, a alameda e o matadouro (só terminado em 1808). Para esta zona foram também transferidos os aloques da Biquinha, ou seja, a suja indústria dos curtumes que por séculos se manteve no local onde hoje temos a fonte monumental da Rua Mouzinho da Silveira.

2 - Esta transferência viria a ocorrer umas décadas depois, para o local onde atualmente se encontra a Direção de Ambiente da câmara, na Rua de São Dinis.

3 - Nos seus primeiros anos a biblioteca municipal ocupava apenas o andar superior do edifício onde ainda hoje se encontra, sendo que por baixo se encontrava o Ateneu, que, nada tendo que ver com a instituição que hoje dignifica este nome; levantou durante uns bons anos o estandarte de museu municipal (foi este museu que em 1838 cedeu o lavatório da sacristia do convento dominicano para o Jardim de S. Lázaro onde ainda está; obra fina feita para interior mas exposto à inclemência do tempo há quase duzentos anos!).

 

NOTA: Publicado originalmente no blogspot em 04.05.2017

Curiosidades (2) - Inimizades Absolutamente Liberais

por Nuno V. Cruz, em 13.10.18

Notícias curiosas, algumas inusitadas, que vou encontrando nos jornais do século XIX, é o que pretendo colocar neste tipo de publicação. Os títulos que não se encontrem dentro de «» são de minha autoria e como já vem sendo habitual a ortografia é atualizada exceto em algumas palavras que poderão indicar uma outra pronúncia.

 

 

Inimizades Absolutamente Liberais.

Parte A: « Sr. Redator, Passando um destes dias no Jardim de S. Lázaro observei haver ali um novo Guarda, e ao mesmo tempo fiquei surpreendido vendo no dito um perseguidor meu, e por isso admirei não haver um homem que tivesse prestado serviços à causa que fosse capaz de ocupar aquele lugar; ignoro que fosse o Padrinho que ali o colocou, e para conhecimento do público se estas linhas tiverem lugar no seu acreditado Periódico por isso lhe ficará sumamente agradecido este que se preza ser seu constante leitor e assinante. » (O Inimigo dos Miguelistas)

Publicado n' Vedeta da Liberdade de 22 de março de 1837

 

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Parte B: « Tendo sido há pouco nomeado Vigía do Jardim de S. Lázaro, não posso por isso deixar de entender alusiva à minha pessoa a imputação feita na Carta com que termina a sua folha N.º 67 de 22 de Março próximo passado. E como por factos nada equívocos demonstrei sempre a minha adesão à Causa da Liberdade, muito desejo convencer de caluniador o Autor de tal Carta, sendo para esse fim indispensável que ele se desembuce, e apresente o seu nome. Para esse fim rogo-lhe, Sr. Redactor, a inserção deste convite no seu acreditado Periódico, para que possa justificar-me; ou no caso de silêncio, convencer o Público de que tal imputação não passa de redícula calúnia. Sou Sr. Redactor, etc.» (João Pereira de Carvalho Guimarães)

Publicado n' Vedeta da Liberdade de 4 de abril de 1837

O mercado do Anjo - cento e dez anos de existência

por Nuno Cruz, em 08.10.18

O mercado do Anjo foi inaugurado em 1839, logo após ter sido demolido e terraplanado o espaço onde existira o Recolhimento do Anjo - daí o seu nome - cuja autorização de demolição fora dado pelo governo dois anos antes à Câmara. Ao longo da sua história, foi passando quase que incólume a modernização e só em 1948, várias décadas depois de primeiramente se ter aventado que o mesmo já não estaria em condições condignas com as exigências quer higiénicas quer de funcionalidade da época, foi este mercado finalmente demolido.

É um pequeno texto que encontrei nos Boletins da Câmara de 1937 que me move a escrever estas linhas. mas acima de tudo, foi a vontade de dar a conhece-lo a vós meus caríssimos leitores, que resolvi traslada-lo para este blogue.

 

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i1 O mercado do Anjo no início do século passado (entrada da rua das Carmelitas).

 

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« Entre as diversas 'ilhas' do Porto uma há com especial fisionomia: 'O Mercado do Anjo'!

 

Vivem adentro dele, dia e noite, permanentemente, em péssimas condições higiénicas e morais dezenas de pessoas, algumas em míseros subterrâneos sem ar, sem luz, e sem o mais rudimentar saneamento, mercadejam constantemente centenas de outras, ora molhadas pela chuva e enregeladas pelo frio destes dias invernosos, ora torrificadas pelo sol e abrasadas pelo calor na temporada estival. Castigada é por vezes duramente a grande clientela que o procura.

 

Trabalha-se ali afincada e resignadamente, angariado o pão nosso de cada dia, sem queixumes de maior, mas com o protesto íntimo e veemente de todos aqueles que à causa pública e aos fracos da fortuna, dão generosamente o melhor dos seus esforços e da sua inteligência; de todos aqueles que se esforçam pelo revigoramento da raça e que estudam a solução dos mais instantes problemas da profilaxia da higiene sociais e até e também e muito de todos aqueles que desejam satisfazer os mais elementares princípios da moral e da caridade cristãs.

 

Impõe-se, pois, a necessidade urgente e inadiável de eliminar o velho, desmantelado e insalubre 'Mercado do Anjo', substituindo-o condignamente por outro.

 

Assim o tem pensado anteriores Vereações, assim o pensa a atual Vereação.

