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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O triste fim da corveta 'Estefânia'

17
Set19

Esta publicação é o resultado de pegar num volume d' O tripeiro ao acaso e nele procurar um artigo interessante para ler (o que não demorou muito...); dando esse mesmo artigo o mote. Trata-se com efeito das memórias de um portuense que serviu na corveta Estefânia quando esta se encontrava ancorada em Massarelos desempenhando funções de navio escola da Intendência da Marinha. Para o blogue chamo apenas as passagens que mais diretamente dizem respeito aquela embarcação.

 

*

«Construída num tempo em que a arquitetura naval portuguesa ainda tinha fama, feita com magníficas madeiras da nossa Índia, nunca as suas formas inspiraram confiança aos engenheiros e aos oficiais que a comandaram, e só moderadamente foi empregada no serviço do mar largo. O seu porte majestoso ainda fez com que fosse escolhida para ir em 1867 ao Egito representar o país nas celebres e deslumbrantes festas da inauguração do Canal de Suez, mas, apesar de comandada pelo grande Baptista de Andrade, mais tarde almirante e chefe da casa militar de El-Rei, desarvorou na viagem de ida, regressando a Lisboa sem ter cumprido a missão que teria sido a última do seu serviço ativo.

 

 

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a corveta Sagres no Bicalho por altura das comemorações henriquinas de 1894. Foi o primeiro navio a usar este nome e o único que o teve desde o início (o atual Sagres é o terceiro, sendo um ex-navio escola alemão do período nazi).

 

 

Seguiram-se perto de trinta anos de serviços sedentários e sem brilho, até que, por exclusão de partes, foi rebocada para o rio Douro onde devia substituir a velha Sagres no serviço de escola de alunos marinheiros.

 

 

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embora identificada como sendo a Estefânia, esta foto representa, a meu ver, a corveta Sagres ancorada, tal como na foto anterior, junto ao Bicalho

 

 

Aliviaram-na de todo o material inútil, substituíram-lhe o seu imponente arvoredo por uma mastreação reduzida, transformando assim o seu antigo aspeto no de um navio exageradamente bojudo e alteroso, encimado por um aparelho ético; nesta atitude cumpriu os dez últimos anos da sua vida, que foram os únicos de serviço verdadeiramente interessante. Só dez, porque, sempre infeliz, morreu de morte violenta, vítima da maior hecatombe que as águas do Douro presenciaram, não podendo aguentar com o peso excessivo dos navio que a vieram abalroar.

 

Foi já na sua amarração do rio Douro que o navio sofreu a primeira adaptação ao novo serviço que ia desempenhar e, como na forma do costume era muito escasso o dinheiro destinado a esta obra, o seu fogoso e parlamentar comandante de então (...) a primeira medida urgente que tomou foi vender a simpática Sagres. Os compradores, porém, não abundavam, e o único que se apresentou a comprar o navio, para o desmanchar e vender-lhe as madeiras, levou-o por um preço ridículo. Pouco depois, a Estefánia teve necessidade de alguma madeira para os trabalhos em curso e, como não havia no mercado a qualidade precisa, o remédio foi comprar aquilo que se tinha vendido, oferecendo, é claro, ao freguês, uma segunda pechincha. Mas estas obras foram muito sumárias e, como no tempo das naus havia compartimentos separados uns dos outros por divisórias de lona, a câmara do comandante era separada do seu camarote apenas por um pobre reposteiro.»

 

 

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a corveta Estefânia em Massarelos

 

 

Eis a forma como o autor nos descreve os últimos momentos deste navio:

 

