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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

CSI à moda do Porto de oitocentos...

por Nuno V. Cruz, em 29.01.19

Confesso, caro leitor(a), que hesitei em colocar esta publicação, uma vez que ela nada traz de relevância para o conhecimento da história da cidade. E só a posso inserir na rubrica O Porto de oitocentos... pois a nada mais se presta do que a mostrar-nos o quão atrasada estava a sociedade da época em variadíssimos aspetos. Passou-se o caso em maio de 1838, por essa altura nos jornais portuenses esgrimiam acusações cartistassetembristas sobre os apupos e a pateada ao ex-deputado Morais Mantas, que veio ao Porto a negócios, no vapor do mesmo nome (com ele viera igualmente Manuel da Silva Passos)[1].

 

Assim, nesses anos de profundas convulsões, a política e os seus faits divers tem quase o exclusivo das discussões nos jornais. Esta correspondência é uma pequena janela para a sociedade da época fora da política. Ora o caso dá-se junto ao cemitério da Ordem da Trindade, cujo largo naquela altura - tirando os dias de feira - era muito sossegadinho... Ao contrário do habitual transcrevo o artigo com a sua ortografia original.

 

 

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«Correspondencia

O exame do cadaver d'um ourives da rua dos Caldeireiros desta Cidade, que morreo na Botica da Trindade, e que parece indubitavel ter sido envenenado.

 

Sr. Redactor, desejava que no seu periodico fosse inserido o seguinte.

 

Passava eu por acaso na Trindade quinta feira dez deste mez depois d'uma hora da tarde, e vendo á porta do cemiterio um grupo de gente aproximei-me e observei um cadaver, e junto delle um homem enfiando n'uma agulha d'albarda um barbante grosso. Soube dos circunstantes que, na quarta feira, entrára na Botica daquella Irmandade o individuo, que se autopsiava, em gritos, pedindo cousa que o fizesse vomitar, e azeite, e que, nesta situação horrivel, procurando com os dedos provocar o vomito o que nunca conseguiu, morrêra passados poucos minutos. Tambem nos dizem os visinhos que este individuo estivera de manhã fundindo ouro, que logo depois de jantar se queixara suppondo-se envenenado, e que, por ser conhecido na Botica da Trindade se dirigira alli a pedir algum remedio. A justiça competente veio inspeccionar o cadaver, e trouxe para esta analise ao sugeito que eu vi enfiando a agulha d'albardeiro, e que me disserão se chamava Aniceto, que também diz alguem ser cirurgião.

 

O ventre do cadaver tinha uma abertura que póde assemelhar-se a um T ás avéssas, cujo ramo horisontal estivesse lançado transversalmente por baixo das costelas e por cima do embigo e o ramo vertical descesse do apendix xiphoideo até encontrar o primeiro. Atravez desta abertura via-se o estomago muito cheio e vermelho, o epiplon (vulgo redenho) estava desviado para um lado e vião-se algumas circunvoluções dos intestinos cheias de gazes. No resto do cadaver ninguem tinha mexido. Julgava eu que a necropsia não tinha ainda começado, quando vi que o individuo que enfiava a agulha d'albarda principiava a coser com ella a abertura, que já mostrava bem a capacidade de quem a tinha feito! Perguntei então a este.. (nem sei o que) o que tinha apparecido? Respondeu-me - nada - (O que me não admirou porque elle nada tinha procurado). E então de que morreria? - d'apoplexia - (Certamente conheo-lha [sic] pelo pulso!!..) E o estomago não foi aberto? - mas não tinha senão liquido sem cheiro - (O jantar que, pouco antes da morte, tinha sido introduzido no estomago, e de onde nunca mais pôde sair, provabelmente tinha voado!) Admira-me, lhe disse eu, ter elle sido aberto e ainda estar tão cheio de gazes e tão volumoso?! - isso é porque eu lh'injectei agoa para o observar - (Por onde faria elle a tal injecção?.. pela boca não, porque estava cheia bem como os narizes d'escuma aonde ninguem tinha mexido; talvez seria pelo....) Mas a que será devida a vermelhidão do estomago? - isso não vale nada é porque já aqui está ha muito em contacto com o ar - (Ah! e não cahio alli um raio! Pobres defuntos, guardai-vos do ar que vos inflamma!...) Neste tempo estava terminada a sutura, que, por ser nova, podia chamar-se sutura d'albardeiro (não é do nome do seu autor..) e em quanto lavava seus resiveis instrumentos perguntou-lhe o Escrivão da diligencia, se a gordura teria sido a causa da apoplexia? ao que teve de resposta - sim, foi a gordura - bravo, disse o Escrivão, então eu que sou magro não tenho de morrer apopletico, ao que o tal inventor da nova sutura annuiu, e pouco depois se foi deixando estes sitios, que, póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão, sitios que tiverão o nojo de ver a um homem reputar albarda o cadaver d'um seu similhante!

