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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sacos de café pendurados na Torre dos Clérigos ?

por Nuno V. Cruz, em 27.11.18

Conforme prometido na publicação anterior sobre a Meridiana, coloco aqui algumas palavras que portuenses de há um século atrás (1908) nos arquivaram nas páginas d' O Tripeiro sobre um outro 'mecanismo' também ele dependente da Torre dos Clérigos. Tudo começou com uma pergunta colocada por um leitor no n.º 10 deste secular periódico que diz: 

 

«Possuo uma gravura antiga onde se vê a Torre dos Clérigos com dois sacos de café, salvo seja, pendurados fora da varanda superior, como indicadores de qualquer coisa. Em pequenito ouvi dizer que estava instalada uma meridiana na Torre.»

 

Ora, em relação à Meridiana tem só o leitor atual que reler a publicação anterior; por agora pretendo dar a conhecer as respostas oferecidas a este leitor de há cem anos atrás, para que também nós cem anos depois possamos ler o testemunho de quem ainda conheceu o tema. Para isso recolho parte de três respostas que surgem no número imediatamente a seguir ao da pergunta n' O Tripeiro:

 

N.º 1) «Não eram sacos de café o que o Sr. B. S. vê na antiga gravura que possui, representando a Torre dos Clérigos. Eram bandeiras, como poderiam ser balões de folha de flandres, ou de zinco pintado. Eu explico: Até 1856, pouco mais ou menos, o único meio de transporte para a correspondência do Porto com a Grã-Bretanha, eram os paquetes da companhia inglesa P. & O. (Peninsular and Oriental), que apareciam à vista da nossa barra de quinze em quinze dias. Os vapores, naquela época, eram de pequenas dimensões e pouca força, comparados com os que se empregam atualmente na navegação transatlântica; por isso, não se podendo contar, senão aproximadamente, com o dia e hora da chegada, e para obtemperar às conveniências do comércio, que tinha interesse em receber a correspondência no dia da chegada, foi combinado, entre a direção da Associação Comercial e o diretor do correio, com consentimento da Irmandade dos Clérigos que, logo que, pelo telegrafo comercial, houvesse noticia de estar à vista o paquete, fosse colocado um sinal na Torre dos Clérigos, que era avistada de quasi todos os pontos da cidade, avisando os comerciantes para mandarem buscar a correspondência ao correio, que era então no extinto convento das Carmelitas [...].

 

captt.png

A torre numa imagem já posterior à época aqui descrita.

 

Aquele sinal consistia, para os dias de bom tempo, em duas bandeiras com as cores da Companhia P. & O. pendentes de um travessão de cada lado (norte e sul) do varandim superior da Torre; e, para os dias de chuva, em dois balões de lata, pintados com as mesmas cores.

Os caixeiros, a quem competia o serviço de ir ao correio esperar pela distribuição da correspondência para a levarem a casa dos patrões, tinham ordem de estar atentos à colocação do sinal, nas proximidades da chegada dos paquetes, que principalmente de inverno, demoravam um ou mais dias, o que os fazia arreliar, porque os privava de algumas horas de descanso ou de recreio.

Os paquetes, apesar de pequenos, não podiam entrar a barra do Porto; por isso havia uma catraia do sota-piloto Manuel Francisco, encarregada de ir fora da barra levar e receber as malas de correspondência e alguns passageiros, que houvessem de embarcar ou desembarcar e que, naquele tempo, eram raros: pois com o mar agitado era muito arriscada a entrada ou saída da catraia.

Muitas vezes sucedia a catraia entrar ao fim da tarde, obrigando os empregados do correio a irem fazer a separação de noite, serviço esse que algumas vezes levava até às 10 ou 11 horas».

 

De facto nos vários jornais que já tive a oportunidade de consultar na Biblioteca Pública Municipal muitas vezes se vê uma pequena notícia referindo a passagem do paquete e em algumas delas este nem parava porque o tempo estava mau. Tempos muito diferentes, os que hoje vivemos...

 

Mais duas respostas aqui coloco, não tão completas, mas deveras interessantes:

N.º 2) «O que o Sr. B.S. julga ser dois sacos de café, não o são, pois que nessa época a Cristina, da Cancela Velha, era a única que tinha o monopólio do saboroso e aromático produto, não tendo como rival o café da Brasileira, e por essa razão não precisava de réclame para chamar a freguesia ao seu estabelecimento bem conhecido na cidade e até nas províncias.

