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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Um 'favor' a Gaia e a fonte do Bonjardim

por Nuno V. Cruz, em 27.12.18

Vasculhando velhos jornais dou sempre de caras com algumas notícias, artigos de opinião, ou simples notas bastante interessantes. Algumas que desconhecia, outras que conhecia por terceiros em obras sobre a história da cidade (e que já por algumas vezes comprovei que a informação prestada estava parcial ou totalmente errada!).

 

Não foi diferente com o Periódico dos Pobres no Porto de julho e agosto de 1846, que consultei. O leitor mais atento à data verá que está muito próxima a guerra civil da Patuleia[1] (a segunda guerra civil num espaço de uma dúzia de anos) mas já depois da revolta da Maria da Fonte. Pelos relatos dos jornais se vê que por toda a cidade existiam caceteiros, termo usado contra os indivíduos ou grupos de indivíduos que agrediam gratuitamente os seus opositores[2]. E no meio desta convulsão um jornal diz-nos que tudo está calmo, o outro que não se pode andar na rua por causa dos ratoneiros e caceteiros... Enfim, a luta entre Cartistas e Setembristas estava ao rubro e o pavio já quase todo queimado...


Chega a altura da eleição para a comissão municipal. Dirigia-a José Passos, irmão do mais célebre Passos Manuel, comprometido em gerir as contas da Câmara com muita cautela dado a penúria que existia nos cofres do concelho. Foi reconduzido no cargo em agosto sendo o mais votado, com menos de 800 votos. Durante o período que antecede esta votação, surgem no periódico referido (e opositor) umas pequenas achegas sobre a gestão da Câmara, a seu ver más decisões, tratadas com ironia. Eis alguns excertos:

 

'Quem não senão ele [vereador Pinto da Silva] compreenderia a necessidade da fonte do Bonjardim? Quantas pessoas ou bestas tem sido vítimas de sede por não poderem alcançar uma gota de água das fontes da Praça de D. Pedro, largo de S. Bento das Freiras, e rua da Madeira pela desmesurada distância em que se acham?! Pode-se ter inveja aos habitantes desde o Bolhão para cima, que vivem na abundância d’água: queira Deus que eles não sejam tão ingratos da solicitude do Sr. Pinto da Silva, no dia 30 deste mês, com os visinhais da fonte do Bonjardim conta ele seguro, e muito mais porque o sr. Fiscal projeta macadamisar essa rua, e faça-lhe justiça, é um plano gigantesco, depois do qual ninguém se atreverá a borrar o nome do Sr. Pinto, o ela ter sido calcetada há muito pouco tempo, o ter-se gasto nisso bons e muitos patacos; o haverem muitíssimas outras em muito pior estado, isso são cousas que não entram em linha de conta: em fim é a rua do Bonjardim, e há-de parecer-se com o seu nome, ou o Sr. Pinto da Silva não há-de morar nela!'

 

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1 - Será esta a fonte do Bonjardim do artigo de opinião? Ficava na esquina da Rua do Bonjardim (à esquerda, agora Rua Sá da Bandeira) com a Rua de Sá da Bandeira (à direita, agora Rua de Sampaio Bruno). [3]  2  - Por curiosidade, ao fundo não vemos "céu aberto" pois ali encontra-se a fachada nascente do antigo edifício da Câmara Municipal. Logo ao virar dessa esquina e fora da imagem, se pudessemos fazer tal percurso, veriamos a capela dos Reis Magos

 

O anónimo continua a apontar a gestão, a seu ver ruinosa, do município pela comissão municipal, nomeadamente à extinção do imposto dos carros que de Gaia entravam na cidade e dos que da cidade para Gaia iam. Assim 'a casinha da ribeira levantou-se, e com ela um prejuízo para o município do Porto de 60$ a 70$ - que rendia semanalmente'. E ironiza com o facto de a Câmara de Vila Nova não ter levantado o mesmo imposto para os carros que ali entravam vindos de Ovar.


Convém esclarecer que a supressão deste imposto advém de um acordo entre os dois municípios em que ambos se comprometeram a suprimir as casinhas onde o mesmo se taxava, à entrada da ponte pênsil. Contudo, e aqui está a queixa de quem escreve, esse imposto rendia bastante aos cofres portuenses, bem mais do que aos gaienses por razões óbvias, pelo que não compreendia a decisão. Embora José Passos tenha explicado quando tomou posse, que a taxação dos carros quando entravam nas barreiras da cidade era já suficiente não havendo por isso necessidade de os sobretaxar.