 

trind.jpg

Imagem de meados do século XX mostrando o entrocamento da rua do Alferes Malheiro com a rua da Trindade e traseiras da igreja da Trindade (onde agora temos o edifício hospitalar da mesma Ordem). Seria por aqui o cemitério daquela instituição, onde póde ser, ainda agora écôão as muitas asneiras que ouvírão... ?[2]

 

 

A que conhecimentos não foi confiada uma parte tão importante da medicina? Com que facilidade se diz morto de apoplexia um homem, que disse por sua propria boca que estava envenenado, que lhe dessem azeite, e que conservou o juizo, movimento e sentimento até ao seu ultimo momento; e aquem finalmente só, e muito mal, foi inspeccionada a cavidade peritoneal!!.. Ah! Porto, Porto! Tens homens, e homens muito dignos que professão em Anatomia, e Medicina forense, e porque não os consultas em similhantes casos?..

 

A que terriveis consequencias não póde dar lugar o juizo d'um practico similhante, quando decida a causa de uma morte? o culpado, se existe algum, que dirija encomios ao autopsiante de sua victima! O Juiz, a quem o caso pertence, conheça a insufficiencia do practico a quem incumbio tão ardua tarefa!! O público aprenda a ser cauto contra o charlatanismo que ainda, não sei porque fatalidade, exerce destes encargos no Porto, aonde abunda esta praga contrária á saude,  e tão nociva á sociedade.

 

Sou Sr. Redactor de V.

Manuel Joaquim Alves Passos

Aluno do 4º ano Médico Cirúrgico do Porto»

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Extraído de A Vedeta da Liberdade de 14 de maio de 1838.

 

 

Pequena nota biográfica: Segundo o Dicionário Bibliográfico Português (tomo 6), Manuel Joaquim Alves Passos nasceu no concelho de Cabeceiras de Basto, tendo-se formado na escola Médico-Cirúrgica do Porto. Era, em 1862 quando o Dicionário foi impresso, professor no Liceu de Braga. Publicou em 1840 o curioso volume Estudo sobre alguns sinónimos da língua portuguesa.

 

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1 - Ocorrera o caso em S. Lázaro e na Batalha junto ao hotel onde se hospedava, na volta do passeio que este fizera até ao Prado do Bispo [agora Prado do Repouso]. Nos apupos estiveram envolvidos, entre outros, o verredor do Banco de Portugal e o famoso Barbeiro do Periódico dos Pobres no Porto. Notar que em 4 de abril havia-se jurado a nova Constituição de 1838 (de curta vida), na elaboração da qual colaborara.

2 - A imagem é meramente ilustrativa uma vez que todo o edificado que ali se vê, à exceção da igreja, ainda não existia à época a que se reportam os factos descritos.

A ponte de Matosinhos

por Nuno V. Cruz, em 23.01.19

Esta é mais uma publicação que reintroduzo vinda da antiga casa d' A Porta Nobre no blogspot. É toda ela exclusivamente um traslado de grande parte de um artigo publicado n' O Tripeiro em março de 1952 e fevereiro de 1953 por Flávio Gonçalves. Notar que a mesma foi escrita ainda ao tempo da existência da ponte e por quem certamente a conheceu. Vejamos o texto:

 

 

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DOCUMENTOS

«Fica a referida ponte num lugar ameno, junto à foz do rio Leça da Palmeira. As águas correm ali com mansidão, num esquecimento, permitindo ver através da sua transparência cardumes de pequeninos peixes e a brancura das areias.

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O documento mais antigo que conheço acerca da ponte de Leça-Matosinhos é uma provisão regia de 5 de junho de 1619 (...). Filipe II, sabendo que Pantaleão Pereira arrematara por 6.000 cruzados as obras da reedificação da ponte - postas previamente em pregão - ordena ao corregedor do Porto que mande repartir pelas diversas comarcas e provedorias do norte do país a quantia pedida pelo mestre pedreiro.

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Este trabalho da ponte não pode, contudo, ser atribuído a Pantaleão Pereira. Por um alvará de 17 dezembro de 1649 o restauro da «ponte que divide os lugares de Matosinhos e Leça de Matosinhos» adjudica-se a outro arquiteto - mestre Domingos de Freitas. Pantaleão Pereira desistira da tarefa ou não a conseguira levar a cabo, e então, trinta anos depois, como as ruinas se acentuassem, procurou-se atender outra vez ao assunto.

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D. João IV aceitava, portanto, a oferta de Domingos de Freitas, a quem entregava a obra, e referia finalmente por que comarcas se devia distribuir a soma dos 4.000 cruzados e 50$000 reis [da arrematação]: «Cidade do Porto, vila de Guimarães, cidade de Braga, vila de Viana foz de Lima, Torre de Moncorvo, cidade de Miranda, Leiria, Lamego, Viseu, vila de Esgueira, cidade da Guarda, e vila de Castelo Branco» (...).

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Tudo indicava que a velha ponte iria ter, enfim, a sua desejada e indispensável reparação, ou, melhor dizendo, uma nova e completa edificação. Pois ainda não foi desta vez. Domingos de Freitas abandonou também o compromisso assumido, para António Vieira, arquiteto de Paço de Sousa, o retomar logo em 1651.

...............

(...) Carecemos, contudo, de um certificado que afirme a sua autêntica intervenção nesta obra. Anteriormente, Pantaleão Pereira e Domingos de Freitas tinham-na abandonado, talvez por dificuldades técnicas ou por pouco lucro. António Vieira procederia de igual modo?