São, sim, dois sinais com bandeiras, indicando a entrada ou o estar para entrar vapor ou, como hoje se diz, paquete trazendo correio.»

 

E para finalizar:

N.º 3) «(...) Os tais dois sacos de café, salvo seja, que era costume exibirem-se às vistas do público, já então respeitável, dependurados nas extremidades de duas pequenas varas, ou paus, colocadas horizontalmente na última varanda da Torre dos Clérigos, serviam para anunciar que era dia de paquete, isto é, para prevenir quem tivesse de mandar correspondência pelo paquete para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, que devia entrega-la nesse dia no Correio Geral, que então era no largo do Correio.»

 

Iberia_1836.jpg

Iberia de 1836, um dos primeiros paquetes da P&O, que regularmente paravam na Barra do Douro (imagem: http://www.pandosnco.co.uk/iberia.html)

 

Como se vê, esta última resposta e a primeira não são propriamente coincidentes. Haverá alguma que fuja à verdade? Ou simplesmente reportar-se-ão a épocas diferentes? A partilha do conhecimento é uma virtude da qual espero que o leitor sabedor esteja investido.

 

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Originalmente colocado no blogspot em 14.02.2017; agora ligeiramente revista.

A meridiana da Torre dos Clérigos

por Nuno V. Cruz, em 22.11.18

Já ouvira há tempos falar deste mecanismo que esteve instalado no topo da Torre dos Clérigos, sobretudo dos escritos arquivados nas mais antigas páginas d' O Tripeiro por quem ainda dela se lembravam. Pela meridiana acertaram os portuenses durante algumas décadas os seus relógios. Depois de subsistir na torre durante largos anos, esteve a engenhoca instalada na casa mais alta (qual?) da rua 31 de Janeiro, onde ainda existiu durante pouco mais de um ano.

 

Nos artigos que consultei n' O Tripeiro não recolhi qualquer referência à data em que havia sido instalada, por isso foi com grande alegria que descobri o texto escrito pelo próprio autor do automatismo no jornal O Nacional. Este vem datado de Maio de 1846 mas surge apenas publicado em Julho. Ainda nesse mês, no dia 13, o presidente da Comissão Municipal, José Passos juntamente com  Filipe José de Almeida, Martins dos Santos e Ribeiro Pereira ali se deslocaram em vistoria.

 

Eis então o relato sobre o funcionamento do mecanismo, pelo punho do seu autor:

 

«»

 

«Sr. Redator, - Nem tudo será eivado do frenesi do século, nem tudo será política no nosso reino. Nesse vórtice imenso em que giramos, onde mais vezes se batem as paixões que os interesses do país, também alguma cousa há-de surgir de verdadeira utilidade. O Porto acaba de fazer uma aquisição desta espécie, e por fortuna minha coube-me a mim o seu desempenho. Aí tem ele uma meridiana sonante, aí tem ele portanto satisfeita uma das suas grandes necessidades.

 

A simples meridiana é uma maquina demasiado compreensível e de fácil obra, mas não assim se este instrumento se encarrega de transmitir a hora que marca para um ponto longínquo por meio do toque de sinos. A meridiana que hoje tem o Porto pratica isto.

 

Acha-se ela colocada no magnífico e a todos os respeitos muito apropriado edifício da Torre dos Clérigos, e a seguinte é a descrição abreviada do seu maquinismo e efeitos.

 

Passando o sol pela linha norte-sul da cidade (segundo a frase ainda hoje recebida) um de oito delgados cordões feitos de quatro fios de retrós preto, que se acha na mesma linha, se queima quando ferido pelo foco de uma lente, e imediatamente pelos espaço de quasi dous minutos, se faz ouvir um repique em muitos sinos, e a detonação de um morteiro. Isto se passa na altura de 52 metros, ou pouco mais ou menos 235 palmos acima da base da torre, e portanto dá aviso à maior parte da cidade de quando é o seu verdadeiro meio-dia, e convida a todos para que regulem os seus relógios talvez duzentas e tantas vezes por ano que tantos são os dias presumiveis em que a atmosfera do Porto deixa ver a face do sol, devendo ao mesmo tempo fazer-se uso das tábuas de equação, que muito bom seria, Sr. Redator, se um qualquer periódico nos desse a sua publicação de futuro para mais comodidade dos habitantes.