Uns dias depois o anónimo continua a sua crítica: 'E porque será que se planisão [sic] obras novas, deixando as principiadas e no coração da cidade! A obra de S. Domingos [rebaixe do murinho iniciado no ano anterior] merecerá desprezo, enquanto que a nova fonte do Bonjardim, próxima e muito próxima de outras, tantos obreiros contem que parece acabar-se antes da posse da Câmara a eleger!' Mais continua: 'Será decente aos olhos do público praticar a avilês com que ontem [23 de Agosto] se mudava a pedra do largo e da obra de S. Domingos para a fonte do Bonjardim? Será isto economia, ou andará a pedra fazendo via sacra por economia do cofre?'[4]

 

Não nos podemos esquecer que isto das opiniões de jornais, é sempre bom ouvir as duas partes. Neste caso a outra parte era o jornal O Nacional, que arrancara em maio, sendo na prática o mesmo que A Coalisão apenas com o nome mudado (ele próprio o diz no seu primeiro número); mas isso ficará para uma próxima publicação. Com estas linhas, o objetivo de abrir uma pequena fresta para bisbilhotar o Porto daquela altura está por ora cumprido. Outras mais irei abrindo por aqui se aos meus leitores interessar e eu as conseguir elaborar de forma concisa...

 

1- Que decorreu entre outubro de 1846 e junho do ano seguinte. A origem desta palavra deve ser procurada no castelho patulea (confira no Diccionario de la lengua española).

2- Chegaram a matar um militar de alcunha O fajardo.

3- Em determinado tempo, o proprietário do prédio a ela adjacente queixou-se à Câmara das inflitrações de água que os canos provocavam na sua casa!

4 - Esta última frase tem alguma importância histórica, pois revela o destino que se deu à pedra do célebre e centenar Murinho de S. Domingos.

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Publicado originalmente no blogspot em 08.01.2017 : agora revisto.

O S. Pedro em Miragaia, segundo Camilo Castelo Branco

por Nuno V. Cruz, em 21.12.18

O que dá uma ida ao hospital e a leitura na sala de espera de um livro de Camilo Castelo Branco? Bom, no meu caso duas coisas, sendo a segunda a que aqui apresento.

 

No romance Onde está a felicidade? publicado em 1856, Camilo coloca parte da ação nas ruas de Miragaia, onde reparte traços verdadeiros daquele tempo que seguramente conheceu com os fictícios personagens da sua história. Pelo pitoresco e curioso, encontrei interesse em chamar a este blogue uma parte do 4º capítulo daquele romance. Se a fase final deste excerto é criada pelo passeio de um personagem fictício num espaço real, a primeira é toda ela pura tradição dos meados do século XIX. Delicie-se então, caro leitor, com as palavras do Mestre!

 

 

*

«Era uma noite, vinte e oito de junho de 1845, véspera do milagroso apóstolo S. Pedro.

 

Sabeis como, nesta religiosíssima cidade do Porto, se festejam todos os santos da corte celestial, e particularmente Santo António, S. João e S. Pedro. Este, mais prestante que todos, pela importante missão de claviculário da bem-aventurança, gloria-se de ser festejado anualmente na cidade da Virgem com uma porção fabulosa de estoiros, um inferno indescritível de fogueiras, e o consumo sobrenatural de pipas de vinho, fritadas de linguiça, postas de pescada, e bebedeiras sem cifra conhecida no Bezout.


S. Pedro de Miragaia é, incontestavelmente, de todos os Pedros santos o mais querido. Aquele espaçoso areal não basta para os jorros de povo, que afluem das ruas sobranceiras. Surgem, como por magia, as fileiras de lâmpadas variegadas; os mastros de palha e alcatrão, que fedem e abrasam; as orquestras militares, que consomem metade do tempo vozeando nas trompas estridulosas, e outra metade nas libações homéricas, fornecidas pela liberalidade dos mordomos; as tendas gratas à gastronomia suja da farrapagem, que as atulha, dando vivas ao santo, e praguejando obscenidades e insolências contra a taverneira tardia no ministrar da meia canada por cabeça; finalmente, o areal de Miragaia é um misto de todas as regalias que entusiasmam o populacho, azando-lhe ocasião para que naquelas caras sobressaiam todas as linhas grotescas de uma alegria estúpida.

