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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O palacete da Torre da Marca

02
Fev20

Caros leitores, hoje trago-vos mais um texto que creio ser inédito, sobre um dos diversos palacetes que existem (e mais existiam) espalhados pela atual cidade, e digo atual uma vez que vários deles se situavam fora dela aquando da sua construção. Trata-se de mais um excerto recuperado do 5º volume dos Apontamentos... de Henrique Duarte e Sousa Reis, que se mantêm inédito nos cofres da Biblioteca Pública Municipal do Porto, acessível a todos que tiverem o gosto de o procurar.

 

Este edifício está hoje entregue ao Centro de Cultura Católica e no seu próprio site é possível ler um breve mas profundo estudo sobre este palacete e a torre que por trás dele se encontra (AQUI). Tal como quase todos os outros, o edifício está hoje completamente estrangulado pela malha urbana da cidade moderna, que lhe retirou a maior parte da sua zona verde. Ficou-nos a casa e parte do seu quintal, e é claro, a famosa torre medieval!

 

Mas vamos ao texto, que deverá ter sido escrito no final da década de sessenta do século XIX:

 

«Palacete dos Condes de Terena, também conhecido até curta época pela denominação de Palácio da Torre da Marca

 

Quando o Palácio Real tinha o nome dos Carrancas, falando-se em Palácio da Torre da Marca sabia-se, que era o dos Condes de Terena, hoje que àquele se denomina da Torre da Marca, recebeu este a designação dos Condes seus possuidores.

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o palacete nos meados do século XX (fonte: AMP)

 

Mui antiga é a nobilíssima família dos Brandões da Torre da Marca, e muito conhecida em todo o reino, com especialidade nesta cidade do Porto, aonde membros distintos dela tem exercido dignamente altos cargos públicos, tendo-se tornado ainda entre nós mais notáveis na estima pela superioridade das qualidades que em herança, parece, orçam os descendentes desta nobre família. É necessário não os conhecer para não os estimar.

 

Sem que faça ofensa a algum dos fidalgos da Casa da Torre da Marca, a bondade e bizarria natural do Conde de Terena (José) segundo deste título, foram sempre tão conhecidas e apreciadas pelos portuenses, que em qualquer parte aonde aparecia José Maria Brandão todos o acatavam, e no seu falecimento a cidade senti-o como devia sentir a falta de um seu estimadíssimo habitante.

 

A arquitetura deste Palacete denota que foi construído no século 18º, pois nela se divisão os sinais do gosto que já declinava para o modernismo. É certo que alguma parte do antigo edifício se aproveitou na nova construção, e consta que a torre, que sobressai pelo lado do nascente do palacete e ainda é de estilo de remotas eras, fora na reedificação transferida para local mais remoto da frontaria[1]: contudo conservou-se-lhe a forma, e por isso as claras provas da sua velhice, a qual sem dúvida havia de condizer com a do interior da habitação. Externamente por todas as faces do palacete são visíveis os melhoramentos, à exceção da mencionada torre que dá muito merecimento àquela propriedade, assente numa elevação ainda coadjuvada, para ter excelentes vistas, pela altura superior da mesma torre, que bem longe denuncia a sua situação.

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o palacete visto dos jardins do palácio de cristal (século XIX)

 

Internamente tem o palacete espaçosas salas e outros cómodos para numerosa família, e também para serem nela recebidos personagens de altas categorias, e não são poucas as que ali se hospedam honrosamente, pois o Conde falecido era em toda a extensão da palavra um bizarro cavalheiro.

 

Entre todos os hóspedes, lembrar-se só, o Duque da Terceira, o General feliz e invicto das campanhas da liberdade[2]. Corria o ano de 1846 e o povo do Minho havia-se revolucionado, tomando incremento essas ideias por diversas partes do reino: o duque era então o Ministro da Guerra e foi decidido em Conselho de Estado que ele a quem os portugueses tanto deviam viesse ao Porto a qualidade de Lugar Tenente da rainha D. Maria 2ª, a fim de por um termo ao movimento irrefletido do povo. A brandura de que usou o delegado da soberana não foi apreciada pelos exaltados, e o comandante dos corpos militares da guarnição desprezaram as suas ordens, nestes termos os chefes de partido acharam-se livres de qualquer embaraço e à viva força se apoderam do referido Lugar Tenente, que só por milagre escapou à morte, com que foi ameaçado. Preso foi conduzido ao Castelo de S. João da Foz do Douro, aonde sem respeito aos seus serviços ou à sua pessoa sofreu muitos desgostos, e não poucos riscos de vida. Deste presídio incomunicável foi removido para as cadeias da Relação, de onde só saiu livre quando o exército espanhol entrou nesta cidade para derribar uma revolução, cujo curso horrorizava aqueles que meditavam no futuro; seus chefes já temiam os fins de tal construção política que no princípio teve só em vista obrigar um ministério a demitir-se do governo depois tentava contra a dinastia.

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o duque da Terceira, António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, que José da Silva Passos aprisionou no castelo da Foz (salvando-o de um possível linchamento) : ilustre hóspede deste palácio onde se encontravam igualmente os generais afetos à rainha quando chegaram ao Porto para conter a eminente revolução

 

Anexo ao palacete há um sofrível terreno cultivado, inferior ao pavimento do jardim que para tornar mais agradável a residência ali fica ao nível do andar nobre pela parte do poente: é ornado com as galas que a natureza nos dá para embeleza-lo e com taças e repuxos, cujas águas reluzem como fios de prata dando-lhe o sua[3] na sua descida para o ocidente, quando elas caiem nesses redondos depósitos aonde vivem em constante[s] movimentos centenares de peixinhos.

 

Fronteiro como ficou ao palácio de Cristal, ganhou muitíssimo este palacete, apesar de antes já possuir um sofrível largo bastante desafrontado, o qual recebeu maiores proporções dando à família dos Brandões a encantadora vista dos jardins e jogos de água pertencentes ao palácio industrial, nos quais se alimentam sempre verdes entre a relva as boninas e arbustos com que acham guarnecidos.

 

O último senhor deste palacete foi Luís Brandão de Melo 3º conde e 2º marquês de Terena, de quem sua filha única casou com o marquês de Monfalim, ficando herdeira de valiosas propriedades sitas em diferentes pontos deste reino e principalmente no Minho. As alianças que alguns dos descendentes desta família tem feito com as famílias da primeira nobreza de Portugal, acrescentaram ainda mais a consideração que já tinha».

 

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1 - não creio que a torre tenha sofrido trasladação. Mais acredito que o edifício do século XVIII se tenha adaptado à sua preexistência.

2 - A segunda guerra civil do século XIX, que passou à história com o nome de Patuleia.

3 - Sic. Creio que o autor queria escrever sol.