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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O convento das Carmelitas

por Nuno V. Cruz, em 14.01.19

Se o Porto é ainda uma cidade com muitas igrejas e conventos, mais ainda o era no passado. Para quem se deleitasse a admira-la do outro lado do rio, não conseguiria isolar por completo uma perspetiva que não possuísse um destes edifícios. De Massarelos a Santa Clara, vários eram os templos ou cenóbios que dominavam a paisagem urbana. E isto é verdade mesmo para os dias de hoje, em que algumas daquelas estruturas já desapareceram.

 

Um dos conventos desaparecidos foi o convento das Carmelitas Descalças, a última grande comunidade religiosa a introduzir-se no burgo. O conhecimento sobre ele é escasso, segundo Henrique Duarte Sousa Reis. Mas é a este autor que devemos a única saborosa descrição do convento (incluída nos seus Apontamentos). Aquele testemunho em conjunto com a i3 que tão bem o complementa, foi o mote para a escrita destas linhas que já tinha em mente há longos meses.

 

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i1 A praça de Santa Teresa, hoje Guilherme Gomes Fernandes, no início do século XX. As setas assinalam a capela-mor da antiga igreja carmelita (dir.) e o corpo da mesma igreja (esq.). Vemos também junto à capela-mor a fonte que por dezenas de anos ali existiu e que obrigou a altear o muro conventual naquela área, para não devassar a clausura.

 

Desconhece Sousa Reis quem foi o promotor da fundação do convento de Carmelitas Descalças no Porto, mas atribui ao ramo masculino da mesma Ordem que já há muito se havia estabelecido em terras portuenses. De Lisboa e Aveiro vieram várias religiosas com o intuito de procurar e escolher o terreno adequado, aprovação da planta e obtenção da licença para a fundação. Em 26 de abril de 1701 obtiveram alvará camarário confirmando a doação do terreno localizado no sítio do Calvário Velho; e a 25 de maio a Carta Régia que autorizava o seu estabelecimento na cidade. Contudo a Ordem apenas tomou posse do terreno em 9 de julho de 1702, declarando-se na escritura efetuada posteriormente a 19 que o mesmo partia com o quintal do Ermitão encarregado do Calvário.

 

Continua Sousa Reis:

«Foi tudo ainda retificado depois pela escritura de 20 de dezembro de 1702 na presença da Câmara e do Padre António Pereira Guedes como procurador das religiosas edificadoras, e nela se declara fazer-se assim para vir aprovada pelo Reverendo Geral da Ordem a planta, que já estava feita, porém acrescenta-se, que para a levar a efeito necessitava-se mais de um bocado de terreno baldio próximo sem prejuízo do trânsito público, ao qual tinha o Senado procedido a vistoria no dia 18, e o concedera com a cláusula de ficar de distância, de muro a muro 30 palmos, cujo despacho fora até dado no Colégio dos Órfãos, e naquele mesmo dia, e de serem tiradas as novas freiras até se completarem no número de vinte, que devia conter o convento, da classe das fidalgas e nobres da cidade, e na falta delas das mecânicas.

 

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i2 Imagem da mesma época, captada do lado oposto à i1. A seta indica a capela-mor, de curiosa forma redonda. As casas a ela encostadas eram originalmente propriedade do convento e haviam sido colocadas em praça em janeiro de 1837 (eram uma morada de casas térreas, n.º 11 e 12 na rua das Carmelitas, uma outra na praça do Carmo, n.º 13 e 14, outra na mesma praça, n.º 15 e 16 e ainda outra na mesma praça, n.º 19 e 20, com loja e um andar).

 

Por esta mesma escritura (...) doou mais o Senado as árvores, que no dito bocado de terra estavam plantadas sem foro ou pensão alguma nele imposto, o qual confrontava em alguns pontos com as propriedades de João Domingues de Aguiar, e João Soares Correio-mor, e tinha de largura da capela-mor da igreja, já em começo para o lado do poente 7 1/2 varas [8,25m], entestava pelo norte com casas foreiras ao Colégio dos Órfãos, e de extensão 45 varas [49,5m]; para o nascente pela divisão do quintal do Ermitão tinha fora da cerca 4 varas [4,4m], e ia fazendo a calçada para o lado do poente até ao cunhal da cerca, e aonde ela fenece, ficando todo o resto da terra para o nascente e poente reservado para uso público».