 

No longo quarteirão de casas, que se estende ao longo do areal, verieis nessa noite caras suportáveis, que o reflexo meio fantástico da iluminação vos afigura belas. Vereis outras, realmente belas, colocando-se de modo que a projeção tíbia da luz as favoreça, na exposição noturna, aclarando-as aos olhos do paciente amador, que passeia em baixo sorvendo pelos pés a humidade da areia.

 

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Um pouco do areal de Miragaia, junto à Porta Nova ou Nobre, numa imagem anterior ao início da construção da nova alfândega.

 

 

Entre estes, na mencionada noite, podíeis ter visto Guilherme do Amaral, só, com os olhos mergulhados além nas trevas do rio Douro, absorto, recolhido nesses esconderijo de tristeza, que o homem de algum senso íntimo leva consigo a toda a parte.

 

Como ele, ajuizado desprezador desses júbilos boçais, viera ter a Miragaia, não o saberia dizer. Achava-se aí, sem saber ao que viera, e sentia não ter asas de querubim ou de hipogrifo para transportar-se ao deserto da Líbia, ou pelo menos ao seu quarto da Águia de Oiro. Neste pensamento, cuja impossibilidade o incomodava, caminhou pela primeira travessa escura e despovoada que se lhe ofereceu. Atravessou um beco de aspeto pavoroso e nojento trilho: desembocou numa rua, que o conduziu a outra, na direção oposta da Águia de Oiro, para onde queria caminhar. Achou-se bem, apesar do fétido nauseento que ressumava das fisgas das portas. Não via ninguém, ninguém o via, nem o mais ligeiro sussurro: era caminhar na escavação de uma rua de Pompeia, pela vista, e no aqueduto de despejos de uma cidade, pelo cheiro. O romanesco tem seus caprichos sórdidos. Amaral não trocava aquela atmosfera enjoativa pelos perfumes de nardo e rosas do toucador de alguma das suas numerosas admiradoras».

*

 

 

E aqui está! Eis o tal excerto onde Camilo melhor do que ninguém nos transporta por breves minutos para os meados do século XIX. Que aqueles vielas eram imundas e sujas na época e mesmo até aos meados do século XX, não sofre dúvida (eu muitas vezes as cruzei já numa fase algo mais higiénica, mas...). Quanto à minha memória do S. Pedro de Miragaia, bom, esta reduz-se a observar do alto da rua nova da Alfândega o bailarico no largo de S. Pedro, admirando ao nível da antiga praia a boa disposição, a música de baile e as luzes da iluminação festiva.

A praça da Liberdade à época da revolução de 1820

por Nuno V. Cruz, em 16.12.18

Nas primeiras décadas do século XIX, a imprensa começava a dar os seus primeiros passos e um pouco por todo o lado iam surgindo publicações periódicas, a esmagadora maioria delas de vida efémera. No Porto, um ano após a revolta de 1820 um dos jornais existentes era o Patriota PortuenseLonge ainda do tipo de publicação que veremos surgir nos anos 40 e sobretudo 50 daquele século, nele se notam contudo já algumas notícias locais e não apenas a publicação de Decretos ou notícias de carácter nacional do Reino Unido (de Portugal, Algarve e Brasil). E nele se começavam a ver também publicadas as correspondências de leitores que aproveitavam para mostrar o seu descontentamento com aspetos e modos como eram conduzidos os assuntos da cidade.

Nos dois artigos abaixo essas mesmas opiniões servem atualmente como pequenas janelas para um Porto que começava por fim a expandir-se para fora das suas muralhas medievais, mas onde Massarelos e Cedofeita eram ainda denominados de subúrbios. Neste contexto a atual Praça da Liberdade iniciava o seu lento processo de regularização e transformação, que só teria conclusão com a construção do edifício do Banco de Portugal e a demolição dos palacetes[1] do topo norte para abertura da Avenida dos Aliados, mais de cem anos depois.