 

Não obstante estar a meridiana colocada fora da torre: e distante da máquina que tange os sinos, cousa de 50 palmos [11m], e esta afastada deles uns 102 [22,44m], o que tornou um pouco difícil a comunicação deste lado; tudo se venceu, e uma vez truncado o cordão que se expôs à ação dos raios solares convergidos pela lente, os sinos tocam, ecoa o morteiro, e a peça que contem os 8 cordões foge da sua posição, para depois de dar tempo à deslocalização do foco, vir oferecer, por um outro movimento que faz sobre o seu eixo, um novo cordão que no outro dia há-de repetir esta mesma cena. E porque são 8 os cordões, e 8 também os dias de corda que aquela máquina tem, só depois de sectionado [sic] o ultimo cordão, é que é preciso refazê-la de novos cordões, e de nova corda que é necessário dar-lhe.

 

meridiana.jpg

Pormenor de uma fotografia de Frederick Flower onde podemos ver a torre dos clérigos na altura em que a meridiana se encontrava ali instalada.

 

Se alguma meridiana semelhante a esta existe na Europa ou na America, eu não tenho disso conhecimento, e se as leis da mecânica não fossem circunscritas a certos respeitos, e por isso mais fáceis de se repetirem os seus resultados do que é possível renovarem-se as figuras do Caleidoscópio, eu não teria dúvida em sustentar que de certo outra meridiana igual não há, por isso que ela é de minha pura invenção, e execução no mais delicado de suas partes. E ainda me lisonjeio, que tão feliz fui em suas combinações, que nenhuma me falhou, e não tive que perder uma única peça, salvo as que enjeitei por menos consistentes, e ainda algumas outros em consequência do novo acordo tomado para serem tangidos mais sinos, e não um só.

 

Convencido como estou de que a minha obra é de inquestionavel utilidade, não quererei para mim o exclusivo dos ganhos que daí possam provir; e por isso direi que o Porto a deve à Ex.ma. Câmara Municipal que a mandou fazer, aos seus comissionados, os Ill.mos Srs. António Alves de Sousa Guimarães, e Manuel Joaquim Gomes Guimarães que comigo trataram; a S. Exc.ª o Sr. bispo da diocese, aos Ill.mos mesários da Irmandade dos Clérigos e seu secretário o Ill.mo Sr. D. Francisco da Piedade Silveira, que prestaram o edifício, e finalmente aos meus amigos os Ill.mos. Srs. Francisco Joaquim da Silva Natividade, João Vieira Pinto, Luís Ferreira de Sousa Cruz, que particularmente me prestaram todo o auxílio de que careci para a levar a cabo, e outras mais pessoas que muito me obsequiaram, e que por não ser nimiamente prolixo deixo de mencionar, e a quem peço desculpa, e agradeço.

 

Sou, Sr. Redator, de V. muito atento venerador e criado,

Veríssimo Alves Pereira -  Porto 10 de Maio de 1846»

«»

 

Os portuenses que este aparelho conheceram e eram ainda vivos em 1908 escreveram nas páginas d' O Tripeiro várias notas das quais destaco a seguinte:

 

«... a tal meridiana, era um morteiro, carregado com pólvora grossa, chamada de pedreira, por ser da tal que servia para carregar os tiros abertos por meio de broca nas pedreiras, e que cheirava mal a três kilometros de distância, e próximo desse morteiro estava colocado um pequeno aparelho com uma lente cujos raios à hora do meio-dia convergiam para o rastilho que estava à entrada do ouvido do morteiro, inflamavam a pólvora dele, e zás... pum-um-um! Toda a gente que trazia relógio no bolso, puxava por ele, não para saber se era meio-dia, que anunciava o tal pum!, mas para ver se os jornais que traziam a equação do tempo, prevenindo do minuto ou segundos em que o morteiro fazia pum, antes ou depois do meio-dia verdadeiro, falavam certo.