 

No ano de 1823 mandou a Câmara Municipal construir o chafariz, que ainda está [1865] à embocadura da praça de Santa Teresa, o qual fica quase encostado à capela-mor do convento carmelitano de S. José e Nossa Senhora, e por esta ocasião solicitaram as suas religiosas, que o habitavam lhe desse o Senado alguma água mais para seu uso, como já tinha feito concedendo-lhes duas penas dela em 1705 e 1707, a qual era mui pouca para suprir a todas as necessidades, bem como pediram as vertentes da nova fonte para regar a sua horta; acedendo pois ao pedido deram-se-lhe em 2 de agosto desse ano de 1823 a terça parte das referidas vertentes, e por despacho de 10 de dezembro outras duas penas de água potável, sendo estas gratuitas (...).

 

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i3 Incrível fotografia do complexo do convento, ocupado desde o tempo do Cerco por diversas repartições do Estado. Em primeiro plano vêm-se os Ferros Velhos e um pouco do mercado do Anjo (imagem: Rooths and paths: Marques da Silva and 20th century architecture).

 

É a igreja deste convento disposta de nascente a poente ficando para este lado a sua capela-mor, tem a figura topográfica de uma cruz, sendo os três extremos superiores dela arredondados, está assente cousa de trinta passos distante do alinhamento da rua das Carmelitas ao norte da qual fica este templo, que é pequeno porém regular e seu interior era belo, assim como pela compostura e ordem na disposição das alfaias, mais que pela sua riqueza, pois era de todos os mosteiros do Porto o mais pobre, e em que menos ostentação se desejava impor.

 

A porta principal deste santuário era voltada ao sul, e ficava sendo lateral como as de todos os mosteiros de religiosas para poderem ter o coro das freiras em frente do altar mor, mas como este não tinha coro inferior, era ele substituído por uma porta fronha, que comunicava com a portaria ou entrada da servidão geral do convento, que também tinha portal voltado à parte do sul, para onde havia um pátio, que era fechado por um grande portão com gradaria de ferro, o qual ficava à face da mencionada rua das Carmelitas, e hoje existe, por ter sido vendido na rua Bela da Princesa [parte superior da rua de Santa Catarina] na quinta do Castelo, que pertenceu a Luciano Simões de Carvalho. Era nesse tempo a rua muito mais estreita naquele ponto, e quando se alargou e levou à linha que presentemente tem demoliu-se o dito portão, e arrematou-se todo o seu material em hasta pública.

 

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i4 Fotografia captada do lado nascente. Vê-se o grande muro que visava respeitar a clausura das freiras (seta pequena). O corpo mais alto do edifício do mosteiro é visível e encontra-se assinalado pela seta (grande). Este largo tinha o nome de largo do Correio e veio depois a dar lugar à rua Cândido dos Reis (a antiga casa do Correio-mor está à direita quase totalmente fora da imagem).

 

A casa conventual, como disse, em tudo era mesquinha e acanhada, e ainda que estava em sequência da sua igreja para o lado do norte, quase nenhuma ventilação tinha por essa parte pela razão já apontada. No centro dela tinha o claustro interno, quase nivelado com a praça de Santa Teresa [hoje Guilherme Gomes Fernandes], motivado pela desigualdade do terreno, e no meio havia um pequeno chafariz mas oitavado, que continha um menino abraçado em uma águia que brotava água, e tudo de granito grosso e muito mal trabalhado, e tanto que sendo esta peça inteira colocado no mercado público do Anjo, embirrou o povo com a péssima escultura da ave e do menino, e teve a Câmara Municipal de os substituir pela urna de pedra, que ali está no alto do mesmo chafariz, ficando só permanecendo nesta praça o tanque, o pé e a taça que foram pertenças deste convento.

 

Enfim em todo o edifício do mosteiro das Carmelitas descalças de S. José e Nossa Senhora não se vê riqueza, custo de obra, escolha de materiais ou outro qualquer sinal, que indique grandeza, antes pelo contrário se enxerga por toda a parte humildade e pouca despesa no fabrico dele (...)».

 

Sousa Reis tem umas curiosas palavras referentes à extinção do convento, a qual terá provavelmente acompanhado bem de perto, senão vejamos:

«Neste cenóbio viveram mais de cento e trinta anos entes da espécie humana, que apenas se sabia nele existiam pelos cânticos que periodicamente entoavam debaixo das abóbadas do templo santo em honra e louvor da divindade, porque nem mesmo dentro dele podia alguma vista divisar por entre as miúdas grades, a touca ou manto de uma só destas virtuosíssimas cantoras, tão estreita e apertada era a regra carmelitana (...)».