 

Julgo que não. As ruínas da ponte, bem frisadas nos documentos, não permitiriam mais demoras. Por outro lado não se conhecem concursos ou pregões posteriores, nem mais artistas que arrematassem os trabalhos da restauração. E a ponte que se ergue entre Leça da Palmeira e Matosinhos apresenta, de facto, características seiscentistas (...). Deve remontar aos meados do século XVII e provir da direção de António Vieira o monumento que cavalga o Leça perto da sua foz.

 

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Imagem do início do século passado onde se pode ver a ponte e o ambiente pouco urbanizado que a rodeava. Praticamente tudo o que nela se vê desapareceu para dar lugar ao porto de Leixões (imagem do blogue Matosinhos Antigo)

 

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO PRIMITIVA

Cabe agora interrogar:
Como seria a construção primitiva? Qual a sua idade e aspeto? Estaríamos em face de um monumento romano ou de um monumento medieval?

 

Eis algumas perguntas a que é difícil responder e que, em contrapartida, levantam questões diversas.

 

Na ponte seiscentista que hoje vemos sobre o rio Leça, não se descobrem quaisquer vestígios arquitetonicos anteriores ao século XVII. Tal facto, além de representar uma lamentável ausência de dados informativos, põe-nos diante dos olhos o problema de se saber por que motivo a construção teria sido tão radical. Cai de parte a ideia de um simples restauro ou reforma, para acreditarmos antes num trabalho inteiramente novo e completo.

 

Para mais, atendendo à largura do rio naquele sítio e à força da corrente no inverno, parece lógico que o monumento primitivo apresentasse certa imponência e solidez. E, assim, estranhamente se explica que na ponte substituta não ficassem restos arcaicos, como mais ou menos ficam sempre ao repararem-se construções, ao princípio grandiosas. Ou a fábrica desaparecida possuía um diminuto interesse - o que vai de encontro a argumentos plausíveis - ou foi totalmente desmantelada durante a reedificação., hipótese que os documentos jamais permitem asseverar.

 

Digna de atenção, e também muito impressionante, é a falta de notícias que acerca da antiga ponte nos dão os escritores seus contemporâneos.

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(...) E nem no minucioso Anacrisis Historical ela vem mencionada, apesar de Pereira de Novais dedicar várias páginas ao rio Leça, à sua foz, e à descrição de Matosinhos e de Leça da Palmeira. Sem dúvida que o ilustre historiador portuense se guiou pelos monografistas que o precederam, pois quando escreveu a sua obra, por 1690, já a nova ponte devia estar concluída à muito.

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Afinal, a existência da primitiva ponte de Matosinhos apenas se prova pelos diplomas que no século XVII ordenaram a sua «reedificação». Os testemunhos anteriores são mudos a seu respeito.

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A antiga ponte de Matosinhos poderia ter sido também um modesto trabalho de madeira, apesar do local não ser dos mais propícios, nem dos mais aconselháveis para tal género de construções. Talvez assim se explique, em parte, a falta de vestígios arquitetónicos e a falta de referências escritas. E repare-se ainda que na escritura de fiança de 1651, António Vieira se comprometia a «haver de fazer a ponte» do rio Leça - quem sabe se a «fazer» em pedra o que até então era em madeira desconjuntada...

 

De qualquer modo, a ponte que agora liga Matosinhos a Leça da Palmeira concretiza, realmente, uma obra que nada deve à arquitetura ante-seiscentista.

 

 

DESCRIÇÃO ARQUITETÓNICA

Passando à descrição da ponte, começamos por dizer que é feita de granito e que tem uma série de pormenores originais.


Constituem-na dezoito arcos de volta inteira, os quais sustentam um tabuleiro várias vezes remodelado, em cujo pavimento passa a estrada. Quanto ao número dos arcos, Cerqueira Pinto escreveu na História do Bom Jesus de Bouças que eram dezanove, levando Godinho de Faria[1] a repeti-lo e o Guia da Leixões a supor que outrora existiam, de facto, dezanove arcos, e que um havia desaparecido. Mas pode tratar-se de um erro de contagem de Cerqueira Pinto; ou então as obras de urbanização e de viação efectuadas em Leça da Palmeira ou em Matosinhos roubaram-lhe esse arco.

 

leçmat.png

A ponte vista de Leça para Matosinhos.


A curva dos arcos mostra-se perfeitamente redonda, de pleno cintro, sendo as aduelas lisas, sem almofadas e quase iguais entre si, do que resulta uma linha regular no extradorso. Diferem bastante uns dos outros os diâmetros dos arcos: - muito reduzidos nos primeiros nove arcos (começando-se a contar da margem sul), maiores nos restantes (os mais próximos da margem norte), e atingindo no décimo quarto a máxima extensão.


O tamanho dos pegões varia de modo inverso, aumentando de largura quando diminui a amplitude dos arcos. A separar os arcos mais pequenos estão, portanto, pilares e tímpanos larguíssimos, verdadeiras paredes de cantaria, onde nem sequer se vêem corta-mares ou contrafortes, mas sim, no alto, alguns modilhões.