 

Escusado será dizer que nos dias em que não havia sol a descoberto, não havia meio-diaTrês, quatro, ou mais dias de chuva ou de névoa, como acontece durante o inverno, e a respeito do meio-dia... nicles!

 

Ora como o tal pum ao meio-dia fazia estremecer as pedras da tal varanda onde colocavam os tais paus com os sacos de café (salvo seja) e  ia-as desconjuntando pouco a pouco, resolveu quem disso tratava, suprimir o ta pum! com grave desgosto para os pedreiros e carpinteiros principalmente, que tinham grande simpatia pelos relógios de sol, que só regulavam quando havia sol, mas que eles colocavam sobre uma pedra, para quando desse o tiro na Torre dos Clérigos, irem ver se estavam certos!...»

(Extraído de uma correspondência de um senhor que simplemente assinou F e que apareceu n' O Tripeiro, ano 1, p. 176)

 

 

NOTA: A observação sobre os paus e o sacos de café fica para a publicação seguinte. Acreditem que é deveras interessante para sabermos mais um pouco de como se regulava o mundo do século XIX com os seus sucessivos avanços tecnológicos, mas ainda com bastantes limitações!

 

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Originalmente publicado no blogspot em 07.02.2017, agora ligeiramente revisto.

A Capela-mor e a Sacristia da Sé Catedral

por Nuno V. Cruz, em 16.11.18

Venho hoje, caros leitores, trazer-vos uma publicação espontânea. Serve ela para celebrar a aquisição de uma obra que já vinha a namorar há algum tempo, e que nesta semana finalmente consegui adquirir. Trata-se do conhecido tratado Memórias Archologico-Históricas da cidade do Porto, editadas em Braga(!) no ano de 1924; da autoria de Monsenhor José Augusto Ferreira.

 

Acredito que alguns de vós já conheça esta obra, mas mais acredito que seja inteiramente desconhecido pela maioria. Não irei discorrer da sua qualidade mas, quando abri e desfolhei os volumes um pensamento súbito apoderou-se de mim e me fez meditar sobre ele : Os exemplares que adquiri estão ainda com as páginas juntas tal qual como saíram da gráfica. Constatei assim que, em quase 100 anos de existência, ninguém leu estes exemplares em particular! Uma obra de uma tiragem tão escassa tão rara e tão importante, virgem como qual saiu do prelo parece-me deveras para lamentar. Assim, e apesar das páginas se encontrarem já amarelecidas pelo tempo, constatei ser o primeiro a por os olhos em pleno nelas. Não que isso me traga especial vantagem ou qualquer tipo de benefício, mas não deixo de sentir uma certa tristeza. Os livros compram-se para serem lidos, é essa pelo menos a minha política...

 

01.jpg

i1 - Capa do primeiro volume da obra em estudo. Nela impera um equívoco: O Porto não é Ciuitas Virginis como aqui se vê no pseudo-brasão, mas sim Ciuitatis Virginis, o que é completamente diferente! Este erro persiste à séculos e é daqueles enganos que de tantas vezes repetido já foi elevado a verdade para muitos que deveriam saber melhor....

 

Isto dito deixo-vos com um pequeno texto extraído desse livro, a pp. 197 e 198, referente à Capela-mor e Sacristia da Sé Catedral, edifícios que a patina do tempo equilibrou com o restante corpo da máquina da igreja, mas que na verdade são umas centenas de anos mais novas que a românica igreja fortaleza que se vislumbra ao longe a todos que contemplam aquela imensa penedia chamada Penaventosa.

 

*

«Capela-mor e Sacristia da Catedral (1606).

Para atestar a grandeza deste Prelado [D. Fr. Gonçalo de Morais] existem na Catedral do Porto duas obras notáveis: a Capela-mor e a Sacristia. Esta, cujo pavimento é de mármore, e tem ao fundo um lindo altar, dotou-a não só de magníficos arcazes e armários par a guarda das alfaias e paramentos, mas também de lavatórios e mesas de mármore, dando-lhe o aspeto imponente que tem hoje(1).

 

A capela-mor, essa foi feita por ele de mármore a fundamentis, com soberbos cadeirais (2) e majestoso retábulo, e, embora não seja cabeça para aquele corpo, por destoar do seu estilo arquitetónico, é contudo, grandiosa e impressionante (3).