 

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i1 a Praça Nova com o aspeto aproximado ao de 1821 (parcial de uma planta de 1790). O 1 assinala o palacete adquirido em 1819 para Paços do Concelho; o 2 indica e igreja e restante edificado dos Congregados ainda com a escadaria original demolida em 1838[2]. O 3 é a célebre Fonte da Natividade com o seu mercado em redor, tudo demolido em 1833. O 4 marca a viela do Polé, que ainda foi captada em foto (ver aqui) pois só desapareceu no início do século XX para dar lugar ao edifício do Banco de Portugal; e finalmente o 5 reporta ao convento dos Loios, acompanhado pela sua torre e pela muralha que naquele local fazia um curioso cotovelo.

 

Mas vejamos então quais eram as "polémicas" à volta da praça da Constituição, em 1821.

 

*
Patriota Portuense, 24 de Novembro
«CORRESPONDÊNCIA de um tal Brás Cata-cego

«Em 23 de dezembro no ano próximo passado é que se publicou a Portaria da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino para que a Praça Nova se chamasse, para o futuro, Praça da Constituição; que, no lugar mais acomodado da dita praça, se levantasse um monumento, executado em pedra, com desenho que melhor possa exprimir o grande acontecimento do memorando dia 24 de agosto; e para que a praça se aformoseasse mais e tivesse extensão e capacidade necessária para este objeto, se demolisse o edifício da Natividade: recomendando-se à Ilma. Câmara que pusesse em prática tudo o que já dantes se achava determinado a este respeito, a fim de que esta utilíssima obra se não demorasse.

Tem decorrido quase um ano, e só vimos trocar-se a denominação da praça, sem solenidade alguma, porque o regime constitucional não admite cerimónias. Em quanto a monumento e demolição do edifício, fica para a ressurreição dos capuchos; pois que agora há falta de operários e ressurgindo aqueles haverá gente para tudo. Bendito seja Deus, que assim se executa o que um Governo determina!

Mas, sr. redator, como a obra está embarrancada não se há-de perder tudo, visto que se lhe deu começo in illo tempore que a pedra, daí tirada, dava para aquilo com que se compram os melões: bem haja quem é dotado de astúcia, que em ninharias faz dinheiro, e o tempo só está para pouquidades! Portanto lembro que se deve conservar aquela tapagem que se acha na obra (que é bem bonita!), e acabando-se de terraplanar o sítio da fonte, tem a cidade regeneradora um côrro para touros, cavalinhos, ursos e elefantes, com que os forasteiros nos armam ao dinheiro: desta sorte não nos incomodarão pelas ruas com os seus bicharocos e gaitas de fole, e jamais se irão hospedar com eles em casas de pasto, habitações impróprias para tal canalha: as janelas servem para as senhoras, como mais medrosas; e para os homens faz-se um tablado no lugar da varanda: esta lembrança não é para desprezar, porque além da comodidade destes aventureiros da santa conveniência, serve de chamariz para as lojas do bom e barato: e é de esperar que ela tenha a breve decisão que tem tido as memórias e modelos para a construção do dito monumento.

A Ilma. Câmara fez certamente o que devia em renovar e ornar os Paços do Concelho em quanto o cofre tinha churume: em verdade, o interior do edifício tem belíssimas pinturas, gosto delicado nos tetos estucados, magníficos reposteiros, portas com ricos entalhos, etc; o exterior (aqui torce a porca o rabo!) é justíssimamente como um homem vestido à sebastianista, com um chapéu de copa alta (à constitucional) com uma pluma em cima, que é a primorosa e excelente estátua do Porto que, na sua mão de obra escusava tanta delicadeza para tanta altura. Porém, Deus perdoe a quem fez tal judiaria; que, depois de feita a tal obrinha, deu peco no cofre da cidade, que não anda para trás nem para diante... (...)

 

«»


Patriota Portuense, 29 novembro
CORRESPONDÊNCIA de resposta ao tal Brás Cata-cego

Estranhei que no n.º 279 do seu Diário o correspondente Brás se apelidasse Cata-cego, quando ele tem olhos tão espreiteiros! Porém se todavia ele é pesquisador, ainda lhe escapuliu da lembrança advertir o seguinte:

Há meses afixou-se um Edital para derrubar as barracas da feira no tempo perentório de oito dias; mas o tempo determinado foi-se, e após ele decorreram meses, servindo o Edital só para oprimir esquinas!

