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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Dois apontamentos para a história da ponte D. Maria II (ponte pênsil)

28
Abr19

Duas transcrições que possuo nas minhas imensas e já anárquicas notas sobre a história da cidade, abrem-nos mais uma preciosa janela para o Porto oitocentista. O primeiro refere-se a uma petição (requerimento, para ser mais exato) de um grupo de cidadãos ribeirinhos sobre as obras na ponte pênsil, cuja resposta, que transcrevo. Foi lavrada por Joaquim da Costa Lima Júnior, e deparei-me com ela ao folhear os preciosos volumes do Arquivo Municipal do Porto. Está datada de 26.02.1842, ou seja, quando a ponte estava em construção (iniciada em abril do ano anterior). Vejamos então, qual a resposta às preocupações relacionadas com os acessos à ponte do lado dos Guindais do Porto:[1]

 

*

«Não podendo dar uma resposta exata ao requerimento dos habitantes da Ribeira, sem que eu mesmo recolhesse as precisas ideias à face do projeto que se tenta levar à execução na obra da ponte de ferro, procurei obter a planta respetiva da qual tirei as deduções seguintes:

 

1.ª) o cais atual fica tanto ao nível como quase em largura no mesmo estado em que se acha, por que a rampa que se projeta para subir à ponte, é quase toda por fora do cais atual, e sobre o espaço que pretendem avançar sobre o rio;

2.ª) por baixo desta nova rampa projetam rasgar arcadas com o fim de evacuarem sobre o rio as águas que ali se juntariam no cais atual;

3.ª) pretendem mudar a atual escada de desembarque para o sítio da Ponte das Barcas, e avança-la bastante sobre o rio com o fim de nos ângulos reentrantes da mesma escada conseguissem a mesma enseada para abrigo, e descarga dos barcos;

4.ª) o cais atual continua a ter a mesma continuação em seguida (mas por baixo da ponte) com o cais que fica além da ponte de ferro, por que a nova rampa tem de dar entrada à ponte pela parte de fora dos obeliscos, segundo esta forma de projeto as propriedades da ribeira apesar de não ficarem cortadas e inteiramente cegas nos seus andares térreos, sempre ficam abafadas, e sombrias com o obstáculo fronteiro da rampa mais elevada e o cais atual apesar dos esgotos que intentam praticar-lhe sobre o rio será mais sujeito em demorar em si as lamas e as imundices. Quanto à transferência da escada atual para o sítio da Ponte das Barcas eu creio que ele não satisfará à descarga por não quebrar suficientemente a veia da corrente como no estado atual, se bem que neste mesmo estado atual o remanso que ali existe é mais devido as barcas da ponte que quebram à força a água, obrigando-a a refletir, do que à configuração do cais. - estes inconvenientes nascem todavia do projeto principal, isto é, de uma ponte de ferro colocada naquele local, naquela elevação, e submetida ao resto das circunstâncias aparentemente insuperáveis que o mesmo projeto tem a combater.»

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Como vemos, embora não se conheça o teor do requerimento podemos ainda assim destas notas tirar algumas reflexões sobre o que preocupava os habitantes da Ribeira quando viam na sua secular localidade que até àquela época não fora ainda "obstruída" por semelhante objeto como é uma ponte, nascer esta estrutura que com uma natural preocupação viam como um possível escolho na relação entre as pessoas e as ruas, cais e acessos da cidade onde viviam e trabalhavam... É sabido que o local escolhido para a ponte foi controverso e ainda fez correr alguma tinta nos jornais da época. Sem dúvida ele foi alvo de ponderação e quer o facto de ali a ponte não obstruir o porto, ser mais fácil a ligação à estrada para Lisboa (englobada no plano) e garantir a sua acessibilidade durante as cheias; levou os engenheiros e a empresa a colocarem de lado a hipótese de a construir no prolongamento da rua de S. João, como muitas vozes desejavam.

 

104.jpg

parcial de uma gravura antiga que nos mostra a rampa de acesso à ponte, a passagem pedonal que dava acesso direto a Cima do Muro e às escadas do Codeçal

 

No segundo apontamento transcrevo um excerto do contrato para a construção da Ponte D. Maria II - vulgo Ponte Pênsil - onde igualmente se lê alguns informes importantes e interessantes sobre este monumento, há muito desaparecido da moldura citadina. A ponte, corolário da estrada Lisboa-Porto, foi adjudicada à empresa de João Francisco Maria Armand Declaranges Lucotte, responsável pela construção da estrada referida. O contrato foi firmado em 14 de maio de 1840.[2]

 