O aparelho arquitectónico é regular e médio, de silhares dispostos em fiadas horizontais, e isto tanto no intradorso dos arcos, como nos tímpanos (sem olhais), como nos corta-mares. Estes últimos, que só aparecem nos pilares mais estreitos - entre os arcos maiores - têm forma prismática e secção triangular na face voltada a jusante, e forma semi-cilíndrica e secção semi-circular na face voltada a montante. Semelhante particularidade não é vulgar na composição das pontes. Os talha-mares de base triangular, quando existem, colocam-se da banda de montante, por razões de ordem prática, lógica e até científica.

 

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Postal antigo que nos mostra uma grande parte da extensão desta ponte.

 


O tabuleiro da ponte desce ligeiramente de Leça para Matosinhos, em rampa mal perceptível, e perto da margem sul flecte um pouco para a direita, numa pequena curva. De um e do outro lado do pavimento levantam-se os muros das guardas, que devem provir de uma época distinta do resto da construção, já pela diferente qualidade do granito, ainda sem patine, já pelo próprio aparelhos e argamassa. Pertencem, por certo, a qualquer das obras que em 1816 e em 1883 se realizaram no monumento.


As dimensões da ponte são:

Comprimento total: 121,50m

Idem, da curva até à margem sul: 26,20m

Largura junto da margem norte: 4,00m

Idem, a meio da ponte: 4,22m

Idem, junto da margem sul: 4,20m


Cumpre analisar, finalmente, as duas meias-laranjas abertas no tabuleiro, sem dúvida os pormenores mais curiosos deste monumento. Compõem-se de dois corpos ligeiramente ovais, de fundo lajeado, que apoiados cada um no seu talha-mar cilíndrico, avançam fora do piso da ponte, formando varandas para o lado de montante. Tais construções destinavam-se a facilitar o cruzamento de carros, descongestionando a via. Ainda se utilizavam como miradouros ou caramanchões, para o que serviam os bancos de pedra que lhes correm a toda a volta.


A primeira meia-laranja, encontra-se mesmo na curva que o tabuleiro faz, à distância de 26,20m da margem sul (Matosinhos) e de 95,30m da margem norte (Leça da Palmeira). Adiante 25,30m fica a outra meia-laranja, a 70m da margem norte e a 51,50m da margem sul. O uso destes corpos salientes - feitos para dar passagem aos carros, cavalos, e peões que se enfrentavam na ponte - divulgou-se a partir do século XVII. Já na antiga ponte de Coimbra existia o chamado Ó da Ponte, remontante às construções nela efectuadas nos fins do século XVI e nos primeiros anos do século seguinte. Tratava-se de um redondo, colocado quase a meio da ponte, que se compunha de dois semi-círculos murados, assentes em pegões cilíndricos e separados pelo pavimento da estrada. Felizmente que logo em 1669 durante a célebre viagem de Cosme de Médicis, o florentino Pier Maria Baldi fixou o aspecto dessa desaparecida ponte coimbrã, em duas aguarelas de notável precisão que as artes gráficas reproduziram e que andam bastante divulgadas no nosso país.

 

matleç.png

Uma imaga da bucólica foz do Leça, para sempre desaparecida. A ponte vê-se em parte no centro dela ainda que algo escondida.


No século XVIII a aplicação das meias-laranjas tornou-se mais frequente, vendo-se sob um traçado circular em Ponte da Barca (1761) e em Amarante (1790), e sob um risco poligonal na ponte de Silves. Só na ponte de Matosinhos existem duas meias laranjas, ambas viradas para o mesmo lado e sem corpos simétricos na face oposta. Caso, na verdade, interessante, que merece ficar anotado de uma maneira particular, especialmente porque esta ponte sobre o rio Leça está condenada a desaparecer. Em breve será derrubada para alargamento do porto artificial de Leixões, cujas docas, febris e enfumaradas, se levantam perto. Assim, mais uma vez em nome do progresso, terminará a história de um típico monumento - típico pela sua biografia agitada e pelos valiosos elementos que fornece para o estudo da arquitectura das pontes seiscentistas."

 

1- Monografia do Concelho de Bouças, 1899

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Publicado originalmente no blogspot em 16.06.2013, agora revista.

O convento das Carmelitas

por Nuno V. Cruz, em 14.01.19

Se o Porto é ainda uma cidade com muitas igrejas e conventos, mais ainda o era no passado. Para quem se deleitasse a admira-la do outro lado do rio, não conseguiria isolar por completo uma perspetiva que não possuísse um destes edifícios. De Massarelos a Santa Clara, vários eram os templos ou cenóbios que dominavam a paisagem urbana. E isto é verdade mesmo para os dias de hoje, em que algumas daquelas estruturas já desapareceram.

 

Um dos conventos desaparecidos foi o convento das Carmelitas Descalças, a última grande comunidade religiosa a introduzir-se no burgo. O conhecimento sobre ele é escasso, segundo Henrique Duarte Sousa Reis. Mas é a este autor que devemos a única saborosa descrição do convento (incluída nos seus Apontamentos). Aquele testemunho em conjunto com a i3 que tão bem o complementa, foi o mote para a escrita destas linhas que já tinha em mente há longos meses.