Pode ser que estorvasse esta providencia alguma medida político-lucratoria que as descaradas regateiras arranjassem com seus embustes, pois que para isso são amestradas; porém dado que assim fosse são elas diabólicas feiticeiras, capazes até de virar o mundo com o debaixo para riba! Eu as esconjuro; porque temo mais seus feitiços do que suas pragas, baldões e bravatas. Mas, sr. redator, pela chibança das regateirinhas há-de valer um cominho o Edital dos srs. Juízes Almotaçés, e o seu conteúdo ter o privilégio do caranguejo? E nós se quisermos transitar naquele sítio, havemos de vêr-nos abarbados com encontrões, e alcançarmos indulgência plenária para sair dele!

Eu conheço que as tais barracas servem de embelezar a nossa cidade, pois que nos apresentam um retalho das ruas de Constantinopla; mas o Brigadeiro N. Trant[3], não lhe importando belezas, pespegou com elas em terra a despeito das mesinhas, caramunhas, e feitiços das guapas regateiras. Ele tudo podia; porque além de pouco se lhe dar que galrassem, não temia feitiços, por neles não crer como protestante e não católico: assim, fazia sempre o que premeditava. Ora, eu não quisera desmanchar prazeres: mas se os tais casebres de madeira, são próprios só para os Turcos, mandem-se-lhes para lá os donos dos de cá, e a Justiça que os consente; assim ficaríamos livres dos tais empecilhos, e não se embespenharia e nausearia o público contra a falta de execução do celebrado Edital!

(...) Bem lembrado catará de quando todos os vendedores e vendedeiras dos mercados andaram em bolandas; ei-los já para aqui, ei-los já para ali, ei-los outra vez para cá, ei-los outra vez para lá; até que por fim todos tiveram o seu paradeiro.

Na praça de Santa Teresa ficaram os padeiros de pão de milho (vulgo broa): tanto uns como outros foram despedidos da praça da Constituição, para aquele lugar ficar amplo, não só por ser de muito trânsito, mas para se fazer a parada, render-se a guarda principal, etc: muito boa providência, esclamaram todos; porém muitos dias não eram passados, quando atrás do tanque desta praça se viram encouchadas algumas padeiras do pão de broa; e como aí se demorassem algum tempo, sem que a justiça dos Almotacés as enxergasse (pois que todos andam cegos com estas cousas), foram-se plantar com toda a cachimonia no sítio donde tinham saído as padeiras do pão molete; e lá se conservam muito empertigadas nas suas tripeças. As vendedeiras da sardinha, do bacalhau podre, das quentinhas, e algumas de molete, como lhes não fizessem bom gasalhado onde estavam, mui arteiras se fincaram ao pé das outras; e aí temos a entrada da praça entulhada com hum mercado de mixtiforios! Como ali hajam filhos de muitas mães, chovem por conseguinte os impropérios, pulhas, chufas, pragas e tudo o que é contrario à decência e bons costumes: e isto no centro da cidade onde continuamente passam famílias e pessoas honestas!

(...) A Câmara (composta de Fidalgos!!) está quase a expirar-lhe o prazo de sua governança; veremos agora se, com estas viravoltas constitucionais, temos Câmara constitucional (...); então veremos, executando-se o que um Governo constitucional determinou, derrubar-se o encantado edifício da Natividade, e alevantar-se o esquecido monumento constitucional; veremos também publicar-se as contas do cofre da Cidade, porque, se ele lhe pertence, é inconstitucional ocultar-se sua receita e despesa (...).»

 

Veja-se portanto que a preocupação destes artigos de opinião, nome que modernamente lhes daríamos, residia na Fonte da Natividade ou mais propriamente no comércio que ao redor dela existiam. Uma vez que nós próximos dez anos iríamos entrar num período muito complicado da história de Portugal, o que se havia projetado fazer, isto é, a demolição daquela fonte e trasladação dos comerciantes para outros espaços da cidade, teria de aguardar por 1832-33 e bem assim o pagamento das indemnizações aos donos das barracas prolongariam-se ainda no tempo por mais uns anos. Mas essa situação será explorada mais à frente, numa publicação dedicada exclusivamente à fonte da Natividade. Por agora deixo o meu caro leitor com os pequenos apontamentos que atrás leu, que andavam esquecidos em jornais amarelecidos pelo tempo.

 

 

1. Um deles serviu quase cem anos como Paços do Concelho.

2. A demolição destas escadas foi decidida em Câmara em Janeiro de 1837 e ao mesmo tempo aprovada a planta para construir a nova entrada para a igreja. A obra foi concluída no ano seguinte.