«A nossa corveta que, como disse, tinha sido amarrada no Douro de forma a desafiar as maiores cheias, não pode resistir à sua má sorte. A cheia daquele ano [1909] foi a maior de quantas se têm visto, mas já o rio estava completamente limpo de embarcações e de navios que o ímpeto da corrente tinha arrastado, e ainda a Estefânia se aguentava no seu lugar por forma a deixar tranquilos aqueles que a guarneciam. Mas, no fim, quando o último vapor, partidas todas as amarras, ia pela água abaixo, procurando ainda resistir e endireitar-se manobrando com as suas máquinas, não o conseguiu e veio a toda a força lançar-se sobre a amarra principal da corveta, que imediatamente partiu. Depois já não havia acudir-lhe; os cabos da proa rebentaram um por um, o navio virou, começou a portar pelos cabos da popa, os quais foram sucessivamente estalando, e o navio, então, agarrado pela água, meteu ao eixo da corrente e seguiu rio abaixo. Como medida de prudência, a guarnição já tinha desembarcado e ainda se tentaram alguns esforços para o salvar, que nada deram. Os oficiais, embora sabendo que nada havia a tentar, foram, como a prolongar o adeus, acompanhando a pé ao longo da margem, esta marcha do abismo para o abismo. Um pouco depois da Cantareira, encalhou ele, fazendo nascer esperanças; mas estas duraram apenas segundos, findos os quais o navio seguiu para aquela temerosa embocadura que em dias de cheia e mau tempo é tão fantasticamente revolta que parece ocultar no seu seio alguma luta de monstros apocalíticos. E, efetivamente, ali se trava a luta monstruosa e titânica dos dois Hércules de fábula que são a corrente fenomenal, volumosa, rápida, horrível do rio engrossando precipitando-se sobre o mar, e a vaga alterosa do largo que, rugindo, é impelida pela fúria de um vento doido, avançando denodadamente a barrar-lhe a passagem. Mas o navio tudo transpôs serenamente.

 

Depois, veio a noite, que tudo tragou; e no dia seguinte, os primeiros alvores da manhã desvendaram à ansiedade de quem esperava, uma praia coberta pelos destroços de um grande navio de madeira. Tinha morrido a nossa Estefânia.

 

Esta magnífica madeira que o mar arrojou à praia, serviu depois para fazer os móveis que guarneceram a Escola quando definitivamente instalada em terra; e no fim, já depois de terem acabado estes serviços, ainda ali havia uma boa reserva dessas magníficas vigas. Era então segundo comandante um oficial extremamente económico, o qual em tudo poupava, até mesmo na lenha que os cozinheiros requisitavam para o seu mister, de forma que se veio mais tarde a saber que fora queimando magnífica madeira de teca, restos da corveta, que durante algum tempo se cozinhou o rancho dos marujos.

 

Assim como na Escritura se diz dos homens, em cinza se tornou aquele navio que tivera o nome da mais pura e amante das mulheres, por madrinha a mais excelsa rainha.»

*

 

 

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destroços (alegadamente) da corveta Estefânia na praia dos Ingleses

 

 

E assim temos um relato, quase em primeira mão, de como se perdeu aquela corveta. Resta dizer que o autor das linhas que lemos acima foi Óscar de Carvalho, e convidar leitor interessado a ler o texto integral publicado naquela revista em 1952, onde poderá colher mais preciosas informações, aliás bastante interessantes, relacionadas com a escola e as restantes repartições da Intendência da Marinha.

 

À história desta corveta acrescento uma passagem do livro de Oliveira Martins Portugal Contemporâneo, que não teve lugar no Porto mas nos remate em cheio para o romantismo de meados do século XIX, sobre os últimos momentos do rei D. Pedro V que partiu escassos dois anos depois da sua amada rainha, corria o sombrio mês de novembro de 1861: «Já no leito ardia com febre delirante. Em frente do palácio, fundeada no rio, a corveta Estefânia de espaço a espaço soltava um tiro - como o bater do relógio lúgubre da morte. E esses tiros ouvia-os o rei, chamavam-no, excitavam-no, davam-lhe os desejos de acabar por uma vez com a vida miserável, para ir abraçar no céu a Beatriz do seu delírio. Se a voz dos anjos pudesse ser o troar dos canhões, não era ela que o chamava? Talvez; porque os tiros chegavam à câmara do rei, já brandos, como um eco, um murmúrio, e vinham do navio que tivera o nome dela - Estefânia!»

 

 

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Estefânia pintada de branco (seria esta a sua cor original?)

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