 

guilher.jpg

i1 A praça de Santa Teresa, hoje Guilherme Gomes Fernandes, no início do século XX. As setas assinalam a capela-mor da antiga igreja carmelita (dir.) e o corpo da mesma igreja (esq.). Vemos também junto à capela-mor a fonte que por dezenas de anos ali existiu e que obrigou a altear o muro conventual naquela área, para não devassar a clausura.

 

Desconhece Sousa Reis quem foi o promotor da fundação do convento de Carmelitas Descalças no Porto, mas atribui ao ramo masculino da mesma Ordem que já há muito se havia estabelecido em terras portuenses. De Lisboa e Aveiro vieram várias religiosas com o intuito de procurar e escolher o terreno adequado, aprovação da planta e obtenção da licença para a fundação. Em 26 de abril de 1701 obtiveram alvará camarário confirmando a doação do terreno localizado no sítio do Calvário Velho; e a 25 de maio a Carta Régia que autorizava o seu estabelecimento na cidade. Contudo a Ordem apenas tomou posse do terreno em 9 de julho de 1702, declarando-se na escritura efetuada posteriormente a 19 que o mesmo partia com o quintal do Ermitão encarregado do Calvário.

 

Continua Sousa Reis:

«Foi tudo ainda retificado depois pela escritura de 20 de dezembro de 1702 na presença da Câmara e do Padre António Pereira Guedes como procurador das religiosas edificadoras, e nela se declara fazer-se assim para vir aprovada pelo Reverendo Geral da Ordem a planta, que já estava feita, porém acrescenta-se, que para a levar a efeito necessitava-se mais de um bocado de terreno baldio próximo sem prejuízo do trânsito público, ao qual tinha o Senado procedido a vistoria no dia 18, e o concedera com a cláusula de ficar de distância, de muro a muro 30 palmos, cujo despacho fora até dado no Colégio dos Órfãos, e naquele mesmo dia, e de serem tiradas as novas freiras até se completarem no número de vinte, que devia conter o convento, da classe das fidalgas e nobres da cidade, e na falta delas das mecânicas.

 

leoes.jpg

i2 Imagem da mesma época, captada do lado oposto à i1. A seta indica a capela-mor, de curiosa forma redonda. As casas a ela encostadas eram originalmente propriedade do convento e haviam sido colocadas em praça em janeiro de 1837 (eram uma morada de casas térreas, n.º 11 e 12 na rua das Carmelitas, uma outra na praça do Carmo, n.º 13 e 14, outra na mesma praça, n.º 15 e 16 e ainda outra na mesma praça, n.º 19 e 20, com loja e um andar).

 

Por esta mesma escritura (...) doou mais o Senado as árvores, que no dito bocado de terra estavam plantadas sem foro ou pensão alguma nele imposto, o qual confrontava em alguns pontos com as propriedades de João Domingues de Aguiar, e João Soares Correio-mor, e tinha de largura da capela-mor da igreja, já em começo para o lado do poente 7 1/2 varas [8,25m], entestava pelo norte com casas foreiras ao Colégio dos Órfãos, e de extensão 45 varas [49,5m]; para o nascente pela divisão do quintal do Ermitão tinha fora da cerca 4 varas [4,4m], e ia fazendo a calçada para o lado do poente até ao cunhal da cerca, e aonde ela fenece, ficando todo o resto da terra para o nascente e poente reservado para uso público».

 

No ano de 1823 mandou a Câmara Municipal construir o chafariz, que ainda está [1865] à embocadura da praça de Santa Teresa, o qual fica quase encostado à capela-mor do convento carmelitano de S. José e Nossa Senhora, e por esta ocasião solicitaram as suas religiosas, que o habitavam lhe desse o Senado alguma água mais para seu uso, como já tinha feito concedendo-lhes duas penas dela em 1705 e 1707, a qual era mui pouca para suprir a todas as necessidades, bem como pediram as vertentes da nova fonte para regar a sua horta; acedendo pois ao pedido deram-se-lhe em 2 de agosto desse ano de 1823 a terça parte das referidas vertentes, e por despacho de 10 de dezembro outras duas penas de água potável, sendo estas gratuitas (...).

 

carmelitas.png

i3 Incrível fotografia do complexo do convento, ocupado desde o tempo do Cerco por diversas repartições do Estado. Em primeiro plano vêm-se os Ferros Velhos e um pouco do mercado do Anjo (imagem: Rooths and paths: Marques da Silva and 20th century architecture).

 

É a igreja deste convento disposta de nascente a poente ficando para este lado a sua capela-mor, tem a figura topográfica de uma cruz, sendo os três extremos superiores dela arredondados, está assente cousa de trinta passos distante do alinhamento da rua das Carmelitas ao norte da qual fica este templo, que é pequeno porém regular e seu interior era belo, assim como pela compostura e ordem na disposição das alfaias, mais que pela sua riqueza, pois era de todos os mosteiros do Porto o mais pobre, e em que menos ostentação se desejava impor.

 

A porta principal deste santuário era voltada ao sul, e ficava sendo lateral como as de todos os mosteiros de religiosas para poderem ter o coro das freiras em frente do altar mor, mas como este não tinha coro inferior, era ele substituído por uma porta fronha, que comunicava com a portaria ou entrada da servidão geral do convento, que também tinha portal voltado à parte do sul, para onde havia um pátio, que era fechado por um grande portão com gradaria de ferro, o qual ficava à face da mencionada rua das Carmelitas, e hoje existe, por ter sido vendido na rua Bela da Princesa [parte superior da rua de Santa Catarina] na quinta do Castelo, que pertenceu a Luciano Simões de Carvalho. Era nesse tempo a rua muito mais estreita naquele ponto, e quando se alargou e levou à linha que presentemente tem demoliu-se o dito portão, e arrematou-se todo o seu material em hasta pública.