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«(…) que ele Declaranges Lucotte como Diretor da Empresa, a que é concedida a edificação, e fruição da portagem da ponte pênsil sobre o rio Douro em frente da cidade do Porto, por si, e pela empresa que dirige se obriga às condições seguintes:

 

1.ª = Ao preenchimento de todas as cláusulas e condições que relativamente à ponte sobre o rio Douro em frente da cidade do Porto, se acham expressas na dita Carta de Lei de sete de abril de mil oitocentos trinta e sete (...);

 

2.ª = A colocar a ponte entre os dois morros denominados os Guindais, e o Laranjo, segundo a linha C D, traçada da planta, que no ato de celebração desta escritura fica assinada pelo dito Inspetor Geral Interino das Obras Públicas do Reino, pelo sobredito Declaranges Lucotte, e por mim tabelião para ser depositada no arquivo da Inspeção das Obras Públicas do Reino, em um traslado da presente Escritura;

 

3.ª = A construir a ponte de um só lanço sendo a elevação da parte inferior de seu pavimento pelo menos dez palmos acima do nível das águas do rio, na grande cheia de mil oito centos e vinte e três;

 

4.ª = A dar à ponte a largura precisa para a passagem simultânea de duas carruagens, e dois passeios laterais para pessoas a pé;

 

5.ª A ponte depois de construida será submetida às provas exigidas pela Carta de Lei de sete de Abril de mil oitocentos trinta e sete, com assistência do Inspetor Geral das Obras Públicas do Reino, ou de seu delegado expresso para esse fim, e de duas pessoas eleitas pelas câmaras da cidade do Porto, e Vila Nova de Gaia. E do que nas provas se passar, se lavrará termo por todos assinado, de que se tirarão os traslados precisos para serem depositados no arquivo de cada uma das câmaras mencionadas, no da Inspeção das Obras Públicas do Reino, e para ser um entregue ao Diretor da Empresa. A mesma formalidade se repetirá em cada uma das provas a que a ponte deve ser submetida em observância da supra citada Carta de Lei de sete de abril de mil oitocentos trinta e sete;

 

6.ª = A praticar a empresa e às sua custa as avenidas da ponte, que constarão na parte do norte, ou margem direita do Rio, de uma rampa ao menos igual à ponte em largura, calçada de granito, e com uma guarda da parte do rio, que formará um plano inclinado desde a entrada = D = da ponte, até à altura do ponto = A = atual entrada da Ponte de Barcas, e da parte do sul, ou margem esquerda do rio constará de uma rampa igual, e semelhante à primeira dirigida de = C = no sentido da linha = CB = marcada com aspas de carmim na planta supra citada. A praticar do mesmo modo à sua custa uma passagem suficiente para que os carros possam seguir [pela] margem do rio acima além do ponto = D = e para que os mesmos carros possam abordar comodamente à ponte, vindo pelo caminho = AB = que torneia o morro da Serra do Pilar;

 

7.ª = As expropriações dos terrenos, e propriedades necessárias para as supra ditas construções serão efetuadas na forma da Lei, se os respetivos proprietários de seu moto próprio, e livre vontade não cederem delas, segundo as suas legais avaliações;

 

8.ª = A empresa satisfará aos proprietários o valor das ditas expropriações por sua própria conta, seja qual for a sua importância, restando-lhe unicamente o direito de receber do Governo de Sua Majestade Fidelíssima a quantia de dez contos de reis pagáveis logo que a ponte estiver aberta ao trânsito, e pela forma designada em uma das seguintes condições;

 

9.ª = A empresa obriga-se a ter concluída, e pronta para ser aberta ao trânsito a ponte pênsil sobre o Douro, e as avenidas correspondentes no prazo de dois anos contados da assinatura do presente contrato, e não o fazendo assim perderá tantos anos de direito da receção de portagem quantos foram os meses que excederam o prazo marcado para a prontificação completa da obra. (…) »

*

 

De facto mais do que dois anos se passaram entre o contrato e a finalização da ponte; terá a empresa sido penalizada por tal? Certo é que a ponte só foi concluída no final de 1842, sendo aberta ao público, abruptamente, em 17 de fevereiro de 1843. Fez, até ao ano de 1887, parte integrante da paisagem da cidade e dela felizmente para além da memória fotográfica resta-nos igualmente a memória viva dos seus pilares da margem direita.

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1 - Conheço apenas referências contemporâneas ao microtopónimo Guindais do lado portuense, contudo, já por diversas vezes encontrei, em jornais da primeira metade do século XIX, a expressão Guindais de Gaia.

2 - Segundo a transcrição no Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, de junho de 1938 ( pp.243 e segs. )