 

Em 1934, abriu a Excelentíssima Câmara de então um concurso para apresentação de ante-projetos para um grande mercado geral a construir no atual 'Mercado do Peixe', sendo apresentado apenas um, aliás grandioso e bem concebido, mas irrealizável por ser incomportável com as possibilidades financeiras deste Município, o que nos levou a estudar de novo o problema, procurando solução mais económica e consequentemente mais rápida.

 

Em sessão de 11 de junho do ano findo [1936], tivemos a honra de propor à Excelentíssima Câmara a nomeação de uma Comissão, para proceder aos primeiros estudos (...).

 

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i2 Um aspeto da demolição do Mercado do Anjo, vendo-se o fontenário central que já pouco teria que ver com o original. Ao fundo vislumbra-se o edifício da Livraria Lello.

 

Reuniu-se esta comissão várias vezes escolhendo e localizando definitivamente o terreno em que deve ser construído o novo mercado, preferindo-se um ante-projeto simples, agradável e económico, e, consideradas todas as nossas sugestões, resolveu-se seguir metodicamente um plano para melhorar alguns dos departamentos municipais e criar outros, onde a população desta laboriosa cidade se abasteça.

 

Todos sentiram e convencidos estamos que toda a cidade sente que não pode continuar, o que existe.

(...)

O velho 'mercado do Anjo' será transferido para o atual local do mercado do Peixe e terrenos anexos, a oeste do jardim da Cordoaria. Por sua vez, o que está atualmente ocupado pelo mercado do Anjo, numa área de 6.000 metros quadrados, por exigências de urbanização e de salubridade, será transformado numa nova e formosa praça ajardinada, a que muito bem poderemos chamar 'Praça da Universidade'.

 

Teremos assim desafogado e valorizado dois grandes e imponentes edifícios citadinos: O Palácio da Universidade e o Templo dos Clérigos e ainda um terceiro, o da Relação todos de momento amesquinhados pela vizinhança insalubre dum conjunto de miseráveis barracas que formam esse mercado do Anjo!»

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O que acima se leu é um excerto de um texto do vereador João de Paiva de Faria Leitão Brandão, lido em sessão de Câmara de 4 de fevereiro de 1937, que aborda na totalidade o assunto dos mercados. Olhando para trás, podemos verificar que entre os projetos e a realidade, como aliás é frequente, muito se alterou. Não obstante estas intenções, só dez anos depois o mercado seria fechado e transferido para um outro, provisório, no local onde existira a Roda, paredes meias com o mercado do Peixe. Daí e juntamente com o seu vizinho, mudou-se de malas e bagagens para os lados do Bom Sucesso em 1952.

 

Contudo, a extinção daquele mercado era já previsto no Plano de melhoramentos... de 1881, onde se previa a sua mudança para um novo edifício a construir na área do convento das Carmelitas; o que mais uma vez não se veio a materializar. E já em 1887, diz o relatório camarário da época, causava uma deplorável impressão a quem visitava a nossa cidade, o dito mercado, por se encontrar arruinado e sem capacidade para a vendagem que ali se fazia.

 

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 i3 Maqueta do projeto para a futura Praça de Lisboa, nunca executado.

 

 

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i4 Construção do mercado provisório da Cordoaria, que substituiu o do Anjo enquanto não surgia o mercado do Bom Sucesso. Para a sua construção foi demolida a antiga capela do Calvário Novo bem como o edifício da antiga Roda dos Expostos que fora, na sua origem Hospício dos frades de Vale da Piedade (ao fundo ainda se vê uma parede dele).

 

 

O local onde existiu, por quase 110 anos, aquele mercado, ficou durante bastante tempo um parque de estacionamento e posteriormente um como que mercado a céu aberto de pequenos vendedores que outro sítio não tinham e por ali se ajuntavam. Já no início dos anos 90 do século passado surgiu um Clérigos Shopping de não saudosa memória, e só há poucos anos, por fim, o espaço voltou a ter uma ocupação condigna de tudo o que por ali existiu, com um bonito olival a encimar uma área de restauração.

 

NOTA FINAL: Embora Horácio Marçal no seu sóbrio artigo sobre este mercado publicado na série Nova d' O Tripeiro, indique que o provisório que o substituiu se localizasse onde estivera o Mercado do Peixe, tal afirmação oferecia-me dúvida a julgar pela imagem 4 aqui apresentada. A parede que se vê ao fundo do edifício demolido para dar lugar a esta estrutura provisória está, a meu ver, mais de acordo com a arquitetura de uma instituição como foi o Hospício dos frades de Vale de Piedade: com os seus cachorros nas beiras das janelas para recreação destes enquanto contemplavam a paisagem circundante. As janelas do mercado do Peixe eram de um formato completamente diferente e sem qualquer intenção de permitir aos seus frequentadores tais descansos contemplativos, sem dúvida desagradáveis dado o cheiro que por ali deveria imperar! Aliás, o Mercado do Peixe encostava por completo a sua face Sul à casa da Roda, o que parece ser o caso nesta fotografia uma vez que as janelas que aqui se vêm são (ou estão) cegas.

Após ter escrito estas linhas, e ter mesmo tornado publica a publicação, pude comprovar no sítio do AMP a existência de umas imagens digitalizadas em formato bastante reduzido, que comprovam esta ideia (ver i5).

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i5 Fotografias aéreas do Mercado do Peixe e do mercado provisório que substituíu o Anjo, datadas de 1952. Seria a intenção de os registar para memória futura da cidade?