 

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i4 Fotografia captada do lado nascente. Vê-se o grande muro que visava respeitar a clausura das freiras (seta pequena). O corpo mais alto do edifício do mosteiro é visível e encontra-se assinalado pela seta (grande). Este largo tinha o nome de largo do Correio e veio depois a dar lugar à rua Cândido dos Reis (a antiga casa do Correio-mor está à direita quase totalmente fora da imagem).

 

A casa conventual, como disse, em tudo era mesquinha e acanhada, e ainda que estava em sequência da sua igreja para o lado do norte, quase nenhuma ventilação tinha por essa parte pela razão já apontada. No centro dela tinha o claustro interno, quase nivelado com a praça de Santa Teresa [hoje Guilherme Gomes Fernandes], motivado pela desigualdade do terreno, e no meio havia um pequeno chafariz mas oitavado, que continha um menino abraçado em uma águia que brotava água, e tudo de granito grosso e muito mal trabalhado, e tanto que sendo esta peça inteira colocado no mercado público do Anjo, embirrou o povo com a péssima escultura da ave e do menino, e teve a Câmara Municipal de os substituir pela urna de pedra, que ali está no alto do mesmo chafariz, ficando só permanecendo nesta praça o tanque, o pé e a taça que foram pertenças deste convento.

 

Enfim em todo o edifício do mosteiro das Carmelitas descalças de S. José e Nossa Senhora não se vê riqueza, custo de obra, escolha de materiais ou outro qualquer sinal, que indique grandeza, antes pelo contrário se enxerga por toda a parte humildade e pouca despesa no fabrico dele (...)».

 

Sousa Reis tem umas curiosas palavras referentes à extinção do convento, a qual terá provavelmente acompanhado bem de perto, senão vejamos:

«Neste cenóbio viveram mais de cento e trinta anos entes da espécie humana, que apenas se sabia nele existiam pelos cânticos que periodicamente entoavam debaixo das abóbadas do templo santo em honra e louvor da divindade, porque nem mesmo dentro dele podia alguma vista divisar por entre as miúdas grades, a touca ou manto de uma só destas virtuosíssimas cantoras, tão estreita e apertada era a regra carmelitana (...)».

 

cap.JPG

i5 Parcial de uma planta do Arquivo Municipal do Porto, criada para o efeito de nela se demarcar o terreno necessário à edificação do nunca construído Mercado das Carmelitas.  As setas assinalam o complexo conventual (esq.) e abside da igreja (dir.).

 

E ainda antes das palavras lidas acima:

«Da vida doméstica destas religiosas, dos seus usos e costumes internos nada transpirava fora, e apenas na sua extinção, que foi visitada pelo povo aquela casa, é que se conheceu ser a extrema austeridade que presidia a tudo; as celas e mais oficinas eram sobremodo acanhadas e escuras notando-se mesmo que essa pouca luz lhe era transmitida por frestas voltadas para o claustro interno a tornavam opaca e tristonha, e por isso pouco saudáveis aquelas moradas, sendo além disso mui poucas e raras as janelas externas e essas mesmas seguras por fortes grades de ferro, ainda internamente foram vedadas as vistas e estorvado o ambiente com mui estreitas gelosias fixas nos seus umbrais, para em tudo e por tudo se aumentarem as privações destas poucas mulheres.

 

Havia junto a este convento uma pequena cerca murada com altas paredes, mas não obstante isso nenhuma religiosa lá ia, e quando o pequeníssimo número delas, que nele existiam na sua extinção foram divididas pelos outros mosteiros da cidade, notavam-se pelo seu ar bisonho, sombrio e melancólico, que todas tinham, e concentradas consigo mesmas tornavam-se escassas nas palavras e sempre indiferentes às companhias e sociabilidade, pois o constante hábito do isolamento tinha-lhes arreigado no coração estes tão particulares costumes, dos quais só se desviariam à força de muito estudo e prática, e ainda assim seria fácil divisar-lhes os indícios desses hábitos desde a mocidade contraídos.»

 

Após a saída das conventuais em 1832, logo no ano seguinte se estabeleceu no edifício a repartição do Correio que nele permaneceu até 1857. Ali esteve igualmente montada a secretária da comissão dos conventos extintos ou abandonados, entre outras repartições. A igreja, após albergar os móveis e alfaias de diversos conventos da cidade enquanto aguardavam a sua distribuição pelas diversas paróquias, acabou por ser arrendada para armazéns; dando origem aos conhecidos Armazéns da Capella. Finalmente em 1873 o município comprou ao Estado o convento e sua cerca por 48.000$000 rs, vindo a demoli-lo décadas mais tarde (ver mas aqui).