 

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i5 Parcial de uma planta do Arquivo Municipal do Porto, criada para o efeito de nela se demarcar o terreno necessário à edificação do nunca construído Mercado das Carmelitas.  As setas assinalam o complexo conventual (esq.) e abside da igreja (dir.).

 

E ainda antes das palavras lidas acima:

«Da vida doméstica destas religiosas, dos seus usos e costumes internos nada transpirava fora, e apenas na sua extinção, que foi visitada pelo povo aquela casa, é que se conheceu ser a extrema austeridade que presidia a tudo; as celas e mais oficinas eram sobremodo acanhadas e escuras notando-se mesmo que essa pouca luz lhe era transmitida por frestas voltadas para o claustro interno a tornavam opaca e tristonha, e por isso pouco saudáveis aquelas moradas, sendo além disso mui poucas e raras as janelas externas e essas mesmas seguras por fortes grades de ferro, ainda internamente foram vedadas as vistas e estorvado o ambiente com mui estreitas gelosias fixas nos seus umbrais, para em tudo e por tudo se aumentarem as privações destas poucas mulheres.

 

Havia junto a este convento uma pequena cerca murada com altas paredes, mas não obstante isso nenhuma religiosa lá ia, e quando o pequeníssimo número delas, que nele existiam na sua extinção foram divididas pelos outros mosteiros da cidade, notavam-se pelo seu ar bisonho, sombrio e melancólico, que todas tinham, e concentradas consigo mesmas tornavam-se escassas nas palavras e sempre indiferentes às companhias e sociabilidade, pois o constante hábito do isolamento tinha-lhes arreigado no coração estes tão particulares costumes, dos quais só se desviariam à força de muito estudo e prática, e ainda assim seria fácil divisar-lhes os indícios desses hábitos desde a mocidade contraídos.»

 

Após a saída das conventuais em 1832, logo no ano seguinte se estabeleceu no edifício a repartição do Correio que nele permaneceu até 1857. Ali esteve igualmente montada a secretária da comissão dos conventos extintos ou abandonados, entre outras repartições. A igreja, após albergar os móveis e alfaias de diversos conventos da cidade enquanto aguardavam a sua distribuição pelas diversas paróquias, acabou por ser arrendada para armazéns; dando origem aos conhecidos Armazéns da Capella. Finalmente em 1873 o município comprou ao Estado o convento e sua cerca por 48.000$000 rs, vindo a demoli-lo décadas mais tarde (ver mas aqui).

Um naufrágio no rio da Vila

por Nuno V. Cruz, em 01.01.19

O que abaixo se vai ler, mero episódio da vida de um anónimo, teve lugar no troço do rio da Vila que se encontra atualmente a ser musealizado e que possivelmente em 2019 abrirá ao público (sendo que na época a que reporta este pequeno acontecimento o 'rio' ainda não estava entubado). Como se trata de um registo puramente pessoal, poderão os meus caros leitores não pensar grande coisa dele. Contudo dado a realidade já extinta de que trata, creio que é interessante recupera-lo das páginas da centenária revista em que foi arquivada para as 'páginas' deste blogue.

 

*

«(...)

 

Fui vegetando por esta boa terra, até que, um dia, me domiciliaram numa casa da rua das Flores, que tinha quintal com porta para o Rio da Vila.

 

Chegou o mês de janeiro (fazia um frio dos demónios) e em todos os teatros havia bailes de máscaras animadíssimos, elogiados por toda a gente, onde, ao que eu ouvia dizer, se me afigurava que seria tal o encantamento, a voluptuosidade, que a tudo quanto era belo suplantaria! Não mais deixou de me assediar a ideia de me transportar àquele lugar delicioso. O baile de máscaras! O baile de máscaras!! Na minha imaginação, só ali se conglobavam todas as delícias!

 

De mais a mais, eu tinha visto, lá em casa uma coleção de fatos para máscaras, e, entre eles, uma farpela de zuavo... que estava mesmo a calhar cá para o rapaz!

 

A minha preocupação em achar o meio de realizar aquele ardente desejo, era inabalável.

 

Tinha já uns amigalhotes, tão bons como eu, e com três deles permutei impressões a respeito dos bailes. Como era de presumir, concordamos logo todos em que estudasse cada um o modo mais fácil de, num determinado sábado, irmos juntos gozar do tripudio carnavalesco.