 

catedral.png

i2 - A Sé Catedra vista pelo googlemaps: 1 - Capela-mor construída no início do século XVII, construção em claro contraste com a restante igreja e que fez desaparecer a original da igreja com o seu certamente notável deambulatório. / 2 - Sacristia. / 3 - Corpo da igreja, mais antigo, não obstante o seu aspeto atual dever-se a importantes reformas feitas no século XVIII em periodo de Sede Vacante e posteriores obras do século XX no sentido da a reverter à sua pureza românica original, assim destruíndo e refazendo grande parte do que ali se vê.

 

Na capela de S. Vicente, fundação de D. Frei Marcos de Lisboa, ampliou, como disse D. Frei Gonçalo de Morais, o jazigo dos bispos, e para ali fez trasladar solenemente, em 20 de março de 1614, as ossadas dos que estavam em sepulturas dispersas pelo corpo da Catedral, a saber: D. Simão de Sá Pereira, D. Rodrigo Pinheiro e D. Julião, que com os cadáveres de D. Frei Marcos de Lisboa e de D. Jerónimo de Menezes completam o número dos Bispos inumados naquele lugar. (4)»

*

 

NOTA: Tirando esta, as notas finais são parte integrante do texto.

 

_________________
1- A atual sacristia era anteriormente uma capela, onde se diz que se paramentavam os Prelados para as Missas pontificais, o que fazem hoje na capela de S. Vicente. D. Gonçalo de Morais transformou essa capela em Sacristia, por ser acanhada a primeira, que se conserva ainda ao lado da capela-mor, para onde tem porta.
2 - Os cadeirais, que tem hoje o Coro, não são os de D. Gonççalo de Morais, mas aliás da segunda metade do século XVIII, pois o estilo é já do género de Luís XVI.
3 - O mesmo facto se deu, entre outras, na Capela-mor da Sé de Braga e Évora, construídas, aquela em 1509, e esta no tempo de D. joão V, em estilo diferente do corpo da igreja. Os púlpitos de mármore da Sé do Porto são também atribuídos, pelo menos um, a D. Gonçalo de Morais, e bem assim a estante coral de bronze na data de 1616. O brasão de D. Gonçalo de Morais ostenta-se no arco triunfal da mesma capela-mor, na referida estante coral, e na porta do átrio do Paço episcopal, que reformou.
4 - O retábulo atual da Capela de S. Vicente deve ser de D. João Rafael de Mendonça, pois no respetivo altar ostenta-se o brasão deste Prelado.

Breve nota sobre o hospital de Santo António

por Nuno V. Cruz, em 09.11.18

A fotografia que nesta publicação se pode observar, bastante antiga do Hospital de Santo António, tem o particular interessante de mostrar o não tão fotogénico terreno situado nas traseiras daquela casa. É da autoria de Frederick William Flower e pode-se localizar no tempo, com alguma probabilidade, nos primeiros anos da década de 50 do século XIX. Era naquela época conhecido como o Hospital da Misericórdia.

Fica claro por esta imagem que ainda se encontrava em construção, coisa que na verdade nunca foi finalizada; uma vez que o projeto inicial, como se sabe, propunha um edifício que se fechava sobre si próprio, de forma quadrada. O terreno livre que vemos em primeiro plano encontra-se hoje preenchido pelo novo edificado que ampliou esta instituição.

 

hospsa.JPG

 

Para se erguer o edifício naquele local foi necessário atulhar e consolidar com milhares de metros cúbicos de terra toda aquela área, composto de vários charcos com as nascentes do Carregal brotando à superfície e deslizando encosta abaixo formando o rio Frio, que ia desaguar lá ao fundo à praia de Miragaia...

 

Vigora ainda o mito que refere que o seu arquiteto - o inglês John Carr - tendo-o projetado para ser construído em tijolo como na sua Inglaterra natal, ficou chocado e admirado quando verificou in loco estar o edifício a ser construído em pedra! Mas... terá sido realmente assim?

 

 

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NOTA: Esta pequena publicação, agora revisada, colhe a sua informação do vol. 7 do célebre Portugal Antigo e Modero de Pinho Leal, tendo sido originalmente colocada no blogspot em 15 de março de 2010.