Um naufrágio no rio da Vila

por Nuno V. Cruz, em 01.01.19

O que abaixo se vai ler, mero episódio da vida de um anónimo, teve lugar no troço do rio da Vila que se encontra atualmente a ser musealizado e que possivelmente em 2019 abrirá ao público (sendo que na época a que reporta este pequeno acontecimento o 'rio' ainda não estava entubado). Como se trata de um registo puramente pessoal, poderão os meus caros leitores não pensar grande coisa dele. Contudo dado a realidade já extinta de que trata, creio que é interessante recupera-lo das páginas da centenária revista em que foi arquivada para as 'páginas' deste blogue.

 

*

«(...)

 

Fui vegetando por esta boa terra, até que, um dia, me domiciliaram numa casa da rua das Flores, que tinha quintal com porta para o Rio da Vila.

 

Chegou o mês de janeiro (fazia um frio dos demónios) e em todos os teatros havia bailes de máscaras animadíssimos, elogiados por toda a gente, onde, ao que eu ouvia dizer, se me afigurava que seria tal o encantamento, a voluptuosidade, que a tudo quanto era belo suplantaria! Não mais deixou de me assediar a ideia de me transportar àquele lugar delicioso. O baile de máscaras! O baile de máscaras!! Na minha imaginação, só ali se conglobavam todas as delícias!

 

De mais a mais, eu tinha visto, lá em casa uma coleção de fatos para máscaras, e, entre eles, uma farpela de zuavo... que estava mesmo a calhar cá para o rapaz!

 

A minha preocupação em achar o meio de realizar aquele ardente desejo, era inabalável.

 

Tinha já uns amigalhotes, tão bons como eu, e com três deles permutei impressões a respeito dos bailes. Como era de presumir, concordamos logo todos em que estudasse cada um o modo mais fácil de, num determinado sábado, irmos juntos gozar do tripudio carnavalesco.

 

Eu projetei, então, a minha saída pelo Rio da Vila, porque em vista da regra do recolhimento, não podia ser de outra maneira. Os meus sócios planearam a saída pela porta da rua, e numa última conferência que tivemos, combinamos que a reunião fosse na rua da Ponte Nova, onde eles iriam esperar que eu aparecesse, visto que a minha saída era a mais receada.

 

Chegou o almejado sábado, e eu só pensava na hora de poder ir para a minha alcova, e que toda a gente se deitasse, para eu por em prática o meu projeto.

 

Enfim, às nove horas da noite, já eu estava no meu quarto, já tinha apanhado o fato e só esperava a oportunidade de me por ao fresco.

 

Pouco depois, revia-me eu, cheio de bazófia, vestido de zuavo, com um enorme bigode, parecendo-me até que tudo em volta de mim era argelino.

 

Quando vi que era ocasião, desci ao quintal, e, num passo cadenciado, como cá imaginei que devia caminhar um destemido zuavo, segui, ovante, até à porta do Rio da Vila. Coragem de soldado...macanjo!

 

Ali apareceu logo um empecilho: foi o estafermo da porta que não abria nem pelo diabo; mas à força de empurrões com toda a gana, lá consegui uma greta, por onde, de esguelha, me escoei.

 

Eu já disse que esta cena se passava no mês de janeiro; portanto, o rio, naquela ocasião, corria caudaloso, pelos seus afluentes, de diversas espécies de líquidos, mais ou menos densos, com os seus sólidos à mistura.

 

Não obstante o volume líquido, estava eu muito persuadido de que o leito do rio seria facílimo de transpor, e, por isso, foi com toda a afoiteza - afoiteza de zuavo, e zuavo uniformizado! - que avancei uns passos em frente da porta de saída; mas, mal diria eu que bem triste, cruel e vergonhosamente seria logo reprimida a minha audácia.

 

Naquele fundo havia um acumulamento de limo, talvez coevo dos godos, e à superfície daquelas cachopos, estava aderente uma camada escorregadia sobre que se não podia firmar um pé.

 

Ao segundo ou terceiro passo que tentei dar dentro de água, sem que me fosse possível evita-lo, fui, de repente, precipitado naquele amálgama tenebroso, onde, ao querer encontrar um apoio que me sustivesse, só dava com substâncias massudas e viscosas, que ora se me escapavam, ora se me desfaziam nas mãos! Um horror!

 

naufragio.jpg

Nesta imagem do googlemaps assinalei a amarelo o trajeto (aproximado) do rio da Vila que o Sr. L. C. percorreu na sua agonia lodosa. Por curiosidade, na letra B e traço rosa represento uma viela que ia da rua da Ponte Nova ao rio da Vila, onde terminava abruptamente (ainda é visível do ar mas foi absorvida há muito pelos edifícios que repartia). Pela letra A e traçado azul a localização aproximada da extinta viela do Cadavai, cujo portal que lhe dava acesso ainda existe na rua Afonso Martins Alho.

 

 

À maneira que, em porfiada luta, eu esbracejava, para que a corrente me não arrastasse, mais repetidas vezes mergulhava e me sentia envolto em fragmentos de matérias consistentes, esquisitamente moldadas, que se remexiam comigo, em todos os sentidos, sem que, por modo nenhum, eu pudesse resistir à impetuosidade daquela enxurrada!

 

Que tremendo desastre!

 

Aquilo é que foi ver-me entre as dez e as onze, porque, precisamente a essa hora é que eu sofria esse suplício!