 

Eu projetei, então, a minha saída pelo Rio da Vila, porque em vista da regra do recolhimento, não podia ser de outra maneira. Os meus sócios planearam a saída pela porta da rua, e numa última conferência que tivemos, combinamos que a reunião fosse na rua da Ponte Nova, onde eles iriam esperar que eu aparecesse, visto que a minha saída era a mais receada.

 

Chegou o almejado sábado, e eu só pensava na hora de poder ir para a minha alcova, e que toda a gente se deitasse, para eu por em prática o meu projeto.

 

Enfim, às nove horas da noite, já eu estava no meu quarto, já tinha apanhado o fato e só esperava a oportunidade de me por ao fresco.

 

Pouco depois, revia-me eu, cheio de bazófia, vestido de zuavo, com um enorme bigode, parecendo-me até que tudo em volta de mim era argelino.

 

Quando vi que era ocasião, desci ao quintal, e, num passo cadenciado, como cá imaginei que devia caminhar um destemido zuavo, segui, ovante, até à porta do Rio da Vila. Coragem de soldado...macanjo!

 

Ali apareceu logo um empecilho: foi o estafermo da porta que não abria nem pelo diabo; mas à força de empurrões com toda a gana, lá consegui uma greta, por onde, de esguelha, me escoei.

 

Eu já disse que esta cena se passava no mês de janeiro; portanto, o rio, naquela ocasião, corria caudaloso, pelos seus afluentes, de diversas espécies de líquidos, mais ou menos densos, com os seus sólidos à mistura.

 

Não obstante o volume líquido, estava eu muito persuadido de que o leito do rio seria facílimo de transpor, e, por isso, foi com toda a afoiteza - afoiteza de zuavo, e zuavo uniformizado! - que avancei uns passos em frente da porta de saída; mas, mal diria eu que bem triste, cruel e vergonhosamente seria logo reprimida a minha audácia.

 

Naquele fundo havia um acumulamento de limo, talvez coevo dos godos, e à superfície daquelas cachopos, estava aderente uma camada escorregadia sobre que se não podia firmar um pé.

 

Ao segundo ou terceiro passo que tentei dar dentro de água, sem que me fosse possível evita-lo, fui, de repente, precipitado naquele amálgama tenebroso, onde, ao querer encontrar um apoio que me sustivesse, só dava com substâncias massudas e viscosas, que ora se me escapavam, ora se me desfaziam nas mãos! Um horror!

 

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Nesta imagem do googlemaps assinalei a amarelo o trajeto (aproximado) do rio da Vila que o Sr. L. C. percorreu na sua agonia lodosa. Por curiosidade, na letra B e traço rosa represento uma viela que ia da rua da Ponte Nova ao rio da Vila, onde terminava abruptamente (ainda é visível do ar mas foi absorvida há muito pelos edifícios que repartia). Pela letra A e traçado azul a localização aproximada da extinta viela do Cadavai, cujo portal que lhe dava acesso ainda existe na rua Afonso Martins Alho.

 

 

À maneira que, em porfiada luta, eu esbracejava, para que a corrente me não arrastasse, mais repetidas vezes mergulhava e me sentia envolto em fragmentos de matérias consistentes, esquisitamente moldadas, que se remexiam comigo, em todos os sentidos, sem que, por modo nenhum, eu pudesse resistir à impetuosidade daquela enxurrada!

 

Que tremendo desastre!

 

Aquilo é que foi ver-me entre as dez e as onze, porque, precisamente a essa hora é que eu sofria esse suplício!

 

Ora calculem, se podem, a minha crítica situação: retrogradar não era possível, porque já estava muito afastado do ponto de partida, e mesmo a força da corrente não deixava; gritar por socorro, isso nem pensa-lo, porque era, a meu ver, a maior desgraça!...

 

Enfim, fui-me esforçando quanto pude, fui galgando aqueles cachopos, fui evitando, o mais possível, a passagem pelas guelas... daquilo, líquido ou sólido (e sempre passou qualquer coisa) e assim me aguentei - que remédio! - até ver... eu sabia lá o quê!

 

Mas, oh fatalidade! O caso, de repente, tornou-se ainda muito mais tétrico! Sucedeu que, no meu barafustar, me fui aproximando tanto de um açude, que eu não sabia existir ali, que repentinamente, faltando-me os pés, faltando-me as mãos, e não sei se mais alguma coisa, senti-me ir, de escantilhão, por um declive, que parecia arremessar comigo prás profundas do inferno!