3. Nicholas Trant, oficial inglês que governou as Armas do Porto entre 1814-1818. Mais conhecido por Nicolau Trant uma vez que naquela época ainda era costume corrente aportuguesar alguns dos nomes de estrangeiros (veja-se o exemplo máximo de Niccolò Nasoni), foi a ele que foi dedicada a célebre planta redonda de George Balck.

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Publicado originalmente a 11.01.2015 no blogspot, agora revisto.

Fragmentos da cerca velha da cidade do Porto

por Nuno V. Cruz, em 10.12.18

Todos os portuenses que gostam da história da sua cidade sabem que existiu uma 'muralha fernandina' da qual ainda podemos apreciar trechos mais ou menos longos nos Guindais e nas escadas do Caminho Novo. O que nem sempre se tem presente é que o burgo teve anteriormente a esta, que é do século XIV, uma outra cerca que a cingiu durante séculos e que foi alvo de ampliações e melhoramentos ao longo da sua vida útil.

Na i3 abaixo, que está disponível no Arquivo Histórico do Porto, vemos um dos dois panos da cerca velha ou muro velho, que foram encontrados aquando das demolições na calçada da Vandoma nos meados do século passado.

 

 

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i1 a letra A indica o local do resquício em questão e a B o cubelo e pano que ainda hoje se vê; a estrela vermelha - colocada por mim - indica a localização da desaparecida porta da Vandoma.

 

 

Contudo, embora um desses panos tenha ficado exposto, constituindo ainda hoje o mais notável resquício de muralha românica e pré-românica que abarcou o pequeno burgo portuense do século X a XIII (ver i2); o outro foi soterrado em virtude dos planos urbanísticos que para aquela zona existiam, e assim permaneceu até esse mesmo arranjo ruir nos anos 50. Exposto por um curto período de tempo, na atualidade ele encontra-se novamente escondido bem perto da estátua de Vimara Peres, o dux asturiano que em 868 colocou a cidade definitivamente em mãos cristãs.

 

 

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i2 Pequeno pano de muralha e cubelo que se encontravam escondidos atrás dos edifícios demolidos aquando do arranjo urbanístico desta área, nos meados do século XX. As fiadas superiores do cubelo e as ameias são obra de reconstrução dessa mesma época, quando a política de restauro dos monumentos era bem diferente da que agora temos.

 

 

A i1 é o desenho incorporado na monumental obra coordenada por Damião Peres dedicada à história da cidade, que nos mapeia a localização destes veneráveis restos.

Outros haverão ainda escondidos pelo casario das ruas da Sé, que serão expostos, ainda que temporariamente, conforme as obras de requalificação das habitações forem decorrendo. Mesmo estes dois trechos só foram descobertos graças às obras efetuadas na calçada da Vandoma e adjacências, que desvirtuaram completamente o local deixando (a meu ver) como único ponto positivo o trazer à luz do dia estes parcos restos da muralha que nos ensina que o Porto já foi outrora um quase insignificante burgo empoleirado no topo de um monte.

 

 

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i3 O pano de muralha dentro do círculo tem por cima, à esquerda, a Catedral e à direita - as pedras mais claras - a construção do paredão por onde se acede, em túnel, à rua Escura.

 

 

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i4 outra imagem do troço de muralha que vimos em i3 e que hoje se encontra sensivelmente por baixo da estátua de Vimara Peres

 

 

A i4 mostra-nos uma fotografia do Boletim Cultural da CMP de junho de 1939 (pp. 260/1) - cuja legenda é pertinente transcrever: «Este lanço de muralha primitiva foi posto a descoberto durante a execução duns trabalhos a que procederam, de 15 a 30 de abril do corrente ano, os serviços de Obras e Urbanização da 3ª Direção da Excelentíssima Câmara Municipal do Porto. Esses trabalhos tiveram por fim regularizar o adro da Sé. Porque havia necessidade de aterrar de novo o local, foi fotografado o lanço da muralha então posto a descoberto e levantou-se uma planta donde consta a sua localização. Na gravura n.º 2 notam-se ainda os buracos abertos para o travejamento de uma casa demolida e que tinha por uma das suas paredes a referida muralha».

 

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Originalmente publicado no blogspot em 02.11.2014, agora revisto e aumentado.

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