 

Ora calculem, se podem, a minha crítica situação: retrogradar não era possível, porque já estava muito afastado do ponto de partida, e mesmo a força da corrente não deixava; gritar por socorro, isso nem pensa-lo, porque era, a meu ver, a maior desgraça!...

 

Enfim, fui-me esforçando quanto pude, fui galgando aqueles cachopos, fui evitando, o mais possível, a passagem pelas guelas... daquilo, líquido ou sólido (e sempre passou qualquer coisa) e assim me aguentei - que remédio! - até ver... eu sabia lá o quê!

 

Mas, oh fatalidade! O caso, de repente, tornou-se ainda muito mais tétrico! Sucedeu que, no meu barafustar, me fui aproximando tanto de um açude, que eu não sabia existir ali, que repentinamente, faltando-me os pés, faltando-me as mãos, e não sei se mais alguma coisa, senti-me ir, de escantilhão, por um declive, que parecia arremessar comigo prás profundas do inferno!

 

Então, sim! Então houve um minuto em que me vi seriamente atrapalhado!...

 

Quando parou aquele diabólico movimento rolante do meu corpo, achava-me lá em baixo, nos Aloques da Biquinha!...

 

Não sei nada do que se passou, durante aqueles momentos em que rebolei; sei só que, quando cheguei aos Aloques, o vistoso gorro, e o façanhudo bigode, que me completavam o garboso donaire de zuavo, tinham ido pela água abaixo - naufragaram!

 

Ali, porém, já me considerava liberto de perigo, em sítio propício a uma imediata retirada; portanto, procurei ver algum ponto por onde pudesse sair daquele atascadeiro, e - oh! maravilha! - eis que lobriguei, sobre as alpondras da margem direita, os três meus associados, atónitos e em atitude protetiva.

 

Que alegrão! Que suprema ventura para este pobre naufrago!

 

Rapidamente se me improvisaram socorros, e pouco depois, saltava eu para junto dos meus colegas, carecente de lhes ouvir palavras de conforto, pelas torturas que eu tinha passado, e de que lhes ia fazer exata narrativa.

 

Aqueles manganões, porém, vendo o estado lastimoso em que eu me apresentava, de braços pendidos, tudo pendido, tudo encharcado, tudo a tresandar, - largaram a rir, a rir, sem me dirigirem uma única frase consoladora, e sem, ao menos, quererem chegar-se a mim!... Que bárbaros!

(...)

Por fim, lá se fartaram de rir à custa da minha desgraça, e eu pude relatar-lhe todas as fases da crise aflitiva por que passei.

 

Comoveram-se, e, então, resolvemos empregar todos os esforços para eu regressar a casa. Assim, depois de apreciados diferentes alvitres, assentou-se em que fossemos pelo túnel do lado da rua do Souto, observar se seria possível passar pelo fundo dos quintais das casas da viela do Anjo, na margem esquerda do Rio da Vila, até ao ponto fronteiro à porta da casa onde eu tinha de regressar, a ver se lá poderia atravessar o rio.

 

Subimos, pois, umas escadas que iam ter à rua da Ponte Nova, seguimos pela viela do Anjo, voltamos à rua do Souto e lá entramos no túnel.

 

Eu, cada vez mais tiritante, com a farpela empastada e grudada á pele, lá seguia os outros, cabisbaixo e acabrunhadíssimo!

 

O baile, esse já nem passava pela ideia: má hora em que eu tive tão infortunada lembrança!

 

Chegamos aos quintais da viela do Anjo, e, por uma felicidade enorme, podemos atravessa-los, pela beirinha do rio, até defronte da porta, por onde eu tinha saído como um altivo zuavo, e pretendia depois entrar como... um indecente pingão.

 

Uma vez ali, não havia tempo a perder: era preciso completar a obra.

 

Efetivamente, depois de tomadas umas ligeiras precauções, e de eu recuperar ânimo, até onde pode ser, fiz uma atrapalhada investida...

 

Recuei, tomei fôlego... tornei a investir, formei um salto, tornei a recuar... - mas por fim, empertigado, todo arrogante - zás! - dei um pulo, com todo o meu arreganho e... fui cair, de cócoras, próximo da porta.

 

Ali, engatinhei um bocado, enfureci-me, esperneei com todo o meu vigor e intrapidez de que podia dispor em tão difícil conjetura, e... finalmente estava salvo!

 

Alcancei a soleira da porta, voltei-me, de lá, para os companheiros, enviei-lhes um punhado de saudações, e fui encerrar-me no dormitório de onde não devia ter saído.

 

Deixo, agora, cá só para mim, o que se passou a respeito da farpela de zuavo, que foi preciso desaparecer, como sucedeu ao gorro e ao bigode.

 

Ora, creio ficar bem demonstrado, que foi retumbante aquele meu batismo na rapioca; mas saiba-se também que, por falta de vocação, não correspondi às atrações. É verdade que, depois de saber da facilidade com que podia sair do túnel, por lá passei muitas vezes, mas... com certo recato, quando o rio levava pouca água e... sem vestuário de máscara.

(...)

C.L.»

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de O tripeiro (ano 3, p. 50-51)

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Publicado originalmente no blogspot em 29.01.2017