 

Então, sim! Então houve um minuto em que me vi seriamente atrapalhado!...

 

Quando parou aquele diabólico movimento rolante do meu corpo, achava-me lá em baixo, nos Aloques da Biquinha!...

 

Não sei nada do que se passou, durante aqueles momentos em que rebolei; sei só que, quando cheguei aos Aloques, o vistoso gorro, e o façanhudo bigode, que me completavam o garboso donaire de zuavo, tinham ido pela água abaixo - naufragaram!

 

Ali, porém, já me considerava liberto de perigo, em sítio propício a uma imediata retirada; portanto, procurei ver algum ponto por onde pudesse sair daquele atascadeiro, e - oh! maravilha! - eis que lobriguei, sobre as alpondras da margem direita, os três meus associados, atónitos e em atitude protetiva.

 

Que alegrão! Que suprema ventura para este pobre naufrago!

 

Rapidamente se me improvisaram socorros, e pouco depois, saltava eu para junto dos meus colegas, carecente de lhes ouvir palavras de conforto, pelas torturas que eu tinha passado, e de que lhes ia fazer exata narrativa.

 

Aqueles manganões, porém, vendo o estado lastimoso em que eu me apresentava, de braços pendidos, tudo pendido, tudo encharcado, tudo a tresandar, - largaram a rir, a rir, sem me dirigirem uma única frase consoladora, e sem, ao menos, quererem chegar-se a mim!... Que bárbaros!

(...)

Por fim, lá se fartaram de rir à custa da minha desgraça, e eu pude relatar-lhe todas as fases da crise aflitiva por que passei.

 

Comoveram-se, e, então, resolvemos empregar todos os esforços para eu regressar a casa. Assim, depois de apreciados diferentes alvitres, assentou-se em que fossemos pelo túnel do lado da rua do Souto, observar se seria possível passar pelo fundo dos quintais das casas da viela do Anjo, na margem esquerda do Rio da Vila, até ao ponto fronteiro à porta da casa onde eu tinha de regressar, a ver se lá poderia atravessar o rio.

 

Subimos, pois, umas escadas que iam ter à rua da Ponte Nova, seguimos pela viela do Anjo, voltamos à rua do Souto e lá entramos no túnel.

 

Eu, cada vez mais tiritante, com a farpela empastada e grudada á pele, lá seguia os outros, cabisbaixo e acabrunhadíssimo!

 

O baile, esse já nem passava pela ideia: má hora em que eu tive tão infortunada lembrança!

 

Chegamos aos quintais da viela do Anjo, e, por uma felicidade enorme, podemos atravessa-los, pela beirinha do rio, até defronte da porta, por onde eu tinha saído como um altivo zuavo, e pretendia depois entrar como... um indecente pingão.

 

Uma vez ali, não havia tempo a perder: era preciso completar a obra.

 

Efetivamente, depois de tomadas umas ligeiras precauções, e de eu recuperar ânimo, até onde pode ser, fiz uma atrapalhada investida...

 

Recuei, tomei fôlego... tornei a investir, formei um salto, tornei a recuar... - mas por fim, empertigado, todo arrogante - zás! - dei um pulo, com todo o meu arreganho e... fui cair, de cócoras, próximo da porta.

 

Ali, engatinhei um bocado, enfureci-me, esperneei com todo o meu vigor e intrapidez de que podia dispor em tão difícil conjetura, e... finalmente estava salvo!

 

Alcancei a soleira da porta, voltei-me, de lá, para os companheiros, enviei-lhes um punhado de saudações, e fui encerrar-me no dormitório de onde não devia ter saído.

 

Deixo, agora, cá só para mim, o que se passou a respeito da farpela de zuavo, que foi preciso desaparecer, como sucedeu ao gorro e ao bigode.

 

Ora, creio ficar bem demonstrado, que foi retumbante aquele meu batismo na rapioca; mas saiba-se também que, por falta de vocação, não correspondi às atrações. É verdade que, depois de saber da facilidade com que podia sair do túnel, por lá passei muitas vezes, mas... com certo recato, quando o rio levava pouca água e... sem vestuário de máscara.

(...)

C.L.»

*

de O tripeiro (ano 3, p. 50-51)

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Publicado originalmente no blogspot em 